Sete Anos no Tibet
6 a Pior Jornada
Um encontro com ladrões Khampas — Fome e frio: e um inesperado presente de Natal — O salvo-conduto — Bandeiras de oração no «Caminho dos Peregrinos — Um condenado como companheiro de estadia — Aproximamo-nos de Lassa.
Já estávamos a caminho há algum tempo quando deparámos com um
homem vestindo roupas que nos chamaram a atenção por serem diferentes do habitual. Falava um dialecto diferente do dos nómadas e perguntou-nos de onde vínhamos e para onde íamos. Contámos-lhe a nossa história da peregrinação e seguiu o seu caminho sem nos molestar. Para nós era claro que tínhamos encontrado o nosso primeiro Khampa.
Algumas horas depois avistámos à distância dois homens montados em
pequenos póneis, usando o mesmo tipo de roupa. Começámos a sentir-nos pouco à vontade e prosseguimos sem esperar por eles. Muito depois de escurecer passámos por uma tenda e tivemos sorte, pois era habitada por uma simpática família nómada, que hospitaleiramente nos convidou a entrar e arranjou uma fogueira só para nós.
A noite conversámos sobre os salteadores. Ao que parece, eram uma
praga habitual. O nosso anfitrião já vivia neste distrito há tempo suficiente para fazer um épico sobre eles. Mostrou-nos orgulhosamente um rifle Mannli-cher pelo qual tinha pago uma fortuna a um Khampa — quinhentas ovelhas, nada menos! Mas os bandos de ladrões na vizinhança consideraram este pagamento uma espécie de tributo e deixaram-no em paz desde então.
Contou-nos algumas coisas sobre a vida dos assaltantes. Viviam em
grupos de três ou quatro tendas que servem como quartel-general das suas campanhas, que conduziam da seguinte maneira: fortemente armados com espingardas e espadas, invadem a tenda de um nómada e insistem em ser tratados hospitaleiramente com toda a abundância e tudo que houver. O nómada aterrorizado dá-lhes tudo o que tem. Os Khampas enchem a barriga e os bolsos e levam algum gado com eles, desaparecendo na vastidão da planície. Cada dia repetem a operação noutra tenda até toda a região ter sido depenada. Então mudam o seu quartel-general e começam novamente noutro lugar. Os nómadas que não possuem armas resignam-se com o seu destino, e o governo é impotente para os proteger nestas regiões remotas. Contudo, se numa escaramuça ocasional uma autoridade distrital levar a melhor a estes salteadores, não tem nada a perder com isso pois tem direito a ficar com toda a pilhagem. Uma punição selvagem é aplicada aos malfeitores, normalmente decepando-lhes os braços. Mas isto não cura os Khampas da sua delinquência. Contavam-se histórias da crueldade com que matavam as suas vítimas, chegando ao ponto de assassinar peregrinos, monges e freiras. Uma conversa perturbadora para nós! O que não daríamos para poder comprar aMann-licher do nosso anfitrião! Mas não tínhamos dinheiro e nem sequer a mais primitiva arma. Os varões de tenda que levávamos nem sequer impressionavam os cães-pastores.
Na manhã seguinte prosseguimos o nosso caminho com muitas
apreensões que aumentaram quando vimos um homem armado que parecia acompanhar-nos pela encosta. De qualquer maneira continuámos em frente e o homem desapareceu. Ao anoitecer encontrámos mais tendas — primeiro uma isolada e depois um grupo delas.
Chamámos as pessoas da primeira tenda e apareceu uma família de
nómadas. Com uma expressão de horror recusaram admitir-nos e apontaram furtivamente para as outras tendas. Não havia nada a fazer senão ir em frente. Não ficámos menos surpreendidos com a recepção amigável que recebemos na tenda seguinte. Toda a gente saiu para fora, mexendo nas nossas coisas e ajudando-nos a descarregar — algo que nenhum nómada jamais fizera — e subitamente apercebemo-nos de que eram os Khampas. Tínhamos sido apanhados como ratos numa ratoeira. Os habitantes da tenda eram dois homens, uma mulher e um adolescente. Tivemos que encarar a triste situação com uma cara alegre. Pelo menos estávamos atentos e, com educação, estratégia e diplomacia, tínhamos esperança de conseguir sair desta trapalhada.
Mal nos tínhamos sentado junto à fogueira quando a tenda começou a
encher-se de visitantes que vinham das tendas vizinhas para ver os forasteiros. A nossa preocupação era proteger a nossa bagagem. Esta gente era insistente e indiscreta como os ciganos. Quando ouviram dizer que éramos peregrinos, recomendaram-nos que na nossa viagem para Lassa levássemos um dos seus homens connosco, um guia particularmente experiente. Queria que seguíssemos uma estrada ligeiramente mais a sul do que a nossa rota, que segundo ele era muito mais fácil de percorrer. Trocámos olhares. O homem era baixo e forte e carregava uma longa espada à cintura. Não era do tipo que inspirasse confiança. No entanto, aceitámos a sua oferta e concordámos com o seu preço. Não havia nada a fazer: se indispuséssemos esta gente, podiam abater-nos sem mais nem menos.
Os visitantes das outras tendas foram-se retirando gradualmente e
preparámo-nos para nos deitarmos. Um dos nossos dois anfitriões insistia em usar a minha mochila como almofada e eu tive a maior dificuldade em mantê-la comigo. Provavelmente pensaram que continha uma pistola. Se assim era, isso servia os nossos propósitos e eu ia tentar aumentar as suas suspeitas com o meu comportamento. Por fim parou de incomodar-me. Permanecemos acordados e alerta durante toda a noite, o que não era muito difícil, embora estivéssemos muito cansados, pois a mulher murmurava orações sem parar. Ocorreu-me que estivesse a pedir antecipadamente perdão para o crime que o marido tencionava cometer contra nós no dia seguinte. Ficámos aliviados quando o dia nasceu. A princípio tudo estava em paz. Troquei um espelho de bolso por miolos de iaque que cozinhámos para o pequeno-almoço. Então começámos a preparar-nos para partir. Os nossos anfitriões seguiam os nossos movimentos com os seus rostos reluzentes e pareciam prestes a atacar-me quando comecei a entregar os nossos volumes a Aufschnaiter, que estava fora da tenda. Afastámo-los e carregámos o nosso iaque. Olhámos em redor à procura do nosso guia, mas para nosso alívio não se encontrava por ali. A família de Khampas aconselhou-nos prontamente a seguir a estrada a sul, pois os nómadas da região estavam a preparar uma caravana de peregrinação a Lassa. Prometemos acatar este conselho e partimos a toda a pressa.
Tínhamos caminhado algumas centenas de metros quando dei pela falta
do meu cão. Habitualmente correria atrás de nós sem que fosse necessário chamá-lo. Quando olhámos em volta vimos três homens atrás de nós que em breve nos alcançaram; disseram que também eles estavam a caminho das tendas dos peregrinos nómadas e apontaram para uma coluna de fumo à distância. Isso pareceu-nos muito suspeito pois nunca tínhamos visto tais colunas de fumo sobre as tendas nómadas. Quando perguntámos sobre o cão disseram-nos que tinha ficado para trás na tenda. Um de nós podia voltar e ir buscá-lo. Agora percebíamos o seu plano. As nossas vidas estavam em jogo. Tinham ficado com o cão de forma a conseguirem separar-me de Aufschnaiter, pois não tinham coragem para atacar ambos ao mesmo tempo. E provavelmente tinham companheiros à espera no local onde havia fumo. Se seguíssemos para aí estaríamos em séria desvantagem numérica e facilmente nos dominariam. Ninguém saberia do nosso desaparecimento. Agora lamentávamos profundamente não ter dado ouvidos aos avisos bem intencionados dos nómadas.
Como quem não suspeita de nada, caminhámos mais um pouco na mesma
direcção falando rapidamente um com o outro. Os dois homens caminhavam agora ao lado de cada um de nós enquanto o rapaz vinha atrás. Com um rápido olhar para a esquerda e para a direita estimámos as nossas hipóteses no caso de uma luta. Os dois homens usavam capotes duplos de pele de ovelha, como fazem os salteadores para se protegerem de facadas, e das suas cinturas pendiam longas espadas. A sua expressão era inocente como a de um cordeiro. Algo tinha que acontecer. Aufschnaiter achou que tínhamos que mudar de direcção para não caminharmos cegamente para uma emboscada. Dito e feito. Sempre a conversar, demos a volta repentinamente.
Os Khampas pararam por um momento surpreendidos, mas logo se
aproximaram e barraram a nossa passagem, perguntando em tom pouco amistoso aonde íamos. «Buscar o cão, respondemos secamente. A maneira como falámos pareceu intimidá-los. Pressentiram que estávamos preparados para tudo e deixaram-nos passar; depois de nos observarem por uns momentos, seguiram apressadamente na direcção oposta, provavelmente para informarem os seus cúmplices.
Quando nos aproximámos das tendas, a mulher veio ao nosso encontro
com o cão por uma trela. Depois de um cumprimento amistoso prosseguimos, mas desta vez pela estrada por onde tínhamos vindo para o acampamento de salteadores. Não valia a pena pensar em seguir para a frente — tínhamos que retroceder. Desarmados como estávamos, continuar significaria uma morte certa. Depois de uma marcha forçada, ao anoitecer chegámos à tenda da família amistosa com quem tínhamos ficado duas noites antes. Não ficaram surpreendidos ao ouvir o nosso relato e disseram-nos que o acampamento dos Khampas se chamava Gyak Bongra, um nome que espalhava o medo pela região. Depois desta aventura era uma bênção poder passar uma noite pacífica com pessoas amigas.
No outro dia de manhã elaborámos um novo plano de viagem. Não havia
alternativa senão seguir a estrada mais difícil que atravessava a região deserta. Comprámos mais carne aos nómadas pois provavelmente íamos passar uma semana sem encontrar vivalma.
Para evitar regressar a Labrang Trova tomámos um atalho difícil e íngreme mas que, segundo esperávamos, conduzia à rota que queríamos seguir. A meio da inclinada encosta parámos para apreciar a paisagem e vimos, para nosso horror, dois homens que nos seguiam à distância. Não havia dúvida de que eram Khampas. Tinham provavelmente visitado os nómadas e sabiam a direcção que tínhamos seguido.
O que havíamos de fazer? Ficámos em silêncio, mas mais tarde
confessámos um ao outro que tínhamos silenciosamente decidido vender as nossas vidas o mais caro possível. Primeiro tentámos acelerar o passo, mas não podíamos ir mais rápido do que o iaque, que parecia mo-ver-se a passo de caracol. Continuámos a olhar para trás mas não conseguíamos certificar-nos se os nossos perseguidores estavam a aproximar-se ou não. Compreendíamos perfeitamente como era esmagadora a nossa desvantagem por não termos armas. Só tínhamos os varapaus e as pedras para nos defendermos contra as espadas afiadas deles. Só podíamos contar com a nossa perspicácia... Caminhámos durante uma hora que pareceu interminável, ofegantes com o esforço e a olhar para trás constantemente. Então vimos que os dois homens se tinham sentado. Apressámo-nos até ao topo de uma cumeada, e à medida que avançávamos, procurávamos um lugar que servisse de campo de luta caso fosse necessário. Os dois homens levantaram-se e pareciam conferenciar; vimo-los dar a volta e ir embora. Respirámos fundo e pusemos o nosso iaque em marcha para lá do lado oposto da montanha de modo a desaparecermos rapidamente de vista.
Quando chegámos ao cume entendemos por que os nossos perseguidores
tinham preferido voltar para trás. A nossa frente estendia-se a terra mais inóspita que eu alguma vez vira. Um mar de montanhas cobertas de neve prolongava-se infinitamente no horizonte. Lá longe estavam os Trans-Himalaias e, como uma falha numa fileira de dentes, sobressaía a passagem que nós calculávamos ser a que nos levaria à estrada a que nos dirigíamos. Assinalado pela primeira vez num mapa por Sven Hedin, este desfiladeiro — o Selala — conduz a Shigatse. Sem termos a certeza de que os Khampas tinham realmente desistido da perseguição, continuámos mesmo depois do anoitecer. Felizmente a Lua ia alta e, devido à neve, iluminava bastante bem. Podíamos até avistar as montanhas distantes.
Nunca esquecerei essa caminhada nocturna. Nunca tinha passado por uma
experiência que exigisse tamanho esforço físico e mental. Só escapámos aos Khampas devido à desolação desta região, cuja natureza nos fez confrontar novos obstáculos. Ainda bem que eu tinha deitado fora o meu termómetro há muito tempo; aqui iria seguramente marcar 30 graus negativos, que era o máximo negativo que conseguia registar. Mas isso era seguramente menos do que a realidade. Sven Hedin tinha registado 40 graus negativos nesta área e na mesma época do ano.
Durante horas andámos aos saltos na neve virgem e à medida que
avançávamos as nossas mentes vagueavam ainda mais longe nas suas próprias viagens. Eu era atormentado por visões de um quarto quente e confortável, comida quente e deliciosa e bebidas fumegantes. Bastante curiosa foi a evocação de um café em Graz dos meus tempos de estudante — quase enlouqueci. Os pensamentos de Aufschnaiter estavam virados para outro lado, maquinando obscuros planos de vingança contra os salteadores e jurando voltar com um arsenal de armas. Ai de todos os Khampas! Por fim interrompemos a nossa caminhada, descarregámos o iaque e rastejámos para um abrigo. Tirámos para fora o nosso saco com tsampa e alguma carne crua pois estávamos famintos, mas mal levávamos à boca uma colher cheia de farinha seca o metal colava-se aos lábios e não se desprendia mais. Foi preciso, entre gritos e imprecações, arrancar a colher à força. Com os apetites embotados por esta dolorosa experiência, aconchegámo-nos debaixo dos cobertores, e apesar do frio cortante caímos no pesado sono da exaustão.
No dia seguinte prosseguimos penosamente, seguindo as pegadas do
nosso iaque e praticamente sem tirar os olhos do chão. De tarde, subitamente julgámos ver afata morgana (Fata morgana = miragem. (N. do T.) pois ao longe, no horizonte, mas muito nítidas, apareceram três caravanas de iaques que se deslocavam muito lentamente através do cenário de neve. Pareceram parar — mas não desapareceram; por isso não era uma miragem. Esta visão renovou a nossa coragem. Reunimos todas as nossas forças e incitámos o nosso iaque; após três horas de marcha alcançámos o local onde as caravanas tinham acampado. Havia cerca de quinze pessoas na caravana, homens e mulheres — e quando chegámos já tinham montado as suas tendas. Ficaram estupefactos quando nos viram, mas receberam-nos amigavelmente e levaram-nos para dentro para nos aquecermos junto à fogueira. Ficámos a saber que regressavam de uma viagem de peregrinação e comércio ao Monte Kailás e agora encaminhavam-se para as suas casas no Lago Namtso. Tinham sido avisados pelas autoridades distritais sobre os salteadores e por isso tinham escolhido este percurso difícil de forma a evitar a região infestada pelos Khampas. Levavam para casa cinquenta iaques e duas centenas de ovelhas. O resto dos seus rebanhos tinha sido trocado por mercadoria, que seria um rico prémio para os ladrões. Era por isso que os três grupos se tinham reunido e agora convidavam-nos a seguir viagem com eles. Os reforços seriam úteis se se encontrassem com os Khampas.
Que prazer estar uma vez mais sentado junto a uma fogueira a sorver sopa
quente! Sentimos que este encontro se devia à Providência. Não nos esquecemos do nosso bravo Armin, pois sabíamos o quanto lhe devíamos, e pedimos ao líder da caravana que nos deixasse carregar a nossa bagagem num dos seus iaques, pelo qual pagaríamos um dia de aluguer. Assim a nossa besta pôde gozar uma pequena folga.
Prosseguíamos dia após dia com as caravanas e montávamos a nossa
pequena tenda de montanhismo junto às deles. Sofríamos muito com a dificuldade de armar a tenda durante os furacões que frequentemente assolavam esta região. Ao contrário das pesadas tendas de pele de iaque que resistiam ao vento, a nossa leve barraca de lona não se aguentava em pé sob a intempérie e às vezes éramos obrigados a pernoitar ao ar livre. Jurámos que se alguma vez voltássemos a empreender uma expedição ao Tibete traríamos connosco três iaques, um condutor, uma tenda nómada e um rifle!
Tivemos muita sorte por nos terem permitido acompanhar as caravanas. A
única coisa que nos perturbava era a extrema lentidão com que nos deslocávamos. Em comparação com as nossas marchas anteriores agora parecíamos ir num passeio. Os nómadas começam cedo, e depois de percorrerem cinco ou seis quilómetros montam novamente as suas tendas e põem os seus animais a pastar. Antes do anoitecer recolhem-nos e cercam-nos próximo das tendas, onde ficam a salvo dos lobos e podem ruminar em paz.
Só agora nos apercebíamos de como tínhamos abusado do nosso pobre
Armin Éramos loucos, tal como os tibetanos pensavam quando passávamos os dias a escalar montanhas à volta de Kyirong. Durante os longos períodos de descanso dedicávamos muito tempo a actualizar os nossos diários que recentemente tínhamos negligenciado. Também começámos a recolher informações sobre a estrada para Lassa. Questionávamos as pessoas separadamente e gradualmente organizámos uma sequência definitiva de nomes de localidades. Isto era muito valioso pois mais tarde poderíamos perguntar aos nómadas o caminho de um lugar para outro. Já tínhamos assentado há muito que não poderíamos passar o resto da nossa vida a fazer pequenas caminhadas. Na noite de Natal separámo-nos dos nossos amigos e partimos sozinhos. Sentíamo-nos frescos e descansados e no primeiro dia percorremos mais de vinte quilómetros. Ao fim do dia chegámos a uma vasta planície onde se encontravam algumas tendas isoladas. Os seus ocupantes pareciam estar muito alerta, pois quando nos aproximámos dois homens de aspecto selvagem e fortemente armados vieram ao nosso encontro. Gritaram connosco agressivamente e mandaram-nos para o diabo. Não nos mexemos mas levantámos as mãos para mostrar que não estávamos armados e explicámos-lhes que éramos peregrinos inofensivos. Apesar dos dias de descanso com a caravana, o nosso aspecto devia meter dó. Depois de um pequeno colóquio, o dono da tenda principal convidou-nos a pernoitar. Aquecemo-nos junto ao fogo e ofereceu—nos chá tibetano e uma iguaria rara — um pedaço de pão de trigo, bolorento e duro como pedra; mas este pequeno presente na noite de Natal, nas terras agrestes do Tibete, representou mais para nós do que qualquer outro jantar de Natal em casa.
A princípio o nosso anfitrião tratou-nos rudemente. Quando lhe dissemos
a rota que pretendíamos seguir para chegar a Lassa, comentou secamente que se não morrêramos até ali, então isso aconteceria certamente nos próximos dias. A região estava infestada de Khampas e sem armas seríamos uma presa fácil. Disse isto num tom fatalista, como quem constata uma evidência. Sentimo-nos muito desanimados e pedimos-lhe conselhos. Recomendou-nos que seguíssemos a estrada para Shigatse, que poderíamos alcançar numa semana. Não queríamos ouvir falar nisso. Pensou por um bocado e então aconselhou-nos a pedir auxílio à autoridade distrital da região, cuja tenda estava apenas a alguns quilómetros de distância. Este funcionário poderia escoltar-nos se teimássemos em atravessar a região dos assaltantes.
Nessa noite tínhamos tanto para discutir que nem pensámos no Natal em
nossas casas. Por fim concordámos em correr o risco de visitar o Pónpo. Demorámos apenas umas horas a chegar à sua tenda e achámos que era um bom sinal ele ter-nos recebido amistosamente e ter posto uma tenda à nossa disposição. Chamou então o seu colega e sentámo-nos a conferenciar. Desta vez dispensámos a história de sermos peregrinos indianos. Apresentámo-nos como europeus e pedimos protecção contra os bandidos. Viajávamos com autorização do governo e en-treguei-lhe o velho salvo-conduto que o Garpõn nos tinha dado em Gartok. (Este documento tinha uma história: tínhamos tirado à sorte quem ficava com ele e Kopp tinha ganho; mas quando ele nos deixou, tive a brilhante ideia de lho comprar. E agora tinha chegado a sua hora.) Os dois funcionários examinaram o selo e ficaram nitidamente impressionados com o documento. Estavam convencidos de que tínhamos direito a estar no Tibete. A única pergunta que fizeram foi onde estava o terceiro membro do grupo. Explicámos que adoecera e regressara à índia via Tradiin. A resposta satisfez os Põnpos, que nos prometeram uma escolta que nas diferentes etapas seria revezada por novos homens que nos levariam até à estrada principal de nordeste.
Estes eram autênticos votos de Feliz Natal para nós! E agora, por fim,
sentíamos vontade de comemorar a festa. Em Kyirong tínhamos guardado um pouco de arroz especialmente para esta ocasião. Cozinhámo-lo e convidámos os Põnpos a partilhá-lo connosco. Eles trouxeram toda a espécie de petiscos e passámos uma feliz e amigável noite juntos.
No dia seguinte, um nómada acompanhou-nos até ao próximo
acampamento e «entregou-nos lá. Era como uma corrida de estafeta em que nós éramos o bastão. Depois disso o nosso guia regressou. Com o guia seguinte fizemos um progresso maravilhoso e apercebemo-nos de como era útil ter um companheiro que realmente conhecesse o caminho, embora ele não garantisse segurança absoluta em relação aos assaltantes.
Os nossos companheiros permanentes eram o vento e o frio. Parecia-nos
que o mundo inteiro era uma tempestade de neve a trinta graus negativos. Sofríamos imenso com as roupas insuficientes e tive sorte em poder comprar um velho capote de pele de cabra a um nómada. Ficava-me apertado e faltava-lhe metade de uma manga, mas cus-tou-me apenas duas rupias. Os nossos sapatos estavam num estado miserável e não durariam muito mais; quanto a luvas, simplesmente não tínhamos nenhumas. Aufs-chnaiter tinha sofrido queimaduras do gelo nas mãos e eu tinha problemas nos pés. Suportávamos o sofrimento com triste resignação e era necessária muita energia para cumprir a nossa quota diária de quilómetros. Como ficaríamos felizes por poder descansar alguns dias numa acolhedora tenda nómada. Até mesmo a vida dos nómadas, dura e marcada pela pobreza, nos parecia sedutoramente luxuosa. Mas não nos atrevíamos a atrasar-nos se queríamos chegar a Lassa antes de acabarem as nossas provisões. E depois? Bem, era preferível não especular.
Muitas vezes avistávamos, felizmente à distância, homens a cavalo que
sabíamos serem Khampas devido à peculiar raça de cães que os acompanhava, criaturas menos peludas que os cães tibetanos comuns, magros, ágeis como o vento e indescritivelmente feios. Agradecemos a Deus não termos de nos confrontar com eles nem com os seus donos.
Nesta fase da nossa viagem descobrimos um lago gelado, que numa busca
posterior não conseguimos encontrar no mapa. Aufschnaiter desenhou-o imediatamente no nosso mapa. Os habitantes locais chamavam-lhe Yôchabt-so, «água sacrificial». Situa-se na base de uma cadeia de glaciares. Antes de chegarmos à estrada principal encontrámos alguns salteadores armados com modernos rifles europeus contra os quais nenhuma coragem nos teria valido. Porém deixaram-nos em paz — sem dúvida por causa da nossa aparência miserável. Há ocasiões em que a pobreza visível tem as suas vantagens.
Após cinco dias de marcha chegámos à famosa estrada de Tasam.
Pensávamos que era uma estrada normal que, uma vez alcançada, iria pôr fim a todos os sofrimentos da nossa marcha. Imagine-se o nosso desapontamento quando não conseguimos sequer encontrar vestígios de uma pista. O terreno não diferia em nada daquele que vínhamos palmilhando há semanas. Havia de facto algumas tendas vazias nas quais as caravanas podiam parar, mas mais nenhum sinal de uma rota organizada.
Na última etapa tínhamos sido acompanhados por duas robustas mulheres
que agora, após uma comovente despedida, nos deixavam na estrada de Tasam. Alojámo-nos numa das pequenas tendas e acendemos uma fogueira, após o que avaliámos a nossa situação. Tínhamos alguns motivos para satisfação. A parte mais difícil da nossa jornada tinha sido ultrapassada e agora estávamos num percurso frequentado que em quinze dias de marcha nos conduziria directamente a Lassa. Deveríamos ficar felizes por estarmos tão próximos do nosso objectivo. Mas, na realidade, os nossos tremendos esforços tinham-nos abatido de tal forma que já não éramos capazes de sentir alegria: com as queimaduras do frio, a falta de dinheiro e de comida, só podíamos sentir angústia. Preocupávamo-nos sobretudo com os nossos animais. O meu fiel cão estava reduzido a pele e ossos. A comida praticamente não chegava para sobrevivermos e quase não sobrava para ele. As suas patas estavam num estado tão deplorável que não conseguia acompanhar-nos e muitas vezes tínhamos que esperar horas no acampamento até ele chegar. A situação do iaque era um pouco melhor, embora já não tivesse erva suficiente para se alimentar há semanas e estivesse assustadoramente magro. E verdade que já tínhamos deixado a neve para trás depois de partir do lago Yõchabtso, mas a erva era escassa e seca e havia pouco tempo para pastar.
De qualquer forma, no dia seguinte tínhamos que avançar; e o facto de
estarmos agora numa rota de caravanas e não termos que nos sentir como um Marco Polo perante o desconhecido levantou a nossa moral.
O nosso primeiro dia na rota de Tasam variou muito pouco em relação à pior fase na região desabitada. Não encontrámos uma alma. Uma terrível tempestade, fortes nevões e faixas de nevoeiro fizeram da nossa jornada um inferno. Felizmente, o vento estava nas nossas costas e empurrava-nos para a frente. Se estivéssemos contra ele não conseguiríamos avançar um passo. Ficámos contentes quando avistámos a tenda na berma da estrada ao anoitecer. Nessa noite fiz o seguinte apontamento no meu diário:
31 de Dezembro de 1945. Forte tempestade de neve com neblina — a primeira que encontramos no Tibete. Temp.: aproximadamente 30 graus negativos. O dia mais exaustivo da nossa viagem até à data. A carga caía constantemente do iaque e quase congelámos as mãos ao tentar ajustá-lo. Perdemo-nos uma vez e tivemos de retroceder três quilómetros. Ao anoitecer alcançámos o posto de Nyatsang. Oito tendas, uma delas ocupada pelo guarda da estrada e a sua família. Bem recebidos.
Por isso esta era a nossa segunda noite de Ano Novo no Tibete. Era
desanimador pensar no que tínhamos conquistado durante todo este tempo. Ainda éramos viajantes «ilegais — dois vagabundos miseráveis e esfomeados forçados a esquivar-se das autoridades, ainda no encalço de um objectivo visionário que nos parecia impossível de alcançar: a Cidade Proibida. Numa noite como esta, os nossos pensamentos voltam-se para casa e para a família, numa retrospectiva sentimental. Mas tais sonhos não podiam distrair-nos da dura realidade da luta para nos mantermos vivos, que exigia toda a nossa força física e espiritual. Uma noite passada numa tenda acolhedora era mais importante do que se recebêssemos um carro desportivo como prenda de Natal na segurança das nossas casas. Por isso mantivemos o Dia de São Silvestre dentro dos nossos moldes. Queríamos permanecer aqui um pouco mais de forma a descongelarmos e proporcionarmos aos nossos animais um dia de descanso. O nosso velho documento de viagem fez o seu trabalho aqui também; o funcionário deste posto era amigável e pôs os seus criados à nossa disposição, enviando-nos água e combustível.
Relaxámos e dormimos até tarde. Estávamos a tomar o pequeno-almoço
pouco antes do meio-dia quando se ouviu uma agitação junto às tendas. O cozinheiro de um Põnpo, com um gorro de pele de raposa, tinha chegado para anunciar a vinda do seu mestre é tratar dos seus preparativos. Corria de um lado para o outro e fazia valer a sua importância.
A chegada de uma autoridade de alta patente podia ser importante para
nós, mas estávamos na Ásia há tempo suficiente para saber que o estatuto de um funcionário superior era um conceito muito relativo, e por isso não valia a pena excitarmo-nos. Mas tudo se resolveu da melhor forma. O Põnpo chegou pouco depois a cavalo, rodeado por um enxame de criados. Era um mercador ao serviço do governo e estava encarregado de trazer para Lassa um enorme carregamento de açúcar e algodão. Quando ouviu falar em nós, naturalmente quis fazer-nos perguntas. Com uma expressão virtuosa no rosto, entreguei-lhe o nosso salvo—conduto, que teve o habitual efeito positivo. Pôs de parte a sua atitude de autoridade severa e convidou-nos a viajarmos com a sua comitiva. Isso parecia óptimo; portanto desistimos do nosso dia de descanso e começámos a embalar a nossa bagagem pois a caravana ia partir de tarde. Um dos condutores sacudiu a cabeça ao olhar para o Armin, um autêntico esqueleto, e finalmente ofereceu-se para carregar a nossa bagagem num dos seus iaques por uma pequena quantia, de forma que o nosso animal só tinha que acompanhar-nos. Concordámos com grande satisfação. Então partimos a toda a pressa. Tínhamos que prosseguir com a caravana a pé, enquanto o Põnpo e os seus criados, que tinham trocado de cavalos no posto, seguiriam mais tarde. Alcançaram-nos pouco depois.
Tinha sido um sacrifício abdicar do nosso dia de descanso e encetar uma
marcha de vinte quilómetros. O meu pobre cão estava demasiado exausto para poder acompanhar-nos e por isso deixei-o no acampamento, o que era melhor para ele do que morrer na estrada.
Acompanhando a caravana, cobríamos longas distâncias todos os dias.
Beneficiávamos da protecção do Põnpo e éramos bem recebidos em toda a parte. Só em Lhõlam é que o funcionário do posto nos olhou de soslaio. Nem sequer nos quis dar combustível e insistiu que mostrássemos a nossa autorização para Lassa. Infelizmente não podíamos obedecer-lhe. Contudo, tínhamos um telhado sobre as nossas cabeças e devíamos regozijar-nos com isso, porque pouco depois da nossa chegada toda a espécie de indivíduos de aspecto suspeito começaram a reunir-se em volta das tendas. Reconhecemo-los imediatamente: eram Khampas; mas estávamos demasiado cansados para nos incomodar com eles e deixámos que o resto da comitiva tratasse da situação. Pelo menos não tínhamos nada que valesse a pena roubar. Alguns deles tentaram entrar na nossa tenda, mas os nossos gritos afastaram-nos.
Na manhã seguinte o nosso iaque tinha desaparecido. Na noite anterior
tínhamo-lo amarrado e pensámos que talvez estivesse a pastar algures, mas não conseguimos encontrar sinais dele. Os rufiões que tinham estado aqui na noite passada também tinham desaparecido e a conexão era óbvia. A perda do iaque era um severo golpe para nós e irrompemos pela tenda do funcionário de Tasam; na minha fúria atirei a sela e os arreios a seus pés, acusando-o de responsabilidade pelo roubo do nosso animal. Tínhamo-nos afeiçoado muito ao Armin V, o único iaque que nos tinha servido bem, mas não tínhamos tempo para lamentar a sua perda. Precisávamos de apanhar a caravana, que partira algumas horas antes com a nossa bagagem.
Caminhávamos já há alguns dias em direcção a uma enorme cadeia de
montanhas, a cordilheira Nyenchen-thanghla. Só havia um caminho para as atravessar e a passagem conduzia directamente a Lassa. A caminho das montanhas passávamos através de pequenas colinas. A região era completamente deserta e nem sequer avistámos burros selvagens. O tempo tinha melhorado imenso e a visibilidade era tão boa que, a uma distância de dez quilómetros, a nossa paragem seguinte parecia estar diante de nós.
A próxima paragem era um lugar chamado Tokar. Daqui começava a
subida das montanhas, e a estação seguinte estava a cinco dias de viagem. Não nos atrevíamos a pensar como poderíamos aguentar até lá. Em todo o caso, fazíamos o que podíamos para manter as forças e comprámos muita carne para aprovisionar.
Os dias pareciam intermináveis e as noites ainda mais longas. Viajávamos
através de uma terra invulgarmente bela e chegámos a um dos maiores lagos do mundo — o Nam Tso ou Tengri Nor. Mas praticamente não olhávamos para ele, embora ansiássemos há muito por admirar este lago de proporções oceânicas. A paisagem outrora almejada não conseguia sacudir-nos da nossa apatia. A escalada através do ar rarefeito tinha-nos deixado sem respiração e a perspectiva de mais uma subida de quase 6000 metros era paralisante. De tempos a tempos olhávamos
fascinados para picos ainda mais altos visíveis do nosso trilho. Por fim, chegámos ao cume da nossa cordilheira, Guring La. Antes de nós, esta cordilheira só tinha sido atravessada uma vez por um europeu, Littledale, um inglês que a conquistou em 1895. Sven Hedin tinha estimado a sua altitude em aproximadamente 6000 metros e descreveu-a como a mais alta das cordilheiras na região dos Trans-Himalaias. Creio poder afirmar que é a cordilheira mais alta do mundo, transponível em qualquer altura do ano.
Aqui encontrámos mais uma vez os típicos montículos de pedras e,
flutuando acima deles, as bandeiras de oração com as cores mais brilhantes que eu alguma vez tinha visto. Perto havia uma fila de mesas de pedra com orações inscritas — uma indelével expressão da alegria sentida por milhares de peregrinos quando, após uma longa e penosa marcha, viam a cordilheira abrindo à sua frente a estrada para a mais sagrada das cidades.
Encontrámos também uma inacreditável multidão de peregrinos de
regresso aos seus distantes lares. Quantas vezes não tinham ecoado nesta estrada as palavras «Om mani padme hum, a ancestral e venerada fórmula de oração que todos os budistas usam e que os peregrinos murmuram incessantemente, na esperança de que, entre outras coisas, ela as proteja daquilo que acreditam ser gases venenosos e que nós sabemos tratar-se de falta de oxigénio. Fariam melhor se mantivessem a boca fechada! De vez em quando, nas encostas abaixo víamos esqueletos de animais que testemunhavam a natureza perigosa da estrada. Os nossos condutores disseram-nos que quase todos os Invernos havia peregrinos que perdiam a vida nas tempestades de neve na travessia destas montanhas. Agradecemos a Deus pelo bom tempo durante esta escalada de 1200 metros.
A primeira parte da nossa descida transpunha um glaciar. Eu tinha novas
razões para me extasiar com a firmeza do caminhar dos iaques na sua busca de uma passagem através do gelo. À medida que avançávamos aos tropeções não pude deixar de pensar como seria mais fácil deslizar com esquis sobre esta superfície lisa e intacta. Suponho que Aufschnaiter e eu fomos as únicas pessoas que alguma vez falaram em esquiar na estrada dos peregrinos para Lassa.
Enquanto caminhávamos, um casal jovem veio ter connosco. Vinham de
muito longe e também se dirigiam para Lassa. Estavam contentes por se juntarem à caravana e entabulámos conversa com eles. A sua história era notável.
Esta mulher jovem e bonita, de faces rosadas e grossas tranças pretas,
tinha vivido feliz e satisfeita com os seus três maridos — três irmãos — numa tenda nómada em Changthang. Certa noite um jovem desconhecido pediu para pernoitar. A partir desse instante tudo mudou. Deve ter sido um caso de «amor à primeira vista. Os dois jovens entenderam-se sem trocar uma palavra e na manhã seguinte fugiram juntos. Encararam a fuga através da planície agreste com grande naturalidade. Agora estavam felizes por ter chegado aqui, e tencionavam começar uma vida nova em Lassa.
Lembro-me desta rapariga como de um raio de sol nestes tempos duros e
penosos. Certa ocasião, enquanto descansávamos, ela pegou na sua bolsa e, sorridente, deu um damasco seco a cada um. Esta modesta prenda era tão preciosa para nós como o pão de trigo que o nómada nos tinha dado na Noite de Natal.
No decorrer da nossa jornada apercebi-me de como as mulheres tibetanas
são fortes e resistentes. Esta mulher jovem acompanhava facilmente o nosso passo e transportava a sua carga tão bem como um homem. Não se preocupava com o seu futuro, pois em Lassa poderia trabalhar como mulher-a-dias e com a sua saúde robusta de mulher do campo facilmente ganharia o seu sustento.
Caminhámos durante três dias consecutivos sem encontrar nenhuma
tenda. Então avistámos à distância uma grande coluna de fumo que se erguia para o céu. Não sabíamos se seria uma chaminé ou uma casa a arder, mas quando nos aproximámos vimos que se tratava de vapor libertado por nascentes de água quente. Pouco depois estávamos boquiabertos perante um cenário natural de incrível beleza. Uma série de nascentes borbulhava no chão e no meio da nuvem de vapor esguichava um esplêndido géiser a cinco metros de altura. Depois da poesia, a prosa! O nosso pensamento seguinte foi tomar um banho. O jovem casal desaprovava, mas não deixámos que isso nos detivesse. Quando brotava do chão a água vinha a ferver, mas era rapidamente arrefecida pelo ar gélido até a uma temperatura suportável. Apressadamente transformámos uma das piscinas naturais numa confortável banheira. Que prazer! Desde que deixáramos as nascentes de água quente em Kyirong não tínhamos podido lavar-nos ou tomar banho. Agora, sentados em água quase a ferver, a temperatura do ar era tão baixa que os nossos cabelos e barbas endureciam congelados num instante. No riacho que fluía da nascente havia imenso peixe de tamanho razoável. Esfomeados, discutimos a forma de os pescar — poderíamos cozinhá-los facilmente na nascente — mas não encontrámos uma solução e assim, muito refrescados, saímos apressadamente no encalço da caravana.
Passámos a noite com os condutores de iaques na sua tenda. Foi aí que
pela primeira vez na vida tive um sério ataque de ciática. Sempre considerei que estas queixas dolorosas eram uma doença da velhice e nunca sonhei vir a conhecê-la tão cedo. Provavelmente contraí-a pelo facto de dormir todas as noites no chão frio.
Certa manhã não consegui levantar-me. Para além das terríveis dores,
tremia ao pensar que não poderia prosseguir. Cerrei os dentes e ergui-me nos pés e dei alguns passos. O movimento ajudava, mas desde então todos os dias eu sofria muito durante os primeiros quilómetros de marcha.
Na noite do quarto dia, após termos atravessado a cordilheira, chegámos a
Samsar, onde havia uma estação viária. Finalmente estávamos num lugar habitado, com casas, templos e um castelo. Este era um dos mais importantes entroncamentos de estrada no Tibete. Cruzam-se aqui cinco vias e existe um intenso tráfego de caravanas. Os albergues estão sempre cheios e trocam-se animais nos estábulos de muda. O nosso Põnpo já aqui estava há dois dias, mas mesmo em missão do governo teve de esperar cinco dias por novos iaques. Arranjou-nos um quarto, lenha e um criado. O tráfego era intenso, por assim dizer, e tínhamos que optar por uma espera prolongada, pois não podíamos prosseguir sozinhos.
Aproveitámos o nosso lazer para fazer uma excursão de um dia a umas
nascentes de água quente que tínhamos visto fumegar à distância e que revelaram ser um fenómeno natural único. Chegámos a um lago normal cujas bor-bulhantes águas negras fluíam para um riacho cristalino. Claro que decidimos tomar banho, e entrámos na água num local onde era agradavelmente quente. Conforme subíamos a corrente em direcção ao lago a água tornava-se cada vez mais quente. Aufschnaiter desistiu primeiro, mas eu continuei, na esperança de que a temperatura fizesse bem à minha ciática. Era agradável espojar-me na água quente. Tinha trazido comigo o meu último pedaço de sabão de Kyirong e coloquei-o numa margem ao meu lado ansioso por uma profunda ensaboadela como auge do meu banho. Infelizmente não tinha reparado num corvo que me observava interessado e que num voo rasante carregou subitamente o meu tesouro. Saltei para a margem com uma praga, mas num instante estava de volta à água quente com os dentes a bater de frio. No Tibete, os corvos são tão ladrões como as nossas pegas.
No caminho de regresso vimos pela primeira vez um regimento do
exército tibetano — quinhentos soldados em manobras. A população não é muito entusiástica em relação a estes exercícios militares, uma vez que os soldados têm o direito de requisitar o que querem. Acampam nas suas próprias tendas, que são montadas de forma muito organizada, e portanto não há necessidade de os alojar; mas a população local tem a obrigação de lhes fornecer transporte e até cavalos para montar.
Quando chegámos ao nosso alojamento, aguardava—nos uma surpresa. O
nosso companheiro de quarto era um homem com grilhões nos tornozelos e que só conseguia andar com passos muito curtos. Sorridente, contou-nos, como se fosse uma coisa perfeitamente normal, que era um assassino e ladrão e que tinha sido inicialmente condenado a receber duzentas chicotadas e depois a usar grilhões para o resto da vida. Isto fez-me arrepiar. Será que já estávamos a ser equiparados a assassinos? Porém, pouco depois ficámos a saber que no Tibete um criminoso condenado não é necessariamente marginalizado. O nosso homem não tinha desvantagens sociais: conversava com toda a gente e vivia de esmolas. E não passava assim tão mal.
Tinha constado que éramos europeus, e pessoas curiosas vinham visitar-
nos constantemente. Entre elas encontrava-se um simpático jovem monge que trazia alguma mercadoria para o templo de Drebung e que partiria no dia seguinte. Quando soube que apenas tínhamos uma carga de bagagem e que estávamos ansiosos por seguir viagem, ofereceu-nos um iaque disponível na sua caravana. Não nos fez qualquer pergunta sobre o nosso salvo-con-duto. Já havíamos chegado à conclusão de que quanto mais próximos da capital menos problemas tínhamos — pois se havia estrangeiros neste ponto do interior do Tibete, é porque obviamente tinham um salvo-conduto. Não obstante, achávamos mais sensato não permanecer muito tempo no mesmo local para não estimular a curiosidade.
Aceitámos a oferta do monge imediatamente e despedimo-nos do nosso
Põnpo com sinceras manifestações de gratidão. Partimos quando era noite cerrada, pouco depois da meia-noite. Depois de atravessar o distrito de Yang-pachen entrámos num vale que desembocava na planície de Lassa.
Finalmente estávamos próximos de Lassa! O nome causava-nos sempre
um arrepio. Nas nossas penosas marchas e durante as noites geladas, agarrávamo-nos a este nome e retirávamos dele novas forças. Nenhum peregrino da mais distante província poderia jamais ter ansiado pela Cidade Sagrada mais do que nós. Já nos havíamos aproximado muito mais de Lassa do que Sven Hedin. Ele tinha tentado duas vezes atravessar a região pela qual tínhamos vindo, mas ficou sempre retido em Changthang pela escarpa de Nyenchenthanghla. Nós dois, pobres andarilhos, éramos naturalmente menos conspícuos do que a sua caravana e o nosso conhecimento de tibetano ajudava-nos, para além dos estratagemas que havíamos sido compelidos a usar; por isso tínhamos algumas coisas a nosso favor.
De manhã cedo chegámos à localidade seguinte, De-chen, onde iríamos
passar o dia. A ideia não nos agradava, pois havia duas autoridades distritais permanentes e não contávamos poder enganá-las com um qualquer documento de viagem.
O nosso amigo monge ainda não tinha chegado. Dormia um sono em
condições, pois viajava a cavalo, e partira sem dúvida mais ou menos à hora a que chegámos a De-chen.
Começámos cautelosamente a procurar alojamento e tivemos uma
maravilhosa oportunidade. Travámos conhecimento com um jovem tenente que cordialmente nos ofereceu o seu quarto pois tinha que partir por volta do meio-dia. Tinha estado na vizinhança a colectar contribuições em dinheiro em substituição do serviço militar. Aven-turámo-nos a perguntar-lhe se não poderia levar a nossa bagagem na sua caravana, pelo que naturalmente pagaríamos. Aceitou imediatamente e poucas horas depois saímos da vila caminhando despreocupados atrás da caravana.
A nossa satisfação foi prematura, pois quando passávamos diante das
últimas casas da vila alguém nos chamou e quando nos voltámos deparámos com um senhor de aspecto distinto vestido com finas roupas de seda: inconfundivelmente, o Põnpo. Perguntou-nos educadamente, mas num tom autoritário, donde vínhamos e para onde íamos. Só a presença de espírito poderia salvar-nos. Por entre vénias e salamaleques, dissemos que íamos num pequeno passeio e não tínhamos trazido os nossos documentos. No regresso teríamos prazer em aguardar a convocação de sua alteza. O truque deu certo e desaparecemos.
Demos por nós a caminhar num cenário primaveril. As pastagens
tornavam-se mais verdes à medida que avançávamos. Pássaros chilreavam nas plantações e sentíamos calor dentro dos nossos capotes de pele de ovelha, embora fosse meados de Janeiro.
Lassa estava apenas a três dias de viagem. Caminhámos sozinhos e só ao
anoitecer alcançámos o tenente e a sua pequena caravana. Nesta região usava-se toda a espécie de animais para transporte — burros, cavalos, vacas e bois castrados. Só se viam iaques nas caravanas, uma vez que os camponeses não tinham pastagens suficientes para alimentar os rebanhos. Por todo o lado observávamos os aldeões a irrigar os campos. As ventanias da Primavera viriam mais tarde e se os solos estivessem muito secos tudo seria varrido como poeira. Muitas vezes demorava gerações a irrigar constantemente o solo para se tornar fértil. Aqui há pouca neve para proteger a semente de Inverno e os camponeses só conseguem uma colheita por ano. A altitude tem naturalmente uma grande influência na agricultura. A 5000 metros só a cevada vinga e os lavradores são semi-nómadas. Em algumas regiões, a cevada amadurece em sessenta dias. O vale de Tõlung, que atravessávamos agora, está 3800 metros acima do nível do mar, e aqui também se cultiva beterraba, batata e mostarda.
Passámos a última noite antes de chegar a Lassa em casa de um
camponês. Não era nada que se parecesse com as atractivas casas estilizadas de madeira de Kyirong. Nestes lados a madeira é rara. A excepção das pequenas mesas e das armações das camas em madeira, praticamente não existe mobília. As casas, construídas com tijolos de lama, não têm janelas; a luminosidade entra apenas pela porta ou pelo buraco da chaminé no tecto.
Os nossos anfitriões pertenciam a uma família abastada de camponeses.
Como é habitual num país de organização feudal, o lavrador gere a propriedade do seu patrão e deve produzir uma determinada quota para ele antes de ter algum lucro para si próprio. Neste núcleo familiar havia três filhos, dois trabalhavam na propriedade e o terceiro preparava-se para ser monge. A família criava vacas, cavalos, umas poucas galinhas e porcos — os primeiros que eu via no Tibete; não são alimentados mas comem restos e tudo o que conseguem fossar nos campos.
Passámos uma noite inquieta a pensar no dia seguinte, que iria decidir o
nosso futuro. Agora colocava-se a grande questão: mesmo que conseguíssemos introduzir—nos na cidade, seria possível permanecermos lá? Já não tínhamos dinheiro e não sabíamos como iríamos viver. E a nossa aparência! Parecíamo-nos mais com salteadores do Changthang do que com europeus. Sobre as nossas sujas calças de lã e camisas rasgadas usávamos os sebentos capotes de pele de ovelha que, mesmo à distância, mostravam bem pelo que tinham passado. Aufschnaiter calçava os restos de um par de botas do exército indiano, e eu tinha os meus sapatos em fragmentos. Ambos estávamos mais descalços do que calçados. Não, seguramente a nossa aparência não estava a nosso favor. As nossas barbas eram talvez a nossa característica mais aparatosa. Como todos os mongóis, os tibetanos quase não têm pêlos na cara ou no corpo; ao passo que nós tínhamos barbas fartas, longas e encaracoladas. Por esta razão fomos frequentemente confundidos com Kazaks, uma tribo da Ásia Central cujos membros migraram em bandos da Rússia para o Tibete durante a guerra. Vieram com as suas famílias e rebanhos e pilhavam a torto e a direito, e o exército tibetano via-se aflito para os expulsar para a índia. Os Kazaks geralmente têm a pele clara e olhos azuis e as barbas crescem normalmente. Não é de admirar que fôssemos confundidos com eles e que os nómadas nos recebessem friamente.
Não havia nada a fazer em relação à nossa aparência. Não podíamos
aperaltar-nos antes de entrar em Lassa. Mesmo que tivéssemos dinheiro, onde iríamos comprar roupas?
Depois de deixar Nangtse — a última vila — tínhamos ficado por nossa
conta. O tenente tinha prosseguido a cavalo para Lassa e tivemos que regatear com o nosso anfitrião para arranjar transporte para a nossa bagagem. Emprestou-nos uma vaca e um criado e depois de pagarmos restou-nos uma rupia e meia e uma moeda de ouro cosida dentro de um pedaço de pano. Tínhamos decidido que se não conseguíssemos arranjar transporte simplesmente deixaríamos as nossas coisas para trás. Para além dos diários, mapas e apontamentos, não possuíamos nada de valor. Nada nos deteria.
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