Rumo ao interior: médicos, saúde da família e mercado de trabalho
2 - A experiência brasileira de estímulo à fixação de médicos no interior
2 - A experiência brasileira de
estímulo à fixação de médicos
no interior
Neste capítulo são descritas as intervenções que o Brasil adotou
para fazer frente ao problema da má distribuição de médicos e outros profissionais no território nacional. A descrição dessas
experiências tem caráter ilustrativo, com a finalidade de conhecer
que tipo de estratégias já foram empregadas em nosso país. Tais
intervenções, iniciadas na década de 1960, foram estruturadas sob
a forma de programas governamentais. Foram quatro os programas
que incluíram a interiorização de profissionais dentre suas metas: o
Projeto Rondon, o Programa de Interiorização das Ações de Saúde
e Saneamento (Piass), o Programa de Interiorização do Sistema Único de Saúde (Pisus) e o Programa de Interiorização do Trabalho
em Saúde (Pits).
Antes, porém, de apresentar essas experiências, é fundamental
contextualizar como o problema da má distribuição foi sendo tratado
no debate político e acadêmico, a fim de compreender os
referenciais que nortearam a atuação governamental perante o
problema e a criação desses programas como estratégias de
intervenção.
As intervenções governamentais são fruto de um processo de
formulação de políticas, que se inicia com a definição da agenda.
Como os recursos públicos são escassos para atender a todas as
necessidades, são alocados segundo princípios muito variados.
Mas, em geral, é possível afirmar que a primeira decisão refere-se a
como alocá-los entre os diferentes âmbitos da ação pública; em
seguida, entre setores sociais, como saúde, educação e outros, e,
finalmente, entre programas de uma determinada área (Cohen & Franco, 2004).
Planos, programas e projetos compõem, portanto, o conjunto de
estratégias da atuação governamental e expressam as políticas
adotadas pelo Estado para fazer frente às necessidades sociais. Os
três são assim definidos por Cohen e Franco (2004: 86 – grifos dos autores):
Um projeto é um empreendimento planejado que consiste num conjunto
de atividades inter-relacionadas e coordenadas para alcançar objetivos
específicos (…).
Um programa é um conjunto de projetos que perseguem os mesmos
objetivos. Estabelece as prioridades de intervenção, identifica e ordena os
projetos, define o âmbito institucional e aloca os recursos a serem
utilizados. (…)
Um plano é a soma de programas que procuram objetivos comuns,
ordena os objetivos gerais e os desagrega em objetivos específicos, que
constituirão por sua vez os objetivos gerais dos programas. Determina o
modelo de alocação de recursos resultantes da decisão política. (…)
Mesmo quando o plano esteja ausente, sempre existirão os outros dois
elos da cadeia [programas e projetos].
No caso do setor saúde, não há dúvida de que o Estado é uma
das principais – senão a principal – fontes normativas do trabalho
médico, por seu papel de agente racionalizador e modernizador. O
Estado não apenas incrementa o setor saúde, por meio da alocação
de recursos, como orienta as definições básicas dos lugares
destinados à assistência médica, das atividades que determinam o
caráter do trabalho médico e dos marcos institucionais que regem a prestação dos serviços médicos.
A intervenção do Estado na prestação de atenção à saúde tem
dois principais tipos de efeito no mercado de trabalho para o
médico. Um é de ordem quantitativa e se refere ao aumento ou
diminuição da demanda por este profissional. O outro tem uma
dimensão qualitativa e está ligado às modalidades de organização
da atenção médica nos setores público e privado (Donnangelo,
1975).
Quanto maior o lugar que o Estado ocupa na prestação direta dos
serviços de saúde, mais acentuados serão os efeitos, que vão
desde a repercussão sobre os próprios paradigmas que regem a formação e a prática médica até a redução na autonomia
profissional, ao transformar o médico em empregado assalariado.
A forma como o Estado brasileiro tem lidado com essas questões,
no que se refere ao problema da má distribuição de médicos no país, têm oscilado entre intervenções ora focadas na extensão
universitária, ora na oferta de incentivos e benefícios para os
profissionais que se disponham a atuar nas áreas mais carentes e
remotas do país. Nenhuma dessas formas, no entanto, minimizou
efetivamente a má distribuição de médicos, ao longo da trajetória de
reformas e transformações da política de saúde.
Essas mudanças na política de saúde foram geradas, como
ressalta Pierantoni (2000: 34-35):
muito mais como produto das transformações sociais e das demandas
geradas pela implementação de sucessivas políticas econômicas. A
Saúde aparece como coadjuvante, com ações implementadas a partir de
cada momento político, e não como processo que consolida uma rede e
um sistema adequado para as necessidades de uma população
desigualmente distribuída do ponto de vista geográfico, econômico e
cultural. Mais ainda, essas desigualdades são agravadas pela acentuada
diferença na construção e acesso a equipamentos sociais que possibilitem
melhores condições de saúde (…).
Lidar com essas desigualdades tem sido, historicamente, um
desafio. No que se refere à falta de médicos nas áreas mais
carentes, se considerarmos que o Ministério da Saúde foi criado em
1953, e que já chegamos ao século XXI, percebemos que a
disponibilidade de médicos nessas áreas se mantém como um
problema atual para a política de saúde há mais de meio século. E
tem raízes históricas, já analisadas no primeiro capítulo.
A 3ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1963, foi a
primeira a se debruçar mais detalhadamente sobre o problema da
má distribuição de médicos no país. Em seu relatório final, o tema
“O problema de pessoal” é iniciado com a seguinte pergunta: “Como
vai ser resolvida a presença de médicos nos municípios?” (Brasil,
1993a: 20). À indagação segue-se o diagnóstico:
Seria ingenuidade pretender mandar médicos em grande número para o
interior. Não só no Brasil, como no mundo inteiro, o que se vem verificando
é a concentração cada dia maior de profissionais da medicina nos grandes
centros. O avanço da tecnologia médica, a especialização, a aparelhagem
necessária à prática da medicina moderna, praticamente conduzem a que
os médicos só desejem trabalhar em grandes centros, onde contam com
todos os recursos e verdadeiras equipes. Além do mais, com o
enriquecimento dos habitantes das metrópoles, amplia-se cada dia o
mercado de trabalho dos médicos nas grandes concentrações
demográficas, de forma que não há como, nas condições atuais, levar
médicos para atender às populações do interior.
A Conferência foi realizada no mesmo ano da Primeira Reunião
de Ministros de Saúde das Américas, tendo sido debatidos nos dois
eventos, no campo dos recursos humanos, os mesmos problemas:
“carência e má distribuição de mão-de-obra, além da necessidade
de traçar programas de capacitação, fixação e interiorização de profissionais de saúde nas regiões menos favorecidas” (Sayd, Vieira
Jr. & Velandia, 1998: 171).
Realizada quatro anos depois, em 1967, a Conferência seguinte,
já em plena ditadura militar, foi convocada com a finalidade explícita
de debater o tema, dada a premência de resolvê-lo, tendo por
objetivo “formular sugestões para uma política permanente de
avaliação de recursos humanos, tendo em vista a formação dos
contingentes de pessoal de que o país carece para o desenvolvimento das suas atividades de saúde” (Brasil, 1967: 11).
Na ocasião, o meio acadêmico ressaltava a necessidade de que o
Ministério da Saúde investisse na produção de dados sobre os
recursos humanos em saúde como forma de obter subsídios mais
consistentes para a formulação de políticas que orientassem as
relações entre a oferta e a demanda desses profissionais, tanto
qualitativa quanto quantitativamente. Essa foi, aliás, a tônica do
debate acadêmico, nos anos 60, não apenas no Brasil, mas no cenário internacional. De um lado, havia que enfrentar a chamada
‘crise de pessoal’ por que passava a saúde; de outro, o sistema de
formação se caracterizava pela falta de racionalidade e desconexão
com as necessidades reais do setor. Como conseqüência, abriu-se
todo um campo de investigação e debate sobre o planejamento de
recursos humanos – no Brasil e em diversos países – com a intenção de elaborar métodos que permitissem determinar a
quantidade de pessoal necessário em cada categoria profissional.
A primeira referência sobre o planejamento de recursos humanos
em saúde surgiu em 1958, como parte de uma publicação científica da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Pouco depois,
em 1961, em reunião da Organização dos Estados Americanos
(OEA, foi acordada a urgência de se determinar o número de
profissionais necessários em cada país; e na Reunião de Ministros
da Saúde, de 1963, a referência especial recaiu sobre a importância
do planejamento da formação médica (Vidal, 1984).
Paralelamente, teve início o planejamento em saúde, com a
criação do método Cendes-Opas. O Centro Pan-Americano de Planejamento em Saúde, da Opas, desenvolveu métodos globais de
planejamento, que ressaltavam a importância dos recursos
humanos. O próprio Plano Decenal de Saúde para as Américas,
para o período 1971-1980, estabeleceu uma série de metas
quantitativas para diferentes categorias profissionais, embora com
poucas referências à relação estrutural dessas metas com
mudanças nos programas e serviços de saúde (Vidal, 1984).
A ênfase recaiu sobre a importância dos métodos de projeção e
cálculo dos recursos humanos necessários para atender às
demandas do setor saúde, nas distintas regiões de um país. Com
base em indicadores demográficos e socioeconômicos, essas
orientações e os diversos estudos a partir delas produzidos se
restringiram a um enfoque quantitativo de projeção de tendências,
em busca de maior racionalidade científica para o planejamento de
recursos humanos em saúde, sem tratar das implicações políticas aí
embutidas. Descuidou-se do fato de que uma política de recursos humanos exige a consideração de um conjunto de variáveis que
atuam simultaneamente e interagem entre si, em um contexto
complexo e fortemente influenciado por fatores culturais e decisões
políticas, que torna falaciosas as projeções de cunho
eminentemente estatístico.
De modo geral, esses estudos não foram bem sucedidos, uma
vez que não permitiam ir além de um enfoque quantitativo, que
projetava as tendências existentes, mantendo a rigidez do então sistema de saúde e das instituições formadoras tal como se
configuravam naquele momento.
Esse tipo de enfoque, com base em estudos de demanda-
manifesta e projeção de oferta, refletia a corrente de pensamento que dominou a saúde pública nos anos 50 e 60. Essa corrente
utilizou como argumento a busca de racionalidade e eficiência,
consideradas inerentes a um enfoque científico, e transpôs para a
saúde as técnicas utilizadas no campo da economia.
A partir da década de 1970, embora a abordagem mais
racionalista ainda tenha se mantido com alguma força, destacando a
influência dos recursos humanos sobre os custos dos serviços de
saúde, o debate passou a evidenciar, cada vez mais, a dimensão política do tema, ressaltando sua forte relação com a necessidade
de mudanças culturais, sociais e econômicas. Começam a ganhar
relevo as discussões sobre o acesso da população a esses
serviços, a formação desses profissionais, a realidade
socioeconômica, o corporativismo, a política governamental, o
processo educacional, os referenciais socioculturais, dentre outros
aspectos.
De forma convergente com esse debate, o Ministério da
Educação e Cultura (MEC) elaborou, em 1976, o Estudo sobre a
Formação e Utilização dos Recursos Humanos na Área da Saúde
(Brasil, 1976b), com a contribuição do Ministério da Saúde e do
Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS). Seu objetivo
era “propor diretrizes para as ações que permitam a correção das
principais distorções que vêm ocorrendo na preparação e utilização
de recursos humanos no setor Saúde” (Brasil, 1976b: 9).
A partir da análise de diagnósticos já existentes, o estudo atribuía
as insuficiências na prestação de assistência médica a fatores
demográficos (como o crescimento populacional acelerado e o
movimento migratório), socioculturais, políticos e tecnológicos, e
recomendava que a formação dos profissionais de saúde deveria
pautar-se pelas reais necessidades da população, de forma a
“inserir o ensino de saúde no contexto socioeconômico, cultural e
político do Brasil e de suas regiões” (Brasil, 1976b: 11).
Com relação à formação médica, afirmava que o estoque desses
profissionais já ultrapassava as projeções para 1980 (1.225 hab./médico), superando as metas do Plano Decenal, e destacava a
inadequação do ensino médico à realidade brasileira. Para enfrentar
o problema, propunha reformas curriculares e experiências práticas
em medicina comunitária e saúde pública, além de maior articulação entre os ministérios da Educação, Saúde e Previdência.
Mas embora as ações do Estado implementadas no campo da
saúde, no período desenvolvimentista, tenham aumentado a oferta
de médicos e ampliado o mercado de trabalho, inclusive nas regiões
mais desfavorecidas, foram insuficientes, por si só, para enfrentar o
problema da má distribuição desses profissionais no território
nacional:
as regiões que apresentaram maiores incrementos no número de
médicos foram: Norte (701,84%); Centro-Oeste (330,45%) e Sul
(164,09%). As duas primeiras, no entanto, ainda apresentam um baixo
contingente destes profissionais com relação à magnitude de suas
populações. (…) Apesar dos esforços do Governo Federal, do Ministério
da Saúde e das Secretarias Estaduais em aparelharem a rede pública de
saúde dos estados nordestinos, o baixo poder aquisitivo da população tem
impedido uma maior fixação de médicos na região. Como salientou Celso
Furtado, em artigo publicado no Caderno Especial do Jornal do Brasil de
20.11.83, ‘se é verdade que o produto bruto do Nordeste quadruplicou
entre 1960 e 1980, dois terços da população trabalhadora permanecem
com uma renda igual ou inferior a um salário mínimo’. Portanto, na atual
estrutura privatizante da atenção médica no Brasil, somente uma melhoria
substancial da distribuição dos rendimentos da população poderia resolver
o problema da fixação de médicos nas regiões mais carentes. (Medici,
1985: 57)
Com a realização, em 1986, da Conferência Nacional de
Recursos Humanos em Saúde, observa-se uma mudança
fundamental no eixo de discussão, que se desloca do
dimensionamento quantitativo para a crítica à ausência de uma política de recursos humanos. Ainda hoje, as questões mais
prementes do campo dos recursos humanos em saúde não foram
objeto de intervenções estatais consistentes, duradouras e
congruentes com os princípios da Reforma Sanitária.
A partir de agora serão abordadas as estratégias adotadas pelo
Estado brasileiro para enfrentar o problema da má distribuição de médicos no país; identificando-as segundo o recorte político que as
fundamentou: ditatorial ou democrático.
Estratégias da ditadura militar
Iniciado em 1964, com o golpe militar de 31 de março, o período
ditatorial no Brasil estendeu-se até o ano de 1978, quando se abriu
o caminho para a redemocratização. Nesse período, foram
implantados dois programas que tiveram a interiorização de
profissionais como uma de suas metas: o Projeto Rondon e o
Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento
(Piass).
O Projeto Rondon
Criado em 1968, pelo decreto n. 62.927, o Projeto Rondon foi o
primeiro grande programa de extensão universitária de abrangência
nacional instituído pelo governo brasileiro, tendo como finalidade
“promover estágios de serviço para estudantes universitários,
objetivando conduzir a juventude a participar do processo de integração nacional” (Brasil, 1968). A participação no Projeto, de
caráter voluntário, abrangia estudantes de todos os cursos
universitários para desempenhar atividades específicas de seu
campo de formação em localidades do interior do país, desprovidas
de infra-estrutura econômica e social.
Em publicação elaborada pelos formuladores do Projeto Rondon,
sua criação é contextualizada segundo a lógica doutrinária da
ditadura militar:
Na segunda metade da década de 60, o inconformismo juvenil –
fermento das grandes campanhas libertárias em tôdas as épocas e em
tôdos os países – radicalizou-se numa escalada mundial de manifestações
públicas, protestos, conflitos e movimentos de massa.(…)
No Brasil um fato era latente. Havia uma enorme predisposição da parte
dos jovens de contribuir de alguma forma no processo brasileiro.
O que se fazia necessário era mostrar-lhes o caminho sério e
construtivo da participação real nos destinos do Brasil.
Atravessávamos uma época em que mais do que nunca
necessitávamos do trabalho devotado, do altruísmo, da convicção
patriótica, de reformas é claro, desde que calcadas na realidade de nossa
problemática.
Êste quadro político-institucional brasileiro mereceu a atenção dos
governantes e das universidades e foi objeto do seminário promovido pela
ECEME (Escola De Comando do Estado-Maior do Exército) e
universidades do Estado da Guanabara em outubro/novembro de 1966.
Nêle estiveram presentes estudiosos do problema educacional
brasileiro, nascendo nos debates, e cristalizando-se nas conclusões, a
necessidade imperiosa de levar os estudantes universitários à participação
realista no esfôrço desenvolvimentista brasileiro. (…)
O caminho estava começando a ser apontado: os estudantes viveriam e
sentiriam em tôda a sua chocante realidade a vida no interior do Brasil.
O desafio foi aceito por todos os que se empenhavam na idéia: estava
lançada a semente do que viria a ser a maior experiência sociológica
brasileira – o PROJETO RONDON. (Brasil, 1972: 8-9)
O lema do Projeto Rondon – “Integrar para não Entregar” – teve
como inspiração uma frase do Capitão Lauro Bastos Filho, do 5°
Batalhão do Exército, de Rondônia: “O batalhão está trabalhando
dia e noite para integrar a região amazônica e não entregá-la à
cobiça, à miséria e ao pauperismo” (Brasil, 1972: 15).
Assim, a palavra de ordem do Projeto Rondon foi ‘integração’:
“Integração geográfica, social e econômica. Integração também de
pensamento, de atitudes, de classes e gerações. Integração no plano material e ideológico para o trabalho comum de construção de
um novo Brasil” (Brasil, 1972: 5).
Após uma experiência-piloto, realizada em Rondônia, em 1967,
da qual participaram 31 estudantes de medicina, engenharia,
geociências, e documentação e comunicação, o Projeto Rondon foi
efetivamente implantado a partir do já citado decreto n. 62.927, que
criou o ‘Grupo de Trabalho Projeto Rondon’, responsável pela sua
condução. Compunham este grupo representantes dos seguintes órgãos: Ministério do Interior, Ministério da Educação e Cultura,
Ministério da Marinha, Ministério do Exército, Ministério da Aeronáutica, Ministério dos Transportes, Ministério da Agricultura,
Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, Ministério da
Saúde, Movimento Universitário de Desenvolvimento Econômico e
Social (Mudes), Conselho de Reitores (representando as entidades de ensino superior) e a então Universidade do Estado da
Guanabara (UEG), em função de sua participação pioneira na
experiência-piloto.
Em novembro de 1970, o decreto n. 67.505 transformou o ‘Grupo
de Trabalho Projeto Rondon’ em órgão autônomo da administração
direta, subordinado ao Ministério do Interior, com autonomia
administrativa e financeira, passando a denominar-se simplesmente
‘Projeto Rondon’ (Brasil, 1970). Sua autonomia financeira foi assegurada por meio da instituição de um fundo específico, o Fundo
do Projeto Rondon (FunRondon). Cinco anos depois, em dezembro
de 1975, a lei n. 6.310 alçou o Projeto Rondon à categoria de
Fundação, ainda subordinada ao Ministério do Interior, mas com
orçamento e patrimônio próprios e personalidade jurídica de direito
privado, passando a denominar-se Fundação Projeto Rondon, tendo
sido extinto o FunRondon. A mesma lei estabeleceu como objetivos
básicos do Projeto Rondon:
I. no campo do desenvolvimento e da integração nacional:
a. colaborar com o Ministério da Educação e Cultura na
organização, implantação e coordenação de estágios de
estudantes, no interior do país;
b. colaborar na execução da política de integração nacional,
em consonância com os planos de desenvolvimento;
c. promover ou participar de programas de desenvolvimento
comunitário com as populações interioranas.
II. no campo do mercado de trabalho e mão-de-obra:
a. promover, com os estágios de universitários, o
conhecimento das condições do interior do país, abrindo
perspectivas para a interiorização e fixação de técnicos de nível superior nas áreas em que atuarem;
b. desenvolver, junto às populações carentes, o treinamento
especializado de nível médio, incentivando o mercado de
trabalho e o aprimoramento da mão-de-obra qualificada;
c. promover, juntamente com os órgãos especializados, a
abertura de novos mercados de trabalho;
d. promover a interiorização de técnicos em áreas menos
desenvolvidas do Território Nacional.
III. no campo da pesquisa e preparação de recursos humanos:
a. contribuir para a promoção, coordenação e realização de
pesquisas voltadas para o conhecimento da realidade
nacional;
b. contribuir para a preparação dos recursos humanos
necessários ao desenvolvimento. (Brasil, 1975a)
Considerado como atividade curricular voluntária, o estágio no
Projeto Rondon incluía a participação dos corpos discente e docente
na preparação e no planejamento das atividades. Os estágios
deviam ser prestados no período das férias escolares, nos meses
de janeiro ou julho. Dessa forma, a cada seis meses, novas equipes
integravam projetos específicos.
O Projeto possuía uma estrutura de funcionamento baseada em
uma coordenação geral, de âmbito nacional; e coordenações
regionais, estaduais e de área. Para consolidar seus objetivos,
foram criados diferentes programas e operações, vinculados a
quatro grandes eixos: ‘Conhecimento da realidade nacional’,
‘Integração nacional’, ‘Desenvolvimento’ e ‘Interiorização’.
Com relação às operações, além daquelas de caráter nacional
(realizadas nas férias de janeiro e fevereiro, de execução complexa e elevado custo), foram criadas as operações regionais (executadas
nas férias do meio do ano, de realização mais simples e menor
custo), organizadas e operacionalizadas pelas coordenações
estaduais; e as operações locais (em qualquer época do ano e
quase sempre por iniciativa das próprias universidades) (Rodrigues,
s.d.).
Ainda segundo Rodrigues (s.d.), pouco a pouco, a universidade,
como instituição, foi assumindo uma maior participação nas atividades do Projeto Rondon, sendo o ‘Campus avançado’ a forma
como se materializou esse maior envolvimento direto. Os Campi
avançados funcionavam como extensões das universidades, na
condição de locais de estágios, em pontos estrategicamente selecionados nas regiões menos desenvolvidas do país. Sua
criação tinha um duplo objetivo: 1) propiciar aos universitários o
aprendizado por meio da prestação de serviços técnico-profissionais
a partir de programas supervisionados por docentes, em contato com a realidade local, proporcionando a interiorização do ensino
universitário e da tecnologia; 2) transformar as regiões onde se
desenvolviam esses estágios em pólos de desenvolvimento
integrado, com a articulação entre órgãos da administração local e
regional. Os Campi avançados funcionavam, assim, como órgãos de
assessoramento de pesquisa, experimentação, planejamento e
execução dos projetos que ali se desenvolviam.
Em seminário promovido em 1979 para avaliar os primeiros dez
anos do Projeto Rondon, alguns aspectos do funcionamento dos
‘Campi avançados’ foram objeto de críticas por parte do Conselho
Federal de Educação (CFE):
em muitos casos, os ‘Campi’ avançados de universidades de outras
regiões do país que se situam na Amazônia operam praticamente como
enclaves culturais, algo que se torna isolado, que não se comunica, que
não se articula com as suas congêneres locais e que, conseqüentemente,
não as beneficia, ou que as beneficia numa escala muito reduzida (…) a
preocupação fundamental seria a de rever este tipo de presença de
universitário do sul, do sudeste do país, por exemplo, na Amazônia. (…)
as universidades do sul e do sudeste do país se beneficiariam de uma
vivência que o corpo docente, os administradores, os alunos das
universidades locais lhes poderiam transmitir em razão da própria origem,
do próprio fato de ali terem nascido e se criado na região e, portanto, de
estarem nela culturalmente integrados. Em alguns casos temos notícias de
situações surgidas com vinda de universitários de grandes centros
urbanos do país para pequenas comunidades do interior, em que esse
simples transplante de pessoas que têm uma outra origem e que vêm de
outro ambiente cultural cria, em determinadas situações, um verdadeiro
choque cultural, às vezes profundo e nem sempre fácil de controlar. (CFE,
1979: 36)
Como decorrência das Operações Nacionais e da atuação dos
‘Campi avançados’, os programas de interiorização passaram a ser
incentivados. Com base em estímulos para a interiorização de
profissionais de nível superior, esses programas eram destinados
tanto para os profissionais liberais quanto para os servidores públicos que desejassem atuar junto às prefeituras e aos órgãos da
administração estadual e federal existentes na região. Essa atuação
se dava mediante um vínculo salarial com o Projeto Rondon, por um
período máximo de 12 meses. Além disso, havia incentivos para apoio a esses profissionais, como créditos especiais para aqueles
que desejassem permanecer com seu exercício profissional nesses
municípios ou regiões, destinados à aquisição da casa própria, de
equipamentos para consultórios/escritórios ou para a implantação
de atividades econômicas privadas (Rodrigues, s.d.).
Os programas de interiorização foram intermitentes durante a
trajetória do Projeto Rondon, enfrentando problemas debatidos no
seminário anteriormente citado e assim então resumidos pelo CFE:
O problema do Brasil no setor de saúde, para exemplificar, não consiste
em apenas formar mais médicos, mas distribuí-los de maneira adequada
pelas regiões mais carentes desses profissionais. Mas o médico não atua
sozinho, precisa apoiar-se numa infra-estrutura operacional que envolve,
além de outros, os Ministérios da Educação e Cultura, do Interior e da
Saúde. O problema se coloca não apenas em relação à medicina, mas a
várias áreas onde existem profissionais formados e sem emprego,
concentrados nas grandes cidades, e, de outra parte, inúmeras regiões
totalmente desassistidas. Esse é um aspecto que diz respeito a este
Conselho – e é essa a tática que estamos procurando adotar – que é a de
colocar os cursos onde profissionais respectivos devem ser formados,
onde exista para eles, mercado de trabalho.
A questão da interiorização do profissional não é, pois, apenas do
Projeto Rondon, mas também do Conselho Federal de Educação,
procurando, além da elevação do nível cultural das regiões interioranas,
assegurar trabalho aos profissionais de nível superior e assistência às
populações necessitadas. (CFE, 1979: 35)
O tema manteve-se como permanente preocupação no âmbito do
Projeto Rondon, como é possível constatar em outras intervenções,
no mesmo seminário, como esta:
no que diz respeito à fixação, à interiorização – (…) uma das
preocupações que estão sendo reativadas dentro do Projeto Rondon – já
agora do profissional formado (…) este é evidentemente um desafio que
extrapola ao âmbito específico de atuação do Projeto Rondon. (…) há pelo
menos três ou quatro anos realizam-se no MEC estudos, posteriormente
discutidos com outros ministérios e levados à consideração do Estado-
Maior das Forças Armadas, sobre a possibilidade de se articular, como
que de se acoplar a legislação do serviço militar obrigatório, à criação de
um Serviço Civil Social. Assim se propôs chamar a época em que o
universitário cumpriria os seus deveres para com a legislação militar,
substituídos pela prestação, por um período a ser fixado e que poderia ser
de um ou dois anos, de um serviço profissional, após formado, às
comunidades interioranas. Isto poderia garantir, em primeiro lugar, a
presença permanente do profissional na região, embora com a sua
substituição periódica e regular, em determinados campos de atividades
nessas comunidades mais desassistidas do interior, evitando-se, assim, o
inconveniente da falta de continuidade por ausência de novos candidatos
voluntários para substituírem os que se encontravam participando de
programas dessa natureza. Enfim, um sistema de incentivo, de estímulos
que podem assumir muitas formas e que podem, a par desses casos de
voluntariados e de decisão pessoal de permanecer definitivamente no
local, onde o jovem esteve ainda como universitário, assegurar a presença
permanente dos profissionais de que a comunidade precisa para garantir
um nível de vida mais digno, menos carente das coisas mais básicas de
que uma população tem necessidade. (CFE, 1979: 36)
Além do Serviço Civil Social obrigatório, outras propostas foram
sugeridas no evento: 1) vincular a fixação e a interiorização do
profissional oriundo do ensino universitário público e gratuito a um
determinado número de anos de prestação de serviços; 2) criar
incentivos para estimular empreendimentos em diversos setores da
economia, nas áreas mais carentes e desfavorecidas; 3) instituir o
Serviço Cívico Social, de caráter voluntário, mediante estímulos e
benefícios, como isenções de serviços e oferta de facilidades em
termos de futuro profissional (CFE, 1979).
Com o término do regime militar, em 1984, e o início do processo
de redemocratização do país, o Projeto Rondon entrou em processo
de extinção, encerrando suas atividades em 1989. Na avaliação de
Rodrigues (s.d.), além do esvaziamento político em torno da
doutrina que fundamentava o Projeto, gerado pelo novo contexto
político do país, outros fatores foram decisivos para sua extinção:
As utilizações indevidas de suas estruturas, os abusos no manuseio dos
recursos financeiros para outros fins, aproveitando-se as facilidades
administrativas que o Projeto oferecia, os desvirtuamentos de suas
finalidades, que passaram a ocorrer desde então, além das diversas ações
de pretexto investigatório que se desenvolveram visando alguns de seus
dirigentes na ocasião, tinham, na realidade, como objetivo, desacreditar o
movimento junto à opinião pública. Apenas como um exemplo desse
desvirtuamento, citamos o ‘rateamento’ de seus cargos de direção entre
os diferentes partidos políticos que apoiavam o governo que se instalava.
Cresceram os ‘apetites políticos’ e o Rondon ‘era um prato cheio’….
inclusive pelos dividendos políticos que o próprio cargo de Presidente da
Fundação oferecia. (Rodrigues, s.d.: s.p.)
Durante seus 22 anos de existência, o Projeto Rondon
contemplou milhares de municípios – majoritariamente localizados
nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste – que receberam
atendimentos e serviços nas áreas de saúde, educação,
agropecuária, engenharia, arquitetura e outras. Participaram do Projeto cerca de 350 mil universitários e 13 mil professores. Na área
da saúde, foram realizados atendimentos médicos, odontológicos,
de enfermagem, vacinação, combate a endemias, pesquisas,
planejamento e educação sanitária (Brasil, 1972; Rodrigues, s.d).
Do ponto de vista político, a principal crítica ao Projeto Rondon
consistiu em classificá-lo como “‘um movimento criado pelos
governos militares para anestesiar a juventude universitária
(…)’; ou então, ‘como uma forma fascista de mobilização dos jovens (…)’, ou ainda, ‘como um instrumento da propaganda
oficial do autoritarismo (…)’”. (Rodrigues, s.d., s.p. – grifos do
autor).
Do ponto de vista técnico, as críticas recaíam sobre o curto tempo
de permanência dos universitários nas comunidades, além do fato
de que, dado seu caráter voluntário, havia dificuldades para evitar a
descontinuidade de participação de estudantes de alguns cursos,
como por exemplo, de medicina: “(…) esse trabalho no período escolar é um trabalho efêmero, é um trabalho condicionado, estando
o jovem preocupado em concluir o seu curso” (CFE, 1979: 32).
Rodrigues (s.d.) considera que a decisão de extinguir o Projeto
Rondon não esteve embasada em uma avaliação rigorosa das
ações, programas, metodologias e resultados obtidos:
Faltou uma postura de estadista na sua avaliação, antes da decisão de
extingui-lo. Não se entrou no mérito de sua expressão sócio-cultural; de
sua dimensão geopolítica e estratégica (…).
Até o esvaziamento do princípio do trabalho voluntário – tão escasso
na postura cultural do brasileiro, e praticado intensamente pelos
participantes do Projeto Rondon naqueles 22 anos – foi realizado sem a
menor preocupação.
Ao ser extinto o Projeto Rondon, não se considerou, também, o
desperdício de recursos financeiros que se estava praticando, com a
dilaceração de seu espólio, pelo abandono completo, ou cessões
improvisadas das instalações e equipamentos dos vinte e três ‘Campi
Avançados’. Além disso, vale lembrar o desperdício do capital humano
que se pôs em prática ao ‘encostar’ em outros órgãos, para funções
meramente burocráticas ou de finalidades completamente diferentes, os
quadros técnicos da Fundação Projeto Rondon, desprezando-se todo o
conhecimento e experiência acumulada por esses profissionais em 22
anos de trabalho com jovens, no incentivo ao trabalho voluntário, e com
amplo conhecimento e vivência dos graves problemas sociais das regiões
mais carentes do País, e que, além de tudo, gozavam de um alto conceito
junto à sociedade como um todo.
Não se contesta o direito que tinham os novos responsáveis pela
condução dos destinos do País de redirecionar e reformular muitos dos
programas e procedimentos administrativos que eram adotados pelo
Projeto Rondon, de modo a melhor adequá-los aos objetivos e interesses
dos projetos que pretendessem implantar. A própria denominação de
projeto mantida pelo movimento, e que seus participantes tanto fizeram
questão de preservar, pressupunha que o mesmo era ainda um plano, um
desígnio em andamento, e como tal, admitindo sempre a possibilidade e
necessidade de constantes avaliações nos seus objetivos e formas de
atuação, não apenas para a correção dos desvios que viessem a se
constatar no seu desempenho, como também para a introdução de
aperfeiçoamentos para que suas atividades melhor se ajustassem às
circunstâncias conjunturais de cada momento, inclusive respondendo de
forma mais adequada aos novos anseios e motivações que os jovens
viessem a apresentar.
Antes de extingui-lo, o mínimo que se poderia esperar seria uma
simples avaliação sobre os resultados de sua atuação. (…)
Entretanto, a ânsia ‘revisionista’ e o açodamento em procurar modificar
ou acabar com tudo que pudesse ser classificado como ‘entulho do
autoritarismo, predominou sobre o mínimo de bom senso (…).
(Rodrigues, s.d., s.p. – grifos do autor)
Durante a ditadura militar, além do Projeto Rondon, outro
programa de interiorização – dessa vez específico para a área de
saúde – foi implantado pelo governo brasileiro: o Programa de
Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (Piass).
O Programa de Interiorização das Ações de
Saúde e Saneamento (Piass)
Durante o governo militar, o Estado brasileiro estruturou sua
atuação por meio de planos nacionais de desenvolvimento. O primeiro desses planos, conhecido como I PND e proposto para o
período 1970 a 1974, estipulava a integração das ações de saúde
aos programas de desenvolvimento como condição necessária para
o crescimento econômico e social do país. O II PND, aprovado para
o período 1975- 1979, manteve o foco no desenvolvimento
integrado, colocando a ‘saúde’ e a ‘educação’ como áreas
prioritárias.
Como decorrência do II PND, o setor saúde foi reorganizado, com
a criação do Sistema Nacional de Saúde (SNS), em 1975, por meio
da lei n. 6.229, que definiu responsabilidades para os ministérios da
Saúde, da Previdência e Assistência Social, da Educação, do
Interior, do Trabalho, além de estados e municípios.
Dois meses depois, foi realizada a 5ª Conferência Nacional de
Saúde, que trouxe como um dos cinco temas centrais a extensão
das ações de saúde às populações rurais. Em seu relatório final,
constatava-se que 50% da população do país vivia em áreas rurais, com precárias condições de vida e pouco acesso às ações de saúde
e saneamento, enfatizando-se que:
Tal situação justifica a decisão do Ministério da Saúde de expandir as
ações de saúde às populações rurais, de acordo com os recursos
humanos disponíveis e a participação ativa da comunidade rural e das
administrações municipais.
É indispensável, pois, fazer chegar a esta parcela apreciável da
população que vive em áreas rurais, e à qual caberá destacada
participação no setor agrícola e na colonização de novas áreas, um
mínimo de prestação de serviços de saúde.
(…) seria utópico imaginar que a extensão das ações de saúde ao meio
rural poderia ser obtida nas próximas décadas, por intermédio da atuação
permanente e direta de médicos, enfermeiros, veterinários, engenheiros e
dentistas, entre outros (…).
o caminho a seguir será recorrer aos auxiliares devidamente
capacitados para exercerem uma série de funções delegadas, com
supervisão e apoio periódico da enfermeira da área e do médico, para
atividades assim programadas (…). (Brasil, 1975b: 256-258)
Esse diagnóstico e a estratégia proposta de compensar a falta de
médicos e outros profissionais de nível superior com ‘auxiliares devidamente capacitados’ encontravam respaldo da Opas, cujo
então diretor, no discurso de encerramento da Conferência, afirmou:
Temos o propósito de encarecer os governos a descartarem a idéia de
‘qualidade primeiro, extensão depois’. As atividades de colaboração da
organização [Opas] devem ter por finalidade estender a cobertura dos
serviços de saúde a todas as pessoas às quais possam chegar, com todos
os meios, a seu alcance. Só quando houver sido atingido este objetivo, é
que se deve facilitar um serviço da mais alta qualidade possível, mas sem
comprometer o objetivo imediato que é a cobertura total. (Brasil, 1975b:
317)
Foi nesse contexto e “com a finalidade de implantar estrutura
básica de saúde pública nas comunidades de até 20.000 habitantes
e de contribuir para a melhoria do nível de saúde da população” que
se deu a criação, em 1976, do Piass, pelo decreto n. 78.307 (Brasil,
1976a).
O Programa, inicialmente, focou a expansão dessa estrutura
básica de saúde pública na Região Nordeste e posteriormente em
todo o país, tendo como diretrizes:
I. ampla utilização de pessoal de nível auxiliar, recrutado nas
próprias comunidades a serem beneficiadas;
II. ênfase na prevenção de doenças transmissíveis, inclusive as de
caráter endêmico, no atendimento da nosologia mais freqüente
e na detecção precoce dos casos mais complexos, com vistas ao seu encaminhamento a serviços especializados;
III. encaminhamento a serviços especializados;
IV. disseminação de unidades de saúde tipo miniposto, integradas
ao sistema de saúde da região e apoiadas por unidades de
maior porte, localizadas em núcleos populacionais estratégicos;
V. integração em nível dos diversos organismos públicos
integrantes do Sistema Nacional de Saúde;
VI. ampla participação comunitária;
VII. desativação gradual de unidades itinerantes de saúde a serem
substituídas por serviços básicos de caráter permanente.
(Brasil, 1976a)
Os recursos destinados ao Piass provinham do Ministério da
Saúde, do Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Social (FAS), do
Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (Inan) e do Programa
de Integração Nacional (PIN). Estados e municípios também
contribuíam, a título de contrapartida, com recursos recebidos para
ações de saúde e saneamento do Fundo de Participação de
Estados e Municípios (FPE e FPM). A Previdência Social também destinou recursos ao Programa, cujo decreto de criação definiu que
o então Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) e o Fundo
de Assistência e Previdência ao Trabalhador Rural (Funrural)
deveriam remanejar para o Piass os recursos destinados à
assistência médica nas áreas de atuação do Programa.
Coordenado por um Grupo Executivo Interministerial (Gein),
composto pelos ministérios da Saúde, Previdência, Interior e pela
Secretaria de Planejamento da Presidência da República, o Piass foi criado com duração prevista de quatro anos (até dezembro de
1979). Posteriormente, foi proposta e aprovada sua expansão para
todo o país, estendendo-se esse prazo para 1985.
Além da implantação de unidades básicas de saúde, o Programa
previa, ainda, dois outros tipos de ação: 1) a instalação de
saneamento básico, por meio de sistemas simplificados de
abastecimento de água, remoção de dejetos e destino do lixo; 2) o
desenvolvimento de “ações coordenadas com programas de desenvolvimento sócio-econômico, sobretudo no que se refere ao
aumento da disponibilidade e adequada utilização de alimentos
essenciais” (Gein/Piass, 1977).
Para executar o conjunto de ações previstas, o Piass recorria à
ampla utilização de pessoal de nível médio e elementar, incluindo
auxiliar de saúde, auxiliar de saneamento, inspetor de saneamento,
atendente de enfermagem e outros, recrutados nas próprias localidades de atuação e devendo trabalhar sob supervisão
constante, com apoio técnico e administrativo das unidades de
saúde mais complexas.
O Programa foi estruturado com uma lógica modular de
organização, cujo componente essencial era o ‘módulo básico’,
definido como “um conjunto formado por POSTOS DE SAÚDE
localizados em comunidades rurais, apoiados por uma unidade de
maior porte, geralmente um CENTRO DE SAÚDE, situado na sede do município”. (ST/Gein/Piass, 1980). O posto de saúde constituía-
se como uma “unidade simples operada por Auxiliar de Saúde de
nível elementar, especialmente treinado para a execução de ações
básicas de saúde”, e o centro de saúde, como “unidade mais
complexa, com atendimento médico permanente e laboratório
básico, responsável pela supervisão e apoio aos Postos de Saúde”
(ST/Gein/Piass, 1980).
Em geral, o módulo básico correspondia a um município e era
composto por um centro de saúde, dimensionado para atender a
6.000 habitantes e dar apoio logístico e atendimento de referência
para até três postos de saúde, localizados em distritos, vilas e
povoados e preparados para atender no máximo 2.000 habitantes,
cada um.
A execução do Piass esteve a cargo das secretarias estaduais de
saúde, com participação das companhias estaduais de saneamento,
das secretarias de obras, das prefeituras e de organizações comunitárias.
O programa gerou um expressivo crescimento da rede
ambulatorial que registrou, entre 1975 e 1984, um aumento de
1.255% (Mendes, 1993). Essa expansão e as condições políticas
favoráveis ao Programa – que além de atender as parcelas
desassistidas da população ainda o fazia com importante
racionalização de recursos – fizeram com que o Piass fosse
“deixando de ser uma proposta essencialmente de programa complementar, ‘marginal’ dentro do quadro da atenção à saúde do país, para tornar-se um projeto de prestação de serviços alternativa,
abrangendo o atendimento a parcelas majoritárias da população”
(Rosas, 1981: 137).
Na avaliação de Rosas (1981: 137), essa passagem “de programa
complementar a modelo de prestação de serviço em condições de
disputar a hegemonia do setor com o modelo previdenciário” pode
ser entendida como:
conseqüência natural da busca de alternativas diante da crise do
modelo previdenciário (baseado na compra de serviços) (…). Essa crise é
agravada com o crescimento progressivo das pressões sociais, resultante
de maior organização e poder de pressão das camadas sociais (…)
reivindicando, entre outras coisas, a ampliação da assistência à saúde
(…).
Ainda assim, o Relatório de situação, de 1981, elaborado pelo
Ministério da Saúde, admitia que o mais difícil na implantação do
Programa era a “manutenção adequada da rede de unidades em
funcionamento e isto subentende que as unidades de saúde devem
estar prestando serviços permanentemente. A população deve ter
acesso aos serviços e estes serviços devem ser de boa qualidade”
(Brasil, 1981: s.p.).
Além disso, ao basear a extensão de cobertura não na
interiorização de médicos, mas no trabalho de pessoal auxiliar, o
Piass viu comprometidas as chances de ampliar mais do que a rede
de serviços básicos, mas também a qualidade da atenção à saúde.
Felipe (1987: 488-489) destaca alguns limites e incongruências do
Programa:
Havia um distanciamento entre o discurso moderno e a viabilidade
operativa, permeada por estruturas administrativas viciadas, afeitas ao
clientelismo e à inoperância. O eficientismo propunha ‘custos compatíveis’
ou ‘suportáveis’ em nome da replicação de serviços de baixa qualidade,
restritos à ampliação de uma rede de centros e postos de saúde pouco
resolutiva. A utilização de pessoal leigo, após treinamentos sumários e
descontínuos, significava a decomposição da ação assistencial segundo
graus de complexidade: ações mais simples, supostamente repetitivas,
executadas por trabalhadores de saúde menos qualificados,
preferencialmente entre as populações sem tradição assistencial e
desorganizadas, portanto menos exigentes. O resultado foi a instituição de
uma medicina pobre, para pobres.
A estratificação do atendimento, conforme a inserção das camadas
sociais no mercado produtivo, e o beco sem saída da rede primária sem
referência, foram rechaçados pela população, que repudiou tal estrutura.
O desaparecimento ou a agonia dos serviços, superada a excitação do
processo de implantação, acabou sendo trágica, com o desperdício de
capital social inativado em milhares de ambulatórios.
Como aspectos positivos do Programa, o mesmo autor destaca:
O avanço, a nível de concepção, passou pela ambição em termos de
cobertura de massa e abrangência da intervenção realizada, que
incorporou ações de saneamento básico. A implantação de sistemas
simplificados de abastecimento de água em comunidades rurais praticou o
reconhecimento de que a saúde se liga à qualidade de vida. Também a
realização maciça de obras através dos governos municipais, com êxito
considerável, contribuiu para o recuo dos preconceitos quanto à
descentralização. A administração municipal diluiu-se enquanto locus
privilegiado de dispersão de recursos públicos.
A abrangência nacional, com a extensão do Piass a outras regiões do
País, fez aglutinar segmentos interessados no fortalecimento do setor
público na prestação de serviços de saúde. (Felipe, 1987: 488-489)
Esses aspectos foram decisivos para o surgimento de novas
proposições para o setor, estimuladas, ainda, pela crise do
financiamento previdenciário e pela recessão econômica. Mas na
prática a viabilização de novas formulações “mostrava-se difícil, pelo comprometimento institucional com o modelo engendrado, que
implicou no desmonte ou estagnação dos serviços públicos (…)”
(Felipe, 1987: 489).
Apesar da vitalidade e da pressão dos setores interessados na
manutenção do modelo previdenciário de atenção à saúde ainda
terem se mostrado dominantes, essa nova orientação se consagrou
na 7ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1980, que teve
como tema central “Extensão das ações de saúde através dos serviços básicos”. Na Conferência, o Ministério da Saúde, ao
apresentar suas diretrizes, definiu os serviços básicos de saúde
como “núcleo axial e ordenador” de suas ações e propôs a elaboração de um Programa Nacional de Serviços Básicos de
Saúde (Prev-Saúde), de caráter interministerial, que deveria orientar
todos os demais programas e atividades do ministério. Segundo
essas novas diretrizes, o Piass se constituiria como uma “fase inicial” do Prev-Saúde, devendo a ele se integrar “como componente
rural e de pequenos centros” (Brasil, 1980).
No entanto, o próprio Prev-Saúde não saiu do papel e com ele
levou o Piass. Mendes (1993: 34-35) resume o que ocorreu:
O projeto [Prev-Saúde] tinha como objetivo básico a extensão máxima
da cobertura, para o que apresentava temáticas discursivas como
regionalização e hierarquização, participação comunitária, integralização
das ações de saúde, uso de técnicas simplificadas, utilização de pessoal
auxiliar e inclusão do setor privado no sistema.
A primeira versão, feita em agosto, incorporava, portanto as diretivas de
organismos internacionais e do movimento sanitário, mas, como fruto da
transição democrática, continha o viés de elaboração tecnocrática.
As restrições que, num primeiro momento, sofre dentro da própria
burocracia estatal, remete a uma segunda versão, dita de setembro, que a
reduz a uma proposta racionalizadora do modelo vigente.
O projeto, colocado em debate público, sofreu contestações de nítido
caráter ideológico de todos os grupos interessados na questão da saúde e
é então analisado pela Ciplan e encaminhado à Comissão de Saúde da
Câmara dos Deputados de onde não mais sairia.
Encerrava-se, assim, a trajetória do Piass, já como conseqüência
dos embates que a arena política do processo de redemocratização
propiciava. A discussão sobre o setor saúde, por meio de seus
respectivos grupos de interesse, chegava finalmente ao Poder Legislativo, que passaria a ter papel decisivo nos rumos do setor daí
em diante.
Estratégias pós-redemocratização
Em 1978, ainda durante o governo militar, começa o processo de
redemocratização do país, com o fim do Ato Institucional n. 5 (AI-5),
a gradual restituição dos direitos democráticos, a decretação da lei da Anistia – concedendo o direito de retorno ao Brasil para os
exilados e condenados por crimes políticos – e a aprovação, pelo
governo, da lei que restabeleceu o pluripartidarismo no país, em
1979.
Nesse novo contexto político, foram criadas duas intervenções
com foco na interiorização: o Programa de Interiorização do Sistema
Único de Saúde (Pisus) e o Programa de Interiorização do Trabalho
em Saúde (Pits).
O Programa de Interiorização do Sistema Único
de Saúde (Pisus)
O Pisus foi proposto em novembro de 1993, ou seja, cinco anos
após a promulgação da Constituição de 1988, que criou o Sistema
Único de Saúde (SUS). No documento que apresenta o Programa,
criado pelo Departamento de Desenvolvimento, Controle e
Avaliação dos Serviços de Saúde, da então Secretaria de
Assistência à Saúde do Ministério da Saúde, o problema a ser enfrentado e a estratégia proposta são assim contextualizados:
Estamos em uma época, com princípios constitucionais em defesa do
direito universal à saúde: a descentralização, a responsabilidade tripartite
das três esferas de governo, a democratização da gestão e a participação
popular. É toda uma legislação de suporte de reforma do Estado. A
proposta ora apresentada insere-se neste contexto. Estamos partindo para
uma solução de coparticipação das três esferas de governo tendo como
base a municipalização. Fugimos da idéia de um programa verticalizado e
mantido através da tutela federal. Este programa está dentro do princípio
da cooperação técnica e financeira da União e estados para que os
municípios, que não dispõem de serviços de saúde, tenham condições de
assumirem esta competência constitucional (…).
Temos certeza de que os fatores que sempre condicionaram a presença
ou não dos serviços de saúde em determinado local, não estarão de per si
vencidos com esta proposta. Mas apostamos igualmente, que através dela
poderemos estar minimizando o problema. Não estamos defendendo
apenas a interiorização do profissional médico, mas sim de uma equipe
mínima de saúde, com suporte através de uma pequena unidade de saúde
com instalações mínimas e equipamentos essenciais. Não será a simples
presença de um médico que fará a interiorização da saúde. Entretanto, a
história de nosso país mostra que foi a presença do médico, por primeiro,
quem garantiu, na maioria dos municípios brasileiros, a interiorização de
outros profissionais de saúde. A partir do médico foram surgindo outras
necessidades e respostas: a unidade de saúde, os profissionais de apoio,
os demais profissionais, até se constituir uma equipe completa.
Se hoje o Ministério da Saúde tem como seu projeto principal o
cumprimento da lei e a efetivação da descentralização, é no bojo deste
projeto que se encaixa este programa. Não é mais um programa paralelo e
descolado do restante: faz parte integrante da descentralização e da
municipalização. Enquadra-se na proposta de fazer com que haja no
município um gestor único que se habilita a, paulatinamente, ir assumindo
suas funções gerenciais sob o controle da sociedade à qual serve (Brasil,
1993b: 4-5)
O Pisus foi estruturado em quatro subprogramas: ‘Unidades de
Pronto Atendimento’; ‘Interiorização do Médico’; ‘Interiorização do Enfermeiro’; ‘Agente Comunitário de Saúde’.
O subprograma de ‘Unidades de Pronto Atendimento’ tinha como
objetivo prover uma unidade de saúde, em cada município
contemplado, com condições mínimas de funcionamento, e
equipada com sala de imunização, consultório médico, sala de
enfermagem, sala de emergência, sala de parto, mínimo de dois
leitos de observação, e instalações de apoio. Este subprograma
pretendia que paulatinamente fossem acoplados outros equipamentos, como consultório odontológico, laboratório, raios X
etc.
Os custos para a reforma ou construção de unidades de saúde
ficariam a cargo do Ministério da Saúde e dos Estados, na
proporção de 50% para cada um. “A Funasa, que mantém inúmeros
serviços de saúde em regiões carentes, terá responsabilidade de
colocar sua rede física própria, em condições de funcionamento
como pré-requisito para o processo de descentralização em curso” (Brasil, 1993b: 13).
A meta do subprograma de ‘Interiorização do Médico’ consistia na
fixação de pelo menos um médico, com residência, no respectivo
município participante do programa. Os formuladores do Pisus não
desconheciam a dificuldade de alcançar esta meta:
Muitos alegam que dificilmente se vá conseguir a presença do médico
como morador do local. Acham que questões culturais, sociais e o próprio
acesso às facilidades do progresso acabam por interferir, se não no
médico, com certeza em seus familiares, de modo a se constituir em óbice
irremovível a sua fixação nestes locais. Isto pode ser verdadeiro na tese e
na prática, mas vamos investir na criação das condições técnicas mínimas
para neutralizar estes óbices. Em primeiro lugar: condições de instalações
físicas, interiorização de equipe mínima e pagamento justo pelo ônus.
(Brasil, 1993b: 7-8)
Para viabilizar esse ‘pagamento justo’, o Ministério da Saúde
propunha-se a garantir ao gestor municipal os recursos financeiros
para a remuneração de honorários aos médicos. Mediante um
contrato formal entre o município e o profissional, a remuneração se
daria pela modalidade de pagamento por produção. Para isso, o Ministério se comprometia a realizar o pagamento por produção de
consultas pelo dobro do valor vigente da tabela SUS.
No caso de ocorrer a interiorização de uma dupla de médicos, o
contrato e a remuneração deveriam ser divididos, com cargas
horárias de 20 horas semanais. “A garantia do Ministério da Saúde é
de pagamento deste total de consultas em valor duplo. O gestor
municipal poderá fazer forma de pagamento por produtividade
baseado nos valores de tabela de outros procedimentos” (Brasil, 1993b: 8).
Os subprogramas ‘Interiorização do Enfermeiro’ e ‘Interiorização
do Agente Comunitário de Saúde’ tinham como objetivo garantir a
presença desses dois profissionais na equipe. A remuneração dos
enfermeiros também deveria se dar por meio da transferência de
“recursos de produção suficientes, baseados em valores das ações
de enfermagem, para que se garanta ao gestor municipal a
possibilidade de pagar por contrato ao enfermeiro um mínimo de 10 salários mínimos” (Brasil, 1993b: 9). No caso dos agentes
comunitários de saúde, os municípios teriam que efetuar um
contrato por até três anos, com recursos também provenientes de
pagamento por produção, com base na tabela de ações específicas
dos agentes, garantindo-se remuneração mínima de um salário
mínimo.
Caberia aos municípios garantir a moradia para médicos e
enfermeiros, complementar o pessoal mínimo necessário para a
unidade de saúde (auxiliar de serviços gerais, auxiliar de escritório e
motorista e/ou barqueiro) e o transporte intermunicipal de pacientes, por meio de ambulância ou barco.
As secretarias estaduais de saúde teriam a responsabilidade de
monitorar os municípios, “oferecendo todo o apoio e cooperação
técnica. As SES estarão presentes desde a implantação, na
habilitação para que estes municípios assumam algum nível de
gestão segundo a NOB 01/93 e no acompanhamento através de
equipe técnica” (Brasil, 1993b: 14). Também deveriam garantir todo
o material de consumo, incluindo medicamentos, vacinas e material médico e de enfermagem.
A implantação do Pisus estava prevista para ocorrer inicialmente
na Região Norte, cobrindo 398 municípios localizados nos estados
do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins,
totalizando uma população de 2.035.000 habitantes (Brasil,
1993c:1). Pretendia-se que após uma avaliação da implantação
nestes estados, o Programa fosse estendido, em um prazo máximo
de 180 dias, para outras regiões que apresentassem a mesma carência. Estes novos municípios seriam selecionados com a
intermediação das secretarias estaduais de saúde:
Os Estados que estiverem interessados neste programa apresentarão
estudos ao Ministério da Saúde demonstrando os municípios que não
dispõem de nenhum médico, ou de apenas um médico (situação à qual
estenderemos o Programa), e aqueles que dispõem de distritos, distantes
da sede, que não têm médico. A primeira e segunda situação serão
atendidas de pronto e a questão dos distritos dependerá de avaliação a
partir do relatório apresentado pelos Estados.
As SES, igualmente, apresentarão relatórios sobre a rede física nestes
locais. A existente e em que condições se encontra e a não existente qual
seria a proposta de edificação. Levantamento de custos e cronograma de
obras com a contrapartida estadual. (Brasil, 1993b: 17)
No entanto, os formuladores do Pisus não atentaram para os
riscos que a efetiva implantação do Programa corria, por ter sido
proposta no último ano do mandato do governo vigente. Com as eleições presidenciais de outubro de 1994, ou seja, 11 meses após
o anúncio do Programa, o Pisus foi abandonado como estratégia de
intervenção pelo novo governo, tendo sido extinto pouco mais de um
ano depois de sua criação.
Não houve pressão social para que o Programa fosse mantido,
uma vez que não havia sequer sido efetivamente implantado. Da
mesma forma, faltou apoio político para evitar sua extinção, o que
pode ser explicado, em parte, por se tratar de uma proposta
originária de outra gestão e pelo baixo grau de articulação com
instâncias decisivas para a implantação de estratégias de
interiorização, tema que, como já vimos, admite inúmeras e distintas
concepções políticas e de compreensão do problema.
Na avaliação de um dos atores entrevistados em estudo realizado
por Goulart (2002: 117), “foi uma experiência que fracassou por ter
sido articulada junto aos Estados e não diretamente com os
municípios, ao contrário do Pacs e do próprio PSF, que tiveram tal
componente bem definido e, por isso mesmo, outra trajetória”.
O Programa de Interiorização do Trabalho em
Saúde (Pits)
Foi com o intuito de promover maior e melhor distribuição de
médicos e enfermeiros no país, aperfeiçoar a formação desses
profissionais e impulsionar a atenção básica via Programa de Saúde
da Família (PSF), que o Ministério da Saúde criou, em 2001, o
Programa de Interiorização do Trabalho em Saúde (Pits) (Brasil, 2001a).
A proposta foi elaborada por grupo de trabalho criado pela
portaria n. 1.162, de 18 de outubro de 2000, constituído por
representantes dos ministérios da Saúde e da Educação, dos
conselhos nacionais de secretários estaduais e municipais de saúde
(Conass e Conasems), da Opas, do Programa Comunidade Ativa e
de entidades ligadas às áreas de enfermagem e de medicina
(Conselho Federal de Medicina – CFM; Associação Médica Brasileira – AMB; Conselho Federal de Enfermagem – Cofen;
Associação Brasileira de Enfermagem – Aben; Associação Brasileira de Educação Médica – Abem e Direção Executiva Nacional dos
Estudantes de Medicina – Denem) (Brasil, 2000).
O Programa foi instituído pelo decreto n. 3.745, de 5 de fevereiro
de 2001, e regulamentado pela portaria n. 227, de 16 de fevereiro de 2001 (Brasil, 2001a, 2001b). Contando com uma coordenação
nacional no Ministério da Saúde e coordenações estaduais, adotou
a mesma estratégia de atuação do PSF (inclusive na composição
das equipes, formadas por um médico, um enfermeiro, um auxiliar
de enfermagem e quatro a cinco agentes comunitários de saúde).
As coordenações estaduais contaram com representantes dos pólos
de capacitação do PSF, 8 das representações estaduais do PSF e
dos conselhos de Secretários Municipais de Saúde (Cosems).
O Pits propunha-se a estimular a ida de médicos e enfermeiros
para os municípios mais carentes e distantes, por meio de
incentivos financeiros e de formação profissional, assim previstos na portaria n. 227 (Brasil, 2001b):
curso introdutório de preparação para o desempenho de suas
atividades junto ao Programa, com carga horária de 80 horas;
tutoria e supervisão continuadas, participação em cursos, material instrucional e bibliográfico;
curso de especialização em saúde da família, com carga
horária de 360 horas, de forma presencial e a distância;
condições adequadas para o desempenho de suas atividades,
tais como instalações, equipamentos e insumos;
certificado de participação no Programa;
bolsa mensal, a título de incentivo e ajuda de custo, variando de
R$ 4.000,00 a R$ 4.500,00, para médicos, e de R$ 2.800,00 a R$ 3.150,00, para enfermeiros, de acordo com critérios de
distância do município de atuação para a capital e vias de
acesso, assim definidos pela Coordenação Nacional;
seguro obrigatório de vida e acidentes pessoais correspondente
ao período de participação no Programa;
moradia, alimentação e transporte para o desenvolvimento de
suas atividades.
A implantação das bolsas para remuneração dos médicos e
enfermeiros, com duração de um ano e renováveis por mais um,
deu-se mediante a celebração de convênio entre o Ministério da
Saúde e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O curso de especialização em Saúde da Família foi encomendado
aos pólos de capacitação do PSF e instituições de ensino superior,
tendo como objetivos:
capacitar os profissionais para o processo de gestão local, com
ênfase na concepção de saúde coletiva, seguindo os princípios
do SUS;
aprimorar a capacidade para o trabalho em equipe e
multidisciplinar na perspectiva da abordagem integral dos
problemas de saúde;
desenvolver conteúdos programáticos que favoreçam o pronto
e adequado diagnóstico de doenças prevalentes nas respectivas localidades de trabalho;
aperfeiçoar a atuação clínica e gerencial de ações para uma
apropriada atenção à saúde da criança, da mulher, do adulto e
do idoso, mediante uma abordagem integral e familiar. As
diretrizes pedagógicas centram-se numa metodologia crítico-
reflexiva, em que o aluno desempenha um papel ativo na
construção de seu próprio conhecimento e atua como agente
de mudança. (Brasil, 2001e: 7)
O curso foi realizado em universidades das capitais dos
respectivos estados de localização dos municípios. Os gastos com
transporte e diárias para o deslocamento dos médicos e enfermeiros
integrantes do Pits ficaram a cargo do Ministério, que também arcou com o seguro de vida e de acidentes pessoais para os profissionais.
Além do curso, o Programa previa tutoria e supervisão para os
médicos e enfermeiros, realizadas via Internet e/ou por visitas
periódicas de acompanhamento. O Ministério da Saúde deveria
arcar com o pagamento dos tutores e com os custos de implantação
do acesso à Internet e do material didático (livros de enfermagem e
medicina sobre atenção básica e ambulatorial). A remuneração dos tutores e supervisores integrava o mesmo convênio com o CNPq
celebrado para o pagamento dos profissionais. A tutoria e a
supervisão deveriam se dar ao longo dos 12 meses de atuação dos
médicos e enfermeiros no Programa, prevendo-se um tutor médico e um tutor enfermeiro para cada grupo de dez profissionais.
A habilitação dos municípios no Programa se deu mediante a
assinatura de termo de compromisso entre a Prefeitura e a
Secretaria de Estado de Saúde, homologado pelo Ministério.9
Como estímulo para os municípios implantarem o Pits, o
Ministério da Saúde instituiu, por meio da portaria n. 1.069, de 18 de
julho de 2001, incentivo financeiro de dez mil reais, por equipe
implantada, além de determinar, pela mesma portaria, que cada
município também recebesse o Incentivo à Assistência
Farmacêutica Básica, vinculado ao PSF e que fôra criado pela
portaria n. 343, em março do mesmo ano (Brasil, 2001c).
A contrapartida dos municípios compreendeu moradia,
alimentação e transporte local para os médicos e enfermeiros, além
da disponibilidade de unidade básica de saúde para o
desenvolvimento das atividades. Deveriam assegurar, ainda, o
quantitativo de auxiliares de enfermagem e de agentes comunitários
e suporte para a referência e contra-referência.
O Ministério da Saúde realizou campanha publicitária em jornais,
rádios e televisões para divulgar o Pits e convocar os profissionais para o processo seletivo. Essa seleção se deu por meio de
avaliação curricular e entrevista. As inscrições foram efetuadas
exclusivamente pela Internet, com o preenchimento de um
formulário curricular, pontuado eletronicamente segundo critérios
pré-definidos por Comissão Nacional de Seleção, instituída pela
portaria n. 6, de 21 de fevereiro de 2001 (Brasil, 2001d). No ato da
inscrição, os candidatos tinham que primeiro dar o aceite eletrônico
ao Regulamento do Programa (Brasil, 2001b), no qual constavam direitos e deveres dos profissionais, do Ministério da Saúde, dos
estados e dos municípios.
Também na inscrição, a página eletrônica construída
especificamente para o processo seletivo permitia que os
candidatos tivessem acesso a informações geográficas,
demográficas, econômicas, sociais e de saúde sobre cada município. Com base nesse conjunto de informações, o candidato
deveria escolher os municípios de sua preferência, que seria
obedecida mediante a ordem de classificação obtida no processo
seletivo.
No primeiro ano, o número de municípios participantes foi de 151
(Brasil, 2001e) selecionados segundo os seguintes critérios (Brasil,
2001a):
população de até 50 mil habitantes;
não dispor do PSF;
apresentar coeficiente de mortalidade infantil igual ou superior a
80/1.000 nascidos vivos;
ser área de prioridade para o controle de malária, tuberculose
ou hanseníase;
apresentar indicador de consulta médica/habitante/ano igual ou
inferior a um;
ser participante dos programas governamentais Comunidade Ativa ou Projeto Alvorada, de combate à pobreza e à exclusão
social.
No primeiro processo seletivo, realizado em fevereiro de 2001, o
Pits registrou 15.488 inscrições, sendo 2.370 médicos (15,3%) e 13.118 enfermeiros (84,7%). Foram oferecidas 300 vagas para
médico e 300 para enfermeiro (Brasil, 2001e).
Foram classificados para as entrevistas, pela análise curricular
eletrônica, 1.200 médicos e 1.200 enfermeiros, correspondendo a
quatro candidatos por vaga, por categoria profissional. Observou-se
um absenteísmo de 45% dos candidatos, o que, aliado à falta de
comprovação curricular, levou a coordenação nacional a convocar,
na seqüência da classificação, mais 853 profissionais (777 enfermeiros e 76 médicos), totalizando 3.253 candidatos (Brasil,
2001e). Mais uma vez, registrou-se não comparecimento à
entrevista de seleção, falta de comprovação curricular, além de
desistências após a aprovação final.
Foram lotados 421 profissionais (70,1% dos 600 previstos), sendo
181 médicos (60,3% das 300 vagas) e 240 enfermeiros (80% dos
300 previstos). O número de equipes por município variava segundo o número de habitantes e a densidade demográfica. Além dos
municípios com equipes incompletas (ou seja, sem médico e com
enfermeiro), outros vinte não foram escolhidos por qualquer dos
profissionais lotados, sendo a maioria localizada na Região Norte, ficando, conseqüentemente, sem equipes (Brasil, 2001e).
A população coberta pelo Programa, em 2001, chegou,
oficialmente, a 1.536.827 habitantes (Brasil, 2002e). No entanto,
subentende-se que esse número seja menor, já que não foi
subtraída a população dos municípios que ficaram sem
profissionais.
Em outubro de 2001, devido a desligamentos e desistências de
profissionais e a fim de recompor as vagas existentes, foi feito um segundo processo seletivo para médicos e enfermeiros. Foram
preenchidas 34 vagas para médico e 29 para enfermeiro (Brasil,
2002f).
Novos desligamentos e desistências ocorreram nos meses
seguintes. Com isso, ao se completar um ano de atividade dos
profissionais no Pits (junho de 2002), a ocupação do total de vagas
para médicos diminuiu de 181 (60,3% das 300 vagas) para 165
(54,1% das vagas). No estado do Amazonas, o percentual de preenchimento das vagas para médicos foi de apenas 14%. Já a
lotação de enfermeiros passou de 77% para 81,3% de
preenchimento das vagas e só não foi de 100% porque vários
prefeitos não aceitaram equipes sem médico (Brasil, 2002f).
Oficialmente, a população coberta passou para 1.590.317, o que
representaria um incremento de 3,5% em relação ao início do
Programa (que teria sido de 1.536.827 hab., conforme já referido).
Entretanto, a mesma observação anteriormente feita é válida também aqui, subentendendo-se que essa cobertura tenha sido
menor do que a divulgada, já que apenas 54,1% das vagas para
médicos foram ocupadas.
O segundo ano do Programa de Interiorização do Trabalho em
Saúde teve início, oficialmente, em agosto de 2002. O Ministério da
Saúde publicou duas novas portarias (n. 758 e n. 1.695), com novos
dispositivos de regulamentação, a fim de promover ajustes e
adequações e ampliar as normas disciplinares (Brasil, 2002b, 2002c).
Também foram alterados os critérios de elegibilidade dos
municípios. Houve mudança no recorte do número máximo de
habitantes, que passou de 50.000 para 20.000. A Região Norte foi
dispensada da exigência de não possuir o PSF. O critério de mortalidade infantil passou a variar de acordo com a região de
localização do município. Na Região Norte, esse coeficiente ficou
estabelecido em 30 por mil nascidos vivos, com exceção do estado
de Tocantins, que ficou em 50/1.000, mesmo coeficiente definido
para o Centro-Oeste e para o estado de Minas Gerais (único da
região Sudeste contemplado pelo Programa, assim como ocorrera
no primeiro ano). Para o Nordeste foi estabelecido coeficiente
mínimo de 60 por mil nascidos vivos. Outra condição passou a ser a ausência de leito hospitalar no município, não exigido para a Região
Norte. Os demais critérios permaneceram os mesmos (Brasil,
2002e).
O Ministério abriu novas inscrições para profissionais
interessados em participar do Pits e selecionou novos municípios,
além de estimular os de 2001 a renovarem sua participação. O novo
processo seletivo obedeceu à mesma metodologia do ano anterior,
tendo sido registradas 11.635 inscrições, sendo 9.916 enfermeiros e 1.719 médicos (Brasil, 2002e).
O número total de municípios com vagas passou para 216. Desse
total, somente pouco mais da metade (56,5%), ou seja, 122
municípios, contavam com profissionais lotados, em junho de 2002
(Brasil, 2002e). Esse número deve-se ao não preenchimento de
vagas durante o processo seletivo (absenteísmo na entrevista e falta
de comprovação curricular) e desistências e desligamentos ao longo
do Programa, tanto de profissionais quanto de municípios.
Os prefeitos e os profissionais que já participavam do Pits desde
2001 foram consultados, pela coordenação nacional, em junho de
2002, sobre o interesse em permanecer no Programa. Cerca de
30% dos municípios e 17% dos profissionais não responderam à
consulta. Dentre os que responderam, o percentual de municípios
que manifestaram interesse em prorrogar sua participação por mais
um ano foi de 95,5%, muito próximo do percentual dos profissionais,
que foi de quase 93% (Brasil, 2002e). Entretanto, ao analisar o banco de dados do Programa, verifica-se que esses profissionais
eram, em sua quase totalidade, enfermeiros (Maciel Filho, 2007).
Com as eleições presidenciais de outubro de 2002 e a
conseqüente mudança de ministro em janeiro de 2003, o Pits tornou-se objeto de análise por parte da nova equipe. Foi realizado
um Seminário Nacional de Avaliação, em junho de 2003, cujo
resultado levou o Ministério à decisão de iniciar um processo de
reformulação, com o objetivo de integrá-lo às estruturas do SUS,
particularmente à atenção básica, desencadeando a transição do
Programa para os sistemas municipais de saúde. A intenção era
assegurar a permanência das equipes nos municípios, que foram
estimulados a implantar ou ampliar o PSF.
Assim, em 2003, foi incluído um número menor de novos
municípios, mantendo-se os que já faziam parte do Programa e
tinham interesse em continuar. Da mesma forma, foram abertas
menos vagas no processo seletivo do que nos anos anteriores,
preferindo-se estimular a permanência dos profissionais aprovados
em 2002 e dos poucos remanescentes de 2001, por meio da
renovação por mais um ano. Esse estímulo incluía, já desde 2002,
um acréscimo de 10% do valor da bolsa recebida.
Em julho de 2004, o Programa foi declarado oficialmente
encerrado. Apenas alguns poucos profissionais ainda se
encontravam nos municípios, e à medida que foram completando
um ano no Programa, foram retornando, paulatinamente, para suas
cidades de origem.
Ao longo dos três anos de implantação do Pits, foram
contemplados cerca de 300 municípios, aí incluídos também os que
não concluíram o período mínimo de um ano de participação. Foram aplicados no primeiro ano R$ 36,1 milhões e alocados mais R$ 70
milhões no orçamento 2002/2003 (Brasil, 2002e).
A análise do Pits, como estratégia de intervenção para enfrentar o
problema da má distribuição de médicos no país, é realizada no
capítulo seguinte.