Saco de Ossos

Stephen King · Capítulo 14 de 32

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Saco de Ossos

Capítulo Doze

 

Durante minha caminhada de volta para a casa, tentei não pensar em absolutamente nada. Meu primeiro editor costumava dizer que 85 por cento do que acontece na cabeça de um romancista não é da conta dele, uma sensação que nunca acreditei que estivesse restrita somente a escritores. O suposto pensamento mais elevado é, de um modo geral, altamente superestimado. Quando o problema aparece e passos têm que ser dados, descubro que geralmente é melhor apenas ficar de lado e deixar os rapazes no porão fazerem seu trabalho. O trabalho realizado ali embaixo é operário, caras não sindicalizados com muitos músculos e tatuagens. O instinto é sua especialidade, e só transmitem problemas para o andar de cima para real ponderação como último recurso.

 

Quando tentei ligar para Mattie Devore, aconteceu uma coisa extremamente peculiar — uma que não tinha nada a ver com fantasmas, tanto quanto eu podia perceber. Em vez do ruído de dar linha, quando apertei o botão para ligar o telefone sem fio, obtive silêncio. Então, exatamente quando pensava que devia ter deixado o telefone no quarto norte fora do gancho, percebi que não era um silêncio total. Distante como uma transmissão de rádio do espaço sideral, vivo e grasnando como um pato animado, um sujeito com uma boa dose de Brooklyn na voz cantava: “He followed her to school one day, school one day, school one day. Followed her to school one day, which was again the rule…”

Abri a boca para perguntar quem era, mas, antes que pudesse fazê-lo, uma voz de mulher disse:

— Alô? — Parecia perplexa e desconfiada.

— Mattie? — Em minha confusão, jamais me ocorreu chamá-la de algo mais formal, como srta. ou sra. Devore. Nem parecia estranho que eu soubesse ser ela baseado numa única palavra, ainda que nossa única conversa anterior tivesse sido relativamente breve. Talvez os rapazes do porão reconhecessem a música de fundo e fizessem a conexão com Kyra.

— Sr. Noonan? — Ela parecia mais perturbada que nunca. — O telefone nem chegou a tocar!

— Devo ter levantado o meu exatamente quando sua chamada foi feita — falei. — Isso acontece de tempos em tempos. — Mas eu me perguntei quantas vezes acontecia quando a pessoa ligando para você era aquela para a qual você mesmo estava planejando ligar? Talvez muito frequentemente, na verdade. Telepatia ou coincidência? De qualquer modo, parecia quase mágico. Através da longa sala de estar, olhei nos olhos vidrados de Bunter, o alce americano, e pensei: Sim, mas talvez este lugar seja mágico agora.

— Talvez — disse ela em dúvida. — Em primeiro lugar, peço desculpas por ligar, é uma presunção. Seu número não está na lista, eu sei.

Ah, não se preocupe com isso, pensei. Todo mundo tem esse velho número agora. Na verdade, estou até pensando em colocá-lo nas Páginas Amarelas.

— Eu o tirei de seu arquivo na biblioteca — continuou, parecendo constrangida. — É onde trabalho. — Ao fundo, “Mary Had a Little Lamb” tinha dado lugar a “The Farmer in the Dell”.

— Tudo bem — eu disse. — Sobretudo porque eu estava telefonando para você.

— Para mim? Por quê?

— Primeiro as damas.

Ela deu uma risada breve e nervosa.

— Queria convidá-lo para jantar. Quer dizer, Ki e eu queremos convidá-lo para jantar. Eu devia ter te convidado antes. O senhor foi tremendamente bom conosco no outro dia. Pode vir?

— Sim — eu disse sem a mínima hesitação. — E te agradeço. Temos algumas coisas para conversar, de qualquer modo.

Houve uma pausa.

— Mattie? Ainda está aí?

— Ele o arrastou para isso, não é? Aquele velho horrível. — Agora a voz dela não soava nervosa, mas um tanto desfalecida.

— Bem, sim e não. Você pode argumentar que o destino me arrastou, ou uma coincidência, ou Deus. Eu não estava lá naquela manhã por causa de Max Devore; estava atrás do indefinível Villagebúrguer.

Ela não riu, mas sua voz se animou um pouco, e fiquei contente. As pessoas que falam daquele modo morto, sem emoção, são geralmente pessoas assustadas. Que às vezes têm sido completamente aterrorizadas.

— Ainda lamento ter te arrastado para o meu problema. — Achei que ela podia começar a se perguntar quem estaria arrastando quem depois que eu lhe passasse informações sobre John Storrow, e fiquei contente por não ter que ter aquela conversa ao telefone.

— De qualquer modo, adoraria ir jantar. Quando?

— Essa noite seria muito em cima da hora?

— De modo nenhum.

— Maravilha. Mas temos que comer cedo, para a pequerrucha não dormir em cima da sobremesa. Está bom às seis?

— Está.

— Ki vai ficar agitada. Não temos muita companhia.

— Ela não anda perambulando de novo, anda?

Achei que poderia ficar ofendida. Mas desta vez ela riu.

— Minha nossa, não. Toda aquela confusão no sábado a assustou. Agora ela entra para me dizer que está indo do balanço no pátio ao lado para a caixa de areia nos fundos. Mas tem falado um bocado no senhor. Ela o chama de “aquele homem alto que me carregô”. Acho que se preocupou com o fato de o senhor ter ficado zangado com ela.

— Diga a ela que não fiquei — falei. — Não, não. Eu mesmo digo a ela. Posso levar alguma coisa?

— Uma garrafa de vinho? — perguntou, um pouco em dúvida. — Ou talvez isso seja muito pomposo, eu ia só fazer hambúrgueres na grelha e salada de batata.

— Levo uma garrafa de vinho não pomposa.

— Obrigada — disse ela. — É uma festa. Nunca temos companhia.

Fiquei horrorizado ao descobrir que eu também estava prestes a dizer que achava uma festa, meu primeiro encontro em quatro anos e tal.

— Muito obrigado pela gentileza.

Ao desligar lembrei-me de John Storrow aconselhando-me a tentar ficar visível quando estivesse com ela e a não fornecer material extra para a fofoca da cidade. Se Mattie ia fazer hambúrgueres na grelha, provavelmente estaríamos do lado de fora, onde as pessoas podiam ver que estávamos vestidos... pelo menos na maior parte da noite. Contudo, em algum momento ela teria a delicadeza de me convidar para entrar. Eu então teria a delicadeza de entrar. Admiraria seu quadro de Elvis de veludo na parede, ou suas placas comemorativas de Franklin Mint, ou fosse lá o que tivesse como decoração do trailer; eu deixaria Kyra me mostrar seu quarto e exclamaria, admirado, diante de sua extraordinária coleção de bichinhos de pelúcia e de sua boneca favorita, se fosse preciso. Há todo tipo de prioridades na vida. Algumas seu advogado pode entender, mas suspeito que outras ele não pode.

— Estou lidando com isso direito, Bunter? — perguntei ao alce empalhado. — Um urro para sim, dois para não.

Estava na metade do caminho do corredor levando à ala norte, pensando apenas numa chuveirada fria quando, atrás de mim, muito suavemente, ouvi um breve toque do sino pendurado no pescoço de Bunter. Parei com a cabeça de lado, a camisa numa das mãos, esperando que o sino tocasse de novo. Não tocou. Depois de um minuto, desci o resto do corredor até o banheiro e deslizei para o chuveiro.

 

O Armazém Lakeview tem uma seleção muito boa de vinhos enfiada num canto — talvez porque não haja muita demanda local por eles, mas os turistas provavelmente compram uma boa quantidade — e escolhi uma garrafa de Mondavi tinto. Era provavelmente um pouco mais cara do que Mattie tinha em mente, mas eu podia arrancar a etiqueta de preço e ela não veria a diferença. Havia uma fila no caixa, sobretudo pessoas com camisetas úmidas sobre roupas de banho e areia da praia pública grudada nas pernas. Enquanto esperava minha vez, meu olho esbarrou nos itens de compra que ficam estocados no caixa, à espera de um consumidor impulsivo. Entre eles havia várias bolsas de plástico com a etiqueta ÍMÃS, cada bolsa mostrando o desenho de uma geladeira com as letras magnéticas formando as palavras VOLTA JÁ. Segundo a informação dos pacotes, havia dois jogos de consoantes em cada bolsa, MAIS VOGAIS EXTRAS. Peguei dois conjuntos... e acrescentei um terceiro, achando que a filha de Mattie Devore provavelmente tinha a idade certa para o artigo.

 

Kyra me viu parando na grama em frente ao pátio da entrada, pulou do deteriorado balancinho ao lado do trailer, disparou para perto da mãe e se escondeu atrás dela. Quando me aproximei da churrasqueira portátil armada ao lado dos degraus da frente de blocos de concreto, a criança que tinha falado comigo tão destemidamente no sábado era apenas um olho azul que espiava e uma mão rechonchuda agarrando uma dobra abaixo do quadril do vestido de verão da mãe.

Duas horas, porém, provocaram mudanças consideráveis. Enquanto o crepúsculo se aprofundava, Kyra sentou no meu colo na sala do trailer, escutando cuidadosamente — embora com aturdimento crescente — eu ler para ela a eternamente fascinante história de Cinderela. O sofá onde sentávamos tinha um tom de marrom que por lei só pode ser vendido em lojas com descontos, sendo, além disso, extremamente encalombado; mesmo assim me senti envergonhado por imaginar o que encontraria no trailer. Na parede acima e atrás de nós havia uma gravura de Edward Hopper — aquela de um solitário balcão de almoço tarde da noite — e do outro lado da sala, na pequena mesa com tampo de fórmica no canto da cozinha, estava outra da série Girassóis de Vincent van Gogh. Mais ainda que Hopper, ele parecia em casa no trailer tamanho duplo de Mattie Devore. Eu não sabia por quê, mas era um fato.

— O sapatinho de vidro vai cortar o pezinho dela — disse Ki de um modo estudado, ponderado.

— De modo nenhum — eu disse. — O vidro para os sapatinhos era especialmente feito no Reino de Grimório. Macio e inquebrável, desde que a gente não dê um agudo enquanto usá-los.

— Eu posso ter um par?

— Lamento, Ki — eu disse —, ninguém mais sabe fazer um sapatinho de vidro. É uma arte perdida, como o aço de Toledo. — Fazia calor no trailer e ela estava quente contra minha camisa, onde se instalou a parte superior de seu corpo, mas eu não a removeria. Ter uma criança em meu colo era fantástico. Do lado de fora, sua mãe estava cantando e recolhendo os pratos da mesa de jogo que tínhamos usado para nosso piquenique. Ouvi-la cantar era fantástico também.

— Continua, continua — disse Kyra, apontando para o retrato de Cinderela no chão. A garotinha espiando nervosamente ao lado da perna da mãe tinha desaparecido: a zangada menina de vou-pra-praia da manhã de sábado também; havia ali apenas uma sonolenta criança bonita, inteligente e confiante. — Antes que eu não possa segurar mais.

— Quer fazer xixi?

— Não — respondeu ela, olhando-me com algum desdém. — Além do mais se diz u-ri-nar. Xixi não é palavra nenhuma, é o que Mattie diz. E eu já fui. Mas se você não contar rápido essa história, vou cair no sono.

— Não se pode apressar histórias mágicas, Ki.

— Vai mais depressa que puder.

— Tá. — Virei a página. Lá estava Cinderela tentando ter espírito esportivo, dando adeus para as irmãs nojentas indo ao baile vestidas como estrelinhas numa discoteca. — Assim que Cinderela se despediu de Tammy Faye e Vanna...

— Eram os nomes das irmãs?

— Os que eu inventei para elas, sim. Está bem?

— Claro. — Ajeitou-se mais confortavelmente no meu colo e pousou a cabeça no meu peito de novo.

— Assim que Cinderela tinha se despedido de Tammy Faye e Vanna, uma luz brilhante apareceu de repente no canto da cozinha. Dela saiu uma linda senhora num vestido prateado. As joias em seu cabelo reluziam como estrelas.

— A fada madrinha — disse Kyra taxativamente.

— É.

Mattie entrou levando a meia garrafa remanescente de Mondavi e os instrumentos escurecidos do churrasco. Seu vestido de verão era de um vermelho vivo. Usava nos pés tênis de cano curto tão brancos que pareciam brilhar na penumbra. Seus cabelos estavam amarrados para trás e embora não fosse a deslumbrante garota country-club que eu tinha previsto brevemente, era muito bonita. Então ela olhou para Kyra e para mim, ergueu as sobrancelhas e fez um gesto com os braços. Balancei a cabeça, informando que nenhum de nós dois estava pronto ainda.

Continuei a ler enquanto Mattie ia lavar seus poucos utensílios de cozinha, ainda cantarolando. No momento em que terminou com a espátula, o corpo de Ki assumira um relaxamento adicional que reconheci logo — ela tinha capotado. Fechei o Pequeno tesouro dos contos de fadas e o coloquei ao lado de dois livros na mesinha de centro — fosse lá o que Mattie lia no momento, pensei. Ergui os olhos e a vi olhando para mim da cozinha, e fiz-lhe o sinal de V de vitória.

— Noonan, o vencedor por nocaute técnico no oitavo round — eu disse.

Mattie enxugou as mãos numa toalha de pratos e se aproximou.

— Me dá ela aqui.

Em vez disso, levantei-me.

— Eu a levo. Para onde?

Apontou.

— À esquerda.

Levei a criança pelo corredor bastante estreito, obrigando-me a ter cuidado para não bater com seus pés num lado e a cabeça no outro. Ao final do corredor havia um banheiro, imaculadamente limpo. À direita, uma porta fechada que imaginei dar para o quarto que Mattie um dia partilhou com Lance Devore e onde agora dormia sozinha. Se havia um namorado que passava a noite mesmo de vez em quando, Mattie teve êxito em apagar sua presença do trailer.

Eu me esgueirei cuidadosamente pela porta à esquerda e olhei para a pequena cama com a colcha rosa, a mesa com a casa de boneca, o retrato da Cidade das Esmeraldas em uma parede, uma placa (feita em letras adesivas brilhantes) em outra que dizia CASA KYRA. Devore queria tirá-la dali, um lugar onde nada estava errado — onde, ao contrário, tudo estava perfeitamente certo. Casa Kyra era o quarto de uma garotinha que estava crescendo em harmonia.

— Coloque-a na cama e depois se sirva de outro copo de vinho — disse Mattie. — Vou pôr o pijama nela e venho conversar com você. Sei que tem coisas para falar comigo.

— Certo. — Pus Kyra na cama e depois me curvei um pouco mais, querendo dar-lhe um beijo no nariz. Quase desisti, mas, depois, pensando melhor, o fiz mesmo assim. Quando saí do quarto, Mattie sorria, portanto, acho que estava tudo bem.

 

Eu me servi de um pouco mais de vinho, voltei à pequena sala de estar com ele e olhei os dois livros ao lado da coleção de contos de fadas de Ki. Sempre tenho curiosidade de saber o que as pessoas estão lendo; o único insight melhor sobre elas está no conteúdo dos armários dos banheiros, e remexer nos remédios e panaceias do anfitrião é malvisto pelas pessoas de bem.

Os livros eram suficientemente diferentes para serem qualificados de esquizoides. Um deles, com um marcador de carta de baralho assinalando que três quartos haviam sido lidos, era a edição popular de Testemunha silenciosa , de Richard North Patterson. Aplaudi seu bom gosto; Paterson e DeMille são provavelmente os melhores romancistas populares atuais. O outro, um volume de capa dura de algum peso, era Contos reunidos de Herman Melville. Tão longe de Richard North Patterson quanto possível. Segundo a tinta roxa e desbotada estampada na espessura das páginas, aquele livro pertencia à Biblioteca Comunitária de Four Lakes. Era uma pequena e adorável construção de pedra a uns 8 quilômetros ao sul de Dark Score Lake, onde a rota 68 sai da TR e entra em Motton. Onde Mattie trabalhava, imagino. Abri o livro na marcação, outra carta de baralho, e vi que ela estava lendo “Bartleby”.

— Não entendo isso — disse ela atrás de mim, assustando-me tanto que quase larguei o livro. — Eu gosto dele, é uma história bastante boa, mas não tenho a mínima ideia do que significa. Mas na outra, agora, já até imaginei quem fez a coisa.

— É um par estranho para ser lido paralelamente — falei, colocando-os de volta no lugar.

— O Patterson estou lendo por prazer — disse Mattie. Entrou na cozinha, olhou rapidamente (e com algum anseio, pensei) para a garrafa de vinho, então abriu a geladeira e pegou uma jarra de refresco. Na porta da geladeira estavam as palavras que a filha já tinha reunido da bolsa de ímãs: KI e MATTIE e HOHO (Papai Noel, imaginei). — Bem, estou lendo os dois por prazer, eu acho, mas vamos discutir “Bartleby” num pequeno grupo ao qual pertenço. Nós nos encontramos às quintas à noite na biblioteca. Ainda tenho que ler dez páginas.

— Um círculo de leitores.

— Ahã. Conduzido pela sra. Briggs. Ela o formou muito antes de eu nascer. É a bibliotecária-chefe de Four Lakes, você sabe.

— Sei. Lindy Briggs é cunhada de meu caseiro.

Mattie sorriu.

— Mundo pequeno, não é?

— Não, o mundo é grande, mas a cidade é pequena.

Ela começou a se apoiar no balcão com o copo de refresco, mas teve outra ideia.

— Por que não sentamos lá fora? Desse modo qualquer um que passar vai ver que ainda estamos vestidos e que nada está acontecendo aqui dentro.

Olhei para ela, espantado. Ela me encarou com uma espécie de bom humor cínico. Não era uma expressão que parecia se encaixar muito em seu rosto.

— Posso ter apenas 21 anos, mas não sou burra — disse. — Ele está me observando. Sei disso, e você também, provavelmente. Em outra noite, poderia ficar tentada a dizer foda-se se ele não aguentasse uma piada, mas está mais fresco lá fora e a fumaça da churrasqueira vai manter a maior parte dos insetos longe. Eu o choquei? Se choquei, desculpe.

— Não, não. — Ela me chocara, um pouco. — Não precisa se desculpar.

Levamos nossas bebidas para os degraus não-muito-firmes do bloco de concreto de cinzas e sentamos lado a lado em duas espreguiçadeiras. À nossa esquerda, os carvões da churrasqueira fulguravam num rosa suave na escuridão crescente. Mattie se recostou, colocou a curva gelada do copo brevemente na testa, depois bebeu a maior parte do que tinha sobrado, os cubos de gelo batendo contra os dentes com um clique e um chacoalhar. Os grilos cantavam nos bosques atrás do trailer e do outro lado da estrada. Mais distante, na rodovia 68, eu podia ver as brilhantes luzes fluorescentes brancas por cima da ilha de combustível do Armazém Lakeview. O assento de minha cadeira estava um pouco folgado, as tiras trançadas um pouco esfarrapadas, e a velha cadeira se inclinava fortemente para a esquerda, mas não havia nenhum outro lugar em que eu preferisse estar no momento. A noite se revelou um pequeno e calmo milagre... pelo menos até agora. Ainda tínhamos que falar de John Storrow.

— Fiquei contente que tenha vindo na terça — disse ela. — As noites de terça são difíceis para mim. Estou sempre pensando no jogo de bola lá no Warrington’s. A essa altura os rapazes estão escolhendo o equipamento... os bastões, as bases e as máscaras de apanhador, e colocando de volta no armário do estoque atrás da base do batedor. Tomando suas últimas cervejas e fumando os últimos cigarros. Foi lá que conheci meu marido, você sabe. Tenho certeza de que já lhe contaram tudo.

Não conseguia ver nitidamente seu rosto, mas podia ouvir o tênue toque de amargura que se introduziu em sua voz, e imaginei que ainda exibia a expressão cínica. Esta era velha demais para Mattie, mas concluí que a garota tinha chegado a ela de modo bastante honesto. Contudo, se não tivesse cuidado, aquilo podia se enraizar e crescer.

— Ouvi uma versão de Bill, sim, o cunhado de Lindy.

— Nossa história é distribuída a varejo. Pode-se consegui-la no armazém, ou no Village Café, ou na oficina daquele velho falastrão... que meu sogro resgatou do Western Savings, por falar nisso. Ele interferiu pouco antes que o banco pudesse executar a dívida. Agora, Dickie Brooks e seus camaradas acham que Max Devore é Jesus em carne e osso. Espero que você tenha tido uma versão mais justa do sr. Dean do que teve na oficina. Deve ter tido, ou não teria se arriscado a comer hambúrgueres com Jezebel.

Queria me afastar daquilo, se pudesse — sua raiva era compreensiva, mas inútil. Claro que para mim era mais fácil ver isso; não era minha filha que tinha sido transformada no lenço amarrado no centro da corda de um cabo de guerra.

— Ainda jogam softbol no Warrington’s? Apesar de Devore ter comprado o lugar?

— Jogam, sim. Ele vai ao campo em sua cadeira de rodas motorizada toda terça à noite e assiste ao jogo. Há outras coisas que tem feito desde que voltou para cá que são apenas uma tentativa de comprar a boa opinião da cidade, mas acho que gosta genuinamente dos jogos de softbol. A tal mulher, Whitmore, também vai. Leva um tanque de oxigênio extra num pequeno carrinho de mão vermelho com um pneu de lateral branca na frente. Guarda também uma luva de interceptador ali, caso algum arremesso de falta passe por cima da barreira e chegue até onde ele fica. Ele pegou um quase no começo da estação, eu soube, e recebeu uma ovação de pé dos jogadores e do pessoal que tinha vindo assistir.

— Ir aos jogos o põe em contato com o filho, não é?

Mattie sorriu com desânimo.

— Não acho que Lance chegue a passar pela cabeça dele, não quando está no campo. Eles jogam duramente em Warrington, deslizam para a base com os pés levantados, pulam em cima de arbustos espinhosos para apanhar bolas altas, xingam um ao outro quando fazem algo errado, e é disso que o velho Max Devore gosta, é por isso que nunca perde um jogo de terça à noite. Gosta de vê-los deslizar e levantar sangrando.

— É como Lance jogava?

Ela pensou cuidadosamente a respeito.

— Ele jogava duro, mas não era doido. Estava lá apenas para se divertir. Todos nós estávamos. Nós, mulheres... merda, nós, garotas, a mulher de Barney Therriault, Cindy, tinha apenas 16 anos... ficávamos atrás da barreira do lado da primeira base, fumando cigarros ou sacudindo pompons para manter os insetos longe, animando nossos rapazes quando faziam algo bom, rindo quando faziam algo idiota. Dividíamos refrigerantes ou uma lata de cerveja. Eu adorava os gêmeos de Helen Geary e ela beijava Ki debaixo do queixo até que ela risse. Às vezes descíamos até o Village Café depois, Buddy fazia pizzas e os perdedores pagavam. Todos amigos de novo, você sabe, depois do jogo. Ficávamos sentados lá, rindo, berrando e soprando os invólucros dos canudos em torno, alguns dos rapazes meio de pileque, mas ninguém mau. Naquela época eles deixavam toda a maldade no campo de jogo. E sabe de uma coisa? Nenhum deles veio me visitar. Nem Helen Geary, que era minha melhor amiga. Nem Richie Lattimore, que era o melhor amigo de Lance; os dois conversavam sobre rochas, pássaros e os tipos de árvores que havia do outro lado do lago por horas a fio. Eles vieram ao funeral e por algum tempo depois, e então... sabe como foi? Quando eu era garota, nosso poço secou. Por algum tempo, a gente conseguia um fio d’água quando abria a torneira, mas depois havia só ar. Só ar. — O cinismo tinha sumido e havia apenas mágoa em sua voz. — Vi Helen no Natal, e prometemos nos reunir para o aniversário dos gêmeos, mas nunca fizemos isso. Acho que ela está com medo de se aproximar de mim.

— Por causa do velho?

— Quem mais? Mas, tudo bem, a vida continua. — Ela se endireitou, bebeu o resto do refresco e pôs o copo de lado. — E você, Mike? Voltou para escrever um livro? A TR vai ser conhecida através de você? — Aquele era o bon mot local que eu lembrava com uma quase dolorosa ferroada de nostalgia. Dizia-se que os habitantes locais com grandes planos batizariam a TR com seu nome.

— Não — eu disse, e então fiquei perplexo ao dizer: — Não faço mais isso.

Acho que esperava que ela desse um pulo, derrubando a cadeira e emitindo um grito curto de negação horrorizada. Tudo isso diz bastante a meu respeito, suponho, e coisas nada lisonjeiras.

— Você se aposentou? — perguntou ela, parecendo calma e notavelmente pouco horrorizada. — Ou é um bloqueio de escritor?

— Bem, certamente não é uma aposentadoria escolhida. — Percebi que a conversa tinha tomado um rumo divertido. Eu tinha ido antes de tudo para lhe vender a ideia de John Storrow, enfiar John Storrow por sua garganta abaixo, se fosse preciso, e em vez disso estava, pela primeira vez, discutindo minha incapacidade de trabalhar. Pela primeira vez com alguém.

— Então é um bloqueio.

— Eu costumava pensar isso, mas agora não tenho certeza. Acho que os romancistas vêm equipados com certo número de histórias para contar... São construídas dentro do software. E quando elas desaparecem, desaparecem.

— Duvido — disse Mattie. — Talvez você escreva, agora que está aqui. Talvez você tenha voltado em parte por isso.

— Talvez tenha razão.

— Está com medo?

— Às vezes. Sobretudo a respeito do que farei no resto da minha vida. Não sei fazer barcos dentro de garrafas e era minha mulher quem tinha jeito com as plantas.

— Também tenho medo — disse ela. — Um medo danado. O tempo inteiro agora, parece.

— De que ele ganhe a custódia? Mattie, é isso que eu...

— O caso da custódia é só uma parte — falou. — Tenho medo só de ficar aqui, na TR. Começou bem cedo neste verão, muito depois de eu saber que Devore pretendia levar Ki para longe de mim, se pudesse. E está ficando pior. De certo modo, é como observar nuvens carregadas de chuva se amontoando sobre New Hampshire e então se empilharem acima do lago. Não posso colocar a coisa de modo melhor, a não ser... — Ela se moveu, cruzando as pernas e então se curvando para a frente para puxar a saia para a canela, como se estivesse com frio. — A não ser que acordei várias vezes ultimamente com a certeza de que não estava sozinha no quarto. Uma vez, tive a certeza de que não estava sozinha na cama. Às vezes é só uma sensação, como uma dor de cabeça, só que nos nervos, e às vezes acho que ouço um sussurro ou um choro. Uma noite fiz um bolo, cerca de duas semanas atrás, e me esqueci de guardar a farinha. No dia seguinte o barrilzinho estava virado e a farinha estava espalhada pela bancada da cozinha. Alguém tinha escrito “olá” nela. No início pensei que fosse Ki, mas ela disse que não. Além disso, não era a letra dela, a dela é mais desordenada. Não sei nem se Kyra poderia escrever olá. Oi, talvez, mas... Mike, você acha que ele poderia mandar alguém para tentar me assustar, acha? Quer dizer, isso é só bobagem, não é?

— Não sei — respondi. Pensei em algo dando pancadas no material isolante na escuridão enquanto estava em pé na escada. Pensei no OI formado com ímãs na porta de minha geladeira e numa criança soluçando no escuro. Senti minha pele mais fria; dava a impressão de estar entorpecida. Uma dor de cabeça nos nervos, aquilo era bom, era exatamente como a gente se sentia quando algo esticava a mão além do mundo real e tocava a gente na nuca.

— Talvez sejam fantasmas — disse ela, e sorriu de um modo incerto, mais assustado que divertido.

Abri a boca para lhe contar o que vinha acontecendo comigo em Sara Laughs e fechei-a novamente. Havia uma nítida escolha a ser feita ali: podíamos derivar para uma discussão sobre a paranormalidade ou podíamos voltar ao mundo visível. Aquele em que Max Devore tentava roubar uma criança.

— É — eu disse. — Os espíritos estão prestes a falar.

— Gostaria de poder ver seu rosto melhor. Tinha alguma coisa nele agora. O que era?

— Não sei — respondi. — Mas neste exato momento acho que é melhor falarmos de Kyra. Certo?

— Tudo bem. — No tênue fulgor da churrasqueira, eu podia vê-la acomodando-se na cadeira, como se para receber um golpe.

— Fui intimado a dar um depoimento em Castle Rock na sexta-feira. Diante de Elmer Durgin, que é o guardião ad litem de Kyra...

— Aquele sapo pomposo não é nada de Kyra! — explodiu ela. — Está no bolso de meu sogro, exatamente como Dickie Osgood, o corretor imobiliário favorito do velho Max! Dickie e Elmer Durgin bebem juntos no Mellow Tiger, ou pelo menos faziam isso até que esse negócio começou. Então alguém provavelmente disse a eles que aquilo não ficava bem e eles pararam.

— Os papéis foram entregues por um adjunto chamado George Footman.

— Apenas mais um dos suspeitos habituais — disse Mattie numa voz fraca. — Dickie Osgood é uma serpente, mas George Footman é um cão que toma conta do lixo. Ele foi suspenso de seu trabalho de tira por duas vezes. Mais uma vez e vai poder trabalhar para Max Devore em tempo integral.

— Bem, ele me assustou. Tentei não mostrar isso, mas ele me assustou. E as pessoas que me assustam me deixam zangado. Liguei para meu agente em Nova York e contratei um advogado. Um especializado em custódia infantil.

Tentei ver como ela estava recebendo aquilo e não consegui, embora estivéssemos sentados bastante próximos. Mas ela ainda mostrava aquele olhar fixo, como uma mulher que espera receber alguns golpes duros. Ou talvez para Mattie os golpes já tinham começado a ser desfechados.

Lentamente, não me permitindo correr, contei minha conversa com John Storrow. Enfatizei o que Storrow tinha dito sobre igualdade sexual — que provavelmente seria uma força negativa em seu caso, tornando mais fácil para o juiz Rancourt levar Kyra embora. Também sublinhei fortemente que Devore poderia ter todos os advogados que quisesse — sem mencionar testemunhas solidárias, com Richard Osgood correndo pela TR e espalhando a grana de Devore —, mas que o tribunal não era obrigado a tratá-la como uma casquinha de sorvete. Terminei dizendo-lhe que John queria falar com um de nós no dia seguinte às 11, e que deveria ser ela. Então esperei. O silêncio caiu, quebrado apenas por grilos e pelo tênue movimento de algum ruidoso caminhão de criança. Na rota 68, as lâmpadas fluorescentes brancas apagaram-se quando o mercado de Lakeview fechava outro dia de comércio de verão. Eu não gostava da quietude de Mattie; parecia o prelúdio de uma explosão. Uma explosão ianque. Tentei ficar calmo e esperei que me perguntasse o que é que me dava o direito de se intrometer em seus assuntos.

Quando finalmente falou, sua voz era baixa e derrotada. Magoava ouvi-la falar daquele modo, mas, da mesma forma que a expressão cínica no rosto anteriormente, não era de surpreender. E endureci-me contra ela o melhor que pude. Ei, Mattie, o mundo é duro. Faça sua escolha.

— Por que é que você faria isso? — perguntou ela. — Por que contrataria um advogado caro de Nova York para assumir o meu caso? É isso que está oferecendo, não é? Tem que ser, porque eu certamente não posso contratá-lo. Recebi 30 mil dólares do seguro quando Lance morreu, e tive sorte por isso. Foi uma apólice que ele tinha comprado de um dos amigos de Warrington, quase como uma brincadeira, mas sem ela eu teria perdido o trailer no inverno passado. Eles podem adorar Dickie Brooks no Western Savings, mas não dão nada por Mattie Stanchfield Devore. Depois dos impostos, ganho cerca de cem dólares por semana na biblioteca. Portanto, você está se oferecendo para pagar. Certo?

— Certo.

— Por quê? Você nem nos conhece.

— Porque... — Calei-me. Lembrei-me de querer que Jo interferisse naquele momento, pedindo à minha mente que fornecesse a voz dela para que eu pudesse passá-la à Mattie através da minha. Mas Jo não apareceu. Eu estava num voo solo.

— Porque agora eu não realizo nada que faça diferença — eu disse finalmente, e mais uma vez as palavras me deixaram atônito. — E eu conheço você. Já comi sua comida, li uma história para Ki e ela dormiu no meu colo... e talvez eu tenha salvo a vida dela no outro dia quando a tirei da estrada. Nunca vamos saber ao certo, mas talvez eu a tenha salvo. Você sabe o que os chineses dizem a respeito disso?

Eu não esperava uma resposta, a pergunta era mais retórica do que real, mas ela me surpreendeu. E não pela última vez.

— Se você salva a vida de alguém, é responsável por ela.

— É. É também sobre o que é justo e o que é certo, mas penso que é principalmente sobre querer participar de algo onde faço a diferença. Olho para trás, para esses quatro anos desde que minha mulher morreu, e não vejo nada neles. Nem mesmo um livro onde Marjorie, a tímida datilógrafa, conhece o belo estranho.

Ela ficou ali pensando, observando um caminhão carregado de polpa de madeira passar na rodovia, com os faróis ofuscantes e sua carga de toras oscilando de um lado para o outro como os quadris de uma mulher acima do peso.

— Não se prenda a nós — disse ela. — Não nos apoie como ele apoia seu time-da-semana no campo de softbol. Sei que preciso de ajuda, mas não vou permitir isso. Não vou aguentar isso. Não somos um jogo, Ki e eu. Está entendendo?

— Perfeitamente.

— Sabe o que as pessoas na cidade vão dizer, não é?

— Sei.

— Sou uma moça de sorte, não sou? Primeiro me caso com o filho de um homem extremamente rico, e depois que ele morre, caio sob a asa protetora de outro cara rico. A seguir provavelmente vou morar com Donald Trump.

— Corta essa.

— Provavelmente eu mesma acreditaria nisso, se estivesse do outro lado. Mas fico pensando se alguém nota que a sortuda Mattie ainda está morando num trailer velho e não pode arcar com um plano de saúde. Ou que sua filha recebeu a maioria das vacinas de um posto de saúde do condado. Meus pais morreram quando eu tinha 15 anos. Tenho um irmão e uma irmã, mas os dois são muito mais velhos e moram em outro estado. Meus pais eram bêbados, não nos maltratavam fisicamente, mas de diversos outros modos. Era como crescer num... motel de baratas. Meu pai era lenhador, minha mãe uma esteticista do uísque cuja única ambição era ter um Cadillac cor-de-rosa. Ele se afogou no lago Kewadin. Ela se afogou no próprio vômito cerca de seis meses depois. Gostou, até agora?

— Não muito. Desculpe.

— Depois do funeral de mamãe, meu irmão Hugh se ofereceu para me levar de volta para Rhode Island, mas percebi que sua mulher não estava exatamente encantada de ter uma garota de 15 anos na família, e não a censuro por isso. Além disso, eu tinha acabado de entrar para a turma de animadoras de torcida do colégio. Isso parece uma besteira total agora, mas naquele momento era algo muito importante.

Claro que tinha sido um negócio muito importante, especialmente para a filha de alcoólatras. A única que ainda morava em casa. Ser esse último filho, assistindo à doença enfiar as garras nos pais, pode ser uma das situações mais solitárias no mundo. O último a sair do maldito bar, por favor, apague a luz.

— Acabei indo morar com minha tia Florence, a apenas 3 quilômetros de distância na estrada. Levamos umas três semanas para descobrir que não gostávamos muito uma da outra, mas fizemos a coisa funcionar por dois anos. Então, entre o primeiro e o último ano do ensino médio, consegui um emprego de verão no Warrington’s e conheci Lance. Quando ele me pediu em casamento, tia Flo recusou-se a dar permissão. Quando eu disse a ela que estava grávida, ela me emancipou, portanto, não precisei da permissão.

— Você abandonou o colégio?

Ela fez uma careta e concordou com a cabeça.

— Eu não queria passar seis meses com as pessoas me assistindo inchar como um balão. Lance me apoiou. Disse que eu poderia fazer a prova de equivalência. Eu fiz isso no ano passado. Foi fácil. E agora Ki e eu estamos sozinhas. Mesmo que minha tia concordasse em me ajudar, o que poderia fazer? Ela trabalha na fábrica Gore-Tex, de Castle Rock, e ganha uns 16 mil dólares por ano.

Concordei com a cabeça novamente, pensando que meu último cheque de direitos autorais franceses fora aquela quantia. Meu último cheque trimestral. Então me lembrei de algo que Ki tinha me contado no dia em que eu a conheci.

— Quando eu estava carregando Kyra para fora da estrada, ela disse que se você estivesse zangada, ela ia para sua vó branca. Se o seu pessoal morreu, a quem ela... — Só que eu não precisava perguntar, na verdade, precisava apenas fazer uma ou duas conexões. — Rogette Whitmore é a vó branca? A assistente de Devore? Mas isso significa...

— Que Ki tem estado com eles. É verdade. Até o final do mês passado, eu permitia que ela visitasse o avô... e Rogette por associação, é claro, com muita frequência. Uma ou duas vezes por semana, e às vezes para passar à noite. Ela gosta de seu “papai branco”, pelo menos gostava no início, e ela simplesmente adora aquela mulher sinistra. — Acho que Mattie estremeceu na penumbra, embora a noite ainda estivesse muito tépida.

— Devore ligou para dizer que estava vindo ao leste para o funeral de Lance e perguntar se podia ver a neta enquanto estivesse aqui. Simpático como uma ovelhinha, exatamente como se jamais tivesse tentado me comprar para que eu largasse Lance quando este lhe contou que íamos nos casar.

— Ele tentou?

— É. A primeira oferta foi de 100 mil dólares. Isso foi em agosto de 1994, depois que Lance ligou para ele para dizer que íamos casar em meados de setembro. Eu não comentei a coisa. Uma semana depois, a oferta subiu para 200 mil.

— Em troca de que, exatamente?

— De recolher minhas garras de puta e me mudar para um endereço desconhecido. Desta vez eu contei a Lance, e ele se enfureceu. Ligou para o velho e disse que íamos casar, querendo ele ou não. E disse a Devore que se quisesse ver a neta algum dia teria que parar com aquela besteira e se comportar.

Com outro pai, pensei, provavelmente seria a resposta mais razoável que Lance poderia ter dado. Eu o respeitava por isso. O único problema era que ele não estava lidando com um homem razoável, estava lidando com o sujeito que, quando criança, roubara o trenó novo de Scooter Larribee.

— Essas ofertas foram feitas pelo próprio Devore, ao telefone. As duas quando Lance não estava por perto. Então, uns dez dias antes do casamento, recebi a visita de Dickie Osgood. Eu devia ligar para um número em Delaware, e quando o fiz... — Mattie balançou a cabeça. — Você não vai acreditar. Parece que saiu de um de seus livros.

— Posso dar um palpite?

— Se quiser.

— Ele tentou comprar a criança. Tentou comprar Kyra.

Seus olhos se arregalaram. Uma lua magra havia surgido e pude ver muito bem sua expressão de surpresa.

— Quanto? — perguntei. — Estou curioso. Quanto para você dar à luz, deixar a neta de Devore com Lance e então sumir?

— Dois milhões de dólares — murmurou ela. — Depositados no banco de minha escolha, contanto que fosse a oeste do Mississipi e que eu assinasse um acordo para me manter longe de Kyra, e de Lance, até pelo menos 20 de abril de 2016.

— O ano em que Ki faz 21 anos.

— É.

— E Osgood não conhece nenhum dos detalhes, portanto as mãos de Devore continuam limpas aqui na cidade.

— Sim. E os dois milhões foram apenas o começo. Haveria um milhão adicional no quinto, no décimo, no décimo quinto e no vigésimo aniversário de Ki. — Ela balançou a cabeça como se não acreditasse. — O linóleo continua fazendo bolhas na cozinha, o bocal do chuveiro continua caindo na banheira e atualmente todo o maldito trailer tomba para o lado, mas eu poderia ter sido a mulher de 6 milhões de dólares.

Chegou a pensar em aceitar a oferta, Mattie?, eu me perguntei... Mas era uma pergunta que eu jamais faria, um sinal de curiosidade tão pouco conveniente que não merecia nenhuma satisfação.

— Você contou a Lance?

— Tentei não contar. Ele estava sempre furioso com o pai, e eu não queria tornar as coisas piores. Eu não queria tanto ódio no começo do nosso casamento, por mais que houvesse boas razões para isso... e não queria que Lance... depois comigo, você sabe... — Ela levantou as mãos, depois as deixou cair até as coxas. O gesto foi ao mesmo tempo desanimado e estranhamente cativante.

— Você não queria Lance virando para você dez anos depois e dizendo “Você interferiu entre meu pai e eu, sua vaca.”

— Alguma coisa assim. Mas no final não pude guardar aquilo comigo. Eu era apenas uma menina do interior, só tive uma meia-calça aos 11 anos, usava o meu cabelo com tranças ou um rabo de cavalo até os 13, pensava que todo o estado de Nova York era a cidade de Nova York... e esse cara... esse pai fantasma... tinha me oferecido 6 milhões de dólares. Aquilo me aterrorizou. Eu sonhava com ele entrando durante a noite como um troll e roubando meu bebê do berço. Ele viria ziguezagueando pela janela como uma cobra...

— Arrastando seu tanque de oxigênio com ele, sem dúvida.

Ela sorriu.

— Na época, eu não sabia do oxigênio. Ou de Rogette Whitmore. Só estou tentando dizer que eu tinha só 17 anos e não era nada boa em guardar segredos. — Tive que refrear meu próprio sorriso pelo modo como ela disse aquilo, como se décadas de experiência se estendessem agora entre aquela criança ingênua e assustada e esta mulher madura com seu diploma por correspondência.

— Lance ficou zangado.

— Tão zangado que respondeu ao pai por e-mail em vez de ligar. Ele gaguejava, sabe, e quanto mais aborrecido ficava, pior ficava a gagueira. Uma conversa ao telefone teria sido impossível.

Agora, finalmente, eu achava que tinha um quadro claro. Lance Devore tinha escrito ao pai uma carta impensável — quer dizer, impensável se você fosse Max Devore. A carta dizia que Lance não queria nunca mais saber do pai, e Mattie também não. Ele não seria mais bem-vindo na casa deles (o velho trailer não era bem o humilde chalé de lenhador da história dos Irmãos Grimm, mas estava bem próximo). Ele também não seria bem-vindo para visitá-los depois do nascimento do bebê, e se tivesse a audácia de mandar um presente para a criança, cedo ou tarde, tal presente seria devolvido. Fique longe da minha família, papai. Dessa vez você foi longe demais para ser perdoado.

Sem dúvida nenhuma há modos diplomáticos de se lidar com um filho ofendido, alguns sábios e alguns astuciosos... mas faça a si mesmo a seguinte pergunta: para início de conversa, um pai diplomático teria se metido numa situação dessas? Um homem com um mínimo insight da natureza humana teria oferecido à noiva do filho uma recompensa (tão gigantesca que provavelmente teve pouco sentido ou significado concreto para ela) a fim de que desistisse de seu primogênito? Ele tinha oferecido essa barganha do diabo a uma menina-mulher de 17 anos, uma idade em que a visão romântica da vida está absolutamente em maré alta. Se não fosse por outra coisa, Devore deveria ter esperado antes de fazer sua oferta final. Pode-se argumentar que ele não sabia se podia esperar, mas isso não seria um argumento convincente. Achei que Mattie tinha razão — bem no fundo daquela velha e enrugada ameixa seca que lhe servia de coração, Max Devore achava que ia viver para sempre.

No final, ele não conseguira se refrear. Houve o trenó que desejou, o trenó que simplesmente teve que obter, do outro lado da janela. Tudo o que teve que fazer foi quebrar o vidro e pegá-lo. Vinha fazendo isso toda a sua vida, e assim não reagiu astuciosamente ao e-mail do filho, como um homem com sua idade e capacidade deveria ter feito, mas furiosamente, como a criança teria feito se o vidro na janela do galpão tivesse se mostrado imune a seus punhos de martelo. Lance não queria que se metesse? Ótimo! Pois podia viver com sua Daisy Duke numa tenda, trailer ou na porcaria de um estábulo. Podia desistir também do confortável trabalho de supervisor e encontrar um emprego verdadeiro. Ver como o outro lado vivia!

Em outras palavras, você não pode me largar, filho. Você está despedido.

— Não caímos nos braços um do outro no funeral — disse Mattie —, não pense uma coisa dessas. Mas ele foi decente comigo, o que eu não esperava, e tentei ser decente com ele. Ofereceu uma mesada, que recusei. Tive medo de que pudesse haver ramificações legais.

— Duvido, mas gosto de sua cautela. O que aconteceu quando ele viu Kyra pela primeira vez, Mattie? Você lembra?

— Jamais esquecerei daquilo. — Ela enfiou a mão no bolso do vestido, encontrou um maço de cigarros amarrotado e sacudiu um deles para fora. Olhou-o com uma mistura de cobiça e desgosto. — Larguei o cigarro porque Lance disse que não podíamos realmente nos dar a esse luxo, e eu sabia que tinha razão. Mas o hábito continua voltando. Só fumo um maço por semana, e sei muito bem que mesmo assim é muito, mas às vezes preciso de consolo. Quer um?

Balancei a cabeça negativamente. Ela acendeu o cigarro e, à chama momentânea do fósforo, seu rosto não estava mais bonito. O que teria o velho feito a ela?, pensei.

— Ele viu a neta pela primeira vez ao lado de um carro fúnebre — disse Mattie. — Estávamos na casa funerária de Dakin, em Motton. Era o velório. Sabe o que é isso?

— Ah, sim — eu disse, pensando em Johanna.

— O caixão estava fechado, mas mesmo assim ainda chamam isso de velar. Esquisito. Saí para fumar um cigarro. Disse a Ki que sentasse na escada do salão da casa funerária para que não respirasse a fumaça e me afastei um pouco no caminho. Então uma grande limusine parou. Nunca tinha visto nada parecido antes, a não ser na TV. Soube imediatamente quem era. Coloquei os cigarros novamente na bolsa e chamei Ki para perto de mim. Ela veio andando pelo caminho naquela hesitação de criança e pegou minha mão. A porta da limusine se abriu e Rogette Whitmore saiu dela. Tinha uma máscara de oxigênio na mão, mas ele não precisou dela, pelo menos naquele momento. Devore saiu a seguir. Um homem alto, não tão alto quanto você, Mike, mas alto, de terno cinza e sapatos pretos brilhantes como espelhos.

Ela fez uma pausa, pensando. O cigarro ergueu-se brevemente até sua boca e depois abaixou-se até o braço de sua cadeira, um vaga-lume vermelho no débil luar.

— Primeiro ele não disse nada. A mulher tentou pegar seu braço e ajudá-lo a subir os três ou quatro degraus da estrada até o caminho, mas ele se desvencilhou dela. Veio sozinho até onde estávamos, embora eu pudesse ouvir seu peito chiando. Era o som de uma máquina precisando de óleo. Não sei quanto ele pode caminhar agora, mas provavelmente não é muito. Aqueles poucos degraus acabaram com ele, e isso foi há quase um ano. Ele me olhou por um ou dois segundos e depois se curvou para a frente com as mãos grandes, velhas e ossudas nos joelhos. Olhou para Kyra e ela o olhou.

Sim. Eu podia ver a coisa... não a cores, não como a imagem de uma foto. Eu a vi como uma xilogravura, apenas mais uma sombria ilustração dos Contos de fadas de Grimm. A garotinha levanta os olhos arregalados para o velho rico — um dia o garoto que tinha deslizado triunfantemente num trenó roubado, agora, no outro extremo da vida, e apenas mais um saco de ossos. Em minha imaginação, Ki usava uma jaqueta com capuz e a máscara de vovô Devore estava ligeiramente de lado, permitindo-me ver os tufos do pelo de lobo por baixo dela. Que olhos grandes o senhor tem, vovô, que nariz grande o senhor tem, vovô, e que grandes dentes também.

— Ele a levantou. Não sei quanto precisou se esforçar para isso, mas ele o fez. E, o que foi mais estranho, Ki deixou que ele a levantasse. Era um completo estranho para ela, e os velhos sempre parecem assustar crianças pequenas, mas ela deixou que a levantasse. “Sabe quem sou eu?”, perguntou ele. Ela balançou a cabeça, mas pelo modo como o olhava... era quase como se soubesse. Você acha isso possível?

— Acho.

— Ele disse: “Sou o seu vovô.” E eu quase a puxei para mim, Mike, porque tive uma impressão maluca... não sei...

— De que ele ia comê-la?

O cigarro parou na frente de sua boca. Seus olhos estavam muito abertos.

— Como é que sabe? Como pode saber disso?

— Porque na minha imaginação isso parece um conto de fadas. Chapeuzinho Vermelho e o Velho Lobo Cinzento. O que é que ele fez então?

— Ele a comeu com os olhos. Desde então a ensinou a jogar damas e outros jogos. Ela tem apenas 3 anos, mas ele a ensinou a somar e a diminuir. Ela tem seu próprio quarto no Warrington’s e seu próprio computadorzinho lá, e Deus sabe o que ele a tem ensinado a fazer com aquilo... mas naquela primeira vez ele apenas a olhou. Foi o olhar mais faminto que já vi na minha vida.

“E ela devolveu o olhar. Não pode ter sido mais de dez ou vinte segundos, mas pareceu durar para sempre. Então ele tentou entregá-la novamente a mim. Mas tinha usado toda a sua força, e se eu não estivesse ali para pegá-la, acho que ele a teria deixado cair no caminho de cimento. Ele cambaleou um pouco, e Rogette Whitmore passou um braço à sua volta. Então Devore pegou a máscara de oxigênio, tinha uma pequena garrafa de ar ligada a ela num elástico, e a colocou sobre a boca e o nariz. Umas duas respiradas e ele pareceu mais ou menos bem de novo. Ele a devolveu a Rogette e realmente pareceu me ver pela primeira vez. E disse: ‘Tenho sido um idiota, não é?’ Respondi: ‘Tem, sim, senhor.’ Lançou-me um olhar muito sombrio quando eu disse isso. Acho que se fosse cinco anos mais novo, teria me batido por causa daquilo.”

— Mas não era, e não bateu.

— Não. Disse: “Quero entrar. Você me ajuda a fazer isso?” Respondi que ajudava. Subimos a escada da casa funerária com Rogette de um lado dele, eu do outro e Kyra andando atrás. Senti-me como uma moça de harém. Não era uma sensação muito agradável. Quando entramos no vestíbulo, ele sentou para recobrar a respiração e tomar um pouco mais de oxigênio. Rogette virou-se para Kyra. Acho que aquela mulher tem uma cara assustadora, lembra uma pintura...

— O grito? Aquela de Munch?

— Tenho quase certeza de que é essa. — Ela deixou cair o cigarro, fumado quase até o filtro, e pisou nele, esmagando-o no chão pontilhado de pedras com seu tênis branco. — Mas Ki não teve nem um pouco de medo dela. Nem naquela hora nem depois. Ela se curvou para Kyra e disse: “O que é que rima com gato?” E Kyra respondeu: “Pato!”, imediatamente. Mesmo aos 2 anos ela adorava rimas. Rogette pegou um chocolate dentro da bolsa e puxou-o para fora. Ki me olhou para ver se podia pegá-lo e eu disse: “Está bem, mas só um, e não quero ver nenhum pingo dele na sua roupa.” Ki colocou o chocolate na boca e sorriu para Rogette, como se tivessem sido sempre amigas. Nessa altura Devore tinha recuperado o fôlego, mas parecia cansado, o homem mais cansado que já vi na vida. Ele me lembrou de algo na Bíblia, de como nos dias de nossa velhice dizemos que não temos nenhum prazer na vida. Meu coração amoleceu por ele. Talvez Devore tenha notado isso, pois estendeu a mão e pegou a minha. Disse: “Não feche sua porta para mim.” E naquele momento pude ver Lance no rosto dele. Comecei a chorar. “Não vou fazer isso, a não ser que o senhor me obrigue.”

Eu os vi ali no saguão da casa funerária; ele, sentado; ela, de pé; a menina olhando numa perplexidade de olhos abertos enquanto sugava o chocolate. Música de órgão enlatada ao fundo. O pobre velho Max Devore tinha sido bastante astucioso no dia do velório de seu filho, pensei. Não feche sua porta para mim, essa é boa.

Tentei comprar você e como isso não funcionou aumentei o lance e tentei comprar a criança. Quando isso também falhou, disse ao meu filho que ele, você e minha neta podiam se afogar na sujeira de suas próprias decisões. De certo modo, eu sou o motivo de ele estar onde estava quando caiu e quebrou o pescoço, mas não feche sua porta para mim, Mattie, sou apenas um pobre velhote, portanto, não feche sua porta para mim.

— Fui burra, não fui?

— Você esperava que ele fosse melhor do que era. Se isso é ser burra, Mattie, o mundo podia ser um pouco mais burro.

— Eu tinha minhas dúvidas — disse ela. — Por isso não aceitava o seu dinheiro, e no final de outubro ele parou de pedir. Mas eu o deixava vê-la, acho que, em parte, pela ideia de que pudesse haver algum benefício para Ki mais tarde; mas, honestamente, eu não pensava muito sobre isso. Era principalmente por ele ser o único vínculo sanguíneo de Kyra com o pai. Eu queria que ela usufruísse aquilo como qualquer criança usufrui ter um avô. Não queria é que ela ficasse infectada por todo aquele lixo que tinha havido antes de Lance morrer.

“No início deu a impressão de funcionar. Então, pouco a pouco, as coisas mudaram. Por um lado, percebi que Ki não gostava tanto de seu ‘papai branco’. Os sentimentos dela sobre Rogette continuam os mesmos, mas Max Devore começou a deixá-la nervosa de algum modo que não compreendo e que ela não pode explicar. Perguntei a ela uma vez se ele a tocou em algum lugar que a tivesse feito se sentir esquisita. Mostrei-lhe os lugares de que estava falando, mas ela disse que não. Acredito nela, mas... ele disse algo ou fez algo. Tenho quase certeza disso.”

— Pode ter sido apenas o som de sua respiração piorando — falei. — Só isso poderia assustar uma criança. Ou talvez ele lançasse algum tipo de encantamento enquanto ela estava lá. E com você, Mattie?

— Bem... certo dia de fevereiro, Lindy Briggs me disse que George Footman tinha estado lá para checar os extintores de incêndio e os detectores de fumaça na biblioteca. Ele também perguntou se Lindy tinha encontrado alguma lata de cerveja ou garrafa de bebida no lixo ultimamente. Ou pontas de cigarro que fossem obviamente feitos em casa.

— Em outras palavras, guimbas de maconha.

— É. E eu soube que Dickie Osgood tem visitado meus velhos amigos. Conversando. Procurando ouro. Desenterrando a sujeira.

— Há alguma para desenterrar?

— Não muita, graças a Deus.

Eu esperava que estivesse certa, e também que, se havia coisas que ela não tinha me contado, John Storrow as tirasse dela.

— Mas, com tudo isso, você deixou Kyra continuar a visitá-lo.

— Qual seria o resultado de puxar a tomada das visitas? Achei que permitindo que continuassem pelo menos o impediria de apressar qualquer plano que pudesse ter.

Isso, eu pensei, tinha uma espécie de solitário sentido.

— Então, na primavera, comecei a ter algumas sensações extremamente sinistras, assustadoras.

— Sinistras como? Assustadoras como?

— Não sei. — Puxou o maço de cigarros, olhou-o e tornou a enfiá-lo no bolso. — Não era só o fato de que meu sogro estivesse procurando roupa suja nos meus armários. Era Ki. Comecei a me preocupar com Ki todo o tempo que ela estava com ele... com eles. Rogette vinha no BMW que tinham comprado ou alugado, e Ki ficava nos degraus esperando por ela. Com sua bolsa de brinquedos se fosse só uma visita de dia, com a pequena maleta rosa da Minnie se fosse para passar a noite. E sempre voltava com algo a mais do que levava. Meu sogro acredita muito em presentes. Antes de colocá-la no carro, Rogette me dava seu sorriso frio e dizia “Então sete horas, ela jantará conosco”, ou “Então oito horas, e um bom desjejum antes de ela ir embora”. Eu dizia tudo bem, e aí Rogette pegava a bolsa, puxava um Kiss da Hershey’s e dava a Ki exatamente como se dá um biscoito a um cachorro pra fazê-lo estender a pata. Dizia uma palavra e Kyra fazia uma rima. Rogette então atirava a guloseima para ela, uf-uf, bom cachorro, eu costumava pensar, e iam embora. Ao bater sete da noite ou oito da manhã, o BMW parava bem ali onde seu carro está estacionado agora. A gente podia acertar o relógio pela mulher. Mas fiquei preocupada.

— De que pudessem ficar cansados do processo legal e simplesmente a roubassem? — Isso me parecia uma preocupação racional, tão racional que eu quase não podia acreditar que Mattie tivesse deixado a menina visitar o velho, para começo de conversa. Nos casos de custódia, como no resto da vida, a posse tende a ser nove décimos da lei, e se Mattie estava contando a verdade sobre seu passado e seu presente, uma audiência de custódia provavelmente se transformaria numa produção cansativa mesmo para o rico Devore. Roubar, no fim das contas, poderia parecer uma solução mais eficiente.

— Não exatamente — disse ela. — Acho que é a coisa lógica, mas não era bem isso. Apenas fiquei com medo. Não havia nada que eu pudesse precisar. Quando chegava as 6h15 da noite, eu pensava: “Desta vez aquela vaca de cabelos brancos não vai trazer Kyra de volta. Desta vez ela vai...”

Esperei. Quando não falou nada, perguntei:

— Vai o quê?

— Já lhe disse, não sei — falou. — Mas fiquei com medo por Kyra desde a primavera. Quando junho chegou, não pude mais aguentar, e botei um ponto final nas visitas. Kyra tem estado intermitentemente zangada comigo desde então. Tenho certeza de que aquela fuga do 4 de Julho teve a ver com isso. Ela não fala muito sobre o avô, mas sempre vem com “O que você acha que a vó branca está fazendo agora, Mattie?” ou “Você acha que a vó branca ia gostar do meu vestido novo?”. Ou ela corre até mim e diz “Gato, pato, mato, naco”, e pede um doce.

— Qual foi a reação de Devore?

— Uma fúria total. Ligou inúmeras vezes, primeiro perguntando o que estava errado, depois fazendo ameaças.

— Ameaças físicas?

— Ameaças quanto à custódia. Que ia levá-la embora de qualquer modo, que quando acabasse comigo eu ia ficar perante o mundo como uma mãe inadequada, que eu não tinha nenhuma chance, minha única esperança seria ceder e me deixar ver minha neta, desgraçada.

Assenti com a cabeça.

— “Por favor, não feche sua porta para mim” não parece o sujeito que me ligou enquanto eu estava assistindo aos fogos, mas essa última frase parece.

— Também recebi telefonemas de Dickie Osgood e de diversos outros habitantes daqui — disse ela. — Inclusive do velho amigo de Lance, Richie Lattimore. Richie disse que eu não estava sendo fiel à memória de Lance.

— E George Footman?

— Ele faz a ronda por aqui de vez em quando. Me faz saber que está vigiando. Não entra ou para. Você perguntou sobre ameaças físicas, só de ver a radiopatrulha de Footman na minha entrada me parece uma ameaça. Ele me assusta. Mas nesses dias acho que tudo me assusta.

— Mesmo que as visitas de Kyra tenham parado.

— Mesmo assim. Parece... trovoada. Como se algo fosse acontecer. E a cada dia essa sensação fica mais forte.

— O número de John Storrow — eu disse. — Você quer?

Ela ficou quieta, olhando para o colo. Então ergueu a cabeça e concordou.

— Pode me dar. E obrigada. Do fundo do meu coração.

Eu tinha o número numa folhinha pequena de bloco rosa no meu bolso da frente. Ela o agarrou, mas não o puxou imediatamente. Nossos dedos se tocavam e ela olhava para mim com uma firmeza desconcertante. Era como se ela conhecesse mais os meus motivos do que eu mesmo.

— Como posso lhe retribuir? — perguntou, então era isso.

— Conte a Storrow tudo o que me contou. — Soltei a folhinha de papel e levantei. — Isso já chega. E agora tenho que ir. Você me liga e diz como foi com ele?

— Claro.

Andamos até o meu carro. Virei-me para ela quando chegamos lá. Por um momento, pensei que ia pôr os braços em torno de mim e me abraçar, um gesto de agradecimento que poderia levar a qualquer lugar em nosso atual estado de ânimo — tão aguçado que era quase melodramático. Mas a situação era melodramática, um conto de fadas onde havia bom e ruim e um monte de sexo reprimido correndo por baixo de tudo.

Então surgiram faróis por sobre o cume da colina onde ficava o mercado e eles varreram a oficina. Moveram-se em direção a nós, mais brilhantes. Mattie recuou e chegou até a colocar as mãos atrás do corpo, como uma criança que tivesse sido censurada. O carro passou, deixando-nos no escuro novamente... mas o momento se foi. Se é que tinha havido um momento.

— Obrigado pelo jantar — eu disse. — Foi maravilhoso.

— Obrigada pelo advogado, tenho certeza de que ele será maravilhoso também — ela respondeu, e nós dois rimos. A eletricidade saiu do ar. — Ele falou de você uma vez, sabe. Devore.

Olhei para ela surpreso.

— Estou espantado que ele chegue mesmo a saber quem eu sou. Antes disso, quero dizer.

— Ele sabe, não há dúvida. Falou de você com o que me pareceu uma afeição genuína.

— Você está brincando. Tem que estar.

— Não estou. Ele disse que seu bisavô e o bisavô dele trabalharam nos mesmos campos e eram vizinhos quando não estavam nos bosques. Acho que disse que não era longe de onde fica agora a Marina de Boyd. “Cagaram no mesmo fosso”, foi como ele colocou a coisa. Encantador, não é? Disse que, se dois lenhadores da TR podiam produzir milionários, o sistema estava funcionando como devia. “Mesmo que tenha levado três gerações para isso”, disse ele. Naquela época, encarei aquilo como uma crítica velada a Lance.

— É ridículo, por mais que estivesse sendo sincero — falei. — Minha família é da costa. Prout’s Neck. Do outro lado do estado. Meu pai era um pescador, assim como seu pai antes dele. Meu bisavô também. Pescavam lagostas e lançavam redes, não cortavam árvores. — Tudo isso era verdade, e mesmo assim minha mente tentava fixar-se em algo. Alguma lembrança vinculada ao que Mattie estava dizendo. Se eu dormisse, talvez a coisa viesse à superfície.

— Ele poderia estar falando de alguém na família de sua mulher?

— Não. Há Arlens no Maine, são uma grande família, mas a maioria ainda está em Massachusetts. Fazem coisas de todo tipo agora, mas se voltarmos a 1880, a maioria estaria trabalhando em pedreiras ou em obras de cantaria na área Malden-Lynn. Devore estava pregando uma peça em você, Mattie. — Mas mesmo assim eu sabia que ele não estava. Ele podia ter lembrado errado de parte da história, até os caras mais aguçados começam a perder o fio das lembranças quando dobram os 85 anos, mas Max Devore não era muito de pregar peças. Tive uma imagem de cabos invisíveis, estendendo-se por baixo da superfície aqui na TR, estendendo-se em todas as direções, invisíveis, mas poderosos.

Minha mão descansava no alto da porta de meu carro e então Mattie a tocou rapidamente.

— Posso lhe fazer outra pergunta antes de você ir embora? É boba, estou avisando.

— Vá em frente. Perguntas bobas são uma especialidade minha.

— Você tem alguma ideia a respeito do que é a história de Bartleby?

Tive vontade de rir, mas havia luar suficiente para que eu visse que ela falava a sério, e que a magoaria se risse. Ela era membro do círculo de leitores de Lindy Briggs (onde eu fizera certa vez uma palestra no final dos anos 1980), provavelmente a mais jovem, pelo menos uns 20 anos, e tinha medo de parecer burra.

— Tenho que ser a primeira a falar na próxima vez — disse ela — e gostaria de fazer mais do que só um sumário da história para que saibam que a li. Tenho pensado nela até ficar com dor de cabeça, mas não consigo entendê-la. Duvido que seja uma dessas histórias onde tudo fica magicamente claro nas últimas páginas. E sinto que deveria entender... que está bem ali na minha frente.

Isso me fez pensar nos cabos novamente — cabos correndo em todas as direções, uma rede de trabalho subcutânea conectando pessoas e lugares. Não se podia vê-los, mas se podia senti-los. Sobretudo se a gente tentasse se afastar. Enquanto isso, Mattie esperava, olhando-me com esperança e ansiedade.

— Certo, ouça, começou a aula — eu disse.

— Estou ouvindo. Pode acreditar.

— A maioria dos críticos acha que Huckleberry Finn é o primeiro romance americano moderno, o que é bastante justo, mas se Bartleby tivesse cem páginas a mais, acho que apostaria meu dinheiro nele. Sabe o que é um escrivão?

— Um secretário?

— Isso é importante demais. Um copista. Uma espécie de Bob Cratchit de Um conto de Natal. Só que Dickens dá a Bob um passado e uma vida de família. Melville não dá a Bartleby nem uma coisa nem outra. Ele é o primeiro personagem existencial da ficção americana, um sujeito sem laço... nenhum laço, sabe...

Dois lenhadores que podiam produzir milionários. Cagaram no mesmo fosso.

— Mike?

— O quê?

— Você está bem?

— Claro. — Foquei minha mente o máximo que pude. — Bartleby só está ligado à vida pelo trabalho. Nesse sentido, é um típico americano do século XX, não muito diferente de Sloan Wilson em O homem do terno cinzento ou, na versão sombria, Michael Corleone em O poderoso chefão. Mas então Bartleby começa a questionar até mesmo o trabalho, o deus dos machos americanos da classe média.

Ela agora parecia animada, e achei que era uma pena que tivesse perdido seu último ano do ensino médio. Para ela e também para seus professores.

— É por isso que ele começa dizendo “Acho melhor não...”?

— É. Pense em Bartleby como um... balão de ar quente. Só uma corda ainda o prende à Terra, e essa corda é o trabalho de escrivão. Podemos medir a podridão nessa última corda pelo contínuo e crescente número de coisas que Bartleby acha melhor não fazer. Finalmente, a corda se rompe e Bartleby flutua para longe. É uma história perturbadora à beça, não é?

— Uma noite sonhei com ele — disse ela. — Abri a porta do trailer e lá estava ele, sentado nos degraus em seu velho terno preto. Magro. Com pouco cabelo. Eu disse: “Pode se afastar, por favor? Tenho que sair e pendurar as roupas agora.” Ele disse: “Acho melhor não.” É, acho que se pode chamá-la de perturbadora.

— Então ainda funciona — eu disse, e entrei no carro. — Ligue para mim. Me diga como foi com John Storrow.

— Vou ligar. E qualquer coisa que eu possa fazer em retribuição, é só pedir.

É só pedir. Até que ponto é preciso ser jovem e graciosamente ignorante para emitir um cheque em branco desses?

Minha janela estava aberta. Estendi a mão e apertei a dela. Mattie devolveu o aperto e com força.

— Você sente muita falta de sua mulher, não é? — disse ela.

— Dá para notar?

— Às vezes. — Ela não estava mais apertando minha mão, mas ainda a segurava. — Quando você estava lendo para Ki, parecia feliz e triste ao mesmo tempo. Eu só a vi uma vez, sua mulher, mas a achei muito bonita.

Eu pensava no contato de nossas mãos, concentrando-me nisso. De repente o esqueci totalmente.

— Quando é que a viu? Onde? Você lembra?

Ela sorriu como se fossem perguntas tolas.

— Lembro. Foi lá no campo de jogo, na noite em que conheci meu marido.

Muito lentamente retirei a mão da dela. Tanto quanto eu sabia, nem eu nem Jo tínhamos nos aproximado da TR-90 durante todo o verão de 1994... mas aparentemente o que eu sabia estava errado. Jo esteve lá numa terça no início de julho. Tinha até ido ao jogo de softbol.

— Tem certeza de que era Jo? — perguntei.

Mattie olhava para a estrada. Não estava pensando em minha mulher; apostaria a casa e o terreno nisso — ou casa ou terreno. Estava pensando em Lance. Talvez isso fosse bom. Se estava pensando nele provavelmente não olhava com muita atenção para mim, e eu não achava que tinha muito controle de minha expressão naquele momento. Ela poderia ter visto no meu rosto mais do que eu queria mostrar.

— Sim — disse ela. — Eu estava lá em pé com Jenna McCoy e Helen Geary... foi depois de Lance ter me ajudado com um barrilzinho de cerveja que tinha atolado na lama e perguntar se eu ia sair com eles para uma pizza depois do jogo. Jenna disse: “Olhe, aquela é a sra. Noonan”, e Helen disse: “Ela é a mulher do escritor, Mattie, a blusa dela não é bacana?” A blusa era toda coberta de rosas azuis.

Eu lembrava muito bem da blusa. Jo gostava dela porque era uma brincadeira — não há rosas azuis, não na natureza e não cultivadas. Certa vez, quando a estava usando, ela me abraçou extravagantemente pelo pescoço, impulsionou os quadris contra os meus e gritou que era minha rosa azul, e eu precisava acariciá-la até ela ficar cor-de-rosa. Lembrar aquilo doeu e muito.

— Ela estava no lado da terceira base, atrás da tela de arame — disse Mattie —, com um homem com um velho blazer marrom e remendos nos cotovelos. Riam juntos de alguma coisa. Depois ela virou um pouco a cabeça e olhou direto para mim. Ficou quieta por um momento, em pé ao lado do carro, com seu vestido vermelho. Levantou o cabelo da nuca, segurou-o e deixou-o cair de novo. Direto para mim. Realmente me vendo. E tinha uma expressão... ela tinha estado rindo, mas seu olhar de certo modo era triste. Era como se me conhecesse. Então o homem pôs o braço em sua cintura e eles se afastaram.

Silêncio, a não ser por grilos e o ronco longínquo de um caminhão. Mattie permaneceu parada por um momento, como se sonhasse de olhos abertos, e então sentiu algo e olhou de novo para mim.

— Alguma coisa errada?

— Não. A não ser quem era esse camarada com o braço em torno de minha mulher.

Ela riu um pouco incerta.

— Bom, duvido que fosse namorado dela. Era bem mais velho. Cinquenta, pelo menos. — E daí?, pensei. Eu mesmo tinha 40 anos, mas isso não significava que não percebesse o modo como Mattie se movia dentro do vestido ou erguia o cabelo da nuca. — Quer dizer... você está brincando, não está?

— Realmente não sei. Há um monte de coisas que não sei nesses dias, parece. Mas a moça já morreu, de qualquer modo, portanto, qual a importância disso?

Mattie pareceu deprimida.

— Se cometi alguma gafe, Mike, desculpe.

— Quem era o homem? Você sabe?

Ela balançou a cabeça.

— Achei que era um turista de verão... ele dava essa impressão, talvez porque estivesse usando um blazer numa noite quente de verão, mas, se era, não estava hospedado no Warrington’s. Eu conhecia a maioria deles.

— E foram embora juntos, a pé?

— É. — Ela pareceu relutante.

— Na direção do estacionamento?

— É. — Mais relutante ainda. E desta vez estava mentindo. Eu soube disso com uma esquisita certeza que ia além da intuição; era quase como ler sua mente.

Estendi a mão através da janela e peguei sua mão de novo.

— Você disse que se eu pensasse em algo que você pudesse fazer como retribuição, era só pedir. Estou pedindo. Diga a verdade, Mattie.

Ela mordeu o lábio, olhando para baixo onde minha mão pousava sobre a dela. Então me encarou.

— Era um cara corpulento. O velho blazer lhe dava um pouco a aparência de um professor de universidade, mas, tanto quanto sei, podia ter sido um carpinteiro. Tinha cabelos pretos. Bronzeado. Riram bastante juntos, e então ela olhou para mim e o riso abandonou seu rosto. Depois disso ele passou um braço à volta dela e eles se afastaram caminhando. — Ela fez uma pausa. — Mas não em direção ao estacionamento. Em direção à Rua.

A Rua. Dali podiam ter andado para o norte e ao longo da beira do lago até chegarem a Sara Laughs. E então? Quem sabe?

— Ela nunca me disse que tinha vindo até aqui naquele verão — falei.

Mattie pareceu procurar diversas respostas e não encontrar nenhuma de que gostasse. Devolvi sua mão. Estava na hora de eu ir embora. Na verdade, eu começava a desejar tê-lo feito cinco minutos atrás.

— Mike, tenho certeza...

— Não — eu disse. — Não tem não. Nem eu. Mas eu a amei muito e vou tentar deixar isso de lado. Provavelmente não significa nada. E, além disso, o que é que eu posso fazer? Obrigado pelo jantar.

— De nada. — Mattie parecia com tanta vontade de chorar que peguei a mão dela de novo e beijei seu dorso. — Eu me sinto uma idiota.

— Você não é idiota — eu disse.

Dei-lhe outro beijo na mão e então liguei o carro e me afastei. E aquele foi o meu encontro romântico, o primeiro em quatro anos.

 

Dirigindo para casa, pensei num velho ditado que diz que nunca se pode conhecer verdadeiramente outra pessoa. É fácil dar a essa ideia uma expressão retórica, mas é um golpe — tão horrível e inesperado quanto uma grave turbulência num voo anteriormente calmo — descobrir que é um fato literal em sua própria vida. Continuava me lembrando de nossa visita a um especialista em fertilidade depois de estarmos tentando ter um bebê por quase dois anos sem sucesso. O médico tinha dito que eu tinha uma baixa contagem de espermatozoides — não desastrosamente baixa, mas baixa o suficiente para explicar o fracasso de Jo em conceber.

— Se quiserem um filho, provavelmente vão ter um sem qualquer ajuda especial — disse o médico. — Tanto as circunstâncias quanto o tempo estão a favor de vocês. Poderia acontecer amanhã ou daqui a quatro anos. Algum dia vão encher a casa de bebês? Provavelmente não. Mas podem ter dois, e quase certamente terão um se continuarem fazendo a coisa que os fabrica. — Jo tinha sorrido. — Lembrem-se, o prazer está na jornada.

Tinha havido muito prazer, sem dúvida, o sino de Bunter havia tocado muitas vezes, mas não houve bebê nenhum. Então Johanna morreu ao atravessar correndo o estacionamento de um shopping center num dia quente, e um dos objetos em sua bolsa era um teste de gravidez doméstico que ela não me contou que queria comprar. Assim como também não me disse que havia comprado duas corujas de plástico para evitar que os corvos fizessem cocô no deck do lago.

Que outras coisas ela não tinha me contado?

— Pare — murmurei. — Pelo amor de Deus, pare de pensar nisso.

Mas eu não conseguia.

Quando voltei a Sara, os ímãs de frutas e legumes na geladeira estavam de novo num círculo. Três letras haviam sido reunidas no meio:

b m

o

Movi o o para o lugar que eu achava que era o dele, formando a palavra “bom”. Será que essa é a ordem das letras? O que significava aquilo exatamente?

— Eu podia especular, mas prefiro não fazer nada disso — falei para a casa vazia.

Olhei para Bunter, o alce, desejando que o sino em seu pescoço comido de traça tocasse. Quando não tocou, abri meus dois novos pacotes de ímãs e prendi as letras magnéticas na porta da geladeira, espalhando-as. Então desci para a ala norte, nu, e escovei os dentes.

Enquanto arreganhava minhas presas para o espelho numa espumosa careta de desenho animado, pensei em chamar Ward Hankins novamente no dia seguinte de manhã. Podia lhe dizer que minha busca das esquivas corujas de plástico tinha progredido de novembro de 1993 para julho de 1994. Que encontros Jo tinha anotado na agenda para aquele mês? Que desculpas para sair de Derry? E quando eu tivesse terminado com Ward, podia atacar Bonnie Amudson, a amiga de Jo, e perguntar-lhe se algo vinha acontecendo com Jo no último verão de sua vida.

Deixe-a descansar em paz, está bem? Era a voz de OVNI. Que bem que lhe trará remexer nisso? Pense que ela deu um pulo na TR depois de uma de suas reuniões do conselho, talvez só num impulso, encontrou um velho amigo, levou-o para casa para jantar. Só jantar.

E nunca me contou?, perguntei à voz de OVNI, cuspindo um bocado de pasta de dente e depois enxaguando a boca. Nunca disse uma única palavra?

Como é que sabe que ela nunca disse?, devolveu a voz, e isso me congelou no ato de colocar minha escova de dentes de novo no armário do banheiro. A voz de OVNI tinha marcado um ponto. Eu estive profundamente mergulhado em De cima para baixo em julho de 1994. Jo podia ter entrado e me contado que tinha visto Lon Chaney Jr. dançando com a rainha, fazendo os Lobisomens de Londres e eu provavelmente teria dito “Tudo bem, meu amor, que ótimo”, enquanto fazia a revisão do texto.

— Besteira — disse para o meu reflexo. — Isso é só besteira.

Mas não era. Quando eu estava realmente mergulhado num livro, saía mais ou menos do mundo; fora uma rápida espiada nas páginas de esporte, eu não lia sequer o jornal. Portanto, sim, era possível que Jo tivesse me dito que passaria na TR depois de uma reunião do conselho em Lewiston ou Freeport, era possível que tivesse me dito que tinha encontrado um velho amigo, talvez outro aluno do seminário de fotografia que ela havia frequentado em Bates em 1991 — e era possível que tivesse me dito que tinham jantado juntos em nosso deck, comendo cogumelos trombeta-negra colhidos por ela enquanto o sol se punha. Era possível que tivesse me dito essas coisas e eu não tivesse registrado uma palavra do que disse.

E eu realmente achava que conseguiria algo em que pudesse confiar de Bonnie Amudson? Ela foi amiga de Jo, não minha, e Bonnie podia sentir que o estatuto de limitações sobre quaisquer segredos que minha mulher tivesse contado a ela não tinha cessado.

O pano de fundo era tão simples quanto brutal: Jo tinha morrido havia quatro anos. Melhor amá-la e deixar todas as perguntas perturbadoras de lado. Tomei uma última golada de água diretamente da torneira, bochechei e a cuspi.

 

Quando voltei à cozinha para acertar a cafeteira elétrica para as sete horas, vi uma nova mensagem num novo círculo de ímãs. Dizia

rosa azul mentiroso ha ha

Olhei aquilo por um ou dois segundos, imaginando o que tinha colocado as palavras ali e por quê.

Perguntando-me se era verdade.

Estendi a mão e espalhei bem todas as letras. Então fui para a cama.