Rumo ao interior: médicos, saúde da família e mercado de trabalho
1 - Encontros e Desencontros: mercado de trabalho e oferta de médicos nas regiões brasileiras
1 - Encontros e desencontros
mercado e oferta de médicos
nas regiões brasileiras
A inserção do médico no mercado de
trabalho em saúde: aspectos
conceituais
Transcorridos pouco mais de quinze anos de implantação do
Sistema Único de Saúde (SUS), os principais obstáculos à garantia
de universalização e eqüidade da atenção à saúde permanecem
sendo os desequilíbrios sociais, regionais e institucionais que ainda
caracterizam o setor e que compõem o quadro geral de
desigualdades da economia brasileira desde seus primórdios.
Tais desequilíbrios têm dificultado a gestão do mais complexo
insumo do setor – os recursos humanos –, agindo sobre sua
dinâmica, formação, estrutura ocupacional e mercado de trabalho,
que são fortemente influenciados pela lógica econômica da
produção de bens e serviços de saúde. Essa influência é de tal
magnitude que ainda que se postule um conceito mais humanizado
para se referir aos profissionais empregados no setor não há como
ignorar seu caráter de insumo no mercado capitalista. Entende-se, assim como Nogueira (1983: 62), que:
não faz sentido rejeitar a expressão recurso humano em nome de um
pseudo-humanismo que não admite a redução do trabalhador a uma coisa
gerenciável, o que seria uma atitude semelhante à de negar que, no
mercado capitalista, a força de trabalho possa aparecer na qualidade de
uma mercadoria. As cruas relações político-institucionais, assim como as
econômicas, são inteiramente objetivas e devem ser reconhecidas como
tais para que possamos transformá-las e verdadeiramente humanizá-las.
Os conceitos de ‘recursos humanos’ e ‘força de trabalho’, embora
aparentemente muito próximos, têm cada um sua própria esfera de
aplicação. Consagrado na economia política clássica de Smith,
Ricardo e Marx, o termo força de trabalho presta-se a um uso simultaneamente descritivo e analítico de fenômenos demográficos
e macroeconômicos, que envolvem produção, emprego,
desemprego, renda, divisão de trabalho, assalariamento etc. A
expressão recurso humano, por sua vez, é originária da ciência da
administração e refere-se à ótica gerencial ou de planejamento, em
âmbito micro ou macroinstitucional, remetendo à gestão,
capacitação, seleção, plano de cargos e salários, dentre outros
aspectos, tendo sua raiz doutrinária na teoria de sistemas (Nogueira, 1983).
Já o conceito de ‘emprego em saúde’ pode ser entendido como as
formas de inserção institucional dos profissionais no mercado de
trabalho do setor (Medici et al., 1992). O termo ‘emprego’ não se
refere a indivíduos, mas a postos de trabalho, sendo originário da
corrente teórica econômica do keynesianismo, defendida pelo
economista inglês John Keynes, e surge a partir dos anos 30, com
as preocupações do Estado em mapear aspectos específicos relacionados à demanda global por força de trabalho (Medici et al.,
1992). Os estudos sobre emprego dedicam-se a analisar os
impactos que a política pública (social ou econômica) gera sobre a
criação de postos de trabalho, dada a demanda global por trabalho
em uma dada economia.
São as leis do mercado que estabelecem as relações entre oferta
e demanda da força de trabalho. A oferta refere-se à totalidade de
indivíduos que trabalham em um determinado setor ou que buscam trabalho, ao passo que a demanda é representada pelo total de
postos de trabalho ocupados ou vacantes, proporcionados pelas
instituições daquele setor (Nogueira, 1985a).
A força de trabalho em saúde, além de estar submetida a essas
leis gerais, subordina-se às especificidades do mercado de trabalho
em saúde, o qual configurou-se de forma definitiva, no mundo
contemporâneo, no século XX, quando o Estado e o capital
passaram a determinar o preço e as relações de compra e venda da força de trabalho do setor. Trata-se de um mercado que, sujeito à mesma dinâmica que caracteriza o mercado de trabalho capitalista
em geral, incorporou, ainda, configurações específicas inerentes ao
setor de serviços de saúde.
As influências do mercado capitalista fizeram-se sentir pela
passagem do trabalho autônomo para o trabalho assalariado, pela
divisão do trabalho de tipo manufatureiro para outra de tipo industrial
e pelo aumento de escala da força de trabalho utilizada em cada
estabelecimento ou unidade produtiva. As configurações específicas
do setor saúde, por sua vez, são representadas pela permanência
de um setor predominantemente manufatureiro (o da prestação de
serviços de saúde) e outro de natureza industrial (de produção de
medicamentos e equipamentos médicos), a partir de um tronco histórico comum, em que o profissional além de prestar serviços
fabricava os instrumentos e medicamentos que utilizava (Medici et
al., 1991, 1992).
No caso do mercado de trabalho para o médico, os dois principais
fatores institucionais que o determinam são o sistema de ensino –
que forma e cria a oferta de profissionais – e o modelo de atenção à
saúde – que atua decisivamente sobre a demanda e a composição
dessa força de trabalho. Tanto a estrutura quanto o volume da oferta são regulados pelas potencialidades do sistema formador, sendo
pressionados por demandas sociais, demográficas, político-
ideológicas e pelas necessidades da estrutura produtiva. O volume
e a estrutura da demanda, por sua vez, refletem as formas
concretas de organização da assistência à saúde, como resultado
do direcionamento que as políticas sociais assumem em cada
conjuntura histórica, sendo também afetados pelas mudanças
tecnológicas e do processo de trabalho em saúde.
A regulação entre oferta e demanda pode se dar por meio da
relação direta de compra e venda da força de trabalho no mercado
ou pela mediação estatal. A intervenção do Estado se efetiva pela
política de saúde adotada, que poderá estimular a produção e o
consumo dos serviços de saúde segundo a lógica de mercado ou
mediante a lógica do bem-estar social.
Antecedentes e dinâmica do mercado
de trabalho em saúde nas últimas
décadas
No Brasil, a intervenção do Estado sobre o mercado de trabalho
em saúde começa a se dar de forma mais significativa no início do
século XX, tanto pelo surgimento de uma nova modalidade de
produção privada dos serviços de saúde quanto pela própria ação
estatal. O processo de trabalho médico no país sofria, naquele
momento, importantes alterações nos dois elementos definidores da
profissão: o conhecimento e o mercado.
Do ponto de vista do conhecimento, a associação entre condutas
clínicas e morais foi paulatinamente sendo superada em função do
desenvolvimento científico e tecnológico, com a introdução da
tecnologia diagnóstica e a incorporação dos avanços da
bacteriologia e da medicina experimental. Cada vez mais, o
exercício da atividade médica foi se tornando dependente do
aparato tecnológico, exigindo investimento de capital em máquinas
e equipamentos, estabelecendo uma maneira de fazer medicina
denominada por Donnangelo (1975) “tecnológica”.
No que se refere ao mercado, o modelo hegemônico da prática
médica com base na relação individualizada entre o médico e o
paciente, sem intermediários que estipulassem tempo, forma ou
valor da consulta, foi sendo substituído por relações mais complexas
de mercado de trabalho e de exercício da atividade profissional,
subordinadas ao contexto político e socioeconômico.1
Essas mudanças se fizeram sentir concomitantemente à própria
evolução do setor de serviços de saúde no Brasil – que pode ser
enfocada do ponto de vista histórico-estrutural em dois recortes
básicos: o da saúde pública e o da assistência médico-hospitalar –,
sendo fundamental para a compreensão dos fatores determinantes que conformaram o mercado de trabalho em saúde.
A intervenção do Estado brasileiro na saúde, até os anos 20,
limitou-se ao enfrentamento das demandas sanitárias de caráter
coletivo, tais como o saneamento básico e o controle de epidemias e endemias, subordinada aos interesses agrário-exportadores
nacionais. O atendimento médico era prestado por ordens
religiosas, sociedades beneficentes ou pelos poucos médicos
liberais.
Só posteriormente, com o início do processo de industrialização e
de formação do sistema previdenciário, a interferência estatal no
atendimento às demandas individuais por assistência médica e
hospitalar se fez sentir, dando origem a um cenário que lançaria o
Estado no centro do mercado de assistência médica e o
transformaria em seu monopolizador.
Dos anos 60 a meados da década de 1980, a ação estatal
fomentou e financiou o desenvolvimento de um complexo médico-industrial de produção de serviços e insumos, por meio de
convênios e contratos com a rede privada, organizando a prática
médica em moldes essencialmente capitalistas (Cordeiro, 1984).
A unificação das instituições previdenciárias, em 1967 –
consolidada com a criação, em 1974, do Ministério da Previdência e
Assistência Social (MPAS) –, ampliou a cobertura de assistência
médica para todos os trabalhadores do mercado formal e foi o
principal marco da ação do Estado na área da saúde, nos anos 60, com repercussões determinantes tanto no mercado de trabalho
médico quanto na formação desse profissional, ao longo das
décadas seguintes.
Como a rede de serviços de saúde era insuficiente para atender
ao expressivo aumento de demanda daí decorrente, o Estado
adotou uma política de contratação de serviços privados,
especialmente na atenção hospitalar. Estes, por sua vez, tiveram
que contratar maior número de profissionais de saúde, tornando-se o principal mercado de trabalho para diversas categorias. Entre
1966 e 1974, o número de empregos, somente nas atividades
hospitalares, passou de 150.123 para 303.098 (Medici, 1986: 409).
A natureza privatizante da ação do Estado pode ser atestada pela
grande expansão da rede hospitalar privada com fins lucrativos. Em
1978, a iniciativa privada respondia por 81,2% da rede de serviços
de saúde; já no ano seguinte, três de cada quatro leitos hospitalares
existentes no Brasil pertenciam ao setor privado, que ampliou sua capacidade de internação de 22.976 leitos, em 1960, para 211.802, em 1984 (Medici, 1986; Medici et al., 1992; Nogueira, 1986a). Essa
expansão privada não se reproduziu na rede ambulatorial, mantida
historicamente pelo setor público, responsável, em 1980, por 8.822
estabelecimentos deste tipo contra apenas 1.560 da rede privada (Nogueira, 1986a).
Esse quadro foi determinante na configuração e mesmo na
consolidação do mercado de trabalho em saúde, com um
crescimento bruto do número de empregos de cerca de 53%, entre
1961 e 1971 (Medici et al., 1992).
Tal crescimento reproduziu a própria dinâmica do emprego em
geral no país e no setor público. No período conhecido como
‘milagre econômico’ (1968-1973), a economia brasileira apresentou níveis positivos de crescimento, com repercussões nos anos
seguintes. O emprego formal cresceu, entre 1976 e 1980, a uma
taxa geométrica anual de 14,1%, sendo acompanhado por um
crescimento do emprego em saúde da ordem de 13,2% ao ano
(Medici, 1986).
Em 1982, o setor privado concentrava 51% do total de empregos
em saúde, percentual este que nos estabelecimentos com
internação alcançava 62,5% (Medici, 1986). No entanto, embora o setor público tenha investido menos na criação de leitos, gerou
maior número de empregos de profissionais de saúde por leito
instalado (Nogueira, 1986a). Em 1979, apresentava uma relação de
um emprego por leito, enquanto no setor privado (lucrativo ou
filantrópico) essa relação era de 0,7. No mesmo ano, a rede
ambulatorial pública absorveu 110.903 empregos de profissionais de
saúde contra apenas 33.588 no setor privado (Nogueira, 1986a).
Grande parte dos postos de trabalho então gerados no setor
saúde destinava-se à categoria médica e aos atendentes de
enfermagem. Em 1977, as duas categorias representavam 67,5%
dos postos de trabalho do setor (Medici, 1986). Isso configurou uma
polarização do mercado de trabalho da saúde nesses dois tipos de
profissionais.
Entre 1976 e 1982, o crescimento de postos de trabalho médicos
foi de 8,42% ao ano, sendo que no final do período (1982) já
representava 31% do total de postos de trabalho em saúde (Girardi, 1986).
O profissional médico transformou-se em um trabalhador
assalariado típico, como decorrência de todo esse contexto político,
econômico e de mercado, no qual
o crescimento do setor privado lucrativo teve um papel decisivo, não só
pelas dimensões de demanda que foi capaz de criar, como também por
fixar certos padrões de compra e venda da força de trabalho mais
qualificada: por exemplo, generalizou o uso do salário mínimo de médicos
e de seu emprego em tempo parcial. (Nogueira, 1986a: 26)
No período de 1970 a 1980, o percentual de médicos que
ganhavam menos de 10 salários-mínimos passou de 31,6% para
49,3%, evidenciando-se uma perda aquisitiva real, em um contexto
de relativo excesso de oferta desses profissionais, sob a ação das
políticas implementadas (Nogueira, 1985b).
Ao longo dos anos 80, expandiu-se o assalariamento e houve
queda dos salários reais de médicos e outros profissionais de
saúde, o que estimulou o múltiplo emprego, que já se fazia presente desde a década anterior (Medici, 1993). Com a crise econômica
iniciada em 1979, os níveis de emprego no país começaram a
declinar. Entre 1980 e 1983, o crescimento do emprego formal caiu
para 1,3% ao ano. Ainda assim, o emprego no setor público,
cresceu a uma taxa anual de 9,7%, no mesmo período. As razões
são explicadas por Medici (1986: 415):
o Estado brasileiro tem utilizado, eventualmente, sua máquina
empregatícia no sentido anticíclico, nos períodos de crise econômica, tal
como ocorreu, entre 1980 e 1983. Eleições, clientelismo político,
empreguismo, reestruturação parcial de órgãos e funções dos governos,
em diversas instâncias da administração pública têm sido algumas das
várias formas que o Estado encontrou para manter aceso, mesmo que,
casualmente, o ritmo de absorção de empregos, num período de vacas
magras para a maior parcela do setor privado.
No caso do setor saúde, esse aumento foi de 15,5% ao ano, no
período citado (1980-1983). Vale ressaltar que, embora tenha sido o
setor público o responsável por alavancar esse crescimento,
apresentando taxa de 17,6% ao ano, o setor privado também registrou incremento anual de 10,6%, o que confirma o papel de custeador das atividades privadas de saúde que o Estado
desempenhou nessa fase de nossa história (Medici, 1986).
Assim, tanto no setor público quanto no privado, foi mantido o
forte crescimento do emprego em saúde, com um incremento, no período de 1980 a 1987, de 5,3% ao ano, enquanto nas demais
atividades econômicas esse percentual foi de apenas 1,3% (Medici,
1993). No mesmo período, embora o setor privado tenha se mantido
como principal empregador, o emprego público ampliou-se mais do
que o privado, passando de 44,8% para 48,3% do total de postos de
trabalho do setor (Medici, 1993). Os médicos continuaram figurando
como principal categoria profissional no total de empregos de nível
superior, ocupando, em 1987, cerca de 69% desses postos de trabalho (Medici, 1993).
Durante toda a década, o setor público foi ampliando sua
participação como empregador desses profissionais. Em 1980, a
área privada concentrava 53,5% dos empregos médicos. Quatro
anos depois, em 1984, a esfera pública já cobria metade desses
empregos (Girardi, 1986), e em 1987 era responsável por 64,7%
dos postos de trabalho médicos contra 73,7% do setor privado
(Medici, 1993).
O final da década, no entanto, anunciava mudanças importantes
na configuração do mercado de trabalho em saúde, decorrentes de
alterações no contexto geral da política e da economia do país e do
próprio setor saúde. Até então, o aumento da capacidade de
absorção de empregos no setor havia sido sustentado,
essencialmente, pela mesma fonte financeira, ou seja, o sistema
previdenciário. O crescimento das despesas com assistência
médica amparara-se no aumento da receita previdenciária, que só foi possível graças à expansão do emprego formal nos setores
secundário e terciário da economia, fruto do crescente processo de
industrialização e da urbanização acelerada. Contudo,
paulatinamente, foi se configurando um processo de desaceleração
da economia brasileira, que redundou em um cenário de crise, com
repercussões, nos anos 90, sobre a dinâmica do mercado de
trabalho em geral.
Simultaneamente, o mercado de trabalho em saúde incorporava
mudanças provenientes do processo de descentralização do setor, iniciado já em meados dos anos 80, com as Ações Integradas de
Saúde (AIS) e consubstanciado a partir de 1988, com a implantação
do SUS.
Por um lado, manteve-se o crescimento do emprego em saúde no
setor privado, especialmente na assistência hospitalar. Em 1999,
considerando a rede total de estabelecimentos de saúde do país, a
iniciativa privada era responsável por 41% deles; tomando-se o total
de leitos hospitalares, esse percentual sobe para 70,5%. O
crescimento do emprego no setor privado foi favorecido pela
demanda de serviços especializados, diagnósticos e de alto custo
por parte do SUS a esse setor e pelo crescimento do segmento da
medicina complementar vinculada aos planos e seguros de saúde (Silva & Costa, 2002).
Por outro lado, embora ao longo da década tenha havido também
um incremento do número de empregos médicos (considerando o
período entre 1992 e 1999), tanto no setor privado (48,5%) quanto
no público (31%), algumas importantes mudanças se fizeram sentir.
Configurações específicas no mercado de trabalho em saúde foram
se verificando, provenientes, em grande parte, da transferência de
atribuição da prestação de serviços de saúde das esferas federal e estadual para a municipal. Já em 1992, o percentual de
estabelecimentos de saúde sob gestão federal caíra de 28%, em
1981, para 5%; e sob gestão estadual de 50% para 26%. Ao final da
década, em 1999, a participação federal e estadual na prestação
direta de assistência à saúde tornara-se residual, com os municípios
gerindo 92% dos estabelecimentos de saúde de propriedade estatal,
ficando o governo federal com 2% e os estados com 6% (Silva &
Costa, 2002).
Enquanto o número de empregos municipais em saúde cresceu
aproximadamente 85%, entre 1992 e 1999, houve, no mesmo
período, significativa redução no âmbito federal (57%) e estadual
(10%). Do total de empregos em saúde em 1999 (1.891.550), 53%
eram públicos e 47% privados, com os médicos respondendo por
23% do total (Silva & Costa, 2002).
Uma importante conseqüência da municipalização dos serviços
de saúde foi o incremento da atenção ambulatorial, com aumento do número de empregos para profissionais de saúde nesse nível de atenção. Esse aumento dos postos de trabalho na atenção
ambulatorial foi particularmente expressivo no caso da categoria
médica. Entre 1992 e 1999, houve, no país, um incremento da
ordem de 38% no número de postos de trabalho médicos na assistência ambulatorial do SUS (Silva & Costa, 2002).
Paralelamente, no plano macroeconômico, também se
registravam importantes alterações no mercado de trabalho
brasileiro:
As principais tendências observadas no mercado de trabalho brasileiro
na década de 1990 são o crescimento das ocupações no setor terciário da
economia, a precariedade das relações e das condições de trabalho,
crescimento do mercado informal, aumento do desemprego, estagnação
dos rendimentos médios reais e a progressiva desregulamentação –
flexibilização das condições de uso e de remuneração da força de trabalho
e mudança nos marcos de proteção e assistência aos trabalhadores (…).
(Silva & Costa, 2002: 276)
Com base em estudo desenvolvido, no ano de 2000, pelo Núcleo
de Estudos de Políticas Públicas (Nepp), da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), Silva e Costa (2002) discutem o impacto
da desestruturação e desregulamentação do mercado de trabalho
no Brasil, nos anos 90, sobre a qualidade do emprego no setor
saúde:
As mudanças estruturais e de orientação macroeconômica afetaram
seguramente os contratos de trabalho, ampliando a informalidade dos
vínculos trabalhistas e gerando poucos incentivos às atividades de
qualificação de recursos humanos pelos governos e empresas de saúde
prestadoras de serviços. (…)
A grande expansão do emprego no setor saúde municipal aparece
também fortemente associada ao processo de flexibilização e
diferenciação dos contratos de trabalho na administração pública e no
setor privado.
Consideram-se fortes indicadores de flexibilização nos tipos de
contratos de trabalho a adoção preferencial pelos gestores municipais do
regime de terceirização para cooperativas e empresas, os contratos de
autônomo e outros tipos indefinidos para expansão da força de trabalho,
principalmente na atenção ambulatorial e nos novos programas de
expansão de cobertura, como o Programa de Saúde da Família e
Programa de Agentes Comunitários. (Silva & Costa, 2002: 282-283)
Além da desregulamentação, o mercado de trabalho em saúde
experimentou, nos anos 90, queda dos salários de contratação para
a maioria dos segmentos profissionais e crescimento da oferta de
postos de trabalho nas faixas mais baixas de remuneração. No caso
dos médicos, aumenta a participação das faixas salariais de
contratação até três salários mínimos, de três a cinco e de cinco a
dez. A faixa com maior concentração de admitidos deslocou-se de
dez a vinte salários mínimos, em 1990 (36,67%), para cinco a dez
salários, em 1994 (37,14%) (Girardi, 1995).
O médico foi gradativamente deixando de viver apenas do
consultório privado e passou a depender, cada vez mais, do trabalho
assalariado ou dos convênios com os planos privados da medicina
complementar.2 Sua remuneração atingiu patamares muito baixos,
levando ao acúmulo de dois, três ou mais empregos e demandando
grande número de horas semanais de trabalho.
Os baixos salários aliados à desregulamentação têm gerado uma
tendência que à primeira vista poderia ser confundida com um
retorno à medicina liberal, revelada pela proliferação de consultórios
médicos conveniados com os seguros-saúde, mas que na realidade
significa a tentativa de recompor a renda perdida, e que se dá quase sempre associada à inserção em um ou vários empregos, em geral
públicos.
O importante estudo de âmbito nacional desenvolvido em 1995,
pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recursos Humanos em
Saúde, da Escola Nacional de Saúde Pública (Nerhus/Ensp), em
colaboração com o Conselho Federal de Medicina (CFM),
Federação Nacional dos Médicos (Fenam), Associação Médica
Brasileira (AMB) e Ministério da Saúde, intitulado Os Médicos no Brasil: um retrato da realidade, aponta outras características
marcantes da inserção da categoria médica no mercado de trabalho
em saúde que se foram configurando ao longo das últimas décadas
e que se expressaram claramente nos anos 90. São elas (Machado,
1997; Vieira et al., 1998):
Existência de um mercado com cerca de 350 mil postos de
trabalho, incluindo o setor público e o privado, para um total de
197.557 médicos ativos, que, em sua maioria, também atuam
em consultórios privados (75%);
Exercício profissional baseado em múltiplos vínculos (cerca de
75% dos médicos possuem até três atividades profissionais e
24,4% têm mais de três);
Homogeneidade quanto ao comprador ou demandante dos
serviços, ou seja, são de igual importância para o mercado de
trabalho médico as esferas pública e privada e os consultórios
particulares, observando-se que 69,7% dos médicos trabalham
em estabelecimentos públicos, 59,3% na rede privada e 74,7% em consultórios;
Atividade em consultório particular é exercida mediante
convênios ou cooperativas para 79,1% dos médicos, sendo que
16,6% exercem essa atividade em estabelecimentos de saúde
(6,8% em regime de comodato em hospitais; 6% com cessão
de percentual de produção; 3,8% com sublocação de horário);
Atuação profissional predominantemente hospitalar, tanto no
setor público quanto no privado, em todas as regiões do país; Crescente aumento da participação feminina na força de
trabalho médico, alcançando um percentual de 32,7%;
Constituição etária predominantemente jovem, com 65% de
profissionais com menos de 45 anos de idade e exercendo suas
atividades há menos de 15 anos;
Urbanização acentuada do trabalho médico, ou seja, 65,9% dos
médicos atuam nas capitais, particularmente naquelas mais
desenvolvidas social e economicamente;
Predominância de dez especialidades, entre aquelas
reconhecidas oficialmente, no mercado de serviços médicos,
representando 62,1% do total de médicos existentes no país,
sendo elas: pediatria, gineco-obstetrícia, medicina interna,
cirurgia geral, anestesiologia, cardiologia, traumato-ortopedia,
oftalmologia, psiquiatria e medicina geral comunitária;
Trabalho exercido em regime de plantão por quase metade dos
profissionais médicos (48,9%), com maior freqüência de plantões de 12/24 horas;
Faixas de rendimento variáveis em função da especialidade
exercida, sendo as mais bem remuneradas as de radioterapia,
medicina nuclear e neurofisiologia clínica (5 mil dólares),
seguidas pelas de hansenologia, endoscopia digestiva, mastologia, cirurgia cardiovascular e radiologia (4 a 4,9 mil
dólares); figurando como as de mais baixo rendimento as
especialidades de medicina sanitária, sexologia, tisiologia e
genética clínica (menos de 1.999 dólares), enquanto as
restantes percebem uma renda mensal na faixa de 3.000 a
3.999 dólares.
Cerca de uma década depois do estudo de Machado (1997), já
pode ser observada a consolidação de algumas dessas tendências.
É o que mostra a mais abrangente e recente investigação sobre a
situação do trabalho médico no Brasil. Trata-se do estudo O Médico
e o seu Trabalho, do CFM, também de âmbito nacional, realizado
com a intenção de atualizar a pesquisa de Machado e que replicou o mesmo questionário outrora utilizado, porém acrescido de algumas
alterações e inovações. O estudo do CFM foi executado pelo próprio
órgão, com apoio da Associação Médica Brasileira, entidades
sindicais e sociedades de especialistas. Os dados foram coletados
no período de outubro de 2002 a março de 2003 (CFM, 2004).
Comparando-se os dois estudos, observa-se que:
O total de médicos ativos no país passou de 197.557 para
234.554, apresentando um incremento de 18,7%;
Ampliou-se o exercício profissional com base em múltiplos
vínculos, com 28,2% dos médicos exercendo mais de três
atividades profissionais, contra 24,4% na pesquisa anterior.
Conseqüentemente, aqueles que possuem até três atividades passaram de 75% para 71,8%;
houve redução do número de médicos que atuam em
consultório (de 74,7% para 67%) e no setor privado (de 59,3%
para 53,8%), mantendo-se inalterada a porcentagem dos que
trabalham no setor público (69,7%), o qual passou a ocupar,
então, o primeiro lugar como empregador;
A atividade em consultório particular exercida mediante
convênios ou cooperativas apresentou pequena redução,
passando de 79,1% para 75%;
A atuação profissional manteve-se predominantemente hospitalar, tanto no setor público quanto no privado;
Embora tenha havido ligeira queda no percentual de
participação feminina na força de trabalho médico (de 32,7%
para 30,2), manteve-se a tendência de aumento do ingresso
das mulheres na profissão, o que pode ser observado pelo fato
de que elas já representam 40,2% dos médicos com menos de
28 anos de idade;
A constituição etária predominantemente jovem dos médicos manteve-se praticamente inalterada (63,4% de profissionais
com menos de 45 anos de idade contra 65% no estudo
anterior);
Houve pequena redução no percentual de médicos que atuam
nas capitais, que passou de 65,9% para 62,1%;
Surgem dentre as especialidades mais exercidas a urologia e a
dermatologia, fato atribuído, no estudo do CFM, a uma possível
tendência de crescimento da preferência dos médicos por áreas de maior retorno financeiro, pela execução de procedimentos,
em especial na relação com os convênios privados;
Se na pesquisa anterior o trabalho exercido em regime de
plantão atingia quase metade dos profissionais médicos
(48,9%), os números atuais mostram que esse percentual já
ultrapassou os 50%, chegando a 51,8%, ampliando-se a
freqüência dos plantões de 12/24 horas (de 49% para 54,5%);
As faixas de rendimento não foram pesquisadas pela especialidade exercida, como no estudo de Machado (1997),
mas apenas em termos genéricos; dessa forma, a investigação
do CFM aponta que cerca de um terço dos médicos atribui
queda à sua renda nos anos recentes, com mais da metade dos
profissionais (51,5%) apresentando renda mensal de até 2 mil
dólares, percentual que na pesquisa anterior era de 44,5%.
Essas características e tendências revelam as evidentes
mudanças pelas quais passou a categoria médica e o mercado de trabalho para esse profissional nas últimas décadas. No entanto,
novas alterações devem ser esperadas como resultado da
expansão do processo de descentralização do setor saúde, da
reorientação do modelo de atenção e do incessante e acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, que deverá trazer novos
paradigmas para a prática médica.
O Programa de Saúde da Família: uma
nova opção
O processo de municipalização do setor saúde mantém-se em
contínua expansão, ampliando cada vez mais a participação dessa
esfera de governo no mercado de trabalho em saúde. No ano 2000,
55% do total de empregos públicos de profissionais de saúde eram
oferecidos pela esfera municipal. No caso dos médicos, no mesmo ano, os municípios foram responsáveis por quase 53% dos postos
de trabalho públicos no setor saúde para essa categoria, seguidos
da instância estadual (46,3%), ficando a federal com apenas 0,6%
(Girardi & Carvalho, 2002).
O Programa de Saúde da Família (PSF), cuja implantação tem
sido amplamente intensificada do final dos anos 90 para cá, vem
tendo uma participação importante nessa oferta de postos de
trabalhos municipais. Criado em 1994, o Programa foi apresentado como uma proposta de atenção à saúde voltada para áreas de risco,
definidas pelo Mapa da Fome, do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea). Em sua concepção, foram previstas como principais
características: a promoção e proteção da saúde; áreas de
abrangência definidas, com adscrição de clientela; equipes com
composição mínima; residência das equipes na localidade de
atuação; participação comunitária por meio de ações de educação
em saúde; atenção integral e permanente; integração ao sistema de saúde local; impacto na formação de recursos humanos;
remuneração diferenciada e estímulo ao controle social (Brasil,
1994).
Sua implantação já cobre a grande maioria dos municípios
brasileiros e encontra-se em contínua expansão. Dados de
dezembro de 2006, disponíveis na página eletrônica do Ministério da
Saúde, 3 contabilizam 5.564 municípios que adotam essa estratégia
de atenção à saúde, totalizando 26.729 equipes (compostas por um
médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e cinco a seis
agentes comunitários de saúde), 4 cobrindo aproximadamente 86
milhões de habitantes. Cada equipe é responsável por mil famílias,
o que equivale a aproximadamente 3.500 pessoas, que são
acompanhadas mediante cadastramento, visitas domiciliares, atividades de educação em saúde, consultas e atendimento em
unidade assistencial básica, com referência para atendimentos
especializados e de maior complexidade.
O PSF vem se configurando como mais do que um programa de
saúde, expressando-se como importante estratégia de reorientação
do modelo assistencial, compreendida por muitos como uma
espécie de ‘reforma da Reforma’, em uma referência à Reforma
Sanitária consubstanciada no SUS (Viana & Dal Poz, 1998; Souza, 2002; Souza & Sampaio, 2002). Além desse aspecto, o PSF
apresenta-se como uma modalidade de intervenção com grande
potencial de ampliar o acesso à atenção básica nas diversas regiões
do país, causar impacto na configuração do mercado de trabalho e
na própria formação de profissionais para o setor.
Dadas essas características e sua expansão, o PSF encontra-se,
hoje, inserido na agenda política e social do setor, tendo trazido uma
nova dinâmica para a reestruturação dos serviços, com vistas à reorientação do modelo de atenção à saúde, representando mais
uma opção de mercado de trabalho para os médicos e outros
profissionais da área. O Programa já é responsável, direta ou
indiretamente, por cerca de 200 mil postos de trabalho, o que
representa mais de 20% do emprego público em saúde (Girardi &
Carvalho, 2003).
Um inquérito nacional realizado em 2001, pela Estação de
Pesquisa de Sinais de Mercado da Universidade Federal de Minas Gerais (Nescon/UFMG), mostra que o PSF responde por 3,4% da
demanda institucional de postos de trabalho médico e por 9,5% do estoque de emprego formal desse profissional, absorvendo 5,5% da
oferta de médicos (Girardi & Carvalho, 2003).
No entanto, as formas de contratação temporária e por prestação
de serviços, no PSF, predominam amplamente sobre todas as outras formas de contrato. Quando se analisa a contratação de
médicos pelo PSF observa-se que, em conjunto, essas duas
modalidades de vínculo são responsáveis por 70% dos contratos
desses profissionais (Girardi & Carvalho, 2003). Indagados, no
estudo do Nescon, sobre os motivos que levam à utilização de
formas precárias de contratação de profissionais, mais da metade
dos municípios apontaram a ‘flexibilização’ (57,8%) e as restrições
impostas pela ‘Lei de Responsabilidade Fiscal’ (53,8%); vindo a seguir o ‘menor custo’ (36,8%) e a ‘instabilidade no financiamento’
do Programa (34,5%) (Girardi & Carvalho, 2003).
Quanto às vantagens e problemas atribuídos pelos gestores
municipais na utilização de formas de contratação precárias, 43,1%
dos municípios identificaram como principal vantagem a
‘flexibilidade’, nas suas diversas formas (para admissão e demissão,
gerencial etc.); e como principal problema a ‘instabilidade e
desproteção do trabalho’ (47,7%) (Girardi & Carvalho, 2003).
Os autores do estudo chamam a atenção para as conseqüências
desse quadro sobre a definição, pelo PSF, de estratégias e
instrumentos de gestão e desenvolvimento de recursos humanos e
sobre a própria qualidade do emprego gerado pelo Programa.
Qualidade que fica comprometida pela fragilidade das formas de
vinculação praticadas, que desconsideram direitos trabalhistas
consagrados no setor público e no mercado de trabalho formal
privado.
Apesar disso, ou talvez por causa disso, o Programa oferece bons
níveis de remuneração profissional (dois mil dólares, em média,
para o médico, segundo a pesquisa do Nescon). Os salários pagos
aos médicos pelo PSF são, em média, 76% superiores aos de
mercado para esse profissional (Girardi & Carvalho, 2003). Esse
aspecto é uma das principais preocupações e dificuldades que os
gestores têm enfrentado na implantação e manutenção do PSF e se
insere no contexto mais amplo da tendência à desregulamentação do mercado de trabalho brasileiro, já referida.
O estudo do Nepp, citado anteriormente, revela a amplitude dessa
desregulamentação. Em 2000, somente 22% dos municípios
brasileiros adotavam a modalidade estatutária como principal tipo de
contrato de trabalho para médicos na atenção básica. O contrato dessa categoria profissional via Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT) era praticado, na Região Sudeste, por 35% dos municípios,
enquanto a terceirização para empresas e cooperativas médicas era
adotada por 18% dos municípios da Região Sul. No Centro-Oeste, a
informalidade predomina, com 38% dos municípios contratando
médicos como autônomos. Já as regiões Norte e Nordeste
apontaram “outros tipos de contratos flexibilizados” como a principal
forma de contratação de médicos, com 40% e 39% de municípios nessa condição, respectivamente (Unicamp apud Silva & Costa,
2002).
Outro importante estudo que ajuda a compreender o PSF como
campo de atuação profissional foi realizado, no ano de 2000, pelo
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recursos Humanos em Saúde,
da Fundação Oswaldo Cruz (Nerhus/Fiocruz), em conjunto com o
Ministério da Saúde. A pesquisa, de âmbito nacional, teve por
objetivo traçar o perfil dos médicos e enfermeiros que atuam no Programa. Os resultados confirmam os achados do estudo do
Nescon, no que se refere ao percentual de 70% de médicos com
contratos temporários, mas revelam também outros aspectos
essenciais para a compreensão do PSF como mercado de trabalho
(Machado, 2000). São eles:
Quase 60% dos médicos que trabalham no PSF têm menos de
40 anos de idade;
A maioria pertence ao sexo masculino (56%);
Em geral, são oriundos de escolas médicas públicas (74%) e
estão formados há menos de 15 anos (63%);
Cerca de 70% não são especialistas, ou seja, não possuem
nenhuma formação específica após a graduação, incluindo residência ou especialização;
Dentre os que possuem alguma especialidade, predomina a
pediatria (20%), seguida por medicina do trabalho (18%),
medicina geral e comunitária (15%), gineco-obstetrícia (14%),
medicina sanitária (11%) e saúde da família (9%);
83% exerceram alguma atividade médica anterior à contratação
para o PSF;
70% consideram más as condições de trabalho oferecidas pelo
Programa;
A renda média mensal obtida com o trabalho médico é de 2.229
dólares.
Obviamente, esse perfil nacional dos médicos atuantes no PSF
pode apresentar variações quando analisadas as diferentes regiões
brasileiras e mesmo municípios de uma mesma região, dada a
grande diversidade de situações sociais, políticas e econômicas que
caracterizam nosso país. Esses aspectos serão considerados e
apresentados no capítulo seguinte. Por ora, vale destacar os
resultados encontrados na já referida pesquisa O Médico e o seu
Trabalho, do CFM, que, além dos pontos então apresentados, também abordou a percepção dos médicos acerca do PSF e do
SUS, no que se refere ao impacto nas condições de saúde e no
trabalho médico (CFM, 2004).
Cerca de 84% dos médicos pesquisados informaram que o PSF
se encontrava implantado na ‘cidade e/ou região’ em que atuavam.
Para a maioria deles, o Programa foi responsável por um
‘aumento/melhora’ do emprego médico (74,6%) e da cobertura da
assistência (70%). Entretanto, para grande parte dos médicos, com a implantação do PSF, não se alteraram as condições de trabalho
(54,2%), a qualidade dos serviços (44,6%), a organização dos
serviços (44,1%) e os rendimentos médicos (42,1%). Deve-se
ressaltar que, no caso dos rendimentos, o percentual de
profissionais que identificaram ‘aumento/ melhora’ com a
implantação do PSF foi de 40,6%.
De modo geral, é possível assumir que há uma impressão
razoavelmente positiva do PSF, por parte dos médicos, ainda que se considere a necessidade de aperfeiçoar seus mecanismos de
gestão. Nesse sentido, ao opinarem sobre os fatores que poderiam
assegurar a eficácia do PSF, os médicos participantes do estudo
apontaram como ‘totalmente prioritários’ os seguintes aspectos: condições de trabalho (81,8%), remuneração (77,7%), infra-
estrutura (77,1%), plano de carreira (65,9%), critérios de seleção
para acesso (64,2%), vínculo trabalhista (63,1%), estabilidade no
emprego (59,1%) e hierarquia na equipe (47,1%).
Já em relação ao SUS, a percepção é mais desfavorável. Se a
maioria dos médicos por um lado acredita que sua implantação
acarretou ‘aumento/melhora’ da cobertura da assistência (50,7%) e
do emprego médico (44,8%); por outro, também avalia que houve
‘diminuição/piora’ das condições de trabalho (52,6%), dos
rendimentos médicos (52,4%), da qualidade dos serviços (47,4%) e
da organização dos serviços (40,7%).
Esses resultados indicam a necessidade de se auscultar cada vez
mais os profissionais de saúde, a população e os gestores, no
sentido de identificar, segundo a percepção desses atores, os nós
críticos e recomendações para que as estratégias de intervenção
governamental possam apresentar maior eficácia e adesão.
As mudanças que o mercado de trabalho médico vem sofrendo ao
longo das últimas décadas, entre as quais a consolidação do SUS e
do PSF se incluem, também provocaram alterações na composição,
volume e condições da oferta desses profissionais. Os mesmos fatores econômicos, políticos, institucionais e tecnológicos que
acarretaram tais transformações, aliados a outros, redimensionaram
a oferta, a formação e a qualificação dos profissionais requeridos
para atuarem nesse novo cenário. Essa discussão passa a ser
agora analisada.
A oferta de médicos e seus
determinantes históricos
Embora a primeira escola médica tenha sido criada quando o
Brasil ainda era Reino Unido de Portugal, no início do século XIX (1808), o número de médicos no país só se tornou significativo mais
de cem anos depois, a partir da década de 1960. Até então, a
formação desses profissionais dava-se em ritmo lento e regular. Em
1920, existiam nove escolas de medicina; em 1940 esse número subira para apenas 13, mantendo-se assim até os anos 50. No
entanto, em apenas uma década e meia (1950 a 1966), o número
de escolas médicas saltou de 13 para 40 (Teixeira, 1982). Dal Poz e
Varella (1995) atribuem ao surgimento de novas escolas médicas características de ‘surto’, ocorrido em dois períodos: de 1950 a
1964, quando foram criadas quase duas escolas por ano,
totalizando 23; e de 1965 a 1971, com seis escolas novas a cada
ano, que totalizaram mais 37 instituições desse tipo.
Se o lento crescimento até então registrado pode ser atribuído,
dentre outros fatores, à elitização da política educacional vigente, a
rápida expansão a partir dos anos 60 pode ser associada a dois
principais fenômenos: o comportamento do mercado de trabalho, que começa a ampliar-se com a expansão da rede assistencial
derivada da medicina previdenciária, como já discutido, e os
propósitos estatais e da sociedade de democratizar o ensino no
país.
Além desses fatores, deve-se também acrescentar o diagnóstico
bastante freqüente que então se fazia, tanto por estudos
governamentais quanto acadêmicos, em torno do déficit de médicos
para atender as necessidades de saúde do país, dadas as desigualdades sociais e extensão territorial. Scorzelli Jr., em 1967,
diretor geral do então Departamento Nacional de Saúde, por
ocasião da 4ª Conferência Nacional de Saúde, realizada naquele
ano, afirmava:
Dizer-se, por exemplo, que o Brasil necessita de 1 médico por 1.000
habitantes, é adotar uma expressão global, que desconhece a acentuada
variedade de necessidade de seu território. Não obstante, como valor
global e em ponto de partida, serve como indicação de que temos um
déficit de quase 50.000 médicos, a serem acrescentados aos 34.000
conhecidos. (Brasil, 1967)
Para suprir essa demanda, foi estimulada, pelo Estado, a
ampliação do aparelho formador de médicos. Essa política
encontrava respaldo, inclusive, nas próprias análises que a
Organização Pan- Americana da Saúde (Opas) efetuava sobre a
situação da atenção médica nos países latino-americanos.
Nesse contexto, foram criadas, no Brasil, entre 1965 e 1975, 53
novas escolas médicas, o que significou uma taxa de crescimento
de 230% (Nogueira, 1985b). Para além dos fatores específicos que
fomentaram a expansão do ensino médico, outros elementos foram decisivos para esse crescimento, que não se restringia às escolas
médicas, mas ao ensino superior como um todo, fruto de uma
política de governo que incentivou a formação universitária, para
diversas outras carreiras, em um contexto desenvolvimentista.
O país vivia a fase do desenvolvimentismo econômico, sob a
égide do governo autoritário, com crescimento do mercado interno
de bens e serviços e urbanização acelerada, gerando novos postos
de trabalho para diversas profissões. Entre 1968 e 1973, o número de alunos universitários saltou de 278.295 para 820.493,
representando um crescimento da ordem de 200% (Nogueira,
1986a).
No início dos anos 60, a Comissão de Planejamento de Formação
de Médicos do então Ministério da Educação e Cultura (MEC)
elaborou um documento em que previa para o período 1963-1983,
ou seja duas décadas, a criação de vinte novas escolas médicas.
Contudo, em apenas cinco anos desse período, entre 1965 e 1970, nada menos que 33 novas faculdades de medicina foram
autorizadas pelo ministério a funcionar (Quadra & Amancio, 1984).
No ano final daquele período (1983), o número de concluintes dos
cursos de medicina foi de 7.289 novos médicos, o que representou
um incremento de aproximadamente 75% em relação aos
concluintes de 1963 (Machado, 1996b; Nogueira, 1986a). Ainda
assim, este não foi o ápice do fluxo de concluintes, que se deu em
1978, quando chegou a 8.722, entrando em queda nos anos seguintes e mantendo-se até o final da década de 1980 em torno de
7.000 egressos por ano (Dal Poz & Varella, 1995; Nogueira, 1986a).
Essa queda foi resultado de política governamental explícita que
proibiu a abertura de novas escolas e o aumento excessivo do
número de vagas nas já existentes, determinação que vigorou até
1989 (Machado, 1997; Nogueira, 1986a).
Documentos oficiais e mesmo diversos estudos produzidos por
entidades privadas, associações de escolas ou pesquisadores contribuíram para justificar esse aumento desordenado das escolas médicas. Isso porque, além de não explicitarem a lógica política e
ideológica que fomentou esse incremento e que reproduzia a
estrutura educacional de modelos estrangeiros, também não
abordaram as formas de financiamento envolvidas e a relação com a incorporação tecnológica e a política de saúde prevalente:
A maioria das conclusões de tais trabalhos, que sempre identificavam
como fator irretoquível um déficit de profissionais, justificou (no sentido de
fornecer pretexto) a expansão de matrículas e a criação de novas escolas
na área de saúde, em especial, escolas médicas, em especialíssimo,
privadas; justo no eixo Rio-São Paulo. Salvo uns meritórios, mas logo
contidos ímpetos modernizadores, multiplicar vagas e faculdades nada
significava em termos de transformações de conteúdos temáticos e
pesquisa voltada aos problemas nacionais de saúde. (Quadra & Amancio,
1984: 245)
A subordinação do modelo de formação médica brasileiro a
moldes estrangeiros, a que se referem Quadra e Amancio, diz
respeito principalmente à aplicação do modelo flexneriano, de
origem norteamericana, que exerceu sua influência sobre nós a
partir da 2ª Guerra Mundial. Até então, as escolas de medicina
brasileiras inspiravam-se no modelo europeu, especialmente o francês. Proposto pelo Relatório Flexner, em 1910, sob os auspícios
da Associação Médica Americana, o modelo flexneriano tornou-se
um novo paradigma para a prática e a formação médicas. Propunha
a expansão do ensino clínico com base em unidades assistenciais,
a integração de escolas médicas em universidades e a introdução
da pesquisa associada ao ensino.
Adotado em toda a América latina, tornou-se, contudo,
rapidamente, objeto de crítica e insatisfação, em função da constatação de que não respondia às necessidades sociais dos
países subdesenvolvidos, que careciam inclusive de recursos para
aplicá-lo. Nos Estados Unidos, país emblemático do modelo
assistencial de inspiração flexneriana, 90% dos recursos disponíveis
para a saúde são consumidos para tratar apenas 11% dos pacientes
(Maciel Filho, 2001).
A adoção do modelo flexneriano, que torna o ensino médico
baseado em investigação clínica aplicada no hospital, representa o triunfo da concepção cientificista da medicina. No caso brasileiro,
esse cenário se expressa, ainda hoje, pelo distanciamento entre a
educação médica e a realidade socioeconômica e sanitária do país,
ao mesmo tempo em que se mostra coerente com o modelo médico-assistencial hegemônico. À exceção de iniciativas
governamentais mais recentes e ainda incipientes, como será visto
mais adiante, as respostas que o sistema formador procurou dar aos
problemas sociais e de saúde se limitaram a ser de caráter
quantitativo.
A educação é o momento da reprodução das práticas e da
formação profissional daqueles que estarão ativos no mercado ao
longo dos próximos trinta a quarenta anos. O modelo tradicional de ensino com base no hospital como locus privilegiado do processo de
aprendizagem, muitas vezes desarticulado do sistema de saúde,
não responde às necessidades de uma formação em que o princípio
da integralidade da atenção é a base das práticas de saúde.
Adicionalmente, as abordagens pedagógicas tradicionais utilizadas
não habilitam os profissionais enfrentarem o desafio de práticas
cada vez mais complexas e em constante processo de
transformação (Maciel Filho, 2001).
É preocupante constatar que o diagnóstico dessa cisão entre
ensino médico e realidade social vem sendo reiterado há décadas,
tendo conseguido sobrepujar-se às tentativas de reordenamento da
formação desse profissional. Assim é que o cenário descrito por
Silva, há mais de vinte anos, em 1986, na Conferência Nacional de
Recursos Humanos para a Saúde, continua, infelizmente, marcado
pela sua atualidade:
(…) a escola médica não teve ainda a capacidade de entender a
questão do ensino-aprendizagem como um processo onde é fundamental
a interação entre o objeto, o professor e o aluno. (…)
Este modelo educacional acrítico, ahistórico e cientificista corresponde à
grande maioria senão à totalidade das escolas médicas brasileiras. (…) os
hospitais universitários constituem o campo de prática preferencial (…).
Tais hospitais, na maior parte dos casos, colocam-se em posição distante
da realidade que os cerca (…).
Ainda que na maioria dos regimentos das escolas médicas brasileiras
esteja estabelecido o compromisso com a formação de um profissional
técnico e eticamente preparado para atender aos problemas prioritários da
comunidade, tal não acontece. (…)
A falta de formação científica sólida, aliada à mitificação tecnológica e
ao descompromisso social, transformam o médico formado num elo
fundamental na cadeia do consumo de produtos (medicamentos) e
equipamentos. (…)
Portanto, em relação ao seu produto, a escola médica cumpre uma
função de através dele perpetuar um modelo médico-assistencial único,
determinado por interesses industriais e mercantilistas. (Silva, 1986: 9-10)
O grande incremento na formação de médicos se deu atrelado a
duas importantes alterações na estrutura demográfica da oferta da
força de trabalho médica, já referidas: sua feminilização e seu
rejuvenescimento. A feminilização pode ser atribuída às mudanças
socioculturais da sociedade brasileira nos anos 60 e 70,
particularmente nos grandes centros urbanos, ampliando a
participação feminina na vida econômica e social. A participação feminina na força de trabalho médica teve um incremento, entre
1970 e 1980, da ordem de 77,6%. Com exceção do Distrito Federal,
houve, no mesmo período, crescimento da participação feminina no
trabalho médico em todas as regiões, passando de 11,6% para
20,6% no país como um todo. O maior percentual foi registrado na
Região Nordeste, com 27,5%, e o menor na Região Sul, com 14%
de mulheres no total de médicos (Medici, 1985).
A feminilização mostrou-se mais expressiva, no período citado,
nas faixas de idade mais jovens (até 29 anos e de 30 a 39), com
incrementos de 57% e 54,8%, respectivamente, enquanto, na faixa
etária de 40 anos e mais, esse aumento foi de 12% (Medici, 1985).
No que se refere ao rejuvenescimento da força de trabalho, os
profissionais com menos de 30 anos, que, em 1970, representavam
cerca de 14%, passaram para quase 23%, em 1980, ao mesmo
tempo em que os com mais de 60 anos reduziram sua participação
de 10,88% para 6,28% (Medici, 1985).
Mas a principal conseqüência do fenômeno de expansão do
ensino da medicina, conhecido como o boom das escolas médicas,
foi o expressivo aumento de oferta dessa força de trabalho nos anos
subseqüentes, coerente com a expansão capitalista do setor na
década de 1970. Se até 1950, as 13 escolas médicas brasileiras eram todas públicas, a partir da década de 1960 a rede privada é
que se torna majoritária. Atualmente, a relação é mais igualitária,
com o país possuindo 119 escolas médicas reconhecidas pelo
Ministério da Educação, sendo 65 públicas e 54 privadas, que
formam, aproximadamente, 10.000 médicos por ano. 5
Foi a partir de meados dos anos 70 que passou a ser registrada a
reversão da tendência das políticas e orientações expansionistas de formação de médicos. Fizeram parte desse contexto, a Primeira
Reunião sobre Princípios Básicos para o Desenvolvimento da
Educação Médica na América Latina e no Caribe, promovida pela
Opas em 1977 e a Assembléia Mundial da Saúde, no mesmo ano,
que definiu como principal meta para os governos, nas décadas
seguintes, a “saúde para todos no ano 2000”. Um ano depois, a
Conferência Internacional sobre Atenção Primária de Saúde,
realizada em Alma-Ata, na então União Soviética, declarou a atenção primária como parte integrante e central do sistema
nacional de saúde. Começavam a ganhar relevo as discussões
sobre os aspectos qualitativos da formação.
A ênfase passou a recair sobre a reforma curricular e estrutural do
ensino médico, com destaque para a integração docente-
assistencial, os programas de extensão comunitária e a medicina
comunitária. Esse debate surgiu como decorrência da constatação
de que à expansão quantitativa e de natureza essencialmente privada se juntara a acentuada especialização da prática e da
formação médica, que correspondeu, como já visto, a uma
segmentação do mercado de trabalho, com ênfase em algumas
especialidades.
A intervenção do Estado consolidou a especialização como
princípio organizador da prestação de serviços médicos, refletido no
investimento na rede hospitalar e na expansão dos programas de
residência médica. Introduzida no país em 1945, embora só oficializada em 1977, a residência médica veio a configurar-se como
modalidade de ensino responsável pela formação do maior número
de especialistas, caracterizando-se como pós-graduação com
treinamento em serviço e regime de dedicação exclusiva.
A residência médica surgiu amparada pelo paradigma
predominante da formação médica, no Brasil, o da chamada ‘medicina científica’, de tradição flexneriana, baseada na divisão do
trabalho segundo especialidades. Racionalizou a prática médica e
atendeu à intervenção estatal então praticada, que fortaleceu e
mesmo financiou um modelo de atenção à saúde hospitalocêntrico.
Aliada a esse processo de especialização, a incorporação
tecnológica tornou-se uma das bases sobre a qual se assentou a
formação e a prática da medicina, gerando maior valorização de
mercado e status social de algumas áreas de especialização em
relação a outras, de caráter mais generalista e menos intensivas em
tecnologia.
A especialização tornou-se o meio pelo qual as inovações
tecnológicas foram sendo absorvidas pela medicina, configurando uma prática segmentada, com áreas detentoras de características
específicas de formação e mercado de trabalho, em uma espécie de
“tribalização da profissão médica”, como denomina Machado
(1996a). A autora mostra, em outro trabalho, que, segundo recente
tabela de especialidades médicas divulgada pelas entidades da
corporação, são poucas aquelas que não são compostas por
subespecialidades, o que amplia a tabela para cerca de 150
especialidades (Machado, 2003). A pediatria, por exemplo, é composta por mais de 30 áreas de atuação, que, anexadas a ela ou
a outras, assumem o status quase de uma profissão, com sua
própria autonomia, conhecimentos específicos e inserção no
mercado de trabalho.
Não se trata, é claro, de negar a importância do médico
especialista, mas de ressaltar que “sua atuação quali e quantitativa
deverá ser melhor orientada, senão pelo próprio mercado de
trabalho, pelo menos por regulamentações que a limitem como resposta às reais necessidades, freando seu crescimento com fins
mais especulativos” (Ferreira, 2001: 36).
Como ressalta Feuerwerker (2001), embora o Ministério da Saúde
tenha representação na Comissão Nacional de Residência Médica
(CNRM), que está abrigada no próprio Ministério da Educação, o
órgão tem funcionado em uma espécie de “mundo à parte”, não
havendo tradição de diálogo entre os dois ministérios.
E a residência médica, situada na interface dos processos de prestação
de serviços e formação, sofre particularmente com essa desarticulação.
Assim, (…) as definições a respeito de programas, vagas, especialidades
não estão minimamente articuladas às políticas ou às necessidades do
sistema de saúde. (Feuerwerker, 2001: 50)
Aliado ao crescimento desordenado dos programas de residência
médica, manteve-se o aumento do número de escolas médicas,
sem que ambos estejam efetivamente orientados pelas
necessidades do sistema de saúde e do modelo de atenção.
Na década de 1990, houve o que Rego (2005: 29) denomina “um
novo surto de crescimento quantitativo” das escolas de medicina,
resultante de uma política de governo que liberou a criação de
novas escolas. Mas, dessa vez, a liberação apresentou
características distintas daquelas que marcaram o boom dos anos
60 e 70, em face da necessidade de desenvolver o setor saúde e de
privilegiar políticas circunstanciais. Foram estabelecidas normas,
pelo governo federal, para regular as iniciativas de criação dessas
novas escolas. No entanto, essas normas “nunca chegaram a ser realmente efetivas e cumpridas, já que a maioria dos grupos de
investidores interessada em criar escolas médicas encontrou
caminhos para desrespeitar o decreto presidencial” (Rego, 2005:
41). Assim, entre 1995 e 2001, foram criados 21 novos cursos de
medicina, representando um aumento de 24,7%, com um
crescimento do número de vagas da ordem de 36,8%, passando de
8.247 para 11.282 vagas. Isso significou um crescimento de 86,1%
de vagas privadas e de apenas 2,2% de vagas públicas no país (Vieira et al., 2004).
Em 2003, o Ministério da Saúde, atendendo a uma resolução do
Conselho Nacional de Saúde (CNS), suspendeu, por meio de
Portaria, a criação de novos cursos superiores na área da saúde,
por 180 dias, inclusive as solicitações que já se encontravam em
andamento. Em março de 2004, também como decorrência de uma
resolução do CNS e por solicitação de oito entidades médicas,
dentre elas o CFM, o Ministério da Educação prorrogou essa decisão por mais 60 dias. Atualmente, os dois ministérios vêm
estudando critérios que envolvam uma abrangência conjunta de
atuação no credenciamento de cursos e que considerem o papel regulador do Estado, a regionalização, a ampliação da rede pública
de ensino e novas propostas pedagógicas.
Essas iniciativas, que deverão servir como subsídio para a
proposta de Lei Orgânica da Reforma da Educação Superior, a ser apreciada pelo Congresso Nacional, “apontam a construção de
processos regulatórios que podem reverter de fato as tendências
observadas, que caracterizam o sistema de ensino no país como
desordenado, desigual e privatizado” (Vieira et al., 2004: 200).
Enquanto isso, o governo federal investiu simultaneamente em uma
política de avaliação do funcionamento dessas escolas, criou um
exame nacional para os graduandos e assegurou maior autonomia
às escolas na definição do currículo médico, restringindo-se a estabelecer o perfil do profissional a ser formado.
Ainda é cedo para avaliar o impacto dessa política, mas, de
qualquer forma, é possível afirmar que
tais iniciativas, polêmicas e muito questionadas pela corporação médica
através de suas diversas entidades representativas, ainda não
demonstraram sua eficácia no enfrentamento dos problemas da educação
médica no Brasil, mas seus resultados após o primeiro ano são
extremamente alvissareiros. (Rego, 2005: 42)
A reação das entidades médicas à tentativa de instituir um
sistema de avaliação dos cursos médicos, externo à corporação, já
vinha se dando desde 1990, quando houve a primeira tentativa por
parte do governo federal nesse sentido. A corporação médica pretendia que fosse adotado o sistema criado e executado pelas
entidades representativas da classe e estruturado como uma
comissão, a Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do
Ensino Médico (Cinaem). Entretanto,
Após dez anos de funcionamento, a Cinaem ainda não conseguiu
produzir resultados concretos que afastassem a imagem de uma ação
corporativista e que sugerissem ser este o caminho mais eficaz na
construção de alternativas ao modelo vigente no Brasil. Persiste-se dando
muita ênfase na identificação e na elucidação dos entraves do processo
educativo, enfoca-se ora o docente, ora o discente, ora a infra-estrutura e
os meios de ensino, mas parece que persiste ainda a falta de idéias (…),
embora esta falta não seja apenas latino-americana. Em suma, mais do
que falta de vontade de mudar, o que parece prevalecer é a total falta de
idéia de para onde e como ir.
Esta crítica, todavia, não deve ser entendida como se fôssemos
simplesmente contrários ao esforço empreendido pela Cinaem (…).
Entendemos que a Cinaem possibilitou a manutenção da discussão sobre
a educação médica na agenda de diversos atores, com alguns resultados
louváveis e meritórios. Mas a rigor, quando comparamos como está o
ensino médico hoje com o de 1990, poucas das mudanças observadas
podem ser corretamente atribuíveis ao processo empreendido pelas
entidades que compõem a Cinaem. (Rego, 2005: 43)
A necessidade de mudanças qualitativas e quantitativas na
formação dos médicos e na distribuição geográfica desses profissionais tem sido ainda mais enfatizada a partir do contínuo
processo de crescimento e consolidação da estratégia de Saúde da
Família. Foi assim que, em 2002, uma parceria entre o Ministério da
Saúde, o Ministério da Educação e a Abem, deu origem ao
Programa de Incentivo para Mudanças Curriculares para
Faculdades de Medicina (Promed). Criado pela portaria
interministerial n. 610, o Promed tem como finalidade “incentivar a
promoção de transformações dos processos de formação, geração de conhecimentos e prestação de serviços à comunidade, por meio
de inovações curriculares, baseadas nas Diretrizes Curriculares
para os Cursos de Medicina” (Brasil, 2002a). Seus objetivos são:
I. inovar o processo de formação médica, de modo a propiciar
profissionais habilitados para responder às necessidades do
sistema de saúde brasileiro;
II. estabelecer mecanismos de cooperação entre os gestores do
SUS e as escolas médicas;
III. incorporar, no processo de formação médica, noções
integralizadas do processo saúde-doença e da promoção de
saúde;
IV. ampliar a duração da prática educacional na rede de serviços
básicos de saúde;
V. favorecer a adoção de metodologias pedagógicas, centradas
nos estudantes, visando prepará-los para a auto-educação
continuada. (Brasil, 2002a)
O termo de referência que apresenta o Promed o define como
“um sistema de incentivos às Instituições de Ensino Superior que
adotem práticas de ensino, pesquisa e de atenção à saúde
sintonizadas com o paradigma da integralidade” (Brasil, 2002d: 14). Como ‘situação desejada’ define que:
O que se busca é a intervenção no processo formativo para que os
programas de graduação possam deslocar o eixo da formação – centrado
na assistência individual prestada em unidades hospitalares – para um
outro processo em que a formação esteja sintonizada com o SUS, em
especial com a atenção básica, e que leve em conta as dimensões sociais,
econômicas e culturais da população, instrumentalizando os profissionais
para enfrentar os problemas do binômio saúde-doença da população na
esfera familiar e comunitária e não apenas na instância hospitalar. (Brasil,
2002d: 13-14)
No entanto, ainda que um sistema de incentivos como o Promed
possa vir a obter algum sucesso, a mudança da formação médica é
um processo bastante complexo, que envolve inúmeras variáveis e
atores. De qualquer forma, é possível concordar com Rego (2005:
43), para quem o Promed é uma iniciativa que “pela primeira vez,
aponta não apenas uma direção concreta para as mudanças, respeitando as peculiaridades, idiossincrasias e autonomia de cada
faculdade, mas também oferecendo recursos financeiros e
consultorias”.
A criação do Promed teve como principal justificativa o
entendimento de que:
o Ministério da Saúde tem como uma de suas prioridades essenciais a
atenção básica, mediante a qual pretende ordenar a formação de recursos
humanos para a saúde. Tal proposta, no entanto, defronta-se com a
precária disponibilidade de profissionais gerais, dotados de visão
humanística e preparados para prestar cuidados contínuos e resolutivos à
comunidade, funcionando como a porta de entrada do sistema de saúde.
Na superação desse obstáculo, os gestores do SUS e das instituições
acadêmicas vêm empreendendo esforços para resolver os urgentes
problemas da incorporação de profissionais à estratégia de Saúde da
Família, por intermédio da implantação dos Pólos de Capacitação em
Saúde da Família na maioria das Unidades Federadas. (…) É necessário,
entretanto, que sejam implementadas ações de maturação a médio e
longo prazos, voltadas à melhoria da formação profissional. Para tanto, as
IES, responsáveis por essa formação, deverão ter papel protagônico e ser
os sujeitos desta ação, e não mais um participante entre muitos outros.
(Brasil, 2002d: 11-12)
É sabido que mudanças desse porte não ocorrem “da noite para o
dia [nem se realizam] em termos de substituição radical do padrão
hegemônico que vigora no presente” (Ferreira, 2001: 36). Ainda
estão por serem dimensionados os desafios que este modelo de
atenção à saúde, representado pela estratégia de Saúde da Família,
traz no campo dos recursos humanos, inclusive na prática médica
(Cordeiro, 2000).
Mas a receptividade desse novo modelo, pela sociedade e pelos
gestores do SUS, indica que se trata de algo que veio para ficar. Esta proposta guarda relação direta com o que as escolas médicas
declaram como sua missão: a formação terminal de um profissional
qualificado, voltado para as necessidades epidemiológicas e sociais.
No entanto, esta tarefa não pode ser exclusiva do Estado. Ela se
constitui em um desafio para a sociedade como um todo. O papel do
governo deve ser o de instituir políticas que induzam a mudança,
assumindo, para o seu adequado desenvolvimento, o princípio da
parceria com os agentes sociais que entendam a sua emergência.
O potencial do PSF como estratégia de reorientação do modelo
de atenção à saúde e de consolidação como opção atrativa de
mercado e de formação para o profissional de medicina gera
expectativas importantes não apenas quanto à sua repercussão
sobre o mercado de trabalho e a formação médica, mas também
quanto ao seu grau de contribuição para minimizar a desigual
distribuição de médicos nas diversas regiões e municípios do país.
Descompassos entre aspectos
demográficos e disponibilidade de
médicos
A configuração do mercado de trabalho e da formação médica
desenhada na década de 1960, aliada ao crescimento populacional,
trouxe conseqüências para a distribuição desses profissionais em
relação à população das diversas regiões brasileiras.
Já em 1970, cerca de 80% dos médicos do país concentravam-se
nas regiões Sudeste e Sul, embora nelas residissem
aproximadamente 60% da população. A Região Norte, que já
comportava cerca de 4% da população total não contava sequer
com 1% dos médicos disponíveis. A mesma relação de
precariedade constatava-se na Região Nordeste, que, com quase
30% da população brasileira, dispunha de pouco mais de 17% dos
médicos disponíveis no país (Nogueira, 1986b).
Embora dez anos depois o número de médicos no Brasil tenha
mais do que duplicado, passando de 45.113 para 101.793, o mesmo
ocorrendo com a relação médico por mil habitantes, que passou de
0,48 médicos/1.000 hab. para 0,85 por mil, isso não se deu de forma
homogênea e igualitária. Ainda que, aparentemente, tenha havido
um progresso, já que houve ampliação do número de médicos em
relação à população em todas as regiões brasileiras – com exceção
exatamente da Região Sudeste, que detinha a maior concentração desses profissionais –, as acentuadas disparidades regionais
mantiveram-se ao longo do período.
Desse modo, a Região Sudeste continuou com o maior percentual
de médicos em relação à população (cerca de 60% dos médicos
disponíveis no país, para aproximadamente 40% da população
brasileira). A Região Sul, por sua vez, também registrou uma
sobreproporção de médicos em relação ao número de habitantes. E
o Nordeste continuou contando com apenas 18% do total de médicos do país para uma população que correspondia a
aproximadamente 30% da população brasileira (Nogueira, 1986b).
Ainda que tenha havido, no mesmo período (1970-1980), uma
evolução positiva em níveis bastante expressivos da relação de
habitantes por médico nas cinco regiões, deve-se atentar para o fato
de que essa oferta de profissionais encontrava-se fortemente
concentrada nas áreas urbanas centrais, particularmente nas
capitais. Além disso, no caso da Região Norte, o importante avanço registrado (de 11.123 hab./médico para 2.261) fica comprometido pela grande dispersão geográfica da população naquela área, que
se mantém ainda hoje e que funciona como uma barreira adicional
ao acesso à atenção médica (Nogueira, 1986b).
Apenas os estados do Maranhão, Rio Grande do Norte e Sergipe,
na Região Nordeste, e São Paulo, na Região Sudeste, reduziram
sua participação relativa na disponibilidade de médicos do país, no
período, mas por motivos distintos. Quase certamente, como
ressalta Medici (1985), os estados nordestinos citados não
obtiveram ao longo da década um cenário econômico e social capaz
de atrair ou reter os profissionais de medicina; ao passo que São
Paulo já apresentava desde fins dos anos 60 um mercado de
trabalho com excessiva concentração desses profissionais. Foi registrada, ainda, grande carência de médicos nos estados da
Região Norte, que nos casos do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima
era de escassez absoluta no início e/ou final do período (Medici,
1985).
A evolução positiva da distribuição relativa de médicos, na maioria
dos estados brasileiros, entre 1970 e 1980, pode ser atribuída
predominantemente ao aumento do grau de urbanização do país e à
elevação dos níveis de assalariamento. Porém, outros fatores típicos daquele período, como a grande concentração regional da
renda nacional, tornaram-se fatores decisivos que impedem, ainda
hoje, uma distribuição mais eqüitativa de médicos.
Além disso, entre 1970 e 1980, ocorreu pela primeira vez uma
redução absoluta da população rural do país, com ampliação do
percentual de habitantes nas regiões urbanas de 55,9% para 67,6%
(Medici, 1985).
A desigualdade da distribuição dos profissionais de medicina em
relação ao número de habitantes já se verificava não apenas entre
as regiões do país, mas também entre a área urbana e a rural,
mesmo nas regiões mais favorecidas, assim como entre a capital e
os demais municípios de um mesmo estado. Considerando-se, por
exemplo, apenas as regiões metropolitanas do país, no período em
questão, percebe-se que ocorreu elevada concentração de médicos
que residiam nessas áreas, em detrimento dos demais municípios
dos respectivos estados, especialmente na Região Nordeste. A região metropolitana de Recife que, em 1980, detinha 35% da população do estado de Pernambuco, concentrava 95% do total de
médicos daquele estado. Também no Ceará registrou-se o mesmo
fenômeno, com a região metropolitana de Fortaleza concentrando
77% dos médicos para uma população que representava 30% do total do estado, naquele ano. Ainda na Região Nordeste, embora em
níveis mais baixos, a região metropolitana de Salvador também
mostra importante concentração de médicos em relação à
população total da Bahia, com percentuais de 49 e 19%,
respectivamente, no ano de 1980. Vale destacar que, no caso de
Recife, a situação representou um agravamento, já que no início dos
anos 70 a concentração de médicos era dez pontos percentuais
mais baixa (Medici, 1985).
Minas Gerais e Paraná reproduziram, no mesmo período, o
padrão elevado da relação médico/população total do estado, em
suas regiões metropolitanas, embora com percentuais mais baixos
do que os verificados na Região Nordeste. Já São Paulo e Rio de
Janeiro apresentaram índices mais equilibrados, considerando-se
que em suas regiões metropolitanas concentravam-se, em 1980,
respectivamente, 50% e 80% da população total desses estados
para um percentual respectivo de 60% e 82% de médicos nessas áreas (Medici, 1985).
A situação foi se agravando nos anos seguintes, com
concentração desses profissionais nas capitais, em meados dos
anos 90, que se mostrava maior nas regiões mais desfavorecidas
economicamente. Assim, os estados do Norte e Nordeste
apresentavam, em 1995, percentuais próximos de 80% a quase
96% dos seus médicos atuando nas capitais, contra valores em
torno de 50% nos estados das regiões Sul e Sudeste, com exceção do Rio de Janeiro, onde 74% encontravam-se na capital. Apenas os
estados de Minas Gerais, Santa Catarina e o então recém-criado
Tocantins apresentavam menor percentual de médicos nas capitais
em relação às demais cidades do estado, com valores de 46,4%,
30,8% e 12,8%, respectivamente. A relação mais equilibrada entre
disponibilidade de médicos nas capitais e nos demais municípios
era registrada na Região Sul, com aproximadamente 50% para
ambos os casos, excetuando-se Santa Catarina, como já referido, onde essa relação era ainda mais favorável aos demais municípios.
Dados de maio de 2007, do Conselho Federal de Medicina,6
permitem acompanhar a situação atual nas 27 unidades da
Federação. Os estados com a maior relação de médico por
habitante são o Maranhão (1 médico/1.583 hab.), Piauí (1
médico/1.156 hab.), Pará (1 médico/1.153 hab.), Rondônia (1
médico/1.123 hab.) e Acre (1 médico/1.010 hab.). Já o Distrito
Federal, com índice de 1 médico/247 hab., o Rio de Janeiro (1 médico/275 hab.) e São Paulo (1 médico/399 hab.) são os que
contam com a maior disponibilidade de médicos relativamente à sua
população.
Esse cenário é parcialmente justificado pela própria distribuição
dos serviços de saúde no Brasil, que também apresenta
características de desigualdade, como veremos adiante.
Desigualdades na distribuição dos
serviços de saúde
A desigual distribuição de médicos reflete a concentração dos
serviços de saúde nas regiões mais favorecidas economicamente,
particularmente expressiva nas décadas de 1970 e 1980. Já em
1980, a Região Sudeste concentrava cerca de 41% dos
estabelecimentos de saúde e aproximadamente 55% dos
profissionais do setor. A distribuição dos estabelecimentos de saúde
nessas duas décadas era menos concentrada do que a dos
profissionais em todas as regiões e na quase totalidade dos
estados. Isso se explica por se tratarem, nesse caso, de estabelecimentos de menor nível de complexidade, com baixa
absorção de profissionais, caracterizando uma distribuição
geográfica heterogênea entre unidades de saúde de maior
complexidade tecnológica, como os hospitais, e aquelas de menor
complexidade, voltadas para o atendimento ambulatorial (Medici et
al., 1992).
As forças do mercado exercem forte pressão sobre a distribuição
dos profissionais de saúde, particularmente dos médicos, reproduzindo a própria distribuição dos meios de produção do serviço médico, mesmo porque onde esses meios se encontram é
também onde ocorre a maior geração de produtos e renda. Esse
fenômeno é facilmente observável quando se constata que é nas
regiões mais ricas e de maior Produto Interno Bruto (PIB) que se concentra a maioria dos estabelecimentos médicos privados.
A evolução da distribuição dos estabelecimentos de saúde
públicos e privados, ao longo da década de 1980 e início dos anos
90, nas regiões brasileiras, mostra que, nos anos 80, embora o
crescimento da rede pública tenha sido superior ao da rede privada,
em todas as regiões, foi no Norte, Centro-Oeste e Sul que ele se
mostrou mais expressivo (Machado, 1997). No entanto, nos anos
finais da década de 1980 e início de 90, o crescimento do setor público só se manteve superior ao da iniciativa privada na Região
Norte, o que corrobora o maior interesse do investimento privado
nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, que apresentaram os
maiores percentuais de incremento desse setor. É nessas três
regiões que, historicamente, vem se concentrando a oferta de
serviços médicos de maior complexidade, especialmente composta
por hospitais privados, e onde os serviços ambulatoriais encontram-
se quase igualitariamente divididos entre os setores público e privado contrariamente ao que é observado nas regiões Norte e
Nordeste, nas quais o atendimento ambulatorial tem sido
majoritariamente oferecido por estabelecimentos públicos, e os
serviços hospitalares são mais equilibradamente distribuídos entre
os dois setores.
Mesmo com a expansão da oferta de postos de trabalho médico
nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, registrada ao longo
dos anos 80, essa categoria profissional manteve sua concentração nas cidades do Sudeste e Sul. De 1981 a 1987, o número de postos
de trabalho para médicos na Região Sudeste cresceu apenas 7%,
enquanto o Norte e o Nordeste registraram crescimento da ordem
de 55% e 48%, respectivamente (Dal Poz & Varella, 1995). A
ampliação das oportunidades de emprego médico nessas regiões
com maior carência, associada à concentração desses profissionais
no Sul e Sudeste, aprofundou ainda mais, nos anos seguintes, a
distribuição desigual de médicos no país.
O aumento da oferta de postos de trabalho, em todas as regiões
brasileiras, intensificou-se nos anos 90, com a ampliação do
processo de descentralização da rede de serviços de saúde, que
chega em 2002 a um total de 65.343 estabelecimentos em todo o país, de acordo com os dados da última Pesquisa Assistência
Médico-Sanitária (AMS), realizada em 2002 pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). Cerca de 55% deles estão
localizados nas regiões Sudeste e Sul.
Ainda segundo a AMS, a década de 1990 chega ao fim com a
participação federal e estadual na prestação direta de assistência à
saúde tendo se tornado residual, com os municípios gerindo 94%
dos estabelecimentos de saúde de propriedade estatal, ficando o governo federal com 2% e os estados com 4%. Esse quadro
reproduziu-se em todo o país, sendo apenas levemente diferenciado
na Região Norte, onde, em 2002, ainda se encontravam sob gestão
estadual 10% dos estabelecimentos públicos de saúde, 6% com a
esfera federal e 85% com a municipal.
Uma importante conseqüência da municipalização dos serviços
de saúde foi o incremento da atenção ambulatorial, com aumento do
número de empregos para profissionais de saúde nesse nível de atenção, particularmente para os médicos. Assim, comparando-se
os dados da AMS de 1992 e 2002, percebe-se que houve, no país,
um incremento da ordem de 46% no número de postos de trabalho
médicos nos estabelecimentos públicos sem internação, chegando a
115% na Região Norte.
Esse incremento dos postos de trabalho, nos anos 90, veio
associado à intensificação da tendência de acúmulo de empregos
ou atividades profissionais por parte dos médicos, já discutida anteriormente. Tal tendência também apresenta especificidades
regionais, desfavoráveis às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Dessa forma, já em 1995, essas regiões eram as que apresentavam
os maiores percentuais de médicos exercendo quatro ou mais
atividades profissionais (28,6%, 26,1% e 26,9%, respectivamente),
gerando maior sobrecarga de trabalho para aqueles que atuam
nessas regiões. No Norte e no Nordeste registravam-se os menores
índices de profissionais com apenas uma atividade (15,2% e 15,6%, respectivamente) (Machado, 1997).
A crescente ampliação de unidades do PSF, decorrente do
processo de municipalização, e que surge como mais uma
alternativa de oferta de serviços médicos e de mercado de trabalho,
também apresenta especificidades regionais. Ao analisar as formas de contratação direta desses profissionais (via prefeituras) e indireta
(por meio de entidades filantrópicas ou organizações do Terceiro
Setor), Girardi e Carvalho (2003) revelam, em estudo amostral, que
os maiores índices de contratos temporários e de prestação
autônoma de serviços são registrados nas regiões Norte, Nordeste e
Centro-Oeste, com níveis superiores ao da média nacional.
Ainda que se considere que a precariedade das formas de
contratação do PSF é verificada em todo o país, os índices comparativamente mais elevados encontrados nessas regiões
podem ser apontados como fatores adicionais que desestimulam os
médicos a atuarem no PSF dessas áreas, prejudicando,
conseqüentemente, a própria oferta de serviços médicos do
Programa para a população que nelas reside. Esse cenário vem se
agregar ao conjunto de fatores que contribuem para a má
distribuição de médicos no território nacional, como também é o
caso da concentração da oferta de formação desses profissionais nas regiões mais favorecidas social e economicamente.
A concentração de escolas médicas7
O grande número de escolas médicas criadas no Brasil nos anos
60 e 70 localizou-se preferencialmente nas regiões Sul e Sudeste, áreas de maior desenvolvimento econômico e social. Essa
tendência se manteve nas décadas seguintes, fazendo com que,
das 119 escolas médicas existentes em 2006, cerca de 67%
estejam localizadas nas regiões Sul e Sudeste. Do total de escolas
localizadas na Região Sudeste, 75% encontram-se nos estados de
São Paulo e Rio de Janeiro.
Os estabelecimentos de ensino médico públicos predominam nas
regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O setor privado, por sua vez, se concentra nas regiões Sudeste e Sul, onde estão localizadas
59% das escolas privadas.
Mais da metade dos médicos graduados em faculdade públicas
(51,8%) moram na Região Sudeste, sendo que na Região Nordeste
residem apenas 20,6% e no Sul, 16,1%. A concentração de
egressos no Sudeste é ainda mais alarmante no caso dos profissionais que se graduaram pela rede privada, onde residem
cerca de 75 % desses profissionais (Machado, 1997).
O mesmo padrão de concentração dos cursos de medicina se
repete com os programas de residência médica e seus egressos.
Cerca de 80% desses programas localizam-se nas regiões Sudeste
e Sul (Feuerwerker, 1998).
A origem social dos médicos tem se alterado e,
conseqüentemente, também a dos médicos residentes. Se até os anos 50, esses profissionais eram oriundos, em sua maioria, de
famílias abastadas e de origem rural, hoje, são mais urbanos e
provenientes de uma camada social mais intelectualizada. Mais de
um terço dos médicos residentes é filho de profissionais liberais,
especialmente médicos. São profissionais oriundos da classe média
urbana, com elevado nível educacional, que em sua quase
totalidade (cerca de 80%) estão nas capitais (Machado, 1997).
Feuerwerker (2001: 51) lembra que “o fato de o médico recém-
formado fazer residência fora do seu local de origem é um
importante fator de concentração dos médicos nos principais centros
urbanos e especialmente na Região Sudeste”. Esta afirmação é
confirmada pelo estudo de Machado (1997), que mostra que 60%
dos médicos que migram para fazer residência médica não retornam
ao seu local de origem.
Bittar (1999), dentre outros autores (Arruda, 2001; Machado,
1997; Salim, 1992), mostra a correlação direta entre o PIB das regiões e estados e o respectivo número de vagas para residência
médica, escolas de medicina e disponibilidade de médicos. Em
resumo, é possível dizer que a alta concentração de médicos nos
centros urbanos e a sua má distribuição pelo restante do território
nacional estão diretamente ligadas às desigualdades
socioeconômicas e regionais, conseqüências diretas, por sua vez,
do baixo investimento público e privado nas áreas mais carentes do
país. Num círculo vicioso, tais fatores acarretam má qualidade de vida para a população dessas regiões e não proporcionam as condições adequadas para o exercício profissional da medicina,
desencorajando a opção do profissional em atuar nessas áreas.
Desestímulo que é também agravado pela precariedade das
relações trabalhistas em muitos municípios dessas áreas e pela falta de centros de pós-graduação e de atualização profissional em
localidades próximas.
Esse cenário acarreta um grande desafio para a política de saúde,
especialmente no momento em que se tenta reformular e humanizar
o modelo assistencial. Com o objetivo de examinar como o país vem
lidando com esse problema, vale a pena conhecer as estratégias e
alternativas já empregadas.