Saco de Ossos

Stephen King · Capítulo 15 de 32

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Saco de Ossos

Capítulo Treze

 

Peguei sarampo quando tinha 8 anos e fiquei muito doente. “Achei que você ia morrer”, contou meu pai certa vez, e não era um homem dado a exageros. Disse que ele e minha mãe me enfiaram numa banheira de água gelada certa noite, os dois no mínimo meio convencidos de que o choque com o frio pararia meu coração; mas, como se estivessem completamente convencidos de que eu arderia diante deles se não fizessem algo, tinham resolvido tentar. Eu tinha começado a falar numa voz alta e monotonamente discursiva sobre as figuras brilhantes que via na sala — anjos que vinham me levar embora, pensou minha aterrorizada mãe —, e a última vez que meu pai havia tirado minha temperatura, antes do mergulho gelado, o mercúrio no velho termômetro retal Johnson & Johnson marcou 41 graus. Depois disso, contou ele, não ousou mais verificar a temperatura.

Não me lembro de nenhuma figura brilhante, mas de um estranho período em que eu parecia estar no corredor de uma sala de parque de diversões onde vários filmes diferentes eram exibidos ao mesmo tempo. O mundo ficou elástico, inchando em lugares onde nunca tinha inchado antes, ondulando em lugares que sempre tinham sido sólidos. Pessoas — na maioria parecendo incrivelmente altas — entravam e saíam rapidamente de meu quarto com pernas que davam a impressão de tesouras de desenho animado. As palavras saíam de suas bocas estrondeando, como ecos instantâneos. Alguém sacudiu sapatinhos de bebê diante de meu rosto. Lembro-me de meu irmão Siddy enfiando a mão dentro da camisa e fazendo repetidos ruídos de peido com o braço. A continuidade havia se rompido. Tudo vinha em segmentos, estranhas salsichas de Viena num cordão de veneno.

Entre aquela época e o verão em que voltei a Sara Laughs, tive as doenças habituais, infecções e lesões, mas nunca nada como o interlúdio febril dos meus 8 anos. Nunca esperei ter nada semelhante — acreditando, acho eu, que tais experiências ocorrem unicamente com crianças, gente com malária ou talvez àqueles que sofrem de colapsos mentais catastróficos. Mas, na noite de 7 de julho e na manhã de 8 de julho, passei por um período extraordinariamente parecido ao delírio da minha infância. Sonhar, acordar, me mover — tudo era uma coisa só. Vou contar o melhor que puder, mas nada do que eu possa dizer conseguirá transmitir a estranheza daquela experiência. Era como se eu tivesse encontrado uma passagem secreta escondida logo além da parede do mundo e tivesse me arrastado por ela.

 

Primeiro foi a música. Não Dixieland, porque não havia trombones, mas como Dixieland. Uma espécie primitiva e vertiginosa de bebop. Três ou quatro violões acústicos, uma gaita de boca, um baixo (ou talvez dois). Por trás de tudo isso havia uma dura e feliz batida que não parecia soar como se saísse de uma bateria verdadeira: soava como se alguém com muito talento para a percussão batesse num monte de caixas. Então uma voz de mulher se juntou ao resto — uma aguda voz de tenor, não muito masculina, tornando-se áspera nas notas altas. Era risonha, urgente e sinistra ao mesmo tempo, e eu soube imediatamente que ouvia Sara Tidwell, que jamais tinha gravado um disco em sua vida. Eu ouvia Sara Laughs, e, cara, ela estava excepcional.

You know we’re going back to MANderley,

We’re gonna dance on the SANderley,

I’m gonna sing with the BANderley,

We gonna ball all we CANderley —

Ball me, baby, yeah!4

Os baixos — sim, eram dois — irromperam num ritmo de dança de celeiro com o ritmo na versão de Elvis de “Baby Let’s Play House”, e então um solo de violão: Son Tidwell tocando aquela coisa arranhada.

As luzes cintilaram no escuro e então pensei em um som dos anos 1950, Claudine Clark cantando “Party Lights”. E ali estavam elas, lanternas japonesas pendendo das árvores no caminho dos degraus de dormente levando da casa para a água. Luzes de festa lançando círculos místicos de esplendor no escuro: vermelhas azuis e verdes.

Atrás de mim, Sara cantava a passagem para sua canção de Manderley — mamãe gosta dele maldoso, mamãe gosta dele forte, mamãe gosta de festejar a noite inteira —, mas estava sumindo. Sara e os Red-Top Boys tinham erguido o coreto da banda na entrada de carros por causa do som, mais ou menos onde George Footman tinha estacionado quando veio me entregar a intimação de Max Devore. Eu estava descendo para o lago através de círculos de esplendor, passando pelas luzes da festa rodeadas por mariposas de asas macias. Uma delas tinha conseguido entrar numa lâmpada e lançava uma sombra monstruosa, como um morcego, contra as nervuras do papel. As caixas de flores que Jo tinha colocado ao lado dos degraus estavam cheias de rosas que se abriam de noite. À luz das lanternas japonesas, pareciam azuis.

Agora a banda era apenas um tênue murmúrio; eu podia ouvir Sara cantando, rindo o tempo inteiro como se a letra da canção fosse a coisa mais engraçada que tinha ouvido, aquele negócio de Manderley-sanderley-canderley, mas eu não podia perceber mais as palavras isoladamente. Muito mais nítido estava o ondular do lago contras as rochas junto aos degraus, a batida oca dos barris sob a plataforma flutuante e o grito de um mergulhão-do-norte emergindo da escuridão. Alguém estava em pé na Rua à minha direita, à beira do lago. Não conseguia ver seu rosto, mas podia ver o blazer marrom e a camiseta que usava por baixo. As lapelas cortavam algumas letras da mensagem, portanto, via-se:

ONT

ORMA

ER

De qualquer modo, eu sabia o que queriam dizer — em sonhos quase sempre se sabe, não é? CONTAGEM NORMAL DE ESPERMATOZOIDES, o especial mais nojento do Village Café que já tinha havido.

No quarto norte, eu sonhava tudo isso, e então acordo o suficiente para saber que estava sonhando... só que foi como acordar dentro de outro sonho, porque o sino de Bunter tocava loucamente e havia alguém em pé no corredor. Sr. Contagem Normal de Espermatozoides? Não, ele não. A forma-sombra caindo sobre a porta não era bem humana. Era afundada, os braços indistintos. Sentei com o prateado tremor do sino, agarrando um punhado de lençol solto contra minha cintura nua, certo de que era a coisa amortalhada que estava ali — a que saíra do túmulo para me pegar.

— Por favor, não — eu disse numa voz seca e trêmula. — Por favor, não, por favor.

A sombra na porta ergueu os braços. É só um baile no celeiro, benzinho!, cantou a voz alegre e tempestuosa de Sara Tidwell. É só rodar e rodar!

Deitei de costas e puxei o lençol por cima do rosto num ato infantil de negação... e lá estava eu em nossa pequena língua de praia, apenas de cueca. Meus pés mergulhavam na água até o tornozelo. Estava quente como costuma ficar em pleno verão. Minha sombra difusa lançava-se de dois modos: numa direção, pela pequena lua que cavalgava não muito longe acima da água; e na outra, pela lanterna japonesa com a mariposa presa dentro dela. O homem em pé no caminho se fora, mas deixara uma coruja de plástico para marcar seu lugar. Ela me olhou com olhos gelados, de olheiras douradas.

— Ei, irlandês!

Olhei para a plataforma flutuante. Jo estava ali em pé. Devia ter acabado de sair da água, pois ainda estava pingando e o cabelo grudava-se no rosto. Usava o biquíni da foto que eu tinha encontrado, cinza com debrum vermelho.

— Há quanto tempo, irlandês, o que é que você acha?

— De quê? — respondi, embora soubesse.

— Disso! — Ela pôs as mãos nos seios e espremeu. A água escorreu entre seus dedos e pelos nós das mãos.

— Vamos, irlandês — disse ela ao meu lado e acima de mim. Vamos, seu patife, solte. — Eu a senti abaixar o lençol, puxando-o facilmente dos meus dedos entorpecidos pelo sono. Fechei os olhos, mas ela pegou minha mão e a colocou entre as suas pernas. Quando encontrei aquela fenda aveludada e comecei a acariciá-la, ela começou a esfregar minha nuca com os dedos.

— Você não é Jo — eu disse. — Quem é você?

Mas não havia ninguém ali para responder. Eu estava no bosque. Estava escuro e os mergulhões-do-norte gritavam no lago. Eu andava pelo caminho que levava ao estúdio de Jo. Não era um sonho; eu podia sentir o ar frio contra minha pele e a mordida ocasional de uma pedra na sola ou no calcanhar de meus pés nus. Um mosquito zumbiu junto à minha orelha, e o espantei. Eu estava usando uma cueca Jockey e a cada passo uma enorme e latejante ereção a esticava.

— Que droga é essa? — perguntei, à medida que o pequeno estúdio de madeira rústica de Jo assomava na escuridão. Olhei atrás de mim e vi Sara em sua colina, não a mulher, mas a casa, uma comprida casa de campo projetando-se para o lago delimitado pela noite. — O que é que está me acontecendo?

— Tudo bem, Mike — disse Jo. Estava em pé na plataforma, vendo-me nadar até ela. Pôs a mão atrás da nuca como uma modelo de calendário, erguendo mais os seios na frente única úmida. Como na fotografia, eu podia perceber seus mamilos salientes na roupa. Eu estava nadando de cuecas, e com a mesma ereção intensa.

— Tudo bem, Mike — disse Mattie no quarto norte, e abri os olhos.

Ela estava sentada ao meu lado na cama, calma e nua no fraco fulgor da luz que ficava acesa de noite. Seu cabelo estava solto nos ombros. Seus seios eram minúsculos, do tamanho de xícaras de chá, mas mostravam bicos largos e distendidos. Entre suas pernas, onde minha mão ainda pousava, havia um pompom de cabelo louro, macio como penugem. Seu corpo estava envolvido em sombras como asas de mariposas, como pétalas de rosas. Havia algo desesperadamente atraente nela ali sentada — era como o prêmio que você sabe que jamais ganhará na ardilosa galeria de tiro ou no jogo de argolas na feira do condado. Aquele que guardam na prateleira de cima. Ela estendeu a mão por debaixo do lençol e dobrou os dedos sobre o material esticado de minha cueca.

Está tudo bem, é só rodar e rodar , disse a voz de OVNI enquanto eu subia a escada para o estúdio de minha mulher. Curvei-me, procurei a chave debaixo do capacho e a peguei.

Subi a escada até a plataforma flutuante, molhado e pingando, precedido por meu sexo aumentado — será que existe algo tão involuntariamente cômico quanto um homem sexualmente excitado? Jo parou no assoalho com seu maiô molhado. Puxei Mattie para a cama comigo. Abri a porta do estúdio de Jo. Todas essas coisas aconteceram ao mesmo tempo, entretecendo-se dentro e fora umas das outras como fios de alguma corda ou cinto exótico. A coisa com Jo parecia mais um sonho, a coisa no estúdio, eu atravessando o chão e olhando para minha velha IBM verde, pelo menos. Mattie no quarto norte era algo entre sonho e realidade.

Na plataforma flutuante, Jo disse: “Faça o que quiser.” No quarto norte Mattie disse: “Faça o que quiser.” No estúdio, ninguém teve que me dizer nada. Lá eu sabia exatamente o que queria.

Na plataforma, curvei a cabeça, pus a boca num dos seios de Jo e suguei o peito coberto de tecido com minha boca. O gosto era de tecido úmido e lago molhado. Ela estendeu a mão para o local onde eu me projetava para fora e dei um tapa afastando-lhe a mão. Se ela me tocasse, eu gozaria imediatamente. Suguei, bebendo a corrente de água de algodão, tateando com minhas mãos, primeiro acariciando seu traseiro e depois puxando a parte de baixo de seu biquíni. Eu o tirei e ela caiu de joelhos. Consegui também finalmente me livrar de minha cueca molhada e grudenta e joguei-a sobre a parte do biquíni retirado. Então nos encaramos: eu, nu; ela, quase.

— Quem era o cara no jogo? — ofeguei. — Quem era, Jo?

— Ninguém em especial, irlandês. Só outro saco de ossos.

Riu, depois se apoiou nos quadris e me olhou fixamente. Seu umbigo era uma minúscula taça negra. Havia algo de cobra, esquisito e atrativo, em sua postura.

— Tudo ali embaixo é morte — disse ela, e apertou meu rosto com as palmas frias e os dedos brancos e ressequidos. Virou minha cabeça e então a inclinou para que eu olhasse dentro do lago. Sob a água vi os corpos em decomposição deslizando, empurrados por alguma corrente profunda. Os olhos molhados deles olhavam fixamente. Seus narizes mordiscados pelos peixes mostravam brechas. Suas línguas pendiam entre lábios brancos como gavinhas de ervas aquáticas. Alguns mortos arrastavam pálidos balões de entranhas de águas-vivas; outros eram pouco mais que ossos. Mas nem mesmo a visão dessa flutante parada carnal conseguiu me desviar do que eu queria. Livrei minha cabeça das mãos de Jo, empurrei-a para o chão e finalmente acalmei o que estava tão duro e belicoso, afundando-o profundamente. Seus olhos prateados de luar se ergueram para mim, através de mim, e vi que uma pupila era maior do que a outra. Que foi como seus olhos haviam se mostrado no monitor de TV quando eu a identifiquei no necrotério do condado de Derry. Ela estava morta. Minha mulher estava morta e eu fodia seu cadáver. Nem mesmo essa percepção me deteve.

— Quem era ele? — gritei para ela, cobrindo sua carne gelada estendida nas tábuas molhadas. — Quem era ele, Jo, pelo amor de Deus, diga, quem era ele?

No quarto norte, puxei Mattie para cima de mim, saboreando a sensação daqueles seios pequenos contra meu peito e a extensão de suas pernas entrelaçadas. Então a rolei para a outra extremidade da cama. Senti sua mão se estender para mim e a afastei com um tapa — se ela me tocasse onde pretendia, eu gozaria num instante.

— Abra as pernas, depressa — eu disse, e ela obedeceu. Fechei os olhos, cortando qualquer outra sensação em favor da que eu sentia. Investi, depois parei. Fiz um pequeno ajuste, puxando meu pênis inchado com o lado da mão, depois pressionei os quadris e deslizei para dentro dela como um dedo numa luva forrada de seda. Ela me olhou com os olhos bem abertos, então pôs a mão no meu rosto e virou minha cabeça.

— Tudo aí fora é morte — disse ela, como se apenas explicasse o óbvio. Pela janela eu via a Quinta Avenida entre as ruas 50 e 60, todas aquelas lojas chiques: Bijan e Bally, Tiffany, Bergdorf’s e Steuben Glass. Então chegou Harold Oblowski, caminhando na direção norte e balançando sua pasta de couro de porco (a que Jo e eu lhe demos de Natal no ano anterior à morte dela). Além dele, levando uma bolsa da Barnes and Noble pelas alças, estava a farta e bela Nola, sua secretária. Só que sua carne se fora. Era apenas um sorridente esqueleto de cobra, vestindo um terno Donna Karan e escarpim de crocodilo; ossos esqueléticos e cheios de anéis agarravam as alças da bolsa, em vez de dedos. Os dentes de Harold projetavam-se no seu habitual sorriso de agente, agora tão estendidos que eram quase obscenos. Seu terno preferido, um jaquetão cinza-carvão de Paul Stuart, adejava nele como uma vela à brisa fresca. À volta deles, dos dois lados da rua, caminhavam os mortos-vivos — mamães-múmias levando cadáveres de criancinhas pelas mãos ou empurrando-os em caros carrinhos de bebês, porteiros zumbis, skatistas reanimados. Um negro alto com as últimas tiras de carne pendendo de seu rosto como couro de cervo curado passeava com seu esquelético alsaciano. Os motoristas de táxi apodreciam ouvindo música hindu. Os rostos olhando dos ônibus que passavam eram caveiras, cada qual usando sua própria versão do sorriso de Harold — Oi, como vai, como está a mulher, os filhos, escrevendo algum bom livro ultimamente? Os vendedores de amendoim ambulantes se putrefaziam. Entretanto, nada disso podia me reprimir. Eu estava pegando fogo. Escorreguei as mãos para baixo de suas nádegas, erguendo-a, mordendo o lençol (notei sem qualquer surpresa que a padronagem era de rosas azuis) até soltá-lo do colchão para me impedir de mordê-la no pescoço, no ombro, nos seios, em qualquer lugar que meus dentes pudessem alcançar.

— Diga quem era ele! — gritei para ela. — Você sabe, sei que você sabe! — Minha voz estava tão abafada pela roupa de cama que enchia minha boca que duvidei de que alguém pudesse ter me entendido. — Me diz a verdade, sua vaca!

No caminho entre o estúdio de Jo e a casa, eu estava em pé no escuro, com a máquina de escrever nos braços e aquela ereção de alcance onírico pulsando abaixo de seu volume de metal — tudo aquilo pronto e nada voluntário. A não ser pela brisa noturna. Então tive consciência de que não estava mais sozinho. A coisa amortalhada estava atrás de mim, atraída como as mariposas pelas luzes da festa. Ela riu — um riso descarado, rouco de fumo, que só poderia pertencer a uma única mulher. Não vi a mão que se estendeu em torno de meu quadril para me agarrar — a máquina de escrever estava no caminho —, mas não precisava vê-la para saber que era marrom. A mão espremeu, apertando lentamente, os dedos contorcendo-se.

— O que quer saber, benzinho? — perguntou ela atrás de mim. Ainda rindo. Ainda provocando. — Quer mesmo saber? Quer saber ou quer sentir?

— Ah, você está me matando! — exclamei. A máquina de escrever, uns 13 quilos mais ou menos de IBM Selectric, tremia para a frente e para trás nos meus braços. Eu podia sentir meus músculos tensos como cordas de violão.

— Quer saber quem ele era, benzinho? O homem ruim?

— Me faz gozar, sua vadia! — gritei. Ela riu de novo, aquele riso áspero que era quase como uma tosse, e me apertou onde o aperto era melhor.

— Agora fique parado — disse ela. — Fique parado, menino bonito, a não ser que queira que eu me assuste e arranque essa sua coisa pelo... — Perdi o apoio enquanto o mundo inteiro explodia num orgasmo tão profundo e forte que achei que me racharia ao meio. Deixei minha cabeça cair para trás como um homem sendo enforcado e ejaculei olhando para as estrelas. Gritei, tive que fazê-lo, e no lago dois mergulhões-do-norte gritaram também.

Ao mesmo tempo, eu estava na plataforma flutuante. Jo se fora, eu conseguia ouvir ligeiramente o som da banda — Sara e Sonny e os Red-Top Boys atacando o “Black Mountain Rag”. Sentei, aturdido e esgotado, completamente oco. Não conseguia ver o atalho que levava a casa, mas discernia seu curso em zigue-zague pelas lanternas japonesas. Minha cueca estava ao lado num pequeno monte molhado. Peguei-a e comecei a vesti-la, somente porque não queria nadar para a praia com aquilo na mão. Parei com ela esticada entre os joelhos, olhando para meus dedos. Estavam pegajosos de carne podre. Projetando-se por baixo de várias unhas, viam-se bolos de cabelos arrancados. Cabelos de cadáver.

— Ah, meu Deus — gemi. — As forças me abandonaram. Eu chapinhava em algo molhado no quarto da ala norte. Aquilo em que me apoiava era quente, e no início pensei que fosse gozo. Mas a débil luminosidade do abajur de cabeceira mostrou algo mais escuro. Mattie tinha desaparecido e a cama estava cheia de sangue. Jazendo no meio daquela piscina, enxerguei algo que à primeira vista pensei ser um naco de carne ou um pedaço de órgão. Olhei mais atentamente e vi que era um bicho de pelúcia, um objeto de pelo negro manchado de sangue. Deitei de lado, encarando-o, querendo pular da cama e fugir do quarto, mas incapaz de fazê-lo. Meus músculos tinham sofrido uma síncope. Com quem estive mesmo fazendo sexo naquela cama? E o que fiz a ela? O quê, pelo amor de Deus?

— Não acredito nessas mentiras — escutei minha própria voz dizendo, e como se fosse um encanto, voltei com um tapa à minha unidade. Não foi exatamente o que aconteceu, mas é a única maneira de expressar o que mais ou menos se aproxima do que ocorreu, seja lá o que for. Eu estava dividido em três eus — um na plataforma flutuante, um no quarto norte, um no caminho —, e cada um deles sentiu aquele duro tapa, como se o vento tivesse se transformado em mão. Depois a escuridão se precipitou e nela o badalar contínuo e sonoro do sino de Bunter. Então o som desapareceu, e eu com ele. Durante um pequeno período, não estive em lugar algum.

 

Voltei ao displicente gorjeio de pássaros das férias de verão e à peculiar escuridão vermelha revelando que o sol brilhava através de minhas pálpebras fechadas. Meu pescoço estava duro, a cabeça inclinada num ângulo esquisito, as pernas dobradas desajeitadamente debaixo de mim, e eu sentia calor.

Levantei a cabeça com um estremecimento, sabendo mesmo enquanto abria os olhos que não estava mais na cama, nem na plataforma flutuante, nem no caminho entre a casa e o estúdio. Debaixo de mim, viam-se as tábuas do assoalho, duras e inflexíveis.

A luz era ofuscante. Fechei novamente os olhos, bem apertados, e gemi como um homem com ressaca. Eu os abri, protegidos por minhas mãos em concha, dei-lhes tempo para se adaptarem, e então, cautelosamente, retirei as mãos, sentei-me e olhei à volta. Eu me encontrava no corredor do andar de cima, deitado sob o ar-condicionado quebrado. O bilhete da sra. Meserve pendurado nele ainda era visível. Pousada do lado de fora da porta de meu escritório estava a IBM verde, com um pedaço de papel enfiado nela. Olhei para meus pés e vi que estavam sujos. Agulhas de pinheiros grudavam-se em suas solas, e um dos dedos estava arranhado. Levantei, cambaleei um pouco (minha perna direita tinha ficado dormente), apoiei uma das mãos na parede e me firmei. Examinei a parte de baixo do corpo. Eu usava a sunga com a qual tinha ido para a cama, e não parecia ter havido um acidente dentro dela. Puxei o cós e dei uma espiada para dentro. Meu pau tinha a aparência de sempre: pequeno, macio, enrodilhado e adormecido em seu ninho de pelos. Se a Loucura de Noonan tinha sido se aventurar pela noite, não havia nenhum sinal disso agora.

— Parecia mesmo uma aventura — resmunguei. Limpei o suor da testa com o braço. Estava sufocante. — Mas não do tipo sobre a qual já li em Os Hardy Boys.

Então me lembrei do lençol ensopado de sangue no quarto norte, e do bicho de pelúcia deitado de lado no meio dele. Não houve nenhuma sensação de alívio ligada à lembrança, aquela sensação de graças-a-Deus-foi-apenas-um-sonho que se tem depois de um pesadelo especialmente mau. Parecia tão verdadeiro como qualquer coisa que eu tinha sentido em meu delírio de febre de sarampo... e todas aquelas coisas tinham sido reais, apenas distorcidas por meu cérebro superaquecido.

Cambaleei para a escada e desci mancando, agarrando-me bem ao corrimão para o caso de minha perna dormente ceder. No andar de baixo, olhei atônito pela sala como se a visse pela primeira vez, e então manquei pelo corredor da ala norte.

A porta do quarto estava entreaberta, e por um momento não consegui me obrigar a empurrá-la totalmente e entrar. Sentia um medo tremendo, com a mente tentando repassar um velho episódio de Alfred Hitchcock Apresenta em que o homem estrangula a mulher durante uma ausência alcoólica. Ele passa uma boa meia hora procurando por ela e finalmente a encontra na copa, inchada, de olhos abertos. Kyra Devore era a única criança com idade para ter um bicho de pelúcia com quem estive recentemente, mas dormia tranquilamente sob a coberta de babado rosa quando deixei sua mãe e voltei para casa. Era idiota achar que eu tinha dirigido todo o caminho de volta à estrada Wasp Hill, provavelmente sem usar nada a não ser minha cueca, que tinha...

O quê? Violado a mulher? Trazido a criança para cá? Enquanto eu dormia?

Peguei a máquina de escrever durante o sono, não peguei? Está bem ali na droga do corredor.

Grande diferença entre percorrer uns 30 metros pelo bosque e 8 quilômetros pela estrada para...

Eu não ia ficar ali ouvindo aquelas vozes se engalfinhando em minha cabeça. Se não fosse maluco — e achava que não era —, escutar as idiotas brigonas provavelmente me deixariam doido, e bem rapidinho. Estendi a mão e empurrei a porta do quarto, abrindo-a totalmente.

Por um momento, vi de fato uma mancha de sangue tipo polvo espalhando-se pelo lençol, tão verdadeiro e centrado naquilo estava o meu terror. Então fechei os olhos bem apertados, depois os abri e olhei novamente. Os lençóis estavam amarfanhados, o de baixo quase totalmente solto. Eu via o revestimento de cetim acolchoado do colchão. Na beira da outra extremidade da cama havia um travesseiro. O outro jazia amarfanhado ao pé dela. O tapete pequeno — uma peça feita por Jo — estava torto, e meu copo d’água virado na mesinha de cabeceira. O quarto dava a impressão de ter sido palco de uma briga turbulenta ou de uma orgia, mas não de um assassinato. Não havia nenhum sangue nem qualquer animalzinho de pelúcia de pelo preto.

Ajoelhei-me e espiei debaixo da cama. Nada ali — nem mesmo os bolos de poeira, graças a Brenda Meserve. Examinei o lençol de baixo novamente, primeiro passando a mão em sua topografia amarrotada, depois o alisando e tornando a prendê-lo por seus cantos elásticos. Grande invenção, esses lençóis; se fossem as mulheres a distribuírem a Medalha da Liberdade, em vez de um bando de políticos brancos que jamais haviam feito uma cama ou lavado uma trouxa de roupa na vida, nessa altura dos acontecimentos os caras que tinham bolado os lençóis ajustáveis já teriam uma medalha, não havia dúvida. Numa cerimônia no Jardim das Rosas.

Com o lençol esticado, olhei de novo. Nenhum sangue, nem uma só gota. Também não havia nenhuma mancha endurecida de sêmen. O sangue de fato eu não esperava (pelo menos dizia isso a mim mesmo), mas o segundo? No mínimo eu tive a polução noturna mais criativa do mundo — um tríptico em que tinha fodido duas mulheres e sido agraciado com uma punheta pela terceira, tudo ao mesmo tempo. Pensava ter também aquela sensação de manhã-do-dia-seguinte, a que a gente tem quando o sexo da noite anterior foi de arrasar. Mas se tinha havido fogos de artifício, onde estava a pólvora queimada?

— No estúdio de Jo, provavelmente — falei para o quarto vazio e ensolarado. — Ou no caminho entre lá e cá. Contente por você não tê-la deixado na casa de Mattie Devore, meu chapa. Você não precisa ter um caso com uma viúva quase adolescente.

Uma parte de mim discordou; uma parte de mim pensava que Mattie Devore era exatamente aquilo de que eu precisava. Mas eu não tinha feito sexo com ela na noite passada, assim como não tinha feito sexo com minha mulher morta na plataforma flutuante ou recebido uma punheta de Sara Tidwell. Agora que verificava não ter matado uma criancinha simpática também, meus pensamentos voltaram à máquina de escrever. Por que eu a peguei? Por que me dar a esse trabalho?

Ô, cara. Que pergunta boba. Minha mulher pode ter guardado segredos de mim, talvez até tido um caso; pode haver fantasmas na casa; pode existir um velho rico a 800 metros ao sul querendo me enfiar um espeto afiado e depois quebrá-lo; pode haver alguns brinquedos em meu humilde sótão, por falar nisso. Mas enquanto eu estava ali em pé num brilhante raio de sol, olhando minha sombra na parede distante, só uma ideia parecia ter importância: eu tinha ido até o estúdio de Jo e pegado minha velha máquina de escrever, e só havia um motivo para fazer algo semelhante.

Entrei no banheiro, querendo me livrar do suor do corpo e da sujeira dos pés antes de qualquer outra coisa. Estendi a mão para a torneira do chuveiro e parei. A banheira estava cheia de água. Ou eu a enchi por alguma razão durante meu sonambulismo... ou alguma coisa o fez. Estendi a mão para o tampão da banheira e então parei novamente, me lembrando do instante no acostamento da rota 68, quando minha boca se encheu do sabor de água fria. Percebi que estava esperando que aquilo ocorresse de novo. Quando não ocorreu, abri o tampão da banheira para deixar a água sair e liguei o chuveiro.

 

Eu poderia ter levado a Selectric para o andar de baixo, talvez até a arrastado para o deck onde havia uma leve brisa subindo da superfície do lago, mas não o fiz. Eu a trouxe por todo o caminho até a porta do escritório, e meu escritório era onde trabalharia... se pudesse trabalhar. Trabalharia lá mesmo que a temperatura sob o telhado chegasse a 48 graus... o que, por volta das três da tarde, poderia ocorrer.

O papel dentro da máquina era um velho recibo de papel-carbono rosa da Click!, a loja de artigos fotográficos de Castle Rock onde Jo comprava seu material quando íamos lá. Eu o coloquei na máquina de modo que o lado vazio se defrontasse com a bola de tipo Courier. Eu tinha datilografado nele os nomes de meu pequeno harém, como se tivesse tentado ou me esforçado de algum modo para relatar o sonho trifacetado mesmo enquanto ocorria:

Jo Sara Mattie Jo Sara Mattie Mattie Mattie Sara Sara

Jo Johanna Sara Jo MattieSaraJo

 

Sob isso, em caixa-baixa:

contagem normal de espermatozoides contagem normal tudo está cor-de-rosa

Abri a porta do escritório, entrei carregando a máquina de escrever e coloquei-a em seu antigo lugar, abaixo do pôster de Richard Nixon. Puxei o papelzinho rosa do rolo, fiz uma bola com ele e o joguei na cesta de papel. Então peguei o plugue da Selectric e o enfiei na tomada do rodapé do assoalho. Meu coração batia dura e rapidamente, como quando eu tinha 13 anos e subia a escada para o alto trampolim da piscina da Associação Cristã de Moços. Subi aquela escada três vezes aos 12 anos e depois recuei furtivamente; quando fiz 13 anos, já não podia ser covarde — tinha que pular de verdade.

Pensei ter visto um ventilador escondido no canto do fundo do closet, na caixa que tinha a inscrição APARELHOS. Comecei a andar naquela direção, depois me virei de novo com um risinho áspero. Eu já tive um momento de autoconfiança antes, não é? Sim. E depois as fitas de ferro apertaram meu peito com força. Seria estúpido puxar o ventilador para fora e descobrir que, no final das contas, eu não tinha nada a fazer naquela sala.

— Calma — falei —, vá com calma. — Mas eu não podia, assim como o menino de peito estreito com aquele ridículo calção roxo também não pôde quando andou até o final do trampolim, a piscina tão verde lá embaixo, os rostos erguidos dos garotos e garotas tão pequenos, tão pequenos.

Curvei-me para uma das gavetas do lado direito da mesa e a puxei com tanta força que ela saiu inteiramente do encaixe. Tirei o pé nu de sua zona de aterrissagem no último momento e emiti um jorro de riso alto e sem humor. Havia meia resma de papel na gaveta. Suas bordas mostravam aquela aparência ligeiramente quebradiça dos papéis guardados por muito tempo. Só a vi tempo suficiente para lembrar que havia trazido meu próprio suprimento — material muito mais novo que aquele. Deixei o papel onde estava e coloquei a gaveta novamente em seu encaixe. Precisei de várias tentativas para enfiá-la nos trilhos; minhas mãos tremiam.

Finalmente sentei na cadeira de minha mesa, ouvindo os mesmos velhos estalos de quando ela recebia meu peso e o mesmo som surdo dos rolimãs enquanto a rodei para a frente, ajustando as pernas no lugar sob a mesa. Então encarei o teclado, transpirando abundantemente e ainda me lembrando da piscina da ACM e do trampolim, como era flexível sob meus pés enquanto caminhava por ele, me lembrando do cheiro de cloro e do pulsar contínuo dos exaustores de ar: fuung-fuung-fuung-fuung, como se a água tivesse sua própria pulsação secreta. Eu tinha ficado parado no final do trampolim imaginando (e não pela primeira vez!) se o fato de a gente se chocar com a água da maneira errada poderia causar uma paralisia. Provavelmente não, mas se poderia morrer de medo. Havia casos documentados assim no Acredite se Quiser, de Ripley, que me serviam de ciência entre as idades de 8 e 14 anos.

Vá em frente!, gritou a voz de Jo. Minha versão da voz dela era geralmente calma e controlada; desta vez era estridente. Pare de tremer e vá em frente!

Estendi a mão para o botão de ligar da IBM, lembrando agora do dia em que joguei o Word 6.0 na lixeira do meu PowerBook. Adeus, companheiro, tinha pensado.

— Tomara que funcione — eu disse. — Por favor.

Abaixei a mão e apertei o botão. A máquina foi ligada. A bola Courier deu um giro preliminar, como uma dançarina de balé em pé nos bastidores, esperando para continuar. Peguei um pedaço de papel, vi meus dedos suados deixando marcas neles e não me incomodei. Coloquei-o na máquina, centralizei-o, e escrevi

Capítulo Um

e esperei a tempestade desabar.

4 Você sabe que estamos voltando a MANderley, Vamos dançar no SANderley,

Vou cantar com a BANderley,

Vamos girar na CANderley —

Dance comigo, meu bem, ié!