Saco de Ossos

Stephen King · Capítulo 18 de 32

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Saco de Ossos

Capítulo Dezesseis

 

O livro era grande, está bem? O livro era importante.

Se eu tinha medo de mudar de sala, o que dizer de guardar a máquina de escrever e meu delgado manuscrito recém-começado e levá-lo de volta a Derry. Isso seria tão perigoso quanto levar uma criança pequena para o meio de uma tempestade. Portanto, fiquei, sempre me reservando o direito de sair de lá se as coisas ficassem esquisitas demais (do modo como os fumantes se reservam o direito de parar se a tosse piorar muito), e uma semana se passou. Coisas aconteceram naquela semana, mas, até que eu encontrasse Max Devore na Rua na sexta-feira seguinte — devia ser 17 de julho —, a coisa mais importante era que eu continuava a trabalhar num romance que, se terminado, se chamaria Meu amigo de infância. Talvez a gente sempre pense que o que foi perdido era melhor... ou teria sido melhor. Não sei ao certo. Só sei que minha vida real naquela semana teve principalmente a ver com Andy Drake, John Shackleford e uma figura sombria em pé no pano de fundo. Raymond Garraty, amigo de infância de John Shackleford. Um homem que às vezes usava um boné de beisebol.

Durante aquela semana, as manifestações na casa continuaram, mas numa intensidade menor — não houve nada como o grito de gelar o sangue. Às vezes o sino de Bunter tocava e às vezes os ímãs de frutas e legumes se rearrumavam sozinhos num círculo... mas nunca com palavras no meio; não naquela semana. Certa manhã, quando levantei, o pote de açúcar estava derrubado, fazendo-me pensar na história de Mattie sobre a farinha. Nada estava escrito no açúcar espalhado, mas havia um rabisco ondulado —

 

— como se alguma coisa tivesse tentado escrever e falhasse. Se o caso era esse, tinha a minha solidariedade. Eu sabia o que era aquilo.

 

Meu depoimento ante o temível Elmer Durgin tinha sido no dia 10, sexta-feira. Na terça seguinte, desci a Rua para o campo de softbol do Warrington’s para dar minha própria espiada em Max Devore. Eram quase seis horas quando cheguei ao alcance auditivo dos gritos, aplausos e do ruído dos bastões na bola. Um caminho marcado com sinais rústicos (floreados Ws queimados em flechas de carvalho) levavam a uma casa de barco abandonada, uns dois galpões e um mirante meio enterrado em trepadeiras de amora-preta. Depois cheguei ao centro do campo. O lixo composto de sacos de batata frita, invólucros de guloseimas e latas de cerveja sugeria que às vezes outros assistiam aos jogos desse ponto privilegiado. Não pude deixar de pensar em Jo e seu amigo misterioso, o sujeito com o velho blazer marrom, o cara corpulento que tinha escorregado um braço em torno da cintura dela e a levado do jogo, rindo, de volta à Rua. Por duas vezes, durante o fim de semana, estive perto de ligar para Bonnie Amudson, vendo se talvez eu pudesse descobrir quem era aquele camarada, dar um nome a ele; e nas duas vezes havia recuado. Não ponha a mão em vespeiro, disse a mim mesmo a cada vez. Não ponha a mão em vespeiro, Michael.

Tive a área além do centro para mim naquela noite, e parecia a distância certa da base do batedor, considerando-se que o homem que geralmente estacionava a cadeira de rodas de Devore atrás da barreira tinha me chamado de mentiroso e eu o convidei para guardar meu número de telefone onde a luz do sol fica obscura.

Não precisava ter me preocupado, de qualquer modo. Devore não tinha vindo, nem a adorável Rogette.

Divisei Mattie por trás da barreira negligentemente erguida na linha da primeira base. John Storrow estava a seu lado, de jeans e camisa polo, com a maior parte do cabelo vermelho preso dentro de um boné do Mets. Assistiram ao jogo e conversaram como velhos amigos por dois innings antes de me verem — tempo mais do que suficiente para que eu tivesse inveja do lugar de John, e um pouco de ciúme também.

Finalmente alguém fez um lance longo para o centro, onde a margem do bosque servia como único alambrado. O jogador voltou, mas a bola ia passar muito por cima de sua cabeça. Foi arremessada bem dentro do meu alcance, à minha direita. Movi-me naquela direção sem pensar, enfiando-me pelas moitas que formavam uma zona entre o campo e as árvores, esperando não estar correndo por hera venenosa. Peguei a bola com a mão esquerda esticada e ri quando alguns dos espectadores aplaudiram. O jogador do centro do campo me aplaudiu batendo com a mão direita na mão enluvada. Enquanto isso o batedor circulava as bases serenamente, sabendo que tinha conseguido um ponto.

Atirei a bola para um dos jogadores, e quando voltei a minha posição original, entre as embalagens de guloseimas e latas de cerveja, olhei para trás e vi Mattie e John me olhando.

Se algo confirma a ideia de que somos apenas outra espécie de animal, um com o cérebro ligeiramente maior e uma ideia muito maior de nossa própria importância no esquema das coisas, é o fato de quanto podemos transmitir através de gestos quando temos absolutamente que fazê-lo. Mattie entrelaçou as mãos no peito, inclinou a cabeça para a esquerda e ergueu as sobrancelhas — Meu herói. Eu levei as mãos à altura dos ombros e virei as palmas para o céu — Ora, dona, não foi nada. John abaixou a cabeça e pôs os dedos na testa, como se algo estivesse doendo ali — Seu filho da puta sortudo.

Com tais comentários fora do caminho, apontei para a barreira e ergui os ombros numa pergunta. Mattie e John deram de ombros em resposta. Um inning depois, um garotinho que parecia uma explosiva sarda gigante correu até onde eu estava, sua camiseta Michael Jordan batendo nas canelas como uma saia.

— Aquele cara ali me deu cinquenta centavos para dizer que você deve ligar mais tarde para ele no hotel dele em Rock — disse, apontando para John. — Ele disse para você me dar mais cinquenta centavos se tiver resposta.

— Diga a ele que vou ligar por volta de 9h30 — falei. — Mas não tenho trocado. Você aceita um dólar?

— Puxa, aceito sim, brigado. — Pegou o dinheiro, virou-se, depois voltou. Sorriu, revelando uma fileira de dentes capturada entre o Ato I e o Ato II. Com os jogadores de softbol ao fundo, ele parecia um arquétipo de Norman Rockwell. — O cara também falou para eu dizer que sua jogada foi uma besteira.

— Diga a ele que as pessoas diziam isso de Willie Mays o tempo todo.

— Willie quem?

Ah, juventude. Ah, costumes.

— Apenas diga a ele, garoto. Ele irá saber.

Fiquei por outro inning, mas a essa altura o jogo estava ficando sem graça. Devore ainda não tinha aparecido, e voltei para casa pelo caminho por onde viera. Encontrei um pescador em pé numa pedra e dois jovens caminhando pela Rua em direção ao Warrington’s, de mãos dadas. Eles disseram oi, eu disse oi também. Sentia-me solitário e contente ao mesmo tempo. Acredito ser essa uma espécie rara de felicidade.

Alguns checam suas secretárias eletrônicas quando chegam em casa; naquele verão, eu sempre examinava a frente da geladeira. Como Alceu, de Alceu e Dentinho, costumava dizer, os espíritos estão prestes a falar. Naquela noite eles não o fizeram, embora os ímãs em forma de frutas e legumes tivessem formado uma linha sinuosa como uma serpente ou talvez a letra S tirando uma soneca:

Um pouco mais tarde, liguei para John e lhe perguntei onde Devore tinha estado. Ele repetiu em palavras o que já havia me dito muito mais economicamente por gestos.

— É o primeiro jogo a que ele não vem desde que voltou — disse. — Mattie tentou perguntar a algumas pessoas se ele estava bem, e o consenso parece ser de que estava... pelo menos tanto quanto alguém sabia.

— O que significa ela tentou perguntar?

— Várias pessoas nem mesmo falaram com ela. “Dê um gelo nela”, dizia a geração de meus pais. — Cuidado, companheiro, pensei mas não disse, isso está apenas a meio passo de distância da minha geração. — Uma de suas velhas amigas falou com ela finalmente, mas há uma atitude generalizada em relação a Mattie Devore. Aquele Osgood pode ser um vendedor pavoroso, mas como o Senhor Dinheiro de Max Devore está fazendo um trabalho fantástico para separar Mattie dos outros habitantes da cidadezinha. É uma cidadezinha, Mike? Eu não pego bem essa parte.

— É só a TR — eu disse distraidamente. — Não há nenhum modo verdadeiro de explicar a coisa. Você acredita mesmo que Devore está subornando todo mundo? Isso não diz nada muito bom sobre a velha ideia de Wordsworth a respeito da bondade e inocência pastorais, não é?

— Ele está distribuindo dinheiro e usando Osgood. Talvez Footman também, para espalhar histórias. E o pessoal por aqui parece pelo menos tão honesto quanto políticos honestos.

— Aqueles que permanecem comprados?

— É. Ah, eu vi uma das testemunhas potenciais de Devore no Caso da Criança Fugida. Royce Merrill. Ele estava perto do galpão de equipamentos com alguns de seus camaradas. Por acaso reparou nele?

Eu disse que não.

— O cara deve ter uns 130 anos — continuou John. — Tem uma bengala com castão de ouro do tamanho do cu de um elefante.

— É a bengala do Boston Post. A pessoa mais velha da área fica com ela.

— E não tenho a menor dúvida de que ele a ganhou honestamente. Se os advogados de Devore o puserem no banco das testemunhas, vou depená-lo. — A alegre autoconfiança de John tinha algo que dava calafrios.

— Claro — eu disse. — Como é que Mattie está recebendo o afastamento dos velhos amigos? — Eu me lembrei dela dizendo que detestava as noites de terça, detestava pensar em jogos de softbol que continuavam como sempre no campo onde havia conhecido o falecido marido.

— Bem — disse John. — De qualquer modo, acho que deu a maior parte deles como causa perdida. — Eu tinha minhas dúvidas sobre aquilo. Pelo que me lembro, aos 21 anos as causas perdidas são um tipo de especialidade. Mas não disse nada. — Ela está aguentando. Anda solitária e assustada, e acho que mentalmente podia ter começado o processo de desistir de Kyra, mas agora sua autoconfiança voltou. Principalmente graças a você. É um caso fantástico de mudança brusca de sorte.

Bom, talvez. Num relâmpago me lembrei de Frank, o irmão de Jo, dizendo que achava não existir essa coisa de sorte, e sim destino e escolhas inspiradas. E então me lembrei da imagem da TR entrecruzada de cabos invisíveis, conexões que não se viam, mas que eram fortes como aço.

— John, esqueci de fazer a pergunta mais importante desses dias todos, depois que fiz meu depoimento. Esse caso de custódia com que todos nos preocupamos... já foi marcado?

— Boa pergunta. Já chequei três vezes até domingo, e Bissonette também. A menos que Devore e seu pessoal tenham montado algo realmente escorregadio, como dar entrada no caso em outra jurisdição distrital, acho que não foi.

— Eles poderiam fazer isso? Dar entrada em outra jurisdição?

— Talvez. Mas provavelmente não sem que descobríssemos.

— Então isso significa o quê?

— Que Devore está à beira de desistir do caso — disse John prontamente. — Por enquanto não vejo outra maneira de explicar a coisa. Estou voltando para Nova York amanhã cedo, mas ficarei em contato. Se acontecer alguma novidade, faça o mesmo.

Eu disse que o faria e fui para cama. Nenhuma visitante feminina apareceu para partilhar meus sonhos. E isso foi um tipo de alívio.

 

Quando desci ao andar de baixo para encher novamente meu copo de chá gelado na manhã de quarta, Brenda Meserve havia montado o varal giratório no alpendre dos fundos e estava pendurando minhas roupas. Fazia isso sem dúvida como a mãe lhe ensinara, com calças e camisas para o lado de fora e roupas de baixo para o lado de dentro, para que qualquer passante xereta não pudesse ver o que você usava mais perto da pele.

— O senhor pode levar essas roupas para dentro lá pelas quatro horas — disse a sra. M. quando se preparava para ir embora. Olhou-me com a brilhante e cínica expressão de uma mulher que vinha “sendo diarista” para homens abastados a vida inteira. — Não vai esquecer e deixar as roupas do lado de fora a noite toda. Roupas que ficam no sereno nunca parecem limpas até serem lavadas de novo.

Afirmei-lhe humildemente que me lembraria de levar as roupas para dentro. Então perguntei — sentindo-me um espião à procura de informação numa festa de embaixada — se ela achava que ia tudo bem com a casa.

— Tudo bem como? — perguntou, erguendo para mim uma sobrancelha turbulenta.

— Bem, ouvi uns barulhos esquisitos umas duas vezes. À noite.

Ela torceu o nariz.

— É uma casa de troncos, não é? Construída por etapas, digamos assim. Uma ala se assenta na outra. Provavelmente é isso que o senhor escuta.

— Nenhum fantasma, hein? — eu disse, como se estivesse desapontado.

— Não que eu já tenha visto — disse ela, prática como um contador —, mas minha mãe dizia que havia muitos aqui. Dizia que todo esse lago é assombrado. Pelos Micmacs que viveram aqui até serem expulsos pelo general Wing, e por todos os homens que foram para a Guerra Civil e morreram lá, mais de seiscentos foram para lá desta parte do mundo, sr. Noonan, e menos de 150 voltaram... pelo menos em seus corpos. Mamãe dizia que este lado do Dark Score também é assombrado pelo fantasma daquele menino negro que morreu nessas bandas, pobre do guri. Ele era de um dos Red-Tops, o senhor sabe.

— Não. Sei sobre Sara e os Red-Tops, mas isso não. — Fiz uma pausa: — Ele se afogou?

— Não, ficou preso numa armadilha de pegar animal. Lutou a maior parte do dia, gritando por socorro. Finalmente o encontraram. Salvaram o pé dele, mas não deviam ter feito isso. O garoto teve toxemia e morreu. Foi no verão de 1901. É por isso que foram embora, acho eu, era triste demais ficar. Mas mamãe costumava dizer que o garoto tinha ficado. Costumava dizer que ele ainda está na TR.

Fiquei pensando no que diria a sra. M. se eu lhe contasse que o rapazinho provavelmente havia estado aqui para me saudar quando cheguei de Derry, e desde então havia voltado em várias ocasiões.

— E também teve o pai de Kenny Auster, Normal — disse ela. — O senhor conhece essa história, não é? Ah, é uma história terrível.

Ela parecia contente — ou de conhecer uma história tão terrível ou de ter a chance de contá-la.

— Não — eu disse. — Mas conheço Kenny. É aquele que tem o galgo. Mirtilo.

— É. Ele faz um pouco de serviço de carpinteiro e um pouco de caseiro, como o pai fazia. Foi caseiro de muitos lugares aqui, e, pouco depois da Segunda Guerra Mundial terminar, Normal Auster afogou o irmãozinho de Kenny no quintal dos fundos. Foi quando moravam em Wasp Hill, bem onde a estrada se bifurca, um lado indo para o velho cais de desembarque e o outro para a marina. Mas ele não afogou o guri no lago. Botou ele no terreno debaixo da bomba e o deixou ali até que o bebê se enchesse de água e morresse.

Fiquei ali encarando-a enquanto as roupas atrás de nós balançavam no varal. Pensei em minha boca, nariz e garganta cheios daquele frio sabor mineral que bem podia ter sido água de poço, assim como água do lago; ali, a água toda vinha do mesmo aquífero. Eu me lembrei da mensagem na geladeira: socorro estou afogando.

— Ele deixou o garotinho bem debaixo da bomba. Tinha um Chevrolet novo e o dirigiu até a estrada 42. Levou a espingarda, também.

— Não vai me dizer que o pai de Kenny Auster cometeu suicídio em minha casa, vai, sra. Meserve?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Ele fez isso no deck dos Brickers que dava para o lago. Sentou na varanda deles e estourou sua desgraçada cabeça assassina de bebês.

— Os Brickers? Eu não...

— Nem poderia. Não tem havido nenhum Brickers no lago desde os anos 1960. Vinham de Delaware. Gente de qualidade. Eram tipo os Washburn, acho eu, se bem que esses agora também já se foram. O lugar está vazio. De vez em quando, aquele bobo nato do Osgood leva alguém até lá e mostra o lugar, mas jamais vai vendê-lo com o preço que está pedindo. Escreva o que estou dizendo.

Eu havia conhecido os Washburn — joguei bridge com eles uma ou duas vezes. Gente bastante simpática, embora provavelmente não o que a sra. M., com seu esquisito esnobismo de uma região rural remota, teria chamado “de qualidade”. A casa deles ficava talvez a uns 200 metros ao norte da minha ao longo da Rua. Além daquele ponto não há muito mais — a descida para o lago fica íngreme e os bosques são emaranhados maciços de vegetação nascida depois da destruição do bosque inicial e moitas de amora-preta. A Rua prossegue até a ponta de Halo Bay no extremo norte de Dark Score, mas quando a estrada 42 curva-se de volta para a rodovia, o caminho é usado principalmente em expedições para a colheita de frutinhas vermelhas no verão e por caçadores no outono.

Pensei em Normal. Que raio de nome para um sujeito que havia afogado o filho pequeno debaixo de uma bomba no quintal.

— Ele deixou um bilhete? Alguma explicação?

— Não. Mas a gente ouve o pessoal dizer que ele assombra o lago também. Cidadezinhas pequenas são muitas vezes cheias de assombrações, mas não posso dizer que sim ou que não, ou talvez seja eu mesma; não sou do tipo sensitivo. Tudo que sei sobre a sua casa, sr. Noonan, é que cheira a umidade por mais que eu tente arejá-la. Acho que são os troncos. Construção de tronco não combina com lagos. A umidade entra na madeira.

Ela tinha colocado a bolsa entre os Reeboks; então se curvou e a pegou. Era uma bolsa de mulher do campo, preta, sem estilo (a não ser pelas presilhas douradas segurando as alças) e utilitária. Ela poderia ter levado uma boa quantidade de utensílios de cozinha na bolsa, se quisesse.

— Não posso ficar aqui de papo o dia todo, por mais que eu queira. Tenho que ir a mais um lugar antes de acabar por hoje. O verão é tempo de colheita nesta parte do mundo, como o senhor sabe. Não vai se esquecer de levar essas roupas para dentro antes de escurecer, sr. Noonan. Não deixe elas apanharem sereno.

— Não vou não. — E não deixei. Mas quando saí para levá-las para dentro, no meu calção de banho e coberto do suor do forno onde estive trabalhando (tinha que mandar consertar o ar-condicionado; tinha que fazer isso de qualquer maneira), vi que algo tinha alterou as arrumações da sra. M. Os jeans e as camisas estavam pendurados agora em torno do mastro. As roupas de baixo e meias, decorosamente escondidas quando a sra. M. saíra pelo caminho de carros em seu velho Ford, estavam agora do lado de fora. Era como se meu hóspede invisível, um de meus hóspedes invisíveis, estivesse dizendo ha ha ha.

 

Fui à biblioteca no dia seguinte, e a primeira coisa que fiz foi renovar meu cartão. A própria Lindy Briggs recebeu minhas quatro pratas e me registrou no computador, dizendo primeiro o quanto lamentou ter sabido da morte de Jo. Da mesma forma que em Bill, senti certa censura em seu tom, como se eu fosse o culpado daquelas condolências tão impropriamente atrasadas. Acho que eu era.

— Lindy, você tem uma história da cidade? — perguntei quando terminamos as fórmulas apropriadas com relação à minha mulher.

— Temos duas — disse ela. Depois se inclinou para mim por sobre a mesa. Era uma mulher pequena num vestido sem mangas e violentamente estampado, o cabelo grisalho numa bola fofa em torno da cabeça, os olhos brilhantes nadando por trás das lentes bifocais. Numa voz confidencial, ela acrescentou: — Nenhuma das duas é muito boa.

— Qual é melhor? — perguntei, no mesmo tom dela.

— Provavelmente a de Edward Osteen. Era um residente de verão até meados dos anos 1950 e morou aqui direto depois de se aposentar. Escreveu Dark Score Days em 1965 ou 1966. Publicou-o por sua própria conta porque não conseguiu achar uma editora comercial que o aceitasse. Nem os editores da região o quiseram. — Ela suspirou. — O pessoal do lugar comprou o livro, mas isso não significa muitos exemplares, não é?

— Não, acho que não — eu disse.

— Ele não era muito bom escritor. Também não era um fotógrafo muito bom, aquelas fotos instantâneas em preto e branco fazem meus olhos doerem. Mesmo assim, conta algumas histórias boas. A estrada dos Micmacs, o cavalo amestrado do general Wing, o furacão na década de 1880, os incêndios dos anos 1930...

— Algo sobre Sara e os Red-Tops?

Ela assentiu com a cabeça, sorrindo.

— Finalmente veio dar uma espiada na história de sua própria casa, não é? Fico contente em saber disso. Ele encontrou uma velha foto deles, e está lá. Ele achava que tinha sido tirada na Feira de Fryeburg em 1900. Ed costumava dizer que daria muito para ouvir um disco feito por aquele grupo.

— Eu também, mas nenhum foi feito. — Subitamente ocorreu-me um haicai do poeta grego George Seferis: “São as vozes de nossos amigos mortos/ ou apenas o gramofone?” — O que aconteceu com o sr. Osteen? Não me lembro do nome.

— Morreu em menos de um ano ou dois depois que você e Jo compraram a casa no lago — acrescentou ela. — Câncer.

— Você disse que havia duas histórias?

— A outra você provavelmente conhece: Uma história do condado de Castle e de Castle Rock. Feita para o centenário do condado, e seca como poeira. O livro de Eddie Osteen não é muito bem escrito, mas não é seco. A gente tem que lhe conceder isso. Você deve encontrar os dois por ali. — Apontou para a prateleira com uma tabuleta por cima que dizia DE INTERESSE DO MAINE. — Eles não circulam. — Então se animou: — Embora aceitemos alegremente qualquer níquel que você seja a compelido a colocar em nossa máquina de fotocópia.

Mattie estava sentada no canto extremo junto a um garoto de boné de beisebol virado para trás, mostrando-lhe como usar o leitor de microfilme. Ergueu os olhos para mim, sorriu e mexeu os lábios dizendo Boa pegada. Referindo-se à minha jogada de sorte no Warrington’s, provavelmente. Dei de ombros com modéstia antes de voltar às prateleiras DE INTERESSE DO MAINE. Mas ela estava certa — com sorte ou não, tinha sido uma bela pegada.

 

— O que é que está procurando?

Eu havia mergulhado tanto nas duas histórias que encontrei que a voz de Mattie me fez dar um pulo. Virei-me e sorri, primeiro consciente de que ela usava um perfume leve e agradável, e segundo que Lindy Briggs nos observava da mesa principal, sem o sorriso de boas-vindas.

— Pano de fundo da área onde moro — falei. — Histórias antigas. Minha diarista me deixou interessado. — Então, numa voz mais baixa: — A professora está observando. Não olhe.

Mattie pareceu espantada e, na minha opinião, um pouco preocupada. Depois soube que tinha razão de estar assim. Numa voz baixa, mas mesmo assim emitida para ir até a mesa, ela perguntou se podia recolocar um dos livros na estante para mim. Entreguei-lhe os dois. Enquanto os pegava, ela disse quase num sussurro de conspiradora:

— Aquele advogado que representou você na sexta-feira passada conseguiu um detetive particular para John. Ele disse que podem ter descoberto uma coisa interessante sobre o guardião ad litem.

Andei até as prateleiras DE INTERESSE DO MAINE com ela, esperando com isso não lhe arranjar problemas, e perguntei se sabia o que esse algo interessante podia ser. Mattie balançou a cabeça, deu-me um sorriso de bibliotecariazinha profissional e se afastou.

Na viagem de volta para casa, tentei pensar sobre o que havia lido, mas não havia muito. Osteen era um escritor ruim que tirava fotos ruins, e ainda que suas histórias fossem coloridas, também eram muito inconsistentes na base. Sem dúvida mencionava Sara e os Red-Tops, mas referia-se a eles como um “octeto Dixie-Land”; até eu sabia que isso não estava certo. Os Red-Tops podem ter tocado algum Dixieland, mas haviam sido basicamente um grupo de blues (noites de sextas e sábados) e um grupo gospel (manhãs de domingo). O resumo de duas páginas de Osteen sobre a estada dos Red-Tops na TR deixava claro que ele não havia escutado mais ninguém fazendo covers das músicas de Sara.

Ele confirmava que uma criança havia morrido de toxemia causada por um ferimento de armadilha, história que parecia a de Brenda Meserve... mas por que não pareceria? Osteen provavelmente a ouviu do pai ou do avô da sra. M. Dizia também que o garoto era o filho único de Son Tidwell, e que o verdadeiro nome do guitarrista era Reginald. Os Tidwell haviam provavelmente se deslocado para o norte vindos da zona de prostituição de Nova Orleans — as famosas ruas de clubes e espeluncas cheias de ladrões conhecidas na virada do século como Storyville.

Não havia menção de Sara e dos Red-Tops na história mais formal do condado de Castle, e nenhuma menção ao irmãozinho afogado de Kenny Auster nos dois livros. Pouco antes de Mattie chegar para falar comigo, tive uma ideia maluca: a de que Son Tidwell e Sara Tidwell eram casados, e que o garotinho (cujo nome Osteen não mencionava) era filho deles. Achei o retrato de que Lindy tinha falado e examinei-o atentamente. Mostrava pelo menos uma dúzia de negros em pé num grupo austero na frente do que parecia uma exposição de gado. Havia um antiquado carro ao fundo. Poderia bem ter sido tirada na Feira de Fryeburg e, apesar de velha e desbotada, tinha um poder simples e elemental que todas as fotos de Osteen colocadas juntas não poderiam alcançar. A gente vê fotos dos bandidos do Oeste e da época da Depressão com aquele mesmo olhar de verdade sinistra — rostos severos acima de gravatas e colarinhos apertados, olhos não muito perdidos nas sombras de antigos chapéus desabados.

Na frente e no centro da foto, Sara, com seu violão, usava um vestido preto. Não estava exatamente sorrindo na fotografia, mas parecia haver um sorriso em seus olhos, e achei que eram como os olhos de algumas telas, os que parecem nos seguir quando nos movemos pela sala. Examinei a foto e pensei em sua voz quase rancorosa no meu sonho: O que quer saber, benzinho? Acho que eu queria saber sobre ela e os outros — quem haviam sido, o que eram uns para os outros quando não estavam cantando e tocando, por que haviam partido, para onde tinham ido.

As mãos dela eram claramente visíveis, uma sobre as cordas do violão, a outra nos trastos do instrumento, onde ela esteve tirando um acorde de sol num dia de feira em outubro do ano de 1900. Seus dedos eram compridos, artísticos, despidos de anéis. Isso não significava necessariamente que ela e Son Tidwell não fossem casados, claro, e mesmo que tivessem sido, o garotinho capturado na armadilha poderia ser filho de outro. Só que a mesma sombra de sorriso pairava nos olhos de Son Tidwell. A semelhança era extraordinária. Ocorreu-me que os dois tivessem sido irmão e irmã, não marido e mulher.

Pensei nessas coisas a caminho de casa, assim como em conexões que eram mais sentidas do que vistas... mas me descobri pensando principalmente sobre Lindy Briggs — o modo como sorrira para mim e, um pouco mais tarde, o modo como não sorrira para sua alegre e jovem bibliotecária com diploma do ensino médio. Aquilo tinha me preocupado.

Então voltei para casa e depois só me preocupei com minha história e as pessoas contidas nela — sacos de ossos que ganhavam carne diariamente.

 

Michael Noonan, Max Devore e Rogette Whitmore representaram sua horrível ceninha de comédia na noite de sexta-feira. Duas outras coisas que merecem ser contadas aconteceram antes daquilo.

A primeira foi um telefonema de John Storrow na quinta à noite. Eu estava sentado em frente à TV com um jogo de beisebol desenrolando-se sem som à minha frente (o botão MUTE com que a maioria dos controles remotos vêm equipados pode ser a melhor invenção do século XX). Pensava em Sara Tidwell e Son Tidwell e em Son Tidwell e seu filho. Pensava em Storyville, um nome que qualquer escritor simplesmente tinha que adorar. E no fundo de minha mente pensava em minha mulher, que havia morrido grávida.

— Alô? — eu disse.

— Mike, tenho notícias maravilhosas — falou John. Parecia prestes a estourar. — Romeo Bissonette pode ter um nome esquisito, mas não há nada esquisito no detetive que ele encontrou para mim. Seu nome é George Kennedy, como o ator. Ele é bom, e é rápido. Esse cara podia trabalhar em Nova York.

— Se esse é o melhor elogio em que consegue pensar, precisa sair mais da cidade.

Ele prosseguiu como se não tivesse ouvido.

— O verdadeiro trabalho de Kennedy é numa firma de segurança, o outro negócio é estritamente um bico. O que é uma grande perda, acredite. Ele conseguiu a maior parte da coisa por telefone. Não consigo acreditar.

— Você não consegue acreditar em que, exatamente?

— Na sorte grande, baby. — Mais uma vez falou naquele tom de ávida satisfação que eu achava perturbador e tranquilizador ao mesmo tempo. — Elmer Durgin fez as seguintes coisas desde o final de maio: acabou de pagar seu carro; acabou de pagar seu terreno em Rangely Lakes; conseguiu saldar cerca de noventa anos de pensão para os filhos...

— Ninguém paga pensão de filhos por noventa anos — eu disse, mas falei apenas por falar... para extravasar um pouco de minha própria excitação, na verdade. — Isso é impossível, cara.

— É possível se você tem sete filhos — disse John, e rolou de rir.

Pensei naquele rosto rechonchudo cheio de autossatisfação, a boca de arco de cupido, as unhas que pareciam lustrosas e afeminadas.

— Ele não tem sete filhos.

— Tem sim — disse John, ainda rindo. Parecia um lunático completo, maníaco, mas não depressivo. — Tem mesmo! E que vão de qu-quatorze a tr-três anos! Que pauzinho p-p-potente e ocupado ele deve ter! — Mais gargalhadas. Então comecei a rir junto com ele. Aquilo pegava como cachumba. — Kennedy vai me mandar por f-f-fax r-retratos de toda a... fam... família! — Nós gargalhávamos agora, rindo juntos pelo interurbano. Eu podia imaginar John Storrow sentado sozinho em seu escritório da Park Avenue, urrando como um lunático e assustando as faxineiras.

— Mas isso não importa — disse ele quando pôde falar coerentemente de novo. — Você está vendo o que importa, não é?

— Estou. Como é que ele pôde ser tão burro? — falei, referindo-me a Durgin, mas também a Devore. Acho que John entendeu que estávamos falando dos dois ao mesmo tempo.

— Elmer Durgin é um advogadozinho de uma pequena comunidade nos grandes e remotos bosques do Maine ocidental, só isso. Como é que podia saber que chegaria um anjo guardião com recursos para desmascará-lo? Por falar nisso, ele também comprou um barco. Há duas semanas. É de motor gêmeo. Grande. Acabou, Mike. O time de casa marca nove pontos no final do jogo.

— Se você está dizendo. — Mas minha mão se moveu por vontade própria, fechou-se num punho frouxo e bateu na boa e sólida madeira da mesinha.

— E sabe do que mais? O jogo de softbol não foi uma perda total. — John ainda falava e ria em pequenos acessos como balões de hélio.

— O quê?

— Fiquei encantado com ela.

— Ela?

— Mattie — disse ele pacientemente. — Mattie Devore. — Fez uma pausa. — Mike? Está ouvindo?

— Estou. O telefone escorregou. Desculpe. — O telefone não tinha escorregado nem um centímetro, mas a explicação se mostrou bastante natural, achei eu. Se não se mostrasse, e daí? No que tangia a Mattie, eu seria, pelo menos na cabeça de John, acima de qualquer suspeita. Como a equipe de empregados da casa de campo num livro de Agatha Christie. Ele tinha 28 anos, talvez 30. A ideia de que um homem 12 anos mais velho pudesse sentir-se sexualmente atraído por Mattie provavelmente jamais lhe passou pela cabeça... ou talvez por um ou dois segundos no parque, antes que ele a descartasse como ridícula. Da mesma maneira como a própria Mattie tinha descartado a ideia de Jo e o homem de blazer marrom.

— Não posso fazer minha dança da conquista enquanto a estiver representando — disse ele —, não seria ético. Também não seria seguro. Mas depois... nunca se sabe.

— Não — eu disse, escutando minha voz como a gente ouve algumas vezes a própria voz em momentos em que se é surpreendido completamente sem ação, como se a voz tivesse saído de outra pessoa. Alguém no rádio ou no toca-discos, talvez. São as vozes de nossos amigos mortos ou apenas o gramofone? Pensei nas mãos dele, os dedos compridos e esbeltos, sem um anel. Como as mãos de Sara naquela velha foto. — Não, nunca se sabe.

Nós nos despedimos e continuei assistindo ao jogo de beisebol mudo. Pensei em subir para pegar uma cerveja, mas o caminho até a geladeira parecia muito distante — um safári, na realidade. O que eu sentia era uma espécie de mágoa surda, seguida por uma emoção melhor: um alívio triste, como acho que se pode chamar. Ele era velho demais para Mattie? Não, acho que não. Era da idade certa. O Príncipe Encantado Número Dois, dessa vez de terno, calças e colete. A sorte de Mattie com homens podia finalmente estar mudando e, se fosse isso, eu deveria ficar contente. Eu ficaria contente. E aliviado. Porque tinha um livro a escrever, pouco importando a aparência de uns tênis brancos iluminando-se sob um vestido vermelho de verão no crepúsculo crescente, ou a brasa do cigarro dela dançando no escuro.

Ainda assim, senti-me realmente solitário pela primeira vez desde que tinha visto Kyra andando pela linha branca da rota 68 de maiô e sandálias de dedo.

— Homenzinho engraçado, disse Strickland — falei para a sala vazia. Saiu antes de eu saber que ia dizer algo e, quando o fiz, o canal de TV mudou. Foi do beisebol para uma reprise de Tudo em família e depois para Ren & Stimpy. Dei uma espiada no controle remoto. Ainda estava na mesinha de centro onde eu o deixara. O canal de TV mudou de novo, e então passei a ver Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Havia um avião ao fundo, e eu não precisava pegar o controle remoto e ligar o som para saber que Humphrey dizia a Ingrid para ela entrar no avião. O filme preferido de minha mulher entre todos que haviam sido feitos. No final, ela desabava no choro, infalivelmente.

— Jo? — perguntei. — Você está aí?

O sino de Bunter tocou uma vez. Muito debilmente. Havia várias presenças na casa, eu tinha certeza... mas naquela noite, pela primeira vez, senti absolutamente que quem estava comigo era Jo.

— Quem era ele, meu bem? — perguntei. — Quem era o cara no campo de softbol?

O sino de Bunter permaneceu imóvel e quieto. Mas ela estava na sala. Eu a sentia, algo como uma respiração suspensa.

Lembrei-me da mensagenzinha feia e de escárnio na geladeira depois de meu jantar com Mattie e Ki: rosa azul mentiroso ha ha.

— Quem era ele? — Minha voz saiu pouco firme, parecendo à beira das lágrimas. — O que é que você estava fazendo aqui com um cara? Você estava... — Mas não consegui perguntar se tinha mentido para mim, me enganado. Não consegui fazê-lo mesmo que a presença que eu sentia pudesse estar, vamos encarar o fato, apenas na minha cabeça.

A TV saiu de Casablanca e lá estava o advogado preferido de todo mundo, Perry Mason, no Nick@tNite. A nêmesis de Perry, Hamilton Burger, interrogava uma mulher de aparência atormentada, e repentinamente o som estrondeou novamente, fazendo-me dar um pulo.

— Não sou mentirosa! — gritou uma antiga atriz de TV. Por um momento ela olhou direto para mim; fiquei atônito e sem respiração ao ver os olhos de Jo naquele rosto em branco e preto dos anos 1950. — Nunca menti, sr. Burger, nunca!

— Eu alego que mentiu! — respondeu Burger. Moveu-se para perto dela, pairando ali como um vampiro. — Eu alego que você...

A TV foi desligada subitamente. O sino de Bunter deu uma rápida e única sacudidela e depois fosse lá o que tivesse estado ali foi embora. Mas eu me sentia melhor. Não sou mentirosa... Nunca menti, nunca.

Eu podia acreditar naquilo, se quisesse.

Se quisesse.

Fui para cama e não houve sonhos.

 

Passei a trabalhar bem cedo, antes que o calor assolasse realmente o escritório. Bebia um pouco de suco, mastigava uma torrada e depois me sentava à IBM até quase meio-dia, observando a bola Courier dançar e girar enquanto as páginas flutuavam através da máquina e saíam escritas. A velha mágica, tão estranha e maravilhosa. Aquilo nunca tinha parecido trabalho para mim, embora eu o chamasse disso; parecia, isto sim, um tipo esquisito de trampolim mental do qual eu saltava para a frente. Molas que retiravam todo o peso do mundo durante um tempo.

Ao meio-dia, eu fazia uma pausa, dirigia até o “gordurorium” de Buddy Jellison para comer algo bem pesado, voltava para casa e trabalhava por mais uma hora mais ou menos. Depois disso, nadava e tirava uma longa soneca sem sonhos no quarto norte. Raramente pousava a cabeça no quarto principal na extremidade sul da casa, e se a sra. M. achava isso esquisito, guardava a opinião para si mesma.

Na sexta-feira dia 17, ao voltar para casa, parei no Armazém Lakeview para pôr gasolina no Chevrolet. Havia bombas na oficina, sendo que a bomba manipulada pelo cliente era um ou dois centavos mais barata; contudo, eu não gostava das vibrações. Hoje, enquanto estava na frente do armazém com a bomba de gasolina automática e olhando na direção das montanhas, o Dodge Ram de Bill Dean parou do outro lado da ilha de combustível. Ele desceu e sorriu:

— Como vai, Mike?

— Muito bem.

— Brenda disse que você está escrevendo a todo vapor.

— Estou — respondi, e o pedido para uma revisão do ar-condicionado quebrado do segundo andar esteve na ponta da minha língua, mas ficou ali. Ainda me sentia nervoso demais sobre minha capacidade redescoberta para querer mudar qualquer coisa no meio ambiente em que aquilo transcorria. Talvez fosse estúpido, mas às vezes as coisas funcionam só porque você acha que funcionam. É uma definição de fé tão boa quanto qualquer outra.

— Bem, estou contente de saber disso. Muito contente. — Achei que era sincero, mas de alguma forma não soava como Bill. Não aquele que havia me cumprimentado quando cheguei, de qualquer modo.

— Tenho dado uma espiada num material antigo sobre o meu lado do lago — falei.

— Sara e os Red-Tops? Você sempre teve certo interesse neles, eu me lembro.

— Neles sim, mas não só neles. Montes de histórias. Eu estava conversando com a sra. M., e ela me contou do Normal Auster, o pai de Kenny.

O sorriso de Bill ficou paralisado. Ele só fez uma rápida pausa no ato de destampar o tanque de gasolina de seu carro, mas mesmo assim tive a sensação muito clara de que havia congelado por dentro.

— Você não ia escrever sobre uma coisa daquelas, não é, Mike? Porque há um monte de gente por aqui que acharia isso ruim e levaria a mal. Eu disse a mesma coisa a Jo.

— Jo? — Senti um impulso de andar entre as duas bombas e pisar na ilha para agarrá-lo pelo braço. — O que é que Jo tem a ver com isso?

Ele me olhou cautelosamente e por muito tempo.

— Ela não lhe contou?

— Do que está falando?

— Ela pensou que pudesse escrever algo sobre Sara e os Red-Tops para um dos jornais locais. — Bill escolhia as palavras muito lentamente. Tenho uma nítida lembrança disso, e de como o sol estava quente, espancando meu pescoço, e como nossas sombras eram pronunciadas no asfalto. Ele começou a bombear a gasolina, e o som do motor da bomba era também muito alto. — Acho que ela chegou até a mencionar a revista Yankee. Posso estar enganado sobre isso, mas acho que não estou.

Fiquei sem fala. Por que ela não teria me contado sobre a ideia de escrever a respeito de uma pequena história local? Teria pensado que estava se intrometendo em meu território? Isso era ridículo. Ela me conhecia bem demais para aquilo... não conhecia?

— Quando é que vocês tiveram essa conversa, Bill? Você se lembra?

— Claro que sim. No mesmo dia em que ela apareceu para receber aquelas corujas de plástico. Mas eu é que toquei no assunto, porque o pessoal me disse que ela estava fazendo perguntas.

— Xeretando?

— Não disse isso — falou rigidamente. — Você é que está dizendo.

Era verdade, mas achei que ele queria dizer isso mesmo.

— Continue.

— Não tem continuação nenhuma. Eu disse a ela que alguns calos doíam aqui e acolá na TR, o mesmo que acontece em toda parte, e pedi-lhe que não pisasse em nenhum calo se pudesse evitar. Ela disse que compreendia. Talvez compreendesse, talvez não. Só sei que continuou a fazer perguntas. Escutando histórias de velhos tolos com mais tempo do que juízo.

— Quando foi isso?

— Outono de 1993, inverno e primavera de 1994. Ela percorreu toda a cidade, foi até Motton e Harlow, com seu caderno de notas e gravadorzinho. De qualquer maneira, só sei isso.

Percebi uma coisa atordoante: Bill estava mentindo. Se me perguntassem antes daquele dia, eu teria rido e dito que Bill Dean não tinha uma mentira sequer dentro da cabeça. E não devia ter muitas, pois mentia muito mal.

Pensei em lhe chamar a atenção para aquilo, mas com que finalidade? Eu precisava pensar, e não poderia fazê-lo ali — minha mente rugia. Com o tempo, o rugido poderia diminuir e eu veria que na verdade não era nada, nada de importante, mas precisava de tempo. Quando você começa a descobrir coisas inesperadas sobre um ente amado que morreu há algum tempo, isso o abala. Abala mesmo, pode acreditar.

Os olhos de Bill tinham se afastado dos meus, mas voltaram a me fitar. Ele parecia ao mesmo tempo sincero e — eu poderia jurar — um pouco assustado.

— Ela perguntou sobre o pequeno Kerry Auster, e isso é um bom exemplo do que quero dizer quando falo em pisar em calos. Isso não é assunto para uma reportagem de jornal ou um artigo de revista. Normal simplesmente detonou. Ninguém sabe por quê. Foi uma tragédia terrível, sem sentido, e ainda há pessoas que poderiam ficar magoadas com o assunto. Em cidadezinhas pequenas, as coisas estão ligadas por debaixo da superfície...

É, como cabos que não se podem ver.

— ... e o passado morre com mais lentidão. Sara e aqueles outros é uma questão diferente. Eles eram... só andarilhos... de longe. Jo poderia ter se limitado a esse pessoal e ficaria tudo bem. E, tanto quanto sei, ela fez isso. Porque nunca vi uma única palavra que tenha escrito. Se é que escreveu.

A respeito daquilo, senti que ele estava dizendo a verdade. Mas eu sabia algo mais, e com tanta certeza como quando soube que Mattie estava usando short branco ao me ligar em seu dia de folga. Sara e aqueles outros eram só andarilhos de longe. Bill havia dito aquilo, mas hesitou no meio do pensamento, substituindo por andarilhos a palavra que lhe viera naturalmente à mente. Crioulos era a palavra que não havia pronunciado. Sara e os outros eram só crioulos de longe.

Imediatamente me vi pensando numa velha história de Ray Bradbury: Marte É o Céu. Os primeiros viajantes espaciais para Marte descobrem que ele é Green Town, Illinois, e que todos os seus parentes e amigos bem-amados estão lá. Só que os amigos e parentes são na verdade monstros alienígenas e, durante à noite, enquanto os viajantes pensam que eles estão dormindo nas camas dos familiares mortos há muito tempo num lugar que devia ser o céu, são assassinados até o último homem.

— Bill, tem certeza de que ela apareceu por aqui algumas vezes fora da estação?

— Tenho. E também não foram só algumas vezes. Deve ter sido uma dúzia de vezes ou mais. Viagens de um dia, sabe.

— Você viu alguma vez um sujeito com ela? Um cara corpulento, de cabelo preto?

Ele pensou a respeito. Tentei não parar de respirar. Finalmente balançou a cabeça.

— Nas poucas vezes em que a vi, ela estava sozinha. Mas não a via toda vez que ela aparecia. Às vezes só sabia que Jo tinha estado na TR depois que já havia ido embora de novo. Eu a vi em junho de 1994, indo na direção de Halo Bay naquele carrinho dela. Ela acenou, eu respondi. Fui até sua casa mais tarde naquela noite para ver se precisava de alguma coisa, mas ela já tinha ido embora. Não a vi de novo. Quando ela morreu, naquele mesmo verão, eu e ‘Vette ficamos muito chocados.

Fosse o que fosse que estivesse procurando, ela não deve ter chegado a registrá-lo no papel. Eu teria encontrado o manuscrito.

Mas aquilo seria verdade? Ela tinha feito muitas viagens até aqui sem nenhuma tentativa aparente de escondê-las, uma delas até acompanhada por um desconhecido, e eu só descobrira essas visitas acidentalmente?

— É difícil falar sobre isso — disse Bill —, mas já que começamos, podemos ir até o fim. Morar na TR é como quando costumávamos dormir quatro ou até cinco numa cama em janeiro e fazia um frio danado. Se todo mundo se mantiver tranquilo, fica tudo bem. Mas se uma pessoa fica inquieta, se mexe e se vira, ninguém pode dormir. Nesse momento, você é a pessoa inquieta. É assim que o pessoal vê a coisa.

Bill esperou para ver o que eu diria. Quando se passaram quase vinte segundos sem que eu desse uma palavra (Harold Oblowski teria ficado orgulhoso), ele mexeu os pés e continuou.

— Há gente nessa cidade se sentindo desconfortável com o seu interesse por Mattie Devore, por exemplo. Não que eu esteja dizendo que haja alguma coisa entre vocês dois, embora tenha gente que diga isso, mas se quer ficar na TR, está tornando a coisa difícil para você.

— Por quê?

— Voltando ao que eu disse uma semana atrás: Mattie significa problemas.

— Segundo me lembro, Bill, você disse que ela estava com problemas. E está. Estou tentando ajudá-la a se livrar deles. Não há nada entre nós, a não ser isso.

— Eu me lembro de ter lhe dito que Max Devore é maluco — falou. — Se deixar ele com raiva, nós todos vamos pagar. — A bomba desligou e ele a colocou de volta no suporte. Então suspirou, levantou as mãos e as deixou cair. — Você acha que é fácil para mim dizer isso?

— Você acha que é fácil para mim escutar isso?

— Está bem, sim, estamos no mesmo barco. Mas Mattie Devore não é a única pessoa na TR vivendo apertado, sabe. Há outros com as suas próprias desgraças. Entende?

Talvez ele visse que eu entendia bem demais, pois seus ombros caíram.

— Se está me pedindo para ficar de lado e deixar Devore levar a filha de Mattie sem nenhuma luta, pode esquecer — falei. — E espero que não seja isso. Porque eu acho que teria que me afastar de um homem que pede a outro para fazer uma coisa desse tipo.

— Eu não pediria isso agora de modo nenhum — disse ele, com o sotaque mostrando-se forte quase ao ponto de desprezo. — Seria tarde demais, não é? — E então, inesperadamente, amoleceu. — Que droga, homem, estou preocupado com você. Mande o resto às favas, tá certo? Solenemente. — Ele estava mentindo de novo, mas desta vez não me importei muito porque achei que estava mentindo para si mesmo. — Mas você tem que ter cuidado. Quando eu disse que Devore é maluco, não era uma maneira de falar. Acha que ele vai se preocupar com a corte superior se a corte não lhe der o que ele quer? Pessoas morreram naqueles incêndios de 1933. Gente boa. Um até aparentado comigo. Queimaram mais da metade do maldito condado e Max Devore ateou o fogo. Foi seu presente de despedida para a TR. Nunca pôde ser provado, mas foi ele quem fez aquilo. Naquela época, ele era jovem e sem dinheiro, tinha menos de 20 anos e a lei não estava no seu bolso. O que acha que ele faria agora?

Esquadrinhou-me com os olhos. Eu não disse nada.

Bill assentiu com a cabeça como se eu tivesse falado.

— Pense nisso. E lembre-se de uma coisa, Mike: se eu não me importasse com você, jamais falaria tão direto como estou falando.

— Direto até que ponto, Bill? — Eu estava tenuemente consciente de um turista saindo de seu Volvo, caminhando até o armazém e nos olhando curiosamente; quando repassei a cena na cabeça mais tarde, percebi que devíamos ter parecido dois caras à beira de uma briga de socos. Lembro que senti vontade de chorar de tristeza, de perturbação e de uma sensação indefinida de traição, mas me lembro também de estar furioso com aquele velho curvado — com sua camiseta de algodão brilhando de limpa e sua boca cheia de dentes falsos. Portanto, talvez tivéssemos estado perto de brigar e eu apenas não tive consciência disso naquele momento.

— Tão direto quanto posso — disse ele, e se afastou para entrar e pagar sua gasolina.

— Minha casa é assombrada — eu disse.

Ele parou de costas para mim, os ombros curvados como se para absorver um golpe. Então virou-se lentamente.

— Sara Laughs sempre foi assombrada, Mike. Você os agitou. Talvez você devesse voltar para Derry e deixá-los se aquietarem. Pode ser a melhor coisa a fazer. — Fez uma pausa como se repassando o que havia dito para ver se concordava, depois assentiu com a cabeça. Assentiu tão lentamente como se virou. — É, isso podia ser a melhor coisa por aqui.

 

Quando voltei a Sara, telefonei para Ward Hankins. Depois finalmente liguei para Bonnie Amudson. Parte de mim torcia para que ela não estivesse na agência de viagens em Augusta da qual era sócia, mas estava. No meio de minha conversa com Bonnie, o fax começou a imprimir páginas xerocadas das agendas de compromissos de Jo. Na primeira, Ward rabiscara: “Espero que isso ajude.”

Eu não havia ensaiado o que dizer para Bonnie: senti que fazer isso seria uma receita para o desastre. Contei a ela que Jo vinha escrevendo uma coisa — talvez um artigo, ou uma série deles — sobre o distrito onde se localizava nossa casa de verão, e que alguns habitantes aparentemente haviam ficado profundamente desagradados com a curiosidade dela. Alguns ainda permaneciam assim. Ela tinha conversado com Bonnie? Talvez tivesse lhe mostrado um primeiro rascunho?

— Não, ahn-ahn. — Bonnie parecia honestamente surpresa. — Ela costumava me mostrar suas fotos e mais amostras de ervas do que eu sinceramente tinha interesse em ver, mas nunca me mostrou nada do que estava escrevendo. Na verdade, lembro-me de ela dizer certa vez que tinha resolvido deixar a escrita para você e experimentaria um pouco...

— ... de todo o resto, não é?

— É.

Achei que aquele era um bom momento para terminar a conversa, mas os rapazes do sótão pareciam ter outras ideias.

— Ela estava saindo com alguém, Bonnie?

Silêncio do outro lado do fio. Com uma mão que parecia estar pelo menos a 6 quilômetros de distância do braço, recolhi as folhas de fax da cesta. Dez delas — novembro de 1993 a agosto de 1994. Rabiscos por toda parte com a caligrafia cuidada de Jo. Nós tínhamos um fax antes de ela morrer? Não conseguia me lembrar. Não havia muitas porcarias de que eu conseguisse lembrar.

— Bonnie? Se você sabe de algo, por favor, me conte. Jo morreu, mas eu estou vivo. Posso perdoá-la se tiver que fazer isso, mas não posso perdoar o que não compreen...

— Desculpe — disse ela, e riu nervosamente. — É que simplesmente não entendi a princípio. “Saindo com alguém” é... tão estranho com relação a Jo... à Jo que eu conheci... que não consegui entender o que você estava falando. Achei que estivesse falando de uma visita a um analista, mas não estava não, estava? Você queria dizer saindo com um homem. Um namorado.

— É o que eu queria dizer. — Folheando as páginas em xerox da agenda, minha mão não tinha voltado à distância apropriada de meus olhos, mas estava chegando lá, chegando lá. Senti alívio ante a perturbação honesta na voz de Bonnie, mas não tanto quanto esperei. Porque eu sabia. Nem chegou a precisar que a mulher no velho episódio de Perry Mason apresentasse seus dois centavos, não precisou mesmo. Era de Jo que estávamos falando afinal. Jo.

— Mike — Bonnie disse aquilo muito suavemente, como se eu pudesse estar louco —, ela amava você. Ela amava você.

— É. Acho que amava. — As páginas da agenda mostravam como minha mulher tinha sido ocupada. E o quanto era produtiva. O Sopão Solidário do Maine... as sopas de caridade. WomShel, a rede de abrigos para mulheres agredidas abrangendo vários condados. TeenShel. Amigos das Bibliotecas do Maine. Esteve em duas ou três reuniões por mês, duas ou três por semana em algumas épocas, e eu quase não havia notado. Estive muito ocupado com minhas mulheres em perigo. — Eu também a amava, Bonnie, mas ela estava envolvida com alguma coisa nos últimos dez meses de sua vida. Ela não deu nenhuma pista do que poderia ser quando vocês iam de carro às reuniões do Conselho do Sopão ou dos Amigos das Bibliotecas do Maine?

Silêncio do outro lado do fio.

— Bonnie?

Afastei o telefone da orelha para ver se a luz vermelha de BATERIA FRACA estava acesa, e ele gritou alto o meu nome. Coloquei-o no lugar.

— Bonnie, o que é?

— Não houve longas viagens de carro naqueles últimos nove ou dez meses. Conversávamos ao telefone e lembro que uma vez almoçamos em Waterville, mas não houve longas viagens de carro. Ela havia saído.

Folheei novamente as folhas de fax. Reuniões anotadas por toda parte na caligrafia firme de Jo. Sopão Solidário do Maine entre elas.

— Não compreendo. Ela saiu do Conselho do Sopão?

Outro momento de silêncio. Então, falando cuidadosamente:

— Não, Mike. Ela deixou todos eles. Deixou os abrigos para mulheres e os abrigos para adolescentes no final de 1993, seu período terminara. Dos outros dois, Sopão e Amigos das Bibliotecas do Maine, ela pediu demissão em outubro ou novembro de 1993.

Reuniões anotadas por todas as folhas que Ward tinha me enviado. Dúzias delas. Reuniões em 1993, 1994. Reuniões de conselhos aos quais ela não mais pertencia. Ela esteve aqui. Em todos aqueles dias em que supostamente participava de reuniões, Jo tinha estado aqui na TR. Eu apostaria minha vida nisso.

Mas por quê?