Semiótica documental
3. A Documentação na Espanha
Na Espanha, assim como no Brasil, a incorporação das ideias de Otlet foi fundamental e tem marcado a configuração teórica dos estudos de informação, em especial, a preocupação com o tratamento da linguagem natural. A expressão "Ciência da Informação", como disciplina, área do conhecimento ou campo científico, que se ocupa do estudo da informação na sociedade, associadas à Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, não é muito comum na Espanha, pois a expressão mais representativo é Ciencias de la Documentación, ou para a área de conhecimento Información y Documentación. Neste capítulo, serão apresentados traçados gerais para se compreender a Documentação na Espanha.
A Documentação na Espanha seguiu pari passu o trabalho do movimento internacional dos documentalistas, em especial, a obra de Otlet. Os diálogos com a Documentação foram intensos e profundos na Espanha, assim como no Brasil pelo destacado trabalho de especialistas da Universidade de São Paulo na década de 1980, através de uma influência francesa da análise documental de conteúdo que impulsionou o interesse pela escola de Documentação e pelas obras capitais deste movimento profissional e científico.
A institucionalização da Documentação na Espanha deve ser vista sob o contexto histórico e educacional do país, sem esse detalhamento a compreensão das características do campo seria prejudicada.
Somente para relacionar alguns dados, antes da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), o país não possuía um desenvolvimento substancial da educação de base. Segundo Martínez Ruiz, Maqueda e De Diego (1999, p. 153), em 1900, 63,79 por cento da população era analfabeta e em 1930, a cifra estava em 44,47 por cento. Apesar do avanço em três décadas, os dados representam apenas que as pessoas alfabetizadas seriam supostamente as que possuíam pelo menos o ensino primário. Destaca-se o ano de 1900, pois foi quando se instituiu na Espanha o Ministério de Instrução Pública e Belas Artes.
Outro fato a destacar é a presença feminina na universidade na primeira metade do século XX, o que indiretamente está conectado à formação profissional em Biblioteconomia. Em 1915, apenas 4 de cada 100 alunos matriculados no ensino superior eram mulheres, e em 1928, esse número se eleva um pouco, de 13 por 100 alunos matriculados (MARTÍNEZ RUIZ; MAQUEDA; DE DIEGO, 1999, p. 155). Curiosamente, a tradição formativa em Biblioteconomia e Documentação na Espanha projetou-se com a fundação, em 1915, da Escola Superior de Bibliotecárias, na Catalunha.
No que tange às áreas de formação, em 1930, do universo de alunos universitários matriculados 72,9 por cento eram de Direito e Medicina, e apenas 13,9 dos alunos dedicavam-se às profissões técnicas de Ciências ou de Filosofia e Letras (MARTÍNEZ RUIZ; MAQUEDA; DE DIEGO, 1999, p. 155). Esse contexto do quantitativo de população alfabetizada e da distribuição do ensino universitário, concentrado nas áreas de Medicina e Direito, mostra a dificuldade de se estabelecer um campo profissional para áreas dedicadas às letras e à leitura pública.
Outros elementos podem ser ainda agregados para estimar a situação da política educacional dedicada aos ensinos primário, secundário e universitário. Por exemplo, citam-se os seguintes fatores: os sucessivos projetos de ensino desde o final da primeira metade do século XIX; o modelo universitário francês; a falta de recursos e a burocracia das instituições universitárias e, a participação de instituições privadas na oferta do ensino secundário, especialmente, as vinculadas à Igreja Católica, que atendiam dois terços do alunado, segundo registram Martínez Ruiz, Maqueda e De Diego (1999, p. 155). Essa configuração manteve-se até a década de 1960, quando a quantidade de universitários aumenta e o acesso de mulheres às universidades já era uma realidade.
O investimento em educação desde os anos 1940 foi aumentando gradativamente. De acordo com Martínez Ruiz, Maqueda e De Diego (1999, p. 155), em 1936, o orçamento do governo central destinado à educação chegava a 6,54 por cento, em 1950 já era 7,83%, até que praticamente dobra em 1970, subindo para 14,6 por cento. Isso também é acompanhado pelo incremento de alunos e professores em todos os níveis de ensino, além do crescimento do número de unidades escolares.
Esses dados devem ser interpretados recorrendo ao movimento da população espanhola. De 1940 até 1980, houve um claro crescimento populacional, representado pela elevada taxa de natalidade. Os anos que seguem a partir de 1980, o crescimento populacional derivado da taxa de natalidade diminuiu, em contrapartida, os dados de mortalidade começam a cair. Examinando os dados registrados por Martínez Ruiz, Maqueda e De Diego (1999, p. 209), constata-se que entre 1970 e 1981, a população cresceu em 3.790,213 pessoas, enquanto entre 1981 e 1991, o crescimento populacional desacelerou e chegou a 1.687,682 pessoas no período.
Também se deve acrescentar a este quadro que as áreas mais urbanizadas da Espanha começaram a destacar-se nos anos 1960, quando houve um verdadeiro êxodo rural que concentrou a população em grandes áreas metropolitanas (PRO RUIZ; RIVERO RODRÍGUEZ, 2013, p. 163), como nas comunidades autônomas da Catalunha, Madrid, País Vasco e Valência.
Por outro lado, as populações do interior da comunidade de Castilha e León e de Extremadura rumaram, principalmente, à região metropolitana de Madrid. Além disso, é digno de nota que houve um acentuado movimento migratório de andaluzes e murcianos para Catalunha. O que parece contraditório no movimento independentista catalão, pois parte relevante da população catalã pró-independência não é nativa, mas incorporada à comunidade devido ao êxodo iniciado em 1960.
A Documentação na Espanha desenvolveu-se sob esta estrutura educacional e demográfica e se potencializou em momentos em que houve crescimento da população universitária, abertura de vagas para professores de ensino profissional, aumento do número de unidades escolares nos diversos níveis, instituições as quais incorporam entre seus serviços as bibliotecas. Também é possível afirmar que a Documentação se retraiu em momentos em que houve um fechamento ao contexto mundial – ditadura – e crise econômica. E, é claro, as profissões ligadas à Documentação, assim como outras profissões liberais, desenvolveram-se em regiões urbanas e economicamente mais favorecidas; não é sem razão que as principais escolas de formação profissional e pesquisa em Documentação estão em centros mais populosos, como nas regiões metropolitanas de Madri, Barcelona, Valência e Saragoça.
Depois da Guerra Civil (1936-1939), ergueu-se uma forte ditadura de alinhamento fascista liderada pelo general Francisco Franco (1892-1975). Esse acontecimento determinou o desenvolvimento das ações ligadas ao ensino na Espanha, e que se encerrou após a morte de Franco, em 1975.
Uma das principais etapas do desenvolvimento da Documentação na Espanha ocorreu na década de 1990, com a consolidação dos
cursos de diplomatura 9. Contudo, é necessário acrescentar uma nova etapa no desenvolvimento teórico e nas práticas de ensino em Documentação, que seria de 1993 até os dias atuais, marcada pelos novos cursos de licenciatura em Documentação. Talvez ainda se deva segmentar uma quarta etapa, que começaria em 2008 e que se caracteriza pelo impacto da crise econômica no ensino profissional em Documentação. É claro que esta divisão precária não representa muita coisa além do intento didático, mas serve como parâmetro para a exposição a seguir.
Em uma análise recente, García Marco expõe que considera fases do desenvolvimento do ensino profissional em Documentação
La historia de la enseñanza de la información y la documentación en España se puede sintetizar en cuatro grandes fases y cuatro grandes retos: - la formación de los conservadores capaces de abordar el reto de la conservación del patrimonio documental tras las desamortizaciones; - la formación de bibliotecarios capaces de promover la democratización de la sociedad; - la capacitación de técnicos al servicio de la administración moderna, la investigación y la industria; y - la adaptación a la revolución de la internet, en la que todavía nos encontramos inmersos. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 490).
Essas fases coincidem com outros trabalhos que discutem o assunto, e acrescenta o papel efetivo da primeira fase: que trata da formação de conservadores no século XIX que deveriam conservar os documentos sob a guarda do governo do Antigo Regime. Esse movimento, segundo pontua o autor (GARCÍA MARCO, 2013, p. 490), deu-se na Escola de Diplomática de Madri em que se fundaram diversas cátedras universitárias em Diplomática. A segunda fase, antes da Guerra Civil, teve uma repercussão social com a instalação e desenvolvimento de bibliotecas escolares e promoção da leitura pública. As demais fases indicadas pelo autor serão detalhadas a seguir para melhor compreensão do contexto recente.
Segundo López Yepes e Ros García (1993), a introdução do conceito de documentação no âmbito espanhol surgiu no discurso de José Ortega y Gasset (1883-1955), Misión del bibliotecario. Por ocasião da abertura do Congresso Internacional de Bibliotecas, em 1935, Ortega y Gasset fez alusão ao problema da informação e à teoria da Documentação contemporânea. López Yepes (1995, p. 257) sugeriu que a exposição de Ortega foi importante porque apareceu um ano depois do surgimento do Tratado de Documentação de Otlet e apontava para os problemas gerais do documentalista na sociedade contemporânea. De certo modo, isto foi o prenúncio da necessidade de teorias documentais para a formação de especialistas em documentação na Espanha.
Além disso, os autores ressaltam que Javier Lasso de la Vega (1892-1990), colaborador do filósofo, seria o introdutor da Documentação. Os trabalhos de Lasso de la Vega, a partir de 1947, período em que a Documentação de Otlet começou a ser conhecida mundialmente. Lasso de La Vega foi uma figura importante no cenário da Documentação espanhola, e ao mesmo tempo muito contraditória, por sua relação com a ditadura franquista. Segundo López Yepes (1995), Lasso de La Vega estudou, com independência da Biblioteconomia, o fenômeno da Documentação, publicando em 1947 um manual chamando a atenção para a
documentação científica e bibliografia 10. Diferentemente do Brasil, a recepção da Documentação na Espanha passou por – além de uma corrente biblioteconômica de inclusão destas práticas ao rol das atividades bibliotecárias, tal como assevera García Ejarque –, uma interpretação arquivística, em meados de 1960, por Sánchez Belda e Pescador del Hoyo (LÓPEZ YEPES, 1995).
Outros fatos de especial interesse sobre a Documentação na Espanha sucederam-se entre as décadas de 1960 e 1970, segundo López Yepes e Ros García (1993):
1961 – o surgimento da Sección de Documentación do Boletín de la Dirección General de Archivos y Bibliotecas; 1962 – o Cuerpo de Facultativo de Archiveros y Bibliotecarios que encararam a chegada dos conceitos da Documentação; 1962 – a realização de Mesa redonda sobre Documentação, em que Matilla afirma que Documentação é um novo campo de atividades;
1963 – o fato de as bibliotecárias catalãs Rovira y Rossel realizarem o processo dinâmico que representa a Documentação frente ao tradicional e estático do bibliotecário; 1963 – a realização da jornada do II Congresso Nacional de Bibliotecas;
1967 – a Fundación Fondo para la Investigación Económica y Social de las Cajas de Ahorros Confederadas, dirigida por José M. Desantes Guanter;
1969 – o surgimento do Boletín de Documentación del Fondo para la Investigación Económica y Social; 1969 – a publicação de trabalho de D. Juan Roger Rivière, um dos expoentes da corrente biblioteconômica-documental; 1971 – a publicação do trabalho de Vicentini, "el primero que trata de recorrer com gran minuciosidad todas las teorías y definiciones de Documentación em relación com las colidantes, ejercicio más resumido que acometía Ricardo Jereza Amador de los Rios em 1977" (LÓPEZ YEPES; ROS GARCÍA, 1993, p. 138);
1972 – a publicação de um trabalho que influenciou a discussão, de autoria de Nuria Amat, professora de Barcelona. Seu trabalho intitulado Sobre la Documentación y tratamiento documental, contribuiu em dois aspectos principais: o redescobrimento da obra de Otlet e a introdução em Espanha das ideias americanas de Borko sobre Information Science.
Antes da consolidação do ensino de Documentação que ocorreu nos anos 1990, outras experiências formativas fizeram parte da história da Biblioteconomia na Espanha. É o caso, por exemplo, da criação da Escola de Diplomática em 1856 que concedia o título de Paleógrafo para atuar em arquivos e bibliotecas, também destacado anteriormente por García Marco (2013, p. 490).
Como já mencionado, a criação da escola de bibliotecárias da câmara dos deputados da Catalunha, em 1915, a formação em documentação oferecida pela escola de auxiliares em pesquisa pelo Consejo Superior de Investigaciones Científicas, de 1942 a 1973, a escola de documentalistas com formação técnica para atuação como arquivistas, bibliotecários e arqueólogos, de 1952 a 1986 e, por sua vez, a escola de bibliotecárias da Universidade de Navarra, criada em 1967 e que teve as atividades encerradas em 1977, formando os próprios quadros profissionais para atuação junto a universidade (ORERA ORERA, 2002a, 2002b).
Infere-se pelo exposto que as ações formativas funcionavam isoladamente e não permitiram a constituição de um discurso único da categoria profissional, bem como a articulação dos professores em um plano comum para o desenvolvimento da Documentação, nos níveis acadêmico e profissional. Essa pressuposta desarticulação durou até início dos anos 1980 quando se iniciou um período de institucionalização do discurso documentalista junto às universidades.
As diplomaturas em Biblioteconomia e Documentação foram aprovadas efetivamente pelo Real Decreto n. 3104 de 1 de dezembro de 1978. O contexto deste dispositivo legal, segundo fundamenta o decreto, estava relacionado às mudanças no mercado de trabalho cultural e científico.
Los efectos de la reforma educativa en los diversos sectores sociales, las necesidades del movimiento cientifico de nuestra epoca y las exigencias aparecidas como consecuencia del desarrollo de las distintas profesiones, asi como la politica de promocion socio-cultural a traves de la difusión del libro, aconsejan crear los cauces necesarios para la promocion de los estudios de biblioteconomia y documentacion que demandan los aludidos desarrollados culturales y cientificos. (ESPANHA, 1979, p. 368).
Um aspecto importante deste ato administrativo é que se estabeleceu que os cursos deveriam ser considerados como de educação universitária. Além disso, relacionou de modo político os campos de Biblioteconomia e Documentação, não aparecendo no cenário destas discussões como cursos independentes de Arquivologia, como ainda se configura. Outro elemento a destacar trata-se da responsabilidade na organização curricular, a saber:
Las escuelas universitarias de biblioteconomia y documentación organizaran sus enseñanzas conforme a los planes de estudios elaborados por las propias universidades, que serán sometidos a la aprobación del ministerio de educación y ciencia, oida la junta nacional de universidades, de acuerdo con lo dispuesto en el articulo treinta y siete de la ley general de educación. (ESPANHA, 1979, p. 369).
A despeito de os avanços da legislação, poucos cursos universitários foram criados na sequência da aprovação do ato. Embora tenha ocorrido no período de expansão da população universitária, parece não ter seguido uma articulação do campo profissional. Em outras palavras, não se efetivaram, via sindicatos e órgãos representativos, ações que regulassem o mercado de trabalho, com vistas a permitir que os egressos – que em princípios de 1990 possuía um número elevado – se incorporassem obrigatoriamente em suas áreas de competência. Concorreu também para esta desarticulação, de uma maneira circunstancial pode-se dizer, a diminuição da população.
Em termos de concepção do ensino superior, até as reestruturações propostas pelo Plano de Bolonha, o sistema espanhol estava dividido em ciclos formativos. A estrutura cíclica contemplava um primeiro ciclo, que atribuía o título acadêmico de diplomado, um segundo ciclo, em que se obtinha o título de licenciado e um terceiro ciclo, para a obtenção do título de doutor.
A Documentação não era conhecida como um curso universitário antes da ditadura. A formação profissional dava-se principalmente em serviço, isto é, no próprio local de trabalho e em cursos isolados. O monopólio da reprodução dos quadros profissionais era controlado pelas próprias corporações e organizações. Este fato começa a ser questionado com a ampliação de vagas docentes das universidades espanholas.
Os cursos universitários de documentação começaram a ser oferecidos na segunda metade de 1985, mas com dificuldades no que se refere à vinculação dos professores com a disciplina Documentação, haja vista que a maioria provinha de outras áreas, principalmente das humanidades.
A esse respeito, é esclarecedora a análise de López Yepes (2002c) sobre as teses de professores no campo da Documentação e a sua orientação temática. Segundo o autor, em 1971, foram defendidas as teses dele próprio, em Literatura espanhola, e de Félix Sagredo Fernández, em História; na sequência, em 1983, foi defendida a tese de Mercedes Caridad Sebastián em Documentação – a primeira nesta área segundo o registro de López Yepes (2002c, p. 48) – além das teses de Antonio García Gutiérrez, em 1984, também em Documentação, de José Antonio Moreiro González, em História, em 1984 e por Luis Fernando Ramos Simón, em 1987, na área de Jornalismo.
Continua López Yepes (2002c) mencionando que, no princípio dos anos 1990, foram defendidas as teses de Féliz de Valle Gastaminza (1990) em Documentação e de Blanca Neves Espinosa Temiño (1992), junto ao departamento de Geografia e História. Exceto a tese de Moreiro, defendida na Universidad Nacional de Educación a Distancia, as demais foram depositadas na Universidad Complutense de Madrid, o que pode tê-la configurado como um primeiro núcleo de investigação e formação de pesquisadores em Documentação. Uma característica destacava-se nesta primeira geração de docentes, o fato de a formação em nível de graduação (diplomatura e licenciatura), estar vinculada às áreas de Letras, História e Filosofia, e em segundo lugar, Jornalismo, Direito, entre
outras áreas. 11
Os ensaios e as narrativas sobre as teorias do documento e Documentação surgem na Espanha na década de 1970, por uma razão muito particular, o oferecimento de vagas para professores em universidades que possuíam cursos de Documentação (LÓPEZ YEPES, 2002c, p. 68). Isso permitiu, entendese, um amadurecimento teórico precoce em relação a outros países latino-americanos, em especial, a reflexão e a exegese sobre teóricos clássicos da Documentação, como Otlet, até este momento não traduzido para o português.
Nos anos 1980, o processo de consolidação da Documentação no sistema universitário consolidou-se e ampliou-se notavelmente. O Real Decreto n. 1497/1987, que regulava o ensino superior na Espanha, definia que
El primer ciclo de las enseñanzas universitarias comprenderá enseñanzas básicas y de formación general, así como, en su caso, enseñanzas orientadas a la preparación para el ejercicio de actividades profesionales. (ESPANHA, 1987, p. 36640).
O Real Decreto estabelecia também a definição dos cursos de segundo ciclo, os quais revelavam a tendência de aprofundamento das especialidades
El segundo ciclo estará dedicado a la profundización y especialización en las correspondientes enseñanzas, así como a la preparación para el ejercicio de actividades profesionales. (ESPANHA, 1987, p. 36640).
Em termos de duração dos cursos, de primeiro e segundo ciclos, media-se por curso acadêmico (ano escolar), o qual estava condicionado ao número de créditos mínimo e máximo anuais. Desse modo, um primeiro ciclo possuía três cursos acadêmicos de duração, enquanto o segundo ciclo de ensino universitário estava organizado em dois cursos acadêmicos, com exceção dos cursos de Medicina e daqueles que possuíam um primeiro ciclo de apenas dois anos, tais cursos poderiam oferecer a licenciatura com mais um ano acadêmico.
O Real Decreto n. 1497/1987 estabelecia também a duração dos cursos em créditos. Nesse sentido, a carga horária letiva girava em torno a 60 e 90 créditos por ano acadêmico, e também condicionava a natureza das matérias ofertadas durante a semana
[...] oscilará entre veinte y treinta horas semanales, incluidas las enseñanzas prácticas [...] En ningún caso la carga lectiva de la enseñanza teórica superará las quince horas semanales. (ESPANHA, 1987, p. 36640).
Assim, o diplomado deveria cumprir entre 180 a 270 créditos, em três anos letivos, enquanto para ser licenciado deveria cumprir mais dois anos acadêmicos (ou três no caso de Medicina), ou o correspondente em créditos que variava entre 120 a 180 créditos.
A definição do Real Decreto de 1987 estabelecia como convenções básicas: plano de estudos, para o que se entende por estrutura curricular do curso, e crédito, que naquela época estava definido como
La unidad de valoración de las enseñanzas. Corresponderá a diez horas de enseñanza teórica, práctica o de sus equivalencias. La obtención de los créditos estará condicionada a los sistemas de verificación de los conocimientos que establezcan las Universidades. (ESPANHA, 1987, p. 36640).
Também foram estabelecidas as disciplinas troncais ou disciplinas que se exigia nacionalmente para o titulado; estas eram obrigatórias, mas outras obrigatórias poderiam ser agregadas segundo a universidade, a qual também devia oferecer as optativas.
A maioria dos cursos de diplomatura em Documentação foi criada final dos anos 1980 e início dos anos 1990 nas universidades, como se pode observar: Barcelona (1982), Granada (1983), Salamanca (1987), Murcia (1988), Zaragoça (1989), Carlos III (1990), Complutense (1990), León (1990), Extremadura (1994), San Pablo (1994 e fechado em 2003), La Corunha (1996), Faculdade de Geografia e História de Valência (1996) e Vic (1998). Tais dados da diplomatura foram analisados por Orera Orera (2002a, 2002b) e parcialmente por Frías (2008).
Na diplomatura, forneciam-se conhecimentos básicos para o exercício da profissão. Sánchez Casabón e Ubieto Artur (1994) explicam que a organização curricular da diplomatura estava disposta em matérias ou grandes áreas temático-curriculares, a saber: análise e linguagens documentais, arquivística, bibliografia e fontes de informação, biblioteconomia, documentação geral, técnicas historiográficas de pesquisa documental, tecnologias de informação e idiomas.
O processo de institucionalização, através da estruturação curricular, culminou no regulamento das diretrizes curriculares que definiu as grandes áreas de interesse da Documentação, e legitimou o nascimento da especialização, materializada na licenciatura de segundo ciclo e na sequência com o doutorado, de terceiro ciclo. De um ponto de vista histórico, é pertinente observar a reflexão de García Marco sobre o crescimento das instituições formadoras e do próprio campo da Documentação.
El país se había desarrollado; las empresas, administraciones y los centros educativos y de investigación necesitaban gestionar una documentación siempre creciente; y parecía que habría dinero para acometer nuevas políticas y proyectos. Por otra parte, los estudios se diseñaron fundamentalmente ligados a las humanidades, pero con una perspectiva aplicada que ofrecía nuevas salidas profesionales en un ámbito con demasiados estudiantes y menguantes perspectivas de empleo. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 490-491).
A passagem dos anos 1980 para os 1990 foi marcada pelo amplo crescimento do campo da Documentação na Espanha, talvez o período mais significativo em termos quantitativo. Uma das características passíveis de observação e que responde à peculiaridade da Documentação na Espanha, é expressa no perfil dos professores que assumiram postos de trabalho naquele período. Os contatos disciplinares da Documentação foram influenciados, sobretudo, pelas áreas de origem dos professores, isto é, do curso básico de graduação e porventura da pós-graduação dos novos professores que entraram durante o final de 1980 e início de 1990. Este fato foi determinante na configuração dos vínculos epistemológicos e interdisciplinares no campo da Documentação.
Um exemplo modelar é o fato de professores com formação profissional em Filologia e Linguística que tiveram que se voltar ao campo da Documentação, a ser construído, e nesse sentido, elegeram como disciplinas e linhas de pesquisa àquelas afinadas a seu domínio básico, como as disciplinas de classificação, de análise documental de conteúdo etc. Se não é possível generalizar sobre esta questão, pode-se tão-somente sugerir como uma hipótese explicativa das importantes contribuições linguísticas à Documentação dessa primeira geração de docentes.
Exatamente no início dos anos 1990 a situação se inverte em relação aos anos 1970, em que as estruturas formativas eram escassas e pouco articuladas. Em 1990, um número significativo de cursos foi criado e, consequentemente, potencializou-se a demanda por planejamento do campo. É formalmente o que procura levar a
cabo o Real Decreto n. 912/1992 12 que criou a licenciatura em Documentação, e que em 2008, já era oferecida em doze universidades, auge da formação – se é que se pode afirmar – nas universidades, a saber: Alcalá de Henares (1994), Autônoma de Barcelona (1999), Barcelona (1998), Carlos III (1994), Complutense (1996), Extremadura (1997), Granada (1994), Múrcia (1998), Oberta da Catalunha (1999), Politécnica de Valência (1997), Salamanca (1994) e La Corunha (2003). (FRÍAS, 2008, p. 70; ORERA ORERA, 2002b, p. 181).
Segundo Sánchez Casabón e Ubieto Artur (1994, p. 45), a licenciatura não significa a continuação da diplomatura, mas um complemento que garantia uma maior especialização. O acesso à licenciatura era garantido para o diplomado em Biblioteconomia e Documentação, além de outros diplomados, ainda que estes últimos devessem cumprir disciplinas básicas da área, o que também já estava disposto no Real Decreto n. 912/1992.
Isso garantiu a diversidade de formação dos licenciados para o exercício profissional, por exemplo, poderiam inscrever-se diplomados em Letras, Informática, Administração ou História para realizar a licenciatura em Documentação. De acordo com García Marco,
La licenciatura abordaba fundamentalmente la formación en gestión — planificación, gestión y evaluación — y en las tecnologías de la información y la comunicación — sistemas, telemática, bases de datos, sistemas expertos. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 491).
A sequência formativa era concluída com o doutorado, que em 2002 era oferecido pelas universidades de Alcalá, Carlos III, Complutense, Granada, Múrcia, Salamanca, Valência e Zaragoza. Esse talvez tenha sido o mais elevado estágio da consolidação da ciência da Documentação na Espanha, em todos os estratos formativos, da graduação ao doutorado. Contudo, alguns movimentos paralelos já sinalizavam o teor das próximas mudanças que se avizinhavam.
Em 1999, a situação da política científica e educacional se alterou com as convenções europeias para a integração do ensino superior, materializadas na Declaração de Bolonha. Essa declaração foi mais emblemática que outras, pois as discussões para um espaço europeu de ensino já se faziam presentes nas reuniões dos ministros, as quais resultaram também em declarações, como a de Sorbone (1998), assinada por França, Alemanha, Itália e Reino Unido.
A declaração de Bolonha nada mais fez que propor um conjunto de medidas que afetariam drasticamente os sistemas de ensino nacionais europeus, como o da Espanha, e previa alcançar altos níveis de equivalência nas titulações e certificações. Entre as principais medidas estavam: a) a adoção de um sistema de títulos compatíveis por meio de um suplemento europeu, b) adoção de dois ciclos formativos: graduação (mínimo de 3 anos) e pós-graduação (mestrado e doutorado), c) um sistema de créditos europeu que garantisse a mobilidade dos alunos e o reconhecimento de títulos, que representava entre 25 a 30 horas de atividade discente, d) mudanças associadas à mobilidade de pessoas e cooperação, pois que se referiria ao acesso aos sistemas de ensino, fluxo de pesquisadores e de pessoal administrativo (DECLARACIÓN DE BOLONIA, 1999).
Ademais da circulação de mercadorias, o sistema deveria garantir a circulação das pessoas, principalmente dos especialistas, pesquisadores e profissionais. Em decorrência da circulação de pessoas em território europeu, em especial, profissionais bem formados e investigadores, a Espanha enfrenta nos últimos anos (a partir de 2008) um fenômeno que acompanhou a Europa em momentos de crise econômica, isto é, a saída de especialistas e cientistas a outros centros de excelência em que se oferecem melhores salários e condições dignas de emprego. Um exemplo, foi noticiado por Játiva, a respeito da situação espanhola.
Para el coordinador del CSIC, "el comportamiento del Gobierno de España en estos momentos está generando un tsunami sobre el sistema de I+D+i español, del que solo se observan por ahora "algunos de sus desastrosos
efectos". La verdadera dimensión del desastre se verá "cuando se retiren las aguas". (JÁTIVA, 2003, on-line).
Não somente no campo da ciência, mas em âmbito geral, a flexibilização dos sistemas de ensino facilitou a assimilação de profissionais espanhóis em países como Alemanha, Inglaterra e França, somente para citar países mais prósperos da União Europeia nos últimos anos. Nesse contexto competitivo, a Documentação teve que se refazer e tentar promover uma renovação curricular que a colocasse no mesmo nível de formação dos outros países da Europa.
Segundo a avaliação de Agustín Lacruz (2008a, p. 27), o processo de Bolonha não reuniu países semelhantes em termo econômicos e de desenvolvimento educativo. Ao contrário, o processo ocorreu em condições diferentes segundo cada país. Desse modo, por exemplo:
El estado del proceso muestra grandes diferencias a lo largo y ancho de Europa, países como Dinamarca, Islandia, Holanda, Gran Bretaña, Hungría, Alemania, Suiza, República Checa, Irlanda, Letonia o Polonia están situados a la vanguardia del proceso. Mientras tanto, Portugal, Grecia, Macedonia, Croacia, Andorra, Albania, Malta o Turquía están claramente ubicados em el furgón de cola de la convergencia. (AGUSTÍN LACRUZ, 2008a, p. 27).
Na Espanha, por exemplo, para dar prosseguimento às iniciativas do tratado de Bolonha, foi criado um conjunto de atos administrativos que alterou o sistema de ensino em vigor, como os reais decretos 1025/2003, 1044/2003, 1125/2003, 49/2004, 285/2004, 55/2005, 56/2005, 1393/2007, e leis orgânicas 6/2001 e 4/2007 (AGUSTÍN LACRUZ, 2008a, p. 28).
Foi elaborado um material de referência intitulado Libro Blanco del Título del Grado em Información y Documentación (2004) que tratou de realizar os estudos necessários para a construção de uma graduação adaptada ao Espaço Europeu de Educação Superior, em que contou com a participação da maioria das universidades que oferecia cursos de licenciatura e diplomatura em Biblioteconomia e Documentação. Em consequência, alterou-se a configuração existente entre ensino profissional básico e ensino especializado, garantido pela licenciatura, e propôs-se a unificação do primeiro e segundo ciclos desde então.
La titulación que se propone – Información y Documentación – es el resultado de la integración de dos titulaciones: la diplomatura en Biblioteconomía y Documentación y la licenciatura de segundo ciclo en Documentación. (ANECA, 2004, p. 9).
Esse material de referência à formação na área de Documentação avalia a oferta de ensino na Europa, os modelos vigentes e sugere organizar o sistema em dois níveis: graduação e pós-graduação, tal como preconiza o tratado de Bolonha. Apresenta, sobretudo, um conjunto de conteúdos obrigatórios para a graduação em Informação e Documentação, destacando-se as áreas a que se
referem e o total de créditos mínimos 13.
Tal processo realizado recentemente junto aos cursos de Documentação na Espanha consolidou a vinculação dos termos información e documentación como representativos para a denominação do campo, incluindo também os temas ligados aos arquivos e demais centros de documentação. De acordo com Frías,
La nueva denominación quiere poner el acento em que la información y la documentación son los núcleos centrales que comparten todos los profesionales que trabajan en la gestión de la información y la documentación sin destacar ninguno de los ámbitos de trabajo. (FRÍAS, 2008, p. 76).
Em levantamento realizado junto a Agencia Nacional de Evaluación de la Calidad y Acreditación – ANECA (2015), em 2015, constavam doze cursos de Graduação em Informação e Documentação na Espanha, nas instituições: Universidad de Extremadura, Universidad de Granada, Universidad de León, Universidad de Valência, Universidad de Complutense de Madrid, Universidad de Murcia, Universidad Oberta da Catalunha, Universidad de Barcelona, Universidad de Alcalá, Universidad de Salamanca, Universidad de Zaragoza e Universidad Carlos III de Madrid. Segundo a ANECA, apenas as universidades Oberta de Barcelona, Murcia, Camplutense e Carlos III possuíam um programa de doutorado associado à área de Documentação. Contudo, no primeiro semestre de 2015 foi criado o doutorado em Informação e Comunicação, oferecido conjuntamente pelas instituições Universidad de Zaragoza, Universidad Autónoma de Barcelona e
Universidad de Barcelona14.
De maneira geral, em Documentação pode-se considerar que "[...] los objetivos del EEES están en buena parte conseguidos o, al menos, bien encaminados [...]" (GARCÍA MARCO, 2013, p. 493). Não obstante, alguns programas de formação ainda estão vigentes, especificamente os que estão em funcionamento em acordo ao Real Decreto 1393/2007.
No que se refere à ênfase do curso, pode-se destacar as palavras de García Marco
En España el enfoque en la información y la documentación hemos visto que conecta más con el espíritu de la gestión de la información más que en el cambio digital; lo cual, paradójicamente, le proporciona un toque "retro" respecto al movimiento de los iStudies, que debe hacernos reflexionar de cara al futuro próximo, ya que los estudiantes y empleadores del futuro van más en esta última línea, sin descuidar sus grandes aportaciones. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 493).
Um fenômeno associado também aos programas de doutorado é o recente agrupamento de campos de conhecimento. A título ilustrativo, um programa doutoral em Sociologia pode juntar-se a programas de Educação, Antropologia, Filosofia e Artes para formar um doutorado "guarda-chuva" em Humanidades. Desse modo, as diversas áreas do conhecimento na universidade espanhola têm sido organizadas como linhas de pesquisa em um doutorado "guarda-chuva", reduzindo drasticamente o número de cursos de doutorado e afetando a autonomia das áreas em questão. Além disso, para otimizar recursos financeiros e pessoal, as universidades espanholas estão organizando grandes doutorados interuniversitários (como é o caso do programa em Informação e Comunicação supracitado).
Essa tendência não é uma exclusividade das Ciências Humanas, mas está sendo praticada em áreas como Ciências Médicas, Ciências da Saúde, Engenharias e Ciências Exatas. Discute-se atualmente o fechamento, não apenas de cursos de graduação ou campos científicos, mas de algumas universidades públicas espanholas. Isso, acaso se concretize, terá supostamente uma repercussão na oferta de cursos em Documentação.
Tais elementos apresentados fornecem uma leitura contextual da questão da Documentação nos anos mais recentes. Nesse sentido, são esclarecedoras as palavras de García Marco,
En España atravesamos un período de crisis de consolidación de los estudios, después de que un crecimiento muy intenso y acelerado se haya revelado insostenible, una especie de "burbuja" que se inserta dentro del proceso general que ha vivido España en los últimos años. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 494).
A análise da literatura permite verificar que em contraste à realidade brasileira, que está em amplo crescimento devido aos programas de ampliação da oferta universitária nas instituições federais de ensino, os especialistas espanhóis em Documentação estão conscientes do processo pelo qual estão passando. Segundo examina García Marco,
Vivimos un cambio de época y es lógico que la enseñanza de la información y la documentación se vea afectada tanto en el ámbito internacional como en el español. Las últimas décadas han culminado en una economía mundial profundamente entretejida por la división del trabajo y los flujos comerciales y financieros; una enorme movilidad de la población, los productos y las ideas; y una red mundial de intercambio de información que da soporte a todos estos flujos, potenciada recientemente por las tecnologías sociales, y cuyas deficiencias, resultado de su espectacular crecimiento, empiezan a ser abordadas con nuevas iniciativas, como la web semántica. Esta nueva oleada de la globalización es una realidad insoslayable, y constituye a la vez una amenaza y una oportunidad. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 500).
Ortiz-Repiso, Calzada-Prado e Aportela-Rodríguez (2013, p. 506) relacionam um conjunto de elementos que são apontados para contextualizar a situação recente: o aumento rápido das matrículas entre os anos 1982 e 1999, a estabilização nos primeiros anos de 2000 e a queda vertiginosa das matrículas ainda sem se resolver; as opções profissionais; o desprestígio da profissão de documentalista; a situação socioeconômica inadequada; o número de bolsas de estudo disponível considerado insuficiente; o aumento dos preços
das matrículas em vários níveis de ensino15; o oferecimento de titulações de mestrado e especialização em Arquivologia e Museologia por outros departamentos etc.
Em contraste, contam os autores que a taxa de matrículas de mestrado e doutorado se mantêm, e dependendo do ano acadêmico avaliado até aumentou. Contudo, uma avaliação mais criteriosa sobre a nacionalidade dos pós-graduandos pode responder a questão da dimensão quantitativa da área na Espanha e o número de profissionais espanhóis realmente envolvidos com a pesquisa do campo da Documentação, pois é notório que as universidades espanholas têm uma taxa elevada de teses defendidas por estrangeiros, o que não implica a manutenção desses especialistas no mercado de trabalho ou na docência em cursos de Documentação na Espanha. Em outras palavras, a taxa regular de matrículas de doutorado não significa, em absoluto, manutenção do número de matrículas de profissionais espanhóis.
É possível que as modificações realizadas no contexto do plano Bolonha e as medidas para diminuir a taxa de procura pelos cursos de Documentação, não tenham obtido o resultado esperado ainda.
Por los datos analizados, podemos concluir que este objetivo no se ha conseguido. Aunque se ha remontado algo, la matrícula de nuevo ingreso lleva, de manera general, un camino descendente y las tasas de abandono, más altas de lo deseado, contribuyen a aumentar ese descenso en niveles de sostenibilidad. (ORTIZ-REPISO; CALZADA-PRADO; APORTELA- RODRÍGUEZ, 2013, p. 512)
A Documentação, em termos institucionais, experimentou após a ditadura franquista e a nova constituição um amplo crescimento. O número de cursos se ampliou, os instrumentos jurídicos que padronizavam o ensino foram desenvolvidos e as vagas e os concursos para docentes (oposiciones) foram criados nos anos 1980. Esses concursos motivaram diversos especialistas de formações variadas a se dedicarem a pensar a Documentação na Espanha, e as principais contribuições à área talvez possam ter nascido neste período. Na década de 1990, a Documentação se especializa, os departamentos começam a oferecer a licenciatura, os primeiros programas de doutorado foram implementados e a primeira geração de doutores em Documentação sai das universidades. Nos anos 2000, a situação se altera, devido à diminuição do número de alunos e o desenvolvimento paralelo das políticas do processo Bolonha.
Nesse boom da Documentação na Espanha, alguns aspectos não foram resolvidos e que, se presume, manteriam a área mais robusta frente às mudanças perpetradas no contexto europeu. Um exemplo talvez seja o da regulação do exercício profissional que não se levou a cabo via instrumentos jurídicos de proteção dos profissionais e garantia de estabilidade. Nesse sentido, dezenas de alunos saíram das universidades sem uma segurança a respeito da área e dos postos de trabalho de documentalistas. Também se alia ao fato da entrada nos cursos não corresponder às necessidades do mercado, isto é, uma quantidade expressiva de alunos ingressou nos cursos na década de 1980, em alguns casos, em torno de 200 por curso, muito mais que o mercado poderia absorver, o que ampliou de uma hora para outra o número de profissionais no mercado, os quais, se aposentariam após 30 ou 35 anos de trabalho. Isso, logicamente, dificultou o ingresso aos postos de trabalho dos novos egressos das universidades, o que, ao passar do tempo, afetou a procura pelos cursos.
Em pouco mais de trinta anos, a Documentação na Espanha desenvolveu-se, consolidou-se e na última década tem sofrido com a rápida diminuição em termos quantitativos, especialmente medido pelo número de alunos de graduação, mestrado e doutorado. Deve-se ter em mente esse movimento de abertura, ascensão e recente derrocada ou arrefecimento quando se avalia as relações disciplinares da Documentação.
Nesse mesmo período, os estudos de pesquisadores espanhóis em Documentação foram fundamentais para a abertura de novas linhas de investigação, especialmente via uma análise epistemológica e histórica da Documentação, como se discutirá a seguir.
Devem-se destacar alguns aspectos do conceito de Documentação, que se presume, incorporouse à vertente espanhola. Entre as correntes da Documentação, Sánchez Belda e Pescador del Hoyo (1993, p. 137) mencionam: biblioteconomia tradicional, biblioteconômico-documental – esta vê as diferenças entre as disciplinas e considera a Documentação como instância que supera as técnicas anteriores –, a corrente arquivística, a qual as autores se incluem.
Foi fundamental para o conceito de Documentação o redescobrimento da obra de Otlet, a qual recebeu uma contribuição espanhola considerável de interesse à história da Documentação, o conceito de documentação como disciplina independente, área de conhecimento e conjunto de ramos do conhecimento, como ciência e como técnica, tendo, pois, a informação documental como objeto e seu desenvolvimento no processo informativo (SÁNCHEZ BELDA; PESCADOR DEL HOYO, 1993, p. 138).
A criação do título universitário de licenciado em Documentação acelerou, de certo modo, a necessidade de considerar a "documentação" segundo uma perspectiva consensual.
Documentación puede entenderse como conjunto de las disciplinas (Ciencias de la Documentación) relacionadas com el estudio del documento como fuente de información para obtener una nueva información o una toma de decisiones, disciplinas que son materia de estudio, por ejemplo, em una Licenciatura en Documentación (Archivística, Biblioteconomía, Bibliografía, documentación, Museología). (LÓPEZ YEPES; ROS GARCÍA, 1993, p. 141).
A Documentação está estreitamente ligada ao desenvolvimento das ideias de Paul Otlet, assim como seu trabalho no Instituto Internacional de Bibliografia. A palavra "documentação" substituiu "bibliografia" devido a uma influência holandesa dentro da federação internacional de documentação, segundo López Yepes (2002b, p. 40).
Na Espanha, a despeito de o reconhecimento de Otlet e de sua visão integral da ciência e das atividades de documentação, López Yepes e Ros García (1993) aludiram há algum tempo às demais influências da Documentação em outras partes do mundo ocidental, especialmente, as perspectivas Biblioteconômica – relacionadas à Bradford e Shera –, Ciência da Informação ou informativa – que alude à influência de Calvin Moores, Georgia Tech, American Documentation Institute e culminando no trabalho de Borko –, além disso, reconheceram a participação alemã e russa na Documentação internacional.
Essa forma de entender de maneira plural a Documentação oferece ao pesquisador um conhecimento contextualizado das perspectivas e narrativas epistemológicas. A categoria teórica chamada "perspectiva" é notadamente encontrada nos trabalhos de López Yepes (1995; 2002b) e serve para retirar da leitura da Documentação quaisquer tipos de caracteres transnacionais, isto é, visões que tentam fundar a Documentação sob uma doutrina coerente e unânime sobre as de outros países. Desse modo, os documentalistas espanhóis conseguiram entender seu estágio de desenvolvimento em comparação às demais perspectivas, versões ou narrativas da Documentação, sem imputar a todas uma única versão vencedora, isenta de referenciais históricos, políticos e sociais.
O termo "documentação" pode ser entendido de um ponto de vista abrangente como um campo científico que contempla diversas disciplinas:
Como Ciencias de la Documentación, esto es, como el conjunto de las disciplinas que tienen por objetivo de estudio de un proceso informativo en el que se da una actividad de recuperación de mensajes emitidos en procesos anteriores y que, mediante análisis y tratamiento técnico, se comunican transformados con la finalidad de que sirvan de fuente de información para la obtención de nuevo conocimiento o para la toma de decisiones. (LOPEZ YEPES, 2002, p. 71).
Assim, a Documentação agregaria saberes da Biblioteconomia16, da Arquivologia e da Museologia, além de outros interessados ao estudo do processo informativo-documental, como pivô da criação de novas estruturas cognitivas. Como sumariza López Yepes,
[...] de modo más sintetico, documentación es la ciencias general que tiene por objeto el estudio del proceso de adecuación y transmisión de las
fuentes para la obtención de nuevo conocimiento. (LÓPEZ YEPES, 2002b, p. 71-72).
Para entender a configuração terminológica das profissões da informação na Espanha, deve-se compreender que o uso dos termos "bibliotecário", "arquivista", "documentalista", "museólogo" ou "gestor da informação" está muito mais ligado à prática ocupacional ou ao local em que se trabalha que com a titulação obtida, uma vez que existe uma única área nas universidades – a de Informação e Documentação – que cobre os saberes destinados a distintas ocupações. Na verdade, é a prática ou ocupação que designará o nome da profissão, e não a instrução recebida; isto é, bibliotecário será o profissional que atua em biblioteca, como ou sem formação em documentação, o mesmo vale para o arquivista.
A esse respeito, profere as palavras López Yepes em seu intento conciliador e para evitar a diáspora das ocupações.
Desde el primero de los supuestos, el término <<documentalista>> comprende de hecho el conjunto de profesionales y estudiosos que son sujetos emisores del proceso informativodocumental y que desempeñan su función en las distintas fases del mismo: producción, tratamiento y difisión de los diversos mensajes documentarios, y que aunque mantengan su antigua o nueva denominación tradicional (archiveros, bibliotecários, bibliógrafos, documentalistas ...), están ubicados en el marco más amplio del profesional de la Información y Documentación. (LÓPEZ YEPES, 2002b, p. 72).
Para matizar esta afirmação, deve-se ter em linha de conta que a área designada como "Ciências da Informação" está relacionada ao Jornalismo, Relações Públicas, Rádio, Publicidade e Audiovisual, como área "guarda-chuva". Nos últimos anos, este quadro vem se alterando e as faculdades dessas últimas profissões universitárias estão se autodenominando faculdades de ciências da comunicação. Isso coloca novamente a necessidade da discussão da nomenclatura da área de estudo, pesquisa e prática profissional.
Soma-se a esse fato que até a década de 2000, a terminologia que se figurava na Espanha era Biblioteconomia e Documentação, para referir-se a diplomas universitários. Contudo, começou já nos anos 1990 a substituição de "biblioteconomia e documentação" por "informação e documentação", como forma mais geral ao referir-se ao campo.
López Yepes teve que reconhecer este fenômeno que antecipou o problema terminológico no campo da Documentação, até então muito alinhado à perspectiva francesa:
A la luz del cuadro subsiguiente y del conocimiento de la bibliografía, cabe estimar que los dos nombres más utilizados para designar el conjunto de las disciplinas que nos ocupan es el de Documentación y el de Información y Documentación. El uso del primero se manifiesta sobre todo en el título universitario de licenciado en Documentación. El uso del segundo viene marcado por la influencia de los institutos del CSIC y por el deseo manifiesto de dejar siempre patente el carácter informativo de la Documentación. (LÓPEZ YEPES, 2002b, p. 68).
Seguindo López Yepes, pode-se afirmar que o termo "documentación" se fortalece com a criação em 1992 dos novos títulos universitários, pois logo na sequência, um maior número de escolas incorporou esta terminologia para denominar seus cursos de graduação e, consequentemente, as disciplinas curriculares (asignaturas). Argumentou López Yepes (2002b) que "documentação" encontrou um número maior de defensores em relação a outras linhas, sem relacionar a proporção tomada pelos demais.
A narrativa implementada por López Yepes enseja a consolidação de um campo e foi objeto de trabalho nas últimas três décadas. Esses intentos produziram um quase amalgamento da concepção de Documentação, à moda espanhola, incorporando suas tradições em gestão e conservação de documentos históricos e as novas tecnologias digitais para o acesso à informação em uma sociedade preconizada como sociedade da informação. Essa motivação definitória está presente na seguinte concepção que recorre, substancialmente, a elementos já tratados antes:
[...] Documentación es rama del saber integradora de todos los saberes y oficios relacionados con el documento; general e instrumental al servicio de todos los saberes y actividades sociales; informativa, por cuanto tiene como objeto de estudio un proceso de carácter informativo; especializada, cuando se hace operativa al servicio de una determinada rama del saber o
actividad social, y, por último, científica, cuando sirve de apoyadura para la obtención de nuevo conocimiento científico. (LÓPEZ YEPES, 2002b, p. 71).
O rechaço à Biblioteconomia e à Arquivologia como disciplinas independentes tampouco foi comentado. Particularmente, esta última definição parece pouco consistente, pois não trata do ponto de vista científico, porém representa uma tentativa de justificar a importância da disciplina perante outros campos acadêmicos e profissionais.
Nesse sentido, não se vê a necessidade de tal fundamentação, pois se procura atuar em um nível ideológico, distanciando-se do teórico-explicativo. Talvez seja um sintoma mesmo da posição deste campo no cerne das demais áreas profissionais e disputas corporativas: a de constituir uma narrativa científica.
A Documentação nasce sem um referencial institucional anterior que rivalizasse a sua chegada, como, por exemplo, poderia ter sido – caso houvesse antes – a dos cursos de Arquivologia e Biblioteconomia e associações profissionais já montadas e com uma narrativa de existência estatuída. Sem potenciais raízes materiais (faculdades e cursos de graduação já consolidados) ou sem uma quantidade expressiva delas, a estruturação epistemológica da Documentação, no caso espanhol, partiu para uma narrativa agregadora, ampla, generalizante, o que, com efeito, pode ter causado o próprio escasseamento do significado.
O problema terminológico ainda consiste, como pode ser notado no trabalho recente de García Marco,
Es verdad que el término Biblioteconomía y Documentación presentaba muchos problemas para categorizar a nuestro estudios, pero al menos era reconocido por los estudiantes de enseñanzas medias de humanidades como una salida profesional y, por tanto, como una carrera a la que dedicarse. Por otra parte, el término Información y Documentación es más abarcador e incorpora sin ambages la revolución de internet, pero no conecta — o al menos no lo hace todavía — con el antiguo público de estudiantes de humanidades. Es más, es posible que los títulos de las asignaturas incluso espanten a nuestros clientes tradicionales, pues aparecen claramente inscritos en los campos de la tecnología y la gestión. (GARCÍA MARCO, 2013, p. 497).
Essa dificuldade de estabelecer consensos se superdimensiona durante um período crítico para a Documentação na Espanha, no que se refere à configuração universitária. Em certo sentido, a carência de universidades públicas gratuitas pode significar um problema, juntamente com a falta de regulação do mercado – isto é, entrada regulada segundo a demanda do mercado e não de acordo com a capacidade formativa da universidade –, pois os campos profissionais com menos capital social e simbólico junto à população necessitam de iniciativas indutoras bem mais que outros campos. Nesse caso, a formação universitária pública, com exigência de taxas escolas, embora sejam baixas, impossibilita a formação de quadros com dificuldades financeiras que ocuparão uma vaga de trabalho.
Ainda que se considerem críticas às mudanças terminológicas e estruturais dos últimos anos na Documentação na Espanha, deve-se ressaltar a sua influência nas tradições bibliotecárias do Novo Mundo. A Documentação de raiz espanhola continuará sendo objeto de estudo em razão de sua forte influência otletiana e no caso da análise documental de conteúdo, da contribuição gardiniana. Seguirá como matéria de interesse geral, sobretudo, pela capacidade que tem demonstrado de gerar pensadores críticos sobre a teoria da Documentação.
Assim como a sua congênere brasileira, a Documentação na Espanha desenvolveu-se sob os princípios da interdisciplinaridade e criticidade, os quais requerem uma atitude revisionista constante para reinterpretar os elementos de seu desenvolvimento teórico e prático.
Observando a natureza dos problemas da linguagem da análise documental, pode-se supor que as teorias semióticas – vistas de modo amplo –, oferecem elementos teóricos e conceituais à Documentação e à Semiótica Documental na Espanha. A análise dessas abordagens será levada a cabo na seção seguinte.