Semiótica documental
2. O campo semiótico
Com os levantamentos em manuais e trabalhos sobre Semiótica, Semiologia e Linguística, nota-se o quão difícil é estabelecer linhas que separam um campo do outro. Não há domínios e objetos que pertençam a uma única disciplina nem mesmo a forma de abordagem, que seria uma atividade particular a uma ciência social, não se encaixa ao problema epistemológico da Semiótica. Considerando essa dificuldade patente, um estudo deste campo deve, em primeiro lugar, registrar as linhas que se pretende trabalhar, já que quase tudo sobre o simbólico pode ser de interesse semiótico e, em alguns casos, até mesmo o que está antes da fronteira da convenção social da linguagem poderia receber um tratamento semiótico. O objetivo deste capítulo é registrar em linhas gerais a definição de semiótica que se adotou neste livro.
Recorreu-se à noção de campo semiótico de maneira plural – teorias semióticas –, pois atualmente é insustentável uma visão semiótica que proponha uma teoria unificada, ainda que alguma se sobressaia à outra, dependendo do problema em análise ou do ponto de vista que se quer destacar. As teorias semióticas contemplam as principais abordagens sobre os signos, a semiose (ação dos signos) e a significação no contexto humano e não humano. Desse modo, ter-se-iam propostas teóricas não antropocêntricas em que a semiose é investigada por abarcar o mundo natural, como, segundo Nöth (2005b, p. 201), o comportamento sígnico de animais na zoossemiótica e dos processos microbiológicos na biossemiótica. Nas aproximações antropocêntricas, o objeto de análise é a semiose no contexto humano e cultural.
Entre as diversas teorias semióticas estão as vinculadas aos teóricos Charles Peirce (1839-1914), Ferdinand de Saussure (1857-1913), Louis Hjelmslev (1899-1965), Roman Jakobson (1896-1982), Roland Barthes (1915-1980), Algirdas Julien Greimas (1917- 1992), Charles William Morris (1901-1979), Yuri Lotman (1922-1993), Umberto Eco (1932-2016), entre muitos outros comentadores contemporâneos com importantes aportações.
Segundo a análise de Nöth (2005b, p. 175), Eco separou o campo semiótico de outras disciplinas, considerando a distinção entre signos e coisas, e signos naturais e signos artificiais. Nesse sentido, o campo semiótico vislumbrado por Eco compreenderia apenas, ou de maneira fundamental, os signos convencionais e os códigos presentes no contexto sociocultural. A comunicação entre animais e os signos não convencionais só entrariam em cena no campo semiótico se manifestassem padrões de convencionalidade e comunicabilidade próximos ao cultural. Assim, na acepção de Eco, não se considerariam teorias semióticas não antropocêntricas. A ideia de campo parece muito bem acertada, embora a ênfase ao antropocentrismo não seja adequada segundo o ponto de vista assumido aqui.
Desse modo, as teorias semióticas foram divididas em dois grandes grupos para a análise das contribuições semióticas na Espanha: teorias peirceanas, as quais recorrem à propositura teórica de Charles S. Peirce (1839-1914), e teorias não peirceanas, as quais não estão subjacentes os estudos peirceanos. Também se pode cogitar a existência de um terceiro grupo, que se denominou teorias semióticas híbridas, referentes às que se valem de elementos dos dois conjuntos anteriores para responder a demandas específicas ou por considerar que isoladas, as teorias peirceanas e não peirceanas, não responderiam aos problemas teóricos.
Considera-se, por outro lado, que essas teorias marcam tendências de análise e incursões conceituais em um campo específico, configurando assim em uma aproximação teórica – sem especificar a natureza inter ou multidisciplinar –, de outro modo chamada de abordagem. Assim, as teorias peirceanas, teorias não peirceanas e teorias híbridas quando atravessam as fronteiras e os contextos de produção originais e aportam-se em outro campo – como exemplo, a Documentação – seriam melhor entendidas como abordagens deste campo, isto é, rede de conceitos unida por um ponto de vista comum ou conjunto de pressupostos bem alinhavados.
Desse modo, ter-se-iam abordagens semióticas peirceanas, não peirceanas e híbridas no campo da Documentação. Aqui não há que se valorizar o nível de aplicação, ou mesmo o teor do contato disciplinar com a Semiótica – se terminológico, conceitual, teórico ou metodológico, o que seria muito difícil –, apenas se manifesta tratar de uma abordagem tão-somente inclinada a um conjunto de pressupostos semióticos bem articulados.
Para justificar tal separação arbitrária é fundamental registrar a influência no campo semiótico do filósofo Peirce. Seu legado ainda está presente nos círculos acadêmicos, e muitos centros de investigação em Comunicação e Filosofia revisitam seus conceitos para explicar fenômenos associados à linguagem e à cognição humanas. Conquanto pareça generalizante, e inclinado a uma valorização intencional da teoria peirceana, a divisão mostra apenas as tendências mais globalizantes no trato dos temas.
Sendo assim, uma teoria não peirceana, pode valer-se de elementos conceituais variados, como os provenientes do estruturalismo linguístico, do funcionalismo ou da pragmática linguística, sem reconhecer ou registrar uma continuidade da linha teórica peirceana. Teorias semióticas contemporâneas podem se comportar desse modo, o que torna difícil classificá-las como estruturalistas ou pragmáticas. A divisão entre teorias peirceanas e não peirceanas marca uma generalidade para a categoria de análise, mas também permite o reconhecimento da coexistência de teorias híbridas, as quais se vinculam a mais de uma matriz conceitual, semiótica ou não. É o caso de abordagens que revelam ter encontrado base teórica na antropologia, na sociologia, na biologia etc.
Essas separações operacionais são importantes para compreender a consecução de alguns discursos. Por exemplo, uma abordagem peirceana reconhece a centralidade do processo de evolução dos significados, o modelo tripolar do signo, o falibilismo constante na interpretação, entre outros tantos argumentos, ao passo que uma teoria não peirceana não compartilha ou até mesmo rechaça alguns desses pressupostos.
No que tange a teoria semiótica peirceana, cumpre esclarecer os vínculos entre Filosofia e Semiótica, compreendendo o pensamento
do filósofo Charles Peirce 7 relacionado à teoria dos signos e aos demais contributos teóricos para a Semiótica, entre os quais: a Fenomenologia, as Ciências normativas e a Metafísica. Todas essas disciplinas compreendidas em sua divisão das ciências como ramos da Filosofia, classificada como uma Ciência da Descoberta, cujas diversas designações juntam-se a um propósito maior na condição
de Ciências Teóricas.8
A Semiótica corresponde a um conjunto irrestrito de contribuições no sentido de teorizar sobre a vida dos signos, principalmente, os signos produzidos no contexto social e humano. Compreensão legítima, tendo como pressuposto a Semiótica enquanto uma ciência do homem; porém muito restrita, de acordo com o pensamento peirceano. Os signos não são exclusivos da mente humana, são produtos gerados por qualquer mente que possa aprender pela experiência. Por esse escopo, os animais e os outros organismos produziriam e interpretariam signos.
A Semiótica de Peirce está dividida em três ramos: a Gramática Especulativa, como a "doutrina das condições gerais dos símbolos e outros signos que tem o caráter significante", Lógica Pura ou Crítica, "a teoria das condições gerais da referência dos Símbolos e outros Signos aos seus Objetos manifestos, ou seja, é a teoria das condições da verdade", e por fim, a Retórica Especulativa,
aquilo que é conhecido pelo nome de metodologia ou, melhor, metodêutica. É a doutrina das condições gerais da referência dos Símbolos e outros Signos aos Interpretantes que pretendem determinar [...]. (PEIRCE, 2000, p. 29).
Muitos estudos foram e são realizados sob a égide de uma ou mais ramos elencados anteriormente. Entretanto, as principais contribuições provêm dos conceitos semióticos construídos na Gramática Especulativa. Sobre essa questão, é digna de nota a obra Matrizes da linguagem e pensamento, de Santaella (2005), que pode ser classificada como um trabalho de Gramática Especulativa, assim como O método anticartesiano de C. S. Peirce, da mesma autora (2004a), um trabalho que disserta sobre a Retórica Especulativa.
Sendo assim, a Semiótica seria mais bem a doutrina dos signos que objetiva investigar os signos utilizados por uma inteligência que aprende pela experiência. "Em seu sentido geral, a lógica é, como acredito ter mostrado, apenas um outro nome para semiótica (σημειωτική), a quase-necessária, ou formal, doutrina dos signos" (PEIRCE, 2000, p. 45, CP 2.227). O signo, na visão peirceana, não é um fenômeno estático, tampouco se reduz a um produto da mente humana, em realidade, corresponde a tudo o que se possa imaginar, observar, sentir ou pensar. Para compreensão global dos temas centrais da Semiótica de Peirce, sugere-se a leitura dos comentadores Silveira (2007, 2008a, 2008b), Santaella (2000, 2004a, 2004b, 2004c), Ibri (1992), Coelho Netto (1999), De Waal (2001, 2007), Deledalle (1996) e Marafioti (2005).
Entre as teorias semióticas não peirceanas destacase a vertente estruturalista. Na primeira metade do século XX, particularmente na Suíça, surgiu um movimento intelectual liderado por linguistas que buscavam sistematizar uma ciência para a linguagem. Os precursores modernos desta outra escola influente da teoria dos signos, a Semiologia (do grego semeîon, que quer dizer sinal ou signo, e logía, estudo ou ciência), foram Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Louis T. Hjelmslev (1899-1965).
A tradição linguística da semiótica, uma das mais utilizadas nas reflexões sobre a organização da informação e do conhecimento, examina a significação de um modo diverso à perspectiva semiótica de Peirce. Um signo deve possuir, para ser linguisticamente perfeito, um significante e um significado, isto é, uma modalidade de expressão e uma ideia que dê sentido ao significante. Os signos linguísticos são compreendidos apenas como entidades convencionais construídas pelos homens, já as ideias originadas e presentes em uma mente, quando estão fora da língua, são um complexo de pensamentos sem forma definida.
Essa definição, já instaurada e consagrada, é diferente de uma compreensão semiótica da dinâmica da significação, que se estabelece abaixo e além dos resultados da simbolização. Para analisar a vertente estruturalista da Semiótica é fundamental o conhecimento das obras de Saussure (1970), Hjelmslev (1972, 1975), Barthes (1971, 1980), Greimas (1973, 1976), Lopes (1995) e Nöth (2005b).
O signo, vislumbrado pela Semiologia, foi definido anteriormente pela Linguística, isto é, composto de uma forma de expressão e de um conteúdo. Saussure (1970), apesar de enfatizar o papel da língua como sistema de signos privilegiado em relação aos demais sistemas, reconhece que este sistema representa uma parcela significativa dos sistemas de signos humanos (língua de surdos-mudos, signos militares, etc.). O argumento funciona como uma tentativa de aproximar os sistemas, segundo um ponto de visto único (o semiológico), que permitiu entrever os demais sistemas de signos a partir de uma matriz única e quase-homogênea. Os demais conceitos saussureanos serviram de aporte à teorização semiológica. Outros linguistas valeram-se do arcabouço teórico de Saussure e aplicaram-no a outros sistemas sígnicos, os mais diversos.
Os trabalhos de Saussure e Hjelmslev foram sucedidos pelos de Roland Barthes (1915-1980), Algirdas J. Greimas (1917-1992) e, de certo modo, Umberto Eco (1932-2016). A Semiologia, segundo Saussure (1970), está vinculada à Psicologia Social e tem como disciplina mais avançada a Linguística, da qual retira a maior parte dos conceitos operacionais: signo linguístico, significante e significado.
Além da contribuição estruturalista, sob a alcunha teorias semióticas apareceram, durante o início do século XX, os trabalhos de Ogden e Richards, por um lado, e os esforços de Morris, por outro. Sob uma perspectiva não linguística, a síntese das teorias dos signos concebidas até início do século XX foi construída pela investigação de Ogden e Richards, na década de 1920. Ao lado da contribuição não estruturalista à teoria dos signos, encontram-se as ideias de Charles William Morris (1901- 1979), que elaborou uma teoria semiótica por volta das décadas de 1930 e 1940.
Os fundamentos da teoria de Morris estão enraizados na Semiótica de Peirce, além do behaviorismo social e da teoria interacional simbólica de G. Mead, do pragmatismo americano, do empirismo e do positivismo lógico (NÖTH, 2005b, p. 181). Diversos conceitos de Morris estão fundamentados na doutrina dos signos de Peirce. Conceitos como semiose (ação dos signos) e interpretante (efeito interpretativo), além da matriz triádica do signo, remontariam à teoria de Peirce. Morris (1976, p. 13-15) explica que o signo é composto de um veículo do signo, um designatum e um interpretante para um intérprete. O veículo do signo é aquilo que funciona como signo, o designatum é aquilo a que o signo se refere, mas enquanto uma classe ou espécie de objeto. Por último, o interpretante é o efeito sobre um intérprete em virtude do qual as coisas em questão seriam um signo para este. A Semiótica de Morris é uma ciência interdisciplinar e, na medida em que as demais ciências se valem de signos, a Semiótica se constitui em uma meta-ciência (NÖTH, 2005b, p. 184).
Além de Greimas e demais autoridades da Semiologia indicadas anteriormente, devem-se incluir as contribuições de Umberto Eco (2000), quem procurou fundar um campo geral da teoria dos signos. Presume-se que a função de Eco foi sintetizar um conjunto enorme de contribuições com o objetivo de erigir uma teoria unificada dos signos. Para tanto, Eco conseguiu reunir as duas principais escolas que deram origem à teoria dos signos no século XX, Saussure e Peirce.
Deve-se, pois, incluir também uma teoria marcadamente híbrida, a teoria semiótica da cultura ou Semiótica russa, a qual aceita a
Concepção do texto como unidade básica da cultura, e não do sistema linguístico. Nesse sentido, uma dança, uma cerimônia, uma obra de arte e muitos outros produtos e manifestações culturais são considerados texto. (MACHADO, 2003, p. 54).
A vinculação teórica da Semiótica da cultura é bem variada, compreendendo nada mais nada menos que Teoria Literária, Linguística Estrutural, Semiótica, Crítica de Arte, Cibernética, Teoria da Informação e da Comunicação, Lógica Matemática, Etnologia, Antropologia, Biologia Molecular, Neurobiologia, Neurolinguística e Ecologia cognitiva (MACHADO, 2003). Esse campo é constituído por teorias híbridas, como é o caso da Semiótica da Cultura, assim como a abordagem semiótica de Umberto Eco.
Obviamente, muitos outros teóricos mereceriam figurar nesta exposição, porém as perspectivas elencadas anteriormente subsidiam um panorama do campo da Semiótica. Os pesquisadores e os especialistas em Documentação reconhecem as principais relações teóricas do campo com outras disciplinas e áreas do saber.
Contudo, pontos de interdisciplinaridade, ainda estão em pleno processo de desenvolvimento e precisam continuamente de análises cuidadosas com o objetivo de potencializar o diálogo com outros campos. Na sequência, apresentar-seão alguns detalhes do contexto histórico recente da Documentação em Espanha, o qual permitirá entender um pouco da origem e das características das abordagens semióticas e da Semiótica Documental.