Sete Anos no Tibet
A monotonia da vida em Tradiin era quebrada de vez em quando pela
visita de altos dignatários, e eu tenho uma viva recordação da chegada do segundo Garpõn a caminho de Gartok.
Muito antes de qualquer sinal da sua caravana apareceram soldados a
anunciar a sua chegada. Depois chegou o seu cozinheiro, que imediatamente começou a preparar a comida, e foi só no dia seguinte que o próprio Garpõn chegou com a sua caravana e comitiva de trinta criados. A população inteira, incluindo nós próprios, aglomerou-se para o ver chegar. O grande homem e a sua família montavam esplêndidas mulas, e os anciãos da aldeia conduziam os membros da família, segurando as rédeas dos animais, para os aposentos que lhes tinham sido preparados. Ficámos menos impressionados com o Garpõn do que com a sua filha. Era a primeira mulher admirável que víamos desde 1939 e achámo-la realmente bonita com as suas roupas de seda pura e as suas unhas envernizadas de vermelho. Talvez tivesse exagerado ligeiramente a maquilhagem, mas exalava frescura e asseio. Perguntámos-lhe se era a rapariga mais bonita de Lassa mas ela respondeu modestamente que não e declarou que havia muitas raparigas mais bonitas na capital. Ficámos muito tristes por perder a sua companhia encantadora quando a comitiva seguiu viagem no dia seguinte.
Pouco depois tivemos um novo convidado em Tradiin — um funcionário
público do Nepal que veio visitar-nos mas que se fez passar por peregrino. Sentimos que ele queria persuadir-nos a ir para o Nepal contra a nossa vontade. Disse que seríamos bem recebidos em Katmandu, a capital, onde poderíamos encontrar ocupação. A nossa viagem seria organizada pela administração e já tinham sido destinadas 300 rupias para as nossas despesas. Tudo isso parecia muito atractivo — talvez atractivo demais — pois sabíamos que a influência britânica na Ásia era grande. Não aceitámos a sua proposta.
Ao fim de três meses começámos a perder a paciência e a enervar-nos uns
aos outros. Kopp repetia constantemente que aceitaria de bom grado o convite para o Nepal. Aufschnaiter, como habitualmente, seguiu o seu caminho. Comprou quatro ovelhas para servirem de animais de carga e queria ir para Changthang. É verdade que isto era contrário à nossa decisão inicial de aguardar a carta de Lassa, mas duvidávamos seriamente de obter uma resposta favorável.
Aufschnaiter, impaciente, pôs-se a caminho uma tarde com as suas
ovelhas carregadas e acampou a alguns quilómetros de Tradiin. Ajudámo-lo a carregar as suas coisas até lá e tencionávamos visitá-lo no dia seguinte. Kopp também começou a fazer as malas e as autoridades locais prometeram arranjar-lhe transporte, pois estavam muito satisfeitos com a sua decisão de ir para o Nepal, mas desaprovavam o comportamento de Aufschnaiter. Desse dia em diante passaram a dormir guardas à nossa porta. Mas no dia seguinte, para nossa surpresa, Aufschnaiter regressou com a sua bagagem. As suas ovelhas tinham sido atacadas por lobos, que comeram duas delas. Isto compeliu-o a regressar e assim passámos os três mais uma noite juntos.
Na manhã seguinte Kopp despediu-se de nós. Toda a população se juntou
para o ver partir. Agora, dos sete que tinham escapado do campo de concentração e dos quais cinco se tinham dirigido para o Tibete, só restávamos Aufschnaiter e eu. Éramos os únicos montanhistas no grupo e, consequentemente, mais bem preparados física e psicologicamente para a vida solitária e desgastante desta terra inóspita.
Estávamos agora em fins de Novembro e as rotas das caravanas já não
eram tão frequentadas. O funcionário monástico enviou-nos algumas ovelhas e doze carregamentos de esterco de iaque para combustível — e bem precisávamos, pois a temperatura já chegava aos doze graus centígrados abaixo de zero.
4 A ALDEIA DA FELICIDADE
Ordem para prosseguir — Kyirong, a aldeia da felicidade — O nosso primeiro Ano Novo no Tibete — Esquis improvisados — Termina a guerra — O Abominável Homem das Neves?
Não obstante o tempo invernoso, estávamos mais do que nunca
determinados a sair de Tradiin, com ou sem salvo-conduto. Começámos a aprovisionar mantimentos e comprámos um segundo iaque. Mas precisamente a meio desses preparativos apareceu o abade com a notícia de que a tão esperada carta de Lassa tinha chegado. Aquilo que secretamente receávamos tinha-se concretizado. Estávamos proibidos de viajar para o interior do Tibete. A carta não nos foi entregue pessoalmente. Foi-nos simplesmente dito que deveríamos seguir para o Nepal pela rota mais directa, mas que poderíamos viajar por território tibetano até Kyirong. A fronteira nepalesa ficava apenas a treze quilómetros daí e a capital, Katmandu, a sete dias de marcha. Iam ceder-nos transporte e criados.
Concordámos imediatamente com estas disposições, uma vez que este trajecto nos levaria um pouco mais para o interior do Tibete; e quanto mais tempo permanecêssemos do lado da lei, melhor.
A 17 de Dezembro partimos de Tradún, que nos tinha abrigado durante
quatro meses. Não sentíamos qualquer ressentimento contra os tibetanos por não nos deixarem ir para Lassa. Toda a gente sabe que é difícil um estrangeiro sem passaporte entrar em qualquer país. Ao darem-nos presentes e ao providenciarem-nos transporte, os tibetanos tinham demonstrado uma hospitalidade muito superior à de outros países. Embora na altura eu não desse tanto valor à nossa sorte como agora, mesmo assim Aufs-chnaiter e eu estávamos gratos pelos oito meses que tínhamos passado fora da vedação de arame farpado.
Agora estávamos novamente a caminho. A nossa caravana era formada
por Aufschnaiter e eu próprio acompanhados por dois criados. Um deles levava a carta do governo, embrulhada como uma relíquia, para a autoridade distrital em Kyirong. Todos montávamos animais e os nossos dois iaques eram levados por um condutor. Podia perceber-se à distância que a nossa caravana pertencia a pessoas importantes — muito diferente dos três deploráveis vagabundos que alguns meses antes tinham atravessado os Himalaias em direcção ao Tibete.
A estrada conduzia novamente para além da bacia hidrográfica dos
Himalaias, em direcção a sudeste. O Tsang-po já estava congelado quando o atravessámos e as noites na tenda eram terrivelmente frias.
Depois de uma semana de marcha chegámos a Dzon-gka, que era visível a
uma grande distância por causa de uma nuvem de fumo que pairava sobre as casas. Continha aproximadamente uma centena de casas de tijolos de lama agrupadas em redor de um templo, e à volta da aldeia havia campos cultivados. A aldeia estava situada junto à confluência de duas correntes que formam o rio Kosi e que, penetrando nos Himalaias, fluem para o Nepal. O lugar estava cercado por uma muralha de dez metros e a tudo isso sobrepunha-se um pico de montanha com uma altitude de 6100 metros a que os nativos chamavam Cho-gulhari. Era dia de Natal quando chegámos a Dzongka — o nosso primeiro Natal desde que tínhamos escapado. Ficámos instalados em alojamentos surpreendentemente confortáveis. A área arborizada estava apenas a dois dias de distância, e a madeira já não era um luxo extravagante; podia ser usada nas construções e para todas as necessidades domésticas. Uma engenhoca em lata servia de fogão, no qual queimávamos madeira de zimbro que rapidamente aquecia todo o quarto de maneira muito agradável. Quando anoiteceu acendemos alguns candeeiros tibeta-nos a manteiga, e para celebrar o dia em breve tínhamos uma perna de carneiro a cozinhar.
Tal como em todos os outros lugares do Tibete, aqui não havia estalagens. As autoridades atribuíam rotativamente acomodação em casas particulares aos viajantes, para não causar muito inconveniente à população; este acordo faz parte do sistema de contribuição de impostos.
Não tínhamos planeado demorar-nos aqui, mas os intensos nevões mantiveram-nos em Dzongka. Durante todo o dia caíam pesados flocos de neve e as comunicações ficaram interrompidas. Estávamos contentes com o nosso descanso aqui; interessávamo-nos pelas actividades dos monges e apreciámos como espectadores as exibições de um grupo de dançarinos de Nyenam.
Viviam aqui algumas autoridades aristocráticas e em breve travámos amizade com eles. Por esta altura já falávamos bem tibetano e entabulávamos longas conversas através das quais aprendemos muito sobre os hábitos e costumes deste país. A noite de São Silvestre passou sem ser celebrada, e mais do que nunca os nossos pensamentos voltaram-se para a nossa terra.
Durante este compasso de espera, fazíamos pequenas excursões pela
vizinhança sempre que podíamos, e encontrávamos muitas cavernas de arenito, uma mina de interesse para nós, pois continham ídolos de madeira ou barro e folhas das sagradas escrituras tibetanas — sem dúvida ofertas aos santos que costumavam habitar estas cavernas.
A 19 de Janeiro as estradas estavam suficientemente transitáveis para nos
permitirem prosseguir na companhia de uma enorme caravana de iaques. A nossa frente seguia uma manada de iaques, sem carga, que actuava como limpa-neves e que parecia apreciar bastante o exercício. A região era entrecortada por vales e ravinas e nos dois primeiros dias atravessámos nada menos que doze pontes sobre o Kosi. O meu iaque era de Changthang e não estava acostumado a pontes, recusando-se vigorosamente sempre que tinha que atravessar uma. Só empurrando atrás e puxando à frente — uma operação na qual os condutores nos ajudavam entusiasticamente — era possível fazê-lo atravessar. Eu já tinha sido avisado para não o trazer para Kyirong pois não iria suportar o clima quente de Verão, mas eu não quis deixá-lo para trás devido aos nossos planos de fuga, que não tínhamos abandonado. Durante todo este tempo o meu termómetro indicava a temperatura invariável de 30 graus centígrados negativos. Não havia mais marcas negativas no instrumento!
Ficámos profundamente impressionados com um mosteiro em rocha nas
proximidades da aldeia de Longda. Duzentos metros acima do vale havia templos vermelhos e inúmeras celas empoleiradas na rocha como ninhos de pássaros. Apesar do perigo de avalanches, Aufschnaiter e eu não conseguimos resistir a escalar a parede rochosa e assim obtivemos mais uma maravilhosa vista dos Hima-laias. Também encontrámos alguns monges e freiras e ficámos a saber que este convento fora fundado pelo famoso Milarepa, um tibetano santo e poeta que viveu no século xi. Estávamos cientes de que o glorioso ambiente circundante e a solidão deste lugar se adaptavam peculiarmente à meditação e à poesia. Deixámos este lugar com pesar, esperando regressar um dia.
Cada dia encontrávamos menos neve e depois de alcançarmos a área
arborizada em breve chegámos a uma região tropical. Nesta atmosfera, as vestimentas de Inverno que nos tinham sido oferecidas pelo governo do Tibete tornaram-se muito quentes. Agora chegávamos a Dro-thang, a última paragem antes de Kyirong. Lembro-me de que todos os habitantes deste lugar tinham papeiras muito desenvolvidas, o que raramente se vê no Tibete. Demorámos uma semana a chegar a Kyirong; quando a estrada está boa fica a três dias de marcha de Dzongka e pode ser alcançada num só dia por um mensageiro rápido.
O nome Kyirong significa «a aldeia da felicidade e esta aldeia realmente
merece essa designação. Nunca vou deixar de pensar neste lugar com saudade, e se eu puder escolher o local para passar a minha velhice, será em Kyirong. Construiria uma casa de madeira de cedro vermelho e desviaria um dos riachos da montanha para atravessar o meu jardim, repleto de toda a espécie de fruta, pois apesar de a altitude ser de 2800 metros, Kyirong fica no paralelo 28. Quando chegámos em Janeiro, a temperatura estava mesmo abaixo de zero; raramente desce para além dos 10 graus negativos. As estações correspondem às dos Alpes, mas a vegetação é subtropical. Pode-se esquiar todo o ano, e no Verão há a cadeia de montanhas com 6000 metros para escalar.
Existem aproximadamente oitenta casas e a povoação é a sede de dois
governadores distritais que administram trinta aldeias. Disseram-nos que éramos os primeiros europeus a vir a Kyirong, e os habitantes assistiram atónitos à nossa chegada. Desta vez ficámos hospedados na casa de um agricultor, que me lembrava as nossas casas tirolesas. De facto, toda a aldeia poderia ter sido transplantada dos Alpes, excepto pelos telhados, que em vez de terem chaminés eram decorados com bandeiras de oração com as cinco cores alusivas aos vários aspectos da vida no Tibete.
No rés-do-chão ficavam os estábulos para vacas e cavalos, separados dos
quartos da família por um espesso tecto e aos quais se tinha acesso por umas escadas que vinham do quintal. Colchões grossos serviam de camas e cadeiras e junto deles havia mesas pequenas e baixas. Os membros da família guardavam as roupas em armários pintados com cores vivas, e perante o inevitável altar em madeira entalhada ardiam as lamparinas de manteiga. No Inverno, toda a família se sentava nas tábuas de pinho do chão à volta de uma enorme lareira aberta bebendo chá.
O quarto em que Aufschnaiter e eu ficámos acomodados era bastante
pequeno e por isso mudei-me para o celeiro ao lado. Aufschnaiter continuou a nossa incessante luta contra ratos e insectos, enquanto eu tive que me haver com pulgas e pequenos ratos. Nunca consegui levar a melhor à bicharada, mas a vista sobre os glaciares e a floresta de rododendros compensava o meu desconforto. Também nos tinham atribuído um criado, mas preferíamos ser nós próprios a cozinhar. No nosso quarto havia uma lareira e lenha. Gastávamos pouquíssimo dinheiro; as nossas provisões não custavam mais do que duas libras por mês a cada um. Mandei fazer um par de calças e o alfaiate cobrou meia coroa.
A comida tradicional nesta região é tsampa: aquece-se areia a uma
temperatura elevada numa panela de ferro e acrescenta-se grãos de cevada, que rebentam com um pequeno estalido; despeja-se a areia e os grãos para uma peneira fina para escoar a areia e depois mói-se bastante os grãos. A farinha resultante é mexida até formar uma pasta juntamente com chá tibetano, leite ou cerveja e está pronta a servir. Os tibetanos fazem da tsampa um culto especial e têm várias maneiras de a preparar. Acostumámo-nos rapidamente a esta comida, mas nunca nos interessámos muito pelo chá tibetano, normalmente feito com manteiga rançosa e repugnante para o gosto europeu. No entanto, é bebido e apreciado universalmente pelos tibetanos, que frequentemente chegam a beber sessenta chávenas por dia. Para além do chá tradicional e tsampa, os tibetanos de Kyirong comem arroz, trigo, milho, batatas, nabos, cebolas, feijão e rabanetes. A carne é uma raridade, pois Kyirong é um lugar particularmente sagrado e jamais abatem animais. A carne só aparecia à mesa quando tinha sido trazida de outro distrito ou, mais frequentemente, quando ursos ou panteras deixavam parte das suas presas intocadas. Nunca entendi como esta doutrina podia ser conciliada com o facto de todos os Outonos algumas 15 000 ovelhas atravessarem Kyirong a caminho dos matadouros no Nepal e os tibetanos cobrarem impostos de exportação sobre elas.
Logo no início da nossa estadia fomos visitar as autoridades distritais. O
nosso salvo-conduto já tinha sido entregue por um criado e o Põnpo pensava que íamos seguir directamente para o Nepal. Essa não era de forma alguma a nossa intenção, e dissemos-lhe que gostaríamos de ficar algum tempo em Kyirong. Aceitou isto muito calmamente e prometeu, a nosso pedido, informar Lassa. Também visitámos o representante do Nepal, que descreveu o seu país nos termos mais atractivos. Entretanto ficámos a saber que Kopp, depois de permanecer algum tempo na capital, tinha sido levado para um campo de concentração na índia. A sedução dos automóveis, bicicletas e cinemas que, segundo nos foi dito, iríamos encontrar em Katmandu, não nos atraía.
Não podíamos realmente ter esperanças de obter de Lassa permissão de
residência, e se fôssemos para o Nepal contávamos ser expulsos para a índia. Por isso decidimos recuperar as nossas forças nesta aldeia de conto de fadas e ficar aqui até termos elaborado um novo plano de fuga. Não podíamos prever nessa altura que iríamos permanecer quase nove meses em Kyirong.
Não estávamos minimamente aborrecidos. Preenchíamos cadernos de
exercícios com apontamentos sobre os hábitos e costumes dos tibetanos. Na maior parte dos dias saíamos para explorar os arredores. Aufschnaiter, que tinha sido secretário da Fundação Himalaia em Munique, aproveitava as suas oportunidades para traçar mapas. Havia apenas três nomes no mapa da região que tínhamos trazido, mas agora já tínhamos inscrito mais de duzentos. Na verdade, não só apreciávamos a nossa liberdade como também fazíamos uso prático dela.
As nossas excursões, que a princípio se limitavam às redondezas mais
próximas, gradualmente expandiram-se para mais longe. Os habitantes estavam bem acostumados à nossa presença e ninguém interferia connosco.
Naturalmente, eram as montanhas que nos atraíam mais, e a seguir as nascentes de água quente à volta de Kyirong. Havia várias, e a mais quente ficava numa floresta de bambu nas margens do gelado rio Kosi. A água brotava do chão a borbulhar, quase em ponto de ebulição, e era conduzida para uma bacia artificial onde ainda mantinha uma temperatura de aproximadamente 40 graus. Eu costumava mergulhar alternadamente na piscina quente e nas águas geladas do Kosi.
Na Primavera, existe uma época balnear normal neste lugar. Multidões de
tibetanos chegavam e barracas de bambu surgiam por todo o lado neste lugar habitualmente solitário, a duas horas de distância de Kyirong. Homens e mulheres atiravam-se nus para a piscina e quaisquer sinais de pudor provocavam estrondosas gargalhadas. Muitas famílias visitam estas termas nas suas férias. Partem de suas casas com sacos cheios de mantimentos e barris de cerveja e durante uma quinzena acampam nas barracas de bambu. As classes altas também estão acostumadas a visitar as nascentes e chegam com caravanas e comitivas de criados. Mas toda a temporada balnear dura pouco tempo pois o fluxo do rio transborda com a neve derretida e inunda as nascentes.
Em Kyirong travei conhecimento com um monge que tinha estudado na
escola de medicina em Lassa. Era bastante respeitado e vivia desafogadamente das provisões que recebia em troca dos seus serviços. Os seus métodos de tratamento eram diversos. Um deles era pressionar um carimbo de oração no local afectado, o que parecia resultar com os seus pacientes histéricos. Em casos graves, marcava o paciente com um ferro em brasa. Posso testemunhar que conseguiu assim devolver a consciência a um caso aparentemente perdido, mas o seu tratamento afectava diferentemente muitos dos seus pacientes. Também empregava este método drástico em animais domésticos. Como me consideravam uma espécie de paramédico, além de me interessar muito por tudo o que esteja relacionado com a medicina, costumava ter longas conversas com este monge. Confessou-me que o seu conhecimento era limitado, mas que não se preocupava demais com isso e que conseguia evitar incidentes desagradáveis mudando de residência frequentemente. A sua consciência era aliviada pelo facto de que os emolumentos provenientes das suas duvidosas curas serviam para financiar as suas peregrinações.
Em meados de Fevereiro tivemos o nosso primeiro Ano Novo no Tibete.
O ano rege-se pelo calendário lunar e tem dois nomes, um de animal e outro de um elemento. Depois das datas do nascimento e da morte de Buda, o festival do Ano Novo é o maior evento do ano. Durante a noite anterior já tínhamos ouvido as vozes dos mendigos cantores e dos monges itinerantes que pediam esmolas de casa em casa. De manhã, os telhados estavam decorados com pinheiros recém-cortados enfeitados com bandeiras, recitava-se textos religiosos e oferecia-se tsampa aos deuses. O povo traz uma oferenda de manteiga para os templos e em breve os enormes caldeirões de cobre transbordam. Só então os deuses ficam propícios e dispostos a conceder favores para o Ano Novo. Echarpes de seda branca cobrem as estátuas douradas em sinal de especial respeito e os adoradores pousam reverentemente a testa sobre elas.
Pobres ou ricos, todos vêm cheios de devoção e sem reservas íntimas,
depositando as suas oferendas perante os deuses e rezando pela sua bênção. Existirá algum povo tão uniformemente apegado à sua religião e tão obediente aos seus ensinamentos na vida quotidiana? Sempre invejei os tibetanos pela simplicidade da sua fé pois toda a minha vida tenho procurado respostas. Embora tenha aprendido a forma de meditar enquanto vivi na Ásia, a resposta final para o enigma da vida nunca me foi revelada. Mas aprendi pelo menos a contemplar os eventos da vida com tranquilidade e a não permitir que as circunstâncias me façam derivar de um lado para o outro num mar de dúvidas. O povo não se limitava a rezar na passagem do ano: durante sete dias dançavam, cantavam e bebiam sob o olhar benevolente dos monges. Em cada casa havia uma festa e nós também éramos convidados.
E triste recordar que as celebrações festivas na nossa casa foram
ensombradas por uma tragédia. Um dia fui chamado ao quarto da irmã mais nova da nossa anfitriã. O quarto estava escuro e só quando umas mãos quentes seguraram nas minhas é que percebi que estava ao pé dela. Quando os meus olhos se acostumaram à escuridão, olhei para a cama e recuei num horror que não consegui disfarçar. Ali estava, completamente transformada pela doença, uma rapariga que há dois dias atrás era bonita e saudável. Embora sendo leigo, reconheci instantaneamente que tinha varíola. A sua laringe e linguaja estavam atacadas e só conseguia gemer em voz rouca que estava a morrer. Tentei dizer-lhe que não e então procurei escapar do quarto o mais depressa possível para me lavar exaustivamente. Não havia nada a fazer e só restava esperar que não deflagrasse uma epidemia. Aufschnaiter também a visitou e concordou com o meu diagnóstico. Dois dias depois morreu.
Assim, e depois das alegrias do festival, este lúgubre acontecimento fez-nos conhecer as cerimónias de um funeral tibetano. O pinheiro decorado que estava no telhado foi retirado e ao nascer-do-sol, no dia seguinte, o corpo foi envolto em túnicas fúnebres brancas e transportado para fora da casa por um coveiro profissional. Nós seguimos o cortejo fúnebre constituído apenas por três homens. Perto da aldeia, num lugar alto e identificável à distância como cemitério dada a multidão de abutres e corvos que ali pairavam, um dos homens esquartejou o corpo em bocados com um machado. Sentado ali próximo, um outro murmurava orações e rufava um pequeno tambor. O terceiro homem afugentava os pássaros e, a intervalos, servia aos outros dois cerveja ou chá para os animar. As ossadas da rapariga morta foram partidas aos bocados para que também pudessem ser consumidas pelos pássaros e não restassem vestígios do corpo.
Por mais bárbara que possa parecer, a cerimónia tem a sua origem nos
mais profundos motivos religiosos. Os tibetanos não querem deixar vestígios após a morte do seu corpo, pois sem a alma não têm significado. Os cadáveres dos nobres e dos Lamas mais graduados são cremados, mas entre a população a maneira habitual é o desmembramento e só os corpos de gente muito pobre, para quem esta solução é muito cara, são atirados ao rio, onde os peixes fazem o trabalho dos abutres. Quando pessoas pobres morrem de doenças contagiosas, os seus corpos são eliminados por indivíduos especializados pagos pelo governo.
Felizmente, havia poucos casos de varíola e só um pequeno número deles
era fatal. A nossa casa ficou quarenta e nove dias de luto, e então uma nova árvore com bandeiras de oração foi içada no telhado. A esta cerimónia compareceram vários monges que rezaram orações acompanhadas pela sua própria música peculiar. Tudo isto custa dinheiro naturalmente, e quando ocorre uma morte na família os tibetanos habitualmente vendem algumas jóias ou as posses do defunto para pagar as exéquias realizadas pelos monges e o óleo utilizado nas inúmeras lamparinas.
Durante todo este período continuámos com as nossas caminhadas diárias
e a óptima neve deu-nos a ideia de construir esquis. Aufschnaiter arranjou um par de varas de vidoeiro que descascámos e secámos ao lume no nosso quarto. Comecei a fazer os bastões e as correias e com a ajuda de um carpinteiro conseguimos produzir dois pares de esquis de aspecto razoável. Estávamos deliciados com a sua aparência rudimentar e era com grande excitação que ansiávamos experimentá-los. Qual relâmpago no céu claro chegou a ordem do Põnpo proibindo-nos de sair de Kyi-rong, excepto para as caminhadas na vizinhança mais próxima. Protestámos energicamente, mas disseram-nos que a Alemanha era uma nação poderosa e que se algo nos acontecesse nas montanhas seriam apresentadas queixas em Lassa e as autoridades de Kyirong seriam responsabilizadas. O Põnpo manteve-se inabalável perante os nossos protestos e fez o possível para nos convencer de que nas montanhas corríamos grande perigo de ser atacados por ursos, leopardos ou cães selvagens. Nós sabíamos que a preocupação deles com a nossa segurança não passava de um pretexto, mas conjecturámos que tinham adoptado esta atitude atendendo a pedidos da população supersticiosa, que possivelmente acreditava que a nossa presença nas montanhas podia enfurecer os deuses. De momento não havia nada a fazer senão obedecer.
Durante as semanas seguintes obedecemos às ordens, mas não
conseguíamos resistir à tentação de ir esquiar. A atracção pela neve e pelas rampas de gelo era demasiada e um dia recorremos a um estratagema. Instalei-me provisoriamente junto a uma das nascentes de água quente apenas a meia hora de distância da aldeia. Alguns dias depois, quando a população se acostumou à minha ausência fui buscar os esquis e transportei-os à luz do luar até ao sopé da montanha. Cedo na manhã seguinte, Aufschnaiter e eu escalámos para além da linha de árvores e divertimo-nos numa esplêndida superfície de neve. Ficámos ambos estupefactos por conseguir esquiar tão bem depois de tanto tempo sem praticar. Como ninguém nos viu, voltámos no dia seguinte, mas desta vez partimos os esquis e escondemos os restos destes estranhos instrumentos. A população de Kyirong nunca descobriu que tínhamos andado a «montar a neve, como diziam.
Quando a Primavera chegou, começou o trabalho nos campos e o milho
de Inverno brotou em amorosos rebentos verdes. Tal como nos países católicos, os campos de milho são abençoados por padres. Uma longa procissão de monges, seguida pelos aldeões, transportava os 108 volumes da bíblia tibetana em volta da aldeia, acompanhados por orações e música sacra.
A medida que o tempo foi aquecendo o meu iaque adoeceu. Tinha febre e
o veterinário local declarou que somente uma vesícula de urso o poderia curar. Comprei isso a muito custo, não tanto por não acreditar nas suas propriedades mas apenas para satisfazer o «doutor. Não fiquei surpreendido com a ausência de resultados. Aconselharam-me então a tentar vesícula de carneiro e almíscar e eu, subconscientemente, tinha esperanças de que a longa experiência dos tibetanos no tratamento de iaques enfermos salvaria a minha preciosa besta. Contudo, passados alguns dias fui obrigado a mandar abater o pobre Armin, já que tencionava pelo menos aproveitar a sua carne.
Para estas situações a população usa um carniceiro, um homem obrigado a
viver marginalizado nas imediações da aldeia, como o ferreiro, cuja profissão no Tibete é das menos honrosas. O carniceiro recebe os pés, a cabeça e os intestinos do iaque como pagamento. A maneira como ele despachou o animal era mais rápida e mais humana do que os métodos dos nossos carniceiros. Com um golpe ligeiro abriu o corpo, enfiou a mão e arrancou a artéria cardíaca, causando morte instantânea. Levámos a carne e defumámo-la sobre uma fogueira ao ar livre, providenciando desta forma uma provisão de comida para quando escapássemos novamente.
Por esta altura uma epidemia alastrou em Dzongka causando várias
mortes. A autoridade distrital veio para Kyirong com a sua jovem e simpática esposa e quatro crianças para escapar ao perigo. Infelizmente, as crianças trouxeram o vírus da doença com elas, uma espécie de disenteria, e foram sucumbindo uma a uma. Nessa altura eu ainda tinha algumyatren, o melhor remédio para a disenteria, e ofereci-o à família. Isto representou um sacrifício considerável para Aufschnaiter e para mim, pois tínhamos guardado estas últimas doses para nós próprios em caso de necessidade. Infelizmente não resultou e três das crianças faleceram. Não havia,yatren para a quarta, a mais nova, que adoeceu depois das outras. Tentávamos desesperadamente salvá-la e aconselhámos os pais a mandarem urgentemente um mensageiro a Katmandu com uma amostra das fezes para descobrir o remédio indicado. Aufschnaiter escreveu uma carta em inglês para este efeito, mas nunca foi enviada. A criança foi tratada pelos monges, que chegaram ao ponto de chamar um Lama reencarnado vindo de um local distante. Todos os seus esforços foram em vão e ao fim de dez dias a criança morreu. Este triste episódio de certa forma ilibou-nos de culpa, pois se a última criança tivesse recuperado teríamos sido responsabilizados pela morte das outras.
Os pais destas crianças e muitos outros adultos também adoeceram, mas
recuperaram. Durante a enfermidade comeram substancialmente e beberam grandes quantidades de álcool, o que pode ter contribuído para a sua recuperação. Durante a doença as crianças tinham recusado comida e a sua força rapidamente se desvaneceu.
Mais tarde viemos a ser muito amigos dos pais, que embora sentissem
profundamente a sua perda, consolavam-se em certa medida com a sua fé na reencarnação. Permaneceram em Kyirong por mais algum tempo numa eremitagem e nós íamos visitá-los frequentemente. O pai chamava-se Wangdíila e era um homem progressista e de mentalidade aberta. Era ávido de conhecimento e fez-nos contar muitas coisas sobre a vida fora do Tibete. A seu pedido, Aufschnaiter desenhou de memória um mapa—múndi. A sua mulher era uma beldade tibetana de vinte e dois anos que falava hindi fluente que tinha aprendido numa escola na índia. Formavam um casal muito feliz.
Passados alguns anos voltámos a ter notícias suas. Tiveram um destino
trágico. Nasceu um outro bebé e a mãe morreu durante o parto. Wangdíila enlouqueceu de desgosto. Era um dos mais amigáveis tibetanos que já conheci, e a sua melancólica história comoveu-me profundamente.
Durante o Verão as autoridades convocaram-nos novamente e deram-nos
ordem para sair de Kyirong. Entretanto tínhamos sido informados pelos mercadores e pelos jornais de que a guerra tinha acabado. Tínhamos conhecimento de que após a I Guerra Mundial os ingleses tinham mantido em actividade os campos de prisioneiros de guerra na índia até cerca de dois anos depois do fim das hostilidades. Naturalmente não desejávamos perder a nossa liberdade agora e estávamos determinados a fazer outra tentativa para penetrar no interior do Tibete. A fascinação que esta terra exercia sobre nós aumentava e estávamos prontos a arriscar tudo para satisfazer a ambição de a conhecer melhor. O nosso conhecimento da língua já era bom e tínhamos adquirido muita experiência. O que nos poderia impedir de ir mais longe? Ambos éramos montanhistas e tínhamos aqui uma oportunidade única para fazer um levantamento dos Himalaias e dos distritos nómadas. Já tínhamos desistido há muito de regressar a casa nos próximos tempos e queríamos agora abrir caminho até à China através das planícies do nordeste tibetano, e talvez encontrar trabalho lá. O término da guerra gorara os nossos planos de alcançar as linhas japonesas.
Assim, prometemos aos Põnpos partir no Outono se em contrapartida nos
dessem liberdade de movimentos. Aceitaram. De tempos a tempos o objectivo principal das nossas excursões era encontrar uma passagem que nos permitisse alcançar o planalto tibetano sem passar por Dzongka.
Durante estas expedições de Verão ficámos a conhecer a fauna da região.
Encontrámos uma grande variedade de animais, incluindo espécies de macacos que devem ter migrado para aqui através do profundo vale do rio Kosi. Houve um período em que os leopardos costumavam matar bois e iaques todas as noites e os aldeões tentavam caçá-los com armadilhas. Eu costumava trazer no bolso uma caixa de rapé cheia de pimenta vermelha como precaução contra os ursos, que, como já referi, só são perigosos de dia, altura em que atacam o homem. Muitos dos lenha-dores tinham profundas cicatrizes no rosto, resultantes de encontros com ursos, e um deles tinha perdido a vista devido a uma patada de urso. A noite era possível afugentar estes animais com uma tocha.
Junto ao bosque, uma vez encontrei pegadas na neve recém-caída que não
consegui identificar. Poderiam ter sido feitas por um homem. Pessoas com uma imaginação maior do que a minha talvez as atribuíssem ao Abominável Homem das Neves.
Eu fazia questão em manter-me em forma e não me faltavam ocupações
enérgicas; ajudava nos campos ou na debulha; derrubava árvores ou cortava tochas de madeira de pinho resinenta. A resistência física dos tibetanos deve—se ao clima tonificante e ao trabalho pesado.
São também aficcionados dos desportos competitivos. Todos os anos se
realiza um encontro oficial de atletas em Kyirong, que se prolonga por vários dias. Os principais eventos são as corridas a cavalo, tiro ao arco, lançamento em altura e distância, corridas a pé e salto em altura e comprimento. Existe também um torneio para os homens mais fortes, que têm que levantar e carregar enormes pedras a uma certa distância.
Eu contribuí para o gáudio do público participando em algumas provas e
quase ganhei a corrida a pé; depois de uma partida tumultuosa, liderei uma grande parte do percurso, mas eu não estava a par dos métodos locais. No último e mais íngreme trecho da pista um dos concorrentes agarrou-me pelos fundos das calças. Fiquei tão surpreendido que parei completamente para olhar para trás. Era disso que o malandro estava à espera. Ultrapassou-me e cruzou a linha da meta em primeiro lugar. Eu não estava preparado para este tipo de situação e, por entre a gargalhada geral, recebi a medalha destinada ao segundo lugar.
A vida em Kyirong era bastante variada. No Verão, todos os dias passavam caravanas. Depois da safra do arroz no Nepal, homens e mulheres traziam arroz em cestos e trocavam-no por sal, uma das mais importantes exportações do Tibete, trazido dos lagos estanques em Changthang.
O transporte entre Kyirong e o Nepal é efectuado por 1 coolies, uma vez
que a estrada atravessa ravinas estreitas e é frequentemente talhada em degraus. A maioria dos carregadores são mulheres do Nepal que usam vestidos baratos e que por debaixo das suas saias curtas exibem as suas pernas vigorosas e musculosas. Testemunhámos um drama curioso quando os nepaleses vieram buscar mel. O governo do Tibete proibira oficialmente os tibetanos de extraírem mel porque a sua religião não lhes permite privarem os animais da sua alimentação. No entanto, tal como noutros lugares, as pessoas gostam de contornar a lei, e assim os tibetanos, incluindo os Põnpos, permitem aos nepaleses ficarem com o mel que colheram para depois o comprar de volta.
A recolha do mel é uma aventura arriscada pois as abelhas escondem os
favos sob rochas salientes em despenhadeiros profundos. Os homens penduram longas escadas de bambu e descem setenta ou oitenta metros, balançando livremente sobre o abismo. Abaixo deles corre o rio Kosi e se a corda que segura a escada rebentar, isso significa morte certa. Usam bolas de fumo para manterem as abelhas zangadas à distância enquanto recolhem os favos de mel, que são içados dentro de cestos por uma segunda corda. Para o sucesso desta operação é essencial uma coordenação perfeita e bem ensaiada pois os gritos ou assobios perdem-se entre o bramido do rio em baixo. Nesta ocasião, onze homens trabalharam durante uma semana na ravina, e o preço a que venderam o mel não tinha qualquer relação com os riscos que correram. Infelizmente não tinha uma câmara de filmar para registar esta cena dramática.
Quando as chuvas torrenciais de Verão terminaram, começámos a
explorar sistematicamente os extensos vales. Ficávamos fora vários dias, levando connosco mantimentos, material de desenho e bússola. Nestas ocasiões acampávamos nas pastagens altas junto dos pastores que, tal como nos Alpes, passam os meses de Verão transumando o seu gado pelos luxuriantes pastos da montanha. Havia centenas de vacas e fêmeas iaques a alimentarem-se dos troços verdes de pastagem no meio de um mundo de glaciares. Muitas vezes eu ajudava a fazer a manteiga e era um prazer receber um bloco de manteiga fresca e dourada em troca dos meus esforços.
Junto a todas as cabanas habitadas encontram-se cães agressivos e
ferozes. Na maior parte das vezes ficam acorrentados e à noite protegem o gado dos leopardos, lobos e cães selvagens. Estes cães de constituição muito robusta devem a sua enorme força à dieta de leite e carne de bezerro com que são alimentados. São realmente perigosos e eu tive vários encontros desagradáveis com eles. Numa ocasião, um destes cães soltou-se da corrente que o prendia quando eu me aproximava e tentou morder-me a garganta. Desviei-me do ataque e ele cravou os dentes no meu braço e não o largou até eu o ter neutralizado. As minhas roupas ficaram em farrapos mas o cão jazia inerte no chão. Liguei os meus ferimentos com o que restava da minha camisa, mas ainda hoje tenho feias cicatrizes no braço. As minhas feridas sararam rapidamente graças a prolongados banhos nas nascentes de água quente que nesta altura do ano são mais frequentadas por cobras do que por tibetanos. Mais tarde os pastores disseram-me que eu não tinha sido o único sofredor nesta batalha. O cão deitou-se no seu canto e durante uma semana recusou-se a comer.
Durante as nossas excursões encontrávamos montes de morangos
selvagens, mas os melhores nasciam em locais com muitas sanguessugas. Por meio de leituras, eu sabia que estas criaturas eram a praga de muitos vales dos Himalaias, e agora aprendia por experiência própria o quanto somos indefesos contra elas. Caem das árvores em cima de homens e animais e penetram por qualquer abertura na roupa, até pelos ilhós dos sapatos. Se uma pessoa as arranca, perde mais sangue do que se as deixar sugar o seu quinhão, caindo então por si próprias. Alguns dos vales estão a tal ponto infestados de sanguessugas que é simplesmente impossível protegermo-nos delas. A melhor maneira de as manter afastadas é usar meias e calças banhadas em sal.
As nossas excursões deram-nos muitas oportunidades de esboçar e fazer
mapas, mas não encontrámos uma passagem adequada para a nossa fuga. Sem cordas e outros mecanismos de auxílio não tínhamos esperança de conseguir atravessar as encostas escarpadas, pois iríamos estar pesadamente carregados. E nenhum de nós estava entusiasmado com a ideia de regressar pela estrada de Dzongka que já conhecíamos. Enviámos uma petição ao Nepal para saber se seríamos ou não entregues aos ingleses caso fôssemos para lá, mas não obtivemos resposta. Tínhamos ainda dois meses para fugir antes de sermos obrigados a deixar Kyirong, e ocupávamos os nossos dias com preparativos para a viagem. De forma a aumentar o meu capital, empres-tei-o a um mercador à taxa de juro habitual de 33%. Mais tarde vim a lamentar esta decisão, pois o meu devedor atrasou o pagamento e isto quase impediu a nossa partida. O nosso contacto com os pacíficos e industriosos camponeses tinha-se tornado cada vez mais íntimo. Eles não avaliavam o seu trabalho à hora, mas usavam cada minuto de luz do dia. Como havia falta de mão-de-obra nas regiões rurais, a fome e a pobreza eram desconhecidas. Os inúmeros monges, que não tinham qualquer trabalho manual e se ocupavam com as questões espirituais, eram sustentados pela comunidade. Os lavradores são abastados e possuem vestuário asseado para toda a família usar em dias de festa. As mulheres costuram a sua própria roupa em casa.
Não existe polícia, na nossa acepção da palavra. Os malfeitores são
condenados publicamente. As penas são bastante drásticas mas parecem adequar-se à mentalidade da população. Contaram-me a história de um homem que tinha roubado uma lamparina de ouro de um dos templos em Kyirong e que fora condenado com uma sentença que nós consideraríamos desumana: cortaram-lhe as mãos em público e em seguida foi enfiado e fechado dentro de um saco de pele de iaque molhado que, após ter secado, foi atirado a um precipício.
Nunca tínhamos visto castigos tão cruéis como este. Com o passar do
tempo, os tibetanos parecem ter-se tornado mais condescendentes. Lembro-me de testemunhar uma flagelação pública que não achei suficientemente severa. Os condenados eram um monge e uma freira que pertenciam à Igreja Budista reformada, que obriga ao celibato. A freira tinha coabitado com o monge e gerara uma criança que logo matou ao nascimento. Ambos foram denunciados e postos no pelourinho. A sua culpa foi declarada publicamente e foram condenados a cem chicotadas cada um. Durante o açoitamento, os habitantes suplicavam às autoridades para terem piedade e ofereciam-lhes dinheiro. Isto resultou numa redução da pena e entre a multidão de observadores ouviam-se soluços e suspiros de alívio. O monge e a freira foram expulsos do distrito e destituídos da sua condição religiosa. A simpatia demonstrada por toda a população foi quase inconcebível, segundo a nossa concepção. Os pecadores receberam inúmeras ofertas de dinheiro e provisões e partiram de Kyirong com sacos bem cheios para irem em peregrinação. O sector reformista, ao qual estas duas pessoas pertenciam, tem um papel dominante no Tibete, embora na nossa vizinhança existissem vários conventos que seguiam outras orientações, nos quais monges e freiras viviam maritalmente e cujas crianças permaneciam no templo. Trabalhavam nos seus campos mas nunca eram apontados para cargos públicos, reservados para os membros da «Igreja Amarela reformista.
A supremacia das ordens monásticas no Tibete é algo de único e pode
muito bem ser comparada a uma severa ditadura. Os monges desconfiam de qualquer influência do mundo exterior que possa minar a sua autoridade. São suficientemente espertos para não acreditarem que o seu poder seja ilimitado, mas punem quem sugerir o contrário. Por essa razão alguns dos monges de Kyirong desaprovavam o nosso convívio com os aldeões. O nosso comportamento, que não era influenciado pelas suas superstições, deve ter dado que pensar aos tibetanos. Costumávamos ir à floresta de noite sem sermos molestados por demónios e escalávamos montanhas sem acender fogueiras de sacrifício; mesmo assim, nada nos acontecia. Em alguns lugares notávamos uma certa reserva que só podia ser atribuída à influência dos Lamas. Devem ter-nos atribuído poderes sobrenaturais, pois estavam convencidos de que as nossas excursões tinham um propósito oculto. Perguntavam-nos constantemente por que estávamos sempre em comunhão com pássaros e rios. Nenhum tibetano jamais dá um passo sem um objectivo concreto, e pensavam que quando vagueávamos pelas matas ou nos sentávamos junto a um riacho não o fazíamos por acaso.
5 A CAMINHO
Partida dramática de Kyirong — Através da cordilheira de
Chakhyungla — Para o Lago Pelgu — Monte Evereste, uma visão
inesquecível — Uma jornada cruel — Entre nómadas amigáveis.
Entretanto chegou o Outono e a nossa autorização de permanência chegava ao fim. Era duro ter que deixar este paraíso da natureza, mas não tínhamos conseguido obter um visto de residência, e não havia dúvida de que teríamos que partir. Por experiência anterior, estávamos conscientes da importância de uma suficiente reserva de mantimentos; arranjámos então um esconderijo a vinte quilómetros de distância, na estrada para Dzongka, onde depositámos tsampa, manteiga, carne seca, açúcar e alho. Tal como quando fugimos do campo, não tínhamos transporte e tivemos que carregar todos os mantimentos às costas.
Fortes nevões prenunciaram um Inverno antecipado e interferiram com os nossos cálculos. Já tínhamos decidido o peso máximo que podíamos carregar, e agora tínhamos que optar por levar um cobertor extra para cada. O Inverno era, obviamente, a época mais desfavorável para atravessar o alto planalto da Ásia Central, mas não podíamos permanecer em Kyirong. Por algum tempo considerámos a possibilidade de nos esconder algures no Nepal e passar aí o Inverno, mas desistimos pois a guarda fronteiriça deste país é conhecida pela sua eficiência.
Quando o nosso depósito ficou pronto, lançámo-nos à tarefa de
improvisar um candeeiro portátil. Os aldeões sabiam que estávamos a tramar qualquer coisa e espiavam—nos constantemente; por isso, para preparar o nosso candeeiro fomos um dia para as montanhas e aí manufacturámos uma espécie de lanterna com papel tibetano e a capa de um livro, dentro da qual colocámos uma caixa de cigarros cheia de manteiga para manter a chama acesa. Precisávamos de uma luz, por mais fraca que fosse, pois havíamos decidido viajar de noite enquanto estivéssemos em regiões habitadas. Agora estava à espera da devolução do dinheiro que tinha emprestado. Contava recebê-lo no dia seguinte e por isso ficámos prontos para entrar em acção.
Por razões tácticas acordámos que Aufschnaiter devia seguir primeiro sob
o pretexto de uma excursão. Saiu da vila a 6 de Novembro de 1946, em plena luz do dia e com a mochila às costas. Com ele ia o meu peludo cão tibetano — uma prenda de um notável de Lassa. Entretanto tentei recuperar o meu dinheiro mas não tive sorte. O meu devedor estava desconfiado e não queria pagar-me até Aufschnaiter regressar. Não admira que suspeitassem de um plano de fuga. Se realmente quiséssemos ir para o Nepal, não haveria necessidade de segredos. Os funcionários temiam represálias do governo caso conseguíssemos alcançar o interior do Tibete e por isso incitaram a população contra nós, que vivia em constante receio das autoridades locais e obedecia às suas ordens.
Foi organizada uma expedição para caçar Aufschnai-ter e eu fui detido e
interrogado. As minhas fúteis tentativas de persuadir as autoridades de que ele tinha ido numa das suas habituais excursões não surtiram efeito. No que respeita ao meu dinheiro, tive que esperar mais um dia e só recebi parte dele. Nunca seria pago na totalidade até ao regresso de Aufschnaiter.
Na noite de 8 de Novembro eu tinha resolvido ir embora — à força se
fosse preciso. Era seguido para toda a parte. Havia espiões dentro e fora da casa. Aguardei até às dez na esperança de que fossem para a cama, mas ninguém dava sinais disso. Foi então que fiz uma cena, fingindo estar muito zangado e argumentando que a conduta do pessoal da casa tinha tornado impossível a minha permanência ali e portanto iria dormir na floresta. Enquanto me observavam preparei a minha mochila. A minha anfitriã e a sua mãe apareceram a correr e quando se aperceberam do que se estava a passar, atiraram-se para o chão à minha frente e, em lágrimas, suplicaram-me para não ir. Disseram-me que se eu fosse seriam banidas da vila e perderiam a sua casa. Elas não mereciam isto da minha parte. A velha mãe entregou-me uma écbarpe branca em sinal de respeito e quando viu que os seus apelos não me demoviam ofereceu-me dinheiro. Fiquei com pena das duas mulheres e tentei convencê-las de que nada lhes aconteceria se eu me fosse embora. Infelizmente, os seus gritos tinham acordado a aldeia inteira e eu tinha que agir imediatamente.
Ainda posso ver os rostos mongóis besuntados de manteiga a olharem-me
fixamente pela janela com a luz das suas tochas a brilhar sobre eles. E agora tinham chegado os dois autarcas ofegantes com uma mensagem do Põnpo: se eu permanecesse até de manhã, poderia então ir para onde quisesse. Eu sabia que isto era um ardil para me manter ali e não respondi. Saíram então a correr para ir chamar os seus chefes. A minha anfitriã agarrou-se a mim a chorar e a dizer que eu fora sempre como uma das suas crianças e que não era justo causar-lhe tal sofrimento. Os meus nervos estavam em franja. Alguma coisa tinha que acontecer. Coloquei resolutamente a mochila às costas e caminhei para fora da casa. Fiquei estupefacto com a multidão que se juntou à porta sem interferir comigo. Diziam «Ele vai, ele vai, mas ninguém me tocou — devem ter percebido a minha determinação. Dois homens novos ainda gritaram para me deterem, mas não passaram disso. Passei livremente através da multidão que abria caminho à minha frente.
Mas fiquei contente quando saí do alcance das luzes das tochas e
desapareci na escuridão. Durante um bocado apressei-me ao longo da estrada para o Nepal, de forma a despistar possíveis perseguidores; fiz um largo desvio à volta da vila e pela manhã estava no nosso depósito. Aufs-chnaiter estava sentado na berma da estrada e o meu cão saltou para me cumprimentar. Caminhámos por um bocado à procura de um bom esconderijo para passar o dia.
Pela última vez em anos acampámos numa mata. Na noite seguinte
subimos o vale e pouco depois estávamos muito acima da orla da floresta. Conhecíamos bem os trilhos da montanha graças às nossas excursões e a nossa ténue lanterna fez o seu trabalho. Mesmo assim, ocasionalmente perdíamos o caminho. Tínhamos que ser muito cuidadosos ao atravessar as estreitas pontes de madeira sobre o rio, pois estavam cobertas com uma camada de gelo e tínhamos que nos equilibrar como trapezistas. Fizemos um bom progresso, embora cada um de nós carregasse um peso de quase 36 quilos. De dia encontrávamos sempre um recanto isolado para descansar, mas acampar com estas temperaturas não se podia considerar um prazer.
Um belo dia descobrimos que não podíamos prosseguir. A nossa frente
havia uma parede rochosa impossível de escalar. Um trilho conduzia até ela e desaparecia na parede. O que havíamos de fazer? Nunca conseguiríamos escalar a falésia com pesadas cargas às costas, por isso decidimos voltar e tentar passar a vau uma corrente que aqui se dividia em várias. O frio era intenso — quinze graus abaixo de zero. Quando tirámos os sapatos e meias para atravessar o rio, a terra e as pedras geladas colaram-se aos nossos pés e arrancá-las para nos calçarmos novamente foi uma operação dolorosa. E então deparámo-nos com mais rios. Devia haver uma saída pois as caravanas passavam por aqui, mas não conseguíamos encontrá-la. Decidimos passar a noite onde estávamos e no dia seguinte observaríamos como as caravanas lidavam com a situação. Pouco depois do amanhecer chegou uma caravana e parou em frente à parede rochosa; e então (mal podíamos acreditar no que víamos) os coolies carregadíssimos escalaram agilmente o trilho na rocha como se fossem alados, uns atrás dos outros — uma lição para nós, endurecidos montanhistas —, enquanto os iaques passavam a corrente a vau com os condutores em cima.
Decidimos tentar novamente. Depois de um dia que pareceu interminável,
ao anoitecer enfrentámos a difícil escalada. Tínhamos o luar para nos iluminar, que era muito mais útil que a nossa lanterna. Se não tivéssemos visto os coolies marinhar aquela parede teríamos desistido outra vez, mas lá conseguimos. Depois de mais duas noites de marcha já tínhamos contornado Dzongka e encontrávamo-nos numa região desconhecida. O nosso próximo objectivo era o rio Brah-maputra, que representava a maior incógnita no nosso itinerário. Como poderíamos atravessá-lo? Esperávamos que já estivesse congelado. Só tínhamos uma vaga noção da estrada que conduzia ao rio, mas tínhamos esperança de que não oferecesse obstáculos sérios. A melhor coisa era seguir em frente o mais rápido possível e evitar todos os lugares em que pudéssemos encontrar autoridades. Pouco depois de passar Dzongka acampámos numa gruta onde encontrámos centenas de ídolos de barro. O lugar devia ser uma ermida antiga. Na noite seguinte escalámos abruptamente, na esperança de ultrapassar a cordilheira de uma só vez. Mas tínhamos sobrestimado a nossa força: ofegantes e exaustos pelo ar rarefeito a uma altitude de 4800 metros, tivemos que parar num campo gelado. Estávamos a aproximar-nos novamente da bacia hidrográfica dos Himalaias. A paisagem que se vislumbrava do cume da cordilheira Chakhyungla era desanimadora; restava—nos a satisfação de pensar que éramos provavelmente os primeiros europeus a atravessá-la, mas estava muito frio para sentirmos prazer ou orgulho em qualquer coisa!
Nesta vastidão gelada e deserta arriscámo-nos a viajar de dia. Depois de
termos passado a noite a congelar no campo, fizemos um bom progresso e fomos recompensados na manhã seguinte com a magnífica visão do grande lago Pelgu, de um azul profundo, que se estendia abaixo de nós. O planalto onde estávamos era pontilhado por uma reluzente cadeia de glaciares; sentíamo-nos orgulhosos por saber os nomes dos dois picos, Gosainthan (8000 metros) e Lapchi Kang, até aí nunca conquistados, tal como a maioria dos picos dos Himalaias. Os nossos dedos estavam congelados mas pegámos nos cadernos de apontamentos e em poucos traços desenhámos os contornos destas montanhas. Aufschnaiter tirou as coordenadas dos picos mais importantes com uma velha bússola e apontou os números, que um dia podiam vir a ser úteis. Descemos através deste fantástico cenário de Inverno até à margem do lago onde encontrámos as ruínas de um abrigo, e mais uma vez tivemos que passar a noite na neve.
Na verdade estávamos surpreendidos com o facto de suportarmos tão bem
a altitude e com a velocidade a que nos deslocávamos, tendo em conta o peso da nossa bagagem. Mas o nosso pobre cão estava miserável. Estava praticamente morto de fome. A noite ajudava-nos a aquecer deitando-se aos nossos pés, e bem precisávamos, pois a temperatura devia rondar os vinte e dois graus negativos.
Como ficámos felizes por encontrar sinais de vida no dia seguinte! Um
rebanho de ovelhas aproximava-se lentamente na nossa direcção seguido por alguns pastores agasalhados com espessos capotes. Indicaram-nos a localização das habitações mais próximas e na mesma noite chegámos à vila de Trakchen, que ficava ligeiramente afastada da rota das caravanas. Já era mais do que tempo de encontrarmos seres humanos novamente, uma vez que os nossos mantimentos já tinham acabado. Mesmo que fôssemos presos...!
Esta pequena localidade seguramente merecia o nome de vila. Continha
cerca de quarenta casas e um templo construído numa encosta; era um lugar com melhor aspecto do que Gartok, que se erguia a uma altitude maior. De facto tínhamos descoberto o lugar habitado situado a maior altitude da Ásia e talvez do mundo inteiro.
Os nativos tomaram-nos por indianos e venderam-nos provisões
livremente. Fomos hospitaleiramente recebidos numa casa, e como apreciámos o luxo do calor depois de longas marchas na neve e no gelo! Descansámos aqui durante um dia e uma noite, comendo bem e alimentando o nosso cão. Evitámos encontrar as autoridades locais já que o Põnpo se fechara em casa e ignorara a nossa presença. Talvez quisesse evitar responsabilidades.
Tínhamos que comprar outra pele de ovelha pois as nossas roupas não
serviam para o Inverno tibetano. E depois de um longo e agradável regateio comprámos um iaque, o quarto na nossa linhagem de Armins, e não era diferente dos outros, excepto talvez por ser mais mandrião.
Daqui seguimos para a cordilheira de Yagula, sem encontrar ninguém no
caminho. Ao fim de três dias chegámos às terras cultivadas da grande vila de Menkhap Me. Mais uma vez apresentámo-nos como indianos e comprámos palha para o nosso iaque e tsampa para nós próprios. O povo aqui leva uma vida muito dura, pois os campos de cevada e lentilha estão cheios de pedras e exigem imenso trabalho para produzirem uma colheita fraca. Mas são pessoas animadas e amigáveis e à noite sentávamo-nos e bebíamos cerveja. Nas encostas à volta da vila existem pequenos templos que os aldeões mantêm em funcionamento, não obstante todas as dificuldades com que vivem, mercê da sua habitual religiosidade e espírito de sacrifício. Em toda a parte encontrámos ruínas de dimensões surpreendentes, testemunhos de melhores épocas que esta região tinha vivido. Não sabíamos precisar se a decadência tinha sido causada por guerras ou por uma mudança de clima.
Caminhávamos há já uma hora quando alcançámos a enorme planície de
Tingri. Por trás — e sustivemos a respiração — erguia-se a maior montanha do mundo, o Monte Everest. Tomados de admiração, entusiasmo e fascínio, olhámos para o imponente pico e pensámos nas inúmeras expedições em que homens corajosos tinham perdido a vida tentando em vão conquistar o cume. Fizemos alguns esboços da montanha, que seguramente nunca tinha sido contemplada por nenhum europeu do lugar onde estávamos.
Era difícil desviar a atenção deste maravilhoso espectáculo mas tínhamos
que passar ao nosso próximo objectivo, a cordilheira de Kora, com 5500 metros, que ficava a norte. Antes de começar a escalada, passámos a noite numa pequena aldeia chamada Khargyu no sopé da cordilheira. Desta vez não podíamos passar por indianos tão facilmente porque os aldeões já tinham visto muitos europeus. Próximo dali situava-se a vila de Tingri, onde todas as expedições inglesas ao Everest costumavam contratar os seus carregadores. Os habitantes pareciam avaliar-nos e primeiro perguntaram-nos se tínhamos visitado o Põnpo em Sutso. Percebemos então que a casa grande que vimos nesse lugar devia ser a residência oficial. Tínhamos reparado bem na casa, pois situava-se numa colina donde se podia avistar todo o distrito. Felizmente passámos sem ser observados.
Agora tínhamos que ser cautelosos. Procurámos não aprofundar o assunto
mas repetimos a nossa história da peregrinação. Os aldeões pareceram ficar satisfeitos e indi-caram-nos a estrada que deveríamos seguir, que segundo parecia era uma boa estrada.
Ao fim da tarde atingimos o topo da cordilheira e em breve começaríamos
a descer novamente. Por ora termináramos as desgastantes escaladas e estávamos contentes com isso. No entanto, o nosso iaque tinha outra opinião, pois fugiu para trás e correu pela encosta acima em direcção à cordilheira. Conseguimos apanhá-lo após inúmeras dificuldades, mas não conseguíamos movê-lo e fomos obrigados a acampar num local inóspito onde não podíamos sequer acender uma fogueira — e por isso jantámos tsam-pa seca e carne crua. A nossa única consolação era a visão do Monte Everest sob a luz do sol poente.
No dia seguinte, o Armin começou outra vez a «improvisar. Atámos-lhe
uma corda aos chifres e arrastámo-lo ao longo do trilho mas ele continuou a rebelar-se. Estávamos fartos do Armin IV e decidimos trocá-lo por outro animal na primeira oportunidade.
A oportunidade surgiu pouco depois. Na aldeia seguinte fiz aparentemente
um óptimo negócio e troquei-o por um pónei de aspecto duvidoso. Ficámos radiantes e seguimos o nosso caminho na melhor disposição.
No mesmo dia chegámos a um extenso vale atravessado por uma corrente
de água esverdeada com pequenos blocos de gelo à superfície. Era o Tsangpo (Brahmaputra). Isso pôs fim ao nosso sonho de encontrar o rio congelado e atravessá-lo por cima do gelo. Mas não perdemos as esperanças. Na margem oposta avistámos templos e algumas casas e deduzimos que deveria haver alguma forma de atravessar o rio. Pensamos numa jangada e enquanto a procurávamos encontrei os pilares de uma ponte de corda, que era óptima para nós mas não servia para o nosso cavalo. Os animais têm que atravessar a nado, embora por vezes os coolies consigam carregar às costas os seus burros através das instáveis pontes de corda. Tentámos empurrar o nosso cavalo para a água mas ele simplesmente não se movia. Por esta altura já estávamos bastante acostumados a ter problemas com animais; por isso, desgostoso, tomei a decisão de regressar à aldeia e tentar efectuar outra troca. Custou-me dinheiro e muita discussão reaver o Armin mas consegui-o. Ele não demonstrou nem alegria nem tristeza por voltar a ver-me.
Já era escuro quando cheguei à ponte. Era muito tarde para tentar
atravessá-lo, por isso atei-o a uma estaca próxima. Aufschnaiter entretanto tinha-nos arranjado acomodação e passámos uma noite agradável e aquecida debaixo de um tecto. Os aldeões estavam acostumados a mercadores viajantes e não nos prestaram muita atenção.
Na manhã seguinte, perdoei ao Armin todo o seu mau comportamento.
Quando conseguimos persuadi-lo a entrar na água, provou ser um excelente nadador. Frequentemente submergia sob as águas revoltas e foi arrastado pela corrente, mas isso não o perturbou. Continuou a nadar energicamente e quando chegámos à outra margem admirámos a forma graciosa como trepou a íngreme margem e sacudiu a água do seu longo pêlo. Passámos o resto do dia na aldeia Chung Riwoche — um lugar muito interessante com um famoso convento que continha vários templos com inscrições chinesas nas portas, erguendo-se directamente das falésias rochosas que flanqueavam o rio. Uma das coisas mais extraordinárias neste convento era um gigantesco Chòrten (uma espécie de túmulo), com aproximadamente vinte metros de altura, que atestava a santidade do local. A sua volta estavam agrupados inúmeros moinhos de oração — contei cerca de oitocentos — que giravam continuamente com os seus tambores contendo tiras de papel onde estão inscritas orações a suplicar a bênção dos deuses. É importante que estejam continuamente em movimento e até havia um monge que se atarefava a lubrificar os eixos. Nenhuma pessoa devota passava por estes moinhos sem os fazer girar. Velhinhos e mulheres sentam-se amiúde junto a estes gigantescos tambores durante um dia inteiro e fazem-nos girar com devoção, rezando aos céus para que lhes concedam a si e aos seus a reencarnação num estado mais elevado. Outros levam consigo pequenos moinhos de oração manuais quando vão em peregrinação. Estes moinhos de oração e a mentalidade infantil que expressam são características do Tibete, tão típicos como os montículos de pedras e as bandeiras de oração que tínhamos encontrado em todos os trilhos das montanhas.
Como estávamos muito satisfeitos com as nossas acomodações e
fascinados por todas as coisas interessantes que víamos, decidimos ficar mais uma noite. Valeu a pena pois tivemos uma visita muito interessante, um tibetano que tinha vivido vinte e dois anos numa missão católica na índia e que agora tinha regressado, com saudades do Tibete. Também tinha percorrido sozinho as cordilheiras sob a neve de Inverno, mas quando pôde juntou-se às caravanas. Mostrou-nos jornais ingleses ilustrados nos quais vimos pela primeira vez fotografias de cidades bombardeadas e lemos a respeito do fim da guerra. Foram momentos esmagadores e ansiávamos por saber mais. Apesar destas notícias pouco animadoras, estávamos contentes por encontrar alguém que nos trazia uma lufada de ar do mundo exterior — o nosso mundo. O que ele nos disse reforçou a nossa decisão de continuar a viagem para a Ásia Central. Teríamos ficado muito felizes por o levar connosco como companheiro de viagem, mas não lhe podíamos oferecer protecção nem conforto. Comprámos-lhe alguns lápis e papel, de forma a podermos continuar a escrever os nossos diários; despedimo-nos e prosseguimos viagem sozinhos.
A nossa rota afastava-nos agora do Brahmaputra. Seguimos esse percurso
até outra cordilheira e em dois dias chegámos a Sangsang Gevu, e assim voltámos mais uma vez para a rota das caravanas de Gartok para Lassa, da qual nos tínhamos desviado há um ano atrás para ir para Kyirong. O representante do Põnpo em Sangsang fez-nos muitas perguntas mas tratou-nos bem. Sentimos que o cavalheirismo com que as autoridades em Tradiin nos tinham tratado se repercutira por toda a região até Sangsang, e tinha servido de exemplo para outras autoridades. Felizmente, este funcionário não fazia ideia de que a nossa presença aqui era contrária às instruções.
Foi uma bênção ele não ter acrescentado dificuldades à nossa viagem pois
já tínhamos preocupações de sobra. De uma forma ou de outra tínhamos que tomar uma decisão. Só nos restavam 80 rupias e uma moeda de ouro. O resto tinha sido gasto em mantimentos e na compra de um quinto iaque para substituir o nosso último Armin. Descobrimos que os preços eram mais altos à medida que nos aproximávamos das vilas e era claramente impossível pensarmos em chegar à fronteira chinesa com o dinheiro que tínhamos. Ainda faltavam milhares de quilómetros para chegarmos à China. Mas o nosso dinheiro era suficiente para chegarmos a Lassa. Sentíamos de novo a atracção pela «Cidade Proibida. E a possibilidade de virmos a conhecer o objectivo dos nossos sonhos estava agora quase ao nosso alcance. De qualquer maneira, não conseguíamos controlar o nosso desejo de ir lá e este novo objectivo parecia-nos digno de qualquer sacrifício.
Enquanto estávamos no campo de concentração tínhamos lido avidamente
todos os livros que conseguíamos arranjar sobre Lassa. Havia poucos e todos tinham sido escritos por ingleses. Sabíamos que em 1904 uma expedição punitiva inglesa formada por um pequeno batalhão tinha marchado até à capital e que nos últimos vinte anos vários europeus a tinham visitado. Desde então o mundo só tem tido um conhecimento superficial de Lassa; e para um explorador o objectivo mais atractivo é a casa do Dalai Lama. E nós, estando tão próximos, não deveríamos tentar chegar lá? Por que outra razão tínhamos ultrapassado toda a espécie de dificuldades com habilidade e estratagemas, esforçando-nos até ao limite da nossa resistência e aprendendo a falar a língua deste país? Quanto mais pensávamos nisto mais forte era a nossa determinação, e «A caminho de Lassa passou a ser o nosso lema. A nossa experiência tinha-nos provado que era muito mais fácil lidar com funcionários superiores do que com subordinados. Achávamos que uma vez chegados a Lassa não teríamos problemas. Eu pensava sempre num exemplo brilhante que deveríamos seguir, o do padre Johann Griiber, que há trezentos anos atrás se escondera numa caravana para entrar em Lassa e fora hospitaleiramente recebido.
Por isso não havia dúvidas quanto à nossa meta: só não sabíamos como
chegar lá. Sentíamo-nos atraídos pela muito frequentada estrada principal com os seus albergues. Se seguíssemos esta estrada dentro de poucas semanas estaríamos em Lassa. Mas arriscávamo-nos a ser descobertos e detidos. Mesmo contornando Shigatse, a segunda maior cidade do Tibete, encontraríamos vários outros centros administrativos que poderiam reter-nos. O risco que este percurso acarretava era muito grande. Por isso decidimos viajar através das planícies a nordeste, a que chamam Changthang, um distrito unicamente habitado por nómadas com quem podíamos associar-nos em segurança. Daí poderíamos aproximar-nos de Lassa por noroeste. Ninguém conta com estrangeiros vindos dessa direcção e seria mais fácil entrar discretamente na cidade. Sven Hedin tivera um plano semelhante há quarenta anos atrás, mas falhou devido à obstinação de algumas autoridades locais. A sua tentativa fracassada de entrar em Lassa deve ter sido uma grande frustração para ele, mas permitiu-lhe explorar regiões completamente desconhecidas até então. Não existiam mapas nem descrições da rota que pretendíamos seguir: tínhamos que avançar em direcção ao desconhecido, mantendo sempre o rumo de noroeste. Provavelmente encontraríamos nómadas pelo caminho e pedir-lhes-íamos informações sobre distâncias e direcções.
Enquanto permanecemos em Sangsang não contámos os nossos planos a
ninguém mas comentámos que queríamos ir para os depósitos de sal no norte. As pessoas ficavam horrorizadas com a ideia e tentaram dissuadir— nos a todo o custo, pois a região era tão inóspita que só um lunático iria lá. Mas o nosso estratagema teve o efeito desejado de eliminar qualquer suspeita de que poderíamos estar a caminho de Lassa. Na realidade, o nosso plano envolvia perigos consideráveis; e as tempestades geladas que encontrámos em Sangsang davam-nos uma ideia do que podíamos esperar.
Fosse como fosse, a 2 de Dezembro de 1945 pusemo-nos a caminho.
Durante a nossa estadia em Sangsang tínhamos feito amizade com alguns Sherpas, tibetanos que vivem no Nepal com boa reputação como guias e carregadores nos Himalaias. Têm a alcunha de «tigres dos Hima-imaias. Deram-nos conselhos preciosos sobre os preparativos e ajudaram-nos a encontrar um novo iaque, o que foi um serviço inestimável, já que até agora tínhamos sido sempre vigarizados quando comprávamos uma destas criaturas. Reparámos com satisfação que o nosso novo iaque era uma besta bem comportada, um poderoso macho preto com algumas malhas brancas e um longo pêlo que quase varria o chão. Quando era novo tinham-lhe removido os chifres e a operação parecia ter melhorado o seu temperamento sem lhe diminuir a força. Nas narinas tinha a habitual argola. Com um pouco de encorajamento conseguia-se fazê-lo exceder a sua velocidade média de três quilómetros por hora. O pobre diabo tinha muito peso para carregar pois a nossa regra era ter sempre alimentação para oito dias.
O nosso primeiro dia fora de Sangsang passou sem dificuldades. O
caminho passava por um vale ligeiramente inclinado e, mesmo quando o sol se escondia e o frio cortante começou a penetrar nas nossas roupas, avistámos, como se a tivéssemos encomendado, uma tenda preta nómada, montada num abrigo formado por uma parede de rocha semicircular a que chamam Ibega. Estes abrigos en-contram-se espalhados por todo o Tibete pois os nómadas deslocam-se constantemente para novas pastagens e constroem pequenos muros de pedra à volta das suas tendas. Os lhegas também ajudam a proteger os seus animais do frio e dos ataques dos lobos. Quando nos aproximámos da tenda, alguns cães vieram a ladrar ao nosso encontro, atraindo um nómada para fora da tenda. Não se mostrou muito prestável quando lhe pedimos abrigo por uma noite e recusou abertamente deixar-nos entrar na tenda; mas depois trouxe-nos algum esterco seco de iaque com o qual podíamos fazer uma fogueira. Tivemos que acampar ao ar livre, mas conseguimos ficar razoavelmente confortáveis; apanhámos ramos de junípero para manter uma confortável fogueira acesa durante toda a noite.
Mesmo assim não consegui dormir. Tinha uma sensação na boca do
estômago que me fazia lembrar o que tinha sentido antes de enfrentar a subida da parede norte do Eiger. Ainda bem que não sabíamos o que nos esperava. Se tivéssemos uma vaga ideia teríamos seguramente voltado para trás. Estávamos a meter-nos numa terra incógnita apenas assinalada por espaços brancos no mapa, desenhados sob a lupa da nossa ambição de exploradores.
No dia seguinte chegámos ao topo da cordilheira e ficámos estupefactos
ao descobrir que não havia descida do outro lado e que estávamos simplesmente num planalto elevado. A vista sobre a interminável planície era pouco animadora. Parecia que estávamos perante o infinito e os espaços imensos demorariam com certeza meses a atravessar. Tanto quanto podíamos vislumbrar, não havia sinais de vida e um vento gelado soprava sobre a neve.
Passámos a noite que se seguiu em lhegas abandonados e encontrámos
esterco de iaque suficiente para fazer uma fogueira, pois no Verão viviam aqui nómadas e passavam caravanas pela região. Nessa altura as planícies de neve deviam parecer pastagens alpinas — e este pensamento recordou-nos que não tínhamos escolhido a melhor altura do ano para fazer esta viagem.
Tivemos então um dia de sorte. Encontrámos uma tenda e fomos
calorosamente recebidos por um velho casal e pelo seu filho, que estavam acampados ali há vários meses. Tinham passado um mau bocado pois, desde os fortes nevões, oito semanas atrás, mal tinham saído da tenda. Muitos dos seus iaques e ovelhas tinha morrido pois a neve intensa tinha enterrado os pastos. Os restantes mantinham-se apaticamente junto à tenda ou pontapeavam a neve na esperança de encontrar alguma forragem. Estes nevões intensos são raros na Ásia Central e não fazem parte dos riscos normais do quotidiano.
Os nossos anfitriões pareciam contentes por voltarem a ver rostos
humanos. Era a primeira vez que nos convidavam a entrar numa tenda nómada e a pernoitar. Tomaram-nos por indianos e não levantámos suspeitas. Havia muita carne uma vez que muitos animais tinham sido abatidos. Comprámos um pernil de iaque por um sang e cortámos imediatamente um enorme bocado para preparar uma refeição. Os nossos anfitriões ficaram horrorizados ao saber da rota que nos propúnhamos seguir e aconselharam-nos vivamente a desistir. Contudo, no decorrer da conversa afirmaram que iríamos encontrar outras tendas nómadas no nosso percurso, e esta informação fortaleceu a nossa determinação de continuar.
No dia seguinte, pouco depois de retomarmos a marcha caímos dentro de
uma depressão no terreno onde o vento tinha acumulado neve. Caminhar sem calçado apropriado em breve se tornou numa tortura. A crosta superficial da neve era traiçoeira e nós e o nosso iaque frequentemente nos afundávamos. Em alguns lugares havia riachos sob a neve e quando nos apercebíamos, estávamos a caminhar dentro de água gelada que podíamos sentir mas não víamos, e os nossos sapatos e meias em breve estavam congelados. Tivemos um dia exaustivo e percorremos apenas alguns quilómetros. Ficámos deveras contentes ao avistar outra tenda nómada ao fim do dia. Desta vez os seus moradores não nos convidaram a entrar, mas não foram hostis e montaram uma pequena barraca de pele de iaque para nós. Fiquei feliz por finalmente poder tirar os sapatos dos meus doloridos pés. Alguns dedos mostravam já sinais de queimaduras do gelo mas esfreguei-os durante bastante tempo e por fim recuperaram a circulação.
As dificuldades deste dia de marcha e as queimaduras tinham-nos deixado
tensos, e Aufschnaiter e eu tivemos uma conversa longa e sincera. Ainda estávamos a tempo de retroceder, e pensámos seriamente nessa possibilidade. Estávamos preocupados com o nosso iaque, que já não se alimentava em condições há alguns dias, e podíamos contar pelos dedos quantos mais iria sobreviver. Mas não podíamos prosseguir sem ele. Durante algum tempo discutimos prós e contras e concordámos continuar por mais um dia e só então decidiríamos, conforme as condições da neve.
No dia seguinte, passámos por um terreno ondulante até chegarmos a uma
cordilheira. Ao atravessá-la, qual não foi o nosso espanto ao verificar que não havia mais neve! A Providência tinha decidido por nós.
Em breve alcançámos uma tenda nómada onde fomos bem recebidos e
nos permitiram pastar o nosso iaque até se dar por satisfeito. Desta vez o nosso anfitrião era uma mulher. Preparou-nos canecas de chá tibetano e pela primeira vez bebi esta mistela com alívio. O calor percorreu os nossos corpos gelados e devolveu-nos à vida. Só então reparámos na pitoresca figura da nossa anfitriã: sobre a pele nua usava um capote de pele de ovelha que chegava ao chão; na sua longa trança preta usava conchas, moedas de prata e vários ornamentos baratos importados do estrangeiro. Disse-nos que os seus dois maridos tinham ido recolher os animais, 1500 ovelhas e uma enorme quantidade de iaques. Ficámos atónitos por encontrar a prática da poliandria entre os nómadas. Só quando estávamos em Lassa ficámos a conhecer todas as complicadas razões que conduziram à existência simultânea de poligamia e poliandria no Tibete.
Quando os dois homens chegaram a casa, cumprimen-taram-nos tão
calorosamente como a sua mulher tinha feito. Prepararam um abundante jantar e até nos deram leite azedo para beber, um prazer do qual já não desfrutávamos desde o tempo em que costumávamos ajudar os homens em Kyirong a fazer manteiga. Durante um bom bocado sentámo-nos confortavelmente em volta da fogueira e sentimo-nos recompensados pelas agruras da estrada. Rimos e gracejámos muito; e como é habitual quando a companhia consiste em vários homens e uma única mulher, jovem e bonita, a nossa anfitriã teve a sua parte de provocação.
Acordámos frescos e descansados no dia seguinte, contentes por ter
deixado o terreno inóspito e gelado para trás. Aqui e ali detectávamos sinais de vida. Rebanhos de cabras selvagens apareciam nas encostas e às vezes aproximavam-se tanto que uma pistola teria garantido uma costeleta para o jantar. Infelizmente não tínhamos nenhuma.
Foi uma agradável surpresa encontrar mais nómadas amigáveis ao
anoitecer, que chamaram os seus cães quando nos aproximámos; decidimos descansar um dia entre eles e dar ao nosso iaque a oportunidade de se alimentar nas suas férteis pastagens.
No Inverno os homens que levam uma vida nómada não têm muito que
fazer, ocupando-se com várias tarefas domésticas e caçando com as suas antiquadas espingardas de carregar pela boca. As mulheres apanham esterco de iaque e geralmente carregam os seus bebés consigo enquanto trabalham. Ao anoitecer recolhem os rebanhos e ordenham as vacas — embora no Inverno tenham pouco leite. Como se pode imaginar, os nómadas têm métodos muito simples de cozinhar. No Inverno comem quase exclusivamente carne com tanta gordura quanto possível. Também comem vários tipos de sopa — a tsampa, a dieta típica dos distritos rurais, é aqui uma raridade.
Todo o modo de vida dos nómadas é organizado de forma a aproveitar ao
máximo as escassas ajudas que a natureza fornece. A noite dormem sobre peles estendidas no chão e, despindo as mangas, usam os capotes de pele de ovelha como cobertores. Antes de se levantarem de manhã atiçam as brasas da fogueira com um fole e a primeira coisa que fazem é chá. A fogueira é o coração do lar e nunca pode extinguir-se. Tal como nas casas dos aldeãos, há um altar em cada tenda, geralmente uma pequena cómoda sobre a qual colocam um amuleto ou uma pequena imagem de Buda. Existe sempre um retrato do Dalai Lama. Uma pequena lamparina de manteiga arde no altar, e no Inverno a chama é quase invisível devido ao frio e à falta de oxigénio.
O maior acontecimento do ano na vida dos nómadas é o mercado anual de
Gyanyima, para onde conduzem os seus rebanhos e trocam algumas das ovelhas por sementes. É aí que compram artigos domésticos, agulhas, potes e panelas de alumínio e bijuterias coloridas para as suas mulheres.
Lamentávamos ter de partir novamente depois de termos saboreado a vida
doméstica. Gostaríamos de ter podido retribuir a hospitalidade desta gente. Oferecemo-lhes pequenos presentes de fio colorido e paprica — era tudo o que tínhamos.
Depois disto, caminhámos durante algum tempo a uma média de quinze a
trinta quilómetros por dia, dependendo do tempo e encontrarmos ou não tendas no nosso caminho. Acampávamos frequentemente ao ar livre e nessas ocasiões era necessária toda a nossa energia para apanhar esterco de iaque e encontrar água, e até falar era um desperdício de força. Sofríamos muito com as nossas mãos, que estavam sempre congeladas pois não tínhamos luvas e em vez disso usávamos um par de meias. Uma vez por dia cozinhávamos carne e sorvíamos o molho directamente da panela a ferver. Podia-se fazer isso aqui sem medo de escaldar a linguaja que o ponto de fervura era muito baixo. Só cozinhávamos à noite, e aquecíamos sempre qualquer sobra antes de continuarmos de manhã. Prosseguíamos todo o dia sem parar.
Poderia escrever um capítulo sobre os tormentos que passávamos à noite,
quando nos deitávamos encostados um ao outro e não conseguíamos dormir por causa do frio e dos piolhos que nos atormentavam. O leitor pode imaginar o que sofremos.
A 13 de Dezembro chegámos a Labrang Trova, uma «localidade com uma
única casa cuja família só a usava para acampar, vivendo numa tenda que tinham montado ali perto. Quando lhes perguntámos porquê, responderam que a tenda era muito mais quente. Percebemos pela conversa que tínhamos ido parar à casa de uma autoridade. O Pónpo não se encontrava lá, mas o seu irmão estava a representá-lo. Começou a fazer-nos perguntas, mas em breve pareceu contentar-se com a nossa história de sermos peregrinos. Pela primeira vez admitimos que queríamos ir para Lassa, pois neste local estávamos a uma distância segura da rota das caravanas. O nosso homem sacudiu a cabeça incrédulo e tentou explicar-nos que o caminho melhor e mais rápido para Lassa seria por Shigatse. Eu tinha a minha resposta pronta. Tínhamos escolhido o caminho mais difícil para que a nossa peregrinação tivesse maior mérito. Ele ficou impressionado com esta explicação e com todo o prazer deu-nos bons conselhos.
Disse-nos que tínhamos duas alternativas. A primeira era seguir uma rota
muito difícil que nos levaria através de muitas cordilheiras e trechos de regiões desertas. A segunda era mais fácil mas implicava atravessar a região Khampa pelo meio. Lá estava outra vez o nome «Khampa a ser pronunciado num tom misterioso, que já tínhamos ouvido de tantos nómadas. Khampa devia significar um habitante da província oriental do Tibete, que se chama Kham. Mas o nome era sempre mencionado num tom de receio e aviso. Por fim compreendemos que a palavra era sinónimo de «ladrão.
Infelizmente não demos muita importância ao aviso e escolhemos a rota
mais fácil.
Passámos duas noites com a família do Põnpo — infelizmente não como
convidados na sua tenda, uma vez que os orgulhosos tibetanos não nos consideraram a nós, pobres «indianos, dignos de tal honra. Mas o irmão do Põnpo era um homem impressionante, muito compenetrado e de poucas palavras, mas quando dizia alguma coisa fazia sentido. Partilhava a mulher do seu irmão e vivia dos seus rebanhos. A família parecia ser abastada e vivia numa tenda consideravelmente maior do que as da maioria dos nómadas. Tivemos oportunidade de reabastecer as nossas provisões e o dinheiro das compras foi aceite normalmente.
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