Semiótica documental
5.3. Outras contribuições Linguístico-Semióticas
Se não se pode assumir a tese de que são desdobramentos coerentes sob uma mesma linha teórica, deve-se concordar com a ideia de que tratam, segundo se entende neste livro, da principal expressão teórica de aplicações semiótico-linguísticas da Documentação Espanhola, especialmente, à organização da informação e do conhecimento. Matizando as palavras de López Yepes e Ros García (1993), poderia ser dito que não há uma acabada concepção linguística da Documentação, mas que estas formam parte da principal abordagem semiótico-linguística da Documentação.
5.3. Outras contribuições Linguístico-
Semióticas
Na esteira dos estudos linguísticos em Documentação, devem-se apontar as alternativas de análise documental de imagens como diretamente relacionadas a códigos não linguísticos. Os trabalhos nessa direção podem ser muito bem classificados sob o rótulo de abordagem híbrida, pois utilizam elementos conceituais que pertencem às abordagens anteriores e que também podem estar relacionados a outras disciplinas, como Estética, Artes etc. Nessa seção serão apresentados os temas da análise semiótica de imagem que constituem, no que se entende aqui, uma abordagem híbrida que incorpora tanto abordagens não peirceana quanto peirceana, por estas estarem, ao fim e ao cabo, demasiado comprometidas com o código verbal.
Essa é uma das contribuições mais crescentes no âmbito da Documentação e que influenciará a discussão futura de uma teoria da linguagem nos termos da proposta de uma Semiótica Documental. Em outras palavras, a produção de documentos cujos códigos não são verbais (especialmente as imagens) cresceu nas últimas décadas em termos quantitativos, e os sistemas de informação que se viam acumulando experiências bem-sucedidas com a linguagem verbal – especialmente no campo da organização da informação e do conhecimento – fizeram poucas aportações nesse sentido, às vezes, por considerarem os códigos não verbais como traduzíveis ao verbal. Não é sem-razão que os documentalistas especializados em tratamento de imagens tiveram que buscar fundamentos conceituais e procedimentos analíticos em outros campos, pois pouca coisa havia sido elaborada do ponto de vista conceitual sobre esta matéria.
Os estudos do tratamento de imagens em Documentação, com objetivos de recuperação da informação, estariam posicionados dentro das abordagens híbridas, pois se fundamentam em teorias tão diversas como Semiótica, Arte, Antropologia, Fotografia, Estética, Comunicação, Linguística e Documentação. O que se tem produzido em Documentação passa desde a completa ignorância às peculiaridades dos códigos não verbais até a adaptação dos procedimentos e técnicas linguísticas aplicadas à indexação de textos e seus respectivos documentos. Entre o leque de opções, podem-se incluir a fotografia, a pintura, o som, o audiovisual etc. Há uma variedade de contribuições na Documentação na Espanha que, baseando-se em outras fontes semióticas, e não mais na linguística, tem levantado uma questão estritamente Semiótica.
Entre os vários enfoques para um tipo de documento imagético, por exemplo, a fotografia, Agustín Lacruz (2015) encontra o enfoque informativo documental, o qual entende o registro dentro de um sistema de informação e estuda a gestão de coleções de informação icônica para geram representações secundárias. Segundo a autora, os enfoques são muito diversos: enfoque historiográfico, enfoque da história das técnicas fotográficas, enfoque filosófico, enfoque artístico, enfoque antropológico, enfoque sociológico, enfoque psicológico, enfoque semiótico-semiológico (em que se destacam os nomes Barthes, Dubois, Joly, Santaella, Noth, Zunzunegui, Gubern etc.), enfoque educativo e, por fim, enfoque informativo-documental. Os autores que mais se destacaram no enfoque documental, segundo Agustín Lacruz (2015), foram Felix del Valle, Joan Boadas, Cécile Kattnig, José António Moreiro, Jesús Robledano, Juan Francisco Torregrosa, Carmen Agustín, José Miguel Sánchez e Javier Marzal. Os teóricos aportados são, em sua maioria, espanhóis.
Essa corrente de estudos, se é que se pode designar assim, em Documentação, não deve excluir, em seu laborioso trabalho, o tratamento da imagem para fins de recuperação da informação, bem como a busca de fundamentos semióticos para ler as imagens. Leitura essa que supõe as noções semióticas de código, índice, ícone etc. O propósito principal é ler a imagem, atribuir significado a ela, e, por conseguinte, organizar coleções e facilitar a recuperação desses documentos. Esse tema abre espaço para a questão: até que ponto os documentalistas estão preparados para conhecer e tratar informação em outros códigos, sobretudo, as imagens?
Um código imagético, por exemplo, requer uma estrutura conceitual vinculada à Semiótica, mesmo que seja de uma derivação da linha semiológico-estrutural. As propostas de análise documental do conteúdo imagético desenvolvidas no contexto da Documentação merecem uma análise mais ampla de seus fundamentos teóricos. A título ilustrativo, Agustín Lacruz assevera:
Que as Ciências da Documentação, através de um enriquecedor diálogo disciplinar com outras ciências como a Semiótica e a Iconologia, possam incorporar as imagens artísticas como um de seus objetos de estudo, ampliando seu elenco tradicional. (AGUSTÍN LACRUZ, 2006b, p. 45).
No caso específico, tratava-se de imagens artísticas, resultado da produção de quadros por um pintor consagrado. O que se sucede é um descompasso entre o discurso teórico-progressista da Documentação, e as técnicas que desenvolve, ainda devedoras das formas linguísticas de produção e tratamento do conteúdo dos documentos.
A imagem é uma entidade polissêmica, há várias possibilidades de interpretação para a mesma imagem, dependendo do sujeito e do contexto cultural. Devese analisá-la segundo vários níveis e formas. A esse respeito, Agustín Lacruz (2006b) discute a utilização de documentação bibliográfica e informativa tradicional no processo analítico do conteúdo para complementar as informações não diretamente presentes na imagem, a exemplo do caso dos retratos de Francisco de Goya.
O texto artístico – noção que deve ser reintroduzida no debate em Documentação – é também uma evolução teórica que pode ampliar a noção de documento. Segundo Agustín Lacruz,
Essa contribuição epistemológica procedente da Semiótica alcança uma grande relevância para as Ciências da Documentação, pois possibilita que, estas considerem as obras artísticas como produtos culturais cujo valor documental possa ser convertido em objeto de estudo. (AGUSTÍN LACRUZ, 2006b, p. 26).
Apesar da observação da pesquisadora, deve-se ressaltar a necessidade de delinear os fundamentos de extração semiótica à Documentação. Entre os conceitos semióticos e linguísticos utilizados e que se referem à análise de imagem, pode-se citar os seguintes: código, código icônico, código verbal, denotação, conotação, conteúdo, expressão, símbolo, ícone, índice, referente, signo semiológico, contexto de produção e texto visual.
Relativamente ao contributo semiológico à análise documental, é preciso mencionar Greimas, teórico que investigou os mecanismos necessários para analisar o discurso como um todo, e procurou identificar as ações que os agentes executam na dinâmica de uma narrativa. Segundo Nöth (2005b, p. 145), o modelo greimasiano influenciou diversas áreas de aplicação, entre elas a Documentação. Pinto Molina (1993, p. 52) argumentou que Greimas contribuiu com o estabelecimento de aportes conceituais para o estudo do discurso científico, formas e tipologias discursivas, além da teoria das modalidades que facilita a compreensão dos modelos actanciais, em especial, a relação sujeito versus objeto.
A Semiologia de Greimas aplicada à análise do discurso propõe tratar globalmente os diversos textos, e não apenas os científicos, os quais se apresentam como principais, segundo a análise documental. Os textos narrativos de ficção, por exemplo, em oposição aos textos científicos, não procuram evidenciar de imediato seu assunto principal, não são obedientes à estrutura do texto científico, com problema, hipótese, objetivo etc. A despeito de seu vínculo germinal com o estruturalismo linguístico – principalmente na defesa implícita da tese de que há uma estrutura subjacente a todo texto, a qual regula as ações dos personagens e os movimentos no interior de qualquer narrativa, como a hipótese a qual se referia Hjelmslev –, a semiologia greimasiana mostra-se nestas aplicações como uma alternativa para superar uma lacuna da análise documental de conteúdo: o tratamento dos textos narrativos de ficção.
O objetivo da análise da imagem para fins documentais é atribuir significado por meio da análise dos códigos. Nesse caso, caminha-se no terreno da Semiótica e da Linguística em que se propõe a noção de código, enquanto um sistema de signos qualquer. Tanto para Linguística quanto para Semiótica, o código é uma unidade básica de análise e necessário a conhecer e avaliar quaisquer mensagens. Nesse caso, para fins documentais, dividem-se os códigos em níveis ou áreas para se extrair o conteúdo da imagem e representá-lo através de representações sintéticas, como descritores, termos e assuntos.
Agustín Lacruz (2015) menciona uma estratificação dos códigos necessária à Documentação quando se pretende analisar a fotografia. Como modelo de documento não verbal, a autora sublinha os seguintes códigos: código especial, código gestual, código indumentário, código cenográfico, código lúmico, código cromático e código compositivo. No caso da Documentação, o que a alija de outras formas de análise semiótica é que esta não se apropria unicamente da mensagem visual; seu interesse volta-se também ao conhecimento da autoridade e do contexto no momento de representar a informação. Sendo assim, as informações textuais do fotógrafo e do contexto de produção da mensagem são agregadas para compor a representação da informação.
Ademais de os códigos, exige-se para a leitura da fotografia, como documento do tipo não verbal, segundo considera-se aqui, habilidades e competências adicionais, tal como atesta Agustín Lacruz. São necessárias ao documentalista as competências: iconográfica, narrativa, estética, enciclopédica, linguística-comunicativa e modal. Consequentemente, essas competências deveriam estar presentes nos cursos de formação, contudo, seu vínculo com as técnicas linguísticas tradicionais de tratamento do textual não permite incluir estas questões fundamentais para o acesso à informação de um número cada vez maior de pessoas. Em linhas gerais, o contributo da semiótica à Documentação, em suas diversas perspectivas, é amplo e merece uma sistematização mais detalhada. Na mesma linha dos trabalhos anteriormente apontados, devem-se examinar as contribuições de Agustín Lacruz (2006a, 2006b).
Também vinculado às linguagens não convencionais tratadas pela Documentação, desde um ponto de vista semiótico, acrescenta-se o trabalho de Peset (2001) que analisa a transposição de elementos artístico na rede, citando as principais ações que tratam de promover o acesso a museus e exposições virtuais como forma de atrair o público ao mesmo tempo em que oferece uma relação visual com a obra de arte. De acordo com a autora, "Al contrario de las exposiciones de algunas piezas de los museos tradicionais, suelen estar concebidas únicamente para su contemplación en línea." (PESET, 2001, p. 117).
A autora continua a sua análise e cita como exemplos, as exposições de Goya pela Universidad de Zaragoza, as exposições de Velázquez, as exposições do Instituto Andaluz de Patrimônio Histórico e a exposição de Joan Brossa para Universidad Oberta de Calaluña (PESET, 2001, p. 117-118). Peset concluiu que as bibliotecas devem assumir a gestão desse processo para atender as necessidades dos usuários. Para tanto, recomenda-se o conhecimento do conteúdo audiovisual – como também se depreende de Agustín Lacruz – e dos recursos multimídia para proporcionar guias artísticos. A biblioteca deveria, por consequência, utilizar os recursos desenvolvidos em outros contextos artísticos para provocar um impacto no usuário.
De modo geral, Peset parece reconhecer as limitações do discurso promovido pelas bibliotecas, na medida em que enfatiza os códigos verbais registrados em comparação a outras formas de relacionamento com as mídias e obras de artes. Os códigos engendrados nessas obras são superiores e muito mais avançados em termos de compreensão da percepção humana e da criação de conhecimento.
Nesse caso, para difundir informação pelos ambientes virtuais, dada a diversidade de tipos de informação, segundo os códigos disponíveis, uma biblioteca não pode recorrer aos serviços já estabelecidos no contexto impresso. Para tanto, necessita-se vislumbrar o que estão realizando outras instituições, é o caso dos museus, os quais estão na vanguarda no que diz respeito ao tratamento semiótico de seus documentos, isto é, já reconhecem que os meios de interação com os objetos, e de organizá-los, recobrem um âmbito não verbal.
Por essa razão, o apelo de Peset (2001) encontra respaldo em uma abordagem semiótica disposta a reconhecer a diversidade de linguagem e promover os sistemas de mediação à informação mais adequados às expectativas dos usuários. Contudo, supõe-se que tal consciência semiótica, seja para ressignificar o ambiente da biblioteca ou para reestruturar a arquitetura dos portais, fato que ainda não se fez presente nas bibliotecas e nos centros de documentação.
Pensar os objetos artísticos como formas semióticas que serão acessadas como informação encontra-se em um ponto em que se entrecruzam as competências da Documentação e das Ciências da Comunicação. Presumese que os especialistas espanhóis, pelo que se investigou até aqui, já se deram conta que as novas mídias são, em realidade, uma fonte de oportunidades, problemas e dificuldades práticas para os processos de tratamento e organização da informação e do conhecimento.
De um ponto de vista semiótico, concretizaram-se a justaposição entre as linguagens, isto é, valorizar os distintos códigos. Nesse sentido, destaca-se o trabalho realizado por Lloret Romero e Canet Centellas (2008a), da Universidad de Valencia, que teve como objetivo realizar uma análise descritiva dos serviços disponíveis em rede que oferecem conteúdos e serviços audiovisuais, relacionando novas tendências para a difusão da informação audiovisual, como transmissão de eventos ao vivo, a transmissão de programas, o serviço de vídeo sob demanda e os serviços de entretenimento.
De acordo com Lloret Romero e Canet Centellas (2008a),
Programas televisivos, retransmisión de eventos en directo o en diferido, las webcams al servicio del exhibicionismo y del vouyerismo colectivo, y el vídeo bajo demanda, son entre otras una representación de las posibilidades audiovisuales que la red está poniendo al servicio de sus usuarios. (LLORET ROMERO; CANET CENTELLAS, 2008a, on-line).
Nessa mesma linha, inclui-se o trabalho das autoras Lloret Romero e Canet Centellas (2008b).
Essas possibilidades devem ser tomadas também pelos documentalistas como mais um de vários exemplos que atestam que uma visão estreita da informação voltada exclusivamente aos documentos tradicionais (impressos e de registro verbal), pode não oferecer o subsídio teórico e a contribuição aplicada necessária aos usuários e à sociedade.
Em decorrência disso, exige-se uma base semiótica geral, tampouco presente na exposição dos autores, que os integraria sob um mesmo pano de fundo que percebesse os códigos e os processos de semiose que ocorrem dentro e fora da Web e que envolveria o tema dos códigos híbridos. A seguir, apresenta-se a principal proposta estritamente peirceana no campo da Documentação: a Semiótica Documental.