Semiótica documental
7. Algumas palavras finais
A Documentação na Espanha como se pôde verificar produziu muitos avanços desde o surgimento institucional dos cursos de graduação na década de 1980. Relativamente ao campo da organização da informação e do conhecimento, nas duas últimas décadas nota-se um incremento da produção científica, a qual avançou em quantidade e qualidade.
Moneda Corrochano, Lopez-Huertas Pérez e Jiménez Contreras (2011, p. 105) examinaram o desenvolvimento da pesquisa em organização do conhecimento durante o período de 2002 a 2010, e compararam a presença de publicações de autores espanhóis em bases de dados (ISI, LISA, Dialnet, ISOC, atas ISKO) com um estudo anterior que avaliou o período de 1992 a 2001. Os autores concluíram que a produção científica consolidou-se em relação ao período anterior porque houve um aumento do número de publicações e uma renovação das autorias, uma maior interdisciplinaridade, maior qualidade dos trabalhos e visibilidade internacional comparada com os resultados anteriores, além da elevação da qualidade da produção espanhola pelas publicações em periódicos estrangeiros.
Entre as três universidades mais produtivas, também investigadas no referido estudo, encontram-se a Universidad Carlos III Madrid, a Universidad de Granada e a Universidad de Zaragoza. No que se refere aos autores mais produtivos em organização do conhecimento, o estudo listou os seguintes nomes: Moreiro Gonzalez, López-Huertas e García Marco (MONEDA CORROCHANO; LOPEZ-HUERTAS PÉREZ; JIMÉNEZ CONTRERAS, 2011). Os pesquisadores em organização do conhecimento também estão entre os principais colaboradores com a pesquisa em Semiótica.
As mudanças estruturais que influenciaram a pesquisa em organização da informação e do conhecimento talvez expliquem as dificuldades sofridas pelas investigações em Semiótica e a dissuasão de pesquisadores pelo tema. Nesse sentido, Moneda Corrochano, Lopez-Huertas Pérez e Jiménez Contreras (2011, p. 93) comentaram como fatores intervenientes na pesquisa em organização da informação e do conhecimento a adaptação dos currículos ao espaço europeu, o novo modelo de acesso às vagas de professores com mecanismos de credenciamento e o sistema de avaliação com periodicidade de seis anos (sexenios).
Esta pesquisa confirma os resultados obtidos por Guimarães, Sales e Grácio (2012), mas tentou aprofundar a explicação de uma das linhas diagnosticada pelos autores, a denominada matriz lógico-linguística da Documentação. Este livro enfocou um núcleo de pesquisa na Documentação na Espanha, e recorreu à bibliografia e a depoimentos para descrevê-lo de maneira mais qualitativa. A vantagem deste tipo de estudo é a verticalização do tema, o que revelou nuances políticas e teóricas desta corrente, as quais, em última análise, resultariam inobserváveis pelo viés apenas quantitativo.
Como visto, as mudanças estruturais alteraram o acesso à carreira docente na Espanha, forçandolhes a produzir com melhor qualidade. Supõe-se que com as publicações qualificadas, segundo estimaram Moneda Corrochano, Lopez-Huertas Pérez e Jiménez Contreras (2011), forçou-se a ampla concorrência entre pesquisadores. Os autores também notaram uma alteração no tipo de material de veiculação das publicações, isto é, de livros para artigos.
Esses fatores que proporcionaram a indicada mudança qualitativa na passagem dos anos 1990 para 2000, e estão agora se confrontando com uma nova realidade em que as vagas para docentes foram reduzidas drasticamente.
É um paradoxo, pois no momento mais brilhante do desenvolvimento da Documentação na Espanha, os pesquisadores agora devem concentrar-se na própria sobrevivência material. Alguns fatos simbólicos que merecem destaque: o fechamento de cursos de graduação em Documentação – um exemplo foi o da Universidad de Alcalá de Henares – e a junção de cursos de pós-graduação oferecidos com outras áreas do conhecimento, tal como o programa de pós-graduação das universidades de Zaragoza, de Barcelona e Oberta.
Sem novos quadros profissionais para a investigação em Documentação, o protagonismo de outrora está sendo substituído abruptamente por um período de estagnação ou retração, pois o desenvolvimento de novas linhas de pesquisa em campos minoritários – e deve-se assumir que a Documentação é um desses casos – que dependem da indução financeira do Estado fica comprometido, o que é dispensável em áreas estratégias e de alto desenvolvimento tecnológico que recebem amplamente o suporte do mercado e da indústria.
Esse conjunto de fatores tem revelado atualmente, senão uma tendência à diminuição, um estado negativo para as pesquisas em Documentação associada ao tema semiótico. Fato contraditório ante ao protagonismo do pensamento espanhol no campo da Documentação, altamente criativo e original.
Por outro lado, deve-se sugerir que as associações científicas como a Associação Espanhola de Semiótica poderiam se converter em um fórum que congregasse os temas da Semiótica documental e de outras abordagens semiótico-linguísticas da Documentação que se inclinam à análise textual com objetivo de representar e recuperar a informação.
Contudo, não se converteram como um espaço reconhecido como tal pelos especialistas em Documentação. O intercâmbio de ideias sobre semiótica ficou extremamente reduzido a docentes específicos. Não há contatos que podem ser notados entre os especialistas em Semiótica e Linguística Geral e os investigadores em Documentação.
A potencialização da pesquisa em Documentação na Espanha, como em outros países, depende fundamentalmente do desenvolvimento econômico, crescimento dos cursos universitários e ampliação do mercado de trabalho. Não obstante, no caso espanhol, a participação do aparelhamento estatal na regulação do mercado de trabalho (via conselhos profissionais, credenciamento etc.) não foi determinante, promovendo assim o acirramento da competição entre profissões destinadas a ocupar o espaço de trabalho dos documentalistas.
Sob o paradigma qualitativo, a "mestiçagem teórica" promovida pela formação dos primeiros professores e áreas a compor os cursos de Documentação foi um fator determinante ao surgimento de teorias para compreensão dos problemas documentais na década de 1980 e nos anos que se seguiram. Um aspecto marcante foi o de arranjar as contribuições teóricas com a análise hermenêutica dos clássicos em Documentação, como foi o caso da brilhante exegese da obra de Otlet.
Sendo assim, houve um resgate do interesse semiótico pelos especialistas espanhóis, retrocedendo a Otlet, como ficou patente nas contribuições de Izquierdo Arroyo. Foi possível traçar uma linha de contribuições semióticas que partem de Otlet, ou mesmo antes com a Bibliologia, e continuou a ser objeto de análise até os anos 1990.
No caso particular de Izquierdo Arroyo, dentre outros, valeria a máxima de que se um pensamento não é conhecido – seja em razão da língua em que foi escrita, seja pela dificuldade de acesso à fonte –, não significa que não tenha relevância. Parece ter sido o caso das aportações de Izquierdo à Semiótica no campo da Documentação na Espanha.
Voltando às diretrizes iniciais deste livro, considerase que as hipóteses puderam ser comprovadas. Em primeiro lugar, as contribuições semióticas dos estudos espanhóis de Documentação voltados à organização do conhecimento ainda requeriam um melhor delineamento, principalmente sobre como os pesquisadores aportavam conceitos a esta questão. Sustenta-se que as abordagens sintetizadas anteriormente respondem ao intento de sistematização das correntes semióticas levadas a cabo na Documentação na Espanha. Em segundo lugar, puderam-se delinear as influências semióticas, em especial a Semiótica Documental, e distingui-las das influências linguísticas com maior incidência.
Ademais, mostrou-se como foi incompleta a incorporação da abordagem semiótica à agenda da Documentação, mesmo na Espanha, que se supôs mais adiantada. Ficou patente a não incorporação da disciplina Linguística Documental nos currículos de Documentação, ainda que tais temas fossem tratados na disciplina de Linguagens Documentais. E de maneira mais distante da inclusão à Documentação esteve o projeto de Semiótica Documental.
Contraditoriamente, e relembrando as palavras de Castillejo, citadas por Guy (1985, p. 10), a respeito das ideias filosóficas na Espanha - "[...] éstas han pasado al extranjero, de donde con frecuencia han vuelto posteriormente a sus orígenes hispánicos primeros, pero bajo una forma más acabada".
Assim, parece que sucedeu similarmente com as propostas semióticas, as quais apareceram de maneira mais contundente em outros países como Dinamarca (pelos trabalhos de Thellefsen), Estados Unidos (de acordo com a tese de Mai) e Brasil (com destaque ao grupo TEMMA da Universidade de São Paulo, e especialistas como Moura e Drumond). Em casos específicos, aparentaram uma forma mais coerente e sistematizada, mas que não substitui de modo algum a originalidade das abordagens espanholas aqui examinadas.
Por fim, resta relacionar as diretrizes para a interlocução teórica, as quais foram expostas ao longo deste livro, mas que poderiam ser resumidas em algumas poucas linhas.
Em primeiro lugar, nota-se a convergência entre a maior parte dos teóricos com os temas semióticos tratados pela Linguística. Esta continua sendo o principal espaço de atração dos especialistas em Documentação, por diversas razões discutidas anteriormente: a formação anterior dos docentes antes da chegada à Documentação nos anos 1980 e início de 1990; a influência linguística da escola francesa na formação de linguistas na Espanha; a ênfase no registro de informação em código verbal, principal linguagem adotada pela ciência e pelas áreas especializadas; a articulação da análise documental de conteúdo de Gardin com a Linguística estrutural, entre outros que se podem extrair. Nesse sentido, sugerese propor espaços de conversação com associações científicas em Linguística e Semiótica na Espanha, de modo a compensar a defasagem natural quando se afasta de uma área donde o avanço do conhecimento ocorre com mais rapidez.
Em segundo lugar, além da aproximação com as associações científicas mediante trabalhos em conjunto (caso da Associação de Semiótica que não conta com trabalhos voltados à Documentação em seu periódico), deve-se organizar grupos de investigação no interior dos encontros científicos para o desenvolvimento da organização de conhecimento. Esses grupos poderiam reinterpretar o papel da escola espanhola na condução das pesquisas associadas à linguagem e sistematizar contribuições desse âmbito que foram colocadas em segundo plano ou que têm pouca expressão, mas possuem potencial teórico.
Terceiro, acredita-se que se deva ampliar a Semiótica documental, seguindo as diretrizes de Izquierdo Arroyo e adaptá-la às pesquisas recentes, as quais já superaram a aportação da linguística clássica à Documentação, e usam correntemente conhecimentos da língua provenientes da Linguística computacional e Ciências cognitivas. Essa refundação passaria pela fusão de áreas de interesse, abertura ao debate de conceitos básicos (língua, linguagem, código, tradução etc.), adaptação de conceitos, redefinição dos limites e correntes de pesquisa, exclusão de pseudoproblemas ou problemas de menor importância que atualmente já foram superados pelas novas tecnologias de processamento da linguagem e, sobretudo, pela revisão da função da Semiótica Documental.
Isto é, seguindo as premissas de Otlet para a Documentação, uma Semiótica Documental deve ser considerada de uma vez por todas como uma instância ativa à sociedade que oferece conhecimentos a outros campos de máxima importância ao tratamento social da informação. Um exemplo desse papel protagonista seria a revisão do espectro de interesse da Semiótica Documental, que foi sendo fragmentado por diversos fazeres.
Atualmente não se discute por que as atividades de editoração, que são de tratamento de conteúdo dos documentos e estabelecem normas para a recuperação, não estão associados à teoria e às aplicações da Semiótica Documental, muito menos à Linguística Documental. O espaço desta disciplina não deveria estar reduzido à Documentação ou Ciência da Informação, caso isto ocorresse, sucumbiria definitivamente ao ostracismo, assim como a própria área.
Em quarto lugar, está posto o problema metodológico no tratamento documental de conteúdo na Documentação, pois se reconhece que o processamento automático da linguagem, senão resolve por completo, pelo menos agiliza os procedimentos documentais. Nesse sentido, dever-se-ia reinterpretar o papel da tecnologia da informação e da Linguística computacional à Documentação, e avaliar seus métodos e resultados, para potencializar o aperfeiçoamento de metodologias e técnicas aplicadas ao tratamento de conteúdo em bases de dados que é um processo irreversível e para o qual a área deve propor soluções se quiser ser protagonista no tratamento qualitativo da informação.
Em quinto, acredita-se ser necessário, sob os auspícios de uma Semiótica Documental, superar as barreiras disciplinares, espaços institucionais fechados e grupos de investigação e de trabalho com práticas pouco integrativas de modo a permitir que o tratamento da "forma", isto é, a representação descritiva, convertase definitivamente em um objeto de análise semiótica, pois a separação existente que toma como justificativa a especialização das disciplinas modernas não cabe em uma teoria semiótica estendida.
Em outras palavras, a análise semiótica de base peirceana tomaria todo o fluxo documental e processo informacional como signo, sendo assim, haveria apenas uma separação em termos de efeito interpretativo, mas se estaria, em ambos os casos, fazendo análise formal e de conteúdo de um único processo semiósico. Em consequência, promover-se-ia uma teoria representacional mais robusta e menos atomizada.
Com essa questão epistemológica já lançada, partindo-se das ideias lançadas neste breve ensaio, dever-se-á trabalhar em futuros estudos para sistematizar as teses dessa Semiótica Documental abrangente – ou outra expressão que lhe seja mais adequada –, e que estejam respaldada nas abordagens semióticas encontradas na Documentação espanhola.
Considera-se que todo esse conjunto de experiências e histórico vivenciados pela comunidade científica em Documentação na Espanha pode servir de antecipação às politicas científicas em Ciência da Informação no Brasil que, atualmente, estão calcadas pelo expansionismo dos cursos universitários e da produção científica. No entanto, nem sempre converte-se na instauração de um campo autônomo e respeitado, seja pelo aporte teórico ou pelo impacto social.