Sete Anos no Tibet

Heinrich Harrer · Capítulo 8 de 8 · parte 1/2

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Sete Anos no Tibet

encontro para os monges. O maior edifício,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

encontro para os monges. O maior edifício, com vários andares de

altura, erguia-se no centro do jardim e servia simultaneamente de

templo e de residência de Sua Santidade. As janelas eram muito

pequenas para o meu gosto, e eu achava o título de «palácio»

demasiado lisonjeiro para este edifício vulgar. Como residência, era

seguramente mais atractivo do que o Potala, que se assemelhava mais

a uma prisão do que a um palácio, mas era demasiado escuro. No

jardim, as árvores tinham crescido à vontade durante muitos anos e em

alguns lugares faziam lembrar uma selva densa. Ninguém se

preocupara em as desbastar. Os jardineiros quei-xavam-se de que as

flores e as frutas simplesmente não cresceriam à sombra das árvores

grandes. Eu teria ficado feliz se me permitissem limpar e organizar o

Jardim Interior. Havia muitos jardineiros, mas nenhum tinha qualquer

noção de estilo. Consegui no entanto convencer o ca-mareiro-mor de

que certas árvores teriam que ser cortadas e fui autorizado a

supervisionar esse trabalho. Os jardineiros não entendiam quase nada

disto e ocupavam-se a cultivar flores de vaso que eram deixadas ao ar

livre durante o dia e guardadas à noite.

Uma das portas no muro do Jardim Interior dava acesso directo aos

estábulos, que abrigavam os cavalos favoritos do Dalai Lama e um

onagro que lhe tinha sido oferecido. Estes animais levavam uma vida

contemplativa e pacífica e recebiam cuidados de muitos homens.

Tornavam-se gordos e indolentes pois o seu dono nunca os cavalgava

nem exercitava.

Os professores e os criados pessoais do Dalai Lama viviam para

além do muro amarelo, no parque do Norbu-lingka. Juntamente com o

corpo da guarda, composta por quinhentos homens robustos, viviam

em moradias confortáveis e (para os padrões tibetanos)

extraordinariamente limpas. O décimo terceiro Dalai Lama tivera um

particular interesse no bem-estar das suas tropas. Tinha-os

uniformizado com fardas de corte europeu e costumava observar os

seus exercícios de um dos pavilhões. Fiquei surpreendido pelo facto de

estes soldados terem o cabelo cortado à moda ocidental, em contraste

com todos os tibetanos. Provavelmente, o décimo terceiro Dalai Lama

tinha sido favoravelmente impressionado pela aparência das tropas

indianas e britânicas durante a sua estadia na índia e tinha moldado a

sua guarda pessoal à imagem delas. Os oficiais viviam em pequenos e

vistosos bungalows cercados por canteiros de flores. Os deveres dos

oficiais e soldados consistiam basicamente em fazer as rondas e em

marchar nas cerimónias e procissões.

Terminei a minha construção muito antes do Dalai Lama se mudar

para a Residência de Verão. Perguntava—me a mim próprio se ele

ficaria satisfeito. Podia contar com Lobsang Samten, que certamente

iria presenciar a primeira apresentação, para saber a opinião dele sobre

tudo isto. O Dalai Lama ia com certeza convocar o projec-cionista da

Legação Indiana para trabalhar com o aparelho. A Legação fazia

exibições de filmes indianos e ingleses durante as suas agradáveis

festas, e era um prazer observar o entusiasmo infantil dos tibetanos,

especialmente se os filmes mostravam cenas de terras distantes. A

questão era saber como o jovem soberano iria reagir aos filmes.Eu

estava presente com a minha máquina de filmar para assistir à

procissão do Potala para Norbulingka. Tive a habitual dificuldade em

encontrar um local adequado para filmar a cerimónia, mas o meu

assistente, um gigante marcado pelas bexigas e com aspecto

formidável, facili-tou-me a vida. Carregava as minhas câmaras e a

multidão abria alas para nos deixar passar. Ele parecia ameaçador, mas

era na verdade um tipo muito gentil como o demonstra a seguinte

anedota.

Por vezes acontece que leopardos perdidos vagueiam pelos jardins de

Lassa. Não devem ser mortos, por isso as pessoas tentam atraí-los para

armadilhas ou apanhá-los por qualquer processo. Um dia, um leopardo

entrou no Jardim Precioso e foi cercado por todos os lados e ferido

numa pata por uma bala; ficou encurralado num canto, na defensiva,

rosnando a todos que se atreviam a aproximar—se. Subitamente, o

meu assistente agarrou-o com as próprias mãos e segurou-o até que

outros soldados se apressaram a enfiá-lo num saco. O homem ficou

seriamente ferido pelas garras e o leopardo foi alojado no jardim

zoológico do Dalai Lama, onde morreu pouco depois.

Quando o Dalai Lama passou por mim na sua cadeirinha e me

encontrou a filmar, sorriu para mim. O meu pensamento íntimo foi o

de que ele se congratulava pelo seu pequeno cinema, mas tenho a

certeza de que mais ninguém pensou como eu, muito embora outra

coisa não fosse de esperar de um solitário rapaz de catorze anos. Foi

então que ao olhar para o rosto extasiado e humilde do meu assistente

me lembrei de que para toda a gente, à excepção de mim próprio, ele

não era uma criança solitária mas um Deus.

 

15 TUTOR DO DALAI LAMA

Cara a cara com o Kundún — Amigo e professor do Dalai Lama — O

Tibete é ameaçado pela China Vermelha — Terramotos e outros maus

presságios.

Depois de ter filmado as cenas em Norbulingka, cavalgava

lentamente a caminho de casa quando, já na periferia da cidade, fui

alcançado por um excitado soldado do corpo da guarda; disse-me que

andavam à minha procura por todo o lado e que deveria regressar

imediatamente ao Jardim de Verão. O meu primeiro pensamento foi

que o projector do cinema se tinha avariado, pois não podia imaginar

que o jovem soberano, ainda um menor de idade, pudesse contrariar

todas as convenções e convocar-me directamente à sua presença. Dei a

volta imediatamente e em pouco tempo estava de regresso a

Norbulingka, onde tudo estava agora calmo e tranquilo. A entrada do

portão amarelo aguardavam dois monges. Assim que me viram

fizeram-me sinal para me apressar e conduziram-me para o Jardim

Interior, onde Lobsang Samten me esperava. Sussurrou-me qualquer

coisa ao ouvido e pôs-me nas mãos uma écbarpe branca. Não havia

dúvidas. O seu irmão iria receber-me.

Dirigi-me imediatamente ao cinema, mas antes de entrar a porta

abriu-se diante de mim pelo lado de dentro e encontrei-me perante a

Encarnação do Buda. Dominando a minha surpresa, fiz uma profunda

vénia e entreguei—lhe a écharpe. Ele recebeu-a com a mão esquerda e

num gesto impulsivo abençoou-me com a mão direita. Este gesto tinha

muito menos a ver com o cerimonioso toque de mão do que com uma

impetuosa expressão de sentimento por parte de um rapaz que tinha

finalmente conseguido o que queria. Na sala estavam três monges de

cabeça curvada — os guardiões de Sua Santidade. Eu conhecia-os bem

a todos e não pude deixar de reparar na frieza do olhar com que

retribuíram o meu cumprimento. Certamente não aprovavam esta

intromissão no seu domínio, mas não se atreviam a opor-se

abertamente à vontade do Dalai Lama.O jovem soberano era muito

mais cordial. Com uma face radiante, soterrou-me com uma avalancha

de perguntas. Parecia-me uma pessoa que durante anos reflectira em

solidão sobre vários problemas, e que agora, quando finalmente tinha

alguém com quem conversar, queria saber todas as respostas de uma só

vez. Não me dava tempo para pensar nas respostas, pressionava-me

para ir para o projector e passar um filme que ele queria ver há muito.

Era um documentário sobre a rendição do Japão. Veio comigo para a

cabine de projecção e mandou os abades sentarem-se na plateia como

espectadores.

Eu devo ter parecido lento e desastrado no manuseamento do

projector pois ele, impacientemente, empur-rou-me para o lado e,

pegando no filme, mostrou-me que era um projeccionista muito mais

experiente do que eu. Disse-me que tinha passado o Inverno todo a

aprender como trabalhar com o aparelho e que tinha inclusivamente

desmontado e montado novamente um projector. Percebi então, pela

primeira vez, que ele gostava de ir ao fundo das questões, em vez de as

considerar como factos consumados. E assim, mais tarde, como

qualquer bom pai que anseia por merecer o respeito do seu filho,

frequentemente eu passava noites a relembrar conhecimentos

semiesque-cidos ou a estudar novos assuntos. Tive o maior cuidado em

tratar todas as questões de forma séria e científica, pois era claro para

mim que os meus ensinamentos iriam ser a base de todo o seu

conhecimento sobre o mundo ocidental.O seu talento para coisas

técnicas era óbvio e sur-preendeu-me logo no nosso primeiro encontro.

Era uma proeza notável para um rapaz de catorze anos desmontar

completamente um projector e depois montá-lo correctamente sem

qualquer ajuda, pois não sabia ler o prospecto em inglês. Agora que o

filme rodava sem qualquer problema, ele estava deliciado com esta

concretização e não encontrava melhores elogios para o meu trabalho.

Sentámo-nos juntos na sala de projecção e assistimos ao filme através

das vigias na parede; e ele apreciou ao máximo tudo o que viu e ouviu,

muitas vezes apertando as minhas mãos excitadamente, com a

vivacidade própria da juventude. Embora fosse a primeira vez na sua

vida que se encontrava sozinho com um homem de outra raça, não

estava de forma alguma embaraçado ou tímido. Enquanto punha o

próximo filme na bobina, pôs-me o microfone nas mãos e insistiu que

eu falasse. Ao mesmo tempo olhou pelas vigias para o teatro

iluminado electricamente onde os seus tutores estavam sentados em

carpetes. Eu podia perceber a sua expectativa em observar as caras

atónitas dos leais abades quando subitamente uma voz soasse através

dos altifalantes. Eu não queria desapontá-lo e por isso convidei o

público imaginário a permanecer nos seus lugares pois o próximo

filme iria mostrar cenas sensacionais do Tibete. Ele riu-se

entusiasticamente das expressões surpresas e chocadas dos monges

quando ouviram o meu tom de voz alegre e desrespeitoso. Tal

linguagem, descontraída e informal, nunca tinha sido usada na

presença do Divino Soberano, cujos olhos brilhantes mostravam o

quanto ele estava a apreciar a situação.

Mandou-me rodar o filme que eu tinha feito em Lassa enquanto

cuidava dos interruptores. Eu estava tão curioso como ele para ver os

resultados, pois era a minha primeira longa-metragem. Um conhecedor

poderia encontrar muitos defeitos nele, mas para nós era bastante

satisfatório. Continha os meus registos do «Pequeno Festival do Ano

Novo. Até mesmo os formais abades esqueceram a sua postura quando

se reconheceram a si próprios na tela. Ouve uma gargalhada geral

quando surgiu uma imagem em grande plano do ministro que tinha

adormecido durante as cerimónias. Não havia malícia nessa

gargalhada, pois cada um dos abades por vezes tinha que lutar para não

adormecer durante essas intermináveis festividades. De qualquer

forma, a classe alta deve ter ficado a saber que o Dalai Lama tinha

testemunhado a fraqueza do seu ministro, pois daí em diante sempre

que eu aparecia com a minha câmara toda a gente se levantava e

posava.

O próprio Dalai Lama foi quem mais gostou dos filmes. Os seus

habituais movimentos lentos tornaram-se animados e cheios de vida e

ele comentava entusiasticamente todos os filmes. Passado um bocado

pedi-lhe para exibir um filme que ele próprio tinha feito. Respondeu-

me modestamente que não se atrevia a apresentar os seus esforços de

aprendiz depois dos filmes que tínhamos acabado de ver. Mas eu

estava ansioso por saber que temas ele tinha escolhido para filmar e

persuadi-o a passar a sua bobina. Ele não tivera certamente muitas

opções de escolha, pois tinha registado uma imagem abrangente da

paisagem do vale de Lassa, mas demasiadamente rápido. Seguiram-se

então imagens distantes e mal iluminadas de nobres a cavalo e

caravanas a atravessarem o Shó. Um grande plano do seu cozinheiro

demonstrava que ele gostaria de ter feito retratos fotográficos. O filme

que me mostrou era a sua primeira tentativa e tinha sido feito sem

instruções ou ajuda. Quando terminou, pediu-me para anunciar através

do microfone que a sessão estava encerrada. Abriu então a porta que

dava para o salão, disse aos abades que já não precisava deles e

dispensou-os com um aceno da mão. Mais uma vez ficou claro para

mim que aqui não estava uma marioneta animada, mas sim uma

personalidade bem definida capaz de impor a sua vontade aos

outros.Quando ficámos sozinhos, arrumámos os filmes e cobrimos as

máquinas com as capas amarelas. Sentámo-nos então numa magnífica

carpete, iluminados pelo sol que entrava pelas janelas abertas.

Felizmente, eu já tinha adquirido há muito tempo o hábito de sentar-

me de pernas cruzadas, pois as cadeiras e as almofadas não fazem

parte do mobiliário doméstico do Dalai Lama. A princípio pensei em

recusar o seu convite para me sentar, ciente de que nem os ministros

devem sentar-se na sua presença, mas ele simplesmente agarrou-me

pela manga e puxou-me para baixo, o que pôs fim à minha hesitação.

Disse-me que vinha planeando este encontro há muito tempo, pois não

conseguia descobrir outra maneira de se familiarizar com o mundo

exterior. Já esperava que o Regente levantasse objecções, mas estava

determinado a levar por diante as suas intenções e já tinha pensado

numa solução em caso de oposição. Estava resolvido a ampliar os seus

conhecimentos para além dos assuntos puramente religiosos, e parecia

—lhe que eu era a única pessoa que o poderia ajudar nessa tarefa. Não

fazia ideia de que eu era um professor qualificado, e se soubesse,

provavelmente isso não o teria influenciado. Perguntou a minha idade

e ficou surpreendido por saber que eu tinha apenas trinta e sete anos.

Tal como muitos tibetanos, pensava que o meu cabelo «amarelo era um

sinal de idade. Estudou as minhas feições com uma curiosidade infantil

e troçou do meu longo nariz que, apesar de ter um tamanho normal

para os nossos padrões, muitas vezes atraía a atenção dos mongóis,

cujos narizes eram achatados. Por fim reparou que eu tinha pêlos na

parte externa das mãos e comentou com um grande sorriso: «Henrig,

tu és peludo como um macaco. Eu tinha uma resposta pronta, pois

conhecia a lenda segundo a qual os tibetanos descendem da união do

seu deus Chen-rezi com um demónio feminino. Antes de copular com

a sua amante-demónio, Chenrezi tinha assumido a forma de um

macaco, e como o Dalai Lama é uma das Encarnações deste deus, eu

achei que ao comparar-me com um macaco ele estava realmente a

elogiar-me.Com observações como esta a nossa conversa em breve se

tornou descontraída e ambos perdemos a nossa timidez. Eu sentia

agora o magnetismo da sua personalidade, que nos nossos primeiros e

superficiais contactos eu apenas pressentira. A sua compleição era

muito mais frágil do que a do tibetano médio. Os seus olhos,

imperceptivel-mente mais rasgados do que os da maioria dos europeus,

eram cheios de expressão, charme e vivacidade. As maçãs do seu rosto

reluziam com a excitação, e enquanto estava sentado mexia-se

constantemente para um lado e para o outro. As suas orelhas

salientavam-se ligeiramente da cabeça, o que era uma característica do

Buda; e conforme vim a saber mais tarde, eram um dos sinais pelos

quais ele tinha sido reconhecido como uma Encarnação na infância. O

seu cabelo era mais longo do que o habitual. Provavelmente usava-o

assim como medida de protecção contra o frio do Potala. Era alto para

a sua idade e tudo indicava que ia alcançar a estatura dos seus pais, que

tinham ambos uma figura notável. Infelizmente, em consequência de

muitas horas de estudo, sentado e com o corpo inclinado para a frente,

tinha uma má postura. Tinha mãos bonitas e aristocráticas com dedos

compridos, geralmente dobrados numa atitude de paz. Reparei que

olhava espantado para as minhas mãos quando eu enfatizava com um

gesto o que estava a dizer. A gesticulação é algo completamente

estranho para os tibetanos, que na sua atitude de repouso expressam a

calma asiática. Usava sempre um robe vermelho de monge, outrora

prescrito por Buda, e o seu traje não diferia em nada do que era usado

pelas autoridades monásticas.O tempo passou rapidamente. Parecia

que uma represa tinha rebentado, tal era a urgência e a continuidade da

torrente de questões que ele me colocava. Eu estava estupefacto com a

quantidade de conhecimentos dispersos que ele tinha adquirido através

de livros e jornais. Possuía uma obra inglesa em sete volumes sobre a

Segunda Guerra Mundial que tinha mandado traduzir para o tibetano.

Sabia distinguir os vários tipos de aviões, automóveis e tanques. Os

nomes de personagens como Churchill, Eisen-hower e Molotov eram-

lhe familiares, mas como não tinha ninguém a quem fazer perguntas,

por vezes não sabia como as pessoas e os eventos se relacionavam

entre si. Agora estava feliz porque tinha encontrado alguém a quem

podia fazer todas as perguntas que o vinham intrigando há anos.

Deviam ser aproximadamente três da tarde quando Sopõn Khenpo

veio avisar que estava na hora da refeição. O dever deste abade era

cuidar do bem-estar físico do Da-lai Lama. Levantei-me

imediatamente com a intenção de me retirar, mas o Rei Divino

mandou-me sentar novamente e disse ao abade para regressar mais

tarde. Nessa altura, com toda a modéstia, mostrou-me um caderno de

exercícios com toda a espécie de desenhos na capa e pediu-me para

examinar os seus trabalhos. Para minha surpresa vi que ele tinha

transcrito as letras maiúsculas do alfabeto latino. Que versatilidade e

que iniciativa! Estudos religiosos exaustivos, experiências com

aparelhos mecânicos, e agora línguas modernas! Ele insistiu para que

eu começasse imediatamente a ensinar-lhe inglês, transcrevendo a

pronúncia em elegantes caracteres tibetanos. Deve ter-se passado mais

uma hora e Sopõn Khenpo apareceu novamente, e desta vez insistiu

que o seu mestre jantasse. Tinha um prato com bolos, pão branco e

queijo de ovelha e queria oferecer-mos. Como eu recusei, ele

embrulhou a comida num pano branco para que eu a levasse para casa.

Mas o Dalai Lama ainda não queria terminar a nossa conversa. Num

tom meigo suplicou ao seu mordomo para esperar um pouco mais.

Com um olhar carinhoso para o seu amo, o abade concordou e saiu. Eu

tinha a sensação de que ele era tão afeiçoado e dedicado ao rapaz como

se fosse seu pai. Este ancião de cabelos brancos tinha servido o décimo

terceiro Dalai Lama nas mesmas funções e tinha permanecido ao

serviço. Isto era um grande tributo à sua dedicação e lealdade, pois

quando há uma troca de amos há uma troca de servos. O Dalai Lama

sugeriu que eu visitasse a sua família no Norbulingka durante o Verão.

Dis-se-me para aguardar na casa deles até que ele me mandasse

chamar. Quando parti, apertou a minha mão calorosamente — outra

novidade para ele.

A medida que caminhava pelo jardim deserto e corria os ferrolhos do

portão, mal podia acreditar que tinha acabado de passar cinco horas

com o Rei Divino do Tibete. Um jardineiro fechou o portão atrás de

mim e a guarda, que já tinha sido rendida mais de uma vez desde a

minha chegada, apresentou armas um tanto surpreendida. Cavalguei

lentamente de regresso a Lassa e, se não fosse pela trouxa de bolos que

levava comigo, teria pensado que tudo não passava de um sonho. Qual

dos meus amigos acreditaria em mim se lhe dissesse que tinha estado

várias horas sozinho a conversar com o Dalai Lama?Será

desnecessário dizer que eu estava muito feliz com os meus novos

deveres. Ser o instrutor deste inteligente rapaz — soberano de um país

tão grande como a França, Espanha e Alemanha juntas — na cultura e

ciência do mundo ocidental, parecia ser, no mínimo, uma tarefa

meritória.Nessa mesma noite consultei algumas revistas que

continham detalhes sobre a construção de aviões a jacto, acerca dos

quais nesse dia o meu jovem pupilo me fizera algumas perguntas a que

eu não soube responder. Tinha prometido dar-lhe explicações

completas no nosso próximo encontro. À medida que o tempo passava,

fui sempre preparando o material para as nossas lições, pois queria

introduzir algum método na instrução deste estudante aplicado.

Tive muitas contrariedades devido à sua insaciável curiosidade, que

o levava a fazer perguntas que conduziam a áreas completamente

novas. E eu só podia responder a muitas destas questões baseado no

melhor do meu saber. Para poder discutir a bomba atómica, por

exemplo, eu tinha que falar-lhe sobre os elementos. Isso conduzia a

uma decomposição dos metais, para os quais não havia nenhuma

palavra genérica em tibetano, por isso eu era obrigado a entrar em

detalhes sobre os diferentes tipos de metais — um assunto que,

naturalmente, trazia consigo uma avalancha de questões.

A minha vida em Lassa tinha entrado agora numa nova fase. A

minha existência tinha um propósito. Já não me sentia insatisfeito ou

incompleto. Não abandonei o meu trabalho anterior. Ainda

seleccionava notícias para o ministro e ainda desenhava mapas. Mas

agora os dias eram curtos e eu trabalhava frequentemente pela noite

dentro. Tinha pouco tempo para distracções ou lazer, pois quando o

Dalai Lama me convocava eu tinha que estar disponível. Em vez de ir

a festas de manhã, como os outros faziam, eu chegava ao fim da tarde.

Mas isso não era nenhum sacrifício. Eu estava feliz porque a minha

vida tinha um propósito. As horas que eu passava com o meu pupilo

eram tão instrutivas para mim como para ele. Ele ensinava-me muito

sobre a história do Tibete e sobre os ensinamentos de Buda. Era uma

verdadeira autoridade nestas matérias. Muitas vezes debatíamos

assuntos religiosos durante horas e ele estava convencido de que ia

conseguir converter-me ao Budismo. Disse-me que estava a estudar

livros que continham informação sobre os ancestrais mistérios segundo

os quais o corpo podia ser separado do espírito. A história do Tibete

está repleta de relatos sobre santos cujos espíritos costumavam

manifestar-se a centenas de quilómetros de distância dos seus corpos

físicos. O Dalai Lama estava convencido de que por meio da sua fé e

dos rituais prescritos conseguiria fazer coisas acontecer em lugares

longínquos como Samye. Quando já tinha feito progressos suficientes,

disse que iria mandar-me para lá e dar-me instruções a partir de Lassa.

Lembro-me de lhe responder com uma gargalhada: «Está bem,

Kundiin, quando conseguir fazer isso vou tornar-me budista também.

Infelizmente, nunca chegámos a fazer essa experiência. O começo da

nossa amizade foi ensombrado por nuvens políticas. O tom da Rádio

Pequim tornou-se cada vez mais arrogante e Chiang Kai-Shek já se

tinha refugiado na Formosa com o seu governo. A Assembleia

Nacional em Lassa reunia-se constantemente; novas tropas eram

recrutadas, no Shõ realizavam-se paradas e exercícios militares, e o

próprio Dalai Lama consagrou as novas cores do exército.Fox, o

operador de rádio inglês, tinha muito que fazer, pois todas as unidades

militares tinham que ter pelo menos um rádio transmissor.A

Assembleia Nacional tibetana, que toma todas as decisões políticas

importantes, é composta por cinquenta funcionários seculares e

monásticos. É presidida por quatro abades de Drebung, Será e Ganden,

tendo cada um deles um monge e um tesoureiro ao seu serviço. Os

outros membros da Assembleia, tanto os seculares como os religiosos,

pertencem aos vários gabinetes do governo mas nenhum dos quatro

ministros do Gabinete é membro. A tradição manda que o Gabinete se

reúna numa câmara adjacente e aprove todas as decisões da

Assembleia, sem direito a veto. A decisão final em todas as questões

cabe

Tibete. Ele tinha-me encarregado de lhe dar explicações de Inglês,

Geografia e Aritmética. Para além disso, eu tinha que cuidar do seu

cinema e mantê-lo actualizado com os acontecimentos internacionais.

Decidiu aumentar o meu salário por iniciativa própria, pois embora

não estivesse ainda oficialmente autorizado a dar ordens, bastava-lhe

expressar um desejo para que este fosse concretizado.

Surpreendia-me constantemente com o seu poder de compreensão, a

sua perspicácia e a sua capacidade de trabalho. Quando eu lhe

entregava como trabalhos de casa dez frases para traduzir, ele

geralmente aparecia com vinte. Era muito rápido a aprender línguas,

como a maioria dos tibetanos. E bastante comum que as pessoas da

classe alta e os homens de negócios falem mongol, chinês, nepa-lès e

hindi. A maior dificuldade do meu pupilo era pronunciar a letra «F,

que não existe em tibetano. Como o meu inglês estava longe de ser

perfeito, costumávamos ouvir as notícias em inglês num rádio portátil

e tirávamos grande proveito das passagens faladas a uma velocidade

de ditado.Tinham-me dito que num dos escritórios do governo

existiam vários livros escolares de inglês em pastas seladas. A

sugestão foi dada a um ministro e no mesmo dia os livros foram

enviados para Norbulingka. Construímos uma pequena biblioteca para

os livros na sala de cinema. O meu pupilo estava deliciado com esta

descoberta, que era algo de extraordinário para Lassa. Quando reparei

no seu zelo e sede de conhecimento senti-me envergonhado ao pensar

na minha própria adolescência.

Havia também inúmeros livros em inglês e mapas do Estado do

décimo terceiro Dalai Lama, mas reparei que estavam muito novos e

que obviamente não tinham sido lidos. O falecido soberano tinha

aprendido muito durante as suas viagens pela índia e pela China, e o

seu conhecimento sobre o mundo ocidental devia-se à sua amizade

com Sir Charles Bell. O nome deste inglês já me era familiar e durante

o meu internamento tinha lido os seus livros. Ele era o grande campeão

da independência tibetana. Como diplomata em Sikkim, no Tibete e no

Butão, ele tinha ficado a conhecer o Dalai Lama na sua fuga para a

índia. Esse foi o começo de uma grande amizade entre os dois homens,

que durou muitos anos. Sir Charles Bell foi, sem dúvida, o primeiro

homem branco a entrar em contacto com um Dalai Lama.

O meu jovem pupilo ainda não estava em posição para viajar, mas

isso não diminuía o seu interesse pela geografia mundial, que em breve

iria tornar-se a sua matéria favorita. Eu desenhava-lhe grandes mapas-

múndi e outros da Ásia e do Tibete. Com a ajuda de um globo pude

expli-car-lhe a razão de a Rádio Nova Iorque estar onze horas atrasada

em relação à nossa. Em pouco tempo eleja se sentia em casa em todos

os países e estava tão familiarizado com o Cáucaso como com os

Himalaias. Orgulhava-se particularmente com o facto de que o ponto

mais alto do mundo se localizava nas suas fronteiras e, como muitos

tibetanos, ficava atónito ao saber que poucos países excediam em área

o seu reino.

As nossas tranquilas lições foram perturbadas este Verão por um

fatídico acontecimento. A 15 de Agosto um violento terramoto causou

o pânico na Cidade Sagrada. Mais um mau presságio! O povo mal se

tinha recomposto do susto provocado pelo cometa, que no ano anterior

tinha estado visível de dia e de noite como uma reluzente cauda de

cavalo nos céus. Os mais velhos lembravam-se de que o último cometa

tinha sido o precursor de uma guerra com a China.

O terramoto chegou como uma surpresa total, sem quaisquer

tremores premonitórios. As habitações de Lassa começaram

subitamente a tremer e ouviram-se à distância umas quarenta

detonações abafadas, sem dúvida causadas por uma fenda na crosta

terrestre. No céu límpido avistava-se um imenso clarão a este. Os

tremores duraram dias. A rádio indiana relatou grandes desabamentos

na província de Assam, que faz fronteira com o Tibete. Montanhas e

vales foram deslocados e o Brahmaputra, que foi bloqueado por uma

montanha desmoronada, causou imensa devastação. Só algumas

semanas mais tarde é que chegaram a Lassa informações da verdadeira

dimensão da catástrofe no próprio Tibete. O epicentro do terramoto

deve ter sido no sul do Tibete. Centenas de monges e freiras ficaram

soterrados nos seus mosteiros de rocha e muitas vezes não houve

sobreviventes para fazer chegar as notícias à autoridade distrital mais

próxima. Algumas torres foram rachadas ao meio, deixando paredes

em ruínas apontadas para o céu; e seres humanos, como que

arrancados pela mão de um demónio, desapareciam tragados pela terra.

Os maus augúrios multiplicavam-se. Nasciam monstros. Certa

manhã o capitel da coluna de pedra na base do Potala foi encontrado

no chão em fragmentos. Foi em vão que o governo enviou monges

para os centros do mau olhado para banir os espíritos malignos com as

suas orações; e quando num dia de calor abrasador começou a brotar

água de uma goteira na Catedral, a população de Lassa ficou

aterrorizada. Sem dúvida que havia explicações naturais para todos

estes acontecimentos, mas se os tibeta-nos perdessem a sua superstição

perderiam também uma qualidade. É preciso lembrar que se os maus

presságios podem desmoralizá-los pelo medo, os bons agoiros

inspiram-lhes força e confiança.

O Dalai Lama era mantido ao corrente de todos estes eventos

sinistros. Embora fosse tão supersticioso como o seu povo, tinha

sempre curiosidade de ouvir as minhas opiniões sobre estas coisas.

Nunca nos faltava assunto para conversa e o nosso tempo de aula era

sempre insuficiente. Na verdade, ele passava as suas horas de lazer

comigo, e pouca gente se apercebia de que ele estava a usar o seu

tempo livre para estudar ainda mais. Era pontual com o seu programa;

e se aguardava com prazer a minha chegada, isso não o impedia de

interromper a nossa conversa quando o relógio lhe indicava que o

nosso tempo se esgotara e que um professor de religião o aguardava

num dos pavilhões.Uma vez, por casualidade, fiquei a saber o quanto

ele valorizava as nossas lições. Certo dia iriam realizar-se muitas

cerimónias e por isso eu não contava ser chamado a Norbulingka,

assim, fui com uns amigos dar um passeio a uma colina próxima da

cidade. Antes de sair disse ao meu criado para me fazer um sinal com

um espelho se o Dalai Lama me mandasse chamar. A hora habitual o

sinal chegou e eu corri a toda a velocidade de regresso à cidade. O meu

criado aguardava-me com um cavalo junto ao/èrry mas, apesar da

minha pressa, cheguei dez minutos atrasado. O Dalai Lama correu ao

meu encontro e, excitado, agarrou nas minhas mãos e disse: «Onde

estiveste este tempo todo? Estou há tanto tempo à tua espera, Henríg.

Pedi-lhe que me perdoasse por o ter perturbado. Foi só então que eu

percebi o quanto estas horas significavam para ele.

No mesmo dia estiveram presentes a sua mãe e o irmão mais novo, e

eu mostrei-lhes um dos oitenta filmes que o Dalai Lama possuía. Foi

muito interessante para mim observar mãe e filho juntos. Eu sabia que,

a partir do momento do reconhecimento oficial do jovem como

Encarnação do Buda, a família não tinha mais direitos sobre ele como

filho ou irmão. Por essa razão, a visita da sua mãe era uma espécie de

evento oficial, para o qual ela se preparava com as suas melhores

roupas e jóias. Quando partiu, ela curvou-se diante dele e ele tocou-a

na cabeça numa bênção. Este gesto expressava bem o relacionamento

que existia entre estas duas pessoas. A mãe não recebeu sequer a

bênção com as duas mãos, que estava reservada apenas para monges e

altos funcionários.

Muito raramente acontecia sermos interrompidos quando estávamos

juntos. Uma vez, um monge do corpo da guarda trouxe-lhe uma carta

importante. O enorme indivíduo atirou-se três vezes ao chão, susteve a

respiração com um som ofegante, como exige a etiqueta, e entregou a

carta. Retirou-se então da sala, recuando, e fechou silenciosamente a

porta atrás de si. Nestes momentos eu tinha plena consciência de como

eu próprio infringia terrivelmente o protocolo.A carta provinha do

irmão mais velho do Dalai Lama, o abade de Kumbum na província

chinesa de Chinghai. Os Vermelhos já detinham o poder aí e

esperavam agora influenciar o Dalai Lama a seu favor através do seu

irmão Tagtsel Rinpoche. A carta anunciava que Tagtsel vinha a

caminho de Lassa.

Nesse mesmo dia visitei a família do Dalai Lama. A sua mãe

repreendeu-me quando cheguei. O seu amor de mãe não tinha deixado

de reparar o quanto ele dependia de mim e que ele tinha consultado o

relógio várias vezes enquanto me esperava. Expliquei as razões do

meu atraso e consegui convencê-la de que a minha falta de

pontualidade não ficara a dever-se a um descuido. Quando me fui

embora ela implorou-me para nunca esquecer como eram poucas as

oportunidades que o filho tinha de se dedicar a fazer algo de que

gostava. Talvez tenha sido bom que ela constatasse por si própria o

quanto significavam as nossas lições para o Dalai Lama. Após alguns

meses toda a gente em Lassa sabia para onde eu me dirigia a cavalo

por volta do meio-dia. Como era de esperar, os monges criticavam as

minhas visitas regulares, mas a sua mãe defendeu os desejos do

filho.Da vez seguinte que passei pelo portão amarelo e entrei no

Jardim Interior julguei ver o Dalai Lama a tentar avistar-me da sua

pequena janela, e pareceu-me que usava óculos. Isto surpreendeu-me

pois nunca o tinha visto com óculos postos. Em resposta à minha

questão, ele disse-me que já há algum tempo que tinha dificuldades

com a vista e portanto passara a usar óculos para estudar. O seu irmão

tinha-lhe arranjado um par através da Legação Indiana. Provavelmente

tinha estragado a vista quando era criança, quando a sua única

distracção era observar Lassa através do telescópio durante horas a fio.

Para além disso, a leitura e o estudo na penumbra do Potala não

melhoravam exactamente a visão. Nesta ocasião ele usava uma jaqueta

vermelha sobre o seu robe monástico. Tinha-a desenhado ele próprio e

orgulhava-se muito disso, mas só se permitia usá-la nos momentos de

lazer. A principal novidade desta vestimenta era o facto de ter bolsos.

As roupas tibetanas não têm nenhuns, mas o designer tinha reparado

na existência de bolsos nas ilustrações dos jornais e nos meus casacos

e apercebera-se da sua utilidade. Agora, como qualquer rapaz da sua

idade, tinha a possibilidade de trazer consigo um canivete, uma chave

de fendas, doces, etc. Agora também trazia nos bolsos os seus lápis de

cor e a sua caneta de aparo e era, sem dúvida, o primeiro Dalai

Lama a ter prazer com tais coisas. Também se interessava muito pela

sua colecção de relógios, alguns dos quais tinha herdado do décimo

terceiro Dalai Lama. O seu favorito era um Omega com calendário,

que tinha comprado com o seu próprio dinheiro. Durante a menoridade

ele só podia dispor do dinheiro que era deixado como oferta aos pés do

seu trono. Futuramente, os cofres do tesouro do Potala e o Jardim das

Jóias ser-lhe-iam franqueados e, como soberano do Tibete, iria tornar-

se num dos homens mais ricos do mundo.

 

A INVASÃO DO TIBETE

«Deixem o Dalai Lama governar» — O reconhecimento da

Encarnação — Os Vermelhos invadem o Tibete — Preparativos para a

fuga do Dalai Lama.

Pela primeira vez, ouviam-se agora em público vozes afirmando que

a maioridade do Dalai Lama devia ser declarada oficialmente antes de

atingir a idade normal. Nestes tempos difíceis, o povo queria ter um

soberano jovem e insubstituível no trono para não continuar à mercê

do grupo corrupto e impopular que rodeava o Regente. O actual

regime não estava à altura de ser um apoio e um exemplo para um

povo ameaçado pela guerra.

Por esta altura, algo sem precedentes ocorreu em Lassa. Certa manhã

encontrámos cartazes nas paredes da rua que conduzia ao Norbulingka

com os dizeres «Dêem o poder ao Dalai Lama». A sublinhar este apelo

seguia-se uma série de acusações contra os favoritos do Regente.

Falámos destes cartazes durante o meu encontro seguinte com Sua

Santidade, que já tinha ouvido falar deles pelo seu irmão. Adivinhava-

se que os monges de Será estariam por trás disto. O Dalai Lama não

estava nada satisfeito com o rumo das coisas e não se considerava

pronto para ocupar o trono. Sabia que ainda tinha muito que aprender.

Por essa razão não atribuiu muita importância aos cartazes e estava

mais interessado em prosseguir com o nosso programa de estudo. A

sua maior preocupação era saber se o seu conhecimento igualava o de

um estudante ocidental da mesma idade, ou se na Europa ele seria

classificado como um tibetano atrasado. Assegurei-lhe com toda a

honestidade que ele estava acima da média em termos de inteligência e

que lhe seria fácil alcançar o conhecimento superior dos rapazes

europeus. Não era só o Dalai Lama que sofria deste complexo de

inferioridade. Ouve-se constantemente os tibetanos dizerem «Não

sabemos nada. Somos tão estúpidos!». Mas é claro que o facto de o

afirmarem prova o contrário. Os tibetanos são tudo menos fracos de

espírito: e ao fazerem este juízo, estão a confundir educação com

inteligência.Com a ajuda da Legação Indiana, de tempos a tempos eu

conseguia arranjar um drama para o nosso cinema. Queria acumular

um repertório mais completo de forma a agradar ao Dalai Lama. O

primeiro dos filmes dramáticos que arranjei era. Henrique Ve eu estava

curioso para ver a reacção do jovem soberano. Ele autorizou os seus

abades a estarem presentes na sessão e, quando a sala ficou escura, os

cozinheiros e os jardineiros que trabalhavam no interior do muro

amarelo entraram sorrateiramente. A audiência sentava-se nas carpetes

do chão do cinema, enquanto o Dalai Lama e eu nos sentávamos como

habitualmente nas escadas que ligavam o auditório à sala de projecção.

Eu sussurrava-lhe uma tradução dos diálogos em simultâneo e tentava

responder às suas perguntas. Felizmente, eu tivera o cuidado de me

preparar, porque não é fácil para um alemão traduzir o inglês de

Shakespeare para tibetano. O público ficava um tanto embaraçado com

as cenas amorosas, que cortei na vez seguinte que passámos o filme. O

Kundún estava entusiasmado com a história. Interessava-se

profundamente pelas vidas de grandes homens, e o seu interesse não se

limitava a reis. Queria saber tudo sobre generais e cientistas e estudar

os seus feitos. Assistiu a um documentário sobre Mahatma Gandhi

várias vezes. Mahatma era uma figura muito venerada no Tibete.

Eu já tinha razões para aprovar o seu gosto. Uma vez, quando

estávamos a seleccionar uma série de filmes, ele pôs de parte todas as

fitas cómicas ou de mero entretenimento e pediu-me que as trocasse. O

seu interesse estava voltado para temas educacionais, militares e

culturais. Uma ocasião quis agradar-lhe mostrando um filme

particularmente belo sobre cavalos, mas tive que admitir que o assunto

não o atraía. «É engraçado», disse ele, «como o corpo anterior» —

referindo-se assim ao décimo terceiro Dalai Lama — «gostava tanto de

cavalos e agora significam tão pouco para mim».Durante este período

ele crescia muito rapidamente e apresentava as características habituais

da idade difícil. Uma vez deixou cair o seu fotómetro e ficou infeliz

por isso, como uma pobre criança que partiu o seu único brinquedo.

Lembrei-lhe que ele era o soberano de um grande domínio e que podia

comprar quantos fotómetros quisesse. A sua modéstia era um perpétuo

motivo de admiração para mim. A criança de um comerciante rico era

muito mais mimada do que ele. O seu modo de vida era ascético e

solitário, e havia muitos dias em que jejuava e mantinha silêncio. O

seu irmão Lobsang Samten era a única pessoa que podia fazer-lhe

companhia livremente, mas embora fosse mais velho do que ele, era

mentalmente muito menos desenvolvido. No início das nossas lições o

Dalai Lama tinha insistido que o seu irmão participasse, mas para

Lobsang esta obrigação era um tormento e pedia-me constantemente

para arranjar desculpas para a sua ausência. Con-fessou-me que não

conseguia compreender as nossas conversas e que tinha que lutar para

manter-se acordado. Por outro lado, tinha uma compreensão muito

mais prática dos assuntos governamentais e já estava apto a ajudar o

irmão no cumprimento dos seus deveres oficiais.Kundún aceitava com

resignação as frequentes desculpas do irmão, facto que me

surpreendeu, pois Lobsang tinha-me dito como ele costumava ser

impaciente quando era criança. Não restava nenhum vestígio desse

temperamento; na realidade, ele era demasiado contido e sério para a

sua idade. Mas quando se ria, ria-se com tanta vontade como qualquer

criança comum, e adorava piadas inofensivas. As vezes costumava

fingir jogar boxe comigo e gostava de me provocar.Apesar da sua

predisposição para a influência ocidental, ele tinha no entanto que se

conformar com as tradições seculares da sua posição. Todos os

objectos que tinham servido para uso pessoal do Dalai Lama eram

considerados um remédio supremo para doenças ou como protecção

contra espíritos malignos. Havia uma enorme competição pelos bolos e

frutas que eu costumava trazer da cozinha de Sua Santidade, e eu não

podia dar maior alegria aos meus amigos do que partilhar estas coisas

com eles.

Eu sabia o quanto o jovem rei desejava poder um dia conduzir o seu

povo para fora do nevoeiro da triste superstição. Nós sonhávamos e

conversávamos horas sem fim sobre esclarecimento e reformas futuras.

Já tínhamos esboçado um plano. Propúnhamo-nos trazer para o Tibete

especialistas de países pequenos e neutros, sem interesses na Ásia.

Com a ajuda deles iríamos montar um sistema de educação e saúde

pública e treinar tibetanos para executarem o trabalho. Uma importante

tarefa estava reservada para o meu amigo Aufschnaiter. Como

engenheiro agrónomo no Tibete, ele teria mais do que o suficiente para

fazer durante o resto da sua vida. Ele próprio era um entusiasta destas

ideias e só queria poder continuar a trabalhar aqui. Eu desejava

dedicar-me a organizar a educação e sonhava poder encarregar-me da

grande tarefa de criar uma universidade com as suas diferentes

faculdades. Mas o futuro não reservava quaisquer possibilidades de

concretizar os nossos planos, e Aufschnaiter e eu éramos

suficientemente realistas para não alimentar falsas esperanças. Era

inevitável que a China comunista invadisse o Tibete e então não

haveria lugar para nós dois, amigos da independência tibetana.Quando

já tínhamos intimidade suficiente um com o outro, perguntei ao

Kundún se me poderia contar algo sobre o seu reconhecimento como

Encarnação. Eu já sabia que ele tinha nascido a 6 de Julho de 1935,

nos arredores do Lago Kuku-Nor, mas fui a única pessoa a dar-lhe os

parabéns pelo seu aniversário. Os aniversários não são datas

importantes no Tibete, geralmente não as tomam em conta e nunca são

celebradas. Para o povo, a data de nascimento do seu rei não tem

interesse nenhum. A sua pessoa representa o regresso à terra de

Chenrezi, o Deus da Graça, um dos mil Budas Vivos que renunciaram

ao Nirvana para ajudar a raça humana. Chenrezi era o deus patrono do

Tibete e as suas reincarnações foram sempre os reis de Bô — como os

nativos chamam ao Tibete. O imperador mongol Altan Khan, que tinha

abraçado o Budismo, deu o título de Dalai Lama às Encarnações. O

actual Dalai Lama era a décima quarta Encarnação. O povo

considerava-o mais como um Buda Vivo do que como um rei, e diri-

giam-lhe as suas orações não como a um soberano mas como a um

deus patrono da terra.

Não era fácil ao jovem rei satisfazer os pedidos que lhe eram feitos.

Ele sabia que devia fazer juízos divinos e que aquilo que ordenava ou

fazia era considerado infalível e passaria a fazer parte da tradição

histórica. Ele já lutava com o esforço da meditação durante dias sem

interrupção e com o profundo estudo religioso para se preparar para os

pesados deveres do seu reinado. Era muito menos auto—confiante do

que a décima terceira Encarnação. Tsarong uma vez deu-me um

exemplo típico do carácter dominante do falecido soberano. Desejava

aprovar novas leis, mas encontrou forte oposição na sua corte

conservadora, que citava as palavras do quinto Dalai Lama no mesmo

contexto. Ao que o décimo terceiro Dalai Lama respondeu: «E quem

era afinal o anterior quinto corpo?». Os monges, nessa altura,

prostraram-se diante dele, pois a sua resposta tinha-os deixado sem

fala. Sendo uma Encarnação, ele era, obviamente, não só o décimo

terceiro como também o quinto e todos os outros Dalai Lamas.

Quando ouvi esta história, ocorreu-me como o Tibete era afortunado

por nunca ter tido um soberano como Nero ou Ivan, o Terrível. Mas

esse pensamento nunca poderia ter ocorrido a um tibetano, pois uma

Encarnação do Deus da Graça só poderia ser bondosa.

O Dalai Lama não pôde dar uma resposta satisfatória à minha

pergunta sobre o modo como tinha sido descoberto. Era ainda uma

criança pequena quando isso aconteceu e tinha apenas uma lembrança

vaga do acontecimento. Quando percebeu o quanto eu estava

interessado na questão, aconselhou-me a perguntar a um dos nobres

presente na altura do reconhecimento.Uma das poucas testemunhas

oculares do evento ainda vivas era o comandante do exército, Dzaza

Kúnsangtse. Uma noite contou-me a história do misterioso

acontecimento. Algum tempo antes da sua morte em 1933, o décimo

terceiro Dalai Lama tinha dado indicações relativas à forma do seu

renascimento. Após a sua morte, o corpo permaneceu sentado no

Potala na tradicional postura de Buda, virado para sul. Uma manhã

notou-se que a sua cabeça estava virada para leste. O Oráculo do

Estado foi imediatamente consultado, e enquanto estava em transe o

monge do oráculo atirou uma écharpe branca na direcção do sol

nascente. Mas durante dois anos não houve nenhuma indicação mais

concreta. O Regente partiu então numa peregrinação a um famoso lago

para pedir aconselhamento. Diz-se que qualquer pessoa que olhe para

as águas do Chó Khor Gye pode ver uma parte do futuro. Quando o

Regente, após longas orações, se aproximou da margem e olhou para

as águas, teve uma visão de um mosteiro com três andares com

telhados dourados, próximo do qual se erguia uma pequena casa rural

chinesa com a fachada esculpida. Cheio de gratidão pela indicação

divina, regressou a Lassa e começou os preparativos para a busca.

Toda a nação se interessou vivamente pelo assunto, sentindo-se órfã

sem um patrono divino para a proteger. E um erro generalizado o

Ocidente crer que o renascimento ocorre no momento da morte do

antecessor. Isto não está de acordo com a doutrina budista, segundo a

qual podem decorrer anos antes que o deus abandone os campos do

Céu para retomar a forma humana. Expedições de busca partiram em

exploração no ano de 1937. Seguindo os sinais que tinham sido

concedidos, viajaram para leste em busca da Criança Sagrada. Os

membros destes grupos eram monges e em cada grupo havia um

funcionário secular. Todos eles levavam consigo objectos que tinham

pertencido ao décimo terceiro Dalai Lama.

O grupo ao qual o meu interlocutor pertencia viajou sob o comando

de Kyetsang Rinpoche até chegarem ao distrito de Amdo na província

chinesa de Chinghai. Nesta região existem muitos mosteiros, pois o

grande reformador do Lamaísmo, Tsong Kapa, nascera aí. A população

é parcialmente tibetana e vive pacificamente lado a lado com os

muçulmanos. O grupo encontrou vários rapazes, mas nenhum deles

correspondia às especificações. Começaram a recear falhar na sua

missão. Por fim, após longas caminhadas encontraram um mosteiro

com três andares e telhados dourados. Com um rasgo de compreensão,

lem-braram-se da visão do Regente, e então os seus olhos pousaram

sobre a moradia de fachada esculpida. Cheios de excitação, vestiram-

se com as roupas dos seus criados. Esta manobra é habitual durante

estas buscas, pois as pessoas vestidas como altos funcionários atraem

muita atenção e têm dificuldade em entrar em contacto com o povo. Os

criados, vestidos com os trajes dos seus amos, foram conduzidos para

o melhor quarto, enquanto os monges disfarçados foram para a

cozinha, onde seria provável encontrarem as crianças da casa.

Assim que entraram na casa, tiveram a certeza de que iriam encontrar

a Criança Sagrada, e aguardaram ansiosamente para ver o que ia

acontecer. E, de facto, um rapazinho com dois anos de idade veio a

correr ao seu encontro e agarrou-se às saias do Lama, que usava ao

pescoço o rosário do décimo terceiro Dalai Lama. Descaradamente a

criança gritou «Será Lama, Será Lama!». Já seria um motivo de

espanto que a criança reconhecesse um Lama disfarçado de criado e

que dissesse que ele vinha do Mosteiro de Será — o que era o caso.

Então o rapaz agarrou o rosário e abraçou-se a ele até que o Lama o

entregasse; nessa altura pendurou-o à volta do seu pescoço. Os nobres

membros da expedição tiveram que se conter para não se prostrarem

no chão diante da criança, pois já não tinham qualquer dúvida. Tinham

encontrado a Encarnação. Mas tinham que proceder da maneira

prescrita.

Despediram-se da família de camponeses e regressaram alguns dias

depois — desta vez sem disfarces. Primeiro negociaram com os pais,

que já tinham cedido um filho à Igreja como Encarnação, e então a

criança foi acordada e os quatros delegados retiraram-se com ele para a

sala do altar. Aqui a criança foi submetida ao exame prescrito.

Primeiro mostraram-lhe quatro rosários diferentes, um dos quais — o

mais usado — tinha pertencido ao décimo terceiro Dalai Lama. O

rapaz, que estava perfeitamente à vontade e nem um pouco tímido,

escolheu o rosário certo sem hesitar e dançou à volta do quarto com

ele. Também escolheu entre vários tambores um que a última

Encarnação tinha usado para chamar os seus criados. Pegou então

numa velha bengala, que também lhe tinha pertencido, sem se dignar

sequer a olhar para uma que tinha o cabo em marfim e prata. Quando

examinaram o seu corpo encontraram todos os sinais que uma

Encarnação de Chen-rezi devia apresentar: orelhas grandes e salientes

e manchas no torso que supostamente são vestígios do segundo par de

braços do deus com quatro braços.

Continuar: parte 2 de 2