Semiótica documental

Carlos Cândido de Almeida · Capítulo 5 de 11

Páginas do PDF

Semiótica documental

5. Teorias linguístico-semióticas na Documentação na Espanha

5. Teorias linguístico-

 

semióticas na Documentação

 

na Espanha

 

Passadas essas breves linhas introdutórias do contexto histórico da presença das ideias semióticas em Espanha, entrar-se-ão nas abordagens semióticas propriamente ditas, agrupando-as segundo níveis de análise e vinculações teóricas comuns. Assim, resumirse-ão algumas das tendências identificadas na seguinte ordem: a) a presença da teoria dos signos de um âmbito geral; b) as abordagens mais propriamente linguísticas na Documentação, como é o caso da Linguística Documental e; c) as abordagens híbridas que se voltam ao tratamento de documentos não convencionais.

 

5.1. Abordagens gerais

 

Destacam-se nesta seção duas fontes que revisam, de um ponto de vista genérico, a teoria dos signos. Em primeiro lugar, encontra-se o conceito de signo presente nas normas de documentação. Em segundo lugar, utilizase este expediente para fundamentar conceitualmente o tratamento e a recuperação da informação. Essas linhas se entrecruzam em um ponto, pois o recurso à Semiótica é meramente enciclopédico, conquanto, é sugestivo para se pensar o contexto de aplicação. Esse tratamento é ilustrativo de outros empregos similares.

As normas espanholas são exemplos da presença de concepções semióticas no âmbito da Documentação. A norma UNE 50-115-91, em sua segunda parte, precisamente na introdução, apresenta o seguinte objetivo:

 

Esta norma se basa en la utilización habitual de los términos, que pueden encontrarse en vocabularios nacinales relevantes, así como en

documentos de la ISO y outras organizaciones internacionales (IFLA, FID, CIA, UNESCO y OMPI) y normas nacionales, tanto publicadas como en proyecto. (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 24).

 

A seção segunda que trata dos termos e definições arrola um número razoável de conceitos básicos de disciplinas afins, tais como comunicação e informação, informação e documentação, e de organismos ou instituições. O fundamental para esta análise será a compreensão dos conceitos afetos à Semiótica.

Nesse sentido, destacam-se os seguintes termos: signo, significado, conceito e linguagem. Por signo definem "Cualquier fenómeno físico suscetible de interpretación convencional o subjetiva que, habitualmente, depende del contexto." (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 27). Em consequência, figura o conceito de significado como "Interpretación de un concepto asociado a un signo" (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 27).

A definição de "concepto" está marcadamente associada à Teoria do Conceito de Dahlberg, a saber: "Cualquier unidad de pensamiento". Em nota, consta ainda que "Un concepto se utiliza para estructurar el conocimiento y la percepción del mundo que nos rodea, sin que haya de ser expresado." (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 27). A união dos signos para formar um código é o que se entende por linguagem, isto é, um "Sistema de signos utilizado para la comunicación que consta, generalmente, de un vocabulario y unas reglas." (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 27).

As noções de signo e de linguagem utilizadas vinculam-se a uma perspectiva não peirceana, notadamente associada à abordagem semiológicolinguística de Saussure. Isso se deve, em parte, à influência da tradição estrutural na Espanha, como aludido anteriormente.

Deve-se entender que o peso de um termo em uma norma é diferente do apresentado em ocasiões diversas como aulas ou palestras em congressos, pois aí estariam sendo discutidos e analisados. Nas normas, os termos tornam-se elementos representativos de um consenso e regulam o entendimento de uma comunidade científica e profissional. Neste caso, os conceitos estandardizados consolidam uma visão semiótica, ou semântica, como assim se encontra.

Um fato digno de nota na análise dos conceitos básicos presentes nas normas é que o termo "documentación" é definido como conjunto de documentos reunidos para um fim, como também processo de tratamento da informação registrada (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 30). Contudo, não figura como ciência ou campo de pesquisa, o que sucede com os termos "archivística", "biblioteconomía" e "museología". As duas primeiras aparecem como exemplos da "ciencia de la información", e a última como estudo da organização dos museus.

A expressão "ciencia de la información" é definida como "Estudo de las funciones, la estructura y la transmisión de la información [...], así como de la gestión de los sistemas de información." (ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE NORMALIZACIÓN Y CERTIFICACIÓN, 1997, p. 31). Esse fato demonstra uma distância entre a terminologia adotada pelas normas e o uso dos termos cientificamente, pois é notória a tradição da Documentação, enquanto ciência em detrimento da expressão "ciencia de la información", reservada a outros campos. O mesmo fato é percebido na definição do termo "bibliografía" que está restrito à técnica e descrição de documentos, bem como organização das descrições. Apenas "bibliología" figura como campo de estudo das técnicas de produção e distribuição de livros.

A norma UNE 50-113-92, parte 1, apenas define os termos associados aos documentos, a sua tipologia e aspectos físicos de publicação. Para se inferir à concepção semiótica presente, deve-se olhar também as definições dos processos documentais de análise, associadas à organização da informação. Salienta-se que as normas têm um uso prático no campo profissional e nem sempre são dinâmicas ou refletem os avanços da literatura especializada de um campo.

De modo geral, as ideias presentes nas normas apontam a uma visão voltada à Linguística, decorrente da natureza das influências semióticas encontradas na Espanha. Porém, o conteúdo enciclopédico para o tratamento dos conceitos semióticos peirceanos e não peirceanos, pode ser encontrado também fora das normas.

Os temas de semiótica foram tratados de maneira panorâmica junto à discussão dos fundamentos teóricos para o tratamento e recuperação da informação. García Marco (2008) contribuiu ao debate oferecendo uma leitura geral dos principais conceitos que os alunos e os profissionais deveriam possuir em matéria de tratamento da informação. Nesse sentido, o autor explica a natureza das disciplinas Semiologia e Semiótica, apresenta os conceitos de signo, os modelos de análise (bipolares e triangulares), as classes de signos, os códigos e os sistemas semiológicos, linguísticos e não linguísticos, e os níveis de análise da língua. Para um aluno de Documentação, trata-se de um inventário de conceitos básicos das disciplinas relacionadas à linguagem, não apenas a Linguística e Semântica, mas a Semiótica como um todo. Com efeito, é uma apresentação objetiva da disciplina Semiótica para os propósitos básicos da Documentação. O recorte mais importante à Documentação é sem dúvida a noção de código. Como assevera o autor:

 

El estudio de los códigos es crítico para el documentalista. Como veremos en la siguiente unidad didáctica, un recurso fundamental del documentalista a la hora de servir a los usuarios es precisamente, la normalización de los códigos verbales naturales para hacer la comunicación documental más eficaz. Sin embargo, es impensable normalizar los códigos sin conocerlos bien. El estudio de los códigos es el ámbito de la ciencia de los signos: la Semiótica. (GARCÍA MARCO, 2008, p. 33).

 

O autor abre espaço para a Linguística, além da Semiótica e da Semiologia, indicando os conceitos, as teorias e as disciplinas associados à análise dos códigos, com o objetivo dos alunos terem conhecimentos da extensão desse campo, o qual está relacionado com várias disciplinas, tais como: Semiótica Literária, Cinésica, Proxêmica, Prosódia, Paralinguística, Gramática Transformacional, Gramática de casos, Morfologia, Lexicografia, Etimologia, Fonologia e Fonética.