Sete Anos no Tibet

Heinrich Harrer · Capítulo 7 de 8 · parte 1/2

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Sete Anos no Tibet

12 uma Tentativa de Golpe de Estado

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Uma audiência com o Dalai Lama — A conspiração dos monges de Será — Festivais religiosos em honra do Buda.

Quando chegou a altura do meu segundo Ano Novo em Lassa, presenciei

todas as cerimónias desde o início. Milhares de pessoas afluíram à cidade e Lassa parecia um grande acampamento. Este ano celebravam o início do «Ano do Javali de Fogo. O esplendor das cerimónias não era inferior ao do ano passado, e eu estava naturalmente interessado nos acontecimentos que tinha perdido no ano anterior devido à minha doença. O espectáculo que mais me marcou foi a procissão tradicional de milhares de soldados em trajes históricos. Há muito tempo, um exército muçulmano que marchava sobre Lassa foi apanhado por fortes tempestades de neve no sopé das montanhas Nyen-chenthanglha e ficou completamente soterrado. Os Pón-pos da região trouxeram em triunfo as armas e armaduras dos soldados congelados para Lassa. Agora são trazidas todos os anos e exibidas por mil homens. Os velhos estandartes desfilam pela rua; ouve-se o ruído metálico provocado pelas cotas de malha dos homens e cavalos; capacetes ostentando inscrições em urdu reflectem a luz do sol; os tiros de mosquete ecoam pelas ruas estreitas; no seu conjunto formam um exótico cortejo de pompa medieval nesta antiquada cidade. As tropas comandadas por dois generais marcharam através da Barkhor até a um descampado nos limites da cidade, onde eram aguardadas por milhares de pessoas sob o calor de uma enorme fogueira cujas chamas eram atiçadas por inúmeras ofertas de manteiga e cevada. A multidão parecia em transe, enquanto os monges atiravam para o fogo cabeças-da-morte e efígies simbólicas dos espíritos malévolos. Canhões enterrados no chão disparavam salvas em direcção aos picos das montanhas. O momento culminante foi quando o monge do Oráculo cambaleou em direcção à fogueira e, depois de uma rápida e selvagem dança, caiu por terra. Foi nessa altura que a multidão saiu abruptamente da sua imobilidade e começou a gesticular e a gritar freneticamente.

Em 1939, os membros da única expedição alemã que veio ao Tibete

presenciaram este festival e foi a custo que conseguiram escapar com vida, pois tiveram a temeridade de tentar filmar o Oráculo e foram imediatamente apedrejados pela multidão. Tiveram que fugir do local escalando cercas e telhados. Não havia nada de político na atitude da populaça nem sinais de xenofobia. Foi o seu fanatismo religioso que produziu semelhante reacção. Mais tarde, quando eu andava a tirar fotografias para o Dalai Lama, tinha que ser muito cuidadoso. Havia sempre cenas excitantes e eu ficava muito contente sempre que conseguia tirar algumas fotos a meu critério.

Neste Festival do Ano Novo o camareiro-mor informou-nos de que

estávamos na lista de convidados para a recepção que Sua Santidade ia oferecer. Embora já tivéssemos visto o jovem Deus várias vezes e tivéssemos sido honrados pelo seu sorriso de reconhecimento durante as procissões, ficámos muito excitados com a perspectiva de comparecer perante ele no Palácio Potala. Senti que este convite tinha um grande significado para nós e, de facto, veio a ser o ponto de partida do trajecto que me conduziu à intimidade com o jovem Rei Divino.

No dia combinado vestimos os nossos casacos de peles, comprámos as

écharpes mais caras que conseguimos encontrar na cidade e escalámos a longa escadaria do Potala por entre uma multidão de monges garridamente vestidos e nómadas e mulheres nos seus trajes festivos. A medida que subíamos, a vista sobre a cidade tornava-se cada vez mais impressionante: avistávamos os jardins e as vivendas e inúmeros moinhos de oração que os transeuntes mantinham em movimento. Passámos então através do grande portão principal para o interior do Palácio.

Havia corredores escuros cujas paredes decoradas com pinturas de

estranhas divindades protectoras conduziam através dos edifícios térreos até a um pátio. Daí, escadarias íngremes com vários andares de altura levavam ao telhado plano. Os visitantes subiam-nas cuidadosamente e em silêncio. Lá em cima já estava reunida uma grande multidão, pois no Ano Novo toda a gente tem o direito de receber a bênção do Grande Ser.

Na cobertura havia uma série de pequenos edifícios com telhados

vermelhos que eram os aposentos do Dalai Lama. Uma longa e sinuosa fila de devotos caminhava lentamente em direcção à porta guiados pelos monges. Nós também seguíamos logo atrás dos monges. Quando chegámos à antecâmara da audiência esticámos o pescoço para conseguir avistar o Buda Vivo sobre a floresta de cabeças. E ele também, momentaneamente esquecido da sua dignidade, procurou ansiosamente com o olhar os dois estrangeiros de quem tanto ouvira falar.

O Dalai Lama estava sentado na pose de Buda, ligeiramente inclinado

para a frente num trono coberto com um majestoso brocado. Durante horas tinha que ficar sentado a observar a interminável corrente de fiéis e abençoá-los à medida que passavam. Aos pés do trono estava uma montanha de bolsas com dinheiro, rolos de seda e centenas de écharpes brancas. Nós sabíamos que não deveríamos entregar as nossas écharpes brancas directamente ao Dalai Lama — um abade iria recebê-las da nossa mão. Quando nos encontrámos de cabeça curvada perante a Presença, não consegui resistir à tentação de levantar o olhar. Um sorriso intenso e infantil iluminou o rosto do Dalai Lama e a sua mão erguida numa bênção pousou na minha cabeça por um instante. Tudo se passou num ápice: num instante estávamos perante um trono um pouco mais baixo no qual estava sentado o Regente, que também pousou a sua mão sobre nós numa bênção. Então um abade pendurou cordões vermelhos ao nosso pescoço e fomos convidados a sentarmo-nos em almofadas. Foi servido arroz e chá e nós, obedientes ao costume, atirámos ao chão alguns grãos como oferta aos deuses.

Do nosso recanto tínhamos uma maravilhosa vista de tudo o que se

passava. Uma interminável fila de gente per-filava-se diante do Rei Divino para receber a sua bênção, com as cabeças curvadas em humilde reverência e as línguas de fora, compondo um estranho cenário. Ninguém se atrevia a levantar o olhar. Um ligeiro toque com uma espécie de espanador em seda substituiu o toque de mão com que nós e os monges tínhamos sido honrados. Nenhum dos visitantes chegava de mãos vazias. Alguns traziam apenas écbarpes em pano cru, mas havia peregrinos com um séquito de criados carregados com prendas. Todas as ofertas são imediatamente registadas pelo tesoureiro e, se utilizáveis, acrescentadas às provisões do Potala. As inúmeras écbarpes de seda são posteriormente vendidas ou oferecidas como prémios nas provas atléticas. As ofertas em espécie permanecem como propriedade pessoal do Dalai Lama, sendo canalizadas para as salas de ouro e prata do Potala, nas quais imensos tesouros têm sido acumulados ao longo de séculos e herdados por uma Encarnação após a outra.

Mais impressionante que as ofertas era a expressão de intensa devoção

nos rostos de toda esta gente. Para muitos é o principal momento das suas vidas. Muitas vezes percorrem centenas de quilómetros nas suas peregrinações, prostrando-se na poeira e às vezes caminhando de joelhos. Alguns passaram meses e anos e sofreram imenso com o frio e a fome na sua jornada para receber a bênção do Rei Divino. Parecia-me que um toque do espanador em seda era uma magra recompensa para tal devoção, mas era impossível ignorar a expressão de suprema felicidade que iluminava os seus rostos quando um monge pendurava um cordão ao pescoço de cada peregrino. Trazem estes cordões consigo até ao resto das suas vidas, presos com alfinetes ou cosidos em bolsas e consideram-nos uma protecção contra todos os males. A qualidade do cordão corresponde ao estatuto de quem o recebe, mas todos ostentam o místico triplo nó. Estes cordões com nós são preparados pelos monges, mas para os ministros e para os abades mais bem colocados é o próprio Dalai Lama quem dá os nós. A atmosfera desta sala superlotada e impregnada com o cheiro de incenso e de lamparinas de manteiga tornou-se muito opressiva com o passar do tempo, e ficámos bastante contentes quando a cerimónia chegou ao fim.

Assim que o último dos peregrinos deixou a sala, o Dalai Lama levantou-

se e, ajudado pelos seus servos, encaminhou-se para os seus aposentos enquanto nós permanecemos imóveis e com a cabeça baixa. Quando íamos a sair, um monge aproximou-se de nós e entregou a cada um uma nota nova em folha de cem sangs dizendo Gyal-po Rinpoche ki sõre» — «Isto é uma prenda do precioso soberano.

Ficámos muito surpreendidos com este gesto, principalmente quando

soubemos que ninguém até à data tinha recebido um presente deste tipo. Era de esperar que em Lassa toda a gente ficasse a saber da honra que nos tinha sido concedida mesmo antes de a mencionarmos a uma alma sequer. Guardámos as notas como talismãs e quando deixámos o Tibete tivemos que admitir que elas não nos tinham desapontado.

Depois da audiência aproveitámos a oportunidade para visitar os inúmeros

lugares sagrados do Potala na companhia dos peregrinos. O Potala, um dos mais imponentes edifícios do mundo, foi construído com a sua actual forma há cerca de trezentos anos pelo quinto Dalai Lama. Anteriormente tinha existido neste local um forte que pertencia aos reis do Tibete, que foi destruído pelos mongóis durante uma das suas invasões. Pedras gigantes foram transportadas para lá por trabalhadores forçados, para serem talhadas por mestres de alvenaria — sem qualquer auxílio técnico — e transformadas no gigantesco edifício que se ergue das rochas. Quando o quinto Dalai Lama morreu subitamente, surgiu o perigo de o trabalho nunca ser completado, mas o Regente, que não podia contar com a lealdade do povo para terminar este formidável projecto, omitiu as notícias da morte de Sua Santidade. Primeiro foi anunciado que estava gravemente doente e depois que se tinha retirado deste mundo para meditar. Esta encenação continuou por dez anos até o Palácio estar pronto. Actualmente, quando se olha para este edifício único pode-se compreender e desculpar a fraude que tornou possível a sua execução.

No cimo do Potala encontrámos a sepultura do soberano a quem o Palácio

deve a sua origem. Os restos mortais do quinto Dalai Lama repousam num santuário próximo do de outros Reis Divinos. Existem sete tumbas, perante as quais os monges se sentam e rezam ao som de batidas surdas de tambor. Se alguém quiser chegar até às stupas* tem que escalar escadas muito íngremes — uma aventura perigosa. Existe pouca iluminação e os degraus tornaram-se escorregadios com a poeira dos séculos. A stupa maior é a do décimo terceiro Dalai Lama, que foi construída a vários andares de profundidade do Palácio. Foi utilizada mais de uma tonelada de ouro para construir a camada de ouro com que as paredes desta torre são forradas.

Depois de visitar vários templos chegámos à parte ocidental do Potala,

onde vivem 250 monges. O Namgyetrat-sang, como este sector se chamava, é estreito e cheio de esquinas e pouco convidativo para o olho europeu, mas a vista das suas pequenas janelas compensa o interior soturno e desconfortável. Não pude deixar de pensar como Lassa parecia atractiva destas alturas, com as suas casas cúbicas e telhados rasos. Estávamos muito alto para poder ver a sujidade nas ruelas.

Stupa: santuário budista. (N. do E.)

 

Nos anos seguintes tive várias oportunidades de ficar hospedado no

Potala como convidado de amigos que aí viviam. A vida nesta

fortaleza religiosa faz lembrar a de um castelo medieval. Praticamente

nenhum objecto pertence à nossa época. Ao anoitecer todos os portões

são fechados sob a supervisão do tesoureiro, após o que as sentinelas

percorrem o Palácio para verificar se está tudo em ordem. Os seus

gritos, ecoando ao longo dos corredores, são os únicos sons na

quietude opressiva. As noites são longas e calmas pois toda a gente se

deita cedo. Em contraste com a agitada vida social da cidade, não há

festas nem diversões. Dos santuários dos mortos sagrados emana uma

atmosfera de mortalidade, lúgubre e solene, que faz todo o Palácio

parecer uma enorme tumba. Eu podia perfeitamente entender por que o

jovem soberano ficava feliz quando se mudava para a sua residência de

Verão. Uma criança só, sem os pais ou amigos, devia levar uma vida

terrível no Potala. A sua única distracção eram as raras visitas do seu

irmão Lobsang Samten, que lhe trazia saudações dos pais e lhe contava

todas as novidades da cidade.

O Dalai Lama possui um elefante, o único no país, que lhe foi

oferecido pelo Marajá do Nepal, em cujo país há muitos adeptos

religiosos do Rei Divino. Muitos nepa-leses ingressam nos mosteiros

do Tibete e dedicam as suas vidas à religião, formando comunidades

separadas nos conventos; têm a reputação de serem pupilos aplicados.

O Marajá tinha oferecido dois elefantes ao Dalai Lama como

demonstração do seu respeito, mas um deles não sobreviveu à viagem

através dos Himalaias, embora a estrada de mil e cem quilómetros para

Lassa tivesse sido cuidadosamente desobstruída de todas as pedras.

Prepararam estábulos especiais para estes animais em todos os pontos

de paragem, e um deles conseguiu chegar à capital em bom estado,

para grande satisfação geral. Ninguém tinha visto antes um animal tão

grande. Chamavam-lhe «Langchen Rinpoche. Tinha um estábulo

próprio na ala norte do Potala e frequentemente participava em

procissões engalanado com preciosos brocados. Os cavaleiros, cujas

montadas não estavam acostumadas a tais monstros, mantinham uma

prudente distância.

Durante as celebrações do Ano Novo o pai do Dalai Lama faleceu.

Foi feito tudo o que era possível para salvar-lhe a vida. Monges e

curandeiros tinham tentado toda a espécie de remédios. Chegaram

mesmo a preparar um boneco para o qual tentaram transferir a doença

do paciente e que depois queimaram com grande solenidade junto à

margem do rio. Foi tudo em vão. Na minha opinião teriam feito melhor

se chamassem o médico inglês, mas claro que a família do Dalai Lama

deve ser sempre um exemplo de ortodoxia e não deve desviar-se das

práticas tradicionais em tempos de crise.O corpo foi levado, como

habitualmente, para um local consagrado fora da cidade onde foi

desmembrado e entregue às aves de rapina. Os tibetanos não observam

o luto pelos mortos da forma como o fazemos. A tristeza pela perda é

aliviada pela perspectiva da reencarnação, e a morte não infunde terror

aos budistas. Durante quarenta e nove dias mantêm lamparinas de

manteiga acesas e no fim deste período realiza-se um serviço de oração

na casa do defunto. E isso é o fim da história. Viúvos e viúvas podem

casar pouco tempo depois e a vida retoma o seu curso habitual.

Em 1947, ocorreu uma pequena guerra civil em Lassa. O antigo

Regente, Reting Rinpoche, que se tinha demitido voluntariamente do

seu cargo, parecia novamente sedento de poder. Reting tinha muitos

adeptos entre o povo e as autoridades, que acirraram os ânimos contra

o seu sucessor. Queriam ver Reting de volta ao leme e decidiram agir.

O golpe de Estado ia concretizar-se com recurso ao moderno

expediente de uma bomba que seria entregue como presente de um

admirador desconhecido na casa de um alto funcionário monástico;

mas antes da encomenda chegar ao Regente o infernal dispositivo

explodiu. Felizmente ninguém morreu. Foi através deste atentado mal

sucedido que a conspiração foi descoberta. O enérgico Tagtra

Rinpoche actuou com rapidez e determinação. Um pequeno exército

comandado por um dos ministros marchou sobre o mosteiro de Reting

e prendeu o antigo Regente. Os monges do Mosteiro de Será

revoltaram-se contra esta acção e o pânico invadiu a cidade. Os

comerciantes barricaram as suas lojas e puseram as suas mercadorias a

salvo. Os nepaleses refugiaram-se na sua Legação, levando consigo

todos os seus valores. Os nobres fecharam os portões das suas casas e

armaram os seus criados. A cidade inteira ficou em estado de alerta.

Aufschnaiter tinha visto as colunas a marcharem contra Reting e veio

a toda a velocidade da sua casa de campo para a cidade, onde

organizou comigo a defesa da mansão de Tsarong. As pessoas estavam

menos preocupadas com a crise política do que com o perigo

representado pelos monges de Será, que eram aos milhares e que

poderiam invadir e pilhar a cidade. E havia quem não confiasse no

exército, que até certo ponto estava equipado com armamento

moderno. As revoluções militares não eram uma novidade na história

de Lassa.

A chegada de Reting aprisionado era aguardada com excitação, mas

entretanto ele tinha sido secretamente levado para o Potala. Os

monges, que tinham planeado libertá-lo, foram enganados por esta

manobra mas, na verdade, a partir do momento em que o seu líder foi

preso a sua causa estava perdida. Encorajados pelo seu fanatismo,

recusaram render-se e teve início um tiroteio feroz. A resistência só

terminou depois de o governo ter ordenado o bombardeamento da

cidade e do Mosteiro de Será com morteiros que derrubaram algumas

casas. As tropas conseguiram subjugar os monges e a paz regressou à

capital. Durante semanas as autoridades estiveram ocupadas a julgar os

culpados e foram aplicados muitos açoitamentos severos.

Enquanto as balas ainda assobiavam pela cidade, a notícia da morte

do ex-Regente amotinado espalhou-se como um incêndio no mato.

Sussurravam-se rumores sobre a forma como teria morrido. Muitos

acreditavam que tinha sido vítima de um assassínio político, mas eram

mais aqueles que achavam que por força da concentração e de uma

indomável vontade ele se tinha projectado para o próximo mundo sem

a formalidade da morte. A cidade estava subitamente cheia das mais

inacreditáveis histórias sobre os milagres que lhe eram atribuídos e

sobre os poderes sobre-humanos que possuía. Certa ocasião, quando o

pote de barro de um peregrino transbordava a ferver, di-zia-se que ele

o teria fechado com as mãos, dobrando as bordas do pote como se o

barro ainda estivesse fresco e maleável.

O governo recusava-se a negar ou confirmar os rumores.

Provavelmente poucas pessoas sabiam o que realmente tinha

acontecido. O falecido ex-Regente tinha granjeado muitos inimigos

durante o período do seu mandato. Uma vez tinha mandado arrancar os

olhos a um ministro que planeara uma rebelião. Agora tinha pago por

este crime. Como geralmente acontece durante as convulsões políticas,

os inocentes pagavam frequentemente pelos crimes de outros, e assim

os anteriores protegidos de Reting foram demitidos dos seus cargos.

Um dos homens destacados no seu partido chegou mesmo a suicidar-

se. Este foi o único caso de suicídio em que eu ouvi falar durante toda

a minha permanência no Tibete.

A prisão não tinha espaço para todos os condenados e por isso os

nobres tiveram que assumir a responsabilidade de os alojar e manter

sob custódia. Como resultado, em quase todas as casas havia um

condenado acorrentado e com uma coleira de madeira à volta do

pescoço. Só depois de o Dalai Lama ter assumido oficialmente os

poderes de soberano é que foi concedida uma amnistia aos presos

políticos e de delito comum. A maioria dos monges de Será tinha

fugido para a China. Quando havia uma revolta no Tibete geralmente

os chineses estavam envolvidos. Toda a propriedade dos rebeldes foi

confiscada pelo governo e vendida em hasta pública. As casas e

pavilhões do Reting Rinpoche foram demolidos e as suas belas árvores

de fruto transplantadas para outros jardins. O mosteiro foi totalmente

saqueado pelos soldados, e várias semanas mais tarde continuaram a

aparecer nos bazares cálices em ouro, brocados e outros objectos de

valor. A venda dos bens de Reting rendeu vários milhões de rupias ao

Tesouro. Entre as suas posses contavam-se centenas de fardos de

artigos em lã inglesa e oitocentos trajes em seda e brocado. Isto

demonstra como se pode enriquecer no Tibete. Reting era um homem

do povo sem qualquer ascendência. A sua carreira tinha começado

quando era rapaz e foi reconhecido como uma Encarnação.

13 AO SERVIÇO DO GOVERNO

Trabalho no Jardim das Jóias — Na minha própria casa — A

política mundial afecta o próprio Tibete — O Dalai Lama visita os

mosteiros — Os problemas agrícolas do Tibete — Introduzimos a

patinagem.

As cerimónias religiosas que se celebraram em comemoração do

nascimento e morte de Buda durante o quarto mês do ano tibetano,

gradualmente apagaram a memória da insurreição. No Outono, o

governo solicitou-nos que desenhássemos um novo mapa da cidade.

Aufschnai-ter interrompeu o seu trabalho e começámos a fazer um

levantamento topográfico. Nunca tinha sido feito um autêntico mapa

da cidade. No último século, agentes secretos da índia levaram consigo

alguns esboços mas tinham sido desenhados de memória e eram

bastante inexactos. Agora podíamos servir-nos do teodolito de Tsarong

e com as nossas fitas métricas percorremos todas as partes da Cidade

Sagrada. Só podíamos trabalhar de manhã cedo, pois assim que as ruas

se enchiam de gente éramos cercados por curiosos. O governo tinha

colocado dois polícias à nossa disposição porque sozinhos não

conseguíamos manter o povo afastado. Mas mesmo assim tínhamos

dificuldades. Os transeuntes achavam interessante espreitar através do

óculo de Aufschnaiter, do lado errado claro, e as nossas operações

ficavam consideravelmente atrasadas. Não era nada agradável

percorrer as ruas imundas sob o frio cortante da manhã e precisávamos

do Inverno todo para recolher os dados para o nosso levantamento.

Tínhamos de escalar telhados para poder assinalar as casas nos

diferentes quarteirões e tive de anotar mais de mil nomes diferentes

dos proprietários, tudo escrito em tibetano. Quando ficaram prontas as

cópias para o Dalai Lama e para todos os departamentos

governamentais importantes, foi introduzido um novo jogo de salão.

As pessoas aprenderam a interpretar os mapas e divertiam-se a

localizar as suas próprias casas.

Nesta altura, o governo teve a ideia de instalar um moderno sistema

de drenagem e electricidade recorrendo a mim e a Aufschnaiter.

Nenhum de nós tinha conhecimentos técnicos nestas áreas, mas o meu

companheiro tinha um excelente domínio da Matemática devido aos

seus estudos de Engenharia Agrónoma, e quando havia dúvidas

recorríamos a livros técnicos. Aufschnaiter já recebia um salário

mensal em rupias, e eu fui oficialmente nomeado trabalhador do

Estado em 1948. Guardei a minha carta de nomeação e até hoje

orgulho-me dela.

Poucos meses depois da nossa audiência com o Dalai Lama fui

convocado a meio da noite ao Palácio Norbu-lingka para me

informarem de que o fluxo crescente das águas do rio ameaçava

inundar o Palácio de Verão. As chuvas da monção transformam a

suave e irrisória corrente num turbulento rio, e em alguns lugares

chega a ter mais de um quilómetro e meio de largura. Quando cheguei

ao local encontrei a antiga represa prestes a desmoronar-se. Sob as

minhas ordens, o corpo da guarda começou a construir um novo dique

debaixo de chuva torrencial e à luz ténue das lanternas. Conseguimos

reforçar suficientemente a velha represa para que não cedesse de

momento e no dia seguinte comprei todos os sacos de juta que

encontrei no bazar e enchi-os com argila e pastas de turfa. Quinhentos

soldados e carregadores trabalharam sob alta pressão e conseguimos

erigir novas defesas antes que a velha represa rebentasse.

Ao mesmo tempo, o oráculo do tempo fora convocado de Gadong e

durante os dias seguintes foi meu vizinho numa das casas adjacentes

ao Palácio. Ambos tínhamos a mesma missão — controlar as

enchentes. Ainda bem que não dependíamos unicamente do oráculo e

tínhamos a força alternativa de mil mãos a trabalhar. Precisamente

quando atirávamos as últimas pás de terra no dique, o oráculo

cambaleou até à margem e deu início à sua dança. No mesmo dia a

chuva parou, o nível da água desceu e ambos recebemos as

congratulações do Dalai Lama.Mais tarde perguntaram-me se poderia

fazer alguma coisa definitiva para represar as enchentes que

ameaçavam o Palácio de Verão todos os anos. Concordei prontamente

pois estava confiante de que com a ajuda de Aufschnaiter poderia

encontrar maneira de controlar as cheias. Eu sabia que os tibetanos

construíam sempre os seus diques com paredes perpendiculares e

percebi que essa era a principal razão por que cediam tão facilmente.

Começámos a trabalhar na Primavera de 1948 e tínhamos de

terminar antes da monção. Foi-me atribuída uma força de quinhentos

soldados e mil trabalhadores. Nenhum empreiteiro no Tibete jamais

empregara tantos homens. Insisti numa outra inovação e convenci o

governo de que o projecto seria rapidamente concluído se não fosse

utilizado trabalho forçado. Assim toda a gente recebia o seu salário

diariamente e entre os trabalhadores reinava o bom humor. É claro que

não se pode comparar a produtividade dos trabalhadores tibetanos com

a dos europeus. A força física dos nativos é muito inferior à dos nossos

trabalhadores. Olhavam para mim espantados quando eu pegava

impacientemente na pá e lhes mostrava como cavar. E havia muitas

interrupções e pausas. Sempre que se descobria uma minhoca numa pá

havia um grito de alarme. A terra era atirada para o lado e a criatura

posta a salvo.

A baixa produtividade desta gente devia-se certamente à sua

subnutrição. O pobre vive geralmente à base de tsampa, chá e algumas

papas com paprika. Preparavam chá o dia inteiro na obra: toda a gente

recebia a sua porção e ao meio-dia era servida sopa.

Para além dos soldados e trabalhadores tinha também uma frota de

quarenta barcos em pele de iaque. Os barqueiros estão intimamente

associados às peles dos animais e consequentemente entram em

conflito com os mandamentos do Budismo, sendo considerados

cidadãos de segunda, assim como os artesãos que trabalham o cabedal.

Retive na memória um exemplo de como são tratados. Um dos Dalai

Lamas a caminho do mosteiro de Samye tinha atravessado uma

cordilheira que os barqueiros costumavam utilizar no seu percurso para

o rio. A cordilheira foi santificada pela passagem do Rei Divino e daí

em diante mais nenhum barqueiro teve permissão para passar ali, tendo

de escalar uma cordilheira muito mais alta e mais difícil com os seus

barcos às costas perdendo tempo e energia. Os barcos pesam mais de

90 quilos e os trilhos estão sempre acima dos 4800 metros. Isto dá uma

ideia do extraordinário poder da religião no Tibete sobre o quotidiano

das pessoas. Entristecia-me sempre ver os homens arrastando os

barcos às costas. Caminhavam ao longo da margem com passos lentos

e medidos; nunca poderiam remar contra a corrente. Cada barqueiro

era seguido por uma ovelha com um fardo no lombo. As ovelhas, tão

bem treinadas como cães, não precisavam de trelas e quando o seu

dono entrava novamente na água pulavam para dentro do barco por si

próprias.

Os quarenta barcos utilizados na construção da minha represa tinham

de trazer granito de uma pedreira localizada a montante do rio, o que

não era uma tarefa fácil para os barcos — os cascos tinham de ser

reforçados com pranchas de madeira para impedir que as pedras os

rompessem. Os barqueiros eram homens de óptima constituição física

e o seu salário era superior ao dos outros trabalhadores. Reparei que

não eram tão humildes como outros «cidadãos de segunda. Tinham

formado uma comunidade própria e orgulhavam-se do facto.

Por uma feliz coincidência, um dos meus colaboradores era o Põnpo

de Tradún, cuja tarefa era pagar os ordenados todas as noites.

Relembrámos bons momentos e o tempo em que tínhamos estado em

Tradiin — um tempo miserável para mim! Hoje em dia podia rir-me

disso. Quando nos encontrámos pela primeira vez, ele chefiava uma

inspecção itinerante com vinte criados e tinha-nos tratado com cortesia

e amizade. Quem poderia imaginar que um dia iríamos trabalhar lado a

lado e que eu seria, mais ou menos, seu superior? Muitas vezes não me

apercebia de que se tinham passado quatro anos desde o nosso

primeiro encontro. Quatro anos durante os quais eu quase me tornara

tibetano! Surpreendia-me a mim mesmo a fazer gestos tipicamente

tibetanos, que via centenas de vezes por dia e acabava por imitar

inconscientemente. Como o meu trabalho servia para proteger o jardim

de Sua Santidade, os meus chefes eram monges com os mais altos

cargos. O governo também mostrava grande interesse nas actividades.

Em várias ocasiões o Gabinete inteiro vinha a cavalo inspeccionar os

trabalhos com os seus secretários e servos e cumprimentava-nos pelo

nosso desempenho, para além de nos oferecerem écharpes de honra e

presentes em dinheiro. Nestas ocasiões os trabalhadores também

recebiam dinheiro e era-lhes concedido meio dia de folga.

Os diques ficaram prontos em Junho: mesmo a tempo, pois a

primeira enchente ocorreu pouco depois. Nesse ano o nível do rio

subiu muito mas as barragens fizeram o seu trabalho. Nos terrenos que

costumavam ficar alagados plantámos salgueiros cujas verdejantes

folhas aumentaram a beleza do Jardim de Verão.

Enquanto erigia represas para proteger o Jardim das Jóias, era

convidado por altos funcionários monásticos para jantar e passar a

noite. Eu era seguramente o primeiro europeu a quem era permitido

ficar no Potala e na Residência do Jardim de Verão. Assim, tive muitas

oportunidades para admirar a beleza dos terrenos e as esplêndidas

árvores de fruto e coníferas que tinham sido trazidas de todas as partes

do Tibete. Um verdadeiro exército de jardineiros cuidava das flores e

das árvores e mantinha os carreiros em ordem. O parque é cercado por

um muro alto, mas é acessível aos visitantes em trajes tibetanos. Dois

homens do corpo da guarda inspeccionam quem atravessa o portão e

certificam-se de que não entram no parque chapéus ou sapatos

europeus. Por simpatia isentaram-me desta regra, à excepção das festas

de jardim, quando costumava suar sob o peso de um chapéu debruado

a pele. Os guardas apresentam armas aos nobres de quarta categoria

para cima e eu também recebia uma continência.

No meio do parque está o jardim privado do Buda Vivo, cercado por

um alto muro amarelo. Tem dois portões fortemente guardados por

soldados pelos quais, para além de Sua Santidade, só os abades

guardiões podem passar. Nem mesmo os ministros do Gabinete são

admitidos. Através da folhagem é possível avistar-se os telhados

dourados dos templos, mas o grito dos pavões é o único som que

escapa para o mundo exterior. Ninguém sabe o que se passa neste

santuário interno. Muitos peregrinos vêm visitar este muro e percorrem

o caminho que o circunda. A curtos intervalos existem casotas para

cães embutidas na parede e estes selvagens e peludos moradores

ladram sempre que alguém se aproxima demasiado. As trelas em pele

de iaque impedem os cães de atacar, mas o seu rosnar rouco soa como

uma nota dissonante neste mundo pacífico. Mais tarde, quando tive o

privilégio de entrar neste jardim secreto através dos portões no muro

amarelo, fiz amizade, na medida do possível, com estes ferozes

companheiros.

Todos os anos são encenadas peças num enorme palco de pedra fora

do jardim interno. Vastas multidões vêm assistir às peças, que se

realizam durante vários dias, do nascer ao pôr-do-sol. São encenadas

por grupos de actores masculinos e são de carácter quase

exclusivamente religioso. Os actores não são profissionais. São

oriundos da população e têm as mais variadas profissões. Quando a

semana de teatro termina voltam às suas vidas privadas. As mesmas

peças são representadas ano após ano. As palavras são cantadas numa

espécie de recital, e uma orquestra de tambores e flautas marca o ritmo

das danças. Só as partes cómicas têm trechos falados. Os valiosos e

belos trajes pertencem ao governo e ficam guardados no Palácio de

Verão.

Um dos sete grupos de actores, o Gyumalungma, é famoso pelas suas

paródias. Foi o único grupo que consegui realmente apreciar devido à

sua franqueza. É uma prova do bom humor e da sanidade deste povo o

facto de gozarem com as suas próprias fraquezas e até com as suas

instituições religiosas. Chegam ao ponto de fazerem uma imitação do

oráculo, com a dança, o transe e tudo, o que traz a casa abaixo.

Aparecem homens vestidos de freiras e imitam com todo o rigor o

fervor das mulheres a pedirem esmolas. Quando monges e freiras

começam a enamorar-se no palco, ninguém consegue conter o riso e na

audiência as lágrimas correm pelas faces dos abades mais severos.O

Dalai Lama assiste a estas actuações por detrás de uma cortina de gaze,

numa janela do primeiro andar do pavilhão dentro do jardim interior,

para lá do muro amarelo. Os funcionários acomodam-se em tendas de

ambos os lados do palco. Ao meio-dia, a caminho da refeição comum

preparada na cozinha do Dalai Lama, perfilam-se diante da janela do

seu soberano.Quando a semana de teatro do Jardim de Verão termina,

os actores são convidados para representar em casa de nobres e

mosteiros. Desta forma a temporada teatral dura um mês. As actuações

são cercadas pela multidão e a polícia tem de intervir frequentemente

para manter a ordem.

Durante este ano, a minha situação pessoal tinha melhorado imenso.

Era auto-suficiente e achei que tinha direito à minha própria casa onde

pudesse levar uma vida independente. Nunca esqueci a minha dívida

para com Tsarong, que nos tinha aberto a sua casa e ajudado a

estabelecer em Lassa. Desde que começara a ganhar dinheiro passei a

pagar-lhe uma renda. Recentemente, tinha recebido muitas ofertas de

amigos temporariamente transferidos para a província que estavam

dispostos a alugar-me as suas casas e jardins com alguns dos seus

criados incluídos. Optei por uma das casas do Ministro dos Negócios

Estrangeiros, Surkhang, que, segundo os padrões tibeta-nos, era uma

das mais modernas construções da cidade. Tinha enormes paredes e

toda uma fachada de painéis envidraçados, mas demasiados quartos

para as minhas necessidades. Este problema foi facilmente resolvido.

Fechei todos aqueles de que não precisava e vivia nos restantes.

Escolhi para quarto de dormir o que recebia a luz do sol mais cedo.

Junto à cama tinha o meu rádio e na parede pendurei ilustrações de um

calendário alpino, que provavelmente chegara a Lassa através do

representante de uma marca de relógios suíça. Os armários e cómodas

eram em madeira trabalhada e pintados com cores vivas, tal como se

vê nas casas dos nossos camponeses. Todos os pavimentos eram em

pedra e o meu criado tinha orgulho em os polir até brilharem como

espelhos. Costumava esfregá-los com uma espécie de cera e depois

lustrava-os com sapatos de lã, combinando o trabalho com a diversão.

Havia tapetes coloridos em todos os quartos. Como em Lassa, todos os

tectos são suportados por colunas, as carpetes individuais são

geralmente pequenas. Em Lassa há artífices famosos que vão a casa

dos nobres e, no local, tecem carpetes do tamanho e feitio desejados.

Sentam-se no chão com uma estrutura em madeira à sua frente e tecem

a lã colorida e fiada à mão em padrões clássicos: dragões, pavões,

flores e as mais variadas formas de ornamentação surgem dos seus

dedos habilidosos. Estas carpetes duram gerações. A lã é incrivelmente

resistente e as cores, feitas de casca de árvores do Butão, castanhas

verdes e sumos vegetais, mantêm-se vivas por uma eternidade.

Mandei fazer uma escrivaninha e um estirador para a minha sala de

estar. Os carpinteiros locais têm muita habilidade para restaurar

mobília velha, mas quando se trata de fazer algo novo são

lamentavelmente desajeitados. Em todos os ofícios e profissões a

capacidade criativa é negligenciada, e nem nas escolas ou nas

iniciativas privadas a experimentação é encorajada.Na minha sala de

estar havia um altar doméstico que os meus criados mantinham com

particular devoção. Todos os dias enchiam sete tigelas com água fresca

para os deuses e as lamparinas de oração nunca podiam apagar-se. Eu

vivia em constante receio de um assalto pois as estatuetas dos ídolos

tinham diademas em ouro puro e turquesa. Felizmente os meus criados

eram de toda a confiança e nestes anos todos nunca faltou nada.O meu

telhado, como todos os outros, tinha em cada canto uma árvore a servir

de mastro para as bandeiras de oração. Afixei a antena do meu rádio

num deles. Todas as casas tinham um fogareiro para incenso e outros

equipamentos para atrair boa sorte e eu costumava ter um cuidado

especial para que tudo fosse mantido em bom estado e para que

nenhum costume nacional fosse infringido ou negligenciado.

Em breve a minha casa transformou-se num verdadeiro lar, e era

sempre um enorme prazer regressar após o trabalho ou alguma visita.

O meu criado Nyima esperava por mim com água quente e chá e tudo

estava organizado, calmo e confortável. Eu tinha alguma dificuldade

em manter a minha privacidade, pois no Tibete os criados estão

acostumados a permanecer por perto ou virem servir chá sem aviso.

Nyima respeitava os meus desejos, mas tinha-se afeiçoado muito a

mim e sempre que eu saía à noite ele costumava esperar por mim junto

ao portão da casa, embora eu lhe tivesse dito para se deitar. Ele receava

que eu fosse assaltado ao chegar a casa, e por isso aparecia sempre

armado com um revólver e uma espada, pronto a arriscar a vida pelo

seu patrão. Eu não podia levar a mal esta dedicação.

A sua mulher e os seus filhos viviam na casa e deram-me uma nova

lição em matéria do amor que os tibe-tanos têm às suas crianças. Se

alguma das crianças adoecesse, Nyima não poupava dinheiro para

trazer o melhor Lama para a sua cabeceira. No que me toca, eu fazia o

melhor que podia para manter os meus criados de boa saúde, pois

gostava de me ver rodeado de caras alegres. Consegui mandá-los à

Legação Indiana para serem tratados e vacinados, mas tinha que estar

sempre atento pois os tíbeta-nos geralmente não ligam às doenças em

pessoas adultas.

Para além do meu criado pessoal, que recebia um salário mensal de

aproximadamente cinco libras, o Governo cedeu-me um mensageiro e

um moço de estábulo. Desde que trabalhava em Norbulingka, tinha

direito a montar um cavalo dos estábulos reais sempre que precisasse.

Na verdade, eu deveria montar um cavalo diferente todos os dias, pois

o mestre dos estábulos devia assegurar-se de que nenhum deles se

fatigava a fim de não arriscar o seu posto se algum dos cavalos ficasse

em mau estado. Como se pode imaginar, eu achava desagradável a

troca constante. Os cavalos estavam sempre a pastar nas belas

pastagens do Norbulingka e quando chegavam às ruas estreitas e ao

tráfego da cidade assustavam-se com tudo o que viam. Por fim,

consegui que me permitissem passar a montar o mesmo cavalo durante

uma semana seguida e efectuar as mudas apenas três vezes, de forma a

que eu e as minhas montadas nos acostumássemos mutuamente. Os

meus cavalos tinham rédeas amarelas — a cor real — e montado num

deles eu tinha, teoricamente, o direito de entrar no Potala ou cavalgar à

volta do Círculo, o que era proibido mesmo aos ministros.

O estábulo, cozinha e aposentos dos criados situavam-se num jardim

ao lado da minha casa, dividido por um muro alto. O jardim tinha uma

boa área e pude construir canteiros para flores e vegetais. Havia espaço

para badminton e croquet no relvado e montei também uma mesa de

pingue-pongue. Cultivava vegetais numa pequena estufa e conseguia

obter uma valiosa contribuição para as minhas refeições no princípio

do ano. Todas as minhas visitas tinham de admirar os meus canteiros,

dos quais me orgulhava muito.

O Sr. Richardson contribuiu com a sua experiência, e eu dediquei as

minhas manhãs e fins de tarde à jardinagem e em breve o meu esforço

foi recompensado. Durante o primeiro ano consegui colher tomate,

couve-flor, alface e hortaliça. Era extraordinário o tamanho que os

legumes atingiam sem perder qualidade. Mas a explicação era

realmente simples. Era essencial assegurar que as raízes recebessem

humidade suficiente. O ar seco e o calor do sol criavam um efeito de

estufa no qual tudo florescia de forma luxuriante. O problema da

irrigação não era tão simples, pois não existem canos com pressão e

não é possível usar mangueiras para regar o jardim. É preciso projectar

os canteiros de forma a que os regadios possam correr entre eles. Eu

tinha duas mulheres a ajudarem-me regularmente no jardim

arrancando as ervas daninhas que crescem depressa neste solo. De

igual modo crescem as flores e as frutas, e as recompensas pelo cultivo

são enormes. De um canteiro com sessenta metros quadrados colhi 180

quilos de tomate, alguns dos quais pesavam 230 gramas. Outros

vegetais cresciam igualmente bem. Eu não acredito que haja qualquer

espécie de vegetal europeu que não se adapte aqui, apesar de o Verão

ser tão curto.

Mais ou menos por esta altura começámos a sentir as repercussões da

política mundial mesmo na pacata cidade de Lassa. A guerra civil na

China ganhava contornos cada vez mais inquietantes e receava-se que

surgissem problemas entre os chineses residentes em Lassa. Para

demonstrar que o Tibete era independente da política chinesa, o

governo decidiu um dia demitir sumariamente o ministro chinês. Cerca

de cem pessoas foram afectadas por esta decisão irreversível.As

autoridades tibetanas actuaram com a astúcia habitual. Escolheram um

momento em que o operador de rádio chinês estava a jogar ténis para ir

a sua casa e apreender o seu transmissor. Quando este soube da ordem

de expulsão já não podia comunicar com o governo chinês. O posto

telegráfico da cidade foi encerrado por uma quinzena e o mundo

pensou que o Tibete enfrentava outra guerra civil.

Os diplomatas chineses expulsos foram tratados com uma estranha

cortesia e convidados para festas de despedida. Permitiram-lhes trocar

o seu dinheiro tibetano por rupias a uma taxa de câmbio favorável e

foi-lhes garantido transporte gratuito até à fronteira com a índia. Eles

não entendiam muito bem o que tinha acontecido, mas todos

lamentavam ter de partir. A maioria deles regressou à China ou à

Formosa. Alguns viajaram directamente para Pequim, onde Mao Tse-

Tung já se tinha estabelecido no poder.

E assim recomeçou a secular desavença entre a China e o Tibete. A

China comunista interpretou a expulsão do ministro e do seu gabinete

como uma afronta, não como um gesto de neutralidade como os

tibetanos queriam que fosse. Em Lassa havia uma clara noção de que a

China Vermelha iria constituir uma séria ameaça à independência do

Tibete e à sua religião. As pessoas citavam alusões do oráculo e

apontavam vários fenómenos naturais que pareciam confirmar os seus

receios. O grande cometa de 1948 foi interpretado como um sinal de

perigo e as malformações entre os animais domésticos que nasciam

eram consideradas um mau presságio. Eu também me sentia ansioso,

mas a minha ansiedade baseava-se numa estimativa mais sóbria da

situação. O futuro da Ásia era negro.Por esta altura o governo decidiu

enviar quatro altos funcionários numa volta ao mundo. Os membros

desta missão tinham sido cuidadosamente seleccionados pela sua

cultura e ideias progressistas, pois desejava-se mostrar ao mundo que o

Tibete era um país civilizado.

O líder da missão era o Secretário das Finanças, She-kabpa, e os

outros membros eram um monge chamado Changkhyimpa;

Pangdatsang, um rico comerciante; e o general Surkhang, um filho do

Ministro dos Negócios Estrangeiros. Estes dois últimos falavam um

pouco de inglês e tinham alguma ideia dos hábitos e costumes

ocidentais. O governo assegurou-se de que lhes era fornecido um

enxoval de fatos e sobretudos europeus da melhor qualidade e corte;

para além disso, levavam consigo esplêndidos robes de seda para

serem usados em recepções oficiais, pois viajavam na qualidade de

delegação nacional. Foram primeiro para a índia e de lá voaram para a

China. Depois de ficarem algum tempo nesse país, viajaram

novamente por via aérea para São Francisco, via Filipinas e Havai.

Nos Estados Unidos pararam em muitos lugares e visitaram numerosas

fábricas, particularmente aquelas que trabalhavam com matérias-

primas tibetanas.

O programa na Europa foi semelhante. A sua jornada completa durou

quase dois anos e todas as cartas que enviavam causavam excitação em

Lassa. Quando regressaram tinham arranjado novos compradores para

a lã tibetana e traziam consigo pilhas de prospectos de maquinaria

agrícola, teares, máquinas para fazer carpetes e assim por diante. A sua

bagagem também continha um jipe desmontado que o motorista do

décimo terceiro Dalai Lama tratou de montar novamente. Foi

conduzido uma vez, mas retiraram-no logo da vista do público. Muitos

nobres desejaram com certeza comprar um automóvel imediatamente,

mas parece que a altura ainda não era propícia. Nos Estados Unidos a

delegação comprou lingotes de ouro, que foram transportados para

Lassa sob pesada escolta.Enquanto os quatro delegados apreciavam o

seu passeio pelo mundo, a situação política na Ásia tinha mudado

muito. A índia tinha conquistado a independência e os comunistas

tinham conquistado toda a China; mas todos estes acontecimentos

tinham muito pouco impacto em Lassa, onde a visita tradicional do

Dalai Lama aos mosteiros era considerada mais importante do que a

política internacional.

Antes de atingir oficialmente a maioridade, todo o jovem Dalai Lama

deve visitar os mosteiros de Drebung e Será, onde dá provas de

maturidade ao participar em discussões religiosas. Os preparativos

para estas visitas eram o principal tópico das conversas há meses. Sua

Santidade seria, naturalmente, acompanhado pelos nobres, e os

monges de Drebung tinham construído um palácio especial para o

acomodar e à sua comitiva.

Certo dia a procissão partiu com o seu habitual esplendor pela

estrada de oito quilómetros que conduzia ao mosteiro, onde os quatro

arquiabades de Drebung receberam o seu Divino Visitante com um

resplandecente séquito, acompanhando-o ao seu palácio. No mesmo

dia também eu cavalguei até Drebung, pois alguns monges com quem

eu tinha travado amizade convidaram-me a ficar lá durante as

festividades. Eu sempre desejara conhecer por dentro a vida num

convento. Como qualquer outro peregrino, até à data eu só tinha

apreciado os templos e jardins de relance. Os meus amigos levaram-

me para uma das numerosas casas em pedra, onde me foram

destinados aposentos verdadeiramente espartanos. Perna, um monge

que estava prestes a submeter-se aos exames finais e já tinha os seus

próprios discípulos, actuava como guia da cidade monástica e

explicou-me a sua planta e organização. Não se podem estabelecer

comparações com qualquer das nossas instituições religiosas. Para

além dos muros deste claustro, os ponteiros do relógio do tempo

parecem ter recuado mil anos; não existe nada que nos faça recordar

que vivemos no século xx. As espessas paredes cinzentas dos edifícios

têm uma aparência ancestral, e o intenso cheiro de manteiga rançosa e

de monges pouco asseados está profundamente impregnado na

alvenaria.

Cada casa aloja entre cinquenta a sessenta habitantes e está dividida

em minúsculas celas. Há uma cozinha em cada andar e comida em

abundância. O monge comum não tem outra satisfação mundana, mas

os mais inteligentes regozijam-se com a perspectiva de alcançar altas

posições como recompensa para os seus afincados estudos. Não têm

quaisquer posses privadas à excepção das suas lamparinas de manteiga

e de um ícone, ou uma caixinha—amuleto. A única concessão ao

conforto é uma simples cama. A regra é obediência absoluta. Os

estudantes ingressam no mosteiro ainda crianças e imediatamente

vestem o hábito vermelho, que vão usar para o resto das suas vidas.

Durante os primeiros anos têm de executar as tarefas mais humildes

para os seus professores. Os mais inteligentes aprendem a ler e a

escrever e são admitidos para exames. Apenas alguns conseguem

passar de classe, e a maioria permanece a vida toda na classe dos

criados. Os eleitos são aqueles que após estudarem os ensinamentos de

Buda durante trinta ou quarenta anos conseguem passar nos testes

finais. Ficam então qualificados para ocuparem os mais altos cargos na

Igreja. Os mosteiros são as escolas superiores da educação religiosa e

o pessoal de todas as instituições puramente religiosas é escolhido

pelos seus superiores. As autoridades monásticas do governo recebem

a sua educação na Escola de Tsedrung.Os exames finais das escolas

monásticas são públicos e realizam-se uma vez por ano na Catedral.

De todo o Tibete, apenas vinte e dois candidatos são admitidos para os

exames anuais. Após uma severa prova oral supervisionada pelos

professores do próprio Dalai Lama, os cinco melhores candidatos são

promovidos à mais alta categoria monástica. O estudante que fica

aprovado com distinção pode tornar-se eremita e dedicar-se a

exercícios religiosos, ou pode ingressar na vida pública com a

possibilidade de um dia chegar a Regente. Isto raramente acontece,

porque esta função superior está geralmente reservada para

Encarnações, mas já ocorreram casos em que um homem do povo —

sem ser um nobre ou uma Encarnação de Buda — foi nomeado para

esse cargo. A última vez que isto aconteceu foi em 1910, quando o

décimo terceiro Dalai Lama fugiu para a índia na sequência da invasão

chinesa e foi necessário nomear um delegado para o representar.

Os dez mil monges de Drebung estão divididos em grupos, tendo

cada um dos quais o seu próprio templo e jardim. Ocupam as horas

matinais em exercícios religiosos comunitários, após o que recebem o

seu chá e sopa, só regressando a casa para estudar à tarde. Contudo,

têm suficiente tempo livre para dar passeios e entreterem-se com jogos

simples. Também lhes é permitido cozinhar qualquer comida

suplementar que possam receber das suas comunidades. Sempre que

possível, os grupos são organizados de acordo com os seus lugares de

origem. Em algumas casas encontram-se apenas mongóis ou nepale-

Continuar: parte 2 de 2