Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 3 de 9 · parte 2/3

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Sr. Assassino

Dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Paige tirou o fone do gancho e discou o núm ero do telefone do carro dele. Ele atendeu na segunda cham ada:

— Marty, o que houve?

— Paige?

— O que foi tudo aquilo?

— O que foi tudo aquilo?

— Beij ar m eus seios, pelo am or de Deus, com o nos film es, felicidade.

Ele hesitou e ela pôde ouvir o leve ruído do m otor do Ford, o que significava que ele estava em trânsito. Depois de algum tem po ele disse:

— Garota, você m e confunde.

— Há um m inuto atrás, você telefonou para cá, agindo com o se...

— Não. Não fui eu.

— Você não ligou para cá?

— Não.

— Isso é um a brincadeira?

— Você está dizendo que alguém telefonou e disse que era eu?

— Sim , ele...

— Ele falava com o eu?

— Falava.

— Exatam ente com o eu?

Paige pensou sobre isso durante um m om ento.

— Bem , não exatam ente. Ele parecia um bocado com você e depois... não igual a você. É difícil explicar.

— Espero que você tenha desligado quando ele se tornou obsceno.

— Você... — ela se corrigiu: — Ele desligou. Além disso, não foi um telefonem a obsceno.

— É m esm o? E essa história de beij ar seus seios?

— Bem , não pareceu obsceno porque pensei que fosse você.

— Paige, refresque m inha m em ória... quando foi a últim a vez que eu telefonei para o seu trabalho e falei em beij ar seus seios?

Ela deu um a risada.

— Bem ... nunca, eu acho — e com o ele tam bém riu, ela acrescentou: — Mas talvez não fosse um a m á ideia de vez em quando anim ar o dia um pouco.

— Eles são m uito beij áveis.

— Obrigada.

— Seus dentes tam bém .

— Você m e fez corar — ela disse, o que era verdade.

— Tam bém o seu...

— Agora está ficando obsceno.

— É isso aí, m as eu sou a vítim a.

— Por que você diz isso?

— Foi você que ligou para mim e m e pediu para ter um a conversa suj a.

— Acho que sim . Libertação das m ulheres, sabe?

— Onde vai dar tudo isso?

Um a possibilidade perturbadora passou pela m ente de Paige, m as ela relutava em externá-la: talvez o telefonem a tivesse sido de Marty, dado pelo telefone do carro enquanto ele vivia um estado de fuga sem elhante ao da tarde de dom ingo quando, durante sete m inutos, repetira m onotonam ente aquelas duas palavras num gravador, sem que m ais tarde tivesse qualquer lem brança disso.

Ela suspeitou que a m esm a ideia houvesse ocorrido a ele porque a súbita reticência de Marty foi com parável à dela.

No final, Paige rom peu o silêncio.

— O que Paul Guthridge tinha a dizer?

— Ele pensa que é provável que sej a estresse.

— Pensa?

— Está m arcando testes para am anhã ou quarta-feira.

— Mas não ficou preocupado?

— Não. Ou fingiu que não ficou.

O estilo inform al de Paul não se refletia na m aneira com o ele prestava inform ação essencial a seus pacientes. Era sem pre direto e obj etivo. Mesm o quando Charlotte ficara m uito doente, quando alguns m édicos teriam m inim izado possibilidades m ais alarm antes para deixar que os pais se aj ustassem aos poucos ao cenário do pior caso, Paul avaliou a situação da m enina com Paige e Marty sem fazer nenhum a censura. Ele sabia que nenhum a m eia-verdade ou falso otim ism o seria confundido com com paixão. Se Paul não pareceu m ais preocupado que o norm al com a condição e com os sintom as de Marty — era um a boa notícia.

— Ele m e deu o exem plar de sobra da People — disse Marty.

— Arrá! Você diz com o se ele lhe tivesse dado um a sacola com cocô de cachorro.

— Bem , não era o que eu esperava.

— Não é tão ruim quanto você pensa — disse ela.

— Com o você sabe? Você ainda não viu.

— Mas conheço você e sei com o é com relação a essas coisas.

— Em um a das fotos, eu pareço o m onstro Frankenstein com um a trem enda ressaca.

— Eu sem pre adorei Boris Karloff.

Ele suspirou.

— Im agino que posso trocar de nom e, fazer um a cirurgia plástica e m udar para o Brasil. Mas antes de com prar a passagem para o Rio, quer que eu pegue as crianças na escola?

— Eu pego. Elas vão se atrasar um a hora hoj e.

— Oh, está certo. Segunda-feira. Aulas de piano.

— Chegarei em casa às quatro e m eia — ela disse. — Você pode m e m ostrar a People e passar a noite chorando em m eu om bro.

— Ao diabo com isso. Vou m ostrar a People e passar a noite beij ando seus seios.

— Você é especial, Marty.

— Tam bém te am o, garota.

Quando desligou, Paige sorria. Ele sem pre conseguia fazê-la sorrir, m esm o nos m om entos som brios.

Ela recusou-se a pensar no estranho telefonem a, na doença, em fugas ou fotos que faziam Marty parecer um m onstro.

Desfrute o m om ento.

Foi o que ela fez durante m ais ou m enos um m inuto, depois ligou para Millie através do intercom unicador e pediu que m andasse entrar Sam antha e Sean Acheson.

6.

Em seu gabinete, ele senta-se na cadeira de executivo atrás da escrivaninha. É confortável. Quase consegue acreditar que j á sentou nela antes.

Mesm o assim , ele está nervoso.

Ele liga o com putador. É um PC IBM com substancial capacidade de arm azenam ento no disco rígido. Um a boa m áquina. Ele não consegue lem brar-se de tê-la adquirido.

Depois que o sistem a rodou um program a de adm inistração de dados, a tela de tam anho exagerado apresenta um “Menu de Seleção Principal”, que inclui oito escolhas, a m aioria software com editor de texto. Ele escolhe o WordPerfect 5.1, que é carregado.

Ele não se recorda de ter recebido instruções sobre a operação de um com putador ou o uso do WordPerfect. Esse treinam ento está oculto em brum as de am nésia, assim com o seu treinam ento com arm as e sua m isteriosa fam iliaridade com os sistem as de ruas de várias cidades. É evidente que seus superiores acreditavam que ele precisaria com preender a operação básica de com putador e conhecer certos program as de software para que pudesse cum prir suas m issões.

A tela está lim pa.

Pronto.

No canto direito inferior da tela azul, letras e núm eros brancos lhe dizem que ele está no docum ento um , na página um , na linha um , na décim a coluna.

Pronto. Ele está pronto para escrever um rom ance. Sua obra.

Olha fixo para o m onitor em branco, tentando com eçar. Com eçar é m ais difícil do que ele esperava.

Ele trouxera um a garrafa de Corona da cozinha, suspeitando que podia precisar lubrificar seus pensam entos. Tom a um longo gole. A cervej a está fria, refrescante, e ele sabe que é o tipo da coisa que o m antém em funcionam ento.

Após dar cabo de m etade da garrafa, com a confiança renovada, ele com eça a digitar. Martela duas palavras, depois para:

O hom em

O hom em o quê?

Fita a tela durante um m inuto, depois digita “entrou no quarto”. Mas que quarto? Em um a casa? Em um prédio de escritórios? Com o é esse quarto? Quem m ais está nele? O que esse hom em está fazendo nesse quarto, por que está ali? Tem que ser um quarto? Ele poderia estar entrando em um trem , um avião, um cem itério?

Ele apaga “entrou no quarto” e substitui por “era alto”. Com que então, o hom em é alto. Tem im portância que ele sej a alto? A altura será im portante para a história? Que idade ele tem ? Qual a cor de seus olhos, de seu cabelo? Ele é branco, negro, asiático? O que está vestindo? E a propósito, precisa ser um hom em ? Não podia ser um a m ulher? Ou um a criança?

Com essas questões na m ente, ele apaga a tela e com eça a história do princípio:

O

Ele fita a tela. Ela está terrivelm ente vazia. Muito m ais vazia do que antes, não apenas cinco letras m ais vazia a partir do apagam ento de “hom em ”. As opções para seguir esse sim ples artigo “o” são ilim itadas, o que torna a escolha da segunda palavra m uito m ais assustadora do que ele teria suposto antes de sentar na cadeira de couro negro e ligar a m áquina.

Ele apaga “O”.

A tela está lim pa.

Pronta.

Ele term ina a garrafa de Corona. Ela está fria e refrescante, m as não lubrifica seus pensam entos.

Ele vai até as prateleiras e retira oito dos rom ances que ostentam seu nom e, Martin Stillwater. Leva-os para a escrivaninha e, durante algum tem po, fica sentado lendo as prim eiras e segundas páginas, tentando dar a partida em seu cérebro.

Seu destino é ser Martin Stillwater. Isso está perfeitam ente claro.

Ele será um bom pai para Charlotte e Em ily.

Será um bom m arido e am ante para a bela Paige.

E escreverá rom ances. Rom ances de m istério.

É evidente que ele j á os escreveu antes, pelo m enos um a dúzia, de m odo que pode escrever de novo. Apenas tem de readquirir o sentim ento de com o se faz, reaprender o hábito.

A tela está vazia.

Ele põe os dedos nas teclas, pronto para digitar.

A tela está tão vazia. Vazia, vazia, vazia. Zom bando dele.

Ele acredita que apenas está inibido pelo zum bido suave e persistente da ventoinha do m onitor e pelo exigente cam po eletrônico-azul do docum ento um , página um , por isso desliga o com putador. O silêncio resultante é um a bênção, m as o vidro cinzento do m onitor é ainda m ais zom beteiro do que a tela azul; desligar a m áquina parece um a confissão de derrota.

Ele precisa ser Martin Stillwater, o que significa que ele terá que escrever.

O homem. O homem era. O homem era alto com olhos azuis e cabelo louro; usava um terno azul e camisa branca e gravata vermelha, mais ou menos trinta anos de idade, e não sabia o que fazia no quarto em que entrou. Droga. Nada bom. O homem. O homem. O homem...

Ele precisa escrever, m as cada tentativa de fazê-lo atrai, rapidam ente a frustração. A frustração logo gera a raiva. O padrão conhecido. A raiva gera um ódio específico contra o com putador, um a repugnância em relação a ele, e tam bém um ódio m enos concentrado de sua posição insatisfatória no m undo, do próprio m undo, e de cada um de seus habitantes. Ele precisa tão pouco, tão pateticam ente pouco, apenas fazer parte, ser com o as outras pessoas, ter um lar e um a fam ília, ter um obj etivo que com preenda. É tanto assim ? Não quer ser rico, nem am arrar os bigodes com pessoas ricas e poderosas, nem j antar com socialites. Não está pedindo fam a. Depois de m uito esforço, confusão e solidão, ele agora tem um lar, um a esposa e duas filhas, um senso de direção, um destino, m as sente que isso está escapando dele, deslizando por entre seus dedos. Ele precisa ser Martin Stillwater, m as para ser Martin Stillwater precisa saber escrever e ele não sabe escrever, não sabe escrever, droga, não sabe escrever. Conhece o traçado das ruas de Kansas City e de outras cidades, e sabe tudo sobre arm as, sobre com o abrir fechaduras, porque eles sem earam esse conhecim ento dentro dele — sej am “eles” quem for —, m as não devem ter achado adequado im plantar o conhecim ento de com o escrever rom ances de m istério, coisa que ele precisava, oh, precisava de m aneira desesperada, se quisesse ser Martin Stillwater, se quisesse conservar sua adorável m ulher, Paige, suas filhas e seu novo destino, que está escorregando, escorregando, escorregando por entre seus dedos. Essa chance de felicidade se evaporava rápido, porque eles estavam contra ele, todos eles, o m undo inteiro predisposto contra ele, determ inado a deixá-lo sozinho e confuso. E por quê? Por quê? Ele os odeia, odeia seus esquem as e seu poder sem rosto, despreza-os e despreza suas m áquinas com tal intensidade am arga que...

Com um grito de raiva, ele bate com o punho na tela escura do com putador, batendo com ferocidade no próprio reflexo quase tanto com o na m áquina e tudo que ela representa. O barulho de vidro quebrado é alto na casa silenciosa, e o vácuo dentro do m onitor estoura sim ultaneam ente, com um breve zum bido de invasão de ar.

Ele retira as m ãos das ruínas, enquanto fragm entos de vidro ainda estão presos no teclado, e olha fixo para seu sangue brilhante. Lascas pontudas estão em pé nas m em branas e em alguns nós dos dedos. Um caco elíptico está enterrado na carne da palm a de sua m ão.

Em bora ainda estej a com raiva, pouco a pouco vai recuperando o controle sobre si m esm o. Às vezes a violência acalm a.

Ele gira a cadeira para longe do com putador a fim de ficar de frente para o lado oposto da área de trabalho em form a de U, onde se reclina para exam inar os ferim entos na luz do abaj ur com vitral. Os espinhos de vidro em sua carne cintilam com o pedras preciosas.

Só está sentindo um a dor leve, e sabe que passará logo. Ele é duro e tem recuperação rápida; desfruta de um esplêndido poder de recuperação.

Alguns fragm entos da tela não penetraram fundo em sua m ão e ele consegue arrancá-los com as unhas. Mas outros estão cravados com firm eza na carne.

Ele afasta a cadeira de escrivaninha, põe-se de pé e se dirige ao quarto de dorm ir. Vai precisar de pinças para arrancar os estilhaços m ais obstinados.

Em bora sangrasse bastante no com eço, o fluxo j á está dim inuindo. Mesm o assim , ele m antém o braço para o alto, a m ão reta, de m odo que o sangue escorra por seu punho e penetre debaixo da m anga da cam isa, em vez de pingar no tapete.

Depois de arrancar o vidro, talvez ele telefone de novo para Paige.

Ele ficou tão excitado quando encontrou o núm ero do escritório dela no Rolodex em seu gabinete, e vibrou quando falou com ela. Paige pareceu inteligente, segura de si, gentil. Sua voz tinha um tim bre um tanto quanto gutural, que ele achou sexy.

Vai ser um prêm io m aravilhoso se ela for sexy. Nessa noite, eles vão dividir a cam a. Ele a possuirá m ais de um a vez. Recordando o rosto da fotografia e a voz rouca ao telefone, ele confia em que ela irá satisfazer suas necessidades com o nunca antes foram satisfeitas, em que ela não o deixará não realizado e frustrado com o tantas outras m ulheres.

Ele espera que ela iguale ou supere suas expectativas. Espera que não haj a nenhum a razão para m achucá-la.

No quarto de dorm ir dos donos da casa, ele localiza um a pinça na gaveta onde Paige guarda sua m aquiagem , alicate de cutícula, lixas de unha e outros acessórios de enfeite.

Ele m antém a m ão sobre a pia. Em bora j á tenha parado de sangrar, o fluxo de sangue recom eça em cada ponto de onde ele arranca um pedaço de vidro. Ele abre a água quente para que as gotas de sangue escorram através do dreno.

Nessa noite, depois do sexo, talvez ele converse com Paige sobre seu bloqueio de escritor. Se j á foi bloqueado antes, ela pode lem brar-se das m edidas que ele tom ou em outras ocasiões para rom per o im passe criativo. De fato, ele tem certeza de que ela saberá a solução.

Sentindo alívio e um a agradável surpresa, ele percebe que j á não precisa m ais lidar sozinho com seus problem as. Na condição de hom em casado, tem um a parceira dedicada com quem com partilhar os m uitos problem as do dia-a-dia.

Erguendo a cabeça, olhando para seu reflexo no espelho atrás da pia, ele arreganha um sorriso e diz:

— Agora eu tenho um a esposa.

Ele nota um a m ancha de sangue na face direita, outra ao lado do nariz.

E diz, dando um a risada baixa:

— Você é tão desaj eitado, Marty. Tem que lim par sua ação. Agora você tem um a m ulher. As m ulheres gostam que seus m aridos sej am lim pos.

Retorna sua atenção para a m ão e, com a pinça, tira o últim o vidro espinhento.

Com um hum or cada vez m elhor, ele ri de novo e diz:

— A prim eira coisa que farei am anhã será sair de casa para com prar um m onitor novo para o com putador.

E balança a cabeça, surpreso com o próprio com portam ento infantil.

— Você é um a outra coisa, Marty — diz ele. — Mas im agino que os escritores devam ser tem peram entais, hem ?

Após tirar a últim a lasca de vidro da m em brana entre os dois dedos, ele se livra da pinça e coloca a m ão ferida debaixo da água quente.

— Não posso m ais continuar assim . Não dá m ais. Vou m atar de susto a pequena Em ily e Charlotte.

Olha de novo para o espelho, balança a cabeça, sorrindo.

— Seu m aluco — diz para si m esm o, com o se estivesse falando afetuosam ente com um am igo cuj os defeitos acha encantadores. — Que m aluco.

A vida é boa.

7.

O céu cor de chum bo baixou sob seu próprio peso. Segundo um noticiário de rádio, a chuva cairia com o crepúsculo, garantindo engarrafam entos na hora do rush que tornariam o inferno preferível à autoestrada San Diego.

Marty devia ter ido direto para casa depois do consultório de Guthridge. Estava prestes a term inar seu rom ance atual e, durante a agonia final de um a história, ele costum ava passar o m aior tem po possível trabalhando, porque as distrações eram perniciosas para o ritm o da narrativa.

Além disso, estava atipicam ente apreensivo com a direção do carro. Repassou o tem po m inuto a m inuto desde que saíra do m édico e tinha certeza de que não telefonara para Paige durante um a fuga atrás do volante do Ford. Claro que um a vítim a de fuga não tinha nenhum a lem brança de estar aflito, de m odo que m esm o um a reconstituição m eticulosa da últim a hora poderia não revelar a verdade.

Quando pesquisou para Um Bispo Morto, aprendeu que as vítim as que viaj avam centenas de quilôm etros e se relacionavam com dúzias de pessoas durante um estado dissociativo, m ais tarde não conseguiam lem brar de nada do que tinham feito. O perigo não era m ais grave do que dirigir bêbado... em bora não fosse inteligente m anobrar um a tonelada e m eia de aço em alta velocidade num estado de consciência alterada.

Mesm o assim , em vez de ir para casa, ele foi ao shopping de Mission Viej o. Grande parte do seu dia de trabalho j á tinha sido liquidada. E ele estava agitado dem ais para ler ou assistir TV até Paige e as crianças chegarem em casa.

Quando as coisas se tornam duras, o duro vai às com pras, por isso ele folheou livros e fichas, com prou um rom ance de Ed McBain e um CD de Alan Jackson, esperando que essas atividades m undanas o aj udassem a esquecer os problem as. Passou duas vezes pela loj a de doces, desej ando os m aiores com fatias de chocolate e nozes, m as encontrando forças para resistir a seu encanto.

O m undo é um lugar m elhor, ele pensou, se você ignora a boa nutrição.

Quando saiu do shopping, gotas de chuva quente pintavam padrões de cam uflagem na calçada de concreto. Relâm pagos caíam enquanto ele corria para o Ford. Trovoadas rolavam no céu pronto para o com bate, e o chuvisco tornou-se um a torrente pesada no m om ento em que ele bateu a porta e sentou-se atrás do volante.

Enquanto dirigia para casa, Marty sentiu um enorm e prazer ao vislum brar as ruas prateadas de chuva, o chapinhar borbulhante dos pneus que m ergulhavam em poças profundas — e a vista das palm eiras balançando, que pareciam estar penteando as tranças prateadas do céu de torm enta e o lem bravam de certas histórias de Som erset Maugham e de um antigo film e de Bogart. Com o a chuva não era um a visita frequente na árida Califórnia, os benefícios e a novidade superavam a inconveniência.

Ele estacionou na garagem e entrou na casa pela porta de ligação com a cozinha, desfrutando do peso m olhado do ar e do arom a de ozônio que sem pre acom panhava o com eço de um a torm enta.

Na cozinha escura, o lum inoso m ostrador verde do relógio elétrico em cim a do fogão indicava 16:10. Paige e as m eninas podiam chegar em casa dentro de vinte m inutos.

Acendeu as lâm padas e abaj ures enquanto andava de quarto em quarto. A casa sem pre ficava m ais aconchegante quando estava aquecida e bem ilum inada, enquanto a chuva m artelava no telhado e a m ortalha cinzenta de um a tem pestade escondia o m undo atrás de cada j anela. Ele decidiu acender o bico de gás da lareira da sala de estar e preparar todos os acessórios para o chocolate quente, assim ele poderia ser feito logo que Paige e as m eninas chegassem .

Prim eiro, foi ao andar de cim a para exam inar o fax e a secretária eletrônica de seu gabinete. Nessa hora, a secretária de Guthridge j á teria telefonado com o program a de testes do hospital.

Tam bém estava com um forte pressentim ento de que seu agente literário havia deixado um recado sobre um a venda de direitos em um ou outro território estrangeiro, ou talvez algum a notícia de um a oferta para um a opção de film e, um m otivo para com em orar. Curiosam ente, a tem pestade m elhorara seu hum or em vez de piorá-lo, talvez porque o tem po inclem ente tendia a concentrar a m ente nos prazeres do lar, em bora fosse de sua natureza encontrar razões para ficar otim ista m esm o quando o senso com um sugeria que o pessim ism o era um a reação m ais realista. Ele nunca fora capaz de ficar oprim ido durante m uito tem po; e desde o sábado j á havia tido pensam entos negativos suficientes para durar alguns anos.

Ao entrar em seu gabinete, ele estendeu a m ão para o interruptor da parede a fim de acender a luz do teto, m as não o tocou, surpreso porque o abaj ur de vitral e um a lum inária de trabalho estavam acesos. Ele sem pre apagava as luzes quando saía de casa. Entretanto, antes de partir para o consultório do m édico, sentira-se tão inexplicavelm ente oprim ido pela estranha sensação de estar à beira de um a destruição desconhecida, que era evidente que não havia tido presença de espírito suficiente para apagar as luzes.

Ao recordar o pior m om ento do ataque de pânico, na garagem , quando quase foi im obilizado pelo terror, Marty sentiu que parte do ar escapava do balão de otim ism o.

O fax e a secretária eletrônica estavam no canto do fundo da área de trabalho em form a de U. A luz verm elha de recados piscava na secretária, e algum as folhas de papel fino estavam na bandej a do fax.

Antes de chegar às m áquinas, Marty viu o m onitor espatifado, com dentes de vidro de pé na arm ação. No centro havia um a boca aberta. Um pedaço de vidro foi triturado sob seus pés quando ele em purrou a cadeira de escritório para o lado e olhou fixo para o com putador, sem conseguir acreditar.

Pedaços denteados do m onitor estavam espalhados sobre o teclado.

Um a contorção de náusea deu um nó em seu estôm ago. Será que ele tam bém tinha feito aquilo num estado de fuga? Teria pego algum obj eto pesado e m artelado a tela, deixando-a em pedaços? Sua vida se desintegrava com o o m onitor arruinado.

Depois ele notou um a outra coisa no teclado além do vidro. À luz difusa, Marty pensou estar vendo gotas de chocolate derretido.

Com as sobrancelhas franzidas, tocou um dos borrões com a ponta do dedo indicador. Ainda estava um pouco pegaj oso. Um a parte grudou-se em sua pele.

Ele m oveu a m ão para baixo da lum inária de trabalho. A substância viscosa na ponta de seu dedo era verm elho-escura, quase m arrom . Não era chocolate.

Ele levou o dedo m anchado ao nariz, procurando um cheiro que definisse a coisa. O odor era leve, quase não podia ser detectado, m as Marty soube de im ediato o que era, talvez j á soubesse no instante em que o tocou, porque em um profundo nível prim itivo estava program ado para reconhecê-la. Sangue.

Quem quer que houvesse destruído o m onitor havia se cortado.

As m ãos de Marty não ostentavam cortes.

Ele estava extrem am ente tranquilo, exceto por um a sensação que se arrastava ao longo de sua espinha deixando sua nuca com a pele arrepiada.

Ele girou devagar, esperando encontrar alguém que tivesse entrado no gabinete atrás dele. Mas estava sozinho.

A chuva esm urrava o telhado e gorgolej ava através de um a calha vizinha. Relâm pagos oscilavam palidam ente, visíveis por entre as fendas abertas da veneziana, e estrépitos de trovões reverberavam no vidro da j anela.

Marty prestou atenção na casa.

Os únicos ruídos eram esses da tem pestade. E as batidas rápidas de seu coração.

Ele passou para a parte das gavetas no lado direito da escrivaninha, abriu a segunda delas. Nessa m anhã, havia colocado ali a pistola Sm ith & Wesson 9m m , em cim a de alguns papéis. Não esperava encontrá-la no lugar, m as de novo suas expectativas não foram realizadas. Mesm o à luz suave e traiçoeira do abaj ur com vitral, ele podia ver a arm a com o brilho escuro.

— Eu preciso da m inha vida.

A voz assustou Marty, m as seu efeito não foi nada com parado ao choque paralisante que o possuiu quando levantou a vista da arm a e viu quem tinha falado. O suj eito estava no lado de dentro do vão da porta. Usava o que poderia ser o jeans do próprio Marty e cam isa de flanela, que lhe caíam m uito bem porque ele era um sósia de Marty. De fato, fora as roupas, o invasor podia ser um reflexo no espelho.

— Eu preciso da m inha vida — o hom em repetiu em voz baixa.

Marty não tinha irm ão, gêm eo ou não. No entanto, só um gêm eo perfeito poderia ser tão igual a ele em cada detalhe do rosto, peso, altura e tipo de corpo.

— Por que você roubou m inha vida? — o intruso perguntou com o que parecia ser um a curiosidade genuína. Sua voz era uniform e e controlada, com o se a pergunta não fosse inteiram ente insana, com o se de fato fosse possível, pelo m enos em sua experiência, roubar um a vida.

Ao perceber que o intruso tam bém falava com o ele, Marty fechou os olhos e tentou negar aquilo que tinha visto à sua frente. Supôs que estava tendo um a alucinação e que ele próprio falava pelo fantasm a num a espécie de ventriloquism o inconsciente. Fugas, um pesadelo de intensidade incom um , um ataque de pânico e agora alucinações. Mas quando abriu os olhos, o sósia ainda perm anecia lá, um a ilusão obstinada.

— Quem é você? — o duplo perguntou.

Marty não pôde falar porque sentia que o coração havia m udado para a garganta, e cada batim ento feroz quase o sufocava. E não ousava falar porque m eter-se num a conversa com um a alucinação sem dúvida faria com que ele perdesse a tênue parte final de sanidade, m ergulhando por inteiro na loucura.

O fantasm a refinou sua pergunta, falando num tom de adm iração e fascinação, m as ainda assim am eaçador:

— O quê você é?

O sósia deu outro passo para dentro do gabinete, sem nada da fluidez lúgubre e da luz difusa e fantasm agórica de um a aparição psicológica ou sobrenatural, nem transparente nem radiante. Quando se m exeu, som bra e luz trem ularam nele da m esm a m aneira que teriam acariciado qualquer obj eto de três dim ensões. Ele parecia tão sólido quanto qualquer hom em real.

Marty notou a pistola na m ão direita do intruso. Mantida encostada na coxa. Cano apontado para o chão.

O sósia avançou m ais um passo, parando a não m ais de 2,5m do outro lado da escrivaninha. Com um m eio sorriso que era m ais enervante do que um olhar furioso o invasor disse:

— Com o isso aconteceu? E agora? De algum a form a nós nos tornam os um a pessoa, um desaparece no outro com o em algum film e m aluco de ficção científica...

O terror aguçara os sentidos de Marty. Com o se estivesse olhando para seu sósia através de lentes de aum ento, ele podia ver cada contorno, linha e poro de seu rosto. Apesar da luz difusa, os m óveis e livros nas áreas cobertas por som bras tinham detalhes tão claros quanto os obj etos nos quais caía o brilho das lâm padas. No entanto, com todos seus poderes de observação am pliados, ele não conseguiu reconhecer o m odelo da outra pistola.

— ... ou devo apenas m atá-lo e assum ir seu lugar? — o estranho continuou. — E se eu m atá-lo...

Parecia que qualquer alucinação que ele houvesse conj urado estaria carregando um a pistola conhecida.

— ... as m em órias que você roubou de m im serão m inhas de novo quando você estiver m orto? Se eu m atá-lo...

Afinal de contas, se aquela figura fosse apenas um a am eaça sim bólica, vom itada por algum a psique doente, então tudo — o fantasm a, as roupas, o arm am ento — teria que vir da experiência e im aginação de Marty.

— ... serei tornado inteiro? Quando você estiver m orto, serei devolvido à m inha fam ília? E vou voltar a saber escrever?

De m odo inverso, se a arm a fosse real, o sósia seria real.

Levantando a cabeça, reclinando-se um pouco à frente, com o se tivesse um intenso interesse na resposta de Marty, o intruso disse:

— Preciso escrever, se é para eu ser o que devo ser, m as as palavras não saem .

A conversa unilateral surpreendeu Marty várias vezes, com suas voltas e giros, o que não sustentava a ideia de que sua m ente enferm a havia fabricado o invasor.

A raiva apareceu pela prim eira vez na voz do sósia, um a am argura em vez de fúria exaltada, tornando-se rapidam ente feroz:

— Você tam bém m e roubou isso, as palavras, o talento, e eu preciso disso de volta, preciso agora, tanto que até sinto dor. Um obj etivo, sentido. Você sabe? Com preende? Sej a você o que for, pode com preender? O terrível vazio, oco, Deus, um oco tão profundo e escuro — agora ele cuspia as palavras, e seus olhos estavam furiosos. — Quero o que é m eu, m eu, que droga, m inha vida, m inha, quero m inha vida, m eu destino, m inha Paige, ela é m inha, m inha Charlotte, m inha Em ily...

A extensão da escrivaninha é de 2,5m além , três m etros no total: distância à queim a-roupa.

Marty tirou a pistola 9m m da gaveta da escrivaninha, segurando com as duas m ãos, soltou a trave de segurança, com o dedo no gatilho m esm o enquanto levantava o cano. Não se im portava se o alvo era real ou algum tipo de espírito. A única coisa que lhe im portava era elim iná-lo antes que ele o m atasse.

O prim eiro tiro arrancou um pedaço grosso do canto afastado da escrivaninha, e lascas de m adeira explodiram com o um enxam e de vespas furiosas voando na luz. A segunda e terceira balas atingiram o outro Marty no peito. Não o atravessaram com o se ele fosse um ectoplasm a nem o espatifaram com o se fosse um reflexo no espelho; em vez disso, catapultaram -no para trás, desequilibrando-o, pegando-o de surpresa antes que ele pudesse erguer a própria arm a, que voou de sua m ão e bateu no chão com um baque forte. Ele chocou-se contra um a estante, agarrando-se a um a prateleira com um a das m ãos, j ogando no chão um a dúzia de volum es, o peito coberto de sangue — m eu deus, tanto sangue —, os olhos arregalados de choque, m as sem soltar nenhum grito exceto um “uh” baixo e forte, que foi m ais um som de surpresa do que de dor.

O bastardo devia ter caído com o um a pedra num poço, m as continuou de pé. No m esm o m om ento em que bateu na estante, afastou-se dela, m ergulhou cam baleando através da porta aberta, sum iu de vista no corredor do andar de cim a.

Mais aturdido com o fato de haver puxado o gatilho contra alguém do que esse alguém ser sua im agem no espelho, Marty caiu na escrivaninha, Ofegando com desespero, com o se não houvesse inalado ar desde o prim eiro m om ento em que o sósia entrara no gabinete. Talvez não tivesse entrado. Atirar num hom em de verdade era um bocado diferente de atirar num personagem de rom ance; quase parecia que, de algum a m aneira m ágica, parte do im pacto das balas tivesse atingido o próprio atirador. Seu peito doía, ele estava tonto e sua visão periférica m ergulhou, durante breves m om entos, num a escuridão densa, que ele em purrou para trás num ato de vontade.

Não se atrevia a desm aiar. Pensava que o outro Marty devia estar m orrendo com um ferim ento grave, talvez j á estivesse m orto. Deus, o sangue espalhado em seu peito, flores escarlates, rosas súbitas. Mas não sabia ao certo. Talvez os ferim entos só parecessem m ortais talvez fosse ilusório o breve olhar que ele dera, e talvez o sósia não apenas estivesse vivo, m as tam bém forte o bastante para sair da casa e fugir. Se o suj eito escapasse e vivesse, voltaria m ais cedo ou m ais tarde, tão esquisito e m aluco, m as m ais furioso, m ais bem preparado. Marty tinha que term inar o que com eçou antes que o sósia tivesse um a chance de fazer o m esm o.

Olhou de soslaio para o telefone. Discar 911. Cham ar a polícia, depois ir atrás do hom em ferido.

Mas o relógio da escrivaninha estava ao lado do telefone e ele viu a hora — 16:26. Paige e as m eninas. Da escola para casa, m ais tarde do que de hábito, atrasadas pelas lições de piano. Oh, m eu Deus. Se entrassem na casa e vissem o outro Marty, ou o encontrassem na garagem , pensariam que era seu Marty, correriam para ele, assustadas com os ferim entos, querendo aj udar, e talvez ele ainda tivesse força para m achucá-las. A pistola que caiu era sua única arm a? Não podia fazer essa suposição. Além disso, o filho da puta podia pegar um a faca no arm ário da cozinha, a faca de açougueiro, escondê-la nas costas, deixar que Em ily se aproxim asse, depois enterrá-la na garganta da m enina ou na barriga de Charlotte.

Cada segundo im portava. Esqueça o 911. Perda de tem po. Os tiras não chegariam antes de Paige.

Quando Marty deu a volta na escrivaninha, suas pernas estavam trêm ulas, m as ficaram m ais firm es quando ele atravessou o gabinete em direção ao corredor. Viu sangue espalhado na parede, pingando nas lom badas de seus livros, m anchando seu nom e. Mais um a vez, um a onda rastej ante de escuridão caiu nos cantos de sua visão. Ele trincou os dentes e continuou andando.

Quando chegou na pistola do sósia, chutou-a para dentro do aposento, afastando-a do vão da porta. O sim ples ato lhe deu um a onda de confiança, porque pareceu algo que um tira teria a presença de espírito para fazer — im pedir o bandido de recuperar sua arm a.

Talvez ele pudesse lidar com aquilo, passar por aquilo, por m ais estranho e assustador que fosse, com o sangue e tudo m ais. Talvez ele ficasse bem .

Portanto, vam os agarrar o cara. Ter certeza de que está lá em baixo, lá em baixo e lá fora.

Para escrever seus rom ances de m istério, ele havia feito um bocado de pesquisa sobre os procedim entos policiais, não apenas estudando os livros didáticos de um a academ ia de polícia e film es de treinam ento, m as tam bém saindo com tiras uniform izados em patrulhas noturnas e acom panhando detetives à paisana no trabalho. Sabia m uitíssim o bem com o atravessar um vão de porta naquelas circunstâncias.

Não seja confiante demais. Imagine que o sujeito esquisito tem outra arma além da que deixou cair, revólver ou faca. Mantenha-se abaixado, passe rápido por esse vão de porta. É mais fácil morrer num vão de porta do que em outra parte, porque toda porta se abre para o desconhecido. Enquanto anda, segure sua arma com as duas mãos, os braços para a frente, retos e firmes, olhe para a direita e para a esquerda ao atravessar a soleira, girando a arma para cobrir ambos os flancos. Depois deslize para o outro lado e mantenha as costas grudadas na parede enquanto anda, de modo a garantir que suas costas fiquem em segurança, você só tem três lados com que se preocupar.

Todo esse conhecim ento passou em disparada por sua m ente, assim com o podia ter passado na m ente de um de seus personagens policiais de nariz duro — no entanto, ele se com portava com o qualquer civil em pânico, tropeçando de m aneira descuidada no corredor do andar de cim a, com a respiração explosiva, tornando seu corpo m ais um alvo do que am eaça, porque se a coisa fosse vista de frente, ele não era um tira, m as sim um bundão que às vezes escrevia sobre tiras. Não im portava quanto tem po você se entregou a um a fantasia, não pode viver a fantasia, não poderia agir com o um policial num a situação de pressão, a m enos que fosse treinado com o um tira. Ele era tão culpado quanto qualquer outra pessoa por haver confundido ficção e realidade , pensando que era invencível com o um herói num j ornal im presso, e tivera um a trem enda sorte porque o outro Marty não esperava por ele. O corredor do andar de cim a estava deserto.

Ele parecia exatamente como eu.

Não podia pensar nisso agora; por enquanto, não tinha tem po. Concentrar-se em ficar vivo, abater o bastardo antes que ele m achucasse Paige ou as m eninas. Se você sobreviver, haverá tem po para procurar um a explicação para a surpreendente sem elhança, resolver o m istério, m as agora não.

Ouça. Movim ento?

Talvez.

Não. Nada.

Mantenha o cano para cim a, a boca apontada para o alto.

Do lado de fora da porta do gabinete, um a pegaj osa im pressão de m ão ensanguentada m anchava a parede. Um a trem enda quantidade de sangue form ava um a poça no tapete bege-claro. Pelo m enos parte do tem po em que Marty ficou parado atrás da escrivaninha, atordoado e im obilizado pela violência, o ferido ficara encostado nessa parede do corredor, talvez tentando, sem sucesso, estancar os ferim entos que sangravam .

Marty suava, com náuseas e m edo. A transpiração pingava no canto de seu olho esquerdo, picante, borrando sua visão. Ele enxugou a testa gordurosa com a m anga da cam isa, piscou com força para lavar o sal de seu olho.

Quando o intruso se afastou da parede e com eçou a se m over — talvez enquanto Marty ainda perm anecia congelado atrás da escrivaninha —, ele cam inhou na poça de seu próprio sangue. Sua rota estava m arcada por fragm entadas im pressões verm elhas de desenhos em sulcos feitos pelas solas dos sapatos, bem com o por contínuas gotas escarlate.

Silêncio na casa. Com um pouco de sorte, talvez fosse o silêncio da m orte.

Trêm ulo, Marty seguiu com cuidado a repulsiva trilha que passava pelo banheiro do corredor, dava a volta no canto, passava pela porta dupla da entrada do quarto dos donos da casa, passava pelo alto da escada. Ele parou nesse ponto, onde o corredor do segundo andar se transform ava num a varanda que dava para a sala de estar.

À sua direita havia um corrim ão de carvalho esbranquiçado do outro lado pendia o lustre de latão que ele acendera antes, quando passara pela saleta de entrada. Abaixo do lustre ficavam os degraus de descida e a saleta de entrada, de dois andares e com chão de laj otas, que dava direto na sala de estar de dois andares.

À sua esquerda e a alguns m etros m ais adiante na sacada ficava o quarto que Paige usava com o escritório. Um dia seria outro quarto para Charlotte ou Em ily, quando elas decidissem que estavam preparadas para dorm ir em lugares separados. A porta estava entreaberta. Som bras negras m oviam -se atrás da porta, aliviadas apenas pela luz cinzenta da tem pestade de fim de tarde que m al conseguia penetrar pelas j anelas.

A trilha de sangue passava por esse quarto e ia para o final do corredor, direto para a porta do quarto das m eninas, que estava fechada. O intruso estava lá dentro, e era enfurecedor im aginá-lo no m eio dos pertences das m eninas, tocando coisas, m anchando o quarto com seu sangue e sua loucura.

Ele lem brou da voz furiosa, com um quê de loucura, m as que ainda assim parecia com a sua própria voz: Minha Paige, ela é minha, minha Charlotte, minha Emily...

— Um a porra que são suas — ele disse, m antendo a Sm ith & Wesson apontada para a porta fechada.

Marty olhou para o relógio de pulso.

16:28.

E agora?

Podia ficar ali no corredor, pronto a m andar o bastardo para o inferno se a porta se abrisse. Esperar Paige e as m eninas, gritar para elas quando entrassem , dizer a Paige para ligar para 911. Depois ela podia em purrar as m eninas para o outro lado da rua, para a casa de Vic e Kathy Delorio, onde estariam em segurança, enquanto ele vigiava a porta até a chegada da polícia.

Esse plano parecia bom , responsável, frio e calm o. Por um breve instante, a batida de seu coração contra as costelas tornou-se m enos insistente, m enos opressiva.

Então, a m aldição da im aginação de escritor atingiu-o em cheio, um redem oinho negro que o sugava para baixo, para possibilidades som brias, a m aldição do “e se”, e se, e se. E se o outro Marty tiver forças para abrir a j anela do quarto das m eninas, sair na cobertura do pátio nos fundos da casa e dali saltar no gram ado? E se ele correr pelo lado da casa e sair na rua no m om ento em que Paige estiver entrando na estradinha de carros com as m eninas?

Isso podia acontecer. Poderia acontecer. Aconteceria. Ou algum a outra coisa tão ruim aconteceria, pior. O redem oinho da realidade tecia possibilidades m ais terríveis do que os pensam entos m ais som brios de qualquer escritor. Nessa era de dissolução social, m esm o nas ruas m ais pacíficas dos bairros m ais tranquilos, podiam acontecer atos inesperados de selvageria grotesca, atos que deixavam as pessoas chocadas e horrorizadas, m as não surpresas.

Ele podia estar vigiando a porta de um quarto vazio.

16:29.

Paige podia estar virando a esquina a dois quarteirões de distância, entrando na rua deles.

Talvez os vizinhos tivessem escutado os tiros e cham ado a polícia. Por favor, Deus, deixe que este sej a o caso.

Ele não tinha nenhum a opção razoável a não ser abrir a porta do quarto das m eninas, entrar e confirm ar se O Outro estava lá ou não.

O Outro. Em seu gabinete, quando a confrontação com eçou, ele logo descartou a ideia inicial de que estava lidando com algum a coisa sobrenatural. Um espírito não podia ser tão sólido e tridim ensional quanto aquele hom em . Se existissem m esm o, as criaturas do outro lado da linha entre a vida e a m orte não seriam vulneráveis a balas. No entanto, persistia um a sensação estranha, que ficava m ais pesada a cada m om ento que passava. Em bora ele suspeitasse que a natureza de seu adversário era m uito m ais estranha do que os fantasm as ou dem ônios que m udavam de form a, que era ao m esm o tem po m ais terrível e m undana, que havia nascido neste m undo e não em outro, ainda assim não conseguia pensar nele em term os geralm ente reservados às histórias de espíritos assom brados: espectro, fantasm a, espírito, aparição, O Não Convidado, O Im ortal, A Entidade.

O Outro.

A porta esperava.

O silêncio da casa era m ais profundo do que a m orte.

Já concentrada apenas na perseguição do Outro, a atenção de Marty concentrou-se m ais ainda, até ele esquecer o batim ento do próprio coração, cego para tudo m enos para a porta, surdo para todos os sons exceto para aqueles que podiam sair do quarto das m eninas, consciente de nenhum a sensação a não ser a pressão de seu dedo no gatilho da pistola.

Continuar: parte 3 de 3