Saco de Ossos

Stephen King · Capítulo 7 de 32

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Saco de Ossos

Capítulo Cinco

 

Certa vez, quando eu tinha 16 anos, um avião rompeu a barreira do som bem acima da minha cabeça. Eu estava caminhando pelo bosque quando aconteceu aquilo, pensando em alguma história que ia escrever, talvez, ou como seria fantástico se Doreen Fournier fraquejasse alguma sexta-feira à noite e me deixasse tirar suas calcinhas quando estivéssemos estacionados no final da estrada Cushman.

De qualquer modo, eu estava viajando por estradas mais distantes em minha mente e, quando o estrondo ocorreu, fui pego totalmente de surpresa. Caí no chão frondoso com as mãos sobre a cabeça e o coração batendo loucamente, certo de que chegara ao fim de minha vida (e enquanto ainda era virgem). Em meus 40 anos, aquela fora a única coisa que se igualava ao sonho final da “série Manderley” em terror absoluto.

Fiquei no chão, esperando o céu cair sobre minha cabeça, e quando trinta segundos ou mais se passaram e ele não caiu, comecei a perceber que tinha sido apenas um piloto de caça da base de aviação naval de Brunswick ansioso demais para ter de esperar até sobrevoar o Atlântico para ultrapassar a velocidade do som. Mas, puta merda, quem poderia ter imaginado que seria tão alto?

Levantei-me lentamente e, enquanto estava ali com as batidas de meu coração finalmente diminuindo de intensidade, percebi que não tinha sido o único a ficar apavorado pelo súbito estrondo no céu claro. Pela primeira vez na minha lembrança, o pequeno bosque atrás de nossa casa em Prout’s Neck estava completamente silencioso. Fiquei ali sob uma faixa empoeirada de sol, folhas caídas salpicando minha camiseta e meus jeans, prendendo a respiração, escutando. Jamais percebi um silêncio como aquele. Mesmo num dia gelado de janeiro, o bosque estaria cheio de conversa.

Enfim, um pintassilgo cantou. Houve dois ou três segundos de silêncio, e em seguida um gaio respondeu. Outros dois ou três segundos se passaram, e então um corvo acrescentou seu dedo de prosa. Um pica-pau começou a martelar em busca de larvas de inseto. Um esquilo zumbiu pela vegetação rasteira à minha esquerda. Um minuto depois de eu ter levantado, o bosque estava completamente vivo de pequenos ruídos novamente; voltara a seus negócios, como habitualmente, e eu continuei com os meus. No entanto, jamais esqueci aquele estrondo inesperado, ou o silêncio mortal que se seguiu.

Pensei muitas vezes naquele dia de junho ao despertar do pesadelo, e não havia nada de extraordinário nisso. De certo modo, as coisas tinham mudado, ou poderiam mudar... mas primeiro vem o silêncio, enquanto nos asseguramos de que não estamos feridos e que o perigo — se havia perigo — desapareceu.

Derry esteve fechada pela maior parte da semana seguinte, de qualquer forma. Gelo e ventos fortes causaram uma grande quantidade de danos durante a tempestade, e uma repentina queda de 7 graus na temperatura posteriormente tornou o ato de cavar difícil e a limpeza lenta. Acrescente-se a isso o fato de que a atmosfera depois de uma tempestade de março é sempre melancólica e pessimista; somos atingidos por tempestades assim todos os anos (e em boa parte, por duas ou três em abril, se não tivermos sorte), mas nunca parecemos esperá-las. Cada vez que levamos essa pancada, nós a encaramos como uma ofensa pessoal.

Certo dia, perto do fim da semana, o tempo afinal começou a melhorar. Aproveitei a chance, saindo para tomar uma xícara de café e comer um doce, no meio da manhã, num pequeno restaurante três portas depois do Rite Aid, onde Johanna tinha feito sua última compra. Estava bebendo, mastigando e fazendo as palavras cruzadas do jornal quando alguém perguntou: “Posso sentar na sua mesa, sr. Noonan? Isso aqui está muito cheio hoje.”

Ergui os olhos e vi um velho que eu conhecia, mas que não conseguia identificar.

— Ralph Roberts — disse ele. — Sou voluntário na Cruz Vermelha. Eu e minha esposa, Lois.

— Ah, claro, é isso — eu disse. Doo sangue para a Cruz Vermelha a cada seis semanas, mais ou menos. Ralph Roberts era um dos velhos camaradas que passavam o suco e os biscoitos depois, dizendo-lhe para não levantar ou fazer qualquer movimento súbito se você se sentisse tonto.

— Sente-se, por favor.

Olhou para o meu jornal, dobrado no lugar das palavras cruzadas e estendido numa faixa de sol, enquanto deslizava para a mesa.

— Não acha que fazer palavras cruzadas no Derry News é como cancelar o lançador num jogo de beisebol? — perguntou ele.

Eu ri e concordei com a cabeça.

— Faço isso pela mesma razão que as pessoas escalam o Everest, sr. Roberts... porque está lá. Só que com as palavras cruzadas do News, ninguém cai.

— Pode me chamar de Ralph. Por favor.

— Ok. E eu sou Mike.

— Ótimo. — Ele riu, revelando dentes que eram tortos e um pouco amarelados, mas todos seus. — Gosto de passar aos prenomes. É como poder tirar a gravata. Tivemos uma ventaniazinha e tanto, hein?

— É — eu disse —, mas está esquentando de modo bem agradável agora. — O termômetro havia dado um de seus ágeis saltos de março, subindo dos 4 graus negativos da noite anterior para 10 graus naquela manhã. Melhor do que a subida da temperatura era o sol banhando novamente nossos rostos. Foi aquele calor que me impeliu para fora de casa.

— A primavera vai chegar aqui, acho. Em alguns anos ela se perde um pouco, mas sempre parece achar o caminho de volta para casa. — Ele bebeu seu café, depois colocou a xícara na mesa. — Não tenho visto você ultimamente na Cruz Vermelha.

— Estou reciclando — eu disse, mas era mentira; eu me tornei qualificado para doar mais meio litro duas semanas antes. O cartão de lembrete estava em cima da geladeira. Simplesmente tinha esquecido. — Na semana que vem, com certeza.

— Só estou dizendo isso porque sei que você é um A, e sempre podemos usá-lo.

— Reserve uma cadeira para mim.

— Pode contar com isso. Está tudo bem? Estou perguntando porque você parece cansado. Se é insônia, tem a minha solidariedade, acredite.

Acho que ele tinha de fato o olhar do insone — olhos esbugalhados, de certo modo. Mas era também um homem de seus 70 e tantos anos, e não acho que alguém chegue a essa idade sem os sinais dela. Fique um pouco por aí, e a vida talvez bata em suas maçãs do rosto e olhos. Fique muito tempo e acabará se parecendo com o boxeador Jake La Motta depois de 15 rounds difíceis.

Abri a boca para dizer o que sempre digo quando alguém me pergunta se estou bem, depois pensei por que teria sempre que desfiar aquela cansativa merda de caubói, afinal de contas a quem eu estava tentando enganar? O que aconteceria se eu contasse ao cara que me dava cookies com pingos de chocolate na Cruz Vermelha, depois de a enfermeira retirar a agulha de meu braço, que não estava me sentindo cem por cento? Terremotos? Incêndios e enchentes? Merda.

— Não — eu disse. — Na realidade, não tenho me sentido tão bem, Ralph.

— Resfriado? Tem andado por aí.

— Não. O resfriado me pulou desta vez. E tenho dormido bem. — O que era verdade, não tinha havido nenhuma recorrência dos sonhos de Sara Laughs em sua versão normal ou de alta octanagem. — Acho que estou melancólico.

— Bem, você devia tirar umas férias — disse ele, depois bebeu o café. Quando olhou novamente para mim, franziu as sobrancelhas e abaixou a xícara. — O que é? Algo está errado?

Não, pensei em dizer. Você foi apenas o primeiro pássaro a cantar dentro do silêncio, Ralph, isso é tudo.

— Não, nada errado — eu disse, e então, porque quis ver o sabor que teriam as palavras saindo de minha própria boca, eu as repeti. — Umas férias.

— É — disse ele, rindo. — As pessoas fazem isso o tempo todo.

 

As pessoas fazem isso o tempo todo. Ele tinha razão; até gente que, a rigor, não podia arcar com umas férias. Quando ficavam cansados. Quando ficavam embaralhados em sua própria merda. Quando o mundo era demais para eles, ganhando e gastando.

Eu certamente podia arcar com umas férias, e certamente podia tirar tempo de trabalho — que trabalho, ha-ha? — e precisei que o homem-biscoito da Cruz Vermelha apontasse o que deveria ter sido evidente a um cara formado numa faculdade como eu: que não tirava umas férias verdadeiras desde que Jo e eu tínhamos ido às Bermudas, no inverno antes de ela morrer. Meu moinho particular não moía mais, mas ainda assim mantive o nariz virado para ele. Foi somente naquele verão, quando li o obituário de Ralph Roberts no News (ele foi atropelado por um carro), que percebi totalmente o quanto lhe devia. Posso dizer que seu conselho foi melhor do que qualquer copo de suco de laranja que já tomei após doar sangue.

 

Quando deixei o restaurante não fui para casa, mas perambulei por metade da maldita cidade, a parte do jornal com as palavras cruzadas parcialmente feitas debaixo do braço. Andei até ficar gelado, apesar da temperatura que subia. Não pensava em nada, e mesmo assim pensava em tudo. Era um tipo especial de pensamento, o tipo que sempre me ocorria quando chegava perto de começar um livro e, embora não pensasse assim havia anos, entrei nele de modo fácil e natural, como se jamais tivesse havido distância entre nós.

É como se uns sujeitos num grande caminhão tivessem parado em sua entrada de carros e carregassem coisas para o seu porão. Não consigo explicar melhor a situação. Não se pode ver o que são essas coisas porque estão todas embrulhadas em mantas acolchoadas, mas não é necessário vê-las. É mobília, tudo que você precisa para transformar sua casa num lar, arrumá-la direito, exatamente do modo como queria.

Depois que os camaradas entram de novo no caminhão e se afastam, você desce ao porão e anda por ali (como andei por Derry no final daquela manhã, subindo a colina e descendo o vale com minhas velhas galochas), tocando uma curva acolchoada aqui, um ângulo acolchoado ali. Isto é um sofá? Isto é uma cômoda? Não importa. Está tudo aqui, os homens da mudança não esqueceram nada, e apesar de você mesmo ter que levar tudo para o andar de cima (forçando frequentemente sua velha coluna no processo), está tudo bem. O importante é que a entrega foi totalmente feita.

Dessa vez pensei — esperei — que o caminhão tivesse trazido as coisas de que eu precisava para os quarenta anos restantes; os anos que eu poderia ter de passar na Zona sem Escrever. Vieram à porta do porão, bateram educadamente e, não sendo atendidos depois de vários meses, finalmente pegaram um aríete. EI, COMPANHEIRO, ESPERO QUE OBARULHO NÃOOASSUSTE DEMAIS, DESCULPE PELA PORTA!

Não me importava com a porta; importava-me com a mobília. Algum pedaço quebrado ou faltando? Acho que não. Achei que só tinha que levá-la para cima, tirar os acolchoados e colocá-la no lugar.

Na minha volta para casa, passei por The Shade, o encantador cineminha de Derry que passa filmes antigos e que prosperou apesar (ou talvez por causa) da revolução do vídeo. Naquele mês, exibia clássicos de ficção científica dos anos 1950, mas abril era dedicado a Humphrey Bogart, o eterno favorito de Jo. Fiquei sob a marquise do cinema por algum tempo, examinando um dos cartazes dos próximos filmes. Então fui para casa, escolhi um agente de viagens ao acaso na lista telefônica e disse ao cara que queria ir para Key Largo. O senhor quer dizer Key West, disse ele. Não, repeti, quero dizer Key Largo, exatamente como no filme de Bogie e Bacall. Três semanas. Então pensei melhor. Eu era rico, estava sozinho e aposentado. Que merda era aquela de “três semanas”? São seis semanas, eu disse. Encontre um chalé ou coisa parecida para mim. Vai ser caro, disse ele. Respondi que não tinha importância. Quando eu voltasse a Derry, seria primavera.

Enquanto isso, tinha mobília para desembrulhar.

 

Fiquei encantado com Key Largo durante o primeiro mês, e completamente entediado nas duas últimas semanas. No entanto, continuei lá porque o tédio é bom. As pessoas com alta tolerância ao tédio podem fazer um monte de coisas. Comi um bilhão de camarões, bebi cerca de mil margaritas e li 23 romances de John D. MacDonald, contando um a um. Eu me queimei, descasquei e finalmente me bronzeei. Comprei um boné de aba longa com PARROTHEAD bordado nele com uma linha verde brilhante. Andei pela mesma faixa de praia até conhecer todos pelo primeiro nome. E desembrulhei a mobília. Não gostava de boa parte dela, mas não havia dúvida de que combinava com a casa.

Pensei em Jo e em nossa vida juntos. Eu me lembrei de quando disse a ela que

ninguém jamais confundiria Sendo dois com Look homeward, angel. 3“Você não vai vir agora com essa besteira de artista frustrado, vai, Noonan?”, respondeu ela... e durante o meu tempo em Key Largo tais palavras continuaram voltando, sempre na voz de Jo: besteira, besteira de artista frustrado, toda a porra dessa besteira de estudante de artista frustrado.

Pensei em Jo em seu longo avental, vindo em minha direção com um chapéu cheio de cogumelos trombeta negra, rindo e triunfante. “Ninguém na TR come melhor dos que os Noonan esta noite! ”, gritou. Pensei nela pintando as unhas dos pés, curvada entre as próprias coxas do modo que só as mulheres executando esse tipo de coisa conseguem fazer. Pensei nela me jogando um livro porque eu ri de seu novo corte de cabelo. Pensei nela tentando aprender a tocar um breakdown em seu banjo e em sua aparência sem sutiã num suéter fino. Pensei nela chorando, rindo e zangada. Pensei nela me dizendo que aquilo era besteira, tudo besteira de artista frustrado.

E pensei nos sonhos, especialmente no sonho culminante. Poderia fazer aquilo facilmente, pois ele jamais se dissipava como os sonhos comuns. O sonho final de Sara Laughs e minha primeira polução noturna (por causa de uma moça deitada numa rede e comendo uma ameixa) são os únicos que continuam perfeitamente claros para mim, ano após ano; o resto são fragmentos enevoados ou completamente esquecidos.

Havia muitos detalhes nítidos nos sonhos de Sara — os mergulhões-do-norte, os grilos, a estrela da noite e meu pedido a ela, para citar só alguns —, mas eu achava que a maioria dessas coisas eram verossímeis. O cenário, se desejar. Como tal, podiam ser descartados de minhas considerações. Sobravam então três elementos importantes, três grandes peças de mobília a serem desembrulhadas.

Enquanto eu estava na praia observando o sol se pôr entre meus dedos dos pés sujos de areia, não achei que era preciso ser analista para ver como essas coisas se combinavam.

Nos sonhos de Sara, os elementos importantes eram o bosque atrás de mim, a casa abaixo de mim e o próprio Michael Noonan, imobilizado no meio. Está ficando escuro e há perigo no bosque. Será assustador ir para a casa lá embaixo, talvez porque tenha ficado vazia por tanto tempo, mas jamais duvidei de que preciso ir até lá; amedrontador ou não, é o único abrigo que tenho. Só que não posso fazê-lo. Não consigo me mexer. Estou no caminho do escritor.

No pesadelo, finalmente sou capaz de ir em direção ao abrigo, só que este se revela falso. Revela-se mais perigoso do que eu esperei algum dia em meu... bem, sim, em meus sonhos mais alucinados. Minha mulher morta corre para fora, gritando e ainda emaranhada em sua mortalha, para me atacar. Mesmo cinco semanas depois e a quase cinco mil quilômetros de Derry, lembrar daquela veloz coisa branca com seus braços flácidos me fazia tremer e olhar para trás por cima de meu ombro.

Mas era Johanna? Eu realmente não sabia, sabia? A coisa estava toda embrulhada. O caixão parecia com aquele em que tinha sido enterrada, mas podia ser apenas uma pista falsa.

Caminho do escritor, bloqueio de escritor.

Não consigo escrever, dissera à voz no sonho. A voz diz que consigo. Diz que o bloqueio de escritor sumiu, e acredito nela porque o caminho do escritor sumiu; eu finalmente me dirigi para a entrada de carros, para o abrigo. Mas tenho medo. Mesmo antes que a coisa branca e sem forma aparecesse, estava aterrorizado. Digo que tenho medo da sra. Danvers, mas isso é apenas minha mente no sonho misturando Sara Laughs com Manderley. Tenho medo de...

— Tenho medo de escrever — ouvi-me dizendo alto. — Tenho medo até de tentar.

Foi na noite antes de voar de volta para o Maine, e eu não estava muito sóbrio, e continuava a beber. No final de minhas férias, eu bebia muito de noite.

— Não é o bloqueio que me assusta, é desfazer o bloqueio. Estou realmente fodido, pessoal. Fodido em grande estilo.

Fodido ou não, pensei que finalmente chegaria ao centro da questão. Tinha medo de desfazer o bloqueio, medo talvez de pegar as pontas soltas de minha vida e prosseguir sem Jo. Contudo uma parte profunda da minha mente acreditava que eu precisava fazer isso; os ruídos ameaçadores atrás de mim no bosque se referiam a isso. E a crença explica muito. Demais talvez, especialmente se você é imaginativo. Quando uma pessoa imaginativa entra em dificuldades mentais, a linha entre ser e parecer dá um jeito de sumir.

Coisas no bosque, sim, senhor. Eu tinha uma delas bem aqui na mão, enquanto pensava isso. Ergui minha bebida, segurando o copo contra o céu do oeste para que o sol do poente parecesse queimar o vidro. Estava bebendo muito, e talvez aquilo fosse tranquilo em Key Largo — que droga, espera-se que as pessoas bebam muito nas férias, é quase lei —, mas eu andava bebendo demais, mesmo antes de ir para lá. Uma quantidade que poderia sair do controle de repente. Uma quantidade que podia causar problemas para a pessoa.

Coisas no bosque, e no lugar potencialmente seguro guardado por um bicho-papão que não era minha mulher, mas talvez a lembrança da minha mulher. Fazia sentido, porque Sara Laughs sempre fora o local preferido de Jo no planeta Terra. Esse pensamento levou a outro, a um que me fez mover as pernas para as laterais da espreguiçadeira na qual estava reclinado e me sentar com agitação. Sara Laughs foi também o lugar onde o ritual começou... champanhe, última linha e a bênção totalmente importante: Bom, então isso está bem, não é?

Eu queria que as coisas ficassem bem de novo? Queria mesmo? Há um mês ou um ano atrás eu poderia não ter certeza, mas agora tinha. A resposta era sim. Queria prosseguir — soltar-me de minha mulher morta, reabilitar meu coração, andar para a frente. Mas, para fazer isso, eu teria que voltar.

Voltar à casa de troncos. Voltar a Sara Laughs.

— É — eu disse, e minha pele se arrepiou. — É, é isso.

Então, por que não?

A pergunta me fez sentir tão estúpido quanto a observação de Ralph Roberts de que eu precisava de umas férias. Se eu precisava voltar a Sara Laughs agora que as férias terminaram, na verdade por que não? A primeira e a segunda noite poderiam ser um pouco assustadoras, uma ressaca de meu sonho final, mas só o fato de estar lá poderia dissolver o sonho mais rapidamente.

E (só permiti que esse último pensamento entrasse num canto humilde de minha mente consciente) algo podia acontecer com minha escrita. Não era provável... mas também não era impossível. A não ser por um milagre, não fora meu pensamento no Dia do Ano-novo enquanto me sentava na beira da banheira, segurando um chumaço úmido contra o corte na testa? Sim. A não ser por um milagre. Às vezes cegos caem, batem com a cabeça e recuperam a visão. Às vezes até deficientes físicos conseguem jogar fora as muletas quando chegam ao alto dos degraus da igreja.

Eu tinha oito ou nove meses antes que Harold e Debra começassem realmente a me amolar sobre o romance seguinte. Resolvi passar aquele tempo em Sara Laughs. Precisaria de certo prazo para amarrar as coisas em Derry, e certo prazo para que Bill Dean aprontasse a casa no lago para uma permanência de um ano, mas eu poderia estar lá no 4 de Julho, facilmente. Decidi que era uma boa data para ir, não só porque era aniversário dos Estados Unidos como também porque era o fim da estação de insetos no oeste do Maine.

No dia em que arrumei minha bagagem de férias (deixei as edições populares de John D. MacDonald para o próximo habitante da cabana), raspei a barba de uma semana de um rosto tão bronzeado que não parecia mais o meu e voei de volta para o Maine, eu estava decidido: voltaria para o lugar que meu subconsciente identificou como abrigo contra a escuridão que aumentava; voltaria ainda que minha mente tivesse também sugerido que fazer aquilo teria seus riscos. Eu não voltaria esperando que Sara fosse Lourdes... mas me permitiria ter esperanças e, quando visse a estrela vespertina espreitando sobre o lago pela primeira vez, eu me permitiria desejar isso.

 

Só uma coisa não se ajustava em minha desconstrução dos sonhos de Sara e, como não consegui explicá-la, tentei ignorá-la. Entretanto, não tive muita sorte; eu ainda era parcialmente um escritor, acho, e um escritor é um homem que ensinou a mente a se comportar mal.

Era o corte no dorso da minha mão. Esse corte tinha estado em todos os meus sonhos, eu juraria... e então ele realmente apareceu. Você não descobre esse tipo de merda nas obras do dr. Freud; uma coisa assim era só para a linha de emergência dos Amigos Paranormais.

Era uma coincidência, apenas isso, pensei enquanto meu avião começou a descer. Eu estava na poltrona A-2 (o simpático em viajar de avião na frente é que, se ele cair, você é o primeiro a chegar ao lugar do acidente) e olhando para as florestas de pinheiros enquanto planávamos em direção ao Aeroporto Internacional de Bangor. A neve tinha desaparecido por mais um ano; eu tirei férias até matá-la. Só coincidência. Quantas vezes você cortou as mãos na sua vida? Quero dizer, elas estão sempre na frente, não é? Gesticulando por aí. Praticamente implorando por um corte.

Tudo aquilo devia parecer verdade, e mesmo assim não parecia muito. Devia mas... bem...

Eram os garotos no porão. Eram eles que não engoliam aquilo. Os garotos no porão não engoliam aquilo de modo nenhum.

Naquele momento houve um baque quando o 737 aterrissou, e eu empurrei toda aquela linha de pensamento para fora da cabeça.

 

Uma tarde, pouco depois de ter voltado para casa, remexi nos armários até descobrir as caixas de sapato contendo antigas fotos de Jo. Peguei-as e depois examinei as de Dark Score Lake. Havia um número surpreendente delas, mas como Johanna era aficionada por fotografia, não havia muitas com ela. Encontrei uma, no entanto, que me lembrei de ter tirado em 1990 ou 1991.

Às vezes, até um fotógrafo sem talento pode tirar uma boa foto — se setecentos macacos passarem setecentos anos batucando em setecentas máquinas de escrever e tudo o mais —, e isso era bom. Nela, Jo estava em pé na plataforma flutuante, tendo por trás o sol vermelho-dourado. Tinha acabado de sair da água, ainda pingando, e usava um traje de banho de duas peças cinza com debrum vermelho. Eu a surpreendi rindo e afastando o cabelo ensopado da testa e das têmporas. Seus mamilos estavam salientes. Ela parecia uma atriz num cartaz de cinema de um daqueles filmes B de prazer proibido sobre monstros em Party Beach, ou de um serial killer espreitando o campus.

Fui atingido violentamente por um súbito e poderoso acesso de lascívia por ela. Eu a queria no andar de cima exatamente como na fotografia, com mechas do cabelo grudadas no rosto e naquele traje de banho bem justo. Queria sugar seus seios pela parte de cima da roupa de banho, provar o gosto do tecido e sentir a dureza deles. Queria sugar a água do algodão como leite, depois arrancar a parte de baixo da roupa de banho e fodê-la até explodirmos.

Com as mãos um pouco trêmulas, deixei a foto de lado, juntamente com algumas outras de que eu gostava (embora não gostasse de nenhuma do mesmo modo). Tive uma enorme ereção, daquelas que parecem pedra recoberta de pele. Tenha uma dessas e você não serve para nada até que ela vá embora.

O modo mais rápido de resolver um problema desses quando não há mulher por perto querendo ajudar é se masturbar; naquela época, porém, a ideia jamais passou pela minha cabeça. Em vez disso, caminhei inquieto pelos cômodos do andar de cima da casa, abrindo e fechando os punhos e com o que parecia um enfeite encapuzado enchendo a frente do jeans.

A raiva pode ser um estágio normal do processo de sofrimento — eu li que é —, mas nunca fiquei com raiva de Johanna depois de sua morte até o dia em que encontrei aquele retrato. Então, minha nossa, lá estava eu, com um tesão que simplesmente não passava, furioso com ela. Aquela vaca idiota, por que saiu correndo num dos dias mais quentes do ano? Vaca idiota e sem consideração, me deixar sozinho assim, sem poder nem sequer trabalhar.

Sentei na escada e pensei no que deveria fazer. O que deveria fazer era um drinque, resolvi, e depois talvez outro drinque, para fazer descer o primeiro. Na verdade, levantei dali antes de decidir que não era uma ideia muito boa, afinal de contas.

Em vez disso fui ao escritório, liguei o computador e fiz um jogo de palavras cruzadas. Naquela noite, quando fui para a cama, pensei em olhar a foto de Jo de roupa de banho novamente. Cheguei à conclusão que era uma ideia quase tão ruim quanto tomar alguns drinques quando eu estava me sentindo com raiva e deprimido. Mas vou ter o sonho esta noite, pensei ao apagar a luz. É claro que vou ter aquele sonho.

Mas não tive. Meus sonhos de Sara Laughs pareciam terminados.

 

Depois de uma semana, a ideia de pelo menos passar o verão no lago tornou-se melhor do que nunca. Assim, numa tarde de sábado no início de maio, quando calculei que qualquer caseiro de respeito do Maine estaria em casa assistindo a um jogo de beisebol do Red Sox, liguei para Bill Dean e lhe disse que estaria em minha casa do lago a partir de 4 de Julho mais ou menos... e se as coisas corressem como eu esperava, passaria o outono e o inverno lá também.

— Bem, é ótimo — disse ele. — É realmente uma boa notícia. Um monte de gente por aqui sentiu falta de você, Mike. Muitos querem lhe dar os pêsames por sua esposa, sabe?

Havia um levíssimo toque de censura em sua voz ou era apenas minha imaginação? Certamente Jo e eu tínhamos existido para a região; havíamos dado contribuições significativas para a pequena biblioteca que servia a área de Motton-Kashwakamak-Castle View, e Jo dirigiu a bem-sucedida campanha de fundos para conseguir um veículo dotado de uma biblioteca móvel para a localidade. Além disso, ela havia sido membro de um círculo de costura de senhoras (mantas de tricô eram sua especialidade) e membro de boa reputação da Cooperativa de Artesanato do Condado de Castle. Visitas a doentes... ajudando com a campanha anual de doação de sangue do corpo de bombeiros... recepcionando em um quiosque durante a Summerfest em Castle Rock... e coisas assim eram apenas um começo para ela. Jo também não o fazia com qualquer ostentação, mas de modo discreto e humilde, com a cabeça baixa (frequentemente para esconder um sorriso irônico, devo acrescentar — minha Jo tinha um senso de humor tipo Ambrose Bierce). Jesus, pensei, talvez o velho Bill tenha direito de mostrar censura.

— As pessoas sentem falta dela — eu disse.

— É, sentem sim.

— Eu ainda sinto muito a falta dela. Acho que é por isso que tenho ficado longe do lago. Passamos muitas épocas boas aí.

— Acho que sim. Mas seria ótimo ver você por aqui de novo. Vou ter muito o que fazer. O lugar está bem, você poderia se mudar esta tarde, se quisesse, mas quando uma casa permanece vazia o tempo que Sara está, fica mofada.

— Eu sei.

— Vou chamar Brenda Meserve para limpar todo aquele negócio de alto a baixo. A mesma moça de sempre, você sabe.

— Brenda é um pouco velha para uma grande limpeza de primavera, não é? — A senhora em questão tinha cerca de 65 anos, era robusta e alegremente grosseira. Gostava especialmente de piadas sobre o caixeiro-viajante que passava a noite como um coelho, pulando de buraco em buraco. Nada de sra. Danvers com ela.

— Senhoras como Brenda Meserve nunca ficam velhas demais para supervisionar as festividades — disse Bill. — Ela leva duas ou três moças para o aspirador e para levantar as coisas pesadas. Vão te custar talvez trezentos dólares. O que acha?

— Uma pechincha.

— O poço precisa ser testado, e o gerador também, mesmo que eu tenha a certeza que estejam ok. Vi um ninho de vespas junto ao velho estúdio de Jo que quero fumigar antes que as madeiras sequem. Ah, e o telhado da casa velha... você sabe, a peça do meio... precisa ser refeito. Eu devia ter te falado sobre ele no ano passado, mas sem você usar a casa, deixei de lado. Isso também pode ser feito?

— Pode, até 10 mil. Se passar disso, ligue para mim.

— Quero ser mico de circo se vai passar disso.

— Procure aprontar tudo antes que eu chegue, tudo bem?

— Tá, claro. Você vai querer sua privacidade, eu sei... mas é bom que saiba que não vai ter isso logo, logo. Ficamos chocados quando ela se foi tão jovem; todos nós aqui. Chocados e tristes. Ela era querida.

— Obrigado, Bill. — Senti lágrimas ardendo nos olhos. A dor é como um hóspede bêbado, sempre voltando para mais um abraço de despedida. — Obrigado por suas palavras.

— Você vai ter sua porção de bolos de cenoura, companheiro. — Ele riu, mas um pouco em dúvida, temendo estar cometendo uma impropriedade.

— Consigo comer um monte de bolo de cenoura — eu disse —, e se o pessoal exagerar, bem, Kenny Auster ainda tem aquele grande galgo irlandês?

— Tem, aquela coisa comeria bolo até explodir! — exclamou Bill muito bem-humorado. Riu até tossir. Esperei, sorrindo um pouco para mim mesmo. — Kenny chama o cachorro de Mirtilo, sabe-se lá por quê. Ele não é a coisa mais destrambelhada?! — Imaginei que estivesse se referindo ao cachorro e não a seu dono. Com não muito mais do que um metro e meio de altura e todo arrumadinho, Kenny Auster era o oposto do destrambelhado, este peculiar adjetivo do Maine que significa desajeitado, estabanado e propenso a levar tombos.

De repente percebi que sentia falta daquela gente — Bill, Brenda, Buddy Jellison, Kenny Auster e todos os outros que moravam o ano todo junto ao lago. Sentia falta até mesmo de Mirtilo, o galgo que trotava por toda parte com a cabeça erguida como se tivesse meio cérebro nela e longos fios de saliva pendendo das mandíbulas.

— Também tenho que descer lá e limpar as árvores caídas na nevasca — disse Bill. Parecia constrangido. — Até que não foi tão ruim esse ano, aquela última grande tempestade deixou neve por toda parte, graças a Deus, mas há uma boa quantidade de lixo que ainda tenho que tirar. Não vou demorar a fazer isso, agora. O fato de você não usar a casa não é uma desculpa. Venho descontando seus cheques. — Havia algo divertido em ouvir o velho babaca grisalho fazendo mea-culpa; Jo teria batido com os pés no chão e rido, tenho certeza.

— Se tudo estiver direito e funcionando no 4 de Julho, Bill, eu fico satisfeito.

— Então vai ficar satisfeito como um porco na lama. Isso é uma promessa. — O próprio Bill parecia satisfeito como um porco na lama, e fiquei contente. — Vai vir para cá e escrever um livro à beira d’água? Como nos velhos tempos? Não que os dois últimos livros não sejam ótimos, minha mulher não conseguiu largar aquele último por um segundo, mas...

— Não sei — eu disse, o que era verdade. E então a ideia me ocorreu. — Bill, pode me fazer um favor antes de limpar a entrada de carros e acionar Brenda Meserve?

— Se eu puder, com o maior prazer — respondeu. Então eu lhe disse o que queria.

 

Quatro dias depois, recebi um pequeno pacote com seu lacônico endereço para resposta: DEAN/ENT GERAL/TR-90 (DARK SCORE). Eu o abri e puxei vinte fotos tiradas com uma daquelas pequenas câmeras que são usadas uma vez e depois jogadas fora.

Bill encheu o filme com fotos de vários ângulos da casa, a maioria transmitindo aquele ar sutil de negligência de quando um lugar não é suficientemente utilizado... até mesmo um que é acaseirado (para usar as palavras de Bill) dá aquela impressão depois de algum tempo.

Mal olhei para as fotos. As primeiras quatro eram as que eu queria; enfileirei-as na mesa da cozinha, onde a forte luz do sol incidia diretamente sobre elas. Bill as tirara do alto da entrada de carros, apontando a câmera descartável para baixo, onde se esparramava Sara Laughs. Podia ver o musgo que tinha crescido não apenas nos troncos da casa principal, mas também nos das alas norte e sul. Podia ver a confusão de ramos caídos e os destroços das agulhas de pinheiro a esmo na entrada de carros. Bill deve ter ficado tentado a limpar tudo aquilo antes de tirar os instantâneos, mas não o fizera. Eu lhe tinha dito exatamente o que queria — “verrugas e tudo” foi a frase que usei —, e Bill me deu o que pedi.

Os arbustos dos dois lados da entrada de carros tinham crescido bastante desde que Jo e eu havíamos passado uma temporada significativa no lago; não estavam exatamente selvagens, mas alguns dos ramos mais compridos pareciam se estender avidamente uns para os outros através do asfalto, como amantes separados.

Contudo, meus olhos voltavam repetidamente para o alpendre ao lado da entrada de carros. As outras semelhanças entre as fotos e meus sonhos de Sara Laughs podiam ser apenas uma coincidência (ou a imaginação geralmente surpreendentemente prática do escritor em ação), mas eu conseguia explicar os girassóis crescendo através das tábuas do alpendre tanto quanto conseguia explicar o corte no dorso da minha mão.

Virei uma das fotos. Na parte de trás, num garrancho, Bill tinha escrito: Esses camaradas estão bastante adiantados... e invadindo!

Desvirei o retrato. Três girassóis, crescendo através das tábuas do alpendre. Não dois, nem quatro, mas três grandes girassóis com rostos como lanternas.

Exatamente como os do meu sonho.

3 Primeiro romance do escritor americano Thomas Wolfe, de 1929. (N. do E.)