Saco de Ossos
Capítulo Um
Num dia muito quente de agosto de 1994, minha esposa disse que ia à farmácia Rite Aid, de Derry, para comprar o refil do remédio receitado para sua sinusite — é uma coisa que se pode comprar no balcão atualmente, penso eu. Como já tinha parado de escrever naquele dia, eu me ofereci para buscar o remédio. Ela agradeceu, mas, como também queria comprar peixe no supermercado ao lado, seriam dois coelhos com uma cajadada só. Soprou-me um beijo que havia depositado na palma da mão e saiu. Quando a vi novamente foi na TV. É assim que identificamos os mortos aqui em Derry — nada de caminhar por um corredor subterrâneo com azulejos verdes nas paredes e compridas lâmpadas fluorescentes lá em cima, nada de um corpo nu deslizando sobre rolamentos para fora de uma gaveta fria; simplesmente se entra numa sala com a placa PRIVATIVO, olha-se numa tela de TV e se diz sim ou não.
A Rite Aid e o Shopwell ficam a menos de 1,5 quilômetro da nossa casa, num pequeno centro comercial onde há também uma locadora, um sebo chamado Spread It Around (eles negociam rapidamente velhas edições em brochura dos meus livros), uma Radio Shack e uma Fast Foto. Fica na Up-Mile Hill, no cruzamento da Witcham com a Jackson.
Ela estacionou em frente à Blockbuster, entrou na farmácia e foi atendida por Joe Wyzer, o farmacêutico naquela época; desde então ele se mudou para a Rite Aid de Bangor. No caixa, ela pegou um daqueles pequenos chocolates recheados de marshmallow, com o formato de um ratinho. Encontrei-o depois em sua bolsa. Eu mesmo o desembrulhei e o comi, sentado à mesa da cozinha, com o conteúdo de sua bolsa vermelha espalhado na minha frente. Foi como receber a comunhão. Quando a sensação desapareceu, exceto pelo gosto do chocolate na minha língua e na minha garganta, irrompi em lágrimas. Fiquei ali ante a confusão de Kleenex, maquiagem, chaves e uma embalagem meio vazia de Certs, e chorei com as mãos sobre os olhos, como uma criança.
O inalador para sinusite estava na sacola da Rite Aid. Tinha custado 12,18 dólares. Havia algo mais na sacola — um item que custou 22,50 dólares. Eu o olhei por muito tempo, vendo-o mas sem entendê-lo. Fiquei surpreso e talvez até atordoado, mas a ideia de que Johanna Arlen Noonan pudesse estar levando outra vida, uma da qual eu não tinha qualquer conhecimento, jamais me ocorreu. Não naquela época.
Jo passou pelo caixa e saiu novamente para o sol radiante e escaldante, trocando os óculos por outros, de sol mas também de grau. Exatamente quando deixava a proteção da pequena marquise da farmácia (acho que aqui estou imaginando, invadindo um pouco o campo do romancista, mas não muito; apenas alguns centímetros, pode acreditar nisso), houve aquele detestável ruído de carro cantando pneu, significando que aconteceria um acidente ou algo muito próximo disso.
Dessa vez aconteceu — o tipo de acidente que parecia ocorrer naquele estúpido cruzamento em forma de X pelo menos uma vez por semana. Um Toyota 1989 deixava o estacionamento do shopping e virava à esquerda para a rua Jackson. Ao volante estava a sra. Esther Easterling, de Barrett’s Orchards, acompanhada por sua amiga, a sra. Irene Deorsey, também de Barrett’s Orchards, que tinha passado pela videolocadora sem encontrar nada que quisesse alugar. Violência demais, disse Irene. Ambas eram viúvas de fumantes.
Dificilmente Esther não teria visto o caminhão basculante de obras públicas cor de laranja descendo a ladeira; embora o negasse à polícia, ao jornal e a mim; quando conversamos, uns dois meses depois, achei mais provável que tenha apenas esquecido de olhar. Como minha própria mãe (outra viúva de fumante) costumava dizer: “As duas doenças mais comuns nos idosos são artrite e esquecimento. E eles não podem ser responsabilizados nem por uma nem por outra.”
Dirigindo o caminhão de obras públicas estava William Fraker, de Old Cape. O sr. Fraker tinha 38 anos no dia da morte de minha esposa, dirigia sem camisa e pensava no quanto precisava de uma chuveirada fria e de uma cerveja gelada, não necessariamente nessa ordem. Ele e outros três homens passaram oito horas despejando asfalto para emendar a extensão da avenida Harris, perto do aeroporto. Um trabalho quente num dia quente, e Bill Fraker disse que sim, podia estar indo um pouco rápido demais — talvez a 60 quilômetros por hora numa zona de 50. Ansiava por chegar à garagem, entregar o caminhão e voltar ao volante de sua própria F-150 com ar-condicionado. Além disso, os freios do caminhão, apesar de bons o bastante para passar pela inspeção, estavam longe de sua melhor forma. Fraker pisou neles assim que viu o Toyota atravessar à sua frente (apertou a buzina também), mas foi tarde demais. Ouviu os pneus guincharem — os seus e os de Esther, enquanto ela percebia tardiamente o perigo — e viu o rosto dela por apenas um instante.
— De certo modo aquilo foi o pior — disse-me ele quando estávamos sentados em sua varanda, tomando cerveja. Era outubro então, e embora o sol quente se derramasse em nossos rostos, usávamos suéteres. — O senhor sabe a que altura a gente fica nesses caminhões basculantes?
Assenti com a cabeça.
— Bom, ela estava olhando para cima para me ver — esticando o pescoço, como se pode dizer — e o sol batia em cheio em seu rosto. Notei como era velha. Lembro-me de pensar: “Puta que pariu, ela vai se quebrar como vidro se eu não conseguir parar.” Mas os velhos geralmente são duros, na maioria dos casos. Podem nos surpreender. Quer dizer, olhe só o resultado, as duas velhotas ainda estão vivas, e sua esposa...
Então parou de falar, o rosto invadido por um vermelho vivo que o fazia parecer um garoto de quem as garotas tivessem rido no pátio do colégio por notarem que sua braguilha estava aberta. Era cômico, mas, se eu sorrisse, apenas o deixaria confuso.
— Sr. Noonan, desculpe. Minha língua foi mais rápida do que eu.
— Tudo bem — respondi. — O pior já passou, de qualquer modo. — Era uma mentira, mas nos colocou nos trilhos novamente.
— Seja como for — disse ele —, batemos. Houve um barulho alto e um som de alguma coisa sendo triturada quando a lateral do carro, do lado do motorista, afundou. E de vidro quebrado também. Fui jogado contra o volante com tanta força que não consegui respirar sem dor por uma semana ou mais, e fiquei com um grande hematoma bem aqui. — Ele desenhou um arco no peito logo abaixo das clavículas. — Bati a cabeça no para-brisa com força suficiente para quebrar o vidro, mas só arranjei um pequeno calombo roxo... nenhum sangramento nem dor de cabeça. Minha esposa diz que tenho uma cabeça dura de verdade. Vi quando a mulher dirigindo o Toyota, sra. Easterling, foi atirada por sobre o console entre os bancos da frente. Então, finalmente, paramos, emaranhados no meio da rua, e saí para ver o quanto tinham se machucado. Vou te dizer, achei que ia encontrá-las mortas.
Nenhuma das duas estava morta, nenhuma das duas estava sequer inconsciente, embora a sra. Easterling tivesse quebrado três costelas e deslocado o quadril. A sra. Deorsey, que estava a um banco de distância do impacto, sofreu uma concussão ao bater a cabeça na janela. Isso foi tudo; ela foi “atendida no Home Hospital e liberada logo em seguida”, como o Derry News sempre dizia nesses casos.
Minha esposa, quando solteira Johanna Arlen de Malden, de Massachusetts, viu tudo aquilo de onde estava, do lado de fora da farmácia, com a bolsa pendurada no ombro e a sacola com o remédio numa das mãos. Como Bill Fraker, deve ter pensado que as ocupantes do Toyota estavam mortas ou seriamente feridas. O som da colisão, um estrondo oco e categórico, rolou pelo ar quente da tarde como uma bola de boliche pela raia. O ruído de vidro quebrando o acompanhou como se fossem gumes irregulares se chocando. Os dois veículos ficaram violentamente entrelaçados no meio da rua Jackson, o caminhão cor de laranja, sujo, pairava sobre o carro importado azul-claro como um pai intimidador sobre uma criança encolhida.
Johanna disparou pelo estacionamento em direção à rua. À sua volta, outros faziam o mesmo. Uma delas, a srta. Jill Dunbarry, olhava a vitrine na Radio Shack quando o acidente ocorreu. Disse que acreditava lembrar-se de passar correndo por Johanna — pelo menos estava bastante segura de se lembrar de alguém com calças largas amarelas —, mas não podia ter certeza. Naquele momento, a sra. Easterling gritava que estava ferida, as duas estavam feridas, ninguém a ajudaria e a sua amiga Irene?
A meio caminho do estacionamento, perto do pequeno quiosque de jornais, minha mulher caiu. A bolsa permanecia em seu ombro, mas a sacola de remédio tinha escorregado de sua mão e o inalador ficou um pouco para fora. O outro artigo ficou no lugar.
Ninguém a notou deitada ali, junto ao quiosque de jornais; todos focalizavam os veículos emaranhados, as mulheres gritando, a poça de água e anticongelante do radiador quebrado do caminhão de obras públicas que se espalhava. (“É gasolina!”, gritou o balconista da Fast Foto para quem quisesse ouvir. “É gasolina, cuidado para ela não explodir, pessoal!”) Imagino que um ou dois dos supostos salvadores possam ter pulado por cima dela, talvez achando que tivesse desmaiado. Tal raciocínio num dia em que a temperatura chegava a 35 graus não seria de espantar.
Mais ou menos duas dúzias de pessoas do shopping se aglomeraram em torno do acidente; outras cinquenta ou mais saíram correndo do Strawford Park, onde acontecia um jogo de beisebol. Imagino que muitas coisas que se espera ouvir em tais situações foram ditas, algumas mais de uma vez. Numa confusão. Alguém estendendo a mão pelo buraco disforme que tinha sido a janela do lado do motorista para dar um tapinha tranquilizador na velha mão trêmula de Esther. Pessoas imediatamente abrindo caminho para Joe Wyzer; em tais momentos, qualquer um que use um jaleco branco automaticamente se torna a bela do baile. A distância, o som de uma sirene de ambulância erguendo-se como ar rarefeito sobre um incinerador.
Durante todo esse tempo, minha mulher estava no estacionamento, caída e despercebida, com a bolsa ainda pendurada no ombro (dentro dela, ainda embrulhado no papel laminado, o ratinho de chocolate recheado com marshmallow que não foi comido) e a sacola branca de remédio perto da mão estendida. Foi Joe Wyzer, ao voltar correndo à farmácia a fim de pegar uma compressa para a cabeça de Irene Deorsey, que a enxergou. Reconheceu-a, embora ela estivesse com o rosto para baixo. Reconheceu-a pelo cabelo ruivo, a blusa branca e a calça larga amarela. Reconheceu-a porque a atendera havia menos de 15 minutos.
— Sra. Noonan? — disse ele, esquecendo-se completamente da compressa para a desnorteada, mas aparentemente não muito machucada, Irene Deorsey. — Sra. Noonan, a senhora está bem? — Já sabendo que não estava (ou assim suspeito; talvez eu esteja errado).
Então ele a virou. Teve que usar as duas mãos para fazê-lo, e mesmo assim foi obrigado a se esforçar, ajoelhando-se, empurrando-a e erguendo-a ali no estacionamento, com o calor impiedoso vindo de cima e emanando também do asfalto. Os mortos engordam, me parece; tanto na carne quanto na mente, ficam mais pesados.
Havia marcas vermelhas no rosto de Jo. Quando a identifiquei, pude vê-las nitidamente mesmo no monitor do vídeo. Comecei a perguntar ao médico-legista assistente o que eram, mas soube logo. Final de julho, chão quente — elementar, meu caro Watson. Minha mulher morreu pegando um bronzeado.
Wyzer se levantou, viu que a ambulância tinha chegado e correu em sua direção. Abriu caminho pela multidão e agarrou um dos atendentes quando este deixou o volante.
— Tem uma mulher ali — disse Wyzer, apontando para o estacionamento.
— Cara, temos duas mulheres lá e um homem também — disse o atendente. Ele tentou se soltar e ir embora, mas Wyzer insistiu.
— Eles não importam agora — disse. — De modo geral estão bem. Aquela mulher ali não está.
A mulher ali estava morta, e tenho quase certeza de que Joe Wyzer sabia disso... mas tinha que obedecer às suas prioridades. Vamos lhe conceder o mérito. E foi convincente o bastante para que dois paramédicos se afastassem da confusão do caminhão com o Toyota, apesar dos gritos de dor de Esther Easterling e do coro de rumores de protesto.
Quando chegou até minha esposa, um dos paramédicos confirmou rapidamente o que Joe Wyzer já suspeitava.
— Puta que pariu — disse o outro. — O que aconteceu com ela?
— Provavelmente coração — disse o primeiro. — Ficou agitada e ele simplesmente explodiu.
Mas não foi o coração. A autópsia revelou um aneurisma cerebral com o qual poderia estar vivendo sem saber havia cinco anos. Quando disparou pelo estacionamento em direção ao acidente, aquele vaso frágil em seu córtex cerebral estourou como um pneu, afogando de sangue seus centros de controle e matando-a. A morte provavelmente não foi instantânea, disse-me o legista assistente, mas mesmo assim ocorreu de forma bastante rápida... e ela não teria sofrido. Apenas uma névoa grande e negra, e toda sensação e todo pensamento desapareceram antes de ela atingir o chão.
— Posso ajudá-lo de alguma forma, sr. Noonan? — perguntou o legista assistente, afastando-me suavemente do rosto imóvel e dos olhos fechados no monitor de vídeo.
— O senhor quer fazer perguntas? Eu responderei se puder.
— Só uma — disse. E lhe contei o que ela tinha comprado na farmácia pouco antes de morrer. Então fiz minha pergunta.
Os dias que levaram ao funeral e o próprio funeral são como um sonho em minha memória — a lembrança mais clara que tenho é de comer o ratinho de chocolate de Jo e chorar... chorar principalmente, eu acho, porque sabia que o sabor dele logo desapareceria. Tive outra crise de choro alguns dias depois que a enterramos, e vou falar resumidamente sobre isso.
Eu estava contente com a chegada da família de Jo, especialmente com a de seu irmão mais velho, Frank. Foi Frank Arlen — de 50 anos, bochechas vermelhas, corpulento e com um viçoso cabelo escuro — quem tomou as providências... quem, na realidade, acabou pechinchando com o agente funerário.
— Não posso acreditar que tenha feito isso — eu disse depois, enquanto sentávamos num reservado do Jack’s Pub, tomando cerveja.
— Ele estava tentando tirar vantagem de você, Mikey — disse ele. — Detesto sujeitos assim. — Colocou a mão no bolso de trás, puxou um lenço e, distraído, enxugou o rosto. Ele não desmoronou — nenhum dos Arlen desmoronou, pelo menos não quando eu estava com eles —, mas chorou o dia inteiro; parecia alguém com uma forte conjuntivite.
No total eram seis irmãos Arlen; Jo era a mais nova e a única mulher, a queridinha dos irmãos mais velhos. Suspeito que se eu tivesse tido algo a ver com a morte dela os cinco teriam me dilacerado com as próprias mãos. Naquela situação, em vez disso, formaram um escudo protetor à minha volta, e foi bom. Acho que eu poderia ter me virado com tudo aquilo sem eles, mas não sei como. Eu tinha 36 anos, lembre-se. Não se espera ter que enterrar a esposa quando se tem 36 anos e ela é apenas dois anos mais nova. Morte é a última coisa que passa pela nossa cabeça.
— Se um cara é flagrado tirando o rádio do seu carro, chamam isso de roubo e o põem na cadeia — disse Frank. Os Arlen tinham vindo de Massachusetts, e eu ainda podia ouvir o sotaque de Malden na voz de Frank: carro era caárr, chamam era chaáma. — Se o mesmo cara está tentando vender um caixão de 3 mil dólares por 4.500 para um marido sofrendo, chamam isso de negócio e pedem ao cara para falar no almoço do Rotary Club. Babaca ganancioso, dei a ele o que merecia, não é?
— É. Deu, sim.
— Você está bem, Mikey?
— Estou.
— Bem mesmo?
— Que merda, como é que vou saber? — eu disse, num tom alto o suficiente para que algumas cabeças do reservado ao lado se virassem para nós. — Ela estava grávida.
Seu rosto ficou imóvel.
— O quê?
Lutei para manter minha voz baixa.
— Grávida. Seis ou sete semanas, segundo o... você sabe, a autópsia. Você sabia? Ela te contou?
— Não! Deus do céu, não! — Mas havia uma expressão engraçada em seu rosto, como se Jo lhe tivesse contado algo. — Sabia que estavam tentando, claro... ela me disse que sua contagem de espermatozoide era baixa e que poderia levar algum tempo, mas o médico achava que vocês provavelmente... mais cedo ou mais tarde provavelmente... — Diminuiu de intensidade, olhando para as mãos. — Eles podem saber isso, hein? Checam isso?
— Podem saber. Quanto a checar, não sei se fazem isso automaticamente. Eu pedi.
— Por quê?
— Ela não comprou apenas remédio de nariz antes de morrer. Comprou também um daqueles kits para teste de gravidez em casa.
— Você não tinha nenhuma ideia? Nenhuma pista?
Balancei a cabeça.
Ele estendeu a mão por cima da mesa e apertou meu ombro.
— Ela queria ter certeza, só isso. Você sabe, não é?
Comprar o refil do remédio para sinusite e peixe , disse ela. Com a aparência de sempre. Uma mulher que sai para fazer duas coisas. Tentávamos ter um filho havia oito anos, mas ela estava com a aparência de sempre.
— Claro — disse, dando um tapinha na mão de Frank. — Claro, rapaz. Eu sei.
Foram os Arlen — liderados por Frank — que organizaram o velório de Johanna. Como escritor da família, eu estava encarregado do obituário. Meu irmão veio da Virgínia com minha mãe e minha tia, e permitiram que tomasse conta do livro de convidados no velório. Quase completamente gagá aos 66 anos, embora os médicos se recusassem a admitir que ela estava com Alzheimer, minha mãe morava em Memphis com a irmã dois anos mais jovem que ela e apenas ligeiramente menos vacilante. Foram encarregadas de cortar o bolo e as tortas na recepção do funeral.
Todo o resto foi organizado pelos Arlen, das horas de velório aos componentes da cerimônia do funeral. Frank e Victor, o segundo irmão mais novo, fizeram uma breve homenagem. O pai de Jo ofereceu uma prece pela alma da filha. E, no final, Pete Breedlove, o garoto que cortava nossa grama no verão e varria o pátio no outono, levou todos às lágrimas cantando “Blessed Assurance”, que Frank disse ter sido o hino favorito de Jo quando menina. Como Frank encontrou Pete e o persuadiu a cantar no funeral é algo que jamais descobri.
Atravessamos aquilo tudo — o velório da tarde e da noite de terça, o funeral da manhã de quarta, depois a oração no cemitério de Fairlawn. Lembro-me de pensar, sobretudo, em como estava quente, como me sentia perdido sem ter Jo para conversar, e em como gostaria de ter comprado um novo par de sapatos. Se estivesse ali, Jo teria me atormentado mortalmente sobre os que eu estava usando.
Mais tarde, conversei com meu irmão Sid e lhe disse que tínhamos que fazer algo a respeito de mamãe e de tia Francine antes que as duas desaparecessem completamente na zona do crepúsculo. Eram jovens demais para uma casa de repouso. O que é que Sid aconselhava?
Sid recomendou algo, mas não faço ideia do que foi. Lembro que concordei, mas não sei com o quê. Mais tarde naquele dia, Siddy, minha mãe e tia Francine entraram novamente no banco de trás do carro que meu irmão alugou para a viagem até Boston, onde passariam a noite e então pegariam o trem da Southern Crescent no dia seguinte. Meu irmão fica bastante feliz de acompanhar as velhinhas, mas não anda de avião, mesmo que eu pague as passagens. Alega que, se o motor quebrar, não há acostamentos no céu.
A maioria dos Arlen partiu no dia seguinte. Mais uma vez estava um calor infernal, o sol ofuscante vindo de um céu branco e opaco acachapava tudo como bronze derretido. Ficaram de pé em frente à nossa casa — que se tornara apenas minha então —, com três táxis alinhados junto ao meio-fio por trás deles, grandes e desajeitados, abraçando-se entre si em meio à confusão de sacolas e despedindo-se naquele nebuloso sotaque de Massachusetts.
Frank ficou mais um dia. Colhemos um grande ramo de flores atrás da casa — não aquelas coisas de estufa de cheiro medonho cujo perfume sempre associo à morte e música de órgão, e sim flores verdadeiras, do tipo que Jo mais gostava — e as colocamos em duas latas vazias de café que encontrei na despensa dos fundos. Fomos para Fairlawn e as colocamos no túmulo novo. Depois simplesmente ficamos ali por um tempo, sob o sol escaldante.
— Jo sempre foi a coisa mais doce da minha vida — disse Frank finalmente, numa estranha voz abafada. — Nós tomávamos conta dela quando éramos garotos. Nós, rapazes. Ninguém se metia com ela, posso te dizer. Qualquer um que tentasse tinha o que merecia.
— Ela me contou várias histórias.
— Boas?
— É, boas mesmo.
— Vou sentir demais a falta dela.
— Eu também — falei. — Frank... escute... sei que você era seu irmão favorito. Ela nunca ligou para você, talvez para dizer que não ficou menstruada naquele mês, ou que se sentia enjoada pela manhã? Pode dizer. Não vou ficar chateado.
— Mas ela não ligou. Palavra de honra. Ela estava enjoada de manhã?
— Não que eu tivesse notado. — E era isso mesmo. Eu não notei nada. Claro que eu estava escrevendo, e quando escrevo praticamente entro em transe. Mas ela sabia quando eu estava num desses transes. Poderia ter ido ao meu encontro e me sacudido até eu acordar. Por que não o fez? Por que esconderia a boa notícia? Não querer me contar até ter certeza era plausível... mas, de certo modo, não parecia com Jo.
— Era menino ou menina? — perguntou ele.
— Menina.
Havíamos escolhido os nomes e esperado durante a maior parte de nosso casamento. Um menino seria Andrew. Nossa filha seria Kia. Kia Jane Noonan.
Frank, divorciado havia seis anos e sozinho, ficou comigo. Ao voltarmos para casa, ele disse:
— Eu me preocupo com você, Mikey. Você não tem uma família em que se apoiar numa hora dessas, e a que tem está distante.
— Vou ficar bem.
Ele concordou com a cabeça.
— É isso que nós dizemos, de qualquer modo, não é?
— Nós?
— Homens. “Vou ficar bem.” E quando não ficamos, tentamos fazer com que ninguém saiba. — Ele olhou para mim, os olhos ainda marejados, o lenço na mão grande e bronzeada. — Se você não ficar bem, Mikey, e não quiser chamar seu irmão, vi a maneira como você olhou para ele, me deixe ser seu irmão. Se não por sua causa, pelo menos por Jo.
— Tudo bem — eu disse, respeitando o oferecimento e grato por ele, sabendo também que não faria tal coisa. Não peço ajuda às pessoas. Não é pelo modo como fui criado, pelo menos acho que não; é pelo modo como fui feito. Johanna disse certa vez que se eu estivesse me afogando em Dark Score Lake, onde temos uma casa de veraneio, eu ia preferir morrer silenciosamente a 15 metros da praia pública do que gritar por socorro. Não é uma questão de amor ou afeição. Consigo dar os dois e também recebê-los. Sinto dor, como qualquer outra pessoa. Preciso tocar e ser tocado. Mas, se alguém me pergunta “Você está bem?”, não consigo dizer não. Não consigo dizer “ajude-me”.
Umas duas horas depois Frank partiu para o extremo sul do estado. Quando abriu a porta do carro, fiquei comovido de ver que a gravação que ouvia era de um dos meus livros. Ele me abraçou, depois me surpreendeu com um beijo na boca, um duro beijo estalado.
— Se precisar conversar, ligue — disse ele. — E se precisar estar com alguém, simplesmente venha.
Concordei com a cabeça.
— E tenha cuidado.
Aquilo me espantou. A combinação de calor e dor tinha me feito sentir como se estivesse vivendo num sonho nos últimos dias, mas aquilo conseguiu penetrar.
— Cuidado com quê?
— Não sei — disse ele. — Não sei, Mikey. — Então entrou no carro, ele era tão grande e o carro tão pequeno que parecia vesti-lo, e foi embora. O sol estava se pondo. Sabe quando o sol fica no final de um dia quente de agosto, todo laranja e de algum modo achatado, como se uma mão invisível o apertasse de cima para baixo e a qualquer momento ele pudesse estourar como um mosquito superalimentado e se espalhar por todo o horizonte? Estava assim. No leste, já escuro, trovões ribombavam. Mas não houve chuva naquela noite, apenas uma escuridão que desceu tão espessa e sufocante como um cobertor. Mesmo assim, me instalei em frente ao processador de texto e escrevi por mais ou menos uma hora. Estava tudo muito bem, eu me lembro. E mesmo quando não está bem, você sabe, ajuda a passar o tempo.
Minha segunda crise de choro surgiu três ou quatro dias depois do funeral. Aquela sensação de estar num sonho continuava — eu andava, falava, atendia ao telefone, trabalhava em meu livro, que estava cerca de oitenta por cento concluído quando Jo morreu —, mas durante todo o tempo tinha a clara sensação de desconexão, uma sensação de que tudo estava ocorrendo a uma distância do meu verdadeiro eu, que eu estava mais ou menos me comunicando com ele por telefone.
Denise Breedlove, mãe de Peter, ligou e perguntou se eu não gostaria que ela trouxesse duas amigas num dia da semana seguinte e que fizesse com elas uma boa faxina na grande e velha construção eduardiana, onde agora eu morava sozinho — rolando nela como a última ervilha numa lata gigante. Elas o fariam até por cem dólares divididos entre as três, disse, e principalmente porque não era bom para mim ficar sem a faxina. Depois de uma morte tem que haver uma limpeza, disse, mesmo que a morte não tenha acontecido na casa.
Respondi que era uma ótima ideia, mas que pagaria cem dólares para cada uma por seis horas de trabalho. No final de seis horas, queria o trabalho feito. E se não estivesse, eu disse, de qualquer maneira estaria feito.
— Sr. Noonan, é dinheiro demais — disse ela.
— Talvez sim, talvez não, mas é o que estou pagando. A senhora faz o trabalho?
Ela disse que sim, é claro que faria.
Talvez previsivelmente, eu me vi percorrendo a casa na noite antes de elas chegarem, fazendo uma inspeção pré-faxina. Acho que não queria as mulheres (duas das quais totalmente desconhecidas para mim) encontrando algo que me deixasse constrangido, ou a elas: talvez calcinhas de seda de Johanna atrás das almofadas do sofá (“Nós geralmente acabamos no sofá, Michael”, disse ela uma vez, “já reparou?”.), ou latas de cerveja sob a poltrona para duas pessoas no solário, talvez até um vaso sanitário sem a descarga apertada. Na verdade, não posso lhe dizer exatamente o que estava procurando; a sensação de funcionar num sonho ainda mantinha um firme controle de minha mente. Os pensamentos mais claros que tive naqueles dias eram sobre o final do romance que estava escrevendo (o assassino psicótico tinha atraído a heroína para um edifício alto e pretendia empurrá-la do telhado) ou sobre o teste de gravidez que Jo tinha comprado no dia em que morreu. Receita para remédio de nariz, disse ela. Peixe para o jantar. E seus olhos não haviam mostrado nenhuma outra coisa que eu precisasse olhar duas vezes.
Perto do fim de minha “pré-faxina”, olhei debaixo de nossa cama e vi um livro aberto no lado de Jo. Não fazia muito tempo que ela tinha morrido, mas poucos territórios domésticos são tão empoeirados quanto o Reino Debaixo da Cama, e a leve cobertura cinzenta que vi no livro quando o puxei me fez pensar no rosto e nas mãos de Johanna no caixão — Jo no Reino Subterrâneo. Ela foi parar dentro de um caixão empoeirado? Certamente não, mas...
Expulsei o pensamento. Ele fingiu sumir, mas durante o dia inteiro continuou rastejando de volta, como o urso branco de Tolstoi.
Johanna e eu nos especializamos em inglês na Universidade do Maine e, como muitos outros, suponho, nos apaixonamos ao som de Shakespeare e do cinismo de Tilbury Town , de Edwin Arlington Robinson. Entretanto, o escritor que mais nos uniu não foi um poeta ou ensaísta benquisto pelas faculdades, e sim W. Somerset Maugham, o idoso romancista-dramaturgo-viajante com rosto de réptil (aparentemente sempre obscurecido pela fumaça do cigarro nas fotos) e coração de romântico. Portanto, não me surpreendeu muito descobrir que o livro sob a cama fosse Um gosto e seis vinténs. Eu o li duas vezes no final da adolescência, identificando-me apaixonadamente com o personagem Charles Strickland. (O que eu queria fazer nos Mares do Sul era escrever, claro, não pintar.)
Jo vinha utilizando uma carta de algum baralho fora de uso como marcador e, ao abrir o livro, pensei em algo que ela disse quando ainda nos conhecíamos pouco. Foi em Literatura Britânica do século XX, provavelmente em 1980. Johanna Arlen, uma impetuosa estudante de seguno ano, e eu, um veterano na universidade, escolhendo os britânicos do século XX simplesmente porque tínhamos tempo sobrando naquele semestre. “Daqui a cem anos”, disse ela, “a vergonha dos críticos literários de meados do século XX será a de terem abraçado Lawrence e ignorado Maugham”. Isso foi saudado com risos desdenhosamente joviais (todos sabiam que Mulheres apaixonadas, droga, tinha sido um dos maiores livros já escritos), mas eu não ri. Eu me apaixonei.
A carta do baralho marcava as páginas 102 e 103 — Dirk Stroeve tinha acabado de descobrir que a esposa o abandonou por Strickland, a versão de Maugham para Paul Gauguin. O narrador tenta encorajar Stroeve. Meu caro rapaz, não fique infeliz. Ela vai voltar...
— Para você, é fácil dizer isso — murmurei para o quarto que agora só pertencia a mim.
Virei a página e li: A calma injuriosa de Strickland despojou Stroeve de seu autocontrole. Uma fúria cega o dominou e, sem saber o que fazia, atirou-se sobre Strickland. Tomado de surpresa, Strickland cambaleou, mas era muito forte, mesmo depois de sua doença, e num instante, sem saber exatamente como, Stroeve se viu no chão.
— Homenzinho engraçado — disse Strickland.
Ocorreu-me que Jo nunca viraria a página e ouviria Strickland chamar o patético Stroeve de homenzinho engraçado. Num momento de brilhante epifania que jamais esqueci — como poderia?, foi um dos piores momentos de minha vida —, compreendi que aquilo não era um equívoco a ser corrigido, ou um sonho do qual eu acordaria. Johanna tinha morrido.
Minha força foi engolida pela dor. Se a cama não estivesse ali, eu teria caído no chão. Choramos pelos olhos, é tudo que podemos fazer, mas naquela noite senti como se cada poro de meu corpo estivesse chorando, cada fresta e cada fenda. Fiquei ali no lado dela da cama, com seu empoeirado Um gosto e seis vinténs na mão, e gritei de dor. Acho que era tanto de dor quanto de surpresa; apesar do cadáver que vi e identifiquei num monitor de vídeo de alta resolução, apesar do velório e de Pete Breedlove cantando “Blessed Assurance” com a voz aguda e doce de tenor, apesar do funeral com cinzas às cinzas e pó ao pó, eu na realidade não tinha acreditado naquilo. O livro de bolso da Penguin fez por mim o que o grande caixão cinza não tinha feito: insistiu que ela estava morta.
— Homenzinho engraçado — disse Strickland.
Deitado de costas em nossa cama, cruzei os braços sobre o rosto e chorei até dormir, do jeito que as crianças fazem quando estão infelizes. Tive um sonho horrível. Nele eu acordava, via o livro ainda sobre a colcha e decidia colocá-lo de volta debaixo da cama, onde o encontrei. Sabemos como sonhos são confusos — lógicos como os relógios de Dalí, tão macios que se estendem sobre os ramos de árvores como pequenos tapetes.
Eu colocava a carta de baralho novamente entre as páginas 102 e 103 — a um movimento do dedo indicador de Homenzinho engraçado, disse Strickland agora e sempre — e rolava para o meu lado, inclinando a cabeça sobre a beira da cama, pretendendo colocar o livro exatamente onde o tinha encontrado.
Jo estava deitada lá entre as bolinhas de poeira. Um fiapo de teia de aranha pendia do fundo do estrado de mola e acariciava seu rosto como uma pluma. Seu cabelo vermelho parecia opaco, mas seus olhos estavam escuros, alertas e sinistros no rosto branco. E quando ela falou, vi que a morte a tinha enlouquecido.
— Me dá isso — chiou. — É o meu pega-poeira. — Ela o arrancou de minha mão antes que eu pudesse entregá-lo. Por um momento nossos dedos se tocaram, os dela tão gelados quanto gravetos depois de uma geada. Ela abriu o livro no lugar que havia marcado, a carta sendo expelida para fora, e colocou Somerset Maugham sobre o rosto — uma mortalha de palavras. Enquanto cruzava as mãos no peito e ficava imóvel, percebi que usava o vestido azul com que a enterrei. Saiu do túmulo para se esconder debaixo de nossa cama.
Acordei com um grito abafado e um sobressalto doloroso que quase me fez cair da cama. Não tinha dormido por muito tempo — as lágrimas ainda estavam úmidas em meu rosto, e sentia nas pálpebras aquela estranha sensação de distensão, que ocorre depois de um acesso de choro. O sonho foi tão vívido que tive que rolar para o meu lado, abaixar a cabeça e espiar debaixo da cama, certo de que Jo estaria ali com o livro sobre o rosto, e que estenderia os dedos gelados para me tocar.
Não havia nada lá, é claro — sonhos são apenas sonhos. Mesmo assim, passei o resto da noite no sofá do escritório. Acho que foi a escolha certa, porque não sonhei mais naquela noite. Houve apenas o nada de uma boa noite de sono.