Sete Anos no Tibet
Para além disso, o Tibete dificultou imenso…
Para além disso, o Tibete dificultou imenso a presença de europeus ou
quaisquer outros estrangeiros, por mais idóneas que fossem as suas credenciais, em território tibetano. O véu de secretismo, ou talvez de exclusividade, levantado por Younghusband e logo tão frustrantemente reposto, tem sido efectivamente franqueado nos últimos cinquenta anos por muito poucos e nenhum alcançou a destacada posição que o autor deste livro ocupou, na última fase da sua permanência de cinco anos em Lassa, no círculo restrito de pessoas próximas do jovem Dalai Lama.
O viajante europeu tem geralmente uma atitude de sobranceria em relação
à Ásia, ou pelo menos em relação ao seu interior. Embora a situação do europeu possa por vezes ser precária e os seus recursos escassos, está geralmente melhor provido do que a população primitiva desses territórios: possui dinheiro, armas, sabão, remédios, tendas e abre-latas; além disso, conta com um governo numa outra parte do planeta, que procurará livrá-lo de apuros. Por isso, o forasteiro tem tendência a ostentar a sua arrogância e a encarar o interior e os seus habitantes de modo sobranceiro.
Com Herr Harrer foi diferente. Em 1943, fez uma terceira e bem sucedida
tentativa de escapar de um campo de concentração em Dehra-Dun e dirigiu-se para o Tibete, e a visão que tinha da Ásia era bastante diferente: viajava a pé, carregava as suas ínfimas posses às costas e dormia no chão, ao ar livre. Era um fugitivo, sem qualquer estatuto, sem documentos e praticamente sem dinheiro. Mesmo para uma expedição bem organizada, seguir a sinuosa rota de Inverno através do planalto de Changthang, descendo em seguida até Lassa, teria sido uma proeza honrosa; da forma como foi efectuada por Harrer e pelo seu companheiro Aufschnaiter, a viagem foi um inacreditável tourde force. Quando finalmente alcançaram Lassa, estavam esfarrapados e sem um tostão.
Embora nada justificasse a sua presença na capital tibetana, foram bem
recebidos e os vários subterfúgios a que tinham recorrido durante a viagem para se furtarem às autoridades suscitaram mais hilaridade do que indignação. Não obstante, receavam ser expulsos do país; e embora Harrer julgasse prematuramente que a guerra estava terminada, a expulsão significaria o reinternamento na índia. Nessa altura já falava tibetano fluentemente — embora com um sotaque rústico que muito divertia as individualidades de Lassa — e nunca deixou de solicitar autorização para permanecer onde estava nem de desenvolver trabalhos úteis para o governo.
Não conheci Herr Harrer pessoalmente, mas nas páginas que se seguem
ele emerge como um homem corajoso, sensato e despretensioso, de gostos singelos e princípios sólidos. Os tibetanos gostaram dele desde o início, certamente devido à sua integridade, o que levou as autoridades a serem coniventes com a sua permanência em Lassa durante cinco anos, que nunca chegaram a autorizar formalmente. Durante este período, ascendeu certamente mais pela confiança que inspirava do que por tentar insi-nuar-se, passando da sua indigência de vagabundo estrangeiro ao posto bem remunerado de tutor e confidente do jovem Dalai Lama. Harrer foi seguramente mais íntimo deste potentado de catorze anos (à excepção, talvez, de Sir Charles Bell) do que algum estrangeiro jamais o tinha sido de qualquer dos seus antecessores, e a descrição que nos dá dele é fascinante e simpática. Quando a China comunista invade o Tibete em 1950, a separação entre Harrer e este adolescente solitário, disponível e afeiçoado foi um profundo desgosto para ambos. É muito improvável que os invasores consigam alterar o carácter tibetano, uma curiosa amálgama de misticismo e alegria, sagacidade e superstição, tolerância e rigoroso convencionalismo; mas a ancestral e decrépita estrutura da sociedade tibetana, presidida pelo Dalai Lama nas suas sucessivas encarnações, está repleta de falhas e anacronismos e dificilmente sobreviverá, na sua forma tradicional, ao stress ideológico a que actualmente é submetida. Foi sem dúvida um feliz acaso que Herr Harrer tivesse a oportunidade — e dela soubesse fazer tão admirável uso — de estudar de perto um povo com quem o Ocidente está agora impossibilitado de ter, sequer, os vestígios de contacto de outrora. A história do que ele fez e viu iguala em singularidade o relato que Tor Heyerdahl fez da sua viagem no Kon-Tiki, e é narrada, apraz-me dizê-lo, no mesmo estilo simples e despretensioso.
Peter Fleming