Sete Anos no Tibet

Heinrich Harrer · Capítulo 6 de 8 · parte 1/4

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Sete Anos no Tibet

7 a Cidade Proibida

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Os telhados dourados do Palácio Potala — Dois vagabundos mendigam comida e cama — Os fugitivos são mimados — Hóspedes na casa da família do Dalai Lama.

Estávamos a 15 de Janeiro de 1946 quando iniciámos a nossa última

marcha. Vindos de Tõlung, chegámos ao extenso vale de Kyichu. Ao transpor uma curva vimos, brilhando à distância, os telhados dourados do Potala, a residência de Inverno do Dalai Lama e a mais famosa referência de Lassa. Este momento compensou-nos de tudo. Sentimos vontade de nos ajoelharmos como os peregrinos e tocar o chão com a testa. Desde que partíramos de Kyi-rong tínhamos percorrido mais de 1000 quilómetros com a visão desta fabulosa cidade na mente. Tínhamos caminhado durante setenta dias e descansado apenas cinco. Isso representava uma média diária de quase quinze quilómetros. Quarenta e cinco dias da nossa jornada tinham sido passados a atravessar o Changthang — dias de sofrimento e de incessante luta contra o frio, a fome e o perigo. Agora, enquanto admirávamos extasiados os pináculos dourados, tudo isso estava esquecido — mais dez quilómetros e teríamos alcançado o nosso objectivo.

Sentámo-nos junto aos montículos de pedras que os peregrinos tinham

colocado a assinalar a primeira visão da Cidade Sagrada. Enquanto isso, o nosso condutor entregava-se às suas devoções. Em breve chegámos à vila de Shingdongka, a última povoação antes de Lassa. O homem da vaca recusou-se a ir mais longe, mas nada podia desencorajar-nos agora. Fomos à procura do Põnpo e muito calmamente informámo-lo de que éramos os batedores de um poderoso personagem estrangeiro a caminho de Lassa e que tínhamos que chegar à cidade o mais rapidamente possível para encontrar aposentos para o nosso mestre. O Põnpo engoliu a nossa história e deu-nos um jumento e um condutor. Anos mais tarde esta história ainda fazia rir as pessoas nas festas em Lassa, mesmo na casa de ministros. O facto é que os tibetanos se orgulham muito do seu empenho para manter os estrangeiros fora do país, e consideraram que a maneira como furámos as barreiras não só merecia atenção como era altamente cómica. Isto jogava a nosso favor pois os tibetanos são um povo que adora o humor.

Durante os últimos dez quilómetros misturámo-nos com uma fila de

peregrinos e caravanas. De vez em quando, passávamos por quiosques que exibiam toda a espécie de guloseimas — doces, pão branco e tudo o mais — que quase nos encheram os olhos de lágrimas. Mas não tínhamos dinheiro. A nossa última rupia pertencia ao condutor.

Em breve começámos a identificar os pontos referenciais da cidade sobre

os quais tanto lêramos. Mais além deveria estar Chagpori, a colina sobre a qual se ergue uma das duas famosas Escolas de Medicina. E à nossa frente estava Debrung, o maior templo do mundo, habitado por dez mil monges, e que constitui uma cidade em si próprio, com as suas incontáveis casas de pedra e centenas de pináculos dourados apontados para o céu por cima dos santuários. Um pouco mais abaixo situavam-se os terraços de Nechung, um outro templo que durante séculos tem guardado o maior mistério do Tibete. Aqui manifesta-se a presença de uma Divindade protectora cujos oráculos secretos guiam os destinos do Tibete e que é consultada pelo Governo antes de serem tomadas quaisquer decisões importantes. Ainda nos faltavam oito quilómetros e a cada passo que dávamos havia algo de novo para ver. Passávamos através de prados vastos e bem cuidados, coroados por bosques onde o Dalai Lama pasta os seus cavalos.

Durante quase uma hora um longo muro de pedra flanqueou a nossa

estrada e disseram-nos que por trás ficava o palácio de Verão do Rei Divino. A seguir, passámos pela Legação Britânica, que se situava mesmo no perímetro da cidade, semi-encoberta por salgueiros. O nosso condutor virou-se para ir nessa direcção pensando que esse era o nosso destino e tivemos alguma dificuldade em persuadi-lo a seguir em frente. De facto, por um momento nós próprios hesitámos, mas a memória do campo de concentração ainda estava presente nas nossas mentes e pensámos que, afinal de contas, estávamos no Tibete e era aos tibetanos que devíamos pedir hospitalidade.

Ninguém nos deteve nem incomodou. Não conseguíamos compreender

isso, mas por fim apercebemo-nos de que ninguém era suspeito, nem mesmo um europeu, porque nunca entrara ninguém em Lassa sem uma autorização.

A medida que nos aproximávamos, o Potala agiganta-va-se à nossa frente.

Por enquanto não conseguíamos ver nada da cidade em si, que ficava por trás das colinas sobre as quais se erguiam o Palácio e a Escola de Medicina. Avistámos então um enorme portão coroado com três Chórten que cobriam o espaço entre as duas colinas e formava a entrada para a cidade. A nossa excitação era intensa. Agora íamos com certeza saber qual seria o nosso destino. Quase todos os livros sobre Lassa relatam a presença de sentinelas que guardam a entrada da Cidade Sagrada. Aproximámo-nos com o coração aos pulos. Mas não havia nada. Nem soldados, nem posto de controlo, só alguns mendigos com as mãos estendidas a pedir esmola. Misturámo-nos com um grupo de pessoas e caminhámos livremente através do portão para dentro da cidade. O nosso condutor disse-nos que o grupo de casas à nossa esquerda era só uma espécie de subúrbio e por isso continuámos através de uma área descampada, aproximando-nos cada vez mais do centro da cidade. Não pronunciamos uma palavra, e até hoje não consigo encontrar termos para descrever a intensidade das nossas sensações. As nossas mentes, exaustas pelas provações por que tínhamos passado, não conseguiam absorver o choque de tantos e tão fortes sentimentos.

Em breve chegámos a uma ponte coberta por um telhado turquesa e pela

primeira vez vimos as espirais da Catedral de Lassa. O sol banhava este cenário com uma luz irreal. Tremíamos de frio e precisávamos de encontrar abrigo, mas em Lassa não era tão simples entrar numa casa como numa tenda no Changthang. Provavelmente comunicariam de imediato a nossa presença às autoridades. Mas tínhamos que tentar. Na primeira casa encontrámos um criado mudo, que não nos prestou atenção. Na casa seguinte havia apenas uma empregada que gritou por socorro até chegar a sua patroa, que nos suplicou que fôssemos para outro lado qualquer pois seria expulsa do bairro se nos recebesse. Não podíamos acreditar que o governo fosse assim tão rígido, mas não queríamos causar-lhe problemas e por isso fomos embora. Caminhámos por ruas estreitas e quando demos por nós já estávamos do outro lado da cidade. Fomos ter a uma casa muito maior, com estábulos no quintal e com melhor aspecto do que todas as que tínhamos visto até então. Apressámo-nos a entrar e deparámos com criados que nos insultaram e mandaram embora. Não estávamos dispostos a isso e começámos a descarregar o nosso burro. O condutor tinha reparado que havia algo de errado e já há algum tempo que nos pressionava para o deixarmos voltar para casa. Pagámos-lhe e ele foi-se embora com um suspiro de alívio.

Os criados ficaram desesperados quando perceberam que tínhamos vindo

para ficar. Suplicaram e imploraram que nos fôssemos embora e explicaram que teriam problemas terríveis quando o seu amo voltasse. Também não nos sentíamos confortáveis com a ideia de exigir hospitalidade à força, mas não nos mexemos. Cada vez havia mais gente atraída pelo barulho, e a cena lembrava-me a minha partida de Kyirong. Permanecemos insensíveis a todos os protestos. Sentámo-nos no chão junto às nossas trouxas, mortos de cansaço e de fome, indiferentes ao que pudesse aconte-cer-nos. Só queríamos sentarmo-nos, descansar e dormir.

Subitamente, os gritos enfurecidos da multidão cessaram. Tinham visto os

nossos pés inchados e cobertos de feridas e, como povo simples e generoso que são, sentiram pena de nós. Uma mulher tomou a iniciativa. Era a que nos tinha implorado para sair da casa dela. Agora trazia—nos chá tibetano. E então todos nos traziam toda a espécie de coisas — tsampa, provisões e até combustível. O povo queria reparar a sua recepção hostil. Atirámo-nos sofregamente à comida e temporariamente esquecemos tudo o resto.

De repente ouvimos alguém dirigir-nos a palavra em inglês fluente.

Olhámos para cima, e apesar de quase não haver luz reconhecemos que o tibetano ricamente vestido que falava connosco devia ser uma pessoa da mais alta posição. Estupefactos e contentes, perguntámos-lhe se por acaso não seria um dos quatro nobres enviados para estudar em Rugby. Ele respondeu que não, mas que tinha passado muitos anos na índia. Em poucas palavras contámos-lhe o que nos tinha acontecido, dizendo que éramos alemães e que suplicávamos abrigo. Ele pensou por um momento e disse que não podia receber-nos em sua casa sem a aprovação do magistrado da cidade, mas iria ter com ele e pedir-lhe permissão.

Quando saiu, as outras pessoas disseram-nos que era um importante

funcionário, responsável pelos trabalhos de electricidade. Não nos atrevemos a acreditar muito no que ele nos tinha dito, mas de qualquer forma começámos a preparar-nos para passar ali a noite. Sentámo-nos junto à fogueira e conversámos com as pessoas que iam e vinham constantemente. Veio então um criado ter connosco e pediu-nos que o acompanhássemos, dizendo que o Sr. Thangme, o «Mestre da Electricidade, nos convidava para sua casa. Chamavam-lhe respeitosamente Ku-ngõ, equivalente a Alteza.

Thangme e a sua jovem esposa receberam-nos muito cordialmente. Os

seus cinco filhos rodearam-nos e olhavam para nós boquiabertos. O funcionário tinha boas notícias para nós. O magistrado tinha-o autorizado a acolher-nos por uma noite, mas uma solução futura teria que ser decidida pelo Gabinete. Mas agora não nos interessava preocuparmo-nos com o futuro. Afinal, estávamos em Lassa e éramos hóspedes de uma família nobre. Já tinha sido preparado um bonito e confortável quarto com um pequeno fogão que nos aquecia bem. Há sete anos que não víamos um fogão! O combustível usado era madeira de ju-nípero, que cheirava muito bem e era um autêntico luxo pois para chegar a Lassa requeria semanas de viagem sobre os lombos dos iaques. Com as nossas roupas esfarrapadas mal nos atrevíamos a tocar nas camas com colchas limpas. Trouxeram-nos um excelente jantar chinês e enquanto comíamos ficaram todos à nossa volta falando sem parar. Estavam com curiosidade de saber as nossas aventuras. Não queriam acreditar que tínhamos atravessado o Chang-thang durante o Inverno e que tínhamos escalado a cordilheira de Nyenchenthanghla. O nosso conhecimento de tibetano deixava-os estupefactos. Mas sentíamo-nos feios e andrajosos neste ambiente civilizado. As nossas coisas, que tinham sido indispensáveis para a nossa viajem, subitamente perderam todo o interesse e sentimos que seria uma alegria livrarmo-nos delas.

Mortos de cansaço e com as mentes confusas, fomos finalmente para a

cama, mas não conseguíamos adormecer. Tínhamos passado muitas noites no chão duro, apenas com os nossos capotes e um cobertor rasgado para nos cobrir. Agora tínhamos camas fofas e um quarto bem aquecido, mas os nossos corpos não conseguiam habituar-se rapidamente à mudança e os nossos pensamentos giravam como pás de moinho nas nossas cabeças. Tudo aquilo por que tínhamos passado povoava as nossas mentes — o campo de concentração, as aventuras e sofrimentos de vinte e um meses desde a nossa fuga. E pensámos nos nossos companheiros e na infindável monotonia das suas vidas, pois os prisioneiros continuavam cativos embora a guerra já tivesse terminado há muito. Mas seríamos nós lipres?

Antes mesmo de despertarmos completamente encontrámos um criado

com chá e bolos junto às nossas camas. Trouxeram-nos água quente e lâminas para atacarmos as nossas longas barbas. Depois de barbeados ficámos com um aspecto mais respeitável, mas os nossos cabelos compridos eram um sério problema. Chamaram um barbeiro muçulmano para se ocupar das nossas jubas. O resultado foi um tanto ou quanto exótico, mas causou grande admiração. Os tibetanos não têm problemas com cabeleireiros: ou usam tranças ou a cabeça rapada.

Não vimos Thangme até ao meio-dia, quando regressou a casa muito

aliviado após uma visita ao Ministro dos Negócios Estrangeiros. Trouxe-nos boas notícias e disse-nos que não seríamos entregues aos ingleses. Por enquanto poderíamos permanecer em Lassa, mas éramos gentilmente convidados a não sair de casa até que o Regente, que estava num retiro em Taglung Tra, decidisse o nosso futuro. Deram-nos a entender que era uma medida preventiva devido a incidentes prévios envolvendo monges fanáticos. O governo estava disposto a alimentar-nos e vestir-nos.

Ficámos deliciados. Alguns dias de descanso era justamente do que

precisávamos. Atacámos uma montanha de velhos jornais com entusiasmo, embora as notícias não fossem propriamente hilariantes. O mundo inteiro ainda fumegava e o nosso país atravessava tempos difíceis.

Nesse mesmo dia recebemos a visita de um funcionário enviado pelo

magistrado da cidade. Acompanhavam—no seis polícias de aspecto sujo e pouco fiável. Mas o nosso visitante era muito educado e pediu licença para inspeccionar a nossa bagagem. Estávamos espantados com a exactidão com que conduzia o seu trabalho. Tinha consigo um relatório de Kyirong e comparava-o com as datas do nosso itinerário. Arriscámos perguntar-lhe se todas as autoridades dos distritos por onde tínhamos passado seriam punidas. «A questão será apresentada ao Gabinete», disse pensativamente, «e os funcionários devem contar com a punição. Isto perturbou-nos imenso, e para sua diversão contámos-lhe como nos tínhamos esquivado às autoridades e como as tínhamos enganado tantas vezes. Foi a nossa vez de rir quando nos contou que na noite anterior tinha estado à espera de uma invasão alemã. Segundo parecia, toda a gente com quem faláramos fora logo participar ao magistrado, e por isso pensavam que tropas alemãs marchavam sobre a cidade!

De qualquer forma éramos o assunto da cidade. Toda a gente queria ver-

nos e ouvir a nossa história com os seus próprios ouvidos, e como não nos era permitido sair as pessoas vinham visitar-nos. A Sra. Thangme estava sempre atarefada e preparou o seu melhor serviço de chá para receber as visitas. Fomos iniciados no cerimonial das festas de chá. O respeito pelos convidados mede-se pelo valor e beleza do serviço de chá. As chávenas consistem em três partes: um pires, uma xícara de porcelana e uma tampa. O pires e a tampa são geralmente em prata e ouro.

Todos os dias vinham visitas importantes a casa do Sr. Thangme. Ele

próprio era um nobre da quinta casta, e uma vez que a etiqueta é rigorosamente observada, até agora só tinha recebido a visita de pessoas com uma posição igual ou inferior à dele. Mas as personalidades de categorias mais elevadas queriam ver-nos. Entre elas destacava-se o filho do célebre ministro Tsarong e a sua mulher. Já tínhamos lido muito a respeito do seu pai: provinha de uma família humilde e tinha-se tornado no favorito do décimo terceiro Dalai Lama, ascendendo a uma posição e adquirindo uma grande fortuna com a sua inteligência e espírito de sacrifício. Há quarenta anos atrás o Dalai Lama tinha sido forçado a fugir dos chineses para a índia, e Tsa-rong prestou então valiosos serviços ao seu mestre. Durante muitos anos foi ministro do Gabinete e, sendo o principal favorito do Lama, tinha virtualmente os poderes de um Regente. Mais tarde, um novo favorito chamado Khiinpe-la desalojou Tsarong da sua posição de autoridade, que no entanto manteve a sua posição e honrarias. Tsarong era actualmente um nobre da terceira casta e Mestre da Casa da Moeda.

O seu filho tinha vinte e seis anos, fora criado na índia e falava inglês

fluentemente. Consciente da sua própria importância, usava um amuleto de ouro na trança, um direito que assiste aos filhos dos ministros.

Quando este jovem nobre nos visitou, os criados serviram chá e em pouco

tempo a conversa ficou animada. O filho do ministro era um jovem extremamente versátil, com interesse especial em assuntos técnicos. Perguntou—nos pelas descobertas mais recentes e disse-nos que tinha montado o seu próprio rádio transmissor e um gerador eólico no telhado da sua casa.

Estávamos no meio de uma discussão técnica em inglês quando a sua

mulher nos interrompeu rindo e dizendo que queria fazer-nos algumas perguntas. Chamava-se Yangchenla e era uma das beldades de Lassa, bem vestida e muito sofisticada, claramente familiarizada com o uso da maquilhagem. Não era nada tímida, como se podia constatar pela maneira animada com que nos fazia perguntas em tibetano sobre a nossa viagem. De vez em quando interrompia as nossas explicações com gargalhadas e uma gesticulação ágil. Divertia-se particularmente com o modo como burláramos as autoridades com os nossos documentos de viagem caducados. A nossa fluência em tibetano surpreendia-a, mas reparámos que nem ela nem os mais sérios dos nossos visitantes conseguiam evitar rirem-se de nós de vez em quando. Mais tarde, os nossos amigos explicaram-nos que falávamos um dialecto extremamente rústico. Era como se um aldeão do mais remoto vale alpino falasse na sua gíria num salão de Viena. Os nossos visitantes divertiam-se imenso mas eram demasiado educados para nos corrigir.

Quando este jovem casal foi embora já nos tínhamos tornado amigos.

Tinham trazido alguns presentes que foram muito benvindos — roupa de cama, camisolas e cigarros, e mostraram-se disponíveis sempre que precisássemos de alguma coisa. O filho do ministro prometeu ajudar-nos e mais tarde entregou-nos uma mensagem do seu pai a convidar-nos a hospedarmo-nos em casa dele, se o Governador nos desse o seu consentimento. Tudo isto era muito reconfortante.

Apareceram mais visitantes. Um deles era um general do exército

tibetano, desesperadamente ansioso por saber tudo o que fosse possível sobre Rommel. Falava entusiasticamente do general alemão e disse-nos que com os seus parcos conhecimentos de inglês tinha lido tudo o que encontrava sobre ele nos jornais. Neste aspecto, Lassa não era nada isolada. Por meio da índia chegavam jornais de todo o mundo. Existem mesmo algumas pessoas na cidade que recebem a Life. Os jornais diários indianos chegam regularmente uma semana após a publicação.

A procissão de visitantes continuava, entre eles alguns monges

importantes que cordialmente nos traziam prendas. Mais tarde alguns deles passaram a ser bons amigos meus. Então veio um representante da Legação Chinesa e depois dele um funcionário que pertencia à Legação Britânica em Sikkim.

Ficámos particularmente honrados com a visita do comandante geral do

exército tibetano, o general Ktin-sangtse, que insistiu em nos visitar antes de partir numa missão amigável para a China e índia. Era o irmão mais novo do Ministro dos Negócios Estrangeiros e era um homem extraordinariamente bem informado. Tirou-nos um peso da consciência quando nos assegurou que o nosso pedido de permissão para ficar no Tibete seria certamente aprovado.

Começámos gradualmente a sentirmo-nos em casa. O nosso

relacionamento com Thangme e a sua mulher transformou-se numa amizade cordial. Éramos acarinhados e bem alimentados e toda a gente ficava satisfeita por termos bom apetite. Contudo sofríamos de toda a espécie de males menores, sem dúvida como consequência dos sofrimentos e angústias. Aufschnaiter teve um ataque de febre e a minha ciática causava-me imensos problemas. Thangme mandou vir o médico da Legação Chinesa, que tinha estudado em Berlim e em Bordéus. Examinou-nos no melhor estilo europeu e receitou vários medicamentos.

É provável que mais nenhum país no mundo tivesse acolhido dois pobres

fugitivos como o Tibete nos acolheu. A nossa encomenda de roupa, oferta do governo, chegou com um pedido de desculpas pelo atraso, causado pelo facto de sermos mais altos do que a média dos tibetanos e não haver roupa pronta para o nosso tamanho. Por isso os nossos fatos e sapatos foram feitos sob medida. Estávamos satisfeitos como crianças. Por fim podíamos deitar fora os nossos miseráveis trapos velhos. Embora os nossos fatos novos não estivessem à altura dos melhores padrões de vestuário, eram decentes e engomados e serviam perfeitamente.

Nos intervalos das numerosas visitas trabalhávamos nos nossos

apontamentos e diários. Em pouco tempo fizemos amizade com as crianças dos Thangme, que geralmente iam para a escola antes de nos levantarmos. Ao fim da tarde mostravam-nos os trabalhos de casa, que me interessavam muito, uma vez que estava a ter dificuldades em aprender a escrita. Aufschnaiter já há muito que a estudava e durante os nossos passeios tinha-me ensinado alguma coisa, mas demorei anos a aprender a escrever mais ou menos fluentemente. Os caracteres isolados não representavam nenhuma dificuldade, mas a sua organização por sílabas não é uma tarefa fácil. Muitos deles provêm das antigas escrituras indianas, e a escrita tibetana parece-se mais com hindi do que com chinês. Utiliza-se papel fino semelhante a pergaminho e tinta-da-china. No Tibete existem várias oficinas onde fazem papel de madeira de juní-pero. Para além disso, importam anualmente milhares de toneladas de papel do Nepal e do Butão, onde o material é manufacturado da mesma forma que no Tibete. Observei muitas vezes o processo de fabricar papel nas margens do rio Kyichu. A principal desvantagem do papel tibetano é a superfície não ser suficientemente lisa, o que torna a escrita difícil. Dão tábuas de madeira às crianças para os seus exercícios e usam tinta aguada e canetas de aparo de bambu. A escrita pode ser apagada depois com um pano húmido. Os filhos de Thangme geralmente apagavam os seus exercícios vinte vezes antes de acertarem.

Em pouco tempo éramos tratados como membros da família. A Sra.

Thangme comentava os seus problemas connosco e ficava encantada quando elogiávamos a sua aparência ou o seu bom gosto. Certa ocasião convidou-nos a entrar no seu quarto para apreciarmos as suas jóias. Havia uma grande cómoda com os seus tesouros guardados em pequenos estojos para jóias ou embrulhados em seda fina. Valia a pena admirar as suas preciosidades. Tinha uma maravilhosa tiara de coral, turquesa e pérolas e muitos anéis, bem como brincos de diamantes e alguns pequenos medalhões tibetanos que se usam pendurados ao pescoço por um cordão de coral. Muitas mulheres nunca tiram estes medalhões pois contêm um amuleto que actua como talismã contra o mal.

A nossa anfitriã estava lisonjeada com a nossa admiração perante os seus

tesouros. Explicou-nos que os homens tinham obrigação de presentear as esposas com jóias equivalentes à sua condição. Promoção de cargo significava promoção de jóias! Mas não bastava ser rico, pois a riqueza não conferia o direito de usar jóias caras. Claro que os homens resmungavam por causa das pretensões das suas mulheres pois, tal como no Ocidente, as mulheres procuram ofuscar as suas rivais. A Sra. Thangme, cujas jóias deviam valer vários milhares de libras, disse-nos que só saía acompanhada por um criado, pois era comum haver assaltos a mulheres da alta sociedade.

Durante oito dias ficámos obedientemente em casa. Foi uma grande

surpresa quando um dia um criado chegou com um convite para visitarmos imediatamente a casa dos pais do Dalai Lama. Como nos sentíamos comprometidos com a nossa promessa de não sair de casa, consultámos o nosso anfitrião. Ficou horrorizado por termos dúvidas — um convite desta natureza estava acima de qualquer outra coisa. Uma convocação do Dalai Lama ou do Regente tinha prioridade sobre todas as outras considerações. Ninguém se atreveria a deter-nos ou a pedir-nos responsabilidades posteriormente. Pelo contrário, hesitação em obedecer seria uma ofensa grave.

Ficámos contentes por saber a sua opinião, mas depois começámos a ficar

nervosos quanto aos motivos desta convocação. Seria um bom presságio para o nosso futuro? De qualquer forma, preparámo-nos apressadamente para a visita, vestindo pela primeira vez as roupas novas e calçando botas tibetanas. Estávamos bastante apresentáveis. Thangme deu-nos então um par de écharpes de seda branca a cada um e enfatizou que devíamos oferecê-las quando fôssemos recebidos em audiência. Já tínhamos testemunhado este costume em Kyirong e reparámos que era observado mesmo pelas pessoas mais simples. Quando se visitava ou apresentava uma petição a uma pessoa de nível mais elevado, ou por ocasião de grandes festivais, devia-se oferecer écharpes; há-as de toda a espécie e qualidades e o tipo de écharpe oferecido deve condizer com o estatuto da pessoa que oferece.

A casa dos pais do Dalai Lama não era longe. Em pouco tempo

encontrámo-nos diante de um grande portão, junto ao qual um porteiro já nos procurava. Quando nos aproximámos curvou-se respeitosamente. Fomos conduzidos através de um grande jardim cheio de canteiros com vegetais e núcleos com esplêndidos salgueiros até chegarmos ao palácio. Levaram-nos para o primeiro andar: abriu—se uma porta e encontrámo-nos na presença da mãe do Rei Divino, perante a qual nos curvámos em reverência. Estava sentada num pequeno trono, num salão amplo e iluminado, rodeada de criados. Era a imagem da dignidade aristocrática. A humilde admiração que os tibetanos sentem pela Grande Mãe» é algo de estranho para nós, mas achámos o momento de uma grande solenidade.

A «Grande Mãe sorriu para nós e ficou visivelmente satisfeita quando lhe

entregámos as écharpes com profundas reverências e esticando ao máximo os nossos braços conforme Thangme nos tinha instruído. Recebeu-as e entregou-as imediatamente aos criados. Então, com uma compostura radiante, apertou-nos as mãos, ao contrário do costume tibetano. Nesse momento entrou o pai do Dalai Lama, um respeitável senhor de idade. Dobrámo—nos novamente numa vénia e com a devida cerimónia entregámos-lhe as écharpes, após o que nos apertou a mão de forma despretensiosa. De vez em quando vinham europeus a esta casa, e os nossos anfitriões estavam até certo ponto familiarizados com esses costumes europeus e mostravam orgulho nisso.

Sentámo-nos e tomámos um chá que tinha um sabor estranho, feito de

uma forma diferente da habitual mistura tibetana. Quando inquirimos sobre o chá, o gelo quebrou-se e os nossos anfitriões contaram-nos sobre a sua casa anterior. Tinham vivido em Amdo como simples camponeses até o seu filho ter sido reconhecido como a Encarnação do Dalai Lama. Amdo situa-se na China, na província de Chinghai, mas os seus habitantes são quase todos tibetanos. Tinham trazido o seu chá consigo e não o faziam como os tibetanos, com manteiga, mas acrescentando leite e sal. Trouxeram algo mais da sua antiga casa — o dialecto que falavam. Ambos tinham uma pronúncia que parecia das províncias centrais, mas era diferente. O irmão do Dalai Lama, de catorze anos de idade, servia de intérprete. Tinha vindo para Lassa ainda criança e rapidamente aprendera a falar tibetano puro. Agora só falava o dialecto de Amdo com os pais. Enquanto conversávamos com os nossos anfitriões tivemos oportunidade de os observar. Cada um deles causava muito boa impressão. A sua origem humilde mani-festava-se numa simplicidade atraente, mas a sua postura e o seu comportamento eram aristocráticos. Era um grande passo, de uma pequena casa da aldeia numa província distante para um reinado na capital. Agora possuíam o palácio onde viviam e grandes propriedades no campo. Mas pareciam ter sobrevivido à súbita reviravolta nas suas vidas sem se terem deteriorado.

O rapaz, Lobsang Samten, era animado e muito atento. Estava cheio de

curiosidade a nosso respeito e fazia toda a espécie de perguntas sobre a nossa experiência. Dis-se-nos que o seu «divino irmão mais novo o tinha encarregado de nos descrever exactamente. Sentimo-nos agradavelmente excitados com a notícia de que o Dalai Lama estava interessado em nós, e gostaríamos de saber mais sobre ele. Disseram-nos que o nome Dalai Lama nunca era usado no Tibete. E uma expressão da Mongólia que significa «Vasto Oceano. Normalmente, o Dalai Lama é referido como o «Gyalpo Rinpoche, que significa «Rei Precioso. Os seus pais e irmãos usam um outro título ao referirem-se a ele. Chamam-lhe «Kundíin, o que quer dizer simplesmente «Presença.

Os Grandes Pais tinham ao todo seis filhos. O filho mais velho, muito

antes da descoberta do Dalai Lama, tinha sido reconhecido como uma Encarnação de Buda e fora investido com a dignidade de Lama no mosteiro de Tagtsel. Também era tratado por Rinpoche, o nome dado a todos os Lamas. O segundo filho, Gyalo Tõndrup, estava a estudar na China. O nosso jovem amigo Lobsang estava predestinado para a vida monástica. O próprio Dalai Lama tinha agora onze anos. Também tinha duas irmãs. Posteriormente, a Grande Mãe» deu à luz outra «Encarnação, Ngari Rinpoche. Como progenitora de três «Encarnações, detinha o recorde do mundo budista*.

A nossa visita deu lugar a um relacionamento cordial com esta mulher

versátil e inteligente, que se prolongaria até ela se exilar na sequência da invasão dos comunistas chineses. A nossa amizade não tinha nada a ver com a veneração transcendental que a Grande Mãe» recebia dos outros. Mas embora eu tenha uma atitude bastante céptica em relação a assuntos metafísicos, não pude deixar de reconhecer o poder da personalidade e da fé que ela possuía.

A distinção que este convite representava tornou-se gradualmente clara

para nós. Não se pode esquecer que, à excepção da família e de uns poucos criados pessoais que são abades, ninguém tem o direito de se dirigir ao Rei Divino. Não obstante o seu isolamento em relação ao mundo, ele interessara-se pelo nosso destino. Quando nos levantamos para ir embora, perguntaram-nos se precisávamos de alguma coisa. Agradecemos aos nossos anfitriões mas modestamente preferimos não pedir nada; mesmo assim, uma fila de criados avançou com sacos de farinha e tsam-pa, uma quantidade de manteiga e uns belos cobertores de lã macia. «Por vontade expressa do Kundún, disse a «Grande Mãe sorrindo, e embrulhou nas nossas mãos uma nota de cem sangs, como se fosse um procedimento comum e de uma forma tão natural que não sentimos vergonha por aceitar.

Depois de muitas manifestações de agradecimento e profundas vénias

saímos do salão um tanto embaraçados.

A forma de reconhecimento do Dalai Lama é descrita no capítulo 16. (N. do E.)

 

Como uma prova final de amizade, Lobsang, em nome dos seus pais, pendurou-nos as écharpes ao pescoço enquanto nos inclinávamos perante ele. Levou-nos então para o jardim e mostrou-nos os terrenos e os estábulos onde vimos alguns esplêndidos cavalos de Siling e Ili que eram o orgulho do seu pai. No decorrer da conversa sugeriu que eu poderia dar-lhe lições sobre algumas áreas do conhecimento ocidental. Isso vinha ao encontro dos meus próprios desejos íntimos. Frequentemente tinha pensado que poderia sustentar-me dando aulas às crianças de famílias nobres.

Regressámos a casa dos Thangme carregados com presentes e escoltados

por criados. Estávamos muito contentes e sentíamos que agora a nossa sorte estava em vias de melhorar. Os nossos anfitriões aguardavam-nos com uma excitação impaciente. Tínhamos que contar-lhes tudo o que acontecera, e os nossos visitantes seguintes foram informados em detalhe da honra que nos fora concedida. A nossa cotação subiu abruptamente.

No dia seguinte, quando os irmãos do Dalaí Lama vieram visitar-nos, a

nossa anfitriã a princípio escondeu-se em sinal de reverência e só apareceu quando toda a família já se tinha perfilado para os cumprimentar. O jovem Rinpoche, agora com vinte e cinco anos, tinha de facto vindo do seu templo para nos ver. Com um toque da mão abençoou cada membro da família. Era o primeiro Lama Encarnado que conhecíamos. As pessoas estão acostumadas a pensar que todos os monges tibetanos são Lamas. Na verdade este nome só é dado às Encarnações» e a mais alguns monges que se tenham distinguido por uma vida ascética ou milagres. Todos os Lamas têm o direito de abençoar e são venerados como santos.

 

8 ÁGUAS CALMAS

Dão-nos liberdade de circulação — Visitas importantes em Lassa — A hospitalidade generosa de Tsarong — O Tibete não tem pressa — Mais uma vez ameaçados com a expulsão — As festividades do Ano Novo.

Dez dias depois da nossa chegada recebemos do Ministério dos Negócios

Estrangeiros a notícia de que podíamos circular livremente. Ao mesmo tempo forneceram-nos esplêndidos capotes de pele de carneiro à nossa medida — cada um deles requeria sessenta peles. No mesmo dia saímos para um passeio pela cidade e com os capotes tibeta-nos não atraímos as atenções. Queríamos ver tudo. A parte interior da cidade só tem armazéns. As lojas formam uma linha contínua e os mercadores transbordam para as ruas. Não existem montras na nossa acepção da palavra. Encontram-se imensos armazéns retalhistas com uma variedade de mercadorias desde agulhas a botas de borracha; na vizinhança, lojas sofisticadas vendem cortinados e sedas. Os armazéns de mantimentos dispõem dos produtos locais, carne de conserva americana, manteiga australiana e uísque escocês. Não há nada que não se possa comprar, ou pelo menos encomendar. Até se encontram as especialidades da Elizabeth Arden e existe uma enorme procura. Galochas americanas da última guerra são expostas no meio de peças de carne de iaque e blocos de manteiga. Também se pode encomendar máquinas de costura, aparelhos de rádio e gira-discos e procurar os últimos discos de Bing Crosby para a próxima festa. A multidão de consumidores garridamente vestida ri, discute e grita. Têm um prazer especial em regatear, apreciando os regateios prolongados. É possível observar um nómada a trocar pele de iaque por rapé, e ao lado uma dama da sociedade com um enxame de criados mergulhando durante horas numa montanha de sedas e brocados. As mulheres nómadas não são menos exigentes ao seleccionar as suas peças de algodão indiano para as suas bandeiras de oração.

A população comum geralmente usa nambu, um pano feito de lã pura

caseira, praticamente impossível de rasgar, feito de tiras com aproximadamente vinte centímetros de largura. Fardos do material usado para estes nambus são expostos nos armazéns. A lã é branca ou tingida de malva com uma mistura de anil e ruibarbo. O nambu branco praticamente só é usado pelos condutores de jumentos pois a ausência de cor é considerada um sinal de pobreza. Uma vez que aqui não se usam fitas métricas, medem o pano pelo comprimento do braço. Graças aos meus longos braços lucrei sempre com este costume.

Encontrámos uma loja cheia de chapéus de feltro europeus que são o

dernier cri em Lassa. Usar um sofisticado chapéu de feltro com um traje tibetano parece seguramente esquisito, mas os tibetanos apreciam os chapéus europeus de aba larga pois protegem do sol. Os rostos bronzeados não exercem qualquer atracção. Os chapéus tradicionais do Tibete condizem muito melhor com os trajes tibetanos e têm um aspecto mais atraente nas ruas; e, de facto, nessa altura o governo estava a tentar refrear o influxo de modas europeias, não com o intuito de interferir nas liberdades individuais, mas de forma a preservar o bonito estilo dos trajes nativos.

Os tibetanos são também adeptos dos guarda-chuvas e sombrinhas, que

existem em todos os tamanhos, cores e qualidades. Os monges são os melhores clientes destes artigos pois, à excepção das solenidades, andam com a cabeça rapada a descoberto.

Quando chegámos a casa, encontrámos o Secretário da Legação Britânica

à nossa espera. Era um amigo pessoal de Thangme e a sua visita não era de modo algum oficial. Disse que tinha ouvido falar muito de nós e que estava muito interessado na nossa viagem e nas nossas experiências. Ele próprio tinha sido representante do comércio britânico em Gartok e sabia alguma coisa acerca da região que tínhamos atravessado. Considerámos a sua visita muito oportuna pois estávamos desejosos de enviar notícias para as nossas famílias, que provavelmente já nos tinham dado como desaparecidos há muito. Só o Representante Britânico tinha contacto directo com o mundo exterior, uma vez que o Tibete não pertence à União Postal Mundial e o seu sistema de correios é um tanto complicado.

O nosso visitante encorajou-nos a requisitar pessoalmente assistência

nesta questão e assim, no dia seguinte, dirigimo-nos à Legação, que já tínhamos notado por ocasião da nossa entrada na cidade. Criados de libré vermelha conduziram-nos primeiro ao jardim, onde encontrámos Reginald Fox, o operador de comunicações, a dar o seu passeio matinal. Fox já vivia em Lassa há muitos anos e era casado com uma rapariga tibetana. Tinham quatro filhos encantadores de cabelos louros e olhos grandes, pretos e amendoados. Os dois mais velhos estavam num colégio interno na índia.

Fox era o único homem em Lassa que possuía um motor fiável e para

além do seu trabalho na Legação ocu-pava-se regularmente a recarregar todos os rádios e a bateria da cidade. Podia comunicar com a índia por rádio-telefone e era muito apreciado em Lassa pela sua habilidade e rectidão.

Entretanto os criados anunciaram-nos e fomos conduzidos ao primeiro

andar do edifício. O Chefe da Legação Britânica, o Sr. Hopkinson, cumprimentou-nos cordialmente e convidou-nos para um bom pequeno-almoço inglês que tinha sido preparado na varanda. Parecia que fora há tanto tempo desde a última vez que nos sentáramos em cadeiras confortáveis e víramos mesas decoradas, flores em vasos e livros — um ambiente verdadeiramente europeu. Deixámos a vista passear em silêncio pela sala. Era como se, de alguma forma, tivéssemos regressado a casa. O nosso anfitrião interpretou os nossos pensamentos. Quando nos viu observar os seus livros, ofereceu-se generosamente para nos deixar usar a sua biblioteca. Em breve começámos a conversar livremente. A questão que mais nos preocupava, nomeadamente se ainda nos considerava prisioneiros de guerra, foi tacticamente evitada. Por fim, perguntámos-lhe abertamente se os nossos companheiros ainda estavam atrás do arame farpado. Ele não sabia responder mas prometeu obter informações da índia. Falou então francamente sobre a nossa situação e dis-se-nos que tinha sido detalhadamente informado da nossa fuga e viagem subsequente; sabia através do governo tibetano que em breve deveríamos ser enviados para a índia. Esta perspectiva não nos agradava e por isso pergun-tou-nos se estaríamos interessados em arranjar trabalho em Sikkim. Não escondemos o nosso desejo de permanecer no Tibete, mas dissemos que se isso não fosse possível seria um prazer considerar a sua proposta.

A importância da questão que discutíamos não estragou o nosso apetite, e

com o encorajamento do nosso anfitrião fizemos mais do que jus à óptima comida que nos ofereceram. Quando tínhamos terminado achámos que tinha chegado a altura de pedir autorização para enviar notícias às nossas famílias. O nosso anfitrião prometeu tomar as medidas necessárias para que uma mensagem seguisse por intermédio da Cruz Vermelha. Mais tarde foi —nos permitido enviar cartas de vez em quando através da Legação, mas na maioria das vezes tivemos que usar o complicado sistema postal tibetano, enviando as nossas cartas para a fronteira em envelopes duplos, tendo o exterior o carimbo tibetano. Na fronteira tínhamos arranjado uma pessoa que removia o envelope exterior, colocava um selo indiano no envelope interior e punha a carta no correio. Com sorte a carta só demorava quinze dias a chegar à Europa. No Tibete, o correio é transportado por corredores que trabalham por estafetas de seis quilómetros cada. Ao longo de todas as estradas principais há cabanas onde os estafetas aguardam os seus colegas para os substituírem. Os estafetas do correio trazem consigo lanças com campainhas como identificação do seu ofício, e podem, se necessário, ser usadas como armas; as campainhas servem para afugentar os animais selvagens à noite. Os selos são impressos em cinco categorias e estão à venda nos postos de correio. A nossa visita à Legação Britânica aliviou-nos muito. Fomos bem recebidos e tínhamos razões para pensar que os ingleses se apercebiam de que éramos inofensivos.

No regresso, alguns criados disseram-nos que o seu patrão desejava que o

visitássemos: quando perguntámos quem era, ficámos a saber que se tratava de um alto funcionário monástico ao serviço do governo, um dos quatro Tríinyi Chemo, em cujas mãos se concentrava toda a autoridade sobre todos os monges do Tibete.

Conduziram-nos a uma enorme e imponente mansão, escrupulosamente

limpa e bem tratada. Podia-se comer em cima das pedras do chão. Os criados eram todos monges. Fomos recebidos por um gentil senhor de idade e ofe-receram-nos chá e bolos. Após as cortesias habituais encetámos uma conversa e pouco depois ficámos a saber a razão por que o nosso anfitrião estava interessado em nós. Declarou abertamente que o Tibete era um país atrasado e que homens como nós podiam ser muito úteis. Infelizmente, nem toda a gente era da mesma opinião. Contudo, ia ver o que podia ser feito e dar o seu aval. Entretanto perguntou-nos quais tinham sido as nossas profissões no nosso país e que matérias tínhamos estudado. Ficou particularmente interessado pelo facto de Aufschnaiter ser engenheiro agrícola. No Tibete ninguém era perito nesta área apesar de o campo de acção ser enorme neste país!

No dia seguinte fizemos visitas oficiais a cada um dos membros do

Gabinete de Ministros. Estes homens estavam apenas subordinados ao Regente e representam a suprema autoridade no Tibete. Três deles são dignatários civis e o quarto é um funcionário monástico. Todos eles pertencem às famílias mais nobres e vivem em grande estilo.

Não sabíamos por quem começar. Devíamos ter começado pelo ministro-

monge mas resolvemos contornar o protocolo e visitar primeiro o ministro mais novo, Sur-khang, que tinha trinta e dois anos e era considerado mais progressista do que os seus colegas. Contávamos com o aconselhamento e a compreensão de um homem novo.

Recebeu-nos com uma cordialidade franca e imediatamente nos

relacionámos bem. Estava surpreendentemente bem informado sobre os acontecimentos no mundo exterior. Ofereceu-nos um jantar principesco e quando nos fomos embora tivemos a sensação de que já nos conhecíamos há anos.

O ministro que visitámos a seguir era Kabshõpa, um cavalheiro

corpulento e um pouco presunçoso que nos tratou com uma certa condescendência. Sentámo-nos em duas cadeiras à frente do seu confortável trono e tentou impressionar-nos com uma enxurrada de frases eloquentes. Pontuava as suas passagens mais importantes com um ruidoso pigarrear, e então um criado avançava apressadamente para lhe oferecer uma cuspideira em ouro. Cuspir não é uma incorrecção social no Tibete e em todas as mesas são colocadas pequenas cuspideiras; mas era novo para nós ver uma a ser apresentada por um criado à pessoa que cuspia.

Neste primeiro encontro tivemos dificuldade em fazer um juízo de

Kabshõpa. Continuou a conduzir a conversa e submetemo-nos passivamente à sua eloquência, respondendo polidamente e na altura certa às suas boas maneiras. Bebemos a chávena de chá cerimonial de uma forma exemplar. Como ele não tinha percebido que falávamos tibetano, pediu ao sobrinho que servisse de intérprete. O conhecimento de inglês tinha garantido a este jovem um posto de trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros e mais tarde frequentemente tratámos de assuntos com ele. Era um exemplo típico da nova geração. Estudara na índia e tinha imensos planos para reformar o Tibete, embora ainda não se tivesse aventurado a defender as suas teorias na presença dos monges conservadores. Uma ocasião, quando estávamos sozinhos, comentou que Aufs-chnaiter e eu deveríamos ter vindo para o Tibete alguns anos mais tarde, pois se ele e alguns dos aristocratas mais jovens fossem ministros, haveria imenso trabalho para nós.

O ministro-monge que vivia em Lingkhor, a estrada de peregrinos com

oito quilómetros que circunda Lassa, recebeu-nos menos formalmente. Já não era novo e tinha uma bonita e pequena barba branca da qual se orgulhava muito, pois no Tibete a barba é uma raridade. De uma forma geral parecia muito independente e, em contraste com os outros ministros, evitava expressar quaisquer opiniões definitivas. Chamava-se Rampa e era um dos poucos monges com um cargo público que pertencia à aristocracia. A forma como a situação política estava a evoluir devia cau-sar-lhe uma secreta ansiedade. Interessou-se muito pelas nossas opiniões sobre a política russa e disse-nos que as antigas escrituras profetizavam que um grande poder vindo do norte iria dominar o Tibete, destruindo a religião e tornando-se senhor do mundo inteiro.

Por fim visitámos Púnkhang, o mais velho dos quatro ministros, um

pequeno homem forçado a usar óculos de lentes grossas por causa da miopia. Isto era algo de invulgar no Tibete, onde os óculos são desaprovados por serem considerados «não-tibetanos. Nenhum funcionário era autorizado a usá-los e esse uso era desencorajado mesmo em casa. O nosso ministro tinha recebido uma autorização especial do Dalai Lama para os usar no escritório. Em cerimónias oficiais a sua miopia deixava-o paralisado. A mulher de Púnkhang estava presente quando ele nos recebeu. É verdade que a sua condição era superior à dela, mas não era preciso ser um grande observador para perceber que era a madame quem usava calças. Depois das primeiras palavras de cumprimento Piinkhang mal se pronunciou, enquanto a sua senhora nos encharcou com um chuveiro de perguntas.

Mais tarde ele mostrou-nos a sua capela doméstica. Era descendente de

uma das famílias que tinha gerado um Dalai Lama e orgulhava-se disso. Mostrou-nos uma imagem do Sagrado na sua capela poeirenta e mal iluminada.

Com o decorrer do tempo vim a conhecer os filhos de Piinkhang. O mais

velho era governador de Gyantse e casado com uma princesa de Sikkim de descendência tibetana. Ela era mais interessante do que o seu marido, e para além disso era a mulher mais bonita que eu já vi. Possuía o indescritível charme da mulher asiática e a marca da ancestral cultura oriental. Era inteligente, bem educada e totalmente moderna, e tinha sido educada numa das melhores escolas da índia. Foi a primeira mulher no Tibete a recusar casar-se com o irmão do seu marido por ser contra os seus princípios. Em conversa igualava as mulheres mais inteligentes que se poderia encontrar num salão europeu. Interessava-se por política, cultura e tudo o que acontecia no mundo. Frequentemente falava de igualdade de direitos para as mulheres... mas o Tibete tem um longo caminho a percorrer antes de chegar a esse ponto.

Quando nos despedimos de Piinkhang pedimos-lhe que apoiasse o nosso

pedido de autorização para residir no Tibete. Ofereceu-se para fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para nos ajudar, mas nós já estávamos na Ásia há tempo suficiente para saber que ninguém recusava nada abertamente.

De forma a assegurar a nossa posição em todas as frentes, tentámos estabelecer um bom relacionamento com a Legação Chinesa. O secretário geral recebeu-nos com a habitual educação do seu povo, e quando lhe perguntámos sobre a possibilidade de sermos admitidos na China e aí arranjarmos trabalho, prometeu submeter a questão ao seu governo.

Fazíamos tudo o que podíamos para arranjar apoio de todos os lados e

convencer as pessoas de que éramos inofensivos. Durante os nossos passeios éramos frequentemente abordados por estranhos que nos faziam perguntas intrigantes. Um dia um chinês tirou-nos uma fotografia. Uma máquina fotográfica em Lassa era algo muito invulgar, e o incidente deu-nos que pensar. Já tínhamos ouvido dizer que havia pessoas em Lassa que forneciam informações para países estrangeiros. Talvez acreditassem que nós também éramos agentes de uma potência estrangeira. Só os ingleses sabiam como éramos inocentes, pois sabiam de onde tínhamos vindo e estavam em posição de confirmar as nossas afirmações. Outras pessoas, menos bem informadas a nosso respeito, poderiam pensar qualquer coisa. De facto, não tínhamos ambições políticas. Tudo o que pedíamos era abrigo e trabalho até chegar a altura de podermos regressar à Europa.

Continuar: parte 2 de 4