Saco de Ossos

Stephen King · Capítulo 17 de 32

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Saco de Ossos

Capítulo Quinze

 

— Declare seu nome para o registro.

— Michael Noonan.

— Endereço?

— Derry é o meu endereço permanente, rua Benton, 14, mas também tenho uma casa na TR-90, em Dark Score Lake. O endereço para correspondência é caixa postal 832. A casa é na estrada 42, fora da rota 68.

Elmer Durgin, o guardião ad litem de Kyra Devore, abanou uma rechonchuda mão na frente do rosto para espantar algum inseto incômodo ou para me dizer que já chegava. Concordei. Sentia-me ligeiramente como a garotinha da peça Nossa cidade, de Thornton Wilder, que dá seu endereço como Grover’s Corner, New Hampshire, América, Hemisfério Norte, Mundo, Sistema Solar, Via Láctea, a Mente de Deus. Estava sobretudo nervoso. Havia chegado aos 40 anos ainda virgem na área dos procedimentos legais e, embora estivéssemos na sala de conferência de Durgin, Peters e Jarrette, na rua Bridge em Castle Rock, ainda assim aquilo era um procedimento legal.

Havia um detalhe estranho digno de nota naquelas festividades. O estenógrafo não usava um daqueles teclados que parecem máquinas de somar e sim uma Stenomask, um dispositivo que se ajustava à metade inferior de seu rosto. Eu já os vi antes, mas só em velhos filmes policiais preto e branco, aqueles em que Dan Duryea ou John Payne está sempre rodando num Buick com portinholas nas laterais, parecendo sombrio e fumando um Camel. Olhar para o canto e ver um sujeito que parecia o mais velho piloto de combate do mundo já era esquisito, mas ouvir tudo que você dizia imediatamente repetido num tom abafado e monótono era mais esquisito ainda.

— Obrigado, sr. Noonan. Minha mulher lê todos os seus livros e diz que o senhor é o seu escritor preferido. Eu só queria registrar aquilo. — Durgin riu pesadamente. Por que não? Era um cara gordo. Gosto da maioria dos gordos, são naturezas expansivas para combinar com suas cinturas expansivas. Mas há um subgrupo que eu costumo chamar mentalmente de o Pessoalzinho Gordo Malvado. Nem pense em se meter com o PGM, se puder evitar; eles queimarão a sua casa e estuprarão seu cachorro, se você lhes der a metade de um pretexto e um quarto de oportunidade. Poucos deles medem além de 1,58 metro (a altura de Durgin, segundo eu avaliava), e muitos têm menos de 1,52 metro. Sorriem muito, mas seus olhos não. O Pessoalzinho Gordo Malvado odeia todo mundo. Odeia principalmente o pessoal que pode olhar para baixo por toda a extensão do próprio corpo e ainda ver os pés. Isso me incluía, embora por pouco.

— Por favor, agradeça à sua mulher por mim, sr. Durgin. Tenho certeza de que ela poderia recomendar um para o senhor também.

Durgin deu uma risadinha. Por conta dele, a assistente de Durgin — uma bonita moça que parecia ter saído da escola de direito há uns 17 minutos — deu uma risadinha também. À minha esquerda, Romeo Bissonette também riu. No canto, o piloto de F-111 mais velho do mundo continuava murmurando em sua Stenomask.

— Vou esperar pela versão para a tela grande — disse ele. Seus olhos emitiram um brilho cruel, como se ele soubesse que jamais tinha sido feito um longa-metragem com um de meus livros, apenas um filme-para-TV de Sendo dois, que se classificou mais ou menos da mesma forma que os Campeonatos Nacionais de Forração de Sofá. Eu esperava que já tivéssemos percorrido toda a gama de brincadeiras daquele idiota gorducho.

— Sou o guardião ad litem de Kyra Devore — disse ele. — Sabe o que isso significa, sr. Noonan?

— Acho que sim.

— Significa — continuou Durgin — que fui indicado pelo juiz Rancourt para decidir, se eu puder, o que é melhor para Kyra Devore, caso um julgamento sobre a custódia se tornar necessário. Se isso acontecer, o juiz Rancourt não seria solicitado a basear sua decisão em minhas conclusões, mas em muitos casos é isso que acontece.

Olhou para mim com as mãos dobradas sobre um bloco de notas em branco. A bonita assistente, por outro lado, rabiscava loucamente. Talvez não confiasse no piloto de combate. Durgin parecia esperar uma rodada de aplausos.

— Isso foi uma pergunta, sr. Durgin? — falei, e Romeo Bissonette despachou um leve e experiente chute no meu tornozelo. Não precisei encará-lo para saber que o chute não tinha sido acidental.

Durgin franziu os lábios, que ficaram tão lisos e úmidos que davam a impressão de estarem com gloss. Em sua cabeça lustrosa, duas dúzias de fios de cabelo estavam penteados em arcos pequenos e delicados. Lançou-me um olhar paciente e avaliador, mas por trás dele havia toda a feiura intransigente de um membro do Pessoalzinho Gordo Malvado. As brincadeiras tinham terminado, sem dúvida.

— Não, sr. Noonan, não foi uma pergunta. Simplesmente achei que o senhor gostaria de saber por que lhe tínhamos pedido para deixar seu adorável lago numa manhã tão aprazível. Talvez eu estivesse enganado. Agora, se...

Ouviu-se uma peremptória batida na porta, seguida pela presença de nosso amigo George Footman. Hoje, o Cleveland Casual foi substituído por um uniforme cáqui de xerife-adjunto, juntamente com o cinto Sam Browne e a arma na cintura. Ele se gratificou com uma boa olhada no busto da assistente, exibido numa blusa de seda azul; depois entregou a ela uma pasta de papéis e um gravador de fita cassete, lançando-me um rápido olhar antes de ir embora. Eu me lembro de você, camarada , dizia o olhar. O escritor metido a besta.

Romeo Bissonette inclinou a cabeça em minha direção, usando a lateral da mão para preencher a brecha entre sua boca e minha orelha.

— A fita de Devore — disse ele.

Assenti com a cabeça para mostrar que tinha entendido, depois me virei de novo para Durgin.

— Sr. Noonan... o senhor esteve com Kyra Devore e sua mãe, Mary Devore, não é?

Eu me perguntei como teria ele transformado Mattie em Mary... e então soube, da mesma forma que tinha ficado sabendo sobre o short e a frente única brancos. Mattie era como Ki inicialmente tentou pronunciar Mary.

— Sr. Noonan, estamos mantendo sua atenção?

— Não é necessário ser sarcástico, é? — disse Bissonette. Seu tom era suave, mas Elmer Durgin lançou-lhe um olhar sugerindo que se o PGM alcançasse o objetivo de dominar o mundo, Bissonette estaria a bordo do primeiro vagão de carga partindo para o gulag.

— Desculpe — falei antes que Durgin pudesse responder. — Eu me distraí por um ou dois segundos.

— Ideia para uma nova história? — perguntou Durgin, desfechando seu sorriso reluzente. Parecia um sapo do pântano com blazer. Virou-se para o velho piloto, disse-lhe finalmente para atacar e depois repetiu a pergunta sobre Kyra e Mattie.

Sim, respondi, eu estive com elas.

— Uma vez só ou mais de uma?

— Mais de uma.

— Quantas vezes o senhor esteve com elas?

— Duas vezes.

— Também falou com Mary Devore por telefone?

As perguntas moviam-se numa direção que me deixavam pouco à vontade.

— Sim.

— Quantas vezes?

— Três vezes. — A terceira tinha sido no dia anterior, quando Mattie me perguntou se eu queria fazer um piquenique no parque da cidade com ela e John Storrow depois de meu depoimento. Almoço bem no meio da cidade, diante de Deus e todo mundo... mas com o advogado de Nova York bancando a dama de companhia, que mal podia haver?

— O senhor falou com Kyra Devore ao telefone?

Que pergunta esquisita! Ninguém tinha me preparado para aquilo. Imaginei que, pelo menos em parte, foi por isso que ele me fez a pergunta.

— Sr. Noonan?

— Sim, falei com ela uma vez.

— Pode nos contar a natureza da conversa?

— Bom... — Em dúvida, olhei para Bissonette, mas não veio nenhuma ajuda de lá. Obviamente ele também não sabia. — Mattie...

— Perdão? — Durgin inclinou-se para a frente o máximo que podia. Seus olhos mostraram-se atentos nas bolsas de carne cor-de-rosa. — Mattie?

— Mattie Devore. Mary Devore.

— O senhor a chama de Mattie?

— Sim — respondi, sentindo um impulso alucinado de acrescentar: Na cama! Eu a chamo assim na cama! “Ah, Mattie, não pare, não pare”, grito! — Foi o nome que ela me deu quando nos conhecemos. Eu a conheci...

— Podemos chegar até lá, mas neste momento estou interessado em sua conversa por telefone com Kyra Devore. Quando foi isso?

— Ontem.

— 9 de julho de 1998.

— É.

— Quem deu o telefonema?

— Ma... Mary Devore. — Agora vai perguntar por que ela ligou, pensei, e eu vou dizer que ela queria ter mais uma maratona de sexo, tendo como preliminares darmos um ao outro morangos mergulhados em chocolate enquanto olhávamos retratos de anões deformados e nus.

— Como é que Kyra Devore chegou a falar com o senhor?

— Ela perguntou se podia falar. Eu a ouvi dizendo à mãe que tinha que me contar uma coisa.

— O que é que ela queria contar?

— Que tomou seu primeiro banho de espuma.

— Ela também contou que havia tossido?

Fiquei quieto, encarando-o. Naquele instante, entendi por que as pessoas odeiam advogados, sobretudo quando foram atropelados por um que faz bem o seu trabalho.

— Sr. Noonan, gostaria que eu repetisse a pergunta?

— Não — respondi, imaginando onde ele obteve aquela informação. Teriam esses patifes grampeado o telefone de Mattie? O meu? Os dois? Talvez eu tenha compreendido pela primeira vez num nível visceral o que significa possuir meio bilhão de dólares. Com tanta grana, pode-se grampear um monte de telefones.

— Ela disse que a mãe jogou espuma no rosto dela e ela tossiu. Mas estava...

— Obrigado, sr. Noonan, agora vamos passar a...

— Deixe-o acabar — disse Bissonette. Achei que ele já participara mais dos procedimentos do que tinha esperado, mas ele não parecia se importar. Era um homem de aparência sonolenta, com o rosto melancólico e confiável de um cão de caça.

— O senhor não o está interrogando num tribunal — Bissonette continuou.

— Tenho que pensar no bem-estar da menina — disse Durgin, dando uma impressão ao mesmo tempo pomposa e humilde, uma mistura que combinava tanto quanto calda de chocolate com milho cozido. — É uma responsabilidade que assumo muito seriamente. Se dei a impressão de estar aborrecendo o senhor, peço desculpas, sr. Noonan.

Não me dei ao trabalho de aceitar suas desculpas — isso teria transformado nós dois em impostores.

— Eu só ia dizer que Ki estava rindo quando falou aquilo. Ela disse que ela e a mãe tinham tido uma briga de espuma. Quando a mãe dela voltou ao telefone, também estava rindo.

Durgin abriu a pasta de papéis que Footman tinha lhe trazido e a folheava rapidamente ao falar, como se não estivesse ouvindo uma palavra sequer.

— A mãe... Mattie, como o senhor a chama.

— É. Mattie é como eu a chamo. Em primeiro lugar, como é que o senhor sabe sobre nossa conversa particular ao telefone?

— Não é da sua conta, sr. Noonan. — Escolheu uma única folha de papel e então fechou a pasta. Segurou brevemente a folha de papel, como um médico examinando um raio X, e pude ver que estava coberta de letras datilografadas em espaço um. — Vamos voltar ao seu encontro inicial com Mary e Kyra Devore. Foi no 4 de Julho, não foi?

— Foi.

Durgin balançou a cabeça positivamente.

— Na manhã do 4 de Julho. E o senhor encontrou Kyra Devore primeiro.

— Sim.

— O senhor a encontrou primeiro porque a mãe não estava com ela naquele momento, não é?

— A pergunta está malfeita, sr. Durgin, mas acho que a resposta é sim.

— Fico lisonjeado em ter minha gramática corrigida por um homem que faz parte da lista dos best-sellers — disse Durgin sorrindo. O sorriso sugeria que ele gostaria de me ver sentado ao lado de Romeo Bissonette naquele primeiro vagão de carga partindo para o gulag.

— Conte-me seu encontro, primeiro com Kyra Devore e depois com Mary Devore. Ou Mattie, se preferir.

Contei a história. Quando terminei, Durgin centrou o gravador à sua frente. Tinha as unhas dos dedos tão lustrosas quanto os lábios.

— Sr. Noonan, o senhor poderia ter atropelado Kyra Devore, não podia?

— De modo nenhum. Eu estava a 60 quilômetros por hora, é o limite de velocidade perto do armazém. Eu a vi com tempo mais que suficiente para parar.

— Mas suponhamos que o senhor tivesse vindo do outro lado, indo para o norte em vez de para o sul. Mesmo assim o senhor a teria visto com tempo mais do que suficiente?

Na verdade, a pergunta era mais justa do que algumas das outras. Alguém vindo pelo outro lado teria tido menos tempo para reagir. Mesmo assim...

— Teria — eu disse.

Durgin levantou as sobrancelhas.

— Tem certeza?

— Sim, sr. Durgin. Eu poderia ter que apertar o freio um pouco mais bruscamente, mas...

— A 60 por hora.

— É, a 60 por hora. Já lhe disse, é o limite de velocidade...

— ... naquele trecho específico da rota 68. É, o senhor já me disse. Sua experiência lhe diz que a maioria das pessoas obedece ao limite de velocidade naquela parte da estrada?

— Não tenho passado muito tempo na TR desde 1993, portanto não posso...

— Ora, sr. Noonan, isso não é uma cena de um de seus livros. Apenas responda às minhas perguntas ou ficaremos aqui a manhã inteira.

— Estou fazendo o melhor que posso, sr. Durgin.

Ele suspirou, num fingimento.

— O senhor tem a sua casa em Dark Score Lake desde os anos 1980, não é? E o limite de velocidade em torno do Armazém Lakeview e da Oficina de Dick Brooks, a chamada Aldeia Norte, não mudou desde então, não é?

— É — admiti.

— Voltando à minha pergunta original, portanto: em sua observação, a maioria das pessoas naquele trecho de estrada obedece ao limite de 60 quilômetros por hora?

— Não posso falar da maioria porque nunca fiz uma pesquisa sobre o tráfego, mas acho que muitos não obedecem.

— Gostaria de ouvir Footman, o xerife-adjunto do condado de Castle, declarar qual é o lugar onde há mais multas por excesso de velocidade na TR, sr. Noonan?

— Não — eu disse honestamente.

— Outros veículos passaram enquanto o senhor falava primeiro com Kyra Devore e depois com Mary Devore?

— Sim.

— Quantos?

— Não sei exatamente. Uns dois.

— Poderiam ter sido três?

— Acho que sim.

— Cinco?

— Não, provavelmente não tantos.

— Mas o senhor não sabe exatamente, sabe?

— Não.

— Porque Kyra Devore estava perturbada.

— Na verdade, ela passou por aquilo muito bem para uma...

— Ela chorou na sua presença?

— Bem... chorou.

— A mãe a fez chorar?

— Isso é injusto.

— Na sua opinião tão injusto quanto permitir que uma menina de 3 anos passeie pelo meio de uma rodovia agitada numa manhã de feriado, ou talvez não tão injusto?

— Minha nossa, sessão suspensa — disse suavemente Bissonette. Seu rosto mostrava apreensão.

— Retiro a pergunta — disse Durgin.

— Qual delas? — perguntei.

Ele me olhou com cansaço, como se dissesse que tinha que aguentar imbecis como eu o tempo todo e que já estava acostumado ao comportamento deles.

— Quantos carros passaram do momento em que o senhor botou a criança em segurança até o momento em que o senhor e as Devore se separaram?

Detestei aquele “botou a criança em segurança”, mas mesmo enquanto eu formulava minha resposta o sujeito velho murmurava a pergunta em sua Stenomask. E na verdade era o que eu havia feito. Impossível escapar daquilo.

— Já lhe disse, não sei com certeza.

— Bom, dê um palpite-estimativa.

— Podem ter sido três.

— Inclusive a própria Mary Devore? Dirigindo um... — consultou a papel que tirou da pasta — um Jeep Scout 1982?

Pensei em Ki dizendo Mattie vem depressa e entendi aonde é que Durgin queria chegar agora. E não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.

— Sim, era ela e era um Scout. Não sei de que ano.

— Ela estava dirigindo abaixo do limite de velocidade, dentro do limite ou acima do limite quando passou pelo lugar onde o senhor estava com Kyra no colo?

Ela estava a pelo menos 80 quilômetros, mas eu disse a Durgin que não podia saber com certeza. Ele insistiu para que eu tentasse — Sei que o senhor não tem familiaridade com o nó do carrasco, sr. Noonan, mas tenho certeza de que pode fazer um, se tentar com afinco —, e recusei tão educadamente quanto pude.

Ele pegou o papel de novo.

— Sr. Noonan, ficaria surpreso de saber que duas testemunhas, Richard Brooks Jr., o proprietário da oficina, e Royce Merrill, um carpinteiro aposentado, afirmam que a sra. Devore estava indo a bem mais de 60 quilômetros por hora quando passou pelo lugar onde o senhor estava?

— Não sei. Eu estava preocupado com a menina.

— Ficaria surpreso de saber que Royce Merrill avaliou a velocidade dela em quase 100 quilômetros por hora?

— Isso é ridículo. Quando ela pisasse no freio, teria derrapado lateralmente e aterrissado de cabeça para baixo na vala.

— As marcas de derrapagem medidas pelo adjunto Footman indicam uma velocidade de pelo menos 80 quilômetros por hora — disse Durgin. Não era uma pergunta, mas ele me olhava quase de modo vil, como se me convidasse a lutar um pouco mais e afundar ainda mais em seu poço nojento. Eu não disse nada. Durgin entrelaçou as mãozinhas gorduchas e se debruçou por cima delas em minha direção. O olhar vil tinha desaparecido.

— Sr. Noonan, se o senhor não tivesse carregado Kyra Devore para o acostamento, se não a tivesse resgatado, a própria mãe dela não poderia tê-la atropelado?

Ali estava a pergunta realmente pesada. Como é que eu poderia responder-lhe? Bissonette certamente não estava emitindo nenhum sinal fulgurante de ajuda; parecia estar tentando fazer um contato visual significativo com a bonita assistente. Pensei no livro que Mattie vinha lendo juntamente com Bartleby — Testemunha silenciosa , de Richard North Patterson. Ao contrário do pessoal de Grisham, os advogados de Patterson pareciam sempre saber o que estavam fazendo. Objeção, meritíssimo, isso é induzir a testemunha a uma especulação.

Dei de ombros.

— Desculpe, advogado, não posso dizer, deixei minha bola de cristal em casa.

Novamente vi o brilho cruel nos olhos de Durgin.

— Sr. Noonan, posso lhe assegurar que se não responder a essa pergunta o senhor pode ser convocado, de Malibu ou Fire Island ou de qualquer lugar em que estiver escrevendo sua próxima obra, para responder mais tarde.

Dei de ombros.

— Já lhe disse que estava preocupado com a criança. Não posso lhe dizer com que rapidez a mãe estava indo, ou até que ponto é boa a visão de Royce Merrill, ou se o adjunto Footman chegou a medir a marca certa de derrapagem. Suponhamos que ela estivesse indo a 80. Ou, digamos, mesmo a 90. Ela tem 21 anos, Durgin. Com 21 anos de idade, a capacidade de a pessoa dirigir está no auge. Ela provavelmente teria se desviado da criança, e facilmente.

— Acho que já é suficiente.

— Por quê? Porque não está conseguindo o que queria? — O sapato de Bissonette golpeou meu tornozelo de novo, mas ignorei-o. — Se o senhor está do lado de Kyra, por que parece que está do lado do avô dela?

Um sorrizinho perverso moveu os lábios de Durgin. O tipo que diz Certo, seu espertinho, você quer jogar? Puxou o gravador um pouco mais para perto de si.

— Já que o senhor mencionou o avô de Kyra, sr. Maxwell Devore, de Palm Springs, vamos falar um pouco sobre ele, está bem?

— A bola é sua.

— O senhor falou algum dia com Maxwell Devore?

— Sim.

— Em pessoa ou por telefone?

— Por telefone. — Pensei em acrescentar que ele, de algum modo, tinha se apossado de meu número de telefone, depois lembrei que Mattie também o fez e resolvi fechar a boca quanto ao assunto.

— Quando foi isso?

— Na noite do sábado passado. A noite do 4 de Julho. Ele ligou enquanto eu assistia aos fogos.

— E o assunto da conversa foi a pequena aventura daquela manhã? — Enquanto perguntava, Durgin enfiou a mão no bolso e retirou de lá uma fita cassete. Havia um traço de ostentação em seu gesto; naquele momento ele parecia um mágico de sala de visita mostrando os dois lados de um lenço de seda. E ele estava blefando. Eu não podia ter certeza disso... mas tinha. Devore tinha gravado nossa conversa, tudo bem, aquele zumbido realmente tinha sido alto demais, e em algum nível eu estava consciente do fato mesmo enquanto falava com ele, e pensei que realmente a conversa estivesse no cassete que Durgin introduzia agora no gravador... mas era um blefe.

— Não me lembro — eu disse.

A mão de Durgin imobilizou-se no ato de concluir o encaixe do cassete no painel transparente do gravador. Olhou-me francamente incrédulo... e algo mais. Achei que o algo mais era raiva envolta em surpresa.

— Não se lembra? Ora, sr. Noonan. Certamente os escritores se treinam para lembrar conversas, e essa de que estou falando ocorreu apenas uma semana atrás. Conte o que conversaram.

— Realmente não consigo dizer — falei, numa voz impassível e átona.

Por um momento, Durgin pareceu quase em pânico. Então seus traços se suavizaram. Um dedo de unha lustrosa deslizava para a frente e para trás nas teclas marcadas REW , FF, PLAY e REC.

— Como sr. Devore começou a conversa? — perguntou.

— Ele disse alô — falei suavemente, e houve um curto som abafado por trás da Stenomask. Poderia ter sido o velho limpando a garganta ou um riso reprimido.

Manchas de cor brotaram no rosto de Durgin.

— E depois do alô? O que mais?

— Não me lembro.

— Ele lhe perguntou sobre aquela manhã?

— Não me lembro.

— O senhor não contou a ele que Mary Devore e sua filha estavam juntas, sr. Noonan? Que estavam juntas colhendo flores? Não foi isso que o senhor disse àquele avô preocupado quando ele perguntou sobre o incidente que o distrito inteiro comentava naquele 4 de Julho?

— Ah, meu Deus — disse Bissonette. Ergueu uma das mãos sobre a mesa e tocou a palma com os dedos da outra, fazendo um T.

— Intervalo.

Durgin olhou para ele. Seu rubor estava mais pronunciado agora; os lábios dele foram puxados para trás o suficiente para mostrar a ponta de pequenos dentes cuidadosamente encapados.

— O que é que o senhor quer? — ele quase rosnou, como se Bissonette tivesse simplesmente acabado de passar por ali para lhe contar sobre o estilo de vida mórmon ou talvez rosa-cruz.

— Quero que pare de dirigir este homem, e que toda essa coisa sobre colher flores seja cortada do registro — disse Bissonette.

— Por quê? — retrucou Durgin.

— Porque o senhor está tentando registrar um material que sua testemunha não vai confirmar. Se quiser interromper por algum tempo para que possamos fazer uma reunião por telefone com o juiz Rancourt, ouvir sua opinião...

— Retiro a pergunta — disse Durgin. Ele me olhou com uma espécie de fúria impotente e mal-humorada.

— Sr. Noonan, quer me ajudar a fazer o meu trabalho?

— Quero ajudar Kyra Devore, se puder — eu disse.

— Muito bem. — Ele assentiu com a cabeça como se nenhuma distinção tivesse sido feita. — Então, por favor, me diga o que o senhor e Max Devore conversaram.

— Não consigo lembrar. — Olhei-o diretamente nos olhos. — Talvez o senhor possa refrescar minha lembrança.

Houve um momento de silêncio, como o que às vezes atinge um jogo de pôquer de altas paradas exatamente depois de a última aposta ter sido feita e exatamente antes de os jogadores mostrarem o que têm nas mãos. Mesmo o velho piloto de combate estava quieto, os olhos sem piscar por trás da máscara. Então Durgin empurrou o gravador para o lado com a parte inferior da palma da mão (a postura de sua boca dizia que se sentia a respeito do gravador como eu frequentemente me sentia com relação ao telefone) e voltou para a manhã de 4 de Julho. Não perguntou sobre meu jantar com Mattie e Ki na noite de terça-feira, e não voltou mais à conversa telefônica com Devore — quando eu tinha dito todas aquelas coisas inconvenientes e facilmente refutáveis.

Continuei respondendo a perguntas até as 11h30, mas a entrevista havia terminado realmente quando Durgin empurrou o gravador com a parte inferior da palma da mão. Eu sabia disso, e tenho certeza de que ele também.

 

— Mike! Mike, aqui!

Mattie estava acenando de uma das mesas na área de piquenique atrás do coreto do parque da cidade. Parecia vibrante e feliz. Acenei em resposta e abri caminho naquela direção, avançando por entre criancinhas brincando de pegar, contornando um casal de adolescentes se beijando na grama e me esquivando de um Frisbee pego por um saltitante pastor-alemão com esperteza.

Com ela estava um ruivo alto e magro, mas quase não tive a chance de notá-lo. Mattie foi a meu encontro enquanto eu ainda estava no caminho de cascalho, pôs os braços em torno de mim, me abraçou — e não foi nenhum abraço pudico de bundinha espetada para fora — e então me beijou na boca com força bastante para empurrar meus lábios contra meus dentes. Houve um vigoroso estalo quando ela se desvencilhou, afastando-se e me olhando com indisfarçável encantamento.

— Foi o maior beijo que você já recebeu?

— O maior pelo menos em quatro anos — eu disse. — Está bem assim? — E se ela não desse um passo atrás nos próximos segundos, ia ter uma prova física do quanto eu tinha apreciado o beijo.

— É, acho que está. — Virou-se para o sujeito ruivo com uma espécie de desafio engraçado. — Tudo bem?

— Provavelmente não — disse ele —, mas pelo menos presentemente vocês não estão sob as vistas dos velhinhos da oficina. Mike, sou John Storrow. Prazer em conhecê-lo pessoalmente.

Gostei dele imediatamente, talvez porque me deparasse com ele em seu terno de três peças de Nova York e meticulosamente pondo pratos de papel numa mesa de piquenique, o cabelo vermelho e crespo voando em torno de sua cabeça como algas. Sua pele era clara e sardenta, do tipo que jamais se bronzearia, apenas queima e despela em grandes manchas tipo eczema. Quando apertamos as mãos, a sua parecia ser formada apenas de nós de dedos. Ele tinha pelo menos 30 anos, mas parecia da idade de Mattie, e meu palpite era que se passariam outros cinco anos antes que pudesse conseguir uma bebida sem mostrar a identidade.

— Sente-se — disse ele. — Temos um almoço de cinco pratos, cortesia de Castle Rock Variedades: sanduíches italianos... palitinhos de muçarela... batatinha de alho... Twinkies.

— São só quatro pratos — eu disse.

— Esqueci o prato do refrigerante — disse ele, e puxou três long-necks de cerveja de um saco de papel pardo. — Vamos comer. Mattie toma conta da biblioteca de duas às oito nas sextas e sábados, e seria um momento ruim para ela faltar ao trabalho.

— Como foi o círculo de leitores na noite passada? — perguntei. — Estou vendo que Lindy Briggs não comeu você viva.

Ela riu, entrelaçou as mãos e as sacudiu sobre a cabeça.

— Fui um sucesso! Absolutamente fantástica! Não ousei dizer a eles que tirei todos os meus melhores insights de você...

— Graças a Deus por pequenos favores — disse Storrow. Ele livrava o próprio sanduíche do barbante e do invólucro de papel impermeável, fazendo-o cuidadosamente e com um pouco de dúvida, usando apenas a ponta dos dedos.

— ... então eu disse que tinha olhado em uns dois livros e encontrado algumas indicações neles. Foi maravilhoso. Eu me senti como uma garota de faculdade.

— Ótimo.

— E Bissonette? Onde está ele? — perguntou John Storrow. — Nunca conheci um sujeito chamado Romeo.

— Ele disse que tinha que voltar direto para Lewiston. Lamento.

— Na realidade é melhor que sejamos um grupo pequeno, pelo menos para começar. — Mordeu o sanduíche. Eles vêm enfiados em longas baguetes, e me olhou surpreso. — Não é nada mau.

— Coma mais de três e você está fisgado pelo resto da vida — disse Mattie, e deu uma vigorosa dentada no seu.

— Conte sobre o depoimento — disse John, e enquanto eles comiam, eu falava. Quando terminei, peguei meu sanduíche e coloquei um pouco de ketchup nele. Havia esquecido como um sanduíche italiano podia ser bom: doce, azedo e oleoso ao mesmo tempo. Claro que nada tão saboroso pode ser saudável; isso é um dado. Suponho que se poderia formular um postulado semelhante sobre abraços de corpo inteiro de moças com problemas legais.

— Muito interessante — disse John. — Muito interessante mesmo. — Pegou um palitinho de muçarela de seu pacote manchado de gordura, quebrou-a e olhou com fascinado horror para a matéria branca coagulada em seu interior. — As pessoas aqui comem isso? — perguntou.

— As pessoas em Nova York comem bexiga de peixe — eu disse. — Crua.

— Touché. — Ele mergulhou um pedaço no recipiente de plástico de molho de espaguete (neste contexto, ele é chamado de “mergulho de queijo” no Maine ocidental), depois comeu.

— E então? — perguntei.

— Não é ruim. Mas deviam estar muito mais quentes.

Tinha razão. Comer palitinhos de muçarela frios é um pouco como comer catarro frio, uma observação que achei que guardaria para mim naquela bela sexta-feira em pleno verão.

— Se Durgin tinha a fita, por que não a pôs para tocar? — perguntou Mattie. — Não entendo.

John esticou os braços para fora, estalou os nós dos dedos e olhou para ela com benignidade.

— Provavelmente nunca saberemos ao certo — disse ele.

Ele achava que Devore ia desistir do caso — isso estava expresso em cada linha de sua linguagem corporal e cada inflexão de sua voz. Era esperançoso, mas seria bom que Mattie não se permitisse ficar com esperança demais. John Storrow não era tão jovem quanto parecia, e provavelmente não tão ingênuo também (eu esperava ardentemente isso), mas era jovem. E nem ele nem Mattie conheciam a história do trenó de Scooter Larribee. Ou tinham visto o rosto de Bill Dean ao contá-la.

— Quer ouvir algumas possibilidades?

— Claro — eu disse.

John abaixou o sanduíche, limpou os dedos e começou a destacar os pontos.

— Primeiro, ele deu o telefonema. Conversas gravadas têm um valor altamente dúbio nessas circunstâncias. Segundo, ele não parecia exatamente um santo, não é?

— Não.

— Terceiro, suas mentiras refutam você, Mike, mas na realidade não muito, e não refutam Mattie de todo. E por falar nisso, essa coisa de Mattie jogando espuma no rosto de Kyra, adorei isso. Se é o melhor que eles podem fazer, é bom desistirem imediatamente. Por último, e é onde provavelmente está a verdade, acho que Devore pegou a Doença de Nixon.

— Doença de Nixon? — perguntou Mattie.

— A fita que Durgin tinha não é a única. Não pode ser. E seu sogro está com medo de que, se apresentar uma fita feita por seja lá que sistema que ele conseguiu no Warrington’s, nós podemos intimar a apresentação de todas elas. E ai de quem achar que não vou tentar fazer isso.

Mattie pareceu perturbada.

— O que poderia estar nelas? E se é ruim, por que não destruí-las?

— Talvez ele não possa — eu disse. — Talvez precise delas por outras razões.

— Isso na verdade não tem importância — disse John. — Durgin estava blefando, e é isso que importa. — Bateu com a parte inferior da palma da mão levemente na mesa de piquenique. — Acho que ele vai abandonar o caso. Acho mesmo.

— É muito cedo para começar a pensar assim — eu disse imediatamente, mas vi no rosto de Mattie, mais iluminado que nunca, que o dano já tinha sido feito.

— Conte a ele o que mais andou fazendo — disse Mattie a John. — Depois vou ter que ir para a biblioteca.

— Onde você deixa Kyra enquanto trabalha? — perguntei.

— Com a sra. Cullum. Ela mora a 3 quilômetros de distância na estrada Wasp Hill. Em julho também tem E.B.F. de dez às três. É a Escola Bíblica de Férias. Ki adora, especialmente os cantos e as histórias feitas com a ajuda das letras do alfabeto sobre Noé e Moisés. O ônibus a deixa na Arlene, e eu a pego às 8h45. — Sorriu um pouco tristemente. — Então geralmente ela já está dormindo no sofá.

John discursou pelos dez minutos seguintes mais ou menos. Ele não tinha entrado no caso há muito tempo, mas já tinha colocado um monte de coisas em movimento. Um sujeito na Califórnia estava reunindo fatos sobre Roger Devore e Morris Ridding (“reunindo fatos” soava muito melhor do que “espionando”). John interessava-se especialmente em saber da qualidade das relações entre Roger Devore e o pai, e se Roger estava no registro concernente à sua pequena sobrinha do Maine. John mapeara também uma campanha para saber o máximo possível dos movimentos e atividades de Max Devore desde que tinha voltado para a TR-90. Para isso, tinha o nome de um investigador particular recomendando por Romeo Bissonette, meu advogado-de-aluguel.

Enquanto ele falava, folheando rapidamente um pequeno caderno de notas que havia tirado do bolso interno do paletó, me lembrei do que ele disse sobre dona Justiça em nossa conversa ao telefone: Jogue umas algemas naqueles pulsos largos e fita adesiva em sua boca para combinar com a venda nos olhos, viole-a e arraste-a pela lama. Talvez isso fosse um pouco forte demais para o que estávamos fazendo, mas achei que pelo menos a empurrávamos um pouco. Tive que continuar lembrando a mim mesmo que o pai de Roger o meteu naquela situação, e não Mattie, eu ou John Storrow.

— Teve algum progresso em conseguir uma reunião com Devore e seu principal conselheiro legal? — perguntei.

— Não sei bem. A linha está na água, a oferta na mesa, a bola no campo, escolham sua metáfora preferida, podem misturá-las e combiná-las se quiserem.

— Os ferros estão no fogo — disse Mattie.

— As pedras no tabuleiro — acrescentei.

Nós nos entreolhamos e rimos. John nos encarou, desapontado, depois suspirou, pegou o sanduíche e começou a comer de novo.

— Você tem mesmo que encontrar com Devore na presença do advogado dele? — perguntei.

— Gostaria de ganhar a causa e depois descobrir que Devore pode fazer tudo de novo baseado em comportamento não ético por parte do conselheiro legal de Mary Devore? — retrucou John.

— Nem brinque com isso! — exclamou Mattie.

— Eu não estava brincando — disse John. — Tem que ser com seu advogado, sim. Não acho que isso vai acontecer, não nesta viagem. Nem cheguei a dar uma espiada no velho filho da mãe, e devo confessar que estou morrendo de curiosidade.

— Se basta isso para você ficar mais feliz, apareça atrás da barreira no campo de softbol na próxima terça à noite — disse Mattie. — Ele vai estar naquela fantástica cadeira de rodas, rindo, aplaudindo e sugando o maldito daquele velho oxigênio a cada 15 minutos mais ou menos.

— Não é má ideia — disse John. — Tenho que voltar para Nova York para o fim de semana, vou embora après Osgood, mas talvez apareça na terça. Posso até trazer minha luva. — Ele começou a limpar nosso lixo, e mais uma vez achei que ele parecia afetado e cativante ao mesmo tempo, como Stan Laurel usando um avental. Mattie o liberou daquilo e assumiu a tarefa.

— Ninguém comeu os Twinkies — disse ela, um pouco triste.

— Leve para sua filha — disse John.

— De modo nenhum. Eu não deixo que ela coma coisas assim. Que espécie de mãe você acha que eu sou?

Mattie viu nossas expressões, reparou o que tinha acabado de dizer e deu uma risada. Nós também.

 

O velho Scout de Mattie estava estacionado num dos espaços em declive por trás do memorial de guerra, que em Castle Rock é um soldado da Primeira Guerra Mundial com uma generosa porção de cocô de passarinho no capacete em forma de prato de torta. Um Taurus novo em folha com um decalque da Hertz acima do adesivo de inspeção estava parado perto dele. John atirou sua pasta — tranquilizadoramente magra e não muito ostentosa — no banco de trás.

— Se eu puder voltar na terça, ligo para você — disse ele para Mattie. — Se conseguir um encontro com seu sogro através desse Osgood, eu também ligo.

— Eu compro os sanduíches italianos — disse Mattie.

Ele sorriu, depois agarrou o braço dela com uma das mãos e o meu com a outra. Parecia um ministro recém-ordenado preparando-se para fazer o casamento de seu primeiro casal.

— Vocês dois falem ao telefone se precisarem — disse ele —, lembrando sempre que um ou os dois telefones podem estar grampeados. Encontrem-se no mercado se quiserem. Mike, você pode precisar dar um pulo na biblioteca local e consultar um livro.

— Mas não até que renove seu cartão da biblioteca — disse Mattie, lançando-me um olhar sério.

— Mas nada mais de visitas ao trailer de Mattie. Está entendido?

Eu disse que sim; ela também. John Storrow, porém, não pareceu convencido. Isso me fez pensar se ele estava vendo algo em nossos rostos ou corpos que não devia estar lá.

— Eles estão comprometidos com uma linha de ataque que provavelmente não vai funcionar — falou. — Não podemos nos arriscar a lhes dar a chance de mudar de rumo. Isso significa insinuações sobre vocês dois; e também insinuações sobre Mike e Kyra.

A expressão chocada de Mattie a fez parecer ter 12 anos de idade novamente.

— Mike e Kyra! O que está dizendo?

— Alegações de molestação infantil por gente tão desesperada que vai tentar qualquer coisa.

— Isso é ridículo — disse ela. — E se meu sogro quiser atirar esse tipo de lama...

John assentiu com a cabeça.

— É, seremos obrigados a dar o troco. Haverá cobertura de jornais de costa a costa, talvez até a TV Tribunal, Deus nos abençoe e nos salve. Não queremos nada disso se pudermos evitá-lo. Não é bom para os adultos e não é bom para a criança. Agora ou depois.

Ele se curvou e beijou o rosto de Mattie.

— Lamento por tudo isso — disse ele, e parecia lamentar genuinamente. — Custódia é assim mesmo.

— Acho que você me avisou. Mas... a ideia de que alguém possa fazer uma coisa dessas só porque não há outro jeito de ganhar...

— Deixe eu avisá-la de novo — disse ele. Seu rosto mostrou-se tão soturno quanto seus traços jovens e de boa índole permitiam, provavelmente. — O que temos é um homem muito rico com um caso muito incerto. A combinação pode ser como trabalhar com dinamite velha.

Virei-me para Mattie.

— Ainda está preocupada com Ki? Ainda sente que ela está em perigo?

Vi que pensou em filtrar a resposta — pela simples e velha reserva ianque, provavelmente — e depois decidiu não fazê-lo. Talvez chegando à conclusão de que disfarçar era um luxo com que não poderia arcar.

— Sim. Mas é só uma sensação.

John franziu a testa. Suponho que a ideia de Devore poder recorrer a meios extralegais para obter o que queria tinha ocorrido a ele também.

— Fique de olho nela o máximo que puder — disse. — Respeito a intuição. A sua se baseia em algo concreto?

— Não — respondeu Mattie, e seu rápido olhar na minha direção me pedia para ficar de boca fechada. — Na verdade, não. — Abriu a porta do Scout e jogou o saquinho de papel pardo com os Twinkies lá dentro. Tinha resolvido ficar com eles, afinal de contas. Então se virou para John e para mim com uma expressão próxima da raiva. — De qualquer modo, não tenho certeza de poder seguir esse conselho. Trabalho cinco dias por semana, e, em agosto, quando fazemos a atualização das microfichas, serão seis dias. No momento, Ki almoça na Escola Bíblica de Férias e janta com Arlene Cullum. Eu a vejo pela manhã. O resto do tempo... — Eu sabia o que ia dizer antes que o fizesse; já conhecia sua expressão. — ... ela está na TR.

— Posso ajudá-la a encontrar uma moça que a auxiliasse em troca de casa e comida — eu disse, pensando que isso seria infinitamente mais barato do que John Storrow.

— Não — disseram os dois num uníssono tão perfeito que se entreolharam e riram. Mas mesmo enquanto estava rindo, Mattie parecia tensa e infeliz.

— Não vamos deixar uma trilha de papel para Durgin ou o time da custódia de Devore explorarem — disse John. — Quem me paga é uma coisa. Quem paga uma babá para Mattie é outra.

— Além disso, já recebi o suficiente de você — disse Mattie. — Mais do que me deixa dormir tranquila à noite. Não vou entrar mais nisso só porque venho tendo depressões. — Entrou no Scout e fechou a porta.

Apoiei as mãos na janela aberta do carro. Agora estávamos no mesmo nível, e o contato visual mostrou-se tão forte que foi desconcertante.

— Mattie, eu não tenho mais nada em que gastar. Mesmo.

— Quando se trata dos honorários de John, eu aceito. Porque tem a ver com Ki. — Ela colocou a mão sobre a minha e apertou brevemente. — Mas o outro assunto diz respeito a mim. Está bem?

— Está. Mas precisa dizer à sua baby-sitter e às pessoas que tomam conta dessa coisa de Bíblia que você está envolvida num caso de custódia, um caso potencialmente amargo, e que Kyra não deve ir a parte alguma com ninguém, mesmo alguém que elas conheçam, sem que você concorde.

Ela sorriu.

— Isso já foi feito. Por conselho de John. Fique em contato, Mike. — Levantou minha mão, deu nela um estalado beijo e se afastou no carro.

— O que acha? — perguntei a John enquanto observávamos o Scout soprar óleo a caminho da nova ponte Prouty, que atravessa a rua do Canal e derrama tráfego na rodovia 68.

— Acho fantástico que ela tenha um benfeitor bem calçado e um advogado esperto — disse John. Fez uma pausa e acrescentou: — Mas vou lhe dizer uma coisa, para mim, ela de alguma forma não parece ter sorte. É uma sensação que eu tenho... não sei...

— De que há uma nuvem em volta dela que você não pode ver muito bem.

— Talvez. Talvez seja isso. — Enfiou as mãos através da inquieta massa de cabelo vermelho. — Só sei que é uma coisa triste.

Eu sabia exatamente o que ele queria dizer... só que para mim havia mais. Eu queria ir para a cama com ela, triste ou não, certo ou não. Queria sentir suas mãos em mim, puxando e pressionando, alisando e afagando. Queria poder cheirar sua pele e provar seu cabelo. Queria ter seus lábios em minha orelha, sua respiração arrepiando os cabelinhos finos dentro de seu pavilhão enquanto ela me dizia que eu fizesse o que quisesse, fosse o que fosse.

 

Voltei a Sara Laughs pouco antes das duas horas e relaxei, pensando apenas no meu escritório e na IBM com a bola Courier. Eu estava escrevendo de novo... escrevendo. Mal podia acreditar ainda. Trabalharia (não que isso parecesse muito trabalho depois de quatro anos de inatividade) provavelmente até as seis horas, depois iria até o Village Café para uma das especialidades de Buddy ricas em colesterol.

No momento em que atravessei a soleira da porta, o sino de Bunter começou a tocar com estridência. Parei no saguão, a mão congelada na maçaneta. A casa estava quente e iluminada, nem uma sombra em lugar nenhum, mas os cabelos se arrepiando em meus braços davam uma sensação de meia-noite.

— Quem está aí? — gritei.

O sino parou de tocar. Houve um momento de silêncio e então uma mulher deu um grito estridente. Vinha de toda parte, jorrando do ar ensolarado e carregado de poeira como suor de uma pele quente. Era um grito de ultraje, raiva, dor... mas sobretudo de horror, achei eu. E gritei por minha vez. Não consegui evitá-lo. Tinha ficado assustado no poço escuro da escada, escutando as invisíveis batidas de punho no material isolante, mas aquilo de agora era bem pior.

O grito não parou. Foi-se apagando, como os soluços da criança haviam se apagado; como se a pessoa que gritava estivesse sendo rapidamente carregada por um longo corredor para longe de mim.

Finalmente desapareceu.

Eu me apoiei na estante, a palma da mão pressionando a camiseta, o coração galopando. Arquejava para respirar, e meus músculos tinham aquela esquisita sensação de estiramento com que ficam depois de um grande susto.

Um minuto se passou. As batidas do coração diminuíram gradualmente, e minha respiração com elas. Eu me endireitei, dei um passo cambaleante e, quando minhas pernas me sustentaram, dei mais dois. Fiquei de pé à porta da cozinha, olhando para a sala de estar. Acima da lareira, Bunter, o alce, olhou-me vidrado em resposta. O sino continuava pendurado em seu pescoço e sem badalar. Um quente raio de sol fulgurava a seu lado. O único som que havia era do estúpido relógio do Gato Félix na cozinha.

O pensamento que me atormentava, mesmo assim, era que a mulher que tinha gritado era Jo, que Sara Laughs estava sendo assombrada por minha mulher e sentia dor. Morta ou não, sentia dor.

— Jo? — perguntei calmamente. — Jo, você está...

Os soluços começaram de novo — o som de uma criança aterrorizada. No mesmo momento minha boca e meu nariz mais uma vez se encheram com o gosto de ferro do lago. Pus a mão na garganta, engasgada e assustada, depois me debrucei sobre a pia e cuspi. E como já tinha acontecido antes — em vez de cuspir uma golfada de água, só saiu um pouco de cuspe. A sensação de saturação da água tinha desaparecido como se nunca tivesse ocorrido.

Fiquei onde estava, agarrando a pia e debruçado sobre ela, provavelmente parecendo um bêbado que terminou a festa despejando a animação engarrafada da maior parte da noite. Eu me sentia assim também — atordoado e turvo, muito sobrecarregado para realmente entender o que estava acontecendo.

Finalmente me estiquei novamente, peguei a toalha dobrada sobre a alça da máquina de lavar pratos e limpei o rosto com ela. Havia chá na geladeira, e eu queria um grande copo de chá cheio de gelo, na pior das hipóteses. Estendi a mão para a porta da geladeira e me imobilizei. Os ímãs de frutas e legumes estavam dispostos num círculo novamente. No centro dele, lia-se o seguinte:

socorro estou afogando

Chega, pensei. Vou dar o fora daqui. Imediatamente. Hoje.

Contudo, uma hora depois eu estava em meu sufocante escritório com um copo de chá na mesa ao meu lado (os cubos há muito haviam derretido), vestido apenas de calção de banho e perdido no mundo que estava inventando — aquele em que um detetive particular chamado Andy Drake tentava provar que John Shackleford não era o assassino em série apelidado de Boné de Beisebol.

É assim que prosseguimos: um dia de cada vez, uma refeição de cada vez, uma dor de cada vez, uma respiração de cada vez. Dentistas tratam de um canal de cada vez; construtores de barco fazem uma quilha de cada vez. Se você escreve livros, completa uma página a cada vez. Nós nos afastamos de tudo que conhecemos e tememos. Estudamos catálogos, assistimos aos jogos de futebol, escolhemos Sprint em vez de AT&T. Contamos os pássaros no céu e não nos viramos da janela quando ouvimos passos atrás de nós enquanto algo sobe do saguão; nós dizemos: sim, concordo que nuvens geralmente pareçam outras coisas — peixes, unicórnios e homens a cavalo —, mas são apenas nuvens. Mesmo quando os relâmpagos estouram dentro delas, dizemos que são apenas nuvens e voltamos nossa atenção para a próxima refeição, a próxima dor, a próxima respiração, a próxima página. É assim que prosseguimos.