Semiótica documental

Carlos Cândido de Almeida · Capítulo 8 de 11

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Semiótica documental

6. A Semiótica Documental

 

 

[...] hay que reconocer con Castillejo que, a consecuencia de una acumulación de desgraciados avatares circunstanciales, a menudo contrarios a la expansión del pensamiento libre, un gran número de instituciones originales y de innovaciones mentales surgidas en España no se han podido desarrollar normalmente y con continuidad; así, éstas han pasado al extranjero, de donde con frecuencia han vuelto posteriormente a sus orígenes hispánicos primeros, pero bajo una forma más acabada. (GUY, 1985, p. 10).

 

Seguindo a observação sobre a filosofia espanhola, pode-se afirmar, guardando logicamente suas matizes, o mesmo sobre a Semiótica na Documentação na Espanha. Guy (1985) fez esse comentário em relação às diversas correntes inovadoras da filosofia ocidental que tiveram a sua origem distante na Espanha, como exemplos citou o socialismo cristão de Arnau de Vilanova, a lógica simbólica de Llull, o pacifismo de Vives, a ética internacional de Vitoria e Suárez, o existencialismo trágico de Unamuno, entre outros. Essas correntes filosóficas retornaram a Espanha, segundo sustenta Castillejo e avalizado por Guy, em uma forma mais acabada, construída amiúde no exterior.

É possível inferir o mesmo sobre a Documentação, especialmente os estudos linguísticos e semióticos que têm emplacado os sumários das principais revistas internacionais em Ciência da Informação (um exemplo é a revista Knowledge Organization), porém apareceram com grande efervescência nos primeiros anos da década de 1980 na Espanha.

Como pode ser observado nas páginas seguintes, essas tendências teóricas nasceram e se expandiram rapidamente, chegando mesmo a propor uma grande resposta da Documentação Espanhola ao problema do tratamento da informação, bem como à organização do conhecimento. Diferentes de tradições do pensamento da Documentação em outros países, as abordagens semióticas na Espanha não contaram com um contexto teórico favorável, segundo o que se entende aqui, pois as relações com as tradições linguísticas e semióticas não foram muito intensas antes de 1980, como verificado.

Por outro lado, a emergente Documentação dos anos 1980, que recebeu profissionais e docentes com diferentes formações universitárias, talvez tenha funcionado como laboratório para a construção de um novo campo, e desse modo, chegaram a propor formas originais de lidar com os problemas linguístico-semióticos. Sob as bases das tradições francesa e americana de Documentação foram produzidos muitos intentos explicativos e discursos próprios sobre os problemas que recobrem os saberes necessários ao tratamento da linguagem: a Linguística Documental foi um exemplo.

Assim como a Linguística Documental, os trabalhos no sentido de uma Semiótica aplicada à Documentação ou Semiótica Documental surgiram na década de 1980.

O problema da teoria semiótica peirceana é que se apresenta como muito geral, o que nem sempre resulta fácil adaptá-la às questões específicas de um campo. Nos últimos anos, foram muitos os trabalhos que tiveram como objetivo aproximar os estudos da informação à Semiótica, mas não necessariamente no campo da organização da informação e organização do conhecimento. Hjorland (2003, p. 98), por exemplo, aludiu a uma Semiótica social, a qual defende que significados, signos e documentos são construídos em função das práticas padronizadas em comunidade. Em outros termos, a abordagem semiótica sustenta que as comunidades discursivas ditam o tom da significação, e toda forma de impor uma diretriz de organização dos significados externa à comunidade implicaria em desconsiderar a dinâmica própria da produção social dos signos. Raber e Budd (2003), por outro lado, defenderam que o conceito de informação pode ser elucidado com o conceito de signo. A junção entre forma e conteúdo, cuja abordagem semiótica está fundamentada na orientação estruturalista, subsuma-se à união perfeita e inseparável entre significado e significante. Por sua vez, Abreu e Monteiro (2010) analisaram a aproximação das matrizes da linguagem com a indexação da informação no ciberespaço.

De um ponto de vista mais próximo à organização da informação e à recuperação da informação, Moura (2011, p. 167) argumentou que a interoperabilidade (comunicação de padrões e protocolos comuns) no contexto digital requer como referência a representação estrutural, sintática, semântica e lógica. Também podem ser citados os trabalhos de suma importância de Moura, Silva e Amorim (2002), Moura (2006, 2007) e Lara (1993, 1999, 2003, 2006). Especificamente no campo da organização do conhecimento, tem-se o trabalho de Friedman e Thellefsen (2011), os quais cotejaram as ideias semióticas de Peirce e a teoria do conceito de Dahlberg. Friedman e Thellefsen (2011) concluíram que a teoria semiótica analisada é fundamental para os sistemas de organização do conhecimento porque é abrangente na explicação da representação, servindo de modelo a ser aplicado a teorias mais focalizadas, como é o caso da teoria representacional do conceito erigida por Dahlberg. Na mesma linha de conta, foram de fundamental importância os trabalhos de Thellefsen (2002, 2003, 2004), Thellefsen e Thellefsen (2004) e Mai (1997a, 1997b, 2000, 2001). Contudo, em que pese a influência conceitual de Peirce em muitos desses trabalhos, não foi oferecida por estes autores uma proposta disciplinar que congregasse Semiótica e Documentação.

As ideias de maior destaque nessa direção foram as de Izquierdo Arroyo – autor pouco conhecido no Brasil –, que cunhou a expressão "Semiótica Documental", utilizada desde final dos anos 1980. Em uma publicação de 1992, Izquierdo Arroyo destacou as pesquisas que então desenvolvia e cujo teor já indicava a preocupação com a estruturação da Semiótica Documental.

Izquierdo Arroyo (1992) procurou esquematizar uma agenda de pesquisas em quatro grandes eixos: a) para uma teoria da representação documental; b) ensaio histórico de Semiótica Documental; c) a ciência da busca secundária; d) concepção lógico-linguística da Documentação. Os dois últimos eixos foram iniciados e contam com publicações na literatura especializada. Mas são os dois primeiros que revelam a linha de análise e os fundamentos da

Semiótica Documental erigidos sob a Semiótica de Peirce23. Izquierdo Arroyo (1992, p. 39) dividiu a sua proposta de estudo em: descrição indicativa, esquema-sumário e referências adotadas. Ele sumarizou os tópicos centrais dos estudos, identificando capítulos e seções detalhadamente, possibilitando sublinhar até as matrizes teóricas escolhidas.

No tocante à Semiótica de Peirce, no eixo que trata da representação documental, o autor pontuou como primeiro trabalho necessário "Um marco semiótico para a teoria da representação". Em outros termos, apresentou uma exposição completa dos principais conceitos da Semiótica peirceana, expondo a divisão da Semiótica em Gramática Especulativa, Retórica Pura e Lógica Geral (IZQUIERDO ARROYO, 1992, p. 39-40). Isso revela uma preocupação em articular seriamente os conceitos semióticos de Peirce com a Documentação, longe de propor uma suposta e superficial interdisciplinaridade, que apenas recebe e procura aplicar o que seja possível.

A base da teoria da representação a ser estudada ancora-se na Semiótica de Peirce. Contudo, no segundo trabalho em curso, "Análise de conteúdo e representação documental", não indicou as possibilidades de síntese com a Semiótica, preferindo pôr ênfase às contribuições do Gerativismo, Semântica Estrutural, Análise do Discurso e Linguística Textual.

O segundo eixo de trabalho trata dos estudos históricos agrupados na expressão Semiótica Documental. Izquierdo Arroyo (1992, p. 44-51) relacionou como discussões da história da Semiótica Documental a origem das seguintes problemáticas: a organização de textos, as operações de análise e síntese, a indexação, a descrição textual, a catalogação, a construção de repositórios bibliográficos, a classificação científica, a organização alfabética, a produção de glossários, dicionários, enciclopédias e tesauros, a hierarquização temática e o estabelecimento das relações associativas. Em resumo, o ensaio histórico da Semiótica Documental trataria de estabelecer um diálogo com os principais temas da análise documental de conteúdo.

No entanto, a formalização da Semiótica documental apareceu pela primeira vez no projeto docente de Izquierdo Arroyo – documento a ser apresentado em concurso público seguindo o disposto no Real Decreto n. 1427 de 1986 – redigido para admissão como professor da Universidade de Múrcia. Em entrevista concedida em 2014, Izquierdo Arroyo esclareceu que quando estava escrevendo os "Esquemas de Lingüística Documental", entre os anos de 1989 e 1990, deparou-se com o enfoque agregador da Semiótica:

 

Pero el hilo conductor de mi propuesta era ya la Semiótica peirceana. Para la elaboración del trabajo Sobre la transducción, había reunido en Burgos bastante material de Semiótica y Semiología. (IZQUIERDO ALONSO; IZQUIERDO ARROYO, 2014, p. 111).

 

Conquanto, é possível inferir que seu contato com o pensamento de Peirce mais dedicado foi no final de 1970.

 

Instalado en la Filosofía del Lenguaje (de corte más bien analítico) y en la Semiótica – acababa de leer a Peirce –, consideré que la aproximación más adecuada sería la lógicolinguística (término este que ya empezaba a aparecer en algunas publicaciones recientes de entonces). A ello obedeció el titulo y orientación del libro Concepción lógicolinguística de la Documentación. (IZQUIERDO ALONSO; IZQUIERDO ARROYO, 2014, p. 111).

 

O contato com a obra de Peirce deu-se prematuramente em uma disciplina durante os estudos de graduação (licenciatura) em Filosofia, na Universidade Pontifícia de Salamanca, entre os anos de 1962 e 1965, precisamente no ano de 1963, pelo professor Delgado. Segundo relato de Izquierdo Arroyo em entrevista concedida em 2014:

 

[...] Delgado, nos daba un curso de Peirce en el año 63, o sea, ya te lo digo todo, o sea, era un adelantado, era un adelantado." Izquierdo Arroyo defendeu como monografia de final do curso de Filosofia, um trabalho sobre ontologia e sistema categorial de Nikolai Hartmann. (IZQUIERDO ALONSO; IZQUIERDO ARROYO, 2014, p. 112).

 

Em 1981, defendeu a tese de doutorado na Universidad Complutense de Madrid sobre história da lógica medieval, trabalho intitulado "Lógica proposicional sumulista: bases histórico-textuales", infelizmente ainda não publicado.

Antes de ingressar na Universidade de Múrcia, Izquierdo Arroyo lecionou as matérias de Literatura e Crítica Literária em Burgos, entre 1975 e 1985, depois rumou à Málaga, donde lecionou Lógica e Filosofia da Ciência na Universidad de Málaga, de 1985 a 1989.

Em 1989, foi aprovado no concurso para professor em Documentação na Universidade de Múrcia. O concurso foi convocado através do ato administrativo da referida universidade, Resolução n. 1309, de 10 de janeiro de 1989, para formar parte do grupo de professores titulares para a Diplomatura em Biblioteconomia e Documentação. O concurso foi para a área (matéria) Análise e Linguística Documentais, contando com as disciplinas Análisis documental, Lingüística documental I (10 créditos) e Lingüística documental II (5 créditos). Foi este o contexto da elaboração deste projeto docente, redigido em Málaga no ano de 1989 e que nasceu uma clara definição da Semiótica Documental.

As disciplinas Lingüística documental I e Lingüística documental II, segundo consta em seu livro "Esquemas de lingüística documental" (IZQUIERDO ARROYO, 1990), juntam-se a outras disciplinas em que se trabalhavam os temas semióticos, a saber: Seminario de Estudios I, Seminario de Estudo II, Trabalho de Fin de Curso. Esse arranjo de disciplinas congregou as reflexões originais sobre Semiótica e Linguística no campo da Documentação no contexto da Universidade de Múrcia.

Por vezes, Izquierdo Arroyo oferecia também uma optativa chamada "Aspectos lógico-lingüísticos de la Documentación". Através dessas disciplinas foram expostas aos alunos as perspectivas da Semiótica Documental como uma disciplina que viria a subsumir a Linguística documental. Nessa mesma universidade, Izquierdo Arroyo aposentou-se em 2012, após mais de 30 anos de magistério.

As bases teóricas de Izquierdo Arroyo recobrem diversos campos das humanidades, mas com uma base consistente em Filosofia e Letras.

 

Del lado de la Documentación, me movieron alguns ideas redundantes en P. Otlet, J. Chaumier, M. Coyaud, Y. Courrier, M. Taube, J.C. Gardin, S.R. Ranganathan, D.J. Foskett, B.C. Vickery, D. Austin, De Grolier, Fugmann, I. Dahlberg y otros. Del lado de la formación en Filosofía, creo que puedo señalar tres referentes destacados, si bien menos conocidos en el ámbito documental: a) la "Grammatica Speculativa, sive De modis significandi",

atribuida al Pseudo- Scoto/Tomás de Erfut – entre otros tratados de semiótica medieval -; b) los escritos lógico-semióticos de Charles Sanders Peirce (el mejor conocedor de esos tratados medievales dentro del área anglosajona); y c) el pensamiento perspectivista de don José Ortega y Gasset. (IZQUIERDO ALONSO; IZQUIERDO ARROYO, 2014, p. 112).

 

Não se devem desmerecer as contribuições teóricas a sua formação intelectual dos pensadores Greimas, Todorov, Barthes, Kristeva, Derrida, Louis Hjelmslev, Lyons, Bühler, Jakobson e formalistas russos. Segundo Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014, p. 21), Izquierdo Arroyo pode ser considerado um filósofo, investigador que aporta contribuições no campo da Lógica formal, Filosofia da ciência e Filosofia da linguagem. Ele desenvolveu trabalhos em diversas áreas, Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014) abordaram o desenvolvimento do autor em três grandes eixos de atividades: os estudos ligados à teoria da Documentação; os estudos ligados à teoria da comunicação e Semiologia; os estudos relacionados à Semiótica documental.

 

Tras su publicación em 1980 de su obra Sobre la transducción, meditaciones semiológicas, y desde sus primeras reflexiones a inicios de los 90 relacionadas con el tratamiento documental de contenido y el tratamiento temático de la información, formuló y conceptualizó, en el marco de un a semiótica estructural-funcional, su propuesta de semiótica documental y definió sus modelos formales para la representación documental y el estudio de los lenguajes documentales. (MORENO FERNANDEZ; IZQUIERDO ALONSO, 2014, p. 21, grifo dos autores).

 

Deve-se abrir um capítulo especial aos trabalhos de Izquierdo Arroyo sobre as dimensões teóricas da Documentação, forjados sob a análise do corpus otletiano. Izquierdo Arroyo (1995), glosando a respeito da epistemologia da Documentação presente na obra de Otlet, pontuou que este último já destacava os movimentos de troca disciplinar entre, de um lado, a Documentação, ou melhor, Documentologia, e de outro, Linguística, Tecnologia, Lógica, Psicologia e Sociologia.

Contudo, como observa Izquierdo Arroyo (1995), Otlet avançou bastante mais em sua visão inicial das conexões disciplinares e trabalhou em muitas outras como demonstra a análise do pensamento otletiano. Assim, pode-se observar no quadro exposto por Izquierdo Arroyo (1995) que aparecem nas incursões de Otlet, nomeando-as de maneira mais atual, as seguintes disciplinas: Ciências da Linguagem, Lógica e Epistemologia, Psicologia Cognitiva, Ciências Sociais e Sociologia bibliográfica, Bibliometria e Estatística Documental, Economia, Ciência da Educação e Tecnologia documental. Desse modo, entende-se que as Ciências da Linguagem, em lugar de apenas Linguística, acolheriam as preocupações de Otlet com respeito à língua, aos códigos e à linguagem geral.

Para Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014, p. 25), Izquierdo Arroyo compilou uma proposta de teoria dos signos que estava já nos escritos de Otlet, isto quando procurou delinear os posicionamentos semióticos de Otlet.

 

Éstos se insertan dentro de la teoría del signo de Otlet, considerado desde cuatro perspectivas (cifras, notación, alfabeto e imagen) y vinculadas en un sistema gráfico universal. (MORENO FERNANDEZ; IZQUIERDO ALONSO, 2014, p. 25).

 

Izquierdo Arroyo dá às Ciências da Linguagem uma acepção mais ampla que abarcaria a Semiótica Geral. Segundo define o autor:

 

[...] designa tanto las requeridas al lenguaje "natural", como a cualesquiera otros sistemas de signos utilizados por el hombre. Bajo esa acepción, su marco es el de la Semiótica General, y nos ocupamos de ellas bajo la rúbrica "La Semiótica: Ciencia de los Signos" (1.311). Dentro de esas ciencias, las que se ocupan del lenguaje natural abarcan el dominio más extendido y, quizás, "básico" de la Semiótica, ya que comprenden: a) la semiótica lingüística (Semiolingüística), en su acepción más amplia; de la que nos ocuparemos bajo la rúbrica "Lingüística y Filología" (1.312); b) las más recientemente llamadas Ciencias del Texto (Translingüística o Semiótica del Discurso), de las que trataremos bajo la rúbrica "Retórica y Estilística" (1.31212), y c) en su dimensión estética (artística), las ciencias de la Literatura; que se tratan bajo el epígrafe "Literatura" (1.313). (IZQUIERDO ARROYO, 1995, p. 229).

 

Para o autor, Otlet citou poucas referências de linguistas para desenvolver suas ideias sobre Ciências da Linguagem, e não chegou mesmo a citar a obra capital de Saussure. Izquierdo Arroyo, no intento de atualizar o espectro de preocupações de Otlet, propõe como primeiro nível das Ciências da Linguagem, a Semiótica de extração peirceana. De acordo com Izquierdo Arroyo (1995, p. 233), Otlet se referia a estes campos apenas com as expressões "los signos en general" ou "teoría general del signo". Para confirmar que em Otlet havia uma teoria dos signos, no que tange as preocupações com os signos não linguísticos, Izquierdo Arroyo (1995, p. 236) aludiu a uma tipologia dos signos desenvolvida por Otlet, a qual classifica signos orais, signos escritos (ideografia, alfabeto, notações, formulas etc.) e signos imagéticos (desenho, gravuras, fotografia, diagramas, mapas etc.). Desse modo, dever-se-ia considerar o problema semiótico e não meramente o linguístico, já constando na origem da Documentação, desde a perspectiva de um de seus principais pioneiros, Otlet.

Na Universidade de Múrcia, Izquierdo Arroyo, além das disciplinas já mencionadas que funcionaram como laboratório para os experimentos e sistematização da Semiótica documental, vale a pena registrar o papel do grupo de pesquisa que leva este nome SemioDoc (Semiótica Documental). Fundado em 1991 junto à Universidade de Múrcia, o grupo funcionou como "comunidad de práctica investigadora y docente [...]", que, segundo Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014, p. 30), o grupo abordou os seguintes temas: semiótica documental descritiva, modelos de tratamento documental do conteúdo, gestão de linguagens documentais, taxonomia, teoria da classificação, pragmática documental da representação e reconhecimento, gramáticas gerativas aplicadas à estruturação textual, sistema de processamento de discurso, modelos e técnicas de resumo, tratamento semântico de documentos icônicos e digitais etc. Somente por esta lista pode-se constatar a amplitude do espectro

temático da Semiótica documental24.

De acordo com Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014, p. 27), o livro de Izquierdo Arroyo, "Esquemas de lingüística documental", é um material obrigatório na discussão teórica da análise documental de conteúdo e da Semiótica Documental:

Constituye una monografia de referencia obligatoria en los estudios sobre análisis documental de contenido y su herramienta específica: los lenguajes documentales. En ella se asientan las bases de la concepción científica de la LD, como disciplina teóricopráctica que se plantea el almacenamiento racional y ulterior recuperación del contenido analítico de cualesquiera documentos (definición pragmática). (MORENO FERNANDEZ; IZQUIERDO ALONSO, 2014, p. 27).

 

A Semiótica Documental assenta-se marcadamente na concepção semiótica de Peirce e na divisão das dimensões da semiose desenvolvida por Morris. Contudo, a estruturação da Semiótica documental toma como pressuposto o problema lançado por García Gutiérrez, a saber: o problema da Linguística Documental, o qual deveria ser enfrentado nos primeiros anos da década de 1990 por todos os especialistas em Documentação que se ocupam da análise e sistematização do conteúdo informativo.

Na obra "Esquemas", a Linguística documental foi definida rigorosamente, em termos pragmáticos e semânticos por Izquierdo Arroyo. Segundo o autor:

 

La Lingüística Documental (LD) es una disciplina teórico-práctica que se ocupa del problema que plantea el almacenamiento racional y ulterior recuperación del contenido analítico de cualesquiera documentos. Su propósito (Fin) es resolver dicho problema mediante (Gact) agentes cualificados y especializados (Ag) que se sirven sistemáticamente (Sist) – corporativa e institucionalmente (Org) y en régimen normalizado – de unos medios semióticos (Med) llamados 'lenguajes documentales'. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 36).

No me atrevería, sin embargo, a calificarla, sin más, como una ciencia en el sentido moderno de la palabra; por cuanto su "estatuto científico" adolece aún de la falta de sistematización metateórica que vienen logrando otras disciplinas. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 41).

La LD está en vías de constitución científica. Distendida, por el momento, teóricamente en un conjunto de modelos (sistemas linguísticodocumentales), se mantiene ya como un Arte o bien como una Técnica (mejor, quizás, Artes o Técnicas) para el control semiótico de los contenidos documentales. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 41).

 

Esses fragmentos são muito sugestivos ao problema encontrado no final da década de 1980 e que exigiu um tratamento teórico. Isto é, diagnosticar a situação e a natureza epistemológica da Linguística documental. Entre outras coisas, é uma disciplina teórico-prática voltada à recuperação do conteúdo dos documentos; porém falta de sistematização em seu estatuto científico e características técnicas para o controle semiótico do conteúdo dos documentos. Na sequência, descrever-se-á o panorama da Semiótica Documental, tal como pensada por Izquierdo Arroyo.

Examinando com mais acuidade, Izquierdo Arroyo (1990a) apontou as características do objeto desta disciplina:

 

Ese objeto es algo de carácter semántico – el llamado "contenido", no muy felízmente – o semiótico, y por tal, distinto del plano material o "físico" o meramente "expresivo" (plano hjelmsleviano de la expresión). (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 42).

 

Para o autor, a disciplina não se confunde com análise documental, pois considera esta expressão apenas voltada à descrição bibliográfica ou física dos documentos.

No que respeita a base teórica, como foi explicitado anteriormente, a Semiótica documental deriva da concepção semiótica, em primeiro lugar, de Peirce, e em segundo, de Charles Morris.

 

Por tal entiendo algo más que un simples tratamiento "lingüístico", en el sentido próprio de este término en el uso y mención que de él hace la Teoría General del Lenguaje. El adjetivo "semiótico" (que provisionalmente puede leerse como "lógico-lingüístico") lo utilizo en la acepción promovida por Ch. S. PEIRCE; para quien la Semiótica (Semeiotic) aúna ternariamente las perspectivas de Gramática (aspecto lingüístico propiamente tal), la Lógica formal-material (aspecto lógico) y la Retórica, peculiarmente entendida por nuestro autor (aspecto comunicativo y pragmático). Con ello quiero también significar que – en consonancia con la teorización de Ch. MORRIS -, dicho tratamiento semiótico se mueve en tres dimensiones que bien se conocen: sintáctica, semántica y pragmática. Y subrayo la primera por cuanto entiendo que en si falta de consideración decidida radican los principales problemas de los lenguajes documentales más en uso. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 43).

 

A observação de Izquierdo Arroyo explica tanto as bases quanto o nível dos problemas em Documentação. Nesse caso, sobressai-se o grupo de problemas sintáticos. Diferente da Linguística documental que se alinha à Linguística geral, apesar da notória influência linguística a Semiótica Documental recorre à Semiótica geral de Peirce para projetar seus ramos e colocar os problemas de tratamento do conteúdo na Documentação sob este quadro de análise. Desenvolvendo um pouco mais a reflexão sobre a disciplina e apropriandose das dimensões da semiose de Morris, Izquierdo Arroyo destacou alguns desenvolvimentos históricos da disciplina.

 

a. Fase pragmática. Con exclusividad centrada en el problema práctico

que plantea el tratamiento específico, mas sin propósitos semánticos conscientes, y menos aún sintáticos. b) Fase semántica; que es la que da nascimiento científico a nuestra disciplina, desde las primeras Clasificaciones Bibliográficas o sistemas jerárquicos. c) Y fase sintáctica. Iniciada con los lenguajes de coordinación, adensada en los de descriptores controlados y jalonada – que sólo eso – con los llamados lenguajes "de estructura sintática". Fase, pues, que protagoniza la actual LD, con sus problemas aún para resolver. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 44).

 

Izquierdo Arroyo (1990a, p. 46) é tributário a García Gutiérrez, pois este lançou à Documentação a questão do campo Linguística documental, contudo propõe Izquierdo a abertura da acepção empregada à disciplina, resultado da reflexão e questionamento do rótulo até então utilizado. Depreendem-se dos argumentos de Izquierdo Arroyo as seguintes considerações: os documentos, de longe, não se limitam mais ao escrito-textual, dada a abundância e a variedade dos suportes documentais; não se vinculam unicamente à tradição linguística, mas lógico-linguística; as questões semântica e pragmática mobilizam outros conhecimentos que não os tradicionalmente utilizados pela Documentação de recorte linguístico; e trabalhase com uma multiplicidade de códigos e de processos de tradução inter e entre códigos na Documentação; nesse sentido, já se está há algum tempo em um campo semiótico por excelência. Segundo esta perspectiva, não seria mais que adequado renomear e redefinir a disciplina Linguística documental, e projetar um campo mais robusto e coerente com as novas práticas de pesquisa e desenvolvimentos da Documentação.

De acordo com Izquierdo Arroyo (1993, p. 200), a Semiótica Documental é o marco acolhedor das denominadas Ciências do Texto em sua aplicação ao tratamento documental. Por texto, Izquierdo Arroyo (1993, p. 201) definiu a representação física do discurso, escrito ou oral, e por Ciências do Texto compreende pelo menos a Linguística textual e as Ciências Cognitivas.

A definição de Semiótica tem como intenção principal reconstituir o papel da tríade recordada pelo autor de expressão/conteúdo/referente. Para constituir a Semiótica documental, o autor propôs substituir a Linguística textual, por esta não cobrir os três planos por completo: o plano de expressão (as palavras), o plano do referente (as coisas), e a base mediadora entre língua e mundo referido, o discurso ou plano de conteúdo (IZQUIERDO ARROYO, 1993, p. 202). Como observado, a proposição da Semiótica Documental ressalta a necessidade de uma leitura dos três planos, portanto, confere à teoria triádica do signo uma importância capital.

A substituição de Linguística por Semiótica, na expressão "Linguística textual", parece oportuna para cumprir o domínio objetivo e a metodologia. Além disso, assumindo a Semiótica peirceana como matriz, tal como se depreende da análise dos conceitos de Peirce utilizados por Izquierdo Arroyo (divisões da lógica, signo, segunda tricotomia, interpretante, realidade, mundo e coisa), o autor Izquierdo Arroyo (1993) afirma que a substituição se justifica porque a Semiótica cobre todos os tipos de signos, em que representam o discurso e podem ser símbolos, ícones e índices, entretanto, apenas o símbolo seria classificado como signo linguístico.

Em resumo, o autor concluiu o argumento sustentando que a Linguística não cobria a totalidade dos signos, essa tarefa é plenamente cumprida pela Semiótica (IZQUIERDO ARROYO, 1993, p. 202). Tal argumentação é coerente e se mostra eficaz dada a abrangência pretendida, por isso, adotou Semiótica para o lugar de Linguística como pano de fundo epistemológico.

O texto em si, na definição da Semiótica textual, localiza o objeto junto às dimensões da semiose: pragmática, sintática e semântica (IZQUIERDO ARROYO, 1993, p. 203). O texto está no plano de expressão, e para o autor um texto não significa nada sem os atores e os contextos. O referente é definido pelo autor como um mundo de conteúdos, daí decidiu substituir Semiótica do Texto por Semiótica do Discurso. O referente no contexto da Semiótica do texto não trata do mundo de objetos, estado de coisas ou acontecimentos, tal como é para as ciências físico-naturais; também não é um mundo de expressões, como para as ciências da palavra. O referente está no mundo de conteúdo, por isso, a Semiótica enfoca o conteúdo, isto é, o discurso, o qual se difere do texto, ou seja, no plano de expressão. Portanto, propõe substituir a denominação Semiótica do texto por Semiótica do Discurso (IZQUIERDO ARROYO, 1993, p. 203), com uma acepção particular de referente. Ressalta-se mais uma vez que a Semiótica Documental projeta-se como mais ampla que a Linguística Documental, pelas razões elencadas anteriormente.

Tal disciplina, um tipo de Linguística documental estendida, agregar-se-ia a atual análise documental (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 46-47). Por conseguinte, o autor estabelece uma divisão externa ou cruzamento de disciplinas, ou mais propriamente relações disciplinares. Izquierdo Arroyo (1990a) entendeu a Linguística como Ciências da Linguagem que contemplaria a Linguística geral, a Semântica estrutural, a Lexicologia, a Lexicografia, a Gramática, ou sintaxe, lógica, a Terminologia ou Onomasiologia, as Ciências do texto e contexto (Textolinguística) e a Análise do discurso. Segundo apontou: "Todas ellas proporcionan bases teóricas para el desarrollo de nuestra disciplina, aunadas por la Semiótica (o Semiología), que está en su substrato." (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 53).

Outras relações disciplinares derivam do campo das Ciências Formais, isto é, Lógica Simbólica, Lógica Matemática e disciplinas correlatas Lógica Matemática, Linguística Matemática, Lógico-Linguística e teorias formais como teoria de Grafos e Teoria de Jogos. A Semiótica documental também guardaria estreita relação com o campo teórico da Ciência da Ciência (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 54), ter-se-ia assim as aportações da Teoria e História da Ciência, Filosofia da Ciência, Metodologia da Pesquisa Científica, Técnicas de Investigação e Criação Científica, Teoria da linguagem científica, Terminologia normalizada, Sociologia da Ciência e Psicossociologia da Ciência.

A Semiótica documental contaria com apoio da Teoria da Informação e da Teoria da comunicação (já presentes na Documentação). Desde a Informática pode-se citar: Inteligência Artificial, Tecnologia de automação, Teoria da codificação, Documentação automatizada, e do lado da Documentação, naturalmente figuram a Ciência da Bibliografia, Bibliologia e Biblioteconomia.

A "Linguística documental estendida", ou "Semiótica documental" pertenceria à teoria geral da Documentação (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 49, p. 54). Talvez isso significasse que a Semiótica Documental, longe de ser um espaço de aplicações e experimentações semióticas, foi mais bem uma perspectiva particular da Documentação face os problemas do tratamento documental de conteúdo que atingem várias disciplinas e profissões. Assim, a Semiótica Documental poderia ser considerada um ramo da Documentação que ofereceria soluções aos problemas de tratamento de informação a outros campos, ao mesmo tempo em que se concentrariam esforços nos problemas gerais ligados ao processamento da linguagem na sociedade.

Contrastando a Semiótica documental com a Linguística documental, nota-se um descompasso dessa última com problemas não linguísticos – mas da linguagem – que foram potencializados com o uso de documentos imagéticos, audiovisuais e da hipermídia. De um ponto de vista conceitual e interno, a Linguística documental estendida – entenda-se Semiótica Documental – dividir-se-ia, segundo Izquierdo Arroyo (1990a, p. 56), a partir do critério de grau de teorização.

Nesse sentido, figuram na Semiótica documental como prefere Izquierdo Arroyo, a Linguística Documental Teórica, a Linguística Documental Normativa, a Linguística Documental Aplicada ou Técnica. A disciplina seria ao mesmo tempo teórica, técnica e normativa. São três dimensões ou aspectos que perpassam seu conteúdo.

1. Es una teoría, en la medida en que especula (en subsidio de la praxis)

sobre un determinado objeto que asimismo lo es de la Teoría de la Documentación (DOC).

2. Es una técnica o actividad práctica sistematizada – mediante

instrumentos "ad doc"; o, en terminología menos común ahora, un Arte.

3. Se mueve en el ámbito transindividual, propio de la organización

colectiva y normada. Es decir, la satisfación de su objeto mediador (el tratamiento semiótico) sería racionalmente inviable de no mediar una Normalización que regulara las distintas actividades de los distintos agentes individuales o corporativamente unificados (Servicios y Centros de tratamiento lingüístico-documental). En otros términos, esta disciplina presenta el carácter de Normatividad que encontramos en otras tales como la Ética, el Derecho y, en algún nivel, la Gramática lingüística. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 39-40).

 

Esse aspecto também foi ressaltado por Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014, p. 27). A definição de tratamento documental entendido por Izquierdo Arroyo (1990a, p. 55) compreende tanto os aspectos físicos quanto os de conteúdo do documento, não obstante, apenas este último seria objeto da Semiótica documental. É justamente dentro deste recorte epistemológico que se encontra o salto qualitativo da Semiótica documental, o de considerar os processos de semiose em Documentação como o centro do debate. Pelo que se tem consultado, foi o primeiro autor a usar a expressão "semiose documental" de uma maneira clara e bem fundamentada. Solicita-se permissão para expor os seguintes fragmentos:

 

Sin embargo - aunque académicamente he apostado ya por la denominación "Lingüística Documental" - me inclino a proponer para nuestra disciplina una denominación más abarcadora de sus propósitos: SEMIÓTICA DOCUMENTAL. Así nombrada, aparecería como una especificación disciplinar de la Semiótica general, y habría de entenderse como ciencia que estudia la semiosis documental. El la concepción de PEIRCE y MORRIS, entre otros, la semiosis es el proceso de comunicación general de que se ocupa la Semiótica, y en él los signos se consideran em sus tres vertientes: sintáctica, semántica y pragmática. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 63-64).

En la medida en que la Semiótica se ocupa del estudio de cualesquiera procesos de semiosis (y no ya únicamente de los procesos que enfoca la

Lingüística), la presencia de esse término en la expresión "Semiótica documental" parece más acertada. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 65).

La semiosis documental es justamente la semiosis del "arte aplicada" consistente en el almacenamiento y búsqueda controlados de los contenidos documentales. Esa peculiar semiosis – así denominada – se satisface y cumple merced a determinados "lenguajes especializados": los lenguajes documentales." (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 65).

Consiguientemente, ya que el proceso documental es un proceso de comunicación, aparece como proceso de semiosis. En él los documentos (primarios y secundarios) son vehículos sígnicos que hacen posible el intercambio. (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 65).

 

Semiótica documental seria a opção mais adequada, segundo o autor, dado o contexto e a natureza dos problemas enfrentados pela Documentação. Entre as aulas programadas no projeto docente, destacam-se as lições previstas para o conteúdo semiótico. É este o caso, por exemplo, da lição 9, em que se pretende discutir a teoria da representação, da lição 12, que apresenta o conceito de signo documental (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 226), além da lição 14, intitulada "Semiosis y función del lenguaje documental" (IZQUIERDO ARROYO, 1990a, p. 227). Há também referências claras à tradição francesa, em especial, Barthes e Greimas, o que ilustra também o exposto anteriormente sobre a influência francófona na teoria linguística e na semiologia no contexto espanhol.

A definição pragmática já considera como meios semióticos as linguagens documentais, o que realmente é um avanço conceitual dado que somente se iria estudar Semiótica detidamente em Documentação, apenas uma década mais tarde.

Infelizmente esta obra não foi divulgada na época de sua publicação na literatura científica da Documentação nos países sul-americanos, e nos estudos da Documentação de língua portuguesa, em especial, no contexto brasileiro. O alinhamento epistemológico da Semiótica documental aos novos tempos e à nova Documentação já estava sistematizado. A substituição terminológica da Linguística documental daria lugar, por uma questão lógica, à Semiótica documental.

Porém, o que se sucedeu foi a disseminação e o uso da expressão Linguística documental pela comunidade de especialista em Documentação, principalmente no Brasil, quando as condições objetivas (avanços tecnológicos, advento de novos códigos, integração das mídias etc.) e os temas de investigação já exigiam uma reformulação radical, em razão das aproximações com a Semiótica.

Nesse sentido, é possível que a falta de acesso aos escritos de Izquierdo Arroyo em outros países tenha dificultado a divulgação de suas ideias e permitido a Documentação continuar com esta abordagem. Como exemplarmente mencionava Izquierdo Arroyo, a respeito da necessidade de avançar nos estudos interdisciplinares e olhar a outras direções: "Para saber lo que ocurre en el ascensor, es preciso salir del ascensor" (IZQUIERDO ARROYO, 1993, p. 199).

As contribuições de Izquierdo Arroyo estão relacionadas menos a uma perspectiva estrutural da Semiótica que uma assimilação crítica da Semiótica de Peirce. Por essa razão, é uma original visão peirceana, que se soma aos contributos linguísticos, aplicada ao campo da Documentação. Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014) denominam esta corrente como "nova perspectiva", observação da qual se está de acordo:

 

El posicionamiento ante una nueva perspectiva, la semiótica documental, dentro de un campo del saber fuertemente institucionalizado por aquel entonces com arraigada tradición francófona, la linguística documental. En este punto, subrayamos la apuesta edificadora de Izquierdo com una rica sistematización teórica y metodológica, a partir de la combinación de teorías y conceptos linguístico-semióticos y filosóficos, entre otros. (MORENO FERNANDEZ; IZQUIERDO ALONSO, 2014, p. 22, grifo dos autores).

 

Salienta-se que os estudos do autor não se restringem à Semiótica, mas tratam de tematizar epistemologicamente vários pontos da Documentação, com vistas a fundamentá-la. Moreno Fernandez e Izquierdo Alonso (2014) também explicam que a Semiótica documental pode ser entendida como Linguística documental lato sensu ou estendida.

La semiótica documental (linguística documental latu sensu) es el telón de fondo sobreel que elmicrotratamiento se proyecta em las tres dimensiones peirceanas (linguística, lógica y. comunicativo-documental). Los dos primeros traen aspectos teóricos e históricos de la Semiótica documental: representación del contenido, descripción documental, operaciones y lenguajes micro-documentales y sistematización lexicográfica. (MORENO FERNANDEZ; IZQUIERDO ALONSO, 2014, p. 24).

 

Esta visão, apesar da menção a Linguística, mostra como a proposta ultrapassou os limites estruturalistas impostos à explicação da linguagem na Documentação. A base fundamental da abordagem semiótica de Izquierdo Arroyo estava já presente em seus trabalhos da década de 1980, como "Sobre la transducción: meditaciones semiológicas".

A Semiótica Documental, como exposto, seria o marco acolhedor das preocupações do tratamento documental do conteúdo, abarcaria conjuntamente Linguística, Ciências Cognitivas e Ciências da Comunicação, incluídas como ramos da Semiótica geral. Para tanto, tomaria como objetos os diferentes planos (expressão, conteúdo e ontológico), diferentes códigos e os processos de interpretação – "[...] el "contenido", el emisor/receptor, en tanto que espacio sócio-cognitivo del interpretante (Peirce)" (IZQUIERDO ARROYO, 1992, p. 202) –, e teria como fundamento o campo intermediário entre Lógica e Linguística, que hoje está subsumido à Semiótica geral.

Izquierdo Arroyo (1992, p. 204) ressaltou a necessidade de reintroduzir a Semiótica documental e o tratamento documental de conteúdo como núcleo de investigação. Seu objeto seria o conteúdo tratado pela Documentação, e não a sua forma. Esse dado merece uma breve reflexão, pois as formas também requerem um tratamento semiótico, ainda que fosse central para a recuperação da informação concentrar-se no significado da mensagem.

O trabalho de Izquierdo Arroyo em Semiótica documental, a despeito de o nível avançado de sistematização, ainda deixou pontos a avançar e exigirão dos especialistas em Documentação propostas coerentes para seu desenvolvimento. Em outras palavras, o projeto de uma nova disciplina, mais propositiva, isto é, que ofereça conhecimentos a outros campos e não somente os aplique às demandas da Documentação.

Izquierdo Arroyo tem chamado a atenção da Documentação para o problema da variedade de códigos que se apresentava já final dos anos 1980 e para o qual não se tem ainda uma teoria coerente ou abordagem disciplinar unificada na área. Ainda se atua como se o problema do conteúdo fosse apenas uma questão de tratamento textual, e o que não possui essa característica simbólica deveria adaptar-se, quando, em realidade, os diversos códigos, além dos signos icônicos e indiciais, já reclamavam um espaço próprio no consumo de informação pela sociedade.

Izquierdo Alonso e Izquierdo Arroyo (2014, p. 116) argumentam que as coleções orais e os documentos icônicos, as imagens, não têm tratamento adequado. Esse é um dos desafios atuais da Documentação, em especial, da Semiótica documental, pois os documentos imagéticos e sonoros exigem competências que estão além da teoria linguística.

Por outro lado, deve-se destacar, à luz da influência de Otlet, a concepção de Izquierdo Arroyo sobre o papel propositivo da Documentação e, consequentemente, da Semiótica documental. Nota-se que muitos objetos de investigação e soluções aplicadas às distintas áreas foram tomados de outros saberes. Assim, o nível de influência da Documentação tem diminuído, uma vez que, em sua especificidade enquanto disciplina se aceita que seu papel é mais reativo frente aos problemas de informação e de prestação de serviços. Contrariamente, quando se segue a perspectiva de Otlet e Izquierdo Arroyo, defender-se-ia um papel mais propositivo e arrojado.

Um ponto fundamental a explicar é em que medida a Semiótica Documental abrangeria os conceitos semióticos elencados para se compreender as linguagens documentais. Com efeito, a Semiótica Documental seria constituída por um complexo de disciplinas e de correntes teóricas, o que torna uma tarefa hercúlea reunir, além da contribuição central da Semiótica peirceana, as várias teorias. Será um desafio nos próximos anos articular as teorias recentes de tratamento do conteúdo com a Semiótica documental de Izquierdo Arroyo, de modo a constituir uma narrativa ampla que explique as questões centrais do tratamento da linguagem na Documentação, sem voltar-se aos reducionismos que vigoram nas aplicações atomizadas que se encontram a miúde.

Seguramente, a Semiótica Documental poderia estudar ainda, além do tratamento documental de conteúdo, a concepção de linguagens documentais, valendo-se de conceitos semióticos úteis a estas, tais como: signo, semiose, interpretante e experiência colateral. Desse modo, estariam subsumidas à Semiótica Documental, tanto a Análise Documental de Conteúdo quanto à Linguística Documental propriamente dita.

A obra do professor Izquierdo Arroyo no campo da Documentação espanhola e, em especial, da organização do conhecimento, pode ser caracterizada como a principal contribuição teórica dessa escola no campo da Semiótica, ainda que suas ideias não tenham sido totalmente disseminadas. Colabora com esse argumento a profundidade e a sistematização dos temas tratados, a relevância dos teóricos da linguagem estudados e aplicados à Documentação, o procedimento exegéticohermenêutico empregado na análise dos clássicos e o nível de reflexão teórica sobre a Documentação como um todo. Talvez, o principal legado para a Documentação na Espanha seja o programa de estudos deixado pela Semiótica Documental, o qual deve ser retomado com urgência.

Izquierdo Arroyo desbravou um caminho para trabalhos mais voltados à pragmática, estes incluídos em um ramo da Semiótica documental. Nesse sentido, podem-se citar os trabalhos de Izquierdo Alonso. A autora acompanha os princípios de Izquierdo Arroyo e pode classificar estes interesses mais voltados à pragmática documental. Em uma exposição sobre a análise documental, apresenta o núcleo teórico deste campo:

 

El Tratamiento Documental de Contenido (TDC) utiliza como marco de referencia los modelos lingüísticos destacados em cada momento, desde el estructuralismo al generativismo, y desde éste a las modernas corrientes de la pragmática, el análisis del discurso, la sociolingüística o la psicolingüística. (IZQUIERDO ALONSO, 2000, p. 144).

 

Os trabalhos de Izquierdo Alonso (2000, 2004), Izquierdo Alonso e Sánchez Domínguez (2011), Izquierdo Alonso e Moreno Fernandez (2009), também retomaram as bases teóricas desenvolvidas por Izquierdo Arroyo, não obstante, voltaram-se ao tratamento do resumo e à análise documental com ênfase à perspectiva pragmática. Por essa razão, pode-se afirmar que não assumiram uma linha semiótica ipsis litteris e têm seguido uma abordagem pragmática que, ao fim e ao cabo, relaciona-se aos fundamentos peirceanos através da Semiótica de Morris.

De um ponto de vista institucional, é bom que se diga que a disciplina Semiótica Documental não logrou o êxito esperado, assim como a própria Linguística Documental, como um rótulo teoricamente agregador, na medida em que não se constituiu como disciplina nos currículos dos cursos de diplomatura e licenciatura em Documentação. No que tange esse problema, apesar das propostas arrojadas de Linguística Documental e Semiótica documental, estas não foram adotadas como pertinentes aos colegas e não refletiram de maneira patente nos currículos e nas linhas de pesquisa na Documentação na Espanha, o que atomizou as contribuições científicas nessa direção.

Em resumo, é possível sublinhar as palavras de um dos entrevistados sobre a contribuição de Izquierdo Arroyo que representa um pouco significado obtido pela Semiótica Documental:

 

Bueno, aquí hay una cosa que es muy clara: de la semiótica documental el primero y último en hablar hasta el momento ha sido José María Izquierdo. El primero en hablar de semiótica documental y, hasta donde yo sé, el último es el profesor José María Izquierdo Arroyo, eso es algo sin discusión, por lo menos yo así lo veo. Y el primero en hablar de lingüística y lingüística documental aplicada a la documentación fue el profesor Antonio Luis García Gutiérrez, luego siguió con esos enfoques el profesor José María Izquierdo para acabar dando una perspectiva más amplia, la de semiótica documental, pero fuera del marco teórico establecido por José María, realmente no ha habido más investigadores en España que desarrollen esos trabajos. (ENTREVISTADO 13).

 

Examinando o levantamento dos currículos dos cursos de diplomatura em Biblioteconomia e Documentação, Sánchez Casabón e Ubieto Artur (1994, p. 49-50) trataram dos eixos essenciais do currículo, apontando que na matéria denominada "Análise e Linguagens Documentais", a única faculdade a manter uma disciplina com o nome "Linguística documental" foi mesmo, como já citado, a Universidade de Múrcia, disciplina da qual estava a cargo Izquierdo Arroyo.

Assim, agregam-se elementos à análise do histórico da Linguística Documental, reportando a aspectos não completamente observados por Tálamo e Lara (2006) e Lara e Tálamo (2007), pois quando enfocaram esse movimento, resgatando as características da Documentação na Espanha na década de 1980, as autoras não ofereceram uma ideia precisa da projeção e impacto da Linguística Documental na própria Espanha. Uma epistemologia histórica da Linguística e da Semiótica documental não poderia ocultar os fatos que não permitiram a implementação, tanto da Linguística Documental quanto da Semiótica Documental. A análise dos depoimentos também aportará dados importantes à dificuldade de relacionamento disciplinar e de concepção semiótica, o que impactou na aceitação dessas propostas.

Por fim, deve-se registrar que a Semiótica Documental demonstrou cabalmente que os problemas da Linguística documental deveriam ser bem outros, mais condicionados à realidade da informação e aos códigos utilizados. Os problemas atribuídos à Linguística documental, acredita-se, já surgiram defasados no tempo e parece que apenas Izquierdo Arroyo notou esse fenômeno.

Com a análise introdutória elaborada neste capítulo acredita-se que se poderá avançar na compreensão das ideias de Izquierdo Arroyo, pelo menos no Brasil, e responder a precisa constatação de Lara (2014): "No Brasil, o acesso aos textos de Izquierdo Arroyo é bastante incompleto, e essa é uma das razões pela qual sua produção é pouco conhecida".