Saco de Ossos
Capítulo Quatorze
A campainha do telefone — ou mais precisamente o modo como recebi a campainha do telefone — foi tão familiar quanto os estalos da cadeira ou o zumbido de minha velha Selectric da IBM. Parecia vir de bem longe no início, e depois aproximar-se como um trem apitando ao atravessar um cruzamento.
Não havia nenhuma extensão no meu escritório nem no de Jo; o telefone do andar de cima, um velho modelo de discagem rotativa, ficava na mesa no corredor entre eles — que Jo costumava chamar de “terra-de-ninguém”. A temperatura ali devia ser de pelo menos 32 graus, mas o ar parecia fresco em minha pele depois do escritório. Eu estava tão oleoso de suor que parecia uma versão ligeiramente barriguda dos rapazes musculosos que via às vezes quando malhava.
— Alô.
— Mike? Acordei você? Estava dormindo? — Era Mattie, mas diferente da Mattie da noite passada. Esta não se mostrava com medo nem hesitava; parecia tão feliz que quase borbulhava. Era quase certamente a Mattie que atraíra Lance Devore.
— Dormindo, não — eu disse. — Escrevendo um pouco.
— Sem essa! Pensei que tivesse se aposentado.
— Também pensei — falei —, mas talvez eu tenha sido um pouco precipitado. O que é que há? Você parece nas nuvens.
— Acabo de falar ao telefone com John Storrow...
É mesmo? Afinal de contas, quanto tempo eu estive no segundo andar? Olhei para o pulso e vi apenas um círculo pálido. Eram quinze para as sardas e duas peles e meia, como costumávamos dizer quando éramos garotos; meu relógio estava no andar de baixo no quarto norte, provavelmente deitado na poça d’água do meu copo noturno derrubado.
— ... sua idade, e que ele pode intimar o outro filho!
— Ôô — falei. — Eu me perdi. Volte e explique mais devagar.
Ela o fez. Contar as duras notícias não tomou muito tempo (raramente toma): Storrow ia aparecer no dia seguinte. Aterrissaria no aeroporto do condado e se hospedaria no Lookout Rock Hotel, em Castle View. Os dois passariam a maior parte da sexta-feira discutindo o caso.
— Ah, ele encontrou um advogado para você — disse ela. — Para ir a seu depoimento. Acho que é de Lewiston.
Tudo dava a impressão de estar bem, porém, bem mais importante que os fatos em si era Mattie ter recuperado a vontade de lutar. Até aquela manhã (se ainda era manhã; a luz entrando pela janela acima do ar-condicionado quebrado sugeria que, se o fosse, não duraria muito) eu não tinha percebido a que ponto a moça de vestido vermelho de verão e asseados tênis brancos estava sombria. Até que ponto estava profundamente mergulhada na crença de que perderia a filha.
— Isso é ótimo. Estou tão contente, Mattie.
— E foi você quem fez isso. Se estivesse aqui, eu lhe daria o maior beijo que já recebeu na vida.
— Ele disse que você pode ganhar, não é?
— Disse.
— E você acreditou nele.
— Acreditei! — Então sua voz perdeu um pouco o ânimo. — Mas ele não ficou exatamente encantado quando lhe contei que você veio jantar na noite passada.
— Não. Acho que não deve ter ficado.
— Eu disse a ele que comemos no pátio e ele disse que só precisávamos ficar dentro de casa sessenta segundos para que a fofoca começasse.
— Eu diria que ele tem uma opinião insultantemente baixa dos amorosos ianques — eu disse —, mas, é claro, ele é de Nova York.
Ela riu mais do que minha pequena brincadeira justificava, pensei. Por um semi-histérico alívio por agora ter uma dupla de protetores? Porque o assunto inteiro de sexo era agora algo delicado para ela no momento? Melhor não especular.
— Ele não me atormentou demais com o assunto, mas deixou claro que faria isso se repetíssemos a coisa. Mas, quando isso tudo terminar, vou convidar você para uma verdadeira refeição. Você vai ter tudo que gostar, exatamente do modo que gostar.
Tudo que gostar, exatamente do modo que gostar. E ponho a minha mão no fogo, ela estava totalmente inconsciente de que o que dizia poderia ter outro sentido. Fechei os olhos por um momento, sorrindo. Por que não sorrir? Tudo que ela estava dizendo parecia fantástico, especialmente depois que você desanuviava os confins da mente suja de Michael Noonan. Dava a impressão de que poderíamos ter o esperado final de conto de fadas, se mantivéssemos nossa coragem e nosso rumo. E se eu pudesse me impedir de dar uma cantada numa garota jovem o suficiente para ser minha filha... quero dizer, fora de meus sonhos. Se não pudesse, eu provavelmente mereceria o que recebesse. Mas Kyra não. Ela era um enfeite de capô em tudo aquilo, condenada a ir aonde o carro a levasse. Se me ocorressem as ideias erradas, eu teria que me lembrar disso.
— Se o juiz mandar Devore para casa de mãos vazias, levo você ao Renoir Nights em Portland e a convido para provar um rango francês de nove pratos — eu disse. — Convido Storrow também. Banco até esse espião legal que vou encontrar na sexta-feira. Portanto, quem é melhor do que eu, hein?
— Ninguém que eu conheça — disse ela, com ar misterioso. — Vou reembolsá-lo, Mike. Estou por baixo agora, mas não ficarei assim para sempre. Mesmo que leve o resto de minha vida, vou reembolsá-lo.
— Mattie, você não precisa...
— Preciso — disse ela com uma tranquila veemência. — Preciso. E hoje tenho que fazer outra coisa também.
— O quê? — Eu adorava o modo como Mattie falava naquela manhã, tão feliz e livre, como uma prisioneira que tinha acabado de ser perdoada e então libertada da cadeia, mas já estava olhando ansioso para a porta do escritório. Não poderia fazer muito mais hoje, acabaria assado como uma maçã, mas queria pelo menos mais uma página ou duas. Faça o que quiser, as duas mulheres tinham dito no meu sonho. Faça o que quiser.
— Tenho que comprar o grande urso de brinquedo para Kyra que eles têm no Wal-Mart de Castle Rock — disse ela. — Vou dizer a ela que é por ser uma boa menina, já que não posso dizer que é por ela andar no meio da estrada quando você estava vindo do outro lado.
— Mas não um preto — eu disse. As palavras saíram de minha boca antes de eu saber sequer que estavam em minha cabeça.
— Ahn? — Ela pareceu surpresa e incerta.
— Eu disse para me trazer um — falei, mais uma vez as palavras saindo e descendo pelo fio antes mesmo que eu soubesse estarem lá.
— Talvez traga — disse ela, parecendo divertida. Então seu tom ficou sério novamente. — E se eu disse alguma coisa na noite passada que deixou você infeliz, mesmo por um minuto, desculpe. Eu jamais...
— Não se preocupe. Não estou infeliz. Um pouco confuso, só isso. Na verdade, já tinha esquecido sobre o encontro misterioso de Jo. — Uma mentira, mas que me pareceu em boa causa.
— Provavelmente é o melhor. Não vou atrapalhar você. Volte ao trabalho. É o que quer fazer, não é?
Fiquei espantado.
— Por que está dizendo isso?
— Não sei, eu só... — Ela parou. E de repente eu soube de duas coisas: o que ela esteve prestes a dizer e o que não diria. Sonhei com você na noite passada. Sonhei conosco juntos. Íamos fazer amor e um de nós disse “Faça o que quiser”. Ou talvez, não sei, talvez nós dois tenhamos dito isso.
Talvez, às vezes, os fantasmas estejam vivos — mentes e desejos divorciados de seus corpos, impulsos destrancados flutuando invisíveis. Fantasmas do id, espectros de lugares mais profundos.
— Mattie? Ainda está aí?
— Claro, pode apostar. Quer que eu mantenha contato? Ou você vai saber de tudo que precisa de John Storrow?
— Se não mantiver contato, vou ficar aborrecido com você. Muito.
Ela riu.
— Então vou fazer isso. Mas não quando você estiver trabalhando. Até logo, Mike.
E mais uma vez, obrigada. Mesmo.
Eu disse até logo e fiquei por um momento contemplando o receptor do antigo telefone de baquelita depois de ela desligar. Ela me ligaria e me manteria a par das coisas, mas não quando eu estivesse trabalhando. Como é que ia saber do momento? Simplesmente saberia. Como eu soube na noite passada que ela estava mentindo quando disse que Jo e o homem com os remendos nos cotovelos do blazer haviam andado em direção ao estacionamento. Mattie estava usando short branco e uma frente única quando me ligou, hoje não era exigido vestido ou saia porque era quarta-feira e a biblioteca fechava na quarta.
Você não sabe nada disso. Só está inventando.
Mas não estava. Se eu estivesse inventando, provavelmente a teria vestido com algo um pouco mais sugestivo — um espartilho com cinta-liga da Victoria’s Secret, talvez.
Esse pensamento puxou outro. Faça o que quiser, tinham dito elas. Ambas. Faça o que quiser. E aquela frase eu conhecia. Enquanto estava em Key Largo, tinha lido um ensaio sobre pornografia na Atlantic Monthly escrito por uma feminista. Não tinha certeza de quem, apenas que não havia sido Naomi Wolf nem Camille Paglia. A mulher era do tipo conservador, e usou aquela frase. Sally Tisdale, talvez? Ou simplesmente minha cabeça captou distorções de eco de Sara Tidwell? Fosse quem fosse, ela afirmava que “faça o que eu quero” era a base erótica que atraía as mulheres e “faça o q ue você quiser” era a base da pornografia que atraía os homens. As mulheres fantasiam dizer a primeira frase em situações sexuais; os homens fantasiam ter a última frase dita para eles. A autora continuava: quando o sexo na vida real dá errado — às vezes tornando-se violento, ou vergonhoso, ou às vezes apenas malsucedido do ponto de vista da parceira feminina —, a pornografia é frequentemente a cúmplice não indiciada na conspiração. O homem mostra-se propenso a virar raivosamente para a mulher e gritar: “Você queria que eu fizesse isso! Pare de mentir e admita! Você queria que eu fizesse isso!”
A autora afirmava que era isso que os homem esperavam ouvir no quarto: faça o que quiser. Morda-me, sodomize-me, lamba entre meus dedos dos pés, beba vinho no meu umbigo, passe-me uma escova de cabelo e levante o rabo para que eu lhe dê uma surra, não importa. Faça o que quiser. A porta está fechada e nós estamos aqui, mas na verdade só você está aqui. Eu não tenho nenhuma carência, nenhuma necessidade, nenhum tabu. Faça o que quiser nessa sombra, nessa fantasia, nesse fantasma.
Achei uma merda pelo menos cinquenta por cento do que a ensaísta dizia; a pressuposição de que um homem só pode ter verdadeiro prazer sexual transformando a mulher numa espécie de acessório de masturbação diz mais sobre a observadora do que sobre os participantes. A mulher exibia um monte de jargões e uma boa quantidade de espírito, mas por baixo disso estava apenas repetindo o que Somerset Maugham, o velho favorito de Jo, fez Sadie Thompson dizer em Chuva, uma história escrita oitenta anos antes: todos os homens são porcos, porcos sujos e imundos. Mas em regra geral não somos porcos, nem animais, ou pelo menos não até que sejamos empurrados à extremidade final. E se somos empurrados até ela, raramente a questão é sexo; geralmente é território. Já escutei feministas argumentarem que para os homens sexo e território são intercambiáveis, e isso está muito longe da verdade.
Voltei sem ruído ao escritório, abri a porta e atrás de mim o telefone tocou de novo. E ali estava outra sensação familiar voltando para mais uma visita depois de quatro anos: aquela raiva do telefone, o impulso de simplesmente arrancá-lo da parede e atirá-lo pelo aposento. Por que o mundo inteiro tinha que ligar quando eu estava escrevendo? Por que não podiam... bem... me deixar fazer o que eu queria?
Dei um sorriso desconfiado e voltei ao telefone, vendo nele a impressão molhada de minha mão de quando o atendi pela última vez.
— Alô.
— Eu disse para ficar visível enquanto estivesse com ela.
— Bom dia para você também, advogado Storrow.
— Você deve estar em outro fuso horário aí, companheiro. Aqui em Nova York é uma e quinze.
— Jantei com ela — falei. — Do lado de fora. É verdade que li uma história para a garotinha e ajudei-a a ir para cama, mas...
— Imagino que a essa hora metade da cidade pensa que vocês dois estão trepando sem parar, e a outra metade vai pensar isso se eu tiver que representá-la na corte superior. — Mas ele não parecia zangado de fato; achei que dava a impressão de estar tendo um dia feliz.
— Eles obrigam você a dizer quem está pagando por seus serviços? — perguntei. — Quero dizer, na audiência da custódia?
— Não.
— No meu depoimento de sexta-feira?
— Minha nossa, não. Durgin perderia toda a credibilidade como guardião ad litem se enveredasse por essa direção. Além disso, eles têm motivos para ficar longe do ângulo sexual. Estão centrados em Mattie como negligente e talvez corrupta. Provar que mamãe não é uma freira deixou de funcionar por volta da época em que Kramer versus Kramer chegou aos cinemas. E esse não é o único problema que eles têm com o assunto. — Agora parecia positivamente alegre.
— Conte.
— Max Devore tem 85 anos e é divorciado. Divorciado duas vezes. Antes de conceder a custódia a um homem solteiro com a idade dele, uma custódia secundária tem que ser levada em consideração. Na verdade, é a questão isolada mais importante, além das alegações de maus-tratos e negligência apontadas contra a mãe.
— Que alegações são essas? Você sabe?
— Não. Mattie também não, porque são invenções. Ela é um amor, por falar nisso...
— É, sim.
— ... e acho que vai dar uma ótima testemunha. Mal posso esperar para conhecê-la pessoalmente. Enquanto isso, não me desvie do caminho. Estávamos falando sobre custódia secundária, não é?
— É.
— Devore tem uma filha que foi declarada mentalmente incompetente em algum lugar da Califórnia. Em Modesto, acho. Não é uma boa aposta para custódia.
— Não parece mesmo.
— O filho Roger tem... — Ouvi o tênue virar de páginas de um caderno de anotações. — 54 anos. Portanto, também não é exatamente um broto. Mesmo assim, um monte de sujeitos se tornou pai nessa idade hoje em dia; é um admirável mundo novo. Mas Roger é homossexual.
Pensei em Bill Dean dizendo: gosta de rabo. Soube que há um monte disso lá na Califórnia.
— Pensei que tivesse dito que sexo não tinha importância.
— Talvez devesse ter dito que sexo hetero não tem importância. Em certos estados, e a Califórnia é um deles, sexo homo também não tem importância... ou não muita. Mas esse caso não vai ser julgado na Califórnia, e sim no Maine, onde o pessoal é menos esclarecido sobre até que ponto dois homens casados, quer dizer, casados um com o outro, podem criar bem uma garotinha.
— Roger Devore é casado? — Certo. Confesso. Agora eu mesmo sentia um horrorizado contentamento. Envergonhava-me dele. Roger Devore era apenas um sujeito vivendo sua vida, e poderia não ter tido muito ou nada a ver com o atual empreendimento de seu idoso pai, mas mesmo assim me senti contente.
— Ele e um designer de software chamado Morris Ridding se amarraram em 1996 — disse John. — Encontrei a história na primeira varrida de computador. E se o caso acabar na Corte, pretendo tirar disso o máximo que puder. Não sei quando será, neste ponto é impossível prever, mas se eu tiver uma chance de pintar um quadro daquela alegre garotinha de olhos brilhantes crescendo com dois gays idosos que provavelmente passam a maior parte de suas vidas nas salas de bate-papo de computador especulando o que o capitão Kirk e sr. Spock podem ter feito depois que as luzes se apagaram na área dos oficiais... bem, se eu tiver essa chance, vou pegá-la.
— Parece um pouco mesquinho — eu disse. Ouvi-me falando no tom de um homem que quer ser dissuadido ou talvez até que riam dele, mas isso não aconteceu.
— Claro que é mesquinho. É como dar uma guinada para a calçada e derrubar dois inocentes espectadores. Roger Devore e Morris Ridding não lidam com drogas, não traficam menininhos, nem roubam velhas. Mas isso é um caso de custódia, e custódia é ainda mais eficiente em transformar seres humanos em insetos do que divórcio. Este caso não é tão ruim quanto poderia ser, mas é ruim o bastante porque é tão evidente. Max Devore apareceu em sua velha cidade natal por uma única e exclusiva razão: comprar uma criança. Isso me deixa louco.
Sorri, imaginando um advogado que parecia o Hortelino Troca-letras, em pé do lado de fora de uma toca de coelho com o nome DEVORE, segurando uma espingarda.
— Meu recado para Devore vai ser muito simples: o preço da criança simplesmente aumentou. Provavelmente para uma cifra maior do que ele pode pagar.
— Se isso for à Corte... Você já disse isso duas vezes. Acha que há uma chance de Devore simplesmente desistir do caso e ir embora?
— Uma bastante boa, sim. Eu diria uma excelente se ele não fosse velho e acostumado a ter as coisas a seu modo. Há também a questão de até que ponto ele ainda está suficientemente astuto para saber o que é melhor para si mesmo. Vou tentar me encontrar com ele e seu advogado enquanto estiver lá, mas até agora não tenho conseguido passar além da secretária.
— Rogette Whitmore?
— Não, acho que ela está um degrau acima na escada. Ainda não falei com ela. Mas vou falar.
— Tente Richard Osgood ou George Footman — eu disse. — Um deles pode colocá-lo em contato com Devore ou com o advogado-chefe de Devore.
— De qualquer modo, vou querer falar com essa Whitmore. Homens como Devore tendem a ficar cada vez mais dependentes de seus conselheiros próximos quando ficam mais velhos, e ela pode ser uma chave para fazer com que ele desista da coisa. Pode também ser uma dor de cabeça para nós, incentivá-lo a lutar; provavelmente porque ache mesmo que ele possa vencer e porque quer ver as penas voarem. Além disso, pode se casar com ele.
— Casar com ele?
— Por que não? Ele pode tê-la feito assinar um acordo pré-nupcial e isso fortaleceria as chances dele. Eu não posso apresentar isso na corte, da mesma forma que os advogados de Devore não podem tentar descobrir quem contratou o advogado de Mattie.
— John, eu vi a mulher. Ela deve ter uns 70 anos.
— Mas é uma potencial jogadora mulher num caso de custódia envolvendo uma garotinha, e é uma camada entre o velho Devore e o casal gay. Temos que ter isso em mente.
— Tudo bem. — Olhei novamente para a porta do escritório, mas não com tanto anseio. Chega um ponto em que você acabou por aquele dia, quer queira quer não, e achei que tinha chegado a esse ponto. Talvez à noite...
— O advogado que arranjei para você atende pelo nome de Romeo Bissonette. — Fez uma pausa. — Isso lá pode ser um nome verdadeiro?
— Ele é de Lewiston?
— É, como é que você sabe?
— Porque no Maine, especialmente para as bandas de Lewiston, esse nome pode ser verdadeiro. Devo ir falar com ele? — Eu não queria ir a Lewiston. Até lá eram 80 quilômetros por estradas de duas pistas que estariam agora apinhadas de campistas e trailers. Eu queria era nadar e depois tirar uma longa soneca. Uma longa soneca sem sonhos.
— Não é necessário. Ligue e converse um pouco com ele. Na verdade, ele é apenas uma rede de segurança. Fará objeções se o questionamento se desviar do incidente da manhã de 4 de Julho. Sobre aquele incidente conte a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Entendeu?
— Sim.
— Converse com ele antes, depois o encontre na sexta na... espere... está bem aqui... — As páginas do caderno de notas foram viradas novamente. — Encontre com ele no Diner da rota 120 às 9h15. Café. Fale um pouco, travem conhecimento, briguem para pagar a conta, talvez. Eu vou estar com Mattie, obtendo o máximo de informações que puder. Podemos querer contratar um detetive particular. Vou providenciar para que as contas sejam remetidas a seu homem, Goldacre. Ele vai mandá-las para seu agente, e o agente pode...
— Não — eu disse. — Mande Goldacre remetê-las diretamente para cá. Harold é uma mãe judia. Quanto é que isso vai me custar?
— Setenta e cinco mil dólares, no mínimo — disse ele, sem nenhuma hesitação. E também sem qualquer desculpa na voz.
— Não diga isso a Mattie.
— Tudo bem. Você já está se divertindo um pouco com isso, Mike?
— Sabe, acho que estou — eu disse pensativamente.
— Por 75 mil, deveria. — Nós nos despedimos e John desligou.
Enquanto recolocava o telefone no gancho, ocorreu-me que eu tinha vivido mais nos últimos cinco dias do que nos últimos quatro anos.
Dessa vez o telefone não tocou e percorri o caminho de volta ao escritório, mas sabendo que estava definitivamente liquidado por aquele dia. Sentei ante a IBM, apertei duas vezes a tecla que mudava de linha e estava começando a escrever uma anotação para mim mesmo sobre o passo seguinte no final da página em que trabalhava quando o telefone me interrompeu. Que coisinha azeda é o telefone, e como recebemos dele poucas noticiazinhas boas! Mas aquele dia foi uma exceção, e achei que podia terminar o dia com um sorriso. Eu estava trabalhando, afinal de contas — trabalhando. Parte de mim ainda se maravilhava de poder estar sentado ali, respirando com facilidade, coração batendo continuamente no peito, e sem nem o vislumbre de um ataque de ansiedade no meu horizonte de eventos pessoais. Escrevi:
[A SEGUIR: Drake para Raiford. Para no caminho da barraca de verduras para falar com o cara que toma conta dela, origem antiga, precisa de um nome bom e colorido. Chapéu de palha. Camiseta da DisneyWorld. Falam sobre Shackleford.]
Virei o rolo até que a IBM cuspisse a página, coloquei-a no alto do manuscrito e rabisquei uma nota final para mim mesmo: “Ligar para Ted Rosencrief sobre Raiford.” Rosencrief era um marinheiro aposentado que morava em Derry. Eu o empreguei como assistente de pesquisa para diversos livros, usando-o, num projeto, para descobrir como o papel era feito; em outro, para saber quais eram os hábitos migratórios de certos pássaros comuns; e num terceiro, para levantar um pouquinho de informações sobre a arquitetura das salas fúnebres das pirâmides. E quero sempre “um pouquinho”, nunca “a porcaria da coisa toda”. Como escritor, minha divisa sempre foi não me deixe confuso com os fatos. O tipo de ficção Arthur Hailey está fora de meu alcance — e se não consigo lê-la, que dirá escrevê-la. Só quero saber o suficiente para mentir com certo colorido. Rosie sabia disso, e sempre havíamos trabalhado bem juntos.
Desta vez, eu precisava de um pouquinho sobre a Prisão Raiford, da Flórida, e qual era a aparência da casa da morte lá. Também precisava de um pouquinho sobre a psicologia dos serial killers. Achei que Rosie provavelmente ficaria contente de ter notícias minhas... quase tão contente quanto eu de finalmente ter um motivo para ligar para ele.
Peguei as oito páginas em espaço duplo que havia escrito e folheei-as, ainda surpreso com sua existência. O segredo teria sido o tempo todo uma velha máquina de escrever IBM e uma bola de tipo Courier? Sem dúvida era o que parecia.
O que saíra também era surpreendente. Haviam me ocorrido ideias durante minhas férias sabáticas de quatro anos; quanto a isso, nenhum bloqueio de escritor. Uma delas fora realmente fantástica, o tipo da coisa que certamente teria se tornado um romance se eu ainda fosse capaz de escrever romances. De meia dúzia a uma dúzia eram do tipo que eu classificaria de “bastante boas”, significando que poderiam servir quando necessário... ou se crescessem misteriosamente do dia para a noite, como o pé de feijão de João. Às vezes isso acontece com as ideias. Na maior parte eram vislumbres, pequenos “e se” que surgiam e sumiam como estrelas cadentes enquanto eu estava dirigindo, caminhando ou simplesmente deitado na cama à noite, à espera do sono.
O homem da camisa vermelha tinha sido um “e se”. Certo dia vi um homem com uma vistosa camisa vermelha lavando a vitrine da loja JCPenney em Derry — não muito tempo antes de Penney mudar-se para o shopping. Um rapaz e uma moça passaram sob a escada dele... o que dava muita má sorte, segundo a velha superstição. Mas aqueles dois não tinham noção de onde estavam andando — estavam de mãos dadas, bebendo nos olhos um do outro, tão completamente apaixonados como quaisquer dois jovens na história do mundo. O rapaz era alto e, enquanto eu observava, o topo de sua cabeça por um triz não esbarrou nos pés do lavador da vitrine. Se isso tivesse acontecido, todo o trabalho teria que ser refeito.
O incidente transformou-se em história em cinco segundos. Escrever O homem da camisa vermelha levou cinco meses. Só que, na verdade, todo o livro foi feito num segundo “e se”. Imaginei uma colisão em vez de uma quase-colisão. Tudo o mais se seguiu dali. O ato de escrever foi tarefa de secretário.
A ideia em que eu trabalhava no momento não era uma das Ideias Realmente Ótimas de Mike (a voz de Jo escreveu cuidadosamente as letras maiúsculas), mas também não era uma “e se”. Assim como também não se parecia muito com minhas velhas e compridas histórias góticas de suspense; V. C. Andrews com um pau não estava visível em parte alguma dessa vez. Mas a coisa parecia sólida, verdadeira, e naquela manhã saíra tão naturalmente como a respiração.
Andy Drake, investigador particular em Key Largo, tinha 40 anos, era divorciado e pai de uma garota de 3 anos. No início da história, ele se encontrava na casa de Key West de uma mulher chamada Regina Whiting. A sra. Whiting também tinha uma filhinha, com 5 anos. Era casada com um construtor extremamente rico que desconhecia o que Andy Drake sabia: que até 1992 Regina Taylor Whiting tinha sido Tiffany Taylor, uma call-girl de luxo em Miami.
Eu escrevi até aí antes de o telefone começar a tocar. O que eu sabia além desse ponto, o trabalho de secretário que faria nas várias semanas vindouras (presumindo-se que minha recuperada capacidade de trabalhar se mantivesse), era o seguinte:
Certo dia, quando Karen Whiting tinha 3 anos, o telefone tocou enquanto ela e a mãe estavam sentadas na pequena piscina aquecida do pátio. Regina pensou em pedir ao jardineiro para atendê-lo, mas depois decidiu fazê-lo ela mesma — seu empregado habitual, resfriado, não estava, e ela não se sentiu à vontade de pedir um favor a um estranho. Advertindo à filha que ficasse sentadinha imóvel, Regina pulou da piscina para atender ao telefone. Quando Karen levantou a mão para se abrigar dos borrifos provocados pela saída da mãe, deixou cair a boneca na qual vinha dando banho. Ao se curvar para pegá-la, seu cabelo ficou preso num dos poderosos orifícios de sucção da piscina. (Ler sobre um acidente fatal como esse foi o que originalmente desencadeou a história em minha cabeça dois ou três anos antes.)
O jardineiro, alguma não entidade de camisa cáqui enviado por uma empresa de diaristas, viu o que estava acontecendo. Disparou pelo gramado, mergulhou de cabeça na piscininha e arrancou a criança do fundo, deixando cabelo e um bom naco de couro cabeludo tapando o jato ao fazê-lo. Então aplicou respiração artificial na menina até que esta começasse a respirar de novo. (Isso seria uma cena maravilhosa, cheia de suspense, e eu mal podia esperar para escrevê-la.) Ele recusaria todos os oferecimentos de recompensa por parte da mãe histérica e aliviada, embora acabasse por lhe dar um endereço para que o marido dela pudesse entrar em contato com ele. Contudo, tanto o endereço quanto seu nome, John Sanborn, se revelariam falsos.
Dois anos depois a ex-prostituta com a respeitável segunda vida vê o homem que salvou sua filha na primeira página de um jornal de Miami. Identificado como John Shackleford, ele tinha sido preso pelo assassinato-estupro de uma menina de 9 anos. A reportagem acrescenta que ele é suspeito de mais de quarenta assassinatos, sendo que muitas das vítimas eram crianças. “Vocês pegaram o Boné de Beisebol?”, gritaria um dos repórteres numa entrevista coletiva. “John Shackleford é Boné de Beisebol?”
— Bom — eu disse, descendo a escada —, eles sem dúvida pensam que é.
Estava ouvindo barcos demais no lago naquela tarde para pensar na possibilidade de um banho nu. Botei o calção, pendurei uma toalha nos ombros e comecei a descer o caminho — margeado de fulgurantes lanternas de papel em meu sonho — para eliminar o suor dos pesadelos e de meu inesperado trabalho da manhã.
Há 23 degraus feitos com dormentes entre Sara e o lago. Eu tinha descido apenas quatro ou cinco antes da enormidade do que acabara de acontecer me atingisse. Minha boca começou a tremer. As cores das árvores e do céu misturaram-se ante meus olhos marejados. De dentro de mim começou a sair uma espécie de gemido abafado. A força abandonou minhas pernas e sentei num dormente com um baque. Por um momento, achei que a coisa tivesse passado, provavelmente um alarme falso; então comecei a chorar. Enfiei uma ponta da toalha na boca durante o pior da crise, com medo de que o pessoal dos barcos no lago ouvissem os sons saindo de mim, iam pensar que alguém estava sendo assassinado ali.
Chorei de dor pelos anos vazios que tinha passado sem Jo, sem amigos e sem meu trabalho. Chorei de gratidão porque aqueles anos sem trabalho pareciam terminados. Claro que ainda era muito cedo para dizer — uma andorinha não faz verão e oito páginas de texto em estado bruto não ressuscitam uma carreira —, mas pensei que bem poderiam fazê-lo. E chorei de medo também, como fazemos quando uma péssima experiência finalmente acaba ou quando escapamos por pouco de um terrível acidente. Chorei porque percebi de repente que vinha caminhando por uma linha branca desde que Jo tinha morrido, caminhando direto pelo meio da estrada. Por algum milagre, eu fui arrastado para fora do perigo. Não tinha ideia de quem tinha feito aquilo, mas, tudo bem, era uma pergunta que podia esperar por outro dia.
Expulsei tudo aquilo de mim através do choro. Então desci até o lago e investi contra ele com energia. A água fria no meu corpo superaquecido foi mais do que boa: parecia uma ressurreição.