Saco de Ossos

Stephen King · Capítulo 28 de 32

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Saco de Ossos

Capítulo Vinte e Seis

 

Depois disso, fiquei a maior parte do tempo na zona. Saía algumas vezes — quando aquele pedaço rabiscado de genealogia caiu de um de meus velhos blocos de notas, por exemplo —, mas tais interlúdios eram breves. De certo modo, eram como meu sonho com Mattie, Jo e Sara; eram como a febre terrível que tive quando criança, quando quase morri de sarampo; eram, sobretudo, como coisa nenhuma, exceto eles mesmos. Eram apenas a zona. Eu a sentia. Como gostaria de não estar fazendo isso.

George se aproximou, pastoreando o homem de máscara azul à sua frente. George mancava agora, gravemente. Eu sentia o cheiro de óleo quente, gasolina e pneus queimando.

— Ela morreu? — perguntou George. — Mattie?

— Morreu.

— E John?

— Não sei — respondi, e então John se torceu e gemeu. Estava vivo, mas continuava perdendo um bocado de sangue.

— Mike, escute — começou George, mas antes que pudesse dizer algo mais, um terrível grito líquido começou a vir do carro incendiado na vala. Era o motorista sendo cozinhado lá dentro. O atirador começou a se virar para aquele lado, mas George levantou a arma.

— Um movimento e eu te mato.

— Não pode deixá-lo morrer assim — disse o atirador por trás da máscara. — Você não deixaria um cachorro morrer assim.

— Ele já está morto — disse George. — Não se pode chegar nem a 3 metros daquele carro, a não ser com uma roupa de amianto. — Ele vacilou. Tinha o rosto branco como a mancha de chantili que limpei da ponta do nariz de Ki. O atirador deu a impressão de que ia se jogar em cima dele, mas George levantou mais a arma. — Da próxima vez que se mexer, não pare — disse George —, porque eu não vou parar. Te asseguro. Agora tira essa máscara.

— Não.

— Estou farto de você, cara. Pode se despedir do mundo. — George engatilhou o revólver.

O atirador disse:

— Jesus Cristo — e arrancou a máscara. Era George Footman. Não me surpreendeu muito. Por trás dele, o motorista deu mais um guincho dentro da bola de fogo do Ford e então silenciou. A fumaça subia em grandes nuvens. Novos trovões rugiram.

— Mike, vá lá dentro e veja se encontra alguma coisa para amarrá-lo — disse George Kennedy. — Posso segurá-lo mais um minuto... dois, se for preciso, mas estou sangrando como um porco. Procure silver tape. Aquela merda segura até Houdini.

Footman ficou onde estava, olhando de Kennedy para mim e de novo para Kennedy. Então deu uma espiada para a rodovia 68, sinistramente deserta. Talvez não fosse tão sinistro na verdade — as tempestades a caminho haviam sido bem anunciadas. Os turistas e o pessoal de verão estariam abrigados. Quanto aos habitantes locais...

Os locais estavam... meio que ouvindo. Isso era pelo menos parecido. O pastor falava sobre Royce Merrill, uma vida longa e frutífera, um homem que serviu a seu país na paz e na guerra, mas o pessoal da velha guarda não estava escutando o ministro. Eles nos escutavam, do mesmo modo como certa vez tinham se reunido à volta do barril de picles no Armazém Lakeview a fim de escutar o campeonato de pesos-pesados pelo rádio.

Bill Dean segurava tão apertado o pulso de Yvette que suas unhas estavam brancas. Ele a machucava... mas ela não se queixava. Queria que ele se agarrasse a ela. Por quê?

— Mike! — A voz de George se mostrava perceptivelmente mais fraca. — Por favor, homem, me ajude. Esse cara é perigoso.

— Me solte — disse Footman. — É melhor, não acha?

— Vai se foder, seu escroto — disse George.

Eu me levantei, passei pelo vaso com a chave debaixo dele, subi os degraus de blocos de concreto. Relâmpagos explodiram no céu, seguidos pelo berro do trovão.

Lá dentro, Rommie sentava-se numa cadeira à mesa da cozinha, o rosto ainda mais branco do que o de George.

— A criança está bem — disse ele, forçando as palavras. — Mas parece que vai acordar... não posso andar mais. Meu tornozelo está totalmente fodido.

Andei até o telefone.

— Não se dê ao trabalho — disse Rommie numa voz áspera e trêmula. — Já tentei. Não dá linha. A tempestade já deve ter atingido outras cidades. Desligou alguns equipamentos. Deus do céu, nunca tive nada que doesse tanto como isso em toda a minha vida.

Fui até às gavetas da cozinha e comecei a puxá-las uma a uma, procurando silver tape, corda de náilon, qualquer porcaria. Se Kennedy desmaiasse pela perda de sangue enquanto eu estivesse ali, o outro George pegaria sua arma, o mataria, e então mataria John inconsciente na grama fumegante. Com eles fora do caminho, entraria e dispararia em Rommie e em mim. Terminaria com Kyra.

— Não vai não — eu disse. — Ele a deixará viva.

E isso podia ser até pior.

Talheres na primeira gaveta. Sacos para sanduíche, sacos de lixo e pilhas de cupões de armazém impecavelmente presos por elástico na segunda. Luvas para forno e pegadores de panela na terceira...

— Mike, onde está a minha Mattie?

Eu me virei, tão culpado como um homem flagrado ao misturar drogas ilegais. Em pé na extremidade do corredor que dava para a sala de estar, eu vi Kyra, o cabelo caindo à volta do rosto rosado de sono e o prendedor pendurado num pulso como um bracelete. Seus olhos estavam abertos e em pânico. Não foram os tiros que a acordaram, provavelmente nem mesmo o grito da mãe. Eu a acordei. Meus pensamentos a despertaram.

No instante em que percebi isso tentei de alguma forma velá-los, mas era tarde. Ela tinha lido em mim a respeito de Devore suficientemente bem para me dizer que não pensasse em nada triste, e agora lia o que tinha acontecido com a mãe antes que eu pudesse tirá-lo de minha mente.

Sua boca se abriu, frouxa. Os olhos se arregalaram. Ela deu um grito agudo, como se tivesse sido presa num torno, e correu para a porta.

— Não, Kyra, não! — Corri pela cozinha, quase tropeçando em Rommie (ele me olhou com a obscura incompreensão de alguém que não está mais completamente consciente), e agarrei-a a tempo. Enquanto o fazia, vi Buddy Jellison deixando a igreja batista por uma porta lateral. Dois dos homens que haviam fumado com ele também saíram. Então entendi por que Bill estava segurando Yvette tão apertado, e o amei por isso... amei os dois. Alguma coisa queria que ele fosse com Buddy e os outros... mas ele não estava indo.

Kyra lutou em meus braços, dando grandes saltos convulsivos na direção da porta, arquejando e depois gritando novamente. Me solta, quero ver mamãe, me solta, quero ver mamãe, me solta.

Gritei seu nome com a única voz que eu sabia que ela ouviria, a que só eu podia usar com ela. Pouco a pouco relaxou em meus braços e se virou para mim. Seus olhos estavam enormes, confusos e brilhantes de lágrimas. Ela me olhou por um momento mais e então pareceu entender que não devia ir lá fora. Eu a pus no chão. Ki ficou ali um momento, depois recuou até que suas costas esbarrassem na lava-louça. Então deslizou pela macia frente branca da máquina até o chão. A seguir começou a choramingar — os sons de dor mais terríveis que eu já tinha ouvido. Via-se que ela compreendeu totalmente. Tive que lhe mostrar o suficiente para que continuasse dentro de casa, tive mesmo... e porque estávamos na zona juntos, pude fazê-lo.

Num caminhão picape dirigindo-se para este local, vi Buddy e seus amigos. CONSTRUÇÃOBAMM, dizia a lateral do veículo.

— Mike! — gritou George, parecendo em pânico. — Depressa!

— Aguenta aí! — gritei em resposta. — Aguenta aí, George!

Mattie e os outros haviam começado a empilhar as coisas do piquenique ao lado da pia, mas tinha quase certeza de que o balcão de fórmica acima das gavetas estava limpo e vazio quando eu corri para Kyra. Agora não. O recipiente amarelo do açúcar tinha sido derrubado. Escrito no açúcar derramado vi as palavras:

— Tá brincando — murmurei, e examinei as gavetas que sobravam. Nada de silver tape ou de corda. Nem mesmo um nojento par de algemas, e nas cozinhas mais bem equipadas podem-se encontrar umas três ou quatro. Então tive uma ideia, e procurei no armário embaixo da pia. Quando voltei para fora, o nosso George oscilava sob as vistas de Footman, que o olhava com uma concentração predatória.

— Achou silver tape — perguntou George Kennedy.

— Não, algo melhor — eu disse. — Diga aqui, Footman, quem lhe pagou? Devore ou Whitmore? Ou você não sabe?

— Vai se foder.

Eu estava com a mão direita escondida nas costas. Então apontei para a colina com minha mão esquerda e fiz um ar surpreso.

— Que droga Osgood está fazendo? Diga a ele para ir embora!

Footman olhou na direção apontada — foi instintivo — e eu bati na parte de trás de sua cabeça com o martelo encontrado na caixa de ferramentas sob a pia de Mattie. O som foi horrível, o borrifo de sangue que esguichou do cabelo em movimento foi horrível. Pior do que tudo, porém, foi a sensação do crânio cedendo — um colapso esponjoso que subiu diretamente do cabo do martelo até meus dedos. Ele caiu como um saco de areia e eu larguei o martelo, arquejando.

— Certo — disse George. — Um pouco feio, mas provavelmente a melhor coisa que você podia fazer nas... atuais... circun...

Ele não caiu como Footman — foi mais lento e controlado, quase gracioso —, mas estava tão apagado quanto o outro. Peguei o revólver, o fitei e então o atirei no bosque do outro lado da estrada. Não era bom eu ter uma arma naquele momento; só podia me arranjar mais problemas.

Mais dois homens haviam saído da igreja; assim como um carro cheio de senhoras de vestidos pretos e véus. Tinha que me apressar ainda mais. Desafivelei as calças de George e desci-as. A bala que o atingiu na perna tinha rasgado sua coxa, mas o ferimento parecia estar coagulando. O braço de John era outra história — ainda bombeava sangue para fora em quantidades assustadoras. Arranquei seu cinto e apertei-o em torno de seu braço tão forte quanto pude. Então dei-lhe uns tapas no rosto. Seus olhos se abriram e se fixaram em mim com uma toldada falta de reconhecimento.

— Abra a boca, John! — Ele apenas me fixava. Debrucei-me para a frente até que nossos narizes quase se tocavam e gritei ABRA A BOCA! AGORA! Ele a abriu como uma criança quando a enfermeira lhe diz para dizer aahh. Enfiei a ponta do cinto entre seus dentes. — Feche! — Ele fechou a boca. — Agora fique assim. Mesmo que você desmaie, continue assim.

Não tive tempo para ver se ele estava prestando atenção. Levantei e olhei para cima enquanto o mundo inteiro ficava de um azul ofuscante. Por um segundo foi como estar dentro de um letreiro a néon. Lá em cima havia um suspenso rio negro, rolando e ziguezagueando como uma cesta de serpentes. Eu jamais tinha visto um céu tão maléfico.

Subi correndo os degraus de cimento e entrei no trailer de novo. Rommie tinha desmoronado para a frente na mesa, o rosto sobre os braços dobrados. Ele poderia parecer um professor de jardim de infância descansando se não fosse a tigela de salada quebrada e os pedaços de alface em seu cabelo. Kyra ainda estava sentada com as costas na lavadora de pratos, chorando histericamente.

Levantei-a e percebi que ela tinha se molhado.

— Temos que ir agora, Ki.

— Cadê Mattie? Eu quero mamãe! Eu quero minha Mattie, faz ela parar de tá machucada! Faz ela parar de morrer!

Cruzei o trailer depressa. A caminho da porta, passei pela mesinha com o romance de Mary Higgins Clark. Notei o montinho das fitas de cabelo de novo — fitas talvez experimentadas antes da reunião e depois descartadas em benefício do prendedor. Eram brancas com bordas vermelhas brilhantes. Bonitas. Sem parar, peguei-as e enfiei-as no bolso das calças, depois mudei Ki para meu outro braço.

— Quero Mattie! Quero mamãe! Faz ela voltar! — Ela me batia tentando me fazer parar, depois começou a se debater e chutar em meu colo novamente. Batia com os punhos nos lados da minha cabeça. — Me põe no chão! Me põe no chão!

— Não, Kyra.

— Quero descer! Me põe no chão! Me põe no chão! QUERO DESCER!

Eu estava perdendo o controle dela. Então, quando chegamos ao degrau de cima, ela parou abruptamente de se debater.

— Me dá o Stricken! Quero o Stricken!

No início, eu não tinha ideia do que ela estava falando, mas, quando olhei para onde estava apontando, entendi. No caminho, não longe do vaso que escondia a chave, estava o brinquedo de pelúcia do McLanche Feliz. Pela aparência, Strickland tinha aguentado muita brincadeira ao ar livre — o pelo cinza-claro estava agora cinza-escuro de poeira; mas se o brinquedo a acalmava, eu queria que ficasse com ele. Não era o momento de me preocupar com sujeira e germes.

— Vou lhe dar Strickland se você prometer fechar os olhos e não abrir até eu lhe dizer para abrir. Promete?

— Prometo — disse, tremendo em meu colo, e grandes lágrimas redondas, das que se espera ver em contos de fadas e nunca na vida real, surgiram em seus olhos e transbordaram pelo rosto. Eu podia sentir o cheiro de grama queimando e bife carbonizado. Por um momento terrível, pensei que ia vomitar, mas consegui controlar a vontade.

Ki fechou os olhos. Mais duas lágrimas rolaram para o meu braço, quentes. Ela esticou a mão, tateando. Desci os degraus, peguei o cachorro e hesitei. Primeiro as fitas, agora o cachorro. Com as fitas tudo bem, provavelmente, mas havia algo errado em lhe dar o cachorro, e que o levasse com ela. Errado mas...

É cinzento, irlandês, a voz de OVNI sussurrou. Não precisa se preocupar com ele porque é cinzento. O brinquedo de pelúcia de seu sonho era preto.

Eu não sabia exatamente o que a voz queria dizer com aquilo e não tinha tempo para descobrir. Coloquei o cachorro de pelúcia na mão aberta de Kyra. Com os olhos ainda fechados, ela o levou ao rosto e beijou-lhe o pelo empoeirado.

— Quem sabe Stricken pode fazer mamãe melhorar, Mike. Stricken é um cachorro mágico.

— Continue de olhos fechados. Não abra até que eu diga que pode.

Ela apoiou o rosto no meu pescoço. Carreguei-a daquele modo pelo pátio até o meu carro e a instalei na frente, no banco de passageiro. Ela se deitou cobrindo a cabeça com os braços, e uma das mãos gorduchas agarrava o cachorro de pelúcia sujo. Eu lhe disse para ficar exatamente assim, deitada no banco. Apesar de não me dar nenhum sinal externo de que tinha me ouvido, eu sabia que sim.

Tínhamos que correr porque a velha guarda estava chegando. A velha guarda queria terminar o negócio, queria que aquele rio chegasse ao mar. E só havia um lugar para onde pudéssemos ir, onde pudéssemos estar seguros, e esse lugar era Sara Laughs. Mas antes eu tinha algo a fazer.

Eu guardava um cobertor velho mas limpo na mala do carro. Peguei-o, atravessei o pátio e o estendi sobre Mattie Devore. A elevação que encobriu ao descer sobre ela era dolorosamente diminuta. Olhei em volta e vi John me fitando. Apesar de seus olhos estarem vidrados pelo choque, achei que talvez ele estivesse recobrando a consciência. Ainda continuava com o cinto entre os dentes; parecia um drogado preparando-se para a injeção.

— Nã pod taa acontcend — disse ele. — Não pode estar acontecendo. Eu sabia exatamente como se sentia.

— A ajuda vai chegar em alguns minutos. Aguenta aí. Eu tenho que ir embora.

— Ir oond?

Não respondi. Não tinha tempo. Parei e tomei o pulso de George. Lento, mas firme. A seu lado, Footman, embora profundamente inconsciente, murmurava algo ininteligível. De modo nenhum à beira da morte. É preciso muito para matar um machão. O vento irregular soprou a fumaça do carro derrubado na minha direção, e pude sentir o cheiro de carne cozinhando, assim como de churrasco de filé. Meu estômago se revirou.

Corri para o Chevy, deixei-me cair atrás do volante e dei marcha a ré na entrada de carros. Dei mais uma olhada no corpo com o cobertor, para os três homens derrubados, para o trailer com a linha de furos negros de balas ondulando por sua lateral e a porta escancarada. John estava apoiado no cotovelo bom, a ponta do cinto ainda nos dentes, olhando para mim com olhos que não compreendiam. Um relâmpago tão fulgurante rasgou o céu que tentei proteger os olhos, mas quando minha mão chegou ao alto o relâmpago já se fora e o dia continuava tão escuro quanto um crepúsculo no fim.

— Fique abaixada, Ki — eu disse. — Continue assim.

— Não tô ouvindo — respondeu, a voz tão rouca de lágrimas que quase não consegui distinguir suas palavras. — Ki tá tirando uma soneca com Stricken.

— Tudo bem — eu disse. — Ótimo.

Passei de carro pelo Ford que ardia e rodei até o início da colina, onde parei diante da enferrujada placa de PARE perfurada de balas. Olhei para a direita e vi o caminhão picape estacionado no acostamento; CONSTRUÇÃO BAMM, era a inscrição na sua lateral. Dentro dele, três homens me observavam. O que estava à janela do passageiro era Buddy Jellison, podia identificá-lo pelo chapéu. Muito lenta e deliberadamente, ergui a mão direita e mostrei-lhes o dedo médio. Nenhum deles respondeu, seus rostos de pedra não se modificaram, mas a picape começou a rodar lentamente na minha direção.

Virei à esquerda para a 68, dirigindo-me à Sara Laughs sob um céu negro.

 

A pouco mais de 3 quilômetros, onde a estrada 42 se bifurca na rodovia e vira a oeste para o lago, via-se uma velha granja abandonada na qual ainda se distinguia, em letras desbotadas, o letreiro LATICÍNIOS DONCASTER. À medida que nos aproximávamos dela, todo o lado leste do céu se iluminou numa bolha branco-púrpura. Eu gritei e a buzina do Chevy soou — sozinha, tenho quase certeza. Um zigue-zague de raio surgiu do fundo da bolha de luz e atingiu a granja. Por um momento, a construção ainda permaneceu totalmente lá, fulgurando como algo radioativo; então explodiu em todas as direções. Nunca vi nada sequer remotamente parecido àquilo, a não ser em filmes. O estrondo de trovão que se seguiu foi como o estouro de uma bomba. Kyra gritou e escorregou para o chão a meu lado no carro, as mãos tapando os ouvidos. Numa delas ainda agarrava o cachorrinho de pelúcia.

Um minuto depois cheguei ao alto da crista Sugar Ridge. A estrada 42 se abre à esquerda vindo da rodovia no fundo do declive norte da crista. Do alto, eu podia ver uma ampla faixa da TR-90 — bosques, campos, granjas e fazendas, e até mesmo o cintilar sombrio do lago. O céu estava negro como pó de carvão, iluminado quase constantemente por relâmpagos internos. O ar tinha um claro fulgor ocre. Cada vez que eu respirava, sentia o gosto de serragem numa caixa de metal. A topografia além da crista destacava-se numa claridade surreal que não consigo esquecer. Uma sensação de mistério tomou meu coração e minha mente, uma sensação do mundo como uma pele fina esticada sobre ossaturas e abismos enigmáticos.

Olhei pelo retrovisor e vi que dois outros carros haviam se juntado à picape, um com uma placa V, o que significava que o veículo tinha sido registrado por um veterano das Forças Armadas. Quando diminuí a velocidade, eles diminuíram também. Quando a aumentei, também o fizeram. Mas eu duvidava que continuassem a me seguir mais longe quando eu virasse para a 42.

— Ki? Tudo bem?

— Mimindo — disse ela do chão do carro.

— Tá — falei, e comecei a descer a colina.

Quase não enxerguei os faróis da bicicleta vermelha ao fazer a curva para a 42 quando o granizo começou — grandes pedaços de gelo branco que caíam do céu, tamborilavam no teto do carro como dedos pesados e quicavam para fora da capota. Começaram a se amontoar na parte de baixo, onde ficam os limpadores de para-brisa.

— O que que tá acontecendo? — gritou Kyra.

— É só granizo — eu disse. — Não vai nos machucar. — Tinha acabado de pronunciar a frase quando uma pedra de granizo do tamanho de um limão pequeno atingiu meu lado do para-brisa e depois quicou alto para o ar de novo, deixando uma marca branca de onde se irradiavam inúmeras rachaduras curtas. John e George Kennedy estariam deitados lá fora debaixo disso? Virei a mente naquela direção, mas não consegui apreender nada.

Quando entrei à esquerda para a 42, a chuva de granizo era tanta que quase não havia visibilidade. Os sulcos das rodas estavam cheios de gelo. Contudo, o branco diminuía sob as árvores. Dirigi-me para aquela cobertura, ligando e apagando os faróis ao fazê-lo. Eles jogavam brilhantes cones de luz no granizo caído.

Quando entramos sob as árvores, a bolha branco-púrpura fulgurou novamente, tornando meu espelho retrovisor brilhante demais para que eu pudesse olhar por ele. Ouviu-se um choque e um estalo lacerante. Kyra gritou de novo. Olhei em volta e vi um enorme e velho abeto caindo lentamente através da pista, seu toco denteado em fogo, arrastando os fios elétricos consigo.

Estamos bloqueados, pensei. Nesta ponta, e provavelmente na outra também. Estamos aqui. Para o bem e para o mal, estamos aqui.

As árvores cresciam sobre a estrada 42 num dossel, exceto na estrada que passava ao lado do prado de Tidwell. O barulho do granizo no bosque produzia um tinido estilhaçante. Claro que as árvores estavam se estilhaçando; era a chuva de granizo mais danosa a cair naquela parte do mundo e, apesar de passar em 15 minutos, foi suficiente para estragar toda a temporada de safras.

O relâmpago cortou o ar acima de nós. Levantei os olhos e vi uma grande bola cor de laranja perseguida por uma menor. Elas correram pelas árvores à nossa esquerda, ateando fogo em alguns ramos altos. Chegamos rapidamente ao abrigo no prado de Tidwell, e enquanto o fazíamos, o granizo se transformou numa chuva torrencial. Eu não poderia ter continuado a dirigir se não tivéssemos corrido de volta ao bosque imediatamente; mesmo assim, o dossel forneceu cobertura suficiente apenas para que eu pudesse me arrastar sob ele, curvado ao volante e vendo a cortina de chuva cair através do vidro dos faróis. Os trovões estouravam constantemente; então o vento começou a soprar forte, passando pelas árvores como uma voz barulhenta. Um galho pesado de folhas caiu na estrada à minha frente. Passei por cima dele e o escutei estalar, arranhar e rolar contra a parte de baixo do Chevy.

Por favor, nada maior do que isso , pensei... ou talvez estivesse rezando. Por favor, me deixe chegar em casa. Por favor, nos deixe chegar em casa.

Quando alcancei a entrada de carros, o vento tinha se transformado num furacão uivante. As árvores que se torciam e a chuva matraqueando faziam o mundo inteiro parecer prestes a desfazer-se num mingau ralo. O declive da entrada de carros se transformou num rio, mas enfiei a dianteira do carro por ela sem qualquer hesitação — não podíamos ficar aqui fora; se uma árvore grande caísse em cima do carro, seríamos esmagados como insetos sob uma chinelada.

Sabia muito bem que não podia usar o freio — o carro teria derrapado e talvez fosse varrido pelo declive abaixo na direção do lago, rolando repetidamente até lá. Em vez disso, passei a mudança para a marcha lenta, acionei levemente o freio de mão e deixei o motor nos empurrar para baixo, com a chuva batendo como uma cortina no para-brisa e transformando o vulto da casa de troncos num fantasma. Inacreditavelmente, algumas luzes permaneciam acesas, brilhando como escotilhas de uma batisfera sob 3 metros d’água. Então, o gerador estava funcionando... pelo menos por enquanto.

Os relâmpagos lançaram-se sobre o lago, fogo azul-esverdeado iluminando um poço escuro de água com a superfície cortada em ondas espumosas. Um dos pinheiros centenários à esquerda dos degraus de dormentes de estrada de ferro jazia agora com metade de seu comprimento dentro d’água. Em algum ponto atrás de nós, outra árvore caiu com grande estrondo. Kyra cobriu as orelhas.

— Tudo bem, querida — eu disse. — Estamos aqui, conseguimos chegar.

Desliguei o motor e apaguei os faróis. Sem eles, pouco podia ver; quase toda a luz tinha desaparecido do dia. Tentei abrir a porta do carro e no início não consegui. Empurrei com mais força e ela não só abriu como foi arrancada da minha mão. Saí e, num brilhante fulgor de relâmpago, vi Kyra se arrastando no assento na minha direção, o rosto branco de pânico, os olhos arregalados e cheios de terror. Minha porta bateu de volta e me golpeou o traseiro com força suficiente para machucar. Ignorei a dor, peguei Kyra no colo e me virei com ela. A chuva gelada nos ensopou num instante. Na realidade não era absolutamente como estar debaixo da chuva; era como entrar sob uma cachoeira.

— Meu cachorrinho! — berrou Kyra. Apesar do grito, quase não consegui ouvi-la. Mas podia ver seu rosto, e suas mãos vazias. — Stricken! Deixei Stricken cair!

Olhei em volta e lá estava ele, flutuando pelo macadame da entrada de carro, depois do alpendre. Um pouco mais adiante, a água escorrendo era cuspida do pavimento e descia o declive; se Strickland fosse com a enxurrada, provavelmente acabaria em algum ponto do bosque. Ou desceria todo o caminho até o lago.

— Stricken! — soluçou Kyra. — Meu CACHORRINHO!

De repente nada passou a ter importância para nós senão o estúpido brinquedo de pelúcia. Palmilhei a entrada de carros atrás dele com Ki nos braços, esquecido da chuva, do vento e dos clarões brilhantes dos relâmpagos. E mesmo assim eu ia ser derrotado no declive — a água que tinha capturado o brinquedo corria rápido demais para que eu o alcançasse.

O que o impediu de ir além da beira do pavimento foi um trio de girassóis oscilando selvagemente ao vento. Pareciam membros de uma seita religiosa tomados pelo êxtase por Deus: Obrigado, Jesus! Aleluia, Senhor! Pareciam também familiares. Era impossível serem os mesmos três girassóis que haviam crescido por entre as tábuas do alpendre no meu sonho (e na foto que Bill Dean tirara antes de minha volta), claro, e ainda assim eram eles; sem dúvida nenhuma eram eles. Três girassóis como as três irmãs esquisitas em Macbeth, três girassóis com faces como faróis. Eu tinha voltado a Sara Laughs; estava na zona; voltei a meu sonho, e desta vez ele me possuía.

— Stricken! — Ki se dobrava e se agitava no meu colo, ela e eu escorregadios demais para nossa segurança. — Por favor, Mike, por favor!

Um trovão explodiu lá em cima como uma cesta de nitroglicerina. Nós dois gritamos. Deixei-me cair num joelho e peguei o pequeno cachorro de pelúcia. Kyra o agarrou, cobrindo-o de beijos frenéticos. Cambaleei para cima e fiquei em pé enquanto outro trovão estourava, este parecendo percorrer o ar como um louco chicote líquido. Fitei os girassóis e tive a impressão de que me olhavam também — Alô, irlandês, há quanto tempo, o que é que me diz? Então, reacomodando Ki nos braços tão bem quanto podia, virei-me e chapinhei em direção à casa. Não era fácil; a água na entrada de carros estava agora à altura do tornozelo e cheia de granizo que derretia. Um galho passou voando por nós e aterrissou bem perto de onde eu tinha me ajoelhado para pegar Strickland. Houve um ruído de colisão e uma série de baques quando um galho maior caiu sobre o telhado, rolando dali para baixo.

Entrei correndo no alpendre de trás, um tanto na expectativa de ver a Forma se atirando velozmente para fora para nos receber, erguendo os flácidos não braços em medonhas boas-vindas. Mas não havia Forma nenhuma. Havia apenas a tempestade, e já era suficiente.

Ki agarrava o cachorro bem apertado, e vi sem nenhuma surpresa que a umidade unida à sujeira de todas aquelas horas de brinquedo ao ar livre tinham feito Strickland ficar preto. No final das contas, era o que eu tinha visto no sonho.

Tarde demais agora. Não havia mais nenhum outro lugar para se ir, nenhum outro abrigo contra a tempestade. Abri a porta e levei Kyra Devore para dentro de Sara Laughs.

 

A parte central de Sara — o coração da casa — aguentou por quase cem anos e já teve sua cota de tempestades. A que caía na região dos lagos naquela tarde de julho pode ter sido a pior de todas, mas vi, assim que entramos, arquejando como alguém que escapou por pouco de se afogar, que a casa suportaria também aquela. Suas paredes de tronco eram tão espessas que entrar ali era quase como entrar numa espécie de cripta. Os estrondos e pancadas da tempestade transformaram-se num zumbido ruidoso pontuado pelas trovoadas e o ocasional e forte baque surdo de um galho caindo sobre o telhado. Em algum lugar — no porão, acho eu — uma porta se abriu e ficou batendo. Parecia a pistola de um juiz dando a largada. A janela da cozinha tinha sido quebrada pelo desabamento de uma pequena árvore. Sua ponta perfurante se erguia sobre o fogão, fazendo sombras nos queimadores e no balcão ao oscilar. Pensei em quebrá-la, mas decidi não fazê-lo. Pelo menos estava tapando o buraco.

Levei Ki para a sala de estar e olhamos para o lago lá fora, água negra decorada com pontos surrealistas sob um céu negro. Os raios lampejavam quase constantemente, revelando um anel de bosques que dançavam e balançavam num frenesi em torno do lago. Por mais sólida que fosse a casa, ela gemia profundamente por dentro enquanto o vento a agredia com os punhos fechados e tentava empurrá-la colina abaixo.

Ouvi um tilintar suave e contínuo. Kyra ergueu a cabeça de meu ombro e olhou em volta.

— Você tem um alce — disse ela.

— Tenho, é o Bunter.

— Ele morde?

— Não, meu amor, não morde, não. É como uma... como uma boneca, acho.

— Por que o sino dele está tocando?

— Ele ficou contente por estarmos aqui. Ficou contente de a gente ter vindo.

Vi que ela queria se sentir feliz, e então vi sua percepção de que Mattie não estava ali para sentir-se feliz com ela. Vi a ideia de que Mattie nunca mais estaria ali para ser feliz com ela lhe atravessar a mente... e senti que a afastava. Sobre nossas cabeças, alguma coisa imensa caiu sobre o telhado, as luzes tremeluziram e Ki começou a chorar de novo.

— Não, meu bem — eu disse, começando a andar com ela. — Não, meu bem, não Ki, não. Não, meu bem, não.

— Quero minha mãe! Quero minha Mattie!

Andei com ela no colo como se anda com os bebês com cólica. Ela compreendia demais para uma menina de 3 anos, e consequentemente seu sofrimento era mais terrível do que o de qualquer outra criança dessa idade. Assim, eu a carregava e andava de um lado para outro com ela, seu short úmido de urina e chuva sob as minhas mãos, seus braços febris em torno de meu pescoço, as bochechas manchadas de meleca e lágrimas, o cabelo uma massa ensopada por nossa breve corrida sob o aguaceiro, a respiração ácida, o brinquedo de pelúcia uma maçaroca preta e estrangulada que deixava sair uma água suja por entre os dedos de Ki. Andei com ela para a frente e para trás na sala de estar de Sara Laughs, para a frente e para trás à luz fraca fornecida pela única lâmpada que brilhava do teto. A luz de gerador nunca é muito firme, nunca muito estável — parece respirar e suspirar. Para a frente e para trás ao som baixo e incessante do sino de Bunter, como música daquele mundo que às vezes tocamos, mas que nunca vemos na realidade. Para a frente e para trás ao som da tempestade. Acho que cantei para ela, e sei que a toquei com minha mente e entramos cada vez mais profundamente naquela zona juntos. Acima de nós, as nuvens corriam e a chuva tamborilava, molhando os incêndios que os relâmpagos haviam iniciado no bosque. A casa gemeu, o ar se movia como redemoinho, em lufadas, penetrando pela janela quebrada da cozinha; através de tudo aquilo, porém, havia uma sensação de triste segurança. Uma sensação de voltar para casa.

Finalmente as lágrimas começaram a arrefecer. Ki ficou deitada com o rosto e o peso de sua cabeça em meu ombro, e, quando passávamos pelas janelas dando para o lago, eu reparava em seus olhos fitando a tempestade negro-prateada lá fora, arregalados e sem piscar. Quem a carregava era um homem alto começando a perder cabelo. Notei que eu podia ver a mesa da sala de jantar bem através de nós. Nossos reflexos já são fantasmas, pensei.

— Ki? Quer comer alguma coisa?

— Não tô com fome.

— Que tal um copo de leite?

— Não, chocolate. Tô com frio.

— Eu sei que está. E tenho chocolate.

Tentei colocá-la no chão, mas ela se agarrou em mim com o aperto do pânico, aferrando-se a meu corpo com as perninhas gorduchas. Icei-a para o colo novamente, desta vez instalando-a em meu quadril, e ela se aquietou.

— Quem está aqui? — perguntou. Ela tinha começado a tremer. — Quem está aqui além da gente?

— Não sei.

— Tem um menino — disse ela. — Vi ele lá. — Apontou com Strickland para a porta de vidro de correr que dava para o deck (todas as cadeiras lá fora haviam sido derrubadas e atiradas contra os cantos; faltava uma delas, aparentemente impelida por cima da balaustrada). — Era negro como naquele programa engraçado que Mattie e eu assistimos. Tem outros negros também. Uma mulher de chapéu grande. Um homem de calça azul. O resto é difícil ver. Mas eles vigiam a gente. Vigiam a gente. Não tá vendo eles?

— Não podem nos fazer mal.

— Tem certeza? Tem, não tem?

Não respondi.

Encontrei uma caixa de chocolate em pó instantâneo escondida atrás do pote de farinha de trigo, abri um dos pacotinhos individuais e derramei-o numa xícara. Um trovão estalou com força lá em cima. Ki deu um pulo no meu colo e emitiu um longo e infeliz choramingo. Abracei-a e beijei-a na bochecha.

— Não me põe no chão, Mike, tô com medo.

— Não vou pôr. Você é a minha boa menina.

— Tenho medo do menino, do homem de calça azul e da mulher. Acho que é a mulher que estava com o vestido de Mattie. Eles são fantasminhas?

— São.

— São maus, como os homens que perseguiram a gente na feira? São?

— Não sei bem, Ki, e é verdade.

— Mas vamos descobrir.

— Hã?

— Isso que você pensou. “Mas vamos descobrir.”

— É — eu disse. — Acho que estava pensando isso. Alguma coisa parecida.

 

Levei-a para o quarto principal enquanto a água esquentava na chaleira, achando que poderia ter sobrado alguma roupa de Jo com que eu pudesse vesti-la, mas todas as gavetas da cômoda de Jo estavam vazias. Assim como a parte dela no armário. Pus Ki em pé na grande cama de casal em que eu havia tirado apenas um cochilo depois que voltei, despi suas roupas, levei-a para o banheiro e embrulhei-a numa toalha de banho. Ela se enrolou na toalha, tremendo, com os lábios roxos. Usei outra para secar o seu cabelo da melhor forma que pude. Durante tudo isso, ela não soltou nem uma vez o cachorro de pelúcia, que agora começava a expelir o recheio por suas costuras.

Abri o armário dos remédios, remexi por ali e encontrei o que procurava no alto da prateleira: o Benadryl que Jo sempre tinha por perto para sua alergia a pólen. Pensei em checar a data de validade no fundo da caixa, mas a seguir quase ri alto. Que diferença faria? Instalei Ki no assento fechado do vaso e deixei que segurasse meu pescoço enquanto eu retirava a tampa à prova de criança e pescava quatro cápsulas cor-de-rosa e branco. Então enxaguei o copo de escovar os dentes e enchi-o de água fria. Ao fazê-lo notei movimento no espelho do banheiro, espelho que refletia a entrada e o quarto principal mais adiante. Disse a mim mesmo que estava vendo apenas as sombras das árvores sopradas pelo vento. Ofereci as cápsulas a Ki. Ela as pegou e então hesitou.

— Tome — eu disse. — É remédio.

— Que remédio? — Sua mãozinha ainda estava pousada sobre o punhado de cápsulas.

— Remédio para tristeza — eu disse. — Você sabe engolir comprimidos, Ki?

— Claro. Aprendi sozinha quando tinha 2 anos.

Ela hesitou mais um momento — olhando para mim e dentro de mim, acho, certificando-se de que eu estava lhe dizendo algo em que realmente acreditava. O que viu ou sentiu deve tê-la deixado satisfeita, porque ela pegou os comprimidos e os colocou na boca, uma depois da outra. Engoliu-os com pequenos golinhos do copo e então disse:

— Ainda tô triste, Mike.

— Leva um tempo para fazer efeito.

Remexi na minha gaveta de camisas e encontrei uma velha camiseta Harley-Davidson que tinha encolhido. Ainda era quilômetros grande demais para ela, mas, quando a amarrei num nó lateral, ficou parecendo um sarongue que continuava escorregando por um de seus ombros. Era quase bonitinho.

Levo sempre um pente no bolso de trás. Peguei-o e afastei o cabelo de Ki de sua testa. Ela começava a parecer mais serena agora, mas algo ainda faltava. Algo que, em minha mente, se relacionava com Royce Merrill. Mas isso era uma maluquice... não era?

— Mike? Que bengala? Que bengala é essa que você tá pensando?

Então me ocorreu.

— Uma bengala doce — eu disse. — Aquela com listas. — Peguei do bolso as duas fitas brancas. Suas bordas vermelhas pareciam quase cruas à luz instável. — Como essas. — Amarrei seu cabelo para trás em dois pequenos rabos de cavalo. Agora Ki tinha as fitas; o cachorro preto; e os girassóis tinham se deslocado quase um metro para o norte, mas estavam lá. Tudo estava mais ou menos como deveria.

Trovões estouraram com força; em algum lugar, uma árvore despencou e as luzes se apagaram. Após cinco segundos de sombras cinza-escuro, voltaram de novo. Levei Ki novamente para a cozinha e, ao passarmos pela porta do porão, alguma coisa riu por trás dela. Eu ouvi; Ki também, pude ver que sim pela expressão de seus olhos.

— Toma conta de mim — disse ela. — Toma conta de mim porque eu sou pequenininha. Você prometeu.

— Vou tomar.

— Eu amo você, Mike.

— Eu também amo você, Ki.

A chaleira estava soprando. Pus água quente na xícara até a metade e depois a enchi com leite, esfriando-a e fazendo com que a bebida ficasse mais forte. Levei Kyra para o sofá. Enquanto passávamos pela mesa da sala de jantar, dei uma olhada na máquina de escrever IBM e no manuscrito com o livro de palavras cruzadas em cima. Tais coisas pareciam vagamente tolas e de certo modo tristes, como aparelhos que nunca trabalharam muito bem e agora não funcionavam.

Um relâmpago iluminou o céu inteiro, lavando a sala de luz púrpura. Ao clarão, as árvores desatinadas pareciam dedos se torcendo e, quando a luz atravessou o vidro da porta de correr que dava para o deck, vi uma mulher em pé atrás de nós, junto ao aquecedor à lenha. Usava um chapéu de palha com a aba do tamanho de uma roda de carroça.

— O que que é “o rio tá quase no mar” que você tá dizendo? — perguntou Ki.

Sentei e lhe entreguei a xícara.

— Beba.

— Por que os homens machucaram mamãe? Não queriam que ela se divertisse?

— Acho que não — respondi. Comecei a chorar. Eu segurava Ki em meu colo e enxugava as lágrimas com as costas da mão.

— Cê também devia ter tomado remédio pra tristeza — disse. Estendeu o chocolate. As fitas com que tinha amarrado seu cabelo em grandes laços malfeitos sacudiram-se.

— Toma. Bebe um pouquinho.

Bebi um pouquinho. Da extremidade norte da casa chegou outro estrondo dilacerante. O ruído baixo do gerador falhou e a casa mergulhou na penumbra cinzenta de novo. Sombras correram pelo rostinho de Ki.

— Aguente aí — falei. — Tente não ficar assustada. Talvez as luzes voltem. — No momento seguinte, voltaram, embora eu pudesse ouvir agora uma nota desigual no ruído do gerador e o bruxulear das luzes fosse muito mais nítido.

— Conta uma história — disse Ki. — Conta a Cinerela.

— Cinderela.

— É, essa.

— Está bem, mas os contadores de história são pagos. — Franzi os lábios e fiz um som de beber.

Ela estendeu a xícara. O chocolate estava doce e gostoso. A sensação de ser observado era forte e nada doce, mas que observassem. Que observassem enquanto podiam.

— Havia uma moça bonita chamada Cinderela...

— Era uma vez! É assim que começa! É assim que todas começam!

— Tem razão, eu esqueci. Era uma vez uma moça bonita chamada Cinderela, que tinha duas meias-irmãs malvadas. Os nomes delas eram... você lembra?

— Tammy Faye e Vanna.

— É, as Rainhas do Spray de Cabelo. E elas obrigavam Cinderela a fazer tudo que era desagradável, como varrer a lareira e limpar o cocô do cachorro no quintal. Então um dia a conhecida banda de rock Oasis ia se apresentar no palácio, e apesar de todas as moças terem sido convidadas...

Cheguei até a parte em que a fada madrinha pega o camundongo e o transforma numa limusine Mercedes antes de o Benadryl fazer efeito. Era mesmo um remédio para a tristeza; quando olhei de novo para Ki, ela dormia profundamente na dobra do meu braço, a xícara de chocolate inclinada radicalmente para o lado. Peguei a xícara e coloquei-a na mesinha de centro; depois afastei o cabelo quase seco da testa de Ki.

— Ki?

Nada. Partira para a Terra do Cochilo. Provavelmente ajudada pelo fato de que sua soneca da tarde tivesse terminado quase antes de começar.

Levantei-a e a carreguei para o quarto norte, seus pés balançando frouxamente no ar, a bainha da camiseta sacudindo nos joelhos. Coloquei-a na cama e puxei a coberta até seu queixo. Trovões estouravam como fogo de artilharia, mas Ki sequer se mexeu. Exaustão, dor e Benadryl a tinham levado para bem longe, bem além de fantasmas e tristeza, e isso era bom.

Debrucei-me e lhe beijei o rosto, que finalmente tinha começado a esfriar.

— Vou tomar conta de você — falei. — Prometi e vou tomar.

Como se me ouvisse, Ki se virou de lado, pôs a mão segurando Strickland sob o maxilar e emitiu um suave suspiro. Suas pestanas eram fuligem escura contra as faces, num surpreendente contraste com os cabelos claros. Olhando-a, eu me senti tomado de amor, abalado por ele como se é abalado por uma doença.

Tome conta de mim, eu sou pequenininha.

— Vou tomar, bichinho — falei.

Entrei no banheiro e comecei a encher a banheira do mesmo modo que no meu sonho. Ela dormiria durante toda a coisa se eu conseguisse água quente suficiente antes que o gerador pifasse completamente. Gostaria de ter um brinquedo de borracha para lhe dar caso acordasse, algo como Wilhelm, a Baleia Esguichante; mas Ki tinha seu cachorro e, de qualquer modo, provavelmente não acordaria. Nada de batismo congelante debaixo de uma bomba de mão para Kyra. Eu não era cruel, e não era louco.

Só tinha navalhas descartáveis no armário de remédios, nada bom para o outro trabalho à minha frente. Não eram bastante eficientes. Mas uma das facas de carne da cozinha serviria. Se enchesse a banheira com água quente de verdade, eu nem mesmo sentiria o que fizesse. Uma letra T em cada braço, a barra de cima riscada atravessando os pulsos...

Por um momento saí da zona. Uma voz — a minha própria, falando como uma combinação de Jo e Mattie — gritou: Em que está pensando? Ah, Mike, pelo amor de Deus, em que está pensando?

Então os trovões chocaram-se com estrondo, as luzes vacilaram e a chuva começou a desabar de novo, impelida pelo vento. Voltei ao lugar onde tudo era claro, e meu rumo indiscutível. Que tudo terminasse — a tristeza, a mágoa, o medo. Eu não queria pensar mais em como Mattie tinha dançado na ponta dos pés sobre o disco de plástico, como se ele fosse um holofote. Não queria estar lá quando Kyra acordasse, não queria ver a infelicidade encher seus olhos. Não queria atravessar a noite adiante, o dia que chegaria depois dela ou o que viria depois daquele. Eram todos vagões no mesmo velho trem de mistério. A vida era uma doença. Eu ia dar um bom banho quente em Ki e curá-la daquilo. Levantei os braços. No espelho do armário de remédios, uma figura obscura — uma Forma — ergueu os braços numa espécie de saudação de brincadeira. Era eu; tinha sido eu o tempo todo. Tudo bem. Tudo simplesmente ótimo.

 

Dobrei um joelho e chequei a água. Estava saindo gostosa e quente. Ótimo. Mesmo que o gerador pifasse agora, tudo bem. A banheira era antiga e profunda. Enquanto ia até a cozinha pegar a faca, pensei em entrar com Kyra na água depois de ter terminado de cortar meus pulsos na água mais quente da banheira. Não, decidi. Isso podia ser mal-interpretado pelas pessoas que chegassem depois, gente de mente suja e suposições mais sujas ainda. As que viriam quando a tempestade cessasse e as árvores caídas na estrada já tivessem sido removidas. Não, depois de seu banho eu a enxugaria e a colocaria de volta na cama com Strickland na mão. Sentaria na outra extremidade do quarto onde ela se encontrava, na cadeira de balanço junto às janelas. Estenderia algumas toalhas no colo para manter o máximo de sangue possível longe de minhas calças, e então dormiria também.

O sino de Bunter ainda tocava. Muito mais alto agora. Estava irritando meus nervos e, se continuasse daquele jeito, poderia até acordar a criança. Resolvi arrancá-lo e silenciá-lo de uma vez. Atravessei o quarto e enquanto o fazia era golpeado por fortes rajadas de ar. Não era uma brisa entrando pela janela quebrada da cozinha; era outra vez a golfada de ar quente do metrô. Varreu o Nível difícil para ao chão, mas o peso de papel em cima do manuscrito impediu que as páginas soltas voassem. Quando olhei naquela direção, o sino de Bunter silenciou.

Uma voz suspirou na obscuridade do quarto palavras que não consegui entender. E qual a importância? Que importância teria mais uma manifestação — mais uma explosão de ar quente do Grande Além?

Trovões estouraram e o suspiro se manifestou novamente. Desta vez, quando o gerador pifou e as luzes se apagaram mergulhando o quarto na penumbra cinzenta, consegui entender claramente uma palavra:

Dezenove.

 

Girei, fazendo um círculo completo. Acabei olhando através do quarto sombrio para o manuscrito de Meu amigo de infância. Subitamente a luz se fez. A compreensão chegou.

Não era o livro de palavras cruzadas. Nem a lista telefônica.

Era o meu livro. Meu manuscrito.

Fui até ele, vagamente consciente de que a água tinha parado de correr na banheira da ala norte. Quando o gerador pifou, a bomba parou. Tudo bem, já teria bastante água. E quente. Ia dar o banho em Kyra, mas antes eu tinha que fazer uma coisa. Tinha que ir a 19 e depois devia ir a 92. E podia fazê-lo. Já tinha escrito 120 páginas do manuscrito, portanto, podia fazê-lo. Peguei a lanterna de pilha de cima do armário onde ainda guardava centenas de discos de vinil, liguei-a e coloquei-a na mesa. A luz jogou um círculo branco e radiante sobre o manuscrito — na tarde sombria, era tão brilhante quanto um holofote.

Na página 19 de Meu amigo de infância, Tiffi Taylor — a call-girl que tinha se reinventado como Regina Whiting — estava em seu estúdio com Andy Drake, relembrando o dia em que John Sanborn (o pseudônimo de John Shackleford) salvou sua filha de 3 anos, Karen. Este foi o trecho que li enquanto os trovões ribombavam e a chuva chicoteava novamente a porta de correr que dava para o deck:

AMIGO, de Noonan/Pág. 19

“Com certeza era daquele lado”, ela disse,

“o problema é que não consegui vê-la em lugar nenhum. Então fui

rapidamente até a hidromassagem.” Ela acendeu

um cigarro. “O que eu vi me deu vontade de gritar, Andy. A Karen

jazia debaixo d’água. De fora vi apenas a mão dela...

As unhas ficando roxas. Depois... Acho que mergulhei, mas não lembro. Estava

simplesmente fora do ar. A partir dali tudo é como um

sonho onde as coisas se atropelam na minha mente.

O jardineiro — Sanborn — me empurrou para o lado e mergulhou na

banheira. O pé dele me atingiu na garganta e por uma semana não pude

engolir. Ele deu um puxão no braço da Karen

sem controlar a força. Quando vi o movimento,

tive certeza de que deslocaria o braço dela, mas ele a pegou. Com um

único e brusco puxão, ele conseguiu pegá-la.”

Drake, em meio à penumbra, viu que ela chorava

incontrolavelmente. Apenas repetia as palavras:

“Oh, meu Deus, pensei que ela estava morta. Achei mesmo que estava.”

Entendi imediatamente, mas coloquei meu bloco de notas ao longo da margem esquerda do manuscrito para que pudesse vê-lo melhor. Lendo de cima para baixo, como se lê uma solução de palavras cruzadas verticais, a primeira letra de cada linha emitia a mensagem que esteve lá quase desde que comecei o livro.

CorujAs sOb estú iO

Então, levando-se em conta a inserção na antepenúltima linha de baixo para cima:

CorujAs sOb estúDiO

Bill Dean, meu caseiro, está sentado ao volante de seu caminhão. Cumpriu dois objetivos ao vir aqui — dar-me as boas-vindas e avisar-me para não me meter com Mattie Devore. Agora está pronto para ir embora. Sorri para mim, exibindo aquela grande dentadura postiça. “Quando você puder, devia procurar aquelas corujas”, diz ele. Pergunto-lhe o que Jo teria querido com duas corujas de plástico e ele responde que elas impedem os corvos de fazerem cocô no madeirame. Aceito isso, tenho outras coisas para pensar, mas mesmo assim... “Foi como se ela viesse para fazer especialmente isso”, diz ele. Nunca me passou pela cabeça — não naquele momento, pelo menos — que no folclore indígena as corujas têm outra função: dizem que mantêm os espíritos maus a distância. Se Jo sabia que as corujas de plástico espantam os corvos, saberia daquilo também. Era exatamente o tipo de informação que ela pegava e armazenava. Minha esposa curiosa. Minha desmiolada brilhante.

Trovões rugiram no céu. Os relâmpagos devoravam as nuvens como borrifos de ácido brilhante. Fiquei em pé junto à mesa da sala de jantar com o manuscrito nas mãos trêmulas.

— Meu Deus, Jo — murmurei. — O que é que você descobriu?

E por que não me contou?

Mas achei que já sabia a resposta. Ela não me contou porque de certo modo eu era como Max Devore; seu bisavô e o meu tinham cagado no mesmo fosso. Isso não fazia sentido, mas era assim. E ela também não contou ao próprio irmão. Tirei um conforto esquisito desse fato.

Comecei a folhear o manuscrito, arrepiado.

Andy Drake raramente fechava a cara em Meu amigo de infância, de Michael Noonan. Em vez disso ele arregalava os olhos como uma coruja. Sempre há uma coruja em suas expressões. Antes de ir para a Flórida, John Shackleford morara em Studio City, Califórnia. O primeiro encontro de Drake com Regina Whiting tinha ocorrido no estúdio dela. O último endereço conhecido de Ray Garraty era o Studio Apartments, em Key Largo. A melhor amiga de Regina Whiting era Steffie Sobone, casada com Towle Sobone — isso era bom, dois pelo preço de um.

Corujas sob estúdio.

Estava por toda parte, em cada página, exatamente como os nomes começados por K na lista telefônica. Uma espécie de monumento, este aqui construído — eu tinha certeza — não por Sara Tidwell e sim por Johanna Arlen Noonan. Minha mulher passando mensagens por trás das costas do guarda, rezando com todo seu considerável coração para que eu as visse e entendesse.

Na página 92, Shackleford conversava com Drake na sala de visitas da prisão — sentado, os punhos entre os joelhos, olhando para a corrente que ligava seus tornozelos, recusando-se a fazer contato visual com Drake.

AMIGO, de Noonan/Pág. 92

“Considerando tudo que aconteceu, é só isso que eu posso dizer. Qualquer

outra coisa, porra, que bem faria? A vida é um jogo, e a

realidade é que eu perdi. Você quer que eu te diga que arranquei

uma criança da água, a tirei de lá e dei um

jeito de botar o motor dela para funcionar de novo? Fiz isso, mas não

a salvei porque sou herói ou um santo...”

Havia mais, porém não era necessário continuar a ler. A mensagem, corujas sob estúdio, percorria a margem exatamente como na página 19. Como provavelmente o faria também em qualquer outra página. Lembrei-me de como tinha ficado delirantemente feliz ao descobrir que o bloqueio tinha sido dissolvido e eu podia escrever novamente. Foi dissolvido, sem dúvida nenhuma, mas não porque finalmente eu o tivesse derrotado ou conseguisse contorná-lo. Jo o dissolveu. Jo o derrotou, e a continuação de minha carreira como escritor de romances de suspense de segunda categoria foi a última de suas preocupações quando o fez. Enquanto eu estava ali sob a luz bruxuleante dos relâmpagos, sentindo meus hóspedes invisíveis girarem ao meu redor no ar instável, lembrei-me da sra. Moran, minha professora do fundamental. Quando os esforços dos alunos em reproduzir as curvas suaves do alfabeto no Método Palmer começavam a falhar e a vacilar, ela colocava a mão competente sobre a do aluno e o ajudava no quadro-negro.

Assim Jo tinha me ajudado.

Folheei o manuscrito e vi as palavras-chave por todas as partes, às vezes colocadas de modo a que se pudesse realmente vê-las empilhadas em linhas diferentes, uma acima da outra. Que esforço Jo tinha feito para tentar me dizer isso... e eu não tinha nenhuma intenção de fazer coisa alguma até descobrir por quê.

Larguei o manuscrito novamente na mesa, mas antes que pudesse prendê-lo com um peso uma furiosa rajada de ar gelado passou por mim, levantando as páginas e espalhando-as como um ciclone. Se aquela força pudesse rasgar as folhas em pedaços, estou certo de que o teria feito.

Não!, ela gritou enquanto eu agarrava a lanterna. Não, termine o trabalho!

O vento soprou em meu rosto lufadas geladas — era como se alguém que eu não pudesse ver estivesse em pé bem na minha frente e respirasse em meu rosto, recuando enquanto eu me movia para a frente, xingando e soprando como o grande lobo mau diante das casas dos três porquinhos.

Pendurei a lanterna no braço, estendi as mãos para a frente e cruzei-as com força. As lufadas em cima de meu rosto pararam. Agora havia apenas ar rodopiando ao acaso, entrando da janela da cozinha parcialmente tapada.

— Ela está dormindo — eu disse para o que sabia que estava lá, observando silenciosamente. — Há algum tempo.

Saí pela porta dos fundos e o vento me empurrou imediatamente, fazendo-me cambalear, quase me derrubando. E nas árvores oscilantes enxerguei rostos verdes, os rostos dos mortos. Devore estava lá, e Royce, e Son Tidwell. Vi principalmente Sara.

Sara em toda parte.

Não! Volte! Você não precisa de nenhum caminhão com corujas, benzinho! Volte! Termine o trabalho! Faça aquilo que veio fazer!

— Não sei o que vim fazer — eu disse. — E até descobrir, não vou fazer coisa alguma.

O vento gritou como se ofendido, e um enorme galho foi arrancado do pinheiro à direita da casa, caindo em cima do meu Chevrolet num borrifo de água, amassando seu teto antes de rolar para o meu lado.

Entrelaçar as mãos lá fora seria tão útil quanto a ordem do rei Canuto para que a maré virasse. Aquele era o mundo dela, não o meu... e só a margem dele, por falar nisso. Cada passo mais perto da Rua e do lago me levaria para mais perto do coração daquele mundo, onde o tempo era frágil e os espíritos governavam. Ah, meu Deus, o que aconteceu para provocar isso?

O caminho para o estúdio de Jo se transformou num riacho. Dei uns 12 passos antes que uma pedra cedesse sob meu pé e eu caísse de lado com força. Relâmpagos cortaram o céu, ouvi o estalo de outro galho que se quebrava e então alguma coisa começou a cair na minha direção. Levantei as mãos para proteger o rosto e rolei para a direita, para fora do caminho. O ramo chocou-se com o solo logo atrás de mim, e meio que tropecei por um declive abaixo que estava escorregadio com agulhas de pinheiro ensopadas. Finalmente consegui me levantar. O galho no caminho era ainda maior do que o que tinha aterrissado no telhado do carro. Se tivesse me atingido, provavelmente teria amassado meu crânio.

Volte! Um vento rancoroso e assobiante passou por entre as árvores.

Termine! Era a voz gutural e babada do lago batendo nas pedras e a margem abaixo da Rua.

Vá cuidar de seus assuntos! Era a própria casa, gemendo nas fundações. Vá cuidar de seus assuntos e me deixe cuidar dos meus!

Mas Kyra era um assunto meu. Kyra era a minha filha.

Levantei a lanterna. O estojo estava rachado, mas a lâmpada acendeu brilhante e firme — um ponto para o time da casa. Curvado contra o vento uivante, a mão erguida para afastar outros galhos que caíssem, escorreguei e tropecei colina abaixo até o estúdio de minha falecida esposa.