Sete Anos no Tibet
Todos os nossos sonhos começam na mocidade.…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
PREFÁCIO
Todos os nossos sonhos começam na mocidade. Quando eu era criança,
achava que os feitos dos heróis dos nossos dias eram muito mais aliciantes do que o estudo dos livros. O objectivo da minha ambição era imitar os homens que se aventuravam a explorar novas terras ou os que, à custa da sua dedicação e sacrifício, se tornavam campeões no desporto, ou ainda os conquistadores dos mais altos cumes.
Mas faltaram-me os conselhos e a orientação de pessoas mais experientes,
e por isso desperdicei muitos anos antes de perceber que é contraproducente tentarmos concretizar vários objectivos ao mesmo tempo. Eu tinha experimentado várias modalidades de desporto sem conseguir alcançar o sucesso que poderia ter-me satisfeito. Assim, decidi finalmente concentrar-me nas duas práticas que sempre adorei pela sua proximidade com a Natureza — o esqui e o alpinismo.
Passei a maior parte da minha infância nos Alpes e ocupei quase todo o
meu tempo livre a escalar montanhas no Verão e a praticar esqui no Inverno. A minha ambição foi espicaçada por pequenos sucessos e em 1936, após intenso treino, consegui conquistar um lugar na equipa olímpica austríaca. Um ano depois venci a prova de slalom do Campeonato Mundial de Estudantes.
Nestas competições experimentei a euforia da velocidade e a gloriosa
satisfação de uma vitória na qual se aposta tudo. Mas a vitória sobre rivais humanos e o reconhecimento público do sucesso não me satisfaziam. Comecei a sentir que a única ambição válida seria medir as minhas forças com as montanhas. Assim, durante meses a fio pratiquei na rocha e no gelo até estar tão apto que nenhum precipício me parecia inconquistável. Mas eu tinha problemas para resolver e havia que custear esta experiência. Numa ocasião, sofri uma queda de 50 metros de altura e só por milagre não perdi a vida — e, claro, ocorriam constantemente acidentes menores.
O regresso à vida universitária representava sempre uma grande
contrariedade. Mas não podia queixar-me; podia estudar todo o tipo de trabalhos sobre montanhismo e viagens e, à medida que lia estes livros, crescia em mim, por entre um emaranhado de desejos vagos e ambíguos, a ambição de realizar o sonho de todos os alpinistas — fazer parte de uma expedição aos Himalaias.
Mas como me atrevia eu, um jovem desconhecido, a ter sonhos tão
ambiciosos? Sim, porque para chegar aos Himalaias era preciso ser-se rico ou então fazer parte da nação que, nessa altura, ainda enviava os seus filhos para servir na índia. Para um homem que não era nem britânico nem rico só havia uma hipótese: devia aproveitar uma dessas raras oportunidades a que qualquer um podia can-didatar-se e realizar algo de extraordinário que impedisse a rejeição das minhas pretensões. Mas que façanha me outorgaria esse estatuto? Todos os picos alpinos tinham sido escalados há muito, mesmo as piores encostas e falésias cederam à inacreditável preparação e ousadia dos montanhistas. Mas esperem! Havia ainda um precipício por conquistar — o mais alto e perigoso de todos, a encosta norte do Eiger.
Esta falésia rochosa de 2000 metros nunca fora escalada até ao topo.
Todas as tentativas tinham falhado e muitos homens tinham perdido a vida. Uma nuvem de lendas pairava sobre esta montanha e, por fim, o governo suíço proibiu os alpinistas de a escalarem.
Era esta, sem dúvida, a aventura que eu procurava. Se eu rompesse as
defesas virgens da encosta norte teria o direito legítimo de ser seleccionado para uma expedição aos Himalaias. Passei muito tempo obcecado com a ideia de levar a cabo esta façanha praticamente impossível. Em 1938, eu e os meus amigos Fritz Kasparek, Ander Heck-maier e Wiggerl Võrg conseguimos escalar o temido contraforte, uma proeza que tem sido descrita em vários livros.
Depois desta aventura, passei o Outono a treinar-me com afinco, sempre
na esperança de ser convidado para participar na expedição a Nanga Parbat, planeada para o Verão de 1939. Tudo indicava que teria de continuar a viver de esperanças, pois o Inverno chegou e nada aconteceu. Outros foram seleccionados para fazerem o reconhecimento da fatídica montanha de Caxemira. Não me restava senão assinar, com o coração amargurado, um contrato para fazer parte do elenco de um filme de esqui.
Os ensaios já iam bastante adiantados quando subitamente me chamaram
ao telefone. Era a tão ansiada convocação para fazer parte da expedição aos Himalaias, que começaria dentro de quatro dias. Não tive necessidade de reflectir. Rescindi o meu contrato sem pensar duas vezes e voltei para casa, em Graz; depois de um dia passado a fazer as malas, parti para Antuérpia com Peter Aufschnaiter, o líder da expedição alemã a Nanga Parbat, Lutz Chicken e Hans Lobenhoffer, os outros membros do grupo.
Até essa data, tinham sido feitas três tentativas para escalar esta montanha
de 7600 metros. Fracassaram todas e muitas pessoas morreram, por isso ficou decidido que deveríamos procurar um novo percurso para a escalada e só no ano seguinte, segundo os nossos planos, atacaríamos o cume.
Nesta expedição a Nanga Parbat, sucumbi à magia dos Himalaias. A
beleza destas montanhas gigantes, a imensidão das terras às quais se sobrepunham, a peculiaridade do povo indiano — todos estes factores exerceram na minha mente uma espécie de feitiço.
Desde então muitos anos se passaram, mas eu nunca consegui separar-me
da Ásia. Vou tentar descrever neste livro como tudo isto aconteceu e as consequências que teve. Como não sou um autor experiente, terei de conten-tar-me apenas com os factos.
Heinrich Harrer
1
INTERNAMENTO
Rebenta a guerra e somos aprisionados — Dehra-Dun — Junto-me a Marchese — Fuga — Marchese abraça-me — Caminhamos de noite e escondemo-nos de dia — Trutas e cigarros — O rio Ganges e a Estrada dos Peregrinos — Recapturados — Escapo novamente, sozinho — Recapturado outra vez.
Em fins de Agosto de 1939 havíamos completado o nosso
reconhecimento. De facto, descobríramos um novo caminho para escalar a montanha e esperávamos agora em Carachi pelo cargueiro que nos levaria de regresso à Europa. O nosso navio estava muito atrasado e as nuvens da guerra tornavam-se cada vez mais densas. Por isso, Chi-cken, Lobenhoffer e eu decidimos desenvencilharmo-nos das malhas que a polícia secreta já começava a lançar sobre nós, e escapar por qualquer brecha que encontrássemos. Só Aufschnaiter ficaria em Carachi. Tinha combatido na Primeira Guerra Mundial e não acreditava numa segunda guerra. O resto do nosso grupo planeara fugir para a Pérsia e de lá encontrar o caminho para casa. Não tivemos dificuldade em desembaraçarmo-nos do indivíduo que nos seguia e após algumas centenas de quilómetros pelo deserto com o nosso decrépito carro, conseguimos alcançar Las Bela, um pequeno principado a noroeste de Carachi. Mas o destino adiantou-se-nos e subitamente vimo-nos cercados por oito soldados, sob o pretexto de que precisávamos de protecção pessoal. Na verdade, estávamos sob prisão, embora a Alemanha e a Commonwealth ainda não estivessem em guerra.
Em breve regressámos a Carachi com a nossa inseparável escolta, e foi lá
que encontrámos Peter Aufschnaiter. Dois dias depois, a Inglaterra declarou guerra à Alemanha. Daí em diante tudo se precipitou. Alguns minutos após ser conhecida a declaração de guerra, vinte e cinco soldados indianos, armados até aos dentes, irromperam pela esplanada do restaurante onde nos encontrávamos para nos levarem. Fomos conduzidos numa viatura policial para um campo de prisioneiros já preparado e cercado com arame farpado.
Conforme viemos a saber, era somente um ponto de passagem, pois
quinze dias depois fomos transferidos para o grande campo de concentração em Ahmednagar, perto de Bombaim, onde ficámos alojados em tendas e barracas superlotadas, no meio de uma babel de opiniões conflituosas e conversas exaltadas. Não, pensei eu, esta atmosfera é muito diferente dos inóspitos e radiantes cumes dos Himalaias. Isto não é vida para os amantes da liberdade. E comecei logo a procurar os meios e a oportunidade para me evadir.
Naturalmente, não era o único a planear uma fuga. Com o auxílio de
companheiros que partilhavam este propósito, fui arrecadando bússolas, dinheiro e mapas, contrabandeados através do controlo. Conseguimos inclusive apropriar-nos de um par de luvas de cabedal e de um alicate para cortar arame, cujo desaparecimento dos armazéns provocou uma investigação severa mas infrutífera.
Como todos acreditávamos que a guerra terminaria em breve,
continuámos a adiar os nossos planos de fuga. Mas um dia mudaram-nos subitamente para outro campo. Transportaram-nos numa coluna de camiões com destino a Deolali. Dezoito prisioneiros em cada camião, com apenas um soldado indiano a vigiá-los. O rifle da sentinela estava preso ao seu cinto por uma corrente, de forma a que ninguém pudesse arrancá-lo. Na frente e na retaguarda da coluna seguiam dois camiões carregados de soldados.
Enquanto permanecemos no campo de Ahmednagar, Lobenhoffer e eu
decidíramos empreender a nossa fuga antes de nos transferirem para outro campo, onde novas dificuldades poderiam comprometer esse plano. Por isso, ocupávamos agora os lugares na extremidade do camião. Felizmente, a estrada cheia de curvas envolvia-nos frequentemente em espessas nuvens de poeira, o que nos daria uma hipótese de saltar do camião à sorrelfa antes de desaparecer na selva. Era improvável que o soldado no camião nos visse saltar, já que obviamente se encontrava ocupado a observar o camião da frente e raramente se voltava para nos olhar. De qualquer forma, não nos parecia que fosse muito difícil escapar e, com o intuito de atravessar para um enclave português neutro muito próximo da rota da nossa coluna, adiámos a nossa tentativa até ao último momento possível.
Finalmente esse momento chegou. Depois de saltarmos, corri uns 20
metros para fora da estrada e atirei-me para dentro de uma pequena cavidade atrás de um arbusto. Então, perante o meu horror, toda a coluna parou — ouvi apitos e tiroteio e, ao ver um soldado a correr em direcção ao lado oposto da estrada, não tive dúvidas sobre o sucedido. Lobenhoffer certamente fora descoberto e como era ele quem carregava a mochila com todo o nosso equipamento, não tive outro remédio senão perder as esperanças de fugir também. Felizmente, no meio da confusão consegui reocupar o meu lugar no camião sem que os soldados dessem por mim. Só os meus companheiros sabiam da minha tentativa, e naturalmente calaram-se.
Foi então que vi Lobenhoffer: em pé e com as mãos no ar, perante uma
fileira de baionetas. Senti-me arrasado pelo nosso fracasso. Mas na verdade a culpa não era do meu amigo. Quando saltámos, segurava a nossa pesada mochila e esta, aparentemente, causou o ruído que o soldado ouviu. Assim, foi apanhado antes de poder refu-giar-se na selva. Aprendemos uma lição amarga mas útil com esta aventura: em qualquer plano conjunto de fuga, cada um dos fugitivos deveria levar consigo tudo o que lhe fosse necessário.
Nesse mesmo ano, fomos transferidos de campo mais uma vez. Desta
feita levaram-nos de comboio para o maior campo de prisioneiros de guerra da índia, a alguns quilómetros de Dehra-Dun. Acima de Dehra-Dun situava-se a estação de montanha de Mussoorie, um retiro de Verão de ingleses e indianos abastados. O nosso campo consistia em sete grandes sectores, cada um cercado por duplas vedações de arame farpado. Toda a sua área estava ainda delimitada por mais duas cercas, por entre as quais as patrulhas se movimentavam constantemente.
As condições neste novo campo alteraram completamente a nossa
situação. Enquanto estivemos na planície, planeámos sempre fugir para um dos territórios neutros portugueses. Aqui em cima, tínhamos os Himalaias mesmo à nossa frente. Para um montanhista, a perspectiva de percorrer os trilhos até ao Tibete era aliciante. Como objectivo final, pensava-se nas frentes japonesas, na Birmânia ou na China.
Os planos para uma evasão nestas condições e com estes objectivos
requeriam uma preparação minuciosa. Por esta altura, já não nos restavam esperanças de um fim próximo para a guerra e — se tencionávamos fugir — não havia nada a fazer excepto organizar-nos sistematicamente.
Uma fuga através das regiões densamente povoadas da índia estava fora
de questão, pois seria necessário muito dinheiro e um conhecimento perfeito do inglês — e eu não dispunha de nenhum deles. Por isso, é fácil imaginar que a minha preferência recaísse sobre as áreas isoladas do Tibete. E eu imaginava-me nos Himalaias — e sentia que, mesmo que o meu plano falhasse, valeria a pena receber um sopro de liberdade nas altas montanhas.
Agora atarefava-me em aprender algumas palavras em hindustani,
tibetano e japonês, e devorava todo o tipo de livros sobre viagens que encontrava na biblioteca, especialmente aqueles que se referiam às regiões que fariam parte da rota que planeara. Retirei extractos destes livros e fiz cópias dos mapas mais importantes. Peter Aufschnaiter, que entretanto também tinha vindo parar a Dehra-Dun, possuía vários livros e mapas sobre expedições na Ásia. Estudava-os com inesgotável energia e colocou à minha disposição todos os seus apontamentos e esboços. Copiei todos em duplicado e guardei uma cópia para levar comigo quando escapasse e outra de reserva, caso o original se extraviasse.
Tendo em conta o trajecto por onde me propunha escapar, era igualmente
importante manter-me fisicamente tão apto quanto possível. Assim, todos os dias, fizesse bom ou mau tempo, dedicava horas a exercitar-me ao ar livre, e de noite escondia-me para estudar os hábitos dos guardas.
A minha principal preocupação era a falta de dinheiro, pois embora
tivesse vendido tudo o que podia dispensar, as minhas economias eram insuficientes para suprirem as necessidades da vida no Tibete, já para não mencionar os subornos e as prendas que são lugar-comum no quotidiano da Ásia. De qualquer forma, continuei a trabalhar sistematicamente no meu plano e recebi a ajuda de alguns amigos que não tinham intenções de escapar.
O meu plano inicial era fugir sozinho, para não ser atrapalhado por um
companheiro que poderia pôr em risco as minhas possibilidades. Mas um dia o meu amigo Rolf Magener disse-me que um general italiano pretendia fazer o mesmo que eu. Eu já ouvira falar neste homem e assim, uma noite, eu e Magener escalámos a vedação de arame e introduzimo-nos no sector vizinho, onde estavam alojados quarenta generais italianos. O meu futuro companheiro chamava-se Marchese e tinha a aparência típica de um italiano. Rondava os quarenta anos, a sua figura era elegante, com bons modos, e vestia distintamente; fiquei particularmente impressionado com o físico dele. No início tivemos dificuldades de comunicação, pois ele não falava alemão e eu não falava italiano. Ambos sabíamos muito pouco inglês, por isso conversámos, com a ajuda de um amigo, num francês telegráfico. Marchese falou-me sobre a guerra na Abissínia e da sua anterior tentativa de fuga de um campo de prisioneiros de guerra.
Felizmente, ele recebia um ordenado semelhante ao de um general
inglês. Como o dinheiro não era um problema, conseguiu arranjar para a
nossa fuga coisas que eu nunca teria conseguido obter. Como precisava
de um companheiro familiarizado com os Himalaias, depressa juntámos
as nossas forças com base nesta divisão de tarefas: eu seria responsável
por todo o planeamento e ele pelo dinheiro e equipamento.
Várias vezes por semana rastejava até ao sector vizinho para discutir
pormenores com Marchese e, com a prática, tornei-me um perito em atravessar arame farpado. Havia naturalmente várias possibilidades de fuga, mas aquela que me parecia mais promissora baseava-se num facto importante — a cada 70 metros, ao longo da capoeira que cercava toda a área do campo, existiam alpendres em colmo para proteger as sentinelas do sol tropical. Se conseguíssemos trepar para um destes telhados, conseguiríamos atravessar duas vedações de arame farpado de uma só vez. Em Maio de 1943 terminaram os nossos preparativos. Dinheiro, mantimentos, bússolas, relógios, botas e uma pequena tenda de montanhismo estavam a postos.
Certa noite decidimos levar por diante a nossa tentativa. Como
habitualmente, penetrei através da cerca no sector de Marchese, onde encontrei a escada que tínhamos furtado e escondido após um pequeno incêndio no campo. Encostámo-la à parede de uma barraca e esperámos na penumbra. Era quase meia-noite e faltavam dez minutos para o render da guarda. As sentinelas, à espera de serem substituídas, caminhavam preguiçosamente para a frente e para trás. Passaram-se alguns minutos até alcançarem o ponto onde as queríamos. Nesse preciso instante a Lua surgiu sobre as colinas da plantação de chá.
Lá estávamos nós. Era agora ou nunca.
Ambas as sentinelas tinham chegado ao ponto mais distante daquele onde nos encontrávamos. Levantei-me e corri para a vedação com a escada. Encostei-a à dobra pendente do topo da cerca, subi e cortei o arame farpado que ali se acumulava para impedir o acesso ao alpendre. Mar-chese afastou o tufo de arame com uma longa forquilha, permitindo que eu me esgueirasse para cima do telhado. Estava combinado que o italiano deveria seguir-me imediatamente enquanto eu afastava o arame com as mãos — mas ele não o fez. Durante uns pavorosos segundos hesitou, convencido de que já não havia tempo e de que os guardas não tardariam — e, de facto, conseguia ouvir-lhes os passos. Não lhe dei mais tempo para pensar; agarrei-o pelas axilas e puxei-o para cima do alpendre. Ele atravessou-o de rastos e caiu pesadamente do outro lado, rumo à liberdade.
Mas tudo isto não se passou em silêncio. Alertada, a guarda começou a
disparar; mas enquanto os disparos quebravam o silêncio da noite, nós éramos engolidos pela selva.
A primeira coisa que Marchese fez foi abraçar-me e beijar-me, numa
manifestação do seu caloroso temperamento latino, muito embora este fosse o momento menos oportuno para tais explosões de contentamento. Foguetes luminosos rasgavam o céu e próximo de nós soavam apitos, numa demonstração clara de que os nossos perseguidores se encontravam na nossa peugada. Corremos desalmadamente, movendo-nos rapidamente pelos atalhos que eu tinha ficado a conhecer bem durante as minhas escapadas do campo. Evitámos as estradas e contornámos as poucas aldeias que encontrámos no caminho. A princípio mal sentíamos as nossas mochilas, mas mais tarde começaram a pesar.
Numa das aldeias os nativos rufaram os tambores, o que nos levou a
pensar que faziam soar um alarme. Esta era uma das dificuldades que qualquer indivíduo educado na nossa sociedade exclusivamente branca dificilmente poderá imaginar. Na Ásia, um 1 sahib viaja sempre acompanhado dos seus criados e nunca carrega o menor peso consigo — o que iriam, portanto, pensar os nativos quando vissem dois europeus carregados daquela maneira a arrastarem-se a pé pelo interior!
Sabendo que os indianos receiam circular pela selva no escuro, por causa
dos animais selvagens, decidimos caminhar de noite. Mas essa perspectiva também não nos agradava particularmente, pois nos jornais disponíveis no campo tínhamos lido notícias sobre leopardos e tigres que devoravam seres humanos.
Quando amanhecia, escondíamo-nos, exaustos, num tufo de mata, e aí
passávamos todo o dia, a comer e a dormir sob um calor escaldante. Só avistámos uma pessoa durante o dia, um guardador de vacas que felizmente não nos viu. O pior era dispormos apenas de uma garrafa de água cada um, que teria de nos chegar para todo o dia. Não admirava que, quando anoitecia, e depois de um dia inteiro escondidos, tivéssemos dificuldade em controlar os nossos nervos. Queríamos prosseguir o mais rápido possível e as noites pareciam demasiado curtas para permitir o nosso progresso. Teríamos de encontrar o caminho mais curto através dos Himalaias até ao Tibete, e isso significava semanas de marcha enérgica antes de nos podermos considerar a salvo.
Atravessámos o primeiro cume na noite seguinte à nossa fuga. Chegados
ao topo, descansámos por um bocado e avistámos, 900 metros abaixo, as numerosas luzes que piscavam no campo de concentração. Às dez e um quarto apagaram-se simultaneamente e só os holofotes à volta do campo davam uma ideia da sua enorme extensão.
Foi a primeira vez na minha vida em que realmente compreendi o
significado de ser livre. Apreciámos este glorioso sentimento e sentimo-nos solidários com os duzentos prisioneiros de guerra forçados a viver lá em baixo, atrás da parede de arame.
Mas não havia muito tempo para meditarmos. Tínhamos de encontrar o
caminho para descer até ao vale do Jumna, que nos era completamente desconhecido. Num dos vales mais pequenos, entrámos por uma fenda tão estreita que não pudemos prosseguir, e fomos forçados a esperar pela manhã. O lugar era tão isolado e abrigado que aproveitei logo a oportunidade para tingir de preto o meu cabelo e barba loiros. Também manchei o rosto e as mãos com uma mistura de permanganato, tinta castanha e graxa, que produziam uma tonalidade escura. Desta forma adquiri algumas semelhanças com um indiano, e isso era importante pois havíamos decidido que, se nos abordassem, diríamos estar em peregrinação ao Ganges sagrado. No que respeitava ao meu companheiro, era suficientemente moreno para passar despercebido à distância. Naturalmente, não tencionávamos submeter-nos a uma inspecção de perto.
Nessa noite prosseguimos caminho antes de escurecer, mas logo nos
arrependemos dessa precipitação, pois ao atravessarmos um talude deparámos com um grupo de camponeses que plantavam arroz. Chapinhavam seminus na água lamacenta e quedaram-se boquiabertos perante a visão de dois homens carregados com sacos às costas. Apontaram para uma rampa em cujo topo se avistava uma pequena aldeia, o que parecia significar que seria a única saída daquela ravina. Para evitar perguntas embaraçosas, prosseguimos o mais rapidamente possível na direcção indicada. Ao fim de horas a subir e a descer, alcançámos finalmente o rio Jumna.
Entretanto tinha anoitecido. O nosso plano era seguir o curso do rio até
encontrarmos um dos seus afluentes, o Aglar, e daí seguir a corrente até chegarmos a uma confluência. O Ganges, que nos levaria à grande cadeia dos Himalaias, não poderia estar longe daí. Até este ponto, a maior parte do nosso percurso tinha sido feito a corta-mato e só ocasionalmente, ao longo da margem dos rios, encontrámos caminhos utilizados pelos pescadores. Nessa manhã, Marchese estava completamente exausto. Preparei-lhe cereais com água e açúcar, e graças à minha insistência ele comeu um pouco. Infelizmente, o lugar onde nos encontrávamos era o mais impróprio para acampar, infestado de formigas enormes que mordiam profundamente a pele e não nos deixavam dormir. O dia parecia interminável.
A medida que a noite se aproximava, o desassossego do meu companheiro
aumentava e eu comecei a alimentar esperanças de que o seu estado físico tivesse melhorado. Ele também acreditava que conseguiria suportar a fadiga de mais uma noite. No entanto, pouco depois da meia-noite estava esgotado. Não conseguia suportar o enorme esforço físico que nos era exigido. O meu treino intenso e a minha condição física foram uma bênção para ambos, pois frequentemente carregava a mochila dele atada à minha. Devo acrescentar que tínhamos coberto as nossas mochilas com sacos de juta indiana para não levantar suspeitas.
Durante as duas noites seguintes vagueámos rio acima, tendo por vezes de
passar o Aglar a vau quando o nosso caminho ao longo da margem era bloqueado pela mata ou por rochas. Certa ocasião, enquanto descansávamos no leito do rio, alguns pescadores passaram sem dar por nós. Numa outra altura não conseguimos evitar o encontro com outros pescadores, a quem pedimos algumas trutas no nosso atabalhoado hindustani. O nosso disfarce parecia ser suficientemente convincente, já que estes homens nos venderam o peixe sem manifestarem qualquer suspeita — de facto, cozinharam-no para nós — enquanto conversavam e fumavam aqueles pequenos cigarros indianos que os europeus detestam. Marchese (que antes da nossa fuga era um fumador inveterado) não resistiu à tentação de pedir um, mas mal acabou de dar duas passas caiu inconsciente como se tivesse sido derrubado! Felizmente, recuperou pouco depois e pudemos prosseguir a nossa viagem.
Mais tarde encontrámos alguns camponeses que transportavam manteiga
para a cidade. A nossa confiança, entretanto, tinha aumentado e pedimos-lhes que nos vendessem alguma. Um deles concordou, mas à medida que as suas mãos sebentas transferiam a manteiga quase derretida do seu pote para o nosso, quase vomitámos, repugnados.
Finalmente, o vale expandiu-se e o nosso caminho atravessava campos de
arroz e de milho. Tornava-se cada vez mais difícil encontrar um esconderijo para passar o dia. Certa manhã fomos descobertos, e enquanto nos faziam toda a espécie de perguntas indiscretas, limitámo-nos a embrulhar as nossas tralhas e seguimos viagem. Ainda não tínhamos encontrado um novo esconderijo quando deparámos com um grupo de oito homens que, aos gritos, nos mandaram parar. Tudo levava a crer que a sorte nos abandonara. Fizeram-nos inúmeras perguntas e eu insisti nas mesmas respostas, ou seja, que éramos peregrinos de uma província distante. Para nosso espanto, de alguma forma passámos no teste, pois pouco depois dei-xaram-nos seguir o nosso caminho. Mal podíamos acreditar que os havíamos convencido e, muito mais tarde, ainda pensávamos ouvir passadas no nosso encalço.
Nesse dia tudo parecia amaldiçoado e os problemas não tinham fim.
Acabámos por chegar à desanimadora conclusão de que tínhamos de facto atravessado uma bacia, mas continuávamos no vale do Jumna, o que significava estarmos pelo menos dois dias atrasados em relação ao previsto.
Assim, recomeçámos a escalada, e em breve encontrá-mo-nos numa densa
floresta de rododendros, tão deserta que começámos a alimentar esperanças de ter um dia sossegado e a oportunidade de um sono prolongado. Mas surgiram alguns guardadores de vacas e tivemos de mudar o acampamento e dizer adeus às perspectivas de um bom dia de descanso.
Durante as noites seguintes caminhámos através de áreas mais
despovoadas. Depressa descobrimos, com desgosto, a explicação para a ausência de seres humanos. É que quase não havia água. Sofremos tanta sede que numa ocasião cometi um lamentável erro cujas consequências poderiam ter sido desastrosas. Ao avistar uma pequena poça, atirei-me ao chão e, sem nenhuma precaução, comecei a beber sofregamente. O resultado foi terrível. Acontece que se tratava de uma daquelas poças em que os búfalos costumam chafurdar e que contêm mais lama do que água propriamente dita. Tive um violento ataque de tosse e vómitos e demorei bastante para recuperar daquele terrível refresco.
Pouco depois deste incidente, estávamos tão transtornados pela sede que
nos vimos incapazes de prosseguir e tivemos que nos deitar, embora ainda faltasse muito para escurecer. Quando amanheceu, desci uma ribanceira em busca de água, acabando por a encontrar. Os três dias e noites que se seguiram foram um pouco melhores; o nosso caminho atravessava matas de abetos tão desertas que raramente nos encontrávamos com indianos e o risco de sermos descobertos era mínimo.
No décimo segundo dia após a nossa fuga teve lugar um acontecimento importante. Chegámos às margens do Ganges. Nem o mais devoto dos hindus poderia ter ficado tão emocionado como nós perante a visão do rio sagrado. Agora já podíamos subir a estrada dos peregrinos ao longo do Ganges até à sua nascente, o que iria aliviar imenso as fadigas da nossa jornada, ou pelo menos assim o imaginávamos. Decidimos que, já que chegáramos tão longe e de forma tão segura graças ao nosso sistema de deslocação nocturna, não arriscaríamos uma mudança; assim, continuámos a descansar durante o dia e a viajar de noite. Entretanto, os mantimentos escasseavam. Quase não tínhamos comida e embora o pobre Marchese fosse praticamente pele e osso, não desistiu. Em comparação, eu sen-tia-me ainda fresco e dispunha de uma reserva de energias. Todas as nossas esperanças centravam-se nos armazéns de chá e provisões que se podiam encontrar em toda a parte ao longo do Caminho dos Peregrinos. Alguns permaneciam abertos até tarde e reconheciam-se pela luz ténue e bruxuleante dos seus candeeiros a óleo. Depois de retocar a minha caracterização, dirigi-me ao primeiro que encontrámos e fui expulso sob uma chuva de impropérios. Pelos vistos, tomaram-me por um ladrão. Apesar de ter sido desagradável, a experiência teve uma vantagem: o meu disfarce parecia convincente.
Ao chegar ao armazém seguinte, entrei com o dinheiro na mão da maneira
mais ostentosa possível, o que causou uma boa impressão. Disse então ao merceeiro que precisava de mantimentos para dez pessoas, de forma a justificar a aquisição de dezoito quilos de cereais, açúcar e cebolas.
Os comerciantes mostraram-se mais interessados em contar o meu
dinheiro do que em examinar a minha pessoa, e assim pouco depois pude deixar a loja com o meu pesado carregamento de provisões. No dia seguinte as coisas correram melhor. Finalmente tínhamos comida suficiente e o Caminho dos Peregrinos, após o longo corta-mato, parecia—nos um mero passeio.
Mas essa felicidade durou pouco, pois durante a paragem seguinte fomos
perturbados por homens que procuravam madeira. Encontraram Marchese deitado e seminu por causa do imenso calor. Estava tão magro que era possível contar-lhe as costelas e tudo indicava que se encontrava doente. Como não nos alojámos numa das habituais estalagens para peregrinos, tornámo-nos obviamente suspeitos. Os indianos convidaram-nos para os acompanhar até à quinta deles, mas isso não nos convinha e o precário estado de saúde de Marchese serviu de desculpa. Na altura foram-se embora, mas em breve regressaram e tornou-se claro que eles nos tomavam por fugitivos. Tentaram chantagear-nos afirmando que nas proximidades havia um inglês acompanhado por oito soldados que procurava dois prisioneiros evadidos e que lhes tinha prometido uma recompensa em troca de qualquer informação útil. Mas prometeram não dizer nada se lhes déssemos dinheiro. Mantive-me firme e insisti que era um médico de Caxemira, mostrando-lhes como prova o meu estojo de primeiros socorros.
Talvez devido aos genuínos gemidos de Marchese, ou à minha
representação, os indianos desapareceram novamente. Passámos a noite seguinte em constante receio de que regressassem e temíamos que trouxessem o oficial. Contudo, não fomos molestados.
Do jeito que as coisas estavam, os dias pouco serviam para nos restaurar
as forças, sujeitando-nos antes a um esforço superior. Não se tratava, naturalmente, de esforço físico, mas sim psicológico, já que estávamos sob uma tensão permanente. Por volta do meio-dia as nossas garrafas de água estavam geralmente vazias e o resto do dia parecia interminável. Todas as noites Marchese caminhava heroicamente e, não obstante a exaustão causada pela perda de peso, conseguia prosseguir até à meia-noite. Em seguida tínhamos de dormir duas horas de forma a que ele pudesse retomar a marcha. Quando amanhecia acampávamos, e do nosso esconderijo podíamos observar lá em baixo a grande Estrada dos Peregrinos com a sua quase ininterrupta procissão de peregrinos, cujas estranhas vestimentas nos causavam inveja. Felizardos! Não precisavam de se esconder de ninguém. No campo de concentração, tínhamos ouvido que cerca de 60 000 peregrinos faziam este percurso durante os meses de Verão, e agora acreditávamos.
A nossa próxima etapa seria longa, mas por volt da meia-noite
alcançámos Uttar Kashi, a cidade-templo. Rapidamente nos perdemos nas estreitas ruelas e Marche-se teve de se sentar com as nossas mochilas numa esquina escura enquanto eu fui sozinho à procura do caminho. Através das portas abertas dos templos era possível observar as lamparinas que ardiam diante dos ídolos estáticos, e frequentemente tinha de saltar para uma sombra para evitar ser detectado pelos monges que transitavam pelos lugares sagrados. Demorei mais de uma hora até conseguir finalmente encontrar de novo a Estrada dos Peregrinos, que se prolongava do outro lado da cidade. Devido aos inúmeros livros de viagens que tinha lido, sabia que agora teríamos de cruzar a famosa «Linha Interna, uma linha que corre paralelamente à verdadeira fronteira, a uma distância que varia entre os 100 e os 200 quilómetros. À excepção dos residentes normais, qualquer pessoa que atravesse esta região deve ser portadora de um livre-trânsito. Como não era esse o nosso caso, deveríamos redobrar cuidados para evitar postos da polícia e patrulhas.
A medida que avançávamos, o vale que atravessava o nosso caminho
tornou-se cada vez mais ermo. Durante o dia, não tínhamos dificuldade em encontrar refúgios apropriados e eu podia abandonar frequentemente o nosso esconderijo para procurar água. Certa ocasião, até acendi uma pequena fogueira e cozinhei uma papa de aveia — a primeira refeição quente que comíamos em duas semanas.
Já tínhamos alcançado uma altitude de 2100 metros e durante a noite
passávamos com frequência por acampamentos de bhutias, os comerciantes tibetanos que no Verão desenvolvem a sua actividade no sul do Tibete e no Inverno vêm para a índia. Durante a época quente, muitos deles vivem em pequenas vilas situadas a 3000 metros de altitude, onde cultivam cevada. Estes acampamentos apresentavam uma característica muito desagradável: os poderosos e selvagens cães tibetanos, uma raça peluda e de tamanho médio que encontrávamos agora pela primeira vez.
Certa noite chegámos a uma destas vilas bbutia apenas habitadas no
Verão. Parecia muito acolhedora com os seus telhados de ripas cobertas com pedras. Mas, por trás disto, aguardava-nos uma surpresa desagradável, pois a corrente tinha transbordado e inundara as margens, tornando o terreno adjacente num pântano. Era absolutamente impossível atravessá-la. Por fim, desistimos de tentar encontrar uma passagem e decidimos esperar pelo dia para observarmos melhor o terreno a partir de um esconderijo, pois não acreditávamos que a Estrada dos Peregrinos permanecesse interrompida neste ponto. Para nossa total estupefacção, na manhã seguinte a procissão de peregrinos prosseguia já o seu caminho e atravessava a corrente precisamente no local onde durante horas tentáramos em vão a travessia. Infelizmente, não podíamos ver como eles o faziam, pois as árvores tapavam parcialmente a visão do local. Mas ocorreu algo igualmente inexplicável. Mais tarde nessa manhã, reparámos que o fluxo de peregrinos parara. Na noite seguinte tentámos novamente a travessia no mesmo local, sem sucesso. Finalmente ocorreu-me que estávamos perante uma ribeira alimentada por gelo e neve derretida que comportava o seu caudal máximo do meio—dia até à noite. De manhã cedo o nível da água seria mínimo.
Era de facto como eu previra. A primeira luz da alvorada abeirámo-nos do
riacho e vimos uma ponte primitiva de troncos de árvore semi-submersa. Equilibrando-nos cuidadosamente, conseguimos atravessar para o outro lado. Infelizmente, havia outros rios que tivemos de atravessar da mesma maneira trabalhosa. Eu tinha acabado de passar pelo último deles quando Marchese escorregou e caiu na água — felizmente em cima dos troncos, senão teria sido arrastado pela corrente. Encharcado até aos ossos e completamente exausto, não era possível convencê-lo a prosseguir. Incitei-o a abrigar-se, mas ele espalhou as suas coisas para que secassem e começou a acender uma fogueira. Foi então que, pela primeira vez, comecei a arrepender-me de não ter concordado quando repetidamente me pediu que o deixasse e prosseguisse sozinho. Mas eu insistia sempre que, se tínhamos começado juntos, devíamos permanecer juntos.
Enquanto discutíamos, um indiano aproximou-se de nós e, depois de
deitar um olhar aos vários objectos de origem obviamente europeia espalhados pelo chão, começou a fazer perguntas. Só então Marchese se apercebeu do perigo que corríamos e rapidamente apanhou as suas coisas. Mas mal tínhamos dado alguns passos fomos interceptados por outro indiano, um sujeito de aspecto distinto que liderava uma companhia de dez vigorosos soldados. Em inglês fluente pediu-nos os nossos documentos. Fingimos não compreender e dissemos ser peregrinos de Caxemira. Ele reflectiu por um momento e então encontrou uma solução que punha fim às nossas esperanças de fuga. Numa casa próxima havia dois homens de Caxemira e se eles nos conseguissem entender, podíamos seguir o nosso caminho. Que má sorte diabólica teria trazido aqueles dois homens para estas redondezas precisamente neste momento? Eu só tinha usado este «álibi porque a coisa mais improvável era encontrar alguém de Caxemira nesta região.
Os dois homens a que o oficial se referira eram dois peritos em
inundações. Assim que nos levaram à sua presença percebemos que íamos ser desmascarados. Conforme havíamos combinado fazer em tal eventualidade, comecei a falar com Marchese em francês. O indiano interrompeu-nos imediatamente, falando também em francês, e mandou— nos abrir as nossas mochilas. Quando viu o meu dicionário inglês-tibetano, disse-nos que mais valia confessarmos a nossa verdadeira identidade. Foi então que admitimos ser prisioneiros fugitivos, mas não revelámos a nossa nacionalidade.
Pouco depois estávamos sentados numa confortável sala a beber chá, mas
de qualquer forma eu sentia-me profundamente desapontado. Este era o décimo oitavo dia após a nossa fuga e todos os nossos esforços e privações tinham sido em vão. O homem que nos tinha interrogado era o chefe do Departamento Florestal no Estado de Tehri—Garwhal. Tinha estudado florestamento em escolas inglesas, francesas e alemãs e conhecia bem as três línguas. Tinha vindo inspeccionar esta região por causa da enchente, a pior catástrofe deste tipo nos últimos cem anos. Sorridente, lamentou a sua presença, acrescentando que a nossa lhe tinha sido participada, pelo que era obrigado a cumprir o seu dever.
Hoje, quando penso na concatenação de circunstâncias que levaram à
nossa captura, sinto que fomos vítimas de algo pior do que a simples má sorte e que não poderíamos ter evitado o nosso destino. De qualquer forma, nem por um minuto duvidei que iria escapar novamente. Mar-chese, no entanto, estava em tal estado de exaustão que tinha desistido de qualquer outra tentativa. Num gesto de verdadeira camaradagem e ciente das minhas dificuldades, entregou-me a maior parte do seu dinheiro. Eu aproveitei bem o lazer forçado para me alimentar substancialmente, já que não tínhamos comido praticamente nada nos últimos dias. O cozinheiro do funcionário florestal manteve-nos continuamente abastecidos de comida, metade da qual eu armazenava na minha mochila. Ao anoitecer queixámo-nos de cansaço e dissemos que gostaríamos de dormir. A porta do nosso quarto estava fechada por fora e o funcionário florestal tinha instalado a sua cama na varanda em frente à nossa janela para prevenir qualquer tentativa de fuga por aí. Entretanto, ausentou-se por uns momentos e Marchese e eu aproveitámos a oportunidade para encenar uma discussão. Marchese, por assim dizer, fez ambos os papéis, gritando insultos numa voz ora aguda ora grave enquanto eu saltava através da janela, com mochila e tudo, para a cama do funcionário florestal e corria até ao fim da varanda. Já tinha escurecido, e depois de aguardar alguns segundos até que as sentinelas dobrassem a esquina da casa, saltei quatro metros para o chão. O solo não era muito duro e por isso fiz pouco barulho; em breve tinha transposto o muro do jardim, desaparecendo na escuridão total da floresta.