Rumo ao interior: médicos, saúde da família e mercado de trabalho
Conclusão
O problema da má distribuição de médicos, no Brasil e no exterior,
não é um fenômeno cíclico. Diagnósticos, em todo o mundo, acerca da má distribuição, são antigos e permanentes, e cada país tem
tentado minimizar o problema de acordo com sua realidade política,
econômica e social.
Na América Latina, a principal estratégia que vem sendo tentada
é o serviço civil, em contraste com países como Austrália, Estados
Unidos e Tailândia, dentre outros, que têm preferido adotar políticas
mais abrangentes, como as que são neste livro defendidas.
A compreensão de que estratégias pontuais de interiorização,
como os programas que têm sido tentados no Brasil, não são
eficazes para enfrentar a má distribuição de médicos e a fixação
desses profissionais, leva à recomendação de que o enfrentamento
do problema integre a agenda do Estado e seja tratado no âmbito
dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, como parte do plano
de desenvolvimento econômico e social do país.
No âmbito específico da política de saúde, está clara a pertinência
e o potencial de mudança da recém-aprovada Política Nacional de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, que consolida
estratégias destinadas à desprecarização do trabalho, às mesas de
negociação e ao plano de carreiras único do SUS, dentre outros
aspectos relevantes. A construção coletiva que levou à sua
formulação e aprovação deve ser incentivada e mantida para
garantir sua implantação. Isso significa entender como indispensável
a articulação política e técnica entre as esferas federal, estadual,
municipal, as instâncias de controle social, as instituições de ensino e pesquisa e as entidades de classe. Como já referido, a
implantação dessa política poderá funcionar como um verdadeiro
‘divisor de águas’ no encaminhamento dos principais problemas
hoje existentes na gestão do trabalho e da educação para o SUS, e,
por conseqüência, no enfrentamento da má distribuição de
profissionais de saúde.
Defende-se que o plano de carreiras do SUS seja nacional, mas
com ingresso por concurso público na instância municipal, com
incentivos para os profissionais que se propuserem a atuar em
localidades desprivilegiadas (como faixas salariais compensatórias e ascenção funcional diferenciada).
Entendendo que nenhuma política que pretenda melhorar a
distribuição de profissionais de saúde e ampliar sua fixação nessas
localidades poderá ser bem-sucedida se os gestores municipais não
forem capacitados para o exercício de suas funções, propõe-se que
os governos federal e estaduais invistam no aperfeiçoamento da
capacidade gestora desses municípios, de forma a ampliar sua
habilidade políticoadministrativa, performance de gasto e o aporte de recursos para o desempenho de suas funções, com
fortalecimento do controle social.
Como o problema da má distribuição de médicos não se restringe
ao aspecto quantitativo, destaca-se a necessidade de mudanças na
formação desses profissionais, que permitam sua inserção plena e
eficaz na estratégia de saúde da família como parte da atenção
básica.
O que aqui se defende é a formação do médico de família como
resultado do próprio curso de graduação e não a criação de uma
nova especialidade médica. Para isso, é alvissareira a implantação
do Promed e das novas diretrizes curriculares, que representam,
efetivamente, a possibilidade de que o curso de medicina assegure
terminalidade para a formação do profissional médico. Isso significa
formar médicos, que, ao término do curso, estejam aptos para
ingressar no mercado de trabalho de saúde da família, e que, pela
competência adquirida na graduação, sejam prestigiados e respeitados pela corporação e por todos os demais segmentos da
sociedade.
Essa formação, no entanto, precisa estar mais bem distribuída
espacialmente no território nacional. Isso não significa defender uma
visão expansionista de formação de médicos, mas, ao contrário,
visa a estimular a reflexão acerca da reversão dessa tendência, em
favor de políticas que: 1) reorientem a criação de escolas médicas
num sentido que favoreça a distribuição geográfica e a fixação desses profissionais em localidades de menor porte; 2) estabeleçam processos seletivos que incentivem o ingresso de estudantes rurais;
3) criem oportunidades de educação continuada e atualização
profissional em localidades próximas a essas áreas.
Entende-se que os diversos fatores que interferem no movimento
migratório dos médicos pode ser enfrentado mediante políticas que
contemplem a garantia de educação continuada, remuneração
compensatória, sistema de referência e contra-referência e
manutenção de uma rede de comunicação e de troca permanente
de experiências.
Por fim, para a implantação de qualquer política e estratégia que
pretenda enfrentar o problema da má distribuição e fixação de
médicos em nosso país, é necessário auscultar, cada vez mais, os profissionais de saúde, a população, os gestores, as instituições de
ensino e pesquisa e as entidades de classe. A finalidade é
identificar, segundo a percepção desses atores, os nós críticos e
recomendações para que as estratégias de intervenção
governamental possam apresentar maior eficácia e adesão.