Semiótica documental
4. A Semiótica na Espanha
Antes de listar o teor das contribuições semióticas na Documentação, faz-se necessário retomar ao quadro histórico então
disponível 17 que serviu como base para o desenvolvimento do que está sendo denominado de abordagens semióticas.
A tradição espanhola no campo da Semiótica também guarda relação com a organização institucional dos movimentos de cientistas e pesquisadores. É o caso, por exemplo, da vinculação entre associações acadêmicas, como a International Association for Semiotic Studies e a Asociación Española de Semiótica.
A International Association for Semiotic Studies, principal instituição no campo de estudo da Semiótica, foi fundada em 1969, e contou com a participação de especialistas ilustres como: Algirdas Greimas, Roman Jakobson, Júlia Kristeva, Émile Benveniste, Thomas Sebeok e Yuri Lotman. A associação teve origem em 1966, ocasião da primeira Conferência Internacional de Semiótica realizada em Varsóvia, Polônia, e estabelecido como primeiro presidente, Émile Benveniste. A associação é responsável pela edição da revista Semiótica (Journal of the International Association for Semiotic Studies), publicado desde 1969 (INTERNATIONAL
ASSOCIATION FOR SEMIOTIC STUDIES, 2014)18.
Pela análise da crônica sobre a fundação da associação espanhola, verificam-se os vínculos entre as associações que sedimentam o pensamento semiótico. Segundo Pozuelo Yvancos (1999), a Asociación Española de Semiótica teve seu início em 1983, quando se celebrou o Congresso Internacional de Semiótica e Hispanismo, em Madri. Durante as sessões do congresso a possibilidade de uma associação foi amadurecendo quando José Romera Castillo convocou uma assembleia para a constituição da associação. A assembleia contou com o professor Cesare Segre, presidente da International Association for Semiotic Studies. O primeiro congresso da associação foi realizado na cidade de Toledo em 1984. O primeiro presidente foi Garrido Gallardo e o secretário geral José Romera Castillo, o qual teve a ideia da constituição da associação (POZUELO YVANCOS, 1999). A associação é responsável pela edição da revista Signa: Revista de la Asociación
Española de Semiótica 19 , desde 1992.
De acordo com a análise de Pozuelo Yvancos (1999), os temas dos congressos da Associação Espanhola de Semiótica durante os anos 1980 e 1990 estavam relacionados ao que se pode designar como Semiótica literária, em que se incluía sob este guarda-chuva abordagens tão diversas como a Semântica linguística, Semiótica do teatro, Semiótica dos meios de comunicação, Semiótica da ficção, Semiótica visual, Pragmática, Semiótica narrativa, Análise textual, Semiótica da cultura etc. Esse alinhamento estava condizente com a proposta teórica da Linguística espanhola por preocupar-se com os temas culturais que se manifestam nas diversas linguagens.
Assim, entende Pozuelo Yvancos que
[...] vla A.E.S. ha venido a entender la Semiótica cada vez más como campo de confluencia interdisciplinar de diferentes lenguajes que como un lenguaje científico uniforme o unidisciplinar. El concepto de signo se ha venido ensanchando, se ha concebido mucho más que como canal o como código, en el sentido global de comunicación de diferentes códigos y las ciencias que animan esos códigos y se han ido interpenetrando hasta llegar a unos Congresos que han perdido la especialización lingüístico-formal de la primitiva ciencia Semiótica y han devenido a la alternativa más imaginativa que el campo de la comunicación plantea; entender la semiótica como un lugar de encuentro de signos y códigos diferentes que generan una polifonía de mensajes. (POZUELO YVANCOS, 1999, p. 66).
Em outros termos, a concepção semiótica da principal associação do assunto em Espanha ainda não formalizou o espectro de atuação, assim há guarida para quase todos os temas não pertencentes à linguística formal ou à semiótica-lógica. Esse campo não representa ainda um espaço de convergência dos temas de Documentação, os quais não são tratados nos artigos publicados por sua revista Sigma.
Antes de propor-se qualquer relação entre uma abordagem semiótica e a Documentação na Espanha, deve-se, em primeiro lugar, perguntar-se qual horizonte de conceitos era possível em tal ambiente acadêmico. Segundo relata Lapesa (1986, p. 9), a escola linguística espanhola foi fundada por Menéndez Pidal e nasceu com a intenção de aplicar ao estudo da língua espanhola as concepções e métodos da linguística europeia originados no século XIX.
La superación de un diseño científico positivista hasta llegar a la concepción integradora de los hechos linguísticos, literarios e históricos, caracteriza como es sabido a la escuela de Meéndez Pidal [...]. (ABAD, 1986, p. 254).
Em outras palavras, Ramón Menéndez Pidal encontra-se entre a confrontação de positivismo dos fatos linguísticos que visavam o lógico e o descritivo dos fatos e o idealismo, como perspectiva que visa à compreensão e a individualização dos fatos linguísticos. Assim, parece ocorrer uma fusão entre a teoria linguística, stricto sensu, e os estudos literários, estilísticos, históricos e culturais do fenômeno linguístico.
Segundo aponta Lapesa (1986), vários foram os seguidores de Menéndez Pidal, como Navarro Tomás, Rubén Darío e Américo Castro. Na geração seguinte, apareceram os filólogos Dámasio Alonso e Amado Alonso. Dámasio Alonso, por sua vez, apresentava em seu curso de 1934 as teorias e os métodos de Ferdinand de Saussure, Bally e Secgehaye, do Círculo de Praga e dos formalistas russos.
De este modo la escuela española acogió la noción y término humboltianos de la forma lingüística interior, contrapuso la visión del lenguaje con enérgeia a su consideración como ergon, reconoció la función activa que puede ejercer; incorporó las antinomias saussurianas significante/significado, lengua/ habla, diacronía/sincronía, y con ellas sintagma y morfema, distaxia y polisemia, también de procedencia ginebrina; de Praga vinieron el concepto y nombre de fonema, la distinción entre fonética y fonología o fonemática, entre oposición disyunta y oposición correlativa, marca de correlación, término marcado y no marcado, neutralización, archifonema, etc.; em gramática proceden de Jespersen término primario, secundario y terciario, etcétera. (LAPESA, 1986, p. 11).
Essa terminologia já era familiar para especialistas espanhóis entre 1930 e 1945. Segundo se infere da revisão de Lapesa (1986), a linha teórica saussureana estava plenamente constituída antes da Segunda Guerra Mundial pelas comunidades acadêmicas de linguística na Espanha, bem antes dos estudos semióticos peirceanos que demoraram ainda algumas décadas até que fizessem parte definitiva do desenvolvimento da Semiótica na Espanha.
Um caso particular é o conceito de Semiologia, explicado em uma obra de 1962, por Amado Alonso, como a doutrina da significação, apesar de ser reconhecido que no conteúdo do significado há uma esfera lógica (apud ABAD, 1986, p. 212). É importante observar no material de Abad, que recompila os ensinamentos dos mestres da escola linguística espanhola, não figura o termo "semiótica", o que sugere que não era tão comum a perspectiva semiótica peirceana ou mesmo greimasiana entre os linguistas espanhóis no período em questão.
Contudo, um fato que chama a atenção é que em 1951, García de Diego já usava um conceito de signo de cunho triádico:
La palabra no expresa una idea sino una realidad mediante una idea. Si digo un toro no quiero expresar la idea, sino la realidad toro. La palabra no es pues un díptico fónicoideal, sino un tríptico fónico-ideal-objetivo; esto es, el elemento sonoro toro, mi idea y el animal toro [...]. (GARCÍA DE DIEGO, 1951 apud ABAD, 1986, p. 214).
Essa compreensão foi manifestada em um verbete sobre significação, contudo, referia-se ao conceito de signo, por esta razão se cogita que a concepção triádica de signo já era comum e usada entre os especialistas, mesmo que não houvesse uma nítida perspectiva sobre o vocabulário técnico de Semiótica e seus teóricos. Em síntese, presume-se que a concepção de Semiótica como campo de estudo de diversos códigos não era tão evidente, embora a concepção triádica de signo já fizesse parte do contexto acadêmico espanhol em 1950.
A noção de signo triádico convivia com o conceito estruturalista de signo. Dámasio Alonso sustentava em 1950 que o signo, assim como para Saussure, é arbitrário na medida em que não há nada que liga significante com coisa significada, e põe ênfase no sentimento de motivação do falante, isto é, ao contrário da afirmação de que o signo é imotivado e arbitrário, sugere haver uma motivação ou sentimento de dizer como fato linguístico (ABAD, 1986, p. 215).
Do ponto de vista das unidades de análise, nos anos 1960, a Linguística enfocava a análise das orações como um nível mais avançado em relação ao nível lexical (TORDESILLAS, 2000, p. 26). A Linguística sempre foi, do ponto de vista da Documentação francesa, um grande centro de busca de teorias. As obras de Gardin retomam frequentemente as concepções de signo linguístico e outras do jargão da Linguística Estrutural. Avaliando melhor seus impactos sobre a Documentação, devese reconhecer que a Linguística não apenas fornece conceitos que permitem operar com os códigos textuais.
Um pouco antes da introdução das problemáticas semióticas como linhas de investigação paralelas à Linguística, ocorreu a sistematização dos problemas linguísticos na fundação da Sociedade Espanhola de Linguística, em 1970, formada principalmente por especialistas provindos de diversos campos, principalmente Filologia e Literatura. Esta sociedade edita a Revista
Espanhola de Linguística 20. O primeiro Simpósio desta sociedade ocorreu em 1971 e teve como tema central o problema da Semântica Estrutural, o que denota a influência da escola francesa na constituição do temático do evento. Nos anos 1970, segundo Tordesillas (2000, p. 25), a Linguística orientava-se à análise de algo mais que a oração, isto é, a análise do texto e do discurso.
O estreitamento da relação com a Semiótica também se deu nessa mesma década. Em manuais deste período, especialmente o de García Berrio e Vera Luján (1977), encontram-se a menção à Semiótica junto com o problema linguístico do significado, fato que é muito comum no contexto da Linguística, pois há a tendência a classificar e circunscrever o problema semiótico como um problema exclusivamente do significado. Os autores retomam a querela da presença-ausência de um objeto do signo na teoria – ou coisa extralinguística – para constituir a análise do significado, fazendo ressurgir o que consideram um problema, isto é, a própria realidade.
Sendo assim, não consideram como linguístico o que está à margem do simbólico. Assim, os autores criticam esta concepção de Semântica:
La Semántica, de acuerdo con esta concepción del significado, se habría visto convertida en una ciencia realista, empeñada en último extremo en el análisis del mundo objetivo, de una realidad paradójicamente extralinguística. (GARCÍA BERRIO; VERA LUJÁN, 1977, p. 136).
Em outra passagem ainda afirmaram que "[...] carece de sentido la pretensión de identificar la semántica con la ciencia que se ocuparía del análisis de los referentes extralinguísticos de los signos." (GARCÍA BERRIO; VERA LUJÁN, 1977, p. 139).
A sustentação desse argumento é bem conhecida dos manuais de Linguística do período, recuperando as ideias de Greimas e de fundo, Saussure, pois, ao fim e ao cabo, o que importava era a imotivação e não a relação com o mundo "objetivo", tal como afirmaram. Desse modo, para García Berrio e Vera Luján (1977), a Semântica não é uma ciência realista capaz de fornecer informação detalhada sobre a realidade do mundo objetivo. Os autores procuram convencer o leitor que o mais importante é entender a Semântica como teoria da função comunicativa dos significados, e como eles funcionam; e esta não tem nada a ver com descrição do mundo.
Esta marca do pensamento linguístico interfere na compreensão de uma proposta semiótica erigida sob o realismo crítico. Considera-se que nesse período, final da década de 1970, a discussão ainda não estava apresentada de uma maneira ajustada, pois a teoria do significado não deve se esquivar do problema proposto pelo realismo crítico e não se deixar convencer pelo realismo ingênuo e relativismo, imperantes nas Ciências Humanas quando procuram contra-argumentar as iniciativas de descrição do mundo dos sentidos.
No sentido de evitar isso, García Berrio e Vera Luján (1977) construíram o argumento contrário à visão etiquetada como realista do significado. Assim, erigiram uma noção, pode-se dizer anti-peirceana de significado, etiquetando as versões triádicas e realistas do signo como noções externas aos problemas linguísticos. Talvez esta leitura encontrada no quadro definitório da Semântica tenha retardado as considerações marcadamente semióticas, as quais demorariam alguns anos mais a surgir no âmbito institucional espanhol com uma comunidade científica voltada à Semiótica.
Verifica-se uma divisão entre Semiótica e Linguística que marcaria os interesses e os estudos da linguagem até nossos dias, ao passo que se concebia Semiótica, via García Berrio e Vera Luján (1977), como ciência cujas ramas são a Sintática, a Semântica e a Pragmática. Em outras palavras, e extrapolando a lógica corporativista, estar-se-ia ante um campo que inclui a Linguística, não somente através dos interesses conjuntos a respeito do significado, mas, sobretudo, pela abordagem sincrônica presente nas análises sintáticas e diacrônica na reconstituição do significado pragmático.
Para García Berrio e Vera Luján (1977), a Semiótica se encarregaria pela elaboração de uma metalinguagem de uso científico e seria fundamental para as pesquisas linguísticas. No nível sintático se ocuparia pela interação entre os significantes, no nível semântico se referiria à questão conceitual e no nível pragmático estaria vinculado aos sujeitos nos atos de linguagem (GARCÍA BERRIO; VERA LUJÁN, 1977, p. 148). Os autores recuperaram tal definição prototípica de Semiótica do livro de María del Carmen Bobes, publicado em 1973. Não obstante, os avanços neste campo já se faziam constar nos trabalhos de Charles Morris na década de 1940.
Ademais da relação entre Semântica e Semiótica, García Berrio e Vera Luján (1977) expuseram de maneira clara os principais ramos da Semântica, o que é de interesse também das abordagens semióticas, uma vez que alguma delas podem se configurar como problemas semióticos, segundo conceberam. Assim, dividiram o campo da Semântica em: Semântica Externa ou tradicional (que busca as causas nos fatores linguísticos, históricos, sociais, psicológicos, entre outros), Semântica estrutural (vinculada aos trabalhos de Greimas, Pottier e Lyons), e Semântica Gerativa (de Chomsky). Evidentemente, deve-se considerar também que o modelo actancial de Greimas apresentado no bojo das teorias semânticas pertenceria também a Semiótica discursiva e textual. Ainda que não se possa generalizar, estes parecem ser dados comuns da Linguística na Espanha.
George Lakoff, quando entrevistado sobre o desenvolvimento das pesquisas linguísticas na Espanha, comentou que a vida intelectual sob o regime de Franco produziu retrocessos, não obstante em pouco mais de 20 anos desde a morte de Franco os linguistas espanhóis já estavam fazendo pesquisas de ponta em Linguística cognitiva e Linguística funcionalista, ao passo que estão levantando as mais relevantes questões, o que o deixou impressionado (MENDOZA IBÁÑEZ, 1997, p. 52).
A observação de Lakoff é coerente com alguns fatos, visto que é possível que as teorias linguísticas em Espanha no citado período somente tivessem um ponto comum de referência ou núcleo: a Escola Francesa. Devese, assim, escrever mais algumas palavras sobre o papel crucial da Linguística francesa nos estudos linguísticos espanhóis.
De acordo com a análise feita por Tordesillas (2000, p. 24), as contribuições da escola francesa e o estudo da língua francesa, foram predominantes até 1975, o que até mesmo assegurou um corpo de investigadores de Linguística francesa na Espanha. Segundo avalia Tordesillas (2000, p. 23), "Nos atrevemos a asegurar que, en España, hemos tenido y tenemos numerosos y prestigiosos filólogos, no podemos decir lo mismo sin embargo de los lingüistas." O autor ainda menciona que entre os teóricos de referência para a Linguística espanhola estão Saussure, Jakobson, Hjelmeslev, Jepersen, Coseriu, Martinet, Tesnière, Bally, Greimas, Guillaume, Chomsky, Pottier, Gross, Wilmet, Mel'cuk, Joly, Austin, Benveniste, Ducrot, Anscombre, Culioli e Roulet (TORDESILLAS, 2000, p. 25).
Deve-se sublinhar um fato fundamental, que a escola francesa proporciona um conjunto de modelos para investigar a língua, muitos dos quais têm como base o estruturalismo. Presume-se que o desdobramento dos estudos linguísticos presentes na Espanha, antes da entrada em cena da Documentação, se organizou em torno, primeiro, à abordagem estruturalista e, em segundo, à gerativista. Nos dois casos, e dado o contexto histórico encontrado, a Semiótica ficou em segundo, ou mesmo terceiro plano, pois poderia muito bem ser abarcada e substituída pela Semântica linguística.
Nas palavras de Tordesillas (2000), a descrição do léxico volta a ser objeto da Linguística espanhola, como segue:
En efecto, en el momento actual, tal y como ya hemos señalado, se produce un regreso a la descripción del léxico, pero esta vez, a diferencia de la lingüística saussureana y estructural que hemos descrito en páginas anteriores, tal retorno se lleva a cabo a amparo de las nuevas propuestas teóricas entorno a la semántica y a la pragmática, teorías que han llevado a una redefinición y reformulación de numerosos conceptos lingüísticos. (TORDESILLAS, 2000, p. 25).
Conclui Tordesillas (2000, p. 28) que a Linguística espanhola encontra-se no início do século XXI voltada às teorias semânticas e pragmáticas. Embora pareça difícil defender esse argumento, a Semiótica, segundo defende González (1986), em seu artigo sobre Semiótica na Espanha, nasce na Espanha no cruzamento com a Literatura, precisamente derivado do trabalho de Ramón Menéndez Pidal (1869-1968). Menéndez Pidal analisou com métodos linguísticos, históricos e filosóficos a conexão entre autor, obra e criação. Os discípulos de Menéndez Pidal trataram de constituir uma escola linguística espanhola voltada a temas como a análise literária e a estilística.
De acordo com González (1986), a Semiótica aparece mesmo é no início dos anos 1970 com a difusão do estruturalismo,
Semiotics appeared in Spain at the beginning of the 1970s, in the wake of structuralism, which had been introduced and assimilated shortly before. As had been the case with structuralism, semiotics was applied principally in literary criticism, a field in which it stirred up controversy. (GONZÁLEZ, 1986, p. 474).
Por um lado, os estudos literários já dominavam o terreno da Linguística, por outro, a própria Linguística, tal como assinalado por Tordesillas (2000), estava comprometida com as teorias e o projeto linguísticosemiológico francês.
Com efeito, o aparecimento da Semiótica na Espanha, assim como ocorreu em outros países, estava condicionado pela institucionalização do estruturalismo na academia. Assim, faz todo sentido a argumentação construída por García Berrio e Vera Luján (1977) diante do problema da Semiótica, alinhada às dimensões da semiose de Morris.
Acaso se recorresse a uma panorâmica da Espanha, encontrar-se-iam diversas pequenas escolas de Semiótica em plena ebulição, mas que não se tornaram coesas em relação a seus métodos, conceitos, procedimentos e instituições. Em outras palavras, o que havia eram grupos heterogêneos em vários sentidos.
González (1986) recorreu aos estudos das distintas linhas e apontou a existência dos seguintes grupos de investigação semiótica que apareceram depois da escola pidalina. Um primeiro grupo esteve sediado em Madri com os seguintes especialistas: Fernando Lázaro Carreter, Manuel Alvar, Antonio Prieto, Pilar Palomo, José María Diez Borque, Luciano García Lorenzo, Jorge Urrutia, Francisco Rodríguez Adrados, Miguel Angel Garrido Gallardo, Francisco Abad Nebot etc.
O segundo grupo estava localizada em Oviedo, norte de Espanha, e era representado pelos especialistas María del Carmen Bobes, Joaquina Canoa Galiana, Alberto Álvarez Sanagustín, Rafael Núñez Ramos, Antonio Gil Hernández e María Dolores Rajoy. Para González (1986, p. 476), este era um grupo mais homogêneo e teve contato com os autores Morris, Carnap, Propp, Jakobson, Barthes, Chomsky, além dos estruturalistas linguísticos.
Um terceiro grupo, o grupo de Valência, estava formado por Jenaro Taléns, Juan Oleza, José Romera Castillo, Antonio Tordera Sáez e Vicente Hernández Esteve. É desse grupo que sai a primeira publicação em Espanha destinada a abordar os trabalhos de Charles Peirce, de autoria de Antonio Tordera Sáez, intitulado Hacia una Semiótica Pragmática, de 1978.
O quarto grupo estava sediado em Málaga, por Antonio García Berrio e Agustín Vera Luján. Entre as bases teóricas do grupo homogêneo, segundo González (1986), figuravam os formalistas russos, ademais do estruturalismo e os temas de interesse eram o trabalho literário e a linguagem poética. Outro grupo associado à Linguística, foi o grupo de Zaragoza formado por Cándido Pérez Gallego e Alicia Yllera. Destacou-se pela ênfase em crítica literária e análise poética.
A respeito de esses grupos, tão díspares em vários aspectos como se pôde notar, González conclui que:
The Spaniards combine semiotic theory with linguistic, sociological, and psychological theories, and apply these theories to the practice of literary analysis. Thus it can be said the Spanish semiotics consists more of adaptation than of creation. (GONZÁLEZ, 1986, p. 482).
Em menor medida, também se encontram as iniciativas espanholas em Semiótica desde o campo da comunicação, porém pouco representaram, pelo que se pode inferir do trabalho de González (1986). Contudo, seria útil revisá-las em outra oportunidade, haja vista que o trabalho da autora representa a situação encontrada nos anos 1980.
Embora a confluência com a Linguística pareça fundamental ao discurso semiótico espanhol, a qual se deveu estruturar de acordo com o estado de institucionalização das escolas linguísticas encontrado, por exemplo, nas linhas francesa e pidalina, devem ser registrados os percalços pelos quais passaram as ideias de Peirce e sua Semiótica ao entrarem na Espanha.
No que tange o pensamento de Peirce, deve-se registrar como a teoria peirceana apareceu no cenário espanhol. Em um texto de 1891, Ventura Reyes Prósper (1863-1922) estudou Peirce entre outros autores, em seu artigo intitulado "Lógica simbólica", em artigo publicado pelo periódico Naturaleza, Ciencia e Industria (NUBIOLA; ZALAMEA, 2006, p. 206). Os autores atestam que os primeiros trabalhos que mencionaram a obra Peirce trataram da Lógica simbólica e da Lógica dos relativos. Como afirmam Nubiola e Zalamea:
Los cuidadosos apuntes de Reyes Prósper sobre Peirce podrían haber abierto un filón de estudios peirceanos en espanhol, pero su ejemplo será caso del todo olvidado durante un siglo. (NUBIOLA; ZALAMEA, 2006, p. 207).
A despeito de o protagonismo do matemático espanhol Reyes Prósper, na sequência de seu trabalho sucedeu-se uma verdadeira lacuna no estudo do pensamento peirceano, em especial da Semiótica. Na mesma linha de conta, Reyes Prósper, em 1892, publicou o primeiro trabalho dedicado exclusivamente a Peirce, no periódico "El progreso Matemático", de Zaragoza, intitulado "Charles Santiago Peirce y Oscar Honward Mitchell" (NUBIOLA; ZALAMEA, 2006, p. 206).
Reyes Prósper (1892, p. 171), afirmou que "Peirce sabe hallar curiosísimas conexiones entre cosas que a primera vista parecen no existir", ademais, demonstrou um profundo conhecimento dos trabalhos de Peirce sobre Lógica. Reyes Prósper foi um profundo admirador e conhecedor das teorias de Peirce, tal como se depreende de seu artigo:
Reciba el Sr. Peirce, con las escusas por los errores en que haya incurrido, un testimonio de admiración sincera que desde el otro lado de los mares le envía un extranjero. (REYES PRÓSPER, 1892, p. 173).
No entanto, nos anos que se seguiram, os trabalhos sobre Peirce em Pragmatismo, Lógica, Semiótica e Fenomenologia foram desenvolvidos com mais intensidade em outros países de língua espanhola, como Uruguai, Argentina e México.
Esse distanciamento do interesse espanhol pelos estudos de Peirce parece ser surpreendente, se acrescentarmos o fato de que em 1870, Peirce, em razão de uma expedição da United States Coast and Geodetic Survey, visitou Espanha para fazer uma observação de um eclipse solar na Andaluzia, sul de Espanha, precisamente em Jerez de La Fronteira, na propriedade de um comerciante de vinho chamado Richard Davies. Segundo o livro de Nubiola e Zalamea (2006), Peirce contava com 30 anos quando da viagem para observação do eclipse, em 22 de dezembro de 1870. Na oportunidade visitou também Málaga, Granada, Sevilha, Cádiz e Madrid.
Em entrevista realizada em 2014 com especialista espanhol em Filosofia e Semiótica de Peirce, pôde-se constatar as barreiras encontradas para a introdução do pensamento peirceano em Espanha no século XX, seja por razões teóricas ou ideológicas.
Sí, desde que muere, en el 14, hasta mitad del siglo XX, hay ahí al menos 50 años en los que es prácticamente un desconocido, en parte por la dificultad que hubo para editarlo, para organizar sus papeles. Es que claro, cuando Peirce muere deja creo que fueron cien mil páginas manuscritas, ponte a ordenar eso. Fueron muy importantes las primeras traducciones, que fueron como tres volúmenes con recopilación de textos que se hicieron en Argentina en los años 70 u 80, no recuerdo exactamente la fecha. Fueron las primeras traducciones un poco sistemáticas de sus textos. Aquello fue importante porque era lo primero, no había nada más. A mí me parece que España no era muy abierta intelectualmente en aquella época, era un poco nacionalista en el mal sentido y, por ejemplo, se despreciaba un poco lo que venía de EEUU. Digamos que había ciertas ideas que se podrían considerar pragmatistas, pero Peirce era un desconocido, esa es la verdad. No había nada por la cerrazón de la época: se miraba lo de aquí y se potenciaba la filosofía española, creo yo.
(ENTREVISTADO 18)21.
Com efeito, Peirce era um desconhecido, apesar de as ideias pragmáticas estarem presentes em Espanha. O nacionalismo espanhol, tal como destacado também contribuiu para o afastamento da academia às ideias provenientes dos Estados Unidos. Desse modo, o isolamento político e teórico apareceu como uma explicação razoável do distanciamento de Espanha em relação a outras escolas teóricas, em particular, as de Semiótica.
Após os trabalhos de Reyes Prósper, o nome de Peirce voltou a aparecer em 1920, na Enciclopedia Univversal Europea-Americana, depois no verbete "simbólica", na mesma enciclopédia, de 1933. Contudo, somente em 1978, quase 90 anos depois do primeiro aparecimento, é que um autor espanhol publicou um livro exclusivamente sobre a Semiótica de Peirce.
Como assinalado anteriormente, a obra de Antonio Tordera Sáez, um representante do grupo de Valência, Hacia una semiótica pragmática: el signo em Ch. S. Peirce, de 1978, trabalho originado de um estudo monográfico de final de curso de graduação (tesina de licenciatura na Universidad Central de Barcelona, em 1974), segundo observações de Nubiola e Zalamea (2006). No referido trabalho foram apresentados os conceitos de investigação em Peirce, Pragmatismo, Lógica, Semiótica, interpretantes, categorias e semiose. Como observam Nubiola e Zalamea,
Sin embargo, el hecho de que el primer trabajo serio realizado sobre Peirce em español proceda de un estudiante de licenciatura es más indicativo de la pobreza generalizada de los estudios peirceanos hispánicos hasta la fecha, que de la inusual corrección misma del trabajo de Tordera. (NUBIOLA; ZALAMEA, 2006, p. 225).
Diante do contexto apresentado, os autores reconhecem que a monografia de Tordera foi notável, considerando a escassa bibliografia hispânica sobre Peirce. A apropriação das ideias de Peirce ressoam no tardio e incompleto contato com a obra de Peirce, o que pode ter condicionado também, indiretamente, a falta de aproximação com os temas semióticos desta linha pela Documentação.
Nas últimas décadas, o conhecimento sobre a Filosofia de Peirce, em especial a Semiótica, tem sofrido um certo esvaziamento de interessados, isto é, poucos são os acadêmicos que estão comprometidos a levar a cabo uma pesquisa sobre o pensamento de Peirce. Segundo comenta um especialista em Semiótica e Filosofia de Peirce:
Sí, quiero decir pues ahora ya como que hay mucho más interés, pero en España en concreto seguimos un poco en lo mismo. Creo que hay mucho más crecimiento proporcionalmente en Hispanoamérica que en España, aquí tampoco hay tanta gente, al final estamos nosotros que creo que somos el centro más importante, que somos los que estamos haciendo investigación y por lo demás, hay alguna persona que aisladamente hace cosas y luego el tema de la semiótica aparte, pero Peirce como filósofo yo creo que, aparte de lo que hacemos aquí, no hay mucho más [...] Sí, hablándote ya no de España en general, sino de nosotros en concreto en estos momentos no hay nadie que estudie a Peirce, o que esté haciendo una tesis sobre Peirce. Esa es la situación, no sé exactamente por qué, pero al final viene más gente de allí que doctorandos aquí. (ENTREVISTADO 18).
Nesse depoimento considera-se que os conceitos mais relevantes relacionados ao pensamento de Peirce são abdução e pragmatismo, os quais se relacionam com os demais temas. No que respeita a sua área de aplicação, pelo menos em âmbito espanhol, considera que os campos da Administração, Ética empresarial, Comunicação, Direito, Teologia, Ciência, História da ciência, Metodologia e Lógica. Contudo, entre tais campos, o relacionado aos temas de comunicação ocupa um lugar de destaque.
Creo que en comunicación, por ejemplo, Peirce también ha atraído a mucha gente porque al final está toda la teoría del signo y tiene mucho que ver con la comunicación, todo que ver. Entonces ahí hay una teoría muy importante que puede aportar muchas cosas. [...] Comunicación yo creo que es lo más importante y luego todo el tema de la Semiótica, pero esos ya van por libre. (ENTREVISTADO 18).
Se pelo lado da Linguística, os temas semióticos do estruturalismo francês demoraram a aparecer na agenda de investigação das universidades, pelo lado da Semiótica de Peirce não foi diferente, quiçá mais potencializado. Curiosamente, Peirce era conhecido por Reyes Prósper, o que demonstra que o protagonismo espanhol no final do século XIX nos temas de Lógica de Peirce deu lugar a um grande hiato no século XX, dado que o interesse por Peirce somente ressurgiu em meados dos anos 1980. A retomada dos temas semióticos por outro campo deve reconhecer as limitações do conhecimento possível para uma época e o nível de interpretação adquirido então.