Semiótica documental
1. Introdução
Os sistemas de organização do conhecimento resultantes das atividades de organização do conhecimento na sociedade supõem o tratamento da linguagem (entendida genericamente como um código somado a seu mecanismo de execução), e as teorias utilizadas para tanto são aquelas oriundas da Linguística, das Ciências Cognitivas, da Filosofia, da Sociologia, da Semiótica entre tantas outras disciplinas. A organização do conhecimento e a organização da informação convertem-se, assim, em instâncias mediadoras da informação, materializadas nas atividades profissionais e aperfeiçoadas com os estudos científicos. Para realizar tal função mediadora, dependem da representação da linguagem em suas diversas manifestações.
Para Brascher e Café (2008), há uma distinção básica, pelo menos em nível teórico, entre a organização do conhecimento e a organização da informação. Para as autoras, a organização da informação é um processo que involucra a descrição física e de conteúdo dos objetos informacionais. O trabalho da organização da informação desenvolve-se com os registros da informação, cuja ênfase está em seu caráter individual. O produto da organização da informação é a representação da informação, na forma da descrição física e da descrição temática, ambas resultantes de processos correlacionados: catalogação, classificação, redação de resumos e indexação.
Por sua vez, a organização do conhecimento é um processo de construção de modelos de representações de conhecimento. O objeto da organização do conhecimento é o mundo das ideias, convertido em conceitos ou aglomerados de conceitos, os quais devem ser analisados para a verificação de seus vínculos, dispostos em um domínio de conhecimento (BRASCHER; CAFÉ, 2008).
Os estudos relacionados à organização do conhecimento têm sido promovidos atualmente pelas iniciativas da International Society for Knowledge Organization, fundada em 1989. Esse incentivo remonta à publicação da revista International Classification, fundada em 1974. A ideia subjacente é constituir um campo de interlocução teórica – interdisciplinar fundamentalmente – e um espaço para as novas aplicações no campo da organização dos registros do conhecimento. Nesse sentido, e concordando com a divisão feita por Brascher e Café (2008), preferiu-se adotar a expressão "organização da informação e do conhecimento" neste livro, por se considerar que estes campos de estudo e conjunto de atividades profissionais estão relacionados geneticamente por um propósito maior, que é a mediação entre os conteúdos de informação e os sujeitos e a criação de conhecimentos.
O desenvolvimento das atividades que promovem a organização da informação e a organização do conhecimento depende da manipulação e da representação da linguagem, especialmente nos processos de informação que recobrem o conteúdo dos documentos. Os processos de informação, entendidos no âmbito da Ciência da Informação, envolvem a transferência da informação entre as pessoas e são problemas constantes dos sistemas de informação. Podese resumir o entendimento de Ciência da Informação, de acordo com a visão de Smit e Barreto, como um
[...] campo que se ocupa e se preocupa com os princípios e práticas da criação, organização e distribuição da informação desde sua criação até a sua utilização, e sua transferência ao receptor em uma variedade de formas, por meio de uma variedade de canais. (SMIT; BARRETO, 2002, p. 17-18).
Deve-se reconhecer, de antemão, que existem diversas perspectivas concorrentes sobre o assunto, as quais procuram explicar a origem e o objeto tópico da Ciência da Informação, assim, é prudente adotar sempre uma noção plural do discurso fundacional.
Por conseguinte, tais processos de informação aludidos anteriormente visam, grosso modo, levar a informação aos sujeitos da forma mais adequada possível, com o objetivo precípuo de realizar uma interação social, seja com recurso às técnicas tradicionais – compostas, principalmente, pela interação face a face –, seja pelo uso massivo de tecnologias de processamento e transmissão de dados.
Entende-se que tais processos de informação envolvem um conjunto de atividades resultantes de ações, etapas e fases, que fazem com que – especificamente no âmbito da Ciência da Informação – a informação possa ser criada, comunicada e permitir novas apropriações. Desse modo, incluem-se os processos de criação (intelectual), produção (registro e edição), seleção, aquisição, tratamento (físico e temático), organização, armazenamento, recuperação, distribuição, mediação, comunicação, utilização e apropriação, realizados nos mais diversos sistemas, ambientes ou unidades de informação.
Cunha e Cavalcanti (2008, p. 293-294) definem processo de informação (information process) como o "processo de comunicação que conduz a um conhecimento mais preciso", porém fazem a seguinte distinção: no processo de comunicação consideram-se os aspectos tecnológicos, enquanto no processo informativo a ênfase recai sobre a substância das mensagens, isto é, o conteúdo. A partir disso, também se pode entender como processos de informação os levados a cabo pela cadeia ou ciclo documental, como as operações necessárias à utilização dos documentos e os pertencentes à cadeia ou ciclo informacional, em outros termos, "fases pelas quais a informação passa, desde sua criação até sua disseminação." (CUNHA; CAVALCANTI, 2008, p. 62).
A cadeia informacional pressupõe a cadeia documental, visto que esta lhe fornece os processos essenciais para a disponibilização da informação. Sendo assim, as atividades do campo da organização da informação e do conhecimento, bem como as ações que permitem a comunicação da informação em sistemas de informação, devem ser considerados processos de informação no contexto da Ciência da Informação.
A linguagem dos processos de informação é condição indispensável para apropriação da informação. Aqui se encontra um problema-chave. Esses processos envolvem a codificação e a decodificação de signos (componentes das mensagens), bem como a transmissão destes no espaço e no tempo. A codificação simbólica (estabelecimento de convenções) está presente em todos os processos de comunicação, tendo como base a linguagem estabelecida pelos contratos humanos instituídos socialmente. A organização da informação e do conhecimento não seria possível sem a atenção dos códigos e do reconhecimento da atividade de tradução sígnica. Esse tipo de tradução pode levar o adjetivo "semiótica", pois não busca converter signos no interior de um mesmo código, mas, sobretudo, leva a cabo a tradução entre códigos distintos.
Com efeito, o exame dos processos relacionados ao conteúdo de informação e o desenvolvimento de sistemas de organização do conhecimento, tem trazido à discussão diversas teorias científicas e conceitos filosóficos referentes à linguagem.
É provável que a própria análise da linguagem no campo da Ciência da Informação, como meio organizador e mediador da informação na sociedade, seja um dos pontos pacíficos sobre a solução de problemas associados ao tratamento da informação, pois as diversas tendências explicativas da Ciência da Informação procuraram, desde seu surgimento, propor explicações e formas de intervenção sobre a linguagem com o objetivo ulterior de oferecer, através de um sistema organizador do conhecimento, o acesso à informação.
Por um lado, a linguagem e seu tratamento unem diversas tendências da Ciência da Informação. Por outro, exige um contato maior com disciplinas científicas, como Semiótica e Linguística, o que nem sempre é tarefa factível. Isso não é uma particularidade da Ciência da Informação no Brasil.
Assumem-se os riscos de um brutal esfacelamento na exposição das abordagens – entendidas como redes conceituais aglutinadas por um ponto de vista comum ou conjunto de pressupostos –, quando se afirma que as perspectivas da Ciência da Informação
predominantes são a europeia1 2 e a estadunidense, porém são nas quais se encontram um questionamento comum, o problema do tratamento da linguagem, seja na sua interação humana ou na relação homem-máquina. A menção a estas duas escolas não representa a multiplicidade de práticas profissionais e composições teóricas derivadas da Ciência da Informação. As perspectivas Biblioteconômica e Documental da Ciência da Informação, bem como as tradições Alemã, Russa e Espanhola, figuram como representativas para compreendê-la e inviabilizam uma narrativa histórica unilateral ou transnacional do desenvolvimento da Ciência da Informação. Portanto, toda análise histórico-teórica que se preze deveria obedecer a constituição social, cultural e diacrônica da Ciência da Informação, isto é, eles deveriam ser analisados em espaço e tempo determinados.
No Brasil, somente para comentar um exemplo, a literatura especializada que destaca a história da Ciência da Informação ressalta que a expressão passou a ser mais conhecida em 1970, por ocasião da criação do Mestrado em Ciência da Informação, do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD). Para a análise dos aspectos históricos e epistemológicos da Ciência da Informação no Brasil, com ênfase para a interpretação de autores atuantes no país, recomendase a leitura dos trabalhos de Aquino (2002), Barreto (1994, 1999, 2002), Pinheiro (1999), Robredo (2003), Souza (2003), Castro (2000), além das contribuições indispensáveis de González de Gomez (1993, 2000, 2001, 2002, 2003a, 2003b, 2003c, 2006). Somam-se a estas interpretações, os resultados do grupo de trabalho História e Epistemologia da Ciência da Informação junto à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação. Em linhas gerais, sabe-se que nem a Ciência da Informação, nem a Documentação, desenvolveram-se de maneira semelhante e com as mesmas características.
Desde a fundação do IBBD, em 1954, os congressos de bibliotecários já assinalavam a necessidade de incluir os temas e soluções da Documentação nos currículos de Biblioteconomia. Isso ficou patente nos currículos e nas denominações dos cursos profissionais que desde 1970 figuram o termo "documentação", relacionando às preocupações do movimento dos documentalistas e integrando-as aos currículos de bibliotecários. O primeiro curso de Biblioteconomia no Brasil, como é de conhecimento dos especialistas no assunto, entrou em atividade em 1911, na Biblioteca Nacional, sob influência francesa. Não obstante, a configuração dos cursos que se expandiu por todo o Brasil, acentuando a tendência técnica, partiu da criação do curso de Biblioteconomia da Divisão de Bibliotecas da Prefeitura Municipal de São Paulo. Para mais detalhes sobre esse período, sugere-se a consulta a Oliveira, Carvalho e Souza (2009) e Castro (2000).
Os trabalhos gerados junto ao programa de pósgraduação do antigo IBBD, bem como a vinda de docentes estrangeiros ao país para a estruturação do curso de mestrado, proporcionaram a diversificação das temáticas de estudo, acelerando o processo de incorporação de teorias da linguagem para responder aos problemas dos sistemas de informação do país. Contudo, o entendimento preciso da configuração brasileira não pode ser a única fonte de explicação do relacionamento interdisciplinar da Ciência da Informação com as ciências que levam a cabo o estudo da linguagem.
Além das tradições representadas pelos Estados Unidos e pela França, talvez seja possível encontrar outras escolas cujos temas foram e são convergentes e com soluções encontradas que se assemelhariam às encontradas no Brasil. Nesse sentido, uma contribuição à epistemologia histórica da Ciência da Informação seria pensar como se sucedeu a análise dos fenômenos semióticos nos processos informacionais em outros países, em especial, àqueles que guardam alguma relação temática com as pesquisas brasileiras. Presumese que o conhecimento de novas realidades possa lançar luz a reflexão sobre a conduta da comunidade científica, em especial, a dedicada aos problemas relacionados ao tratamento da linguagem.
As inter-relações teóricas com outras disciplinas parece ser um elemento constitutivo da área. Por exemplo, a análise documental de conteúdo no contexto da tradição otletiana é naturalmente uma linha que se interessa pelas questões teóricas associadas à linguagem. Os processos de redução de textos em resumos, de extração de palavras e conceitos principais, além da tradução entre códigos e o controle terminológico, são exemplos da necessidade de interlocução com outras disciplinas, com especial atenção à Linguística.
A interdisciplinaridade3 parece ser um argumento imperante e um elemento constitutivo. De acordo com Linares Columbié (2010, p. 155), "Seu caráter interdisciplinar foi um de seus postulados iniciais, nem sempre adequadamente fundamentado e acordado." O que convida os pesquisadores a elaborar diagnósticos, quase que constantemente, sobre o nível de troca disciplinar e dos resultados conquistados pela comunicação de conceitos e teorias.
Isto posto, acudiu-se ao contexto espanhol da Documentação, o qual guarda estreita relação com os estudos do tratamento documental de conteúdo realizados no Brasil. As incursões às teorias semióticas no contexto espanhol mereciam uma análise que procurasse destacar as linhas, os teóricos e os conceitos semióticos mais pertinentes, os quais moldaram o desenvolvimento das relações disciplinares entre Semiótica e Documentação e, em especial, com a organização da informação e do conhecimento.
Sendo assim, cumpriu-se esclarecer neste livro quais teorias semióticas têm estado presentes no campo das Ciências da Documentação na Espanha, em especial, o projeto denominado Semiótica Documental, construído pelo pesquisador espanhol Izquierdo Arroyo. Para tanto, foi necessário conhecer que conceitos semióticos foram aplicados aos problemas da organização da informação e do conhecimento no campo das Ciências da Documentação na Espanha. Com o mesmo nível de importância, foram identificadas as linhas dos teóricos da Semiótica.
Esta análise teve as seguintes hipóteses gerais associadas à Semiótica Documental: a explicação da orientação semiótica dos estudos espanhóis de Documentação ainda requeria um tratamento abrangente e sistematizado e; os fatores estritamente semióticos que condicionam o tratamento documental de conteúdo no contexto da organização do conhecimento necessitavam de um delineamento que distinguisse tais fatores de os contributos linguísticos amplamente conhecidos.
Em trabalhos anteriores, foi proposta uma leitura crítica dos fundamentos semióticos e pragmáticos da organização do conhecimento (ALMEIDA, 2010, 2011a, 2011c, 2012c), uma concepção de signo e a sua relação com a noção de conceito (ALMEIDA, 2012a), uma reflexão sobre a relação entre mediação e
semiótica (ALMEIDA, 2012b) entre outros 4. Não obstante, muitas teorias semióticas não puderam ser cotejadas, de maneira razoável, com a literatura revisada.
Defende-se que os temas relacionados à Semiótica, notadamente, a vinculada a figura do filósofo Charles Peirce (1839-1914), encontram foro privilegiado e contribuíram à linha de pesquisa produção e organização da informação. Por isso, pretendeu-se encontrar referenciais teóricos e elementos conceituais para compreender o processo de introdução da Semiótica no universo das pesquisas em Espanha, os quais, sustentase aqui, têm influenciado a constituição epistemológica da organização da informação e do conhecimento no interior da Ciência da Informação no Brasil.
A análise da produção científica dos especialistas espanhóis permitiu conhecer as linhas da Semiótica mais presentes na Espanha, bem como a ideia da Semiótica Documental. Lembrando que, essa temática também foi objeto de interesse nacional de grupos de trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação nos últimos anos. E, internacionalmente, esteve presente nos eventos promovidos pela International Society for Knowledge Organization, cujos temas
demonstram o interesse recente pela Semiótica 5. A esses fóruns, a pesquisa oferece uma contribuição teórico-histórica.
A Espanha compreende uma comunidade de especialistas vinculada às ideias de Otlet e, consequentemente, às contribuições de Gardin à análise documental de conteúdo, além do papel destacado nos estudos internacionais em organização do conhecimento (GUIMARÃES; SALES, 2010). O sólido ambiente acadêmico espanhol ofereceu condições para a disseminação da concepção francesa de Documentação e de análise documental de conteúdo, o que poderá ser averiguado mais adiante neste relatório. Guimarães, Sales e Grácio (2012) analisaram as convergências e interlocuções temáticas entre os pesquisadores do Brasil e da Espanha, e destacaram que esses dois países sofreram influência dos trabalhos de Gardin no que respeita, principalmente, a análise documental.
No caso da Espanha, a presença francesa é visível antes da década de 1990. Segundo Guimarães, Sales e Grácio (2012), López Yepes e Izquierdo Arroyo receberam mais influência otletiana, enquanto Moreiro González, Pinto Molina e García Gutierrez manifestaram um alinhamento mais gardiniano.
Considerando a natureza da análise proposta neste livro espera-se que esta possa contribuir para as novas interpretações sobre as relações disciplinares da Semiótica com o campo da Documentação na Espanha, e abrir espaço ao amadurecimento das questões semióticas pertinentes ao contexto brasileiro.
Isto posto, o objetivo central deste livro foi analisar as relações disciplinares e teóricas entre o campo da Semiótica e a Documentação na Espanha e sistematizar elementos para a
compreensão da proposta denominada Semiótica Documental6.
O livro está organizado da seguinte forma. Na sequência destas
breves considerações introdutórias, apresenta-se no capítulo 2 um
breve panorama das teorias semióticas. No capítulo 3, expõem-se algumas linhas para se compreender um pouco mais da
Documentação na Espanha. Por sua vez, no capítulo 4, trata-se da introdução dos temas semióticos na Espanha. Relacionam-se no
capítulo 5 as contribuições linguístico-semióticas na Documentação.
Após o quadro contextual antecedente, no capítulo 6, trata-se
finalmente da Semiótica Documental. Por fim, no capítulo 7, foram
esboçadas algumas últimas reflexões. Além das referências
consultadas, insere-se também um breve posfácio que trata dos discursos sobre a interdisciplinaridade entre as áreas na Espanha.