Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 3 de 9 · parte 3/3

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Sr. Assassino

Dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A trilha de sangue.

Fragm entos verm elhos de im pressões de pés.

A porta.

Esperando.

Ele estava enraizado na indecisão.

A porta.

De repente, algum a coisa ressoou acim a dele. Marty j ogou a cabeça para trás e olhou para o teto. Estava bem debaixo do poço de 1,50 de lado por 2,10 de profundidade onde se encaixava a claraboia de plexiglas em form a de cúpula. A chuva batia contra o plexiglas. Apenas chuva, o barulho da chuva.

Com o se o peso da indecisão o tivesse puxado de volta ao pleno espectro da realidade, Marty foi abruptam ente inundado por todas as vozes da tem pestade, das quais não se havia dado conta enquanto seguia o rastro do Outro. Ele vinha prestando intensa atenção através do ruído de fundo, procurando os sons m ais furtivos de sua caça. Agora há o vento que está rangendo-apupando-gem endo, o rataplã da chuva, o trovão fulm inante, o raspar ossudo de um galho de árvore contra um lado da casa, o leve m atraquear de um a parte solta da calha de chuva e outros barulhos m enos identificáveis que fluem sobre ele.

Os vizinhos não poderiam ter ouvido os disparos com aquela tem pestade furiosa. Pior para essa esperança.

Marty parecia estar sendo levado à frente pelo tum ulto ao longo da trilha de sangue, um passo hesitante, depois outro, inexoravelm ente em direção à porta que esperava.

8.

A tem pestade trouxe um crepúsculo precoce, triste e dem orado, e Paige ficou de farol ligado durante todo o traj eto da escola das m eninas para casa. Em bora ligados na velocidade m áxim a, os lim padores do para-brisas m al podiam acom panhar o ritm o das cataratas que caíam do céu. Ou a últim a seca seria interrom pida por essa tem porada de chuvas ou a natureza pregava um a peça cruel ao gerar expectativas que não iria realizar. Os cruzam entos estavam inundados. Os bueiros vazavam . O BMW espalhava enorm es asas brancas de água, enquanto passava por um a poça funda após a outra. E saindo da escuridão nevoenta, os faróis de carros vindos na direção contrária os encontravam com o holofotes de batiscafos sondando sulcos profundos no oceano.

— Nós estam os num subm arino — disse Charlotte excitada no assento do carona ao lado de Paige, olhando pela j anela lateral através da cortina de água dos pneus —, nadando com as baleias, o Capitão Nem o e o Nautilus, vinte m il léguas abaixo da superfície do m ar, com polvos gigantescos nos caçando. Lem bra do polvo gigante, m am ãe, do film e?

— Lem bro — disse Paige sem tirar os olhos da rua.

— Periscópio para cim a — Charlotte agarrou os cabos desse instrum ento im aginário, espiando através do ocular. — Navegando na rota, batendo em navios com nossa proa de aço superforte — bum! — e o capitão m aluco tocando seu enorm e órgão de tubo! Está lem brada do órgão de tubo, m am ãe?

— Estou.

— Mergulhando m ais fundo, m ais fundo, com o casco de pressão com eçando a estalar, m as o m aluco do capitão Nem o diz mais fundo, tocando seu órgão de tubo e dizendo mais fundo, e o tem po todo lá vem o polvo. — Ela m uda para o tem a do film e O Tubarão — Dum-dum, dum-dum, dum-dum, dum-dum, da-da-dum!

— Que coisa boba — disse Em ily no assento traseiro.

Charlotte girou no cinto de om bro para olhar para trás por entre os dois bancos da frente.

— O que é bobo?

— O polvo gigante.

— Ah, é m esm o? Talvez você não achasse bobo se estivesse nadando e um deles viesse por baixo, lhe desse um a m ordida cortando você em duas, com esse seus dois pedaços, depois cuspisse seus ossos para fora com o um caroço de uva.

— Os polvos não com em pessoas — disse Em ily.

— Claro que com em .

— É o contrário.

— Hem ?

— Pessoas com em polvos — disse Em ily.

— De j eito nenhum .

— Sim .

— De onde você tirou um a ideia estúpida com o essa?

— Vi num cardápio de restaurante.

— Que restaurante? — perguntou Charlotte.

— Vários restaurantes diferentes. Você foi neles. Não é verdade, m am ãe... as pessoas não com em polvo?

— Sim , com em — concordou Paige.

— Você só está concordando para ela não parecer um a burra de sete anos de idade — disse Charlotte, cética.

— Não, é verdade — assegurou-lhe Paige. — As pessoas com em polvos.

— Com o? — perguntou Charlotte, com o se a própria ideia ultrapassasse sua im aginação.

— Bem — disse Paige, freando diante de um sinal verm elho —, não todo de um a vez, um pedaço só.

— Aposto que não! — disse Charlotte. — Pelo m enos, não um polvo gigante.

— Para com eçar, você pode cortar os tentáculos e fritar com m anteiga de alho — disse Paige, olhando para a filha a fim de ver que im pacto teria sobre ela essa notícia culinária.

Charlotte fez um a careta e olhou para a frente de novo.

— Você está tentando zom bar de m im .

— Tem um bom gosto — insistiu Paige.

— Prefiro com er lam a.

— O gosto é m elhor do que de lam a, eu lhe garanto.

No assento traseiro Em ily com eçou a falar de novo.

— Você tam bém pode cortar e fritar os tentáculos.

— É verdade — disse Paige.

O j ulgam ento de Charlotte foi sim ples e direto:

— Que noj o.

— Eles parecem pequenos anéis de cebola, só que são polvo — disse Em ily.

— Que noj o.

— Pequenos anéis borrachudos de polvo frito pingando tinta grudenta de polvo — disse Em ily, dando um a risada.

Charlotte respondeu, novam ente girando no assento para olhar a irm ã:

— Você é um a duende noj enta.

— De qualquer m odo — disse Em ily —, nós não estam os num subm arino.

— Claro que não — concordou Charlotte. — Estam os num carro.

— Não, estam os num hipofólio.

— Num quê?

Em ily respondeu:

— Igual a gente viu na televisão naquela vez, o barco que vai da Inglaterra a algum outro lugar e anda em cim a da água, que passa zuuuum bindo m esm o.

— Querida, você quer dizer “hidrofólio” — disse Paige, tirando o pé do freio quando a luz ficou verde e acelerando com cuidado ao atravessar o cruzam ento inundado.

— Isso m esm o — confirm ou Em ily. — Hiderfólio. Nós estam os num hiderfólio, indo para a Inglaterra encontrar a rainha. Eu vou tom ar chá com a rainha, tom ar chá e com er polvo e conversar sobre as j oias da fam ília.

Paige quase deu um a risada alta com essa tirada.

— A rainha não serve polvo — disse Charlotte, exasperada.

— Aposto com o serve — disse Em ily.

— Não, ela serve bolinhos e bolo de aveia e m eretrizes e coisas — disse Charlotte.

Dessa vez, Paige deu um a risada alta. Ela teve um a im agem vivida na m ente: a própria e graciosa rainha da Inglaterra indagando a um convidado se queria um a prostituta com o chá, indicando um a m eretriz pom posa que esperava ali perto usando um a lingerie Frederick de Holly wood.

— O que foi engraçado? — perguntou Charlotte.

Paige m entiu, reprim indo a risada:

— Nada, eu só estava pensando num a coisa, num a outra coisa que aconteceu há m uito tem po. Não pareceria engraçado para vocês agora, é só um a lem brança da velha m am ãe.

A últim a coisa que queria era inibir a conversa delas. Quando estava no carro com as m eninas, quase nunca ligava o rádio. Nada no dial era tão divertido quanto o Show Charlotte e Em ily.

Quando a chuva com eçou a cair m ais forte que antes, Em ily provou que estava num de seus hum ores loquazes.

— É m uito m ais divertido estar num hiderfólio para ver a rainha do que estar num subm arino com um polvo gigante dando m ordida nele.

— A rainha é um a chata — disse Charlotte.

— Não é.

— É sim .

— Ela tem um a câm ara de tortura debaixo do palácio.

Charlotte tornou a se virar no assento, interessada contra a própria vontade.

— Tem m esm o?

— Tem sim — disse Em ily. — E ela tem um suj eito lá em baixo com um a m áscara de ferro.

— Um a m áscara de ferro?

— Um a m áscara de ferro — repetiu Em ily em tom som brio.

— Por quê?

— Porque ele é muito feio.

Paige im aginou que as duas seriam escritoras quando crescessem . Tinham herdado a im aginação vivida e incansável de Marty. Provavelm ente seriam tão im pelidas a exercitá-la quanto ele, ainda que fossem escrever coisas bem diferentes dos rom ances do pai e obras bastante diferentes um a da outra.

Ela m al conseguia esperar para contar a Marty sobre os subm arinos, hiderfólios, polvos gigantes, tentáculos fritos e m eretrizes com a rainha.

Ela tinha decidido levar a sério o diagnóstico prelim inar de Paul Guthridge, atribuindo os sintom as desanim adores de Marty apenas ao estresse e parando de se preocupar — pelo m enos até obterem os resultados dos testes revelando algo pior. Nada iria acontecer a Marty. Ele era um a força da natureza, um poço fundo de energia e gargalhada, indom ável e j ovial. Ele se recuperaria, assim com o Charlotte se recuperara de seu leito de m orte cinco anos atrás. Nada iria acontecer com nenhum deles, porque tinham m uita vida pela frente, m uitos bons m om entos para passar.

Um relâm pago feroz — que raram ente acom panhava as tem pestades no sul da Califórnia, m as que dessa vez brilhou em toda plenitude — estalou no céu, trazendo em seu rastro o estrépito de um trovão tão incandescente quanto qualquer carruagem celestial que pudesse transportar Deus para fora do paraíso no Dia do Juízo Final.

9.

Marty estava apenas a 1,5m ou dois de distância da porta do quarto das m eninas. Ele se aproxim ou pelo lado das dobradiças, de m odo a poder estender a m ão para a m açaneta, em purrar a porta para dentro e evitar expor toda a sua silhueta no vão.

Tentando não pisar no sangue, ele baixou os olhos para o tapete apenas por um segundo, para ver onde as m anchas de sangue coagulado eram m enores e m ais raras do que em outros lugares do corredor. Vislum brou um a anom alia que a princípio só registrou no subconsciente, e deu outro passo para a frente, de novo com o olhar fixo na porta, antes de perceber com pletam ente o que havia visto: a im pressão da m etade da frente da sola de um sapato, um a tênue im pressão em verm elho com o vinte ou trinta outras pelas quais j á havia passado, só que a parte estreita dessa im pressão, do dedo grande do pé, estava apontada para a direção errada, de volta ao cam inho por onde ele viera.

Marty congelou ao com preender a im portância da im pressão do pé.

O Outro fora até o quarto das m eninas, m as sem entrar tinha feito a volta, tendo de algum a form a um a dram ática redução no fluxo de sangue, por isso j á não deixava m ais um rastro claro — exceto um a reveladora im pressão do pé e talvez m ais um a ou duas que Marty não observara.

Girando, segurando a arm a com as duas m ãos, Marty gritou para a visão do Outro saindo do gabinete de Paige e indo em sua direção, m ovendo-se rápido dem ais para um hom em com ferim entos no peito e com m enos sangue no corpo. Ele bateu com força em Marty, socando por baixo da pistola, j ogando-o contra o corrim ão e forçando seus braços para cim a.

Ao ser em purrado para trás, Marty apertou o gatilho num reflexo, m as a bala atingiu o teto do corredor. O firm e corrim ão chocou-se contra suas costas e um grito sem i-estrangulado escapou de sua boca, quando um a dor violenta cruzou seus rins e brincou de am arelinha com sapatos de lança nos degraus de sua espinha dorsal.

Quando gritou, perdeu a arm a, que caiu de sua m ão e fez um a curva sobre sua cabeça, indo para o espaço vazio e abobadado atrás dele.

O torturado corrim ão de carvalho trem eu, um estalido alto e seco sinalizou o colapso im inente e Marty teve certeza de que eles cairiam no poço da escada. Mas os balaústres não cederam e o corrim ão se m anteve firm e nos pilares de cada extrem idade.

Pressionando sem parar para a frente, O Outro curvou Marty para trás, por sobre a balaustrada, tentando estrangulá-lo. Mão de ferro. Dedos com o torqueses hidráulicas m ovidas por um potente m otor. Com prim indo as artérias da carótida.

Marty bateu com o j oelho na virilha do assaltante, m as foi bloqueado. A tentativa deixou-o desequilibrado, com apenas um pé no chão, e foi em purrado para a frente na balaustrada até ficar im obilizado e equilibrado em cim a do corrim ão.

Sufocando, sem conseguir respirar, consciente de que o pior perigo era a redução de sangue em seu cérebro, Marty segurou um a cunha com as duas m ãos e em purrou-as para cim a por entre os braços do Outro, tentando abri-los e rom per o estrangulam ento. O assaltante redobrou seus esforços, determ inado a m anter o aperto. Marty tam bém fez m ais força, enquanto seu coração sobrecarregado batia dolorosam ente contra o osso esterno.

Eles deviam estar em patados, droga, tinham a m esm a altura, o m esm o peso, a m esm a estrutura e o m esm o estado físico e, por toda as aparências, eram o m esm o homem.

No entanto, em bora estivesse com dois ferim entos a bala potencialm ente m ortais, O Outro era o m ais forte, e não apenas por ter a vantagem da posição superior e, portanto, m aior im pulso. Ele parecia possuir um a força não hum ana.

Face a face com sua réplica, banhado por cada respiração quente e explosiva, Marty podia estar olhando para um espelho, em bora o selvagem reflexo à sua frente estivesse contorcido por expressões que ele nunca tinha visto em seu rosto. Raiva brutal. Ódio tão tóxico quanto cianureto. Espasm os de prazer m aníaco retorciam as feições conhecidas, enquanto o estrangulador se excitava com o ato do assassinato.

Com os lábios pressionados pelos dentes, a saliva voando enquanto falava, im possível m as repetidam ente estreitando seu estrangulam ento com o intuito de enfatizar as palavras, O Outro disse:

— Preciso da m inha vida agora, m inha vida, m inha, m inha, agora. Preciso da m inha fam ília agora, m inha, agora, agora, agora, preciso, PRECISO!

Pirilam pos em negativo percorriam de um lado ao outro o cam po de visão de Marty. Eles eram o oposto dos vagalum es que portavam lanternas num a quente noite de verão; não eram pulsações de luz na escuridão, m as sim pulsações de escuridão na luz. Cinco, dez, vinte, cem , um enxam e fervilhante. O rosto indistinto do Outro desaparecia em partes sob o enxam e negro que pulsava.

Desesperado para rom per o aperto do assaltante, Marty arranhou o rosto cheio de ódio. Contudo não conseguiu atingi-lo direito. Seu próprio esforço pareceu débil, enfraquecido.

Tantos pirilam pos em negativo.

Vislum brado entre eles: o rosto corrom pido e colérico de sua m ulher exigindo um m arido novo, o rosto im perioso do novo e severo pai de suas filhas.

Vagalum es. Em toda parte, em toda parte. Abrindo suas asas da destruição.

Bangue. Alto com o um tiro de rifle. Segunda, terceira, quarta explosão — um a logo depois da outra. Balaústres quebrando.

O corrim ão estalou. Cedeu para trás. Já não tinha m ais o apoio dos balaústres, que haviam se transform ado em estilhaços debaixo dele.

Marty parou de opor resistência ao atacante e, frenético, tentou enfiar pernas e braços no corrim ão, com a esperança de se agarrar nos restos ancorados, em vez de ser arrem essado no vão aberto. Mas a parte central da balaustrada desintegrou-se tão com pleta e rapidam ente que ele não pôde encontrar um ponto de apoio em seus elem entos partidos, e o peso do assaltante que o agarrava deu m ais força à gravidade do que era preciso. Entretanto, enquanto eles balançavam à beira do vão, as ações de Marty alteraram a dinâm ica de seus esforços, de m odo que O Outro passou rolando por ele e caiu prim eiro. O assaltante soltou a garganta de Marty, m as arrastou-o na posição superior. Os dois caíram no poço da escada, foram contra o corrim ão externo, despedaçando-o instantaneam ente, e bateram com força no chão da saleta de entrada feito de laj otas m exicanas.

Foi um a queda de m enos de dois m etros; não era um a distância trem enda, talvez nem fosse um a distância letal, e a velocidade dos dois havia sido interrom pida pelo corrim ão inferior. No entanto, o im pacto elim inou o pouco fôlego que Marty recuperara no traj eto para baixo, m uito em bora sua queda tivesse sido am ortecida pelo Outro, que atingiu de costas as laj otas m exicanas com a pancada retum bante de um a m arretada.

Engasgando, tossindo, Marty afastou-se de seu sósia e tentou arrastar-se para fora de seu alcance. Estava ofegante, tonto e não sabia se havia quebrado algum osso. Quando respirava, o ar picava sua garganta ferida; quando tossia, a dor não poderia ser pior do que se tentasse engolir um rolo de aram e farpado e pregos curvos. Rastej ar rápido com o um gato, era o que ele tinha em m ente, acabou ficando fora de questão e ele só conseguiu arrastar-se no chão da saleta de entrada, m ancando e trem endo com o um besouro que acabava de receber um esguicho de inseticida.

Piscando para reprim ir lágrim as arrancadas pela tosse violenta, Marty localizou a Sm ith & Wesson. Estava a cerca de cinco m etros de distância, m uito além do ponto em que a transição de chão de laj ota para a m adeira dura indicava o fim da saleta de entrada e o com eço da sala de estar. Considerando-se a intensidade com que ele se concentrou nela e a dedicação com que arrastava seu corpo dolorido e sem i-entorpecido, a pistola bem poderia ter sido o Santo Graal.

Ele tornou-se consciente de um rum or distinto dos sons da tem pestade, seguido por um baque surdo, que ele supôs estupidam ente que tivesse algo a ver com O Outro, m as não parou para olhar para trás. Talvez o que ouviu tenha sido um espasm o de m orte, saltos de sapato tam borilando no chão, um a últim a convulsão. De qualquer form a, o sacana tinha que estar gravem ente ferido. Aleij ado e m oribundo. Mas contudo, antes de com em orar a própria sobrevivência, Marty desej ava pôr as m ãos trêm ulas na arm a.

Ele alcançou a pistola, agarrou-a e soltou um grunhido de débil triunfo. Caiu para o lado, fez a volta deslizando e apontou na direção da saleta da entrada, preparado para descobrir que seu perseguidor obstinado estava em cim a dele.

Mas O Outro ainda perm anecia caído de costas. As pernas abertas. Os braços encostados no corpo. Im óvel. Podia até estar m orto. Não tanta sorte assim . Sua cabeça pendeu na direção de Marty. Seu rosto estava pálido, brilhando de suor, tão branco e brilhante quanto um a m áscara de porcelana.

— Quebrado — ele disse, ofegante.

Ele parecia conseguir m exer apenas a cabeça e os dedos da m ão direita, m as não a própria m ão. Um a careta m ais de esforço do que de dor contorceu suas feições. Levantou a cabeça do chão, e os dedos ainda vivos se enrolavam e desenrolavam com o pernas de um a tarântula m oribunda, m as ele parecia incapaz de se sentar ou curvar as pernas até os j oelhos.

— Quebrado — ele repetiu.

Algum a coisa na m aneira com o a palavra foi dita fez Marty pensar num soldado de brinquedo, m olas curvas e engrenagens partidas.

Marty pôs-se de pé, apoiando-se com um a das m ãos na parede.

— Vai m e m atar? — perguntou O Outro.

A perspectiva de m eter um a bala no cérebro de um hom em ferido e indefeso era repulsiva ao extrem o, m as Marty ficou tentado a com eter a atrocidade e se preocupar m ais tarde com as consequências psicológicas e j urídicas. Foi reprim ido tanto pela curiosidade quanto pelas considerações m orais.

— Matar você? Adoraria — sua voz saiu roufenha, e sem dúvida ficaria assim por um ou dois dias, até que ele se recuperasse da tentativa de estrangulam ento. — Porra, quem é você? — Cada palavra irritada lem brava a Marty a sorte que tivera para ainda estar vivo e poder fazer a pergunta.

O rum or baixo voltou, o m esm o barulho que ele ouvira quando rastej ava em direção à pistola. Dessa vez, ele reconheceu: não eram convulsões e solas tam borilantes de um m oribundo, m as apenas as vibrações da porta autom ática da garagem , que subira na prim eira vez e agora estava descendo.

Vozes elevaram -se na cozinha quando Paige e as m eninas entraram na casa pela porta da garagem .

Num segundo m enos trêm ulo, e tendo recuperado o fôlego, Marty atravessou correndo a sala de estar em direção à sala de j antar, ansioso para deter as crianças antes que vissem algum a coisa do que tinha acontecido. Durante um longo tem po, elas teriam dificuldade para se sentir confortável em sua própria casa, sabendo que um invasor havia entrado e tentado m atar seu pai. Mas ficariam m ais traum atizadas se vissem a destruição e o hom em suj o de sangue, caído, paralisado no chão da saleta de entrada. Considerando-se o fato m acabro de que o intruso tam bém era um sósia perfeito de seu pai, talvez nunca m ais dorm issem direito nessa casa.

Quando Marty irrom peu na cozinha através da sala de j antar deixando a porta giratória batendo para a frente e para trás às suas costas, Paige virou-se surpresa no cabide onde pendurava sua capa de chuva. Ainda com os im perm eáveis am arelos e os frouxos chapéus de vinil, as m eninas sorriram e balançaram a cabeça em expectativa, talvez im aginando que a explosiva entrada de Marty fosse um a brincadeira ou um a das im provisadas atuações bobas de papai.

— Tire elas daqui — grunhiu para Paige, tentando parecer calm o, sendo derrotado pela voz roufenha e pelo evidente excesso de tensão.

— O que aconteceu com você?

— Agora — insistiu —, neste exato m om ento, leve-as para o outro lado da rua, para Vic e Kathy.

As m eninas viram a arm a em sua m ão. Seus sorrisos desapareceram e elas arregalaram os olhos. Paige disse:

— Você está sangrando. O que...

— Eu não — ele interrom peu, percebendo tarde que tinha ficado com o sangue do Outro em toda a cam isa, quando caíra em cim a dele. — Eu estou bem .

— O que aconteceu? — perguntou Paige.

Abrindo a porta que dava para a garagem , ele disse:

— Tivem os um a coisa aqui. — Sua garganta doía quando ele falava, no entanto ele não balbuciava em seu urgente desej o de colocá-las em segurança fora da casa, incoerente talvez pela prim eira vez em sua vida obcecada pela palavra. — Um problem a, um a coisa, Deus, você sabe, com o um a coisa que aconteceu, algum problem a...

— Marty...

— Vam os, vam os para a casa dos Delorio, todas vocês. — Ele atravessou a soleira, entrou na garagem escura, apertou o botão e a enorm e porta rolou para cim a. Ele encontrou os olhos de Paige. — Elas ficarão a salvo na casa dos Delorio.

Sem dar-se ao trabalho de tirar a capa do cabide, Paige conduziu as m eninas passando por ele, entrando na garagem em direção à porta que subia.

— Cham e a polícia — gritou para ela, estrem ecendo com a dor que lhe custou o grito.

Paige olhou para ele, o rosto vincado de preocupação.

Ele disse:

— Estou bem , m as tem os um cara lá dentro, ferido a bala.

— Venha conosco — suplicou ela.

— Não posso. Cham e a polícia.

— Marty...

— Vá, Paige, trate de ir!

Ela m oveu-se entre Charlotte e Em ily, pegou as duas pelas m ãos e levou-as para fora da garagem , para o aguaceiro, virando-se para olhar de novo para ele apenas um a vez.

Ele ficou olhando até que elas chegassem ao final da estradinha de carros, exam inassem o tráfego à direita e à esquerda e depois atravessassem a rua. Passo a passo, enquanto se afastavam nas cortinas prateadas de chuva, elas se pareciam m enos com pessoas reais e m ais com espíritos em retirada. Ele teve a desconcertante sensação previdente de que nunca m ais as veria vivas de novo; sabia que isso era nada m ais que um a reação irracional acirrada pela adrenalina, pelo que havia passado, m as m esm o assim o m edo criou raízes nele e cresceu.

Um vento frio e úm ido invadiu os cantos m ais profundos da garagem , e no m esm o instante Marty sentiu a transpiração em seu rosto transform ar-se em gelo.

Ele voltou para a cozinha e bateu a porta.

Em bora trem esse sem icongelado, ele desej ava um a bebida fria, j á que sua garganta queim ava com o se abrigasse um fogo de querosene.

Talvez o hom em estivesse m orrendo na saleta de entrada, tendo convulsões nesse exato segundo, ou um ataque do coração. Ele estava num a péssim a form a. Portanto, seria um a boa ideia ir até lá para observá-lo, para o caso de ser preciso um a m assagem cardíaca antes da chegada das autoridades. Marty não se im portava se o suj eito m orresse — queria que ele m orresse —, m as não antes de um bocado de perguntas serem respondidas para que esses acontecim entos recentes fizessem pelo m enos algum sentido.

No entanto, antes de fazer qualquer coisa, tinha que tom ar um a bebida para acalm ar a garganta. Nesse m om ento, cada gole era um a tortura. Quando os tiras chegassem , ele tinha que estar preparado para falar um bocado.

A água da bica não pareceu fria o bastante para realizar a m ágica, então ele abriu a geladeira, que podia j urar que estava m uito m ais vazia do que no início do dia, e pegou um a caixa de leite. Não, a ideia do leite o fez sentir ânsias de vôm ito. O leite lem brava sangue, porque era um líquido do corpo, o que era ridículo, claro; m as os acontecim entos da últim a hora eram irracionais, assim deduzia-se que algum as de suas reações tam bém fossem irracionais. Ele devolveu a caixa à prateleira, estendeu a m ão para o suco de laranj a, depois viu as garrafas de Corona e as latas de Coors. Nada j am ais pareceu tão desej ável quanto aquelas cervej as geladas. Pegou um a das latas porque continham um terço a m ais de líquido do que um a garrafa de Corona.

O prim eiro longo trago aum entou o incêndio em sua garganta em vez de debelá-lo. O segundo doeu um pouco m enos que o prim eiro, o terceiro m enos que o segundo e, depois disso, cada trago era tão calm ante quanto m el m edicam entoso.

Com a pistola em um a das m ãos e a lata de Coors sem ivazia na outra, trem endo m ais pela lem brança do que tinha acontecido e pela perspectiva do que viria do que por causa da cervej a gelada, ele voltou para a saleta de entrada.

O Outro desaparecera.

Marty ficou tão assustado que deixou a Coors cair. A lata rolou atrás dele, despej ando cervej a espum ante no chão de m adeira da sala de estar. Em bora a lata tivesse se soltado de sua m ão com m uita facilidade, só alçaprem as hidráulicas poderiam forçá-lo a soltar a arm a.

Balaústres partidos, um a parte do corrim ão e lascas espalhadas pelo chão. Várias laj otas m exicanas tinham sido partidas e lascadas pelo im pacto do carvalho duro e da Sm ith & Wesson. Nenhum corpo.

No m om ento em que o sósia entrou no gabinete de Marty, o dia se transform ara em pesadelo sem o pré-requisito do sono. Acontecim entos rom peram as correntes da realidade, e sua própria casa transform ara-se em som bria paisagem de sonho. Tão surrealista com o fora o confronto, ele não duvidara a sério de sua realidade enquanto ela se desenrolava. E tam pouco duvidava agora. Ele não havia atirado num a im aginação da m ente, não fora estrangulado por um a ficção, nem m ergulhara sozinho no corrim ão da galeria. Deitado incapacitado na saleta de entrada, O Outro era tão real quanto a balaustrada partida que ainda estava espalhada nas laj otas.

Alarm ado com a possibilidade de Paige e as m eninas terem sido atacadas na rua antes de chegar na casa dos Delorios, Marty virou-se para a porta da frente. Trancada. Por dentro. A corrente de segurança estava no lugar. O louco não saíra de casa por essa rota.

Não saíra, em absoluto. Com o poderia, em seu estado? Sem pânico. Fique calm o. Pense direito.

Marty seria capaz de apostar um ano de sua vida que os catastróficos ferim entos do Outro eram verdadeiros, não fingim ento. As costas do sacana estavam quebradas. Sua incapacidade de m over qualquer coisa, m enos a cabeça e os dedos de um a das m ãos, significava que talvez ele tivesse quebrado a espinha quando fez a dança da gravidade com o chão.

Então, onde estava ele?

Não no andar de cim a. Mesm o que sua espinha não estivesse quebrada, m esm o que ele tivesse escapado da tetraplegia, não poderia ter arrastado seu corpo m achucado para o segundo andar durante o curto tem po em que Marty ficou na cozinha.

Oposta à entrada da sala de estar, um a pequena sala de estudo abria-se para o gabinete. A luz cinza-parda do crepúsculo lavado pela chuva infiltrava-se entre as ripas da persiana sem nada ilum inar. Marty passou pelo vão da porta, acendeu as luzes. A sala de estudo estava deserta. Ele abriu a porta espelhada do arm ário, m as O Outro tam pouco estava escondido lá.

Saleta de entrada. Nada. Quarto de banho. Nada. O arm ário fundo debaixo da escada. Lavanderia. Sala da fam ília. Nada, nada, nada.

Marty fez um a busca frenética, tem erária, sem se preocupar com a segurança. Esperava descobrir seu suposto assassino nas proxim idades e essencialm ente desam parado, talvez até m orto, depois que essa frágil tentativa de fuga tivesse exaurido seus últim os recursos.

Em vez disso, encontrou na cozinha a porta dos fundos aberta para o pátio. Um a lufada de vento frio entrou, chocalhando as portas do guarda-louças. No cabide j unto à entrada da garagem , a capa de chuva de Paige elevou-se com falsa vida.

Enquanto Marty retornara à saleta de entrada através da sala de j antar e da sala de estar, O Outro se dirigira para a cozinha por um a outra rota. Ele devia ter percorrido o pequeno corredor que levava da saleta de entrada, passando pela sala de banho e lavanderia, e cruzava um a das extrem idades da sala da fam ília. Não podia ter rastej ado essa distância com m uita rapidez. Ele estava de pé, talvez inseguro, m as m esm o assim estava de pé.

Não. Não era possível. Está bem , talvez o suj eito não estivesse com a espinha rom pida. Talvez nem m esm o com um a fratura na coluna. Mas suas costas tinham de estar quebradas. Ele não podia sim plesm ente levantar-se de um salto e sair dando cam balhotas.

Mais um a vez, o pesadelo em estado de alerta substituía a realidade. Era hora de caçar à espreita — e ser espreitado — algum a coisa que gozava dos poderes regenerativos de um m onstro num sonho, algum a coisa que disse estar chegando à procura de um a vida e que parecia bastante equipado para ficar com ela.

Marty passou pela porta aberta, saindo no pátio.

O m edo renovado alçou-o a um estado de consciência m ais elevado, no qual as cores eram m ais intensas, os odores m ais penetrantes, os sons m ais claros e m ais refinados do que antes. O sentim ento era sem elhante às inexplicáveis sensações fortes experim entadas em certos sonhos de infância e adolescência — sobretudo naqueles em que o sonhador voa leve pelos céus, com o um pássaro, ou vivencia a com unhão sexual com um a m ulher de um a form a tão extraordinária que, m ais tarde, não consegue lem brar-se de seu rosto nem de seu corpo, apenas do esplendor essencial da beleza perfeita. Esses sonhos especiais não pareciam ser fantasias, m as sim vislum bres de um a realidade m aior e m ais detalhada, m uito além da realidade do m undo em estado de alerta. Ao passar pela porta da cozinha, saindo da casa aquecida para o reino frio da natureza, Marty foi estranham ente lem brado da nitidez arrebatadora dessas visões há m uito esquecidas, pois agora ele experim entava sensações igualm ente agudas, atento para cada nuance do que via-ouvia-cheirava-tocava.

Do denso colm o da buganvília acim a, grandes quantidades de gotas e chuviscos chapinhavam nas poças negras com o petróleo à luz efêm era. Sobre essa escuridão líquida flutuavam fluorescências verm elhas em desenhos que, em bora ao acaso, pareciam m isteriosos de form a consciente, tão portentosos e cheios de significado com o a antiga caligrafia de algum m ístico chinês m orto m uito tem po antes.

Em torno do perím etro do pátio dos fundos — pequeno e m urado, com o na m aioria dos bairros do sul da Califórnia —, loureiros indianos e eugênias aglom eradas trem iam tristes no vento frio. Próxim o ao canto noroeste, os galhos longos e delicados de um par de eucaliptos âm bares açoitavam o ar, deixando cair folhas oblongas tão prateadas quanto asas de libélulas. Nas som bras lançadas pela árvores — e atrás de vários arbustos m aiores — havia lugares em que um a pessoa podia esconder-se.

Marty não tinha a m enor intenção de fazer um a busca ali. Se sua caça havia se arrastado para fora de casa para esconder-se num ninho frio e m olhado de j asm im e agapanto, enfraquecido pela perda de sangue — que era o caso m ais provável —, encontrá-lo não era urgente. Era m ais im portante ter certeza de que nesse m om ento O Outro não estava escapando sem ser perseguido.

Longam ente adaptados às condições secas e acostum ados com a água fornecida pelo sistem a de irrigadores, coros de sapos cantavam nos ninhos escondidos, vozes estridentes que, em geral, eram encantadoras, m as agora pareciam lúgubres e am eaçadoras. Mais alto que sua ária erguia-se o queixum e de sirenes distantes, m as que se aproxim avam .

Se o intruso estava tentando escapar antes da chegada da polícia, eram poucas as possíveis rotas de fuga. Ele podia ter escalado um dos m uros da propriedade, coisa que parecia im provável porque, apesar de sua recuperação m ilagrosa, ele sim plesm ente não tivera tem po suficiente para atravessar o gram ado, avançar entre os arbustos e pular para um dos pátios vizinhos.

Marty virou para a direita e saiu correndo do pátio com a coberta encharcada. Molhado até os ossos em m eia dúzia de passos, ele seguiu pela calçada ao longo da casa, depois correu pelos fundos da garagem contígua.

O aguaceiro atraíra lesm as para fora de abrigos úm idos e cheios de som bras, onde em geral perm aneciam até m uito depois do cair da noite. Seus corpos pálidos e gelatinosos estavam esticados para fora das conchas, com as antenas grossas sondando à frente. Sem poder evitar, ele pisou em algum as, esm agando-as num a pasta, e em sua m ente brilhou a ideia supersticiosa de que um a entidade cósm ica iria, a qualquer segundo, esm agá-lo debaixo dos pés com o m esm o descuido.

Quando virou no canto que dava para a calçada de serviço, flanqueada por um a parede da garagem e um a cerca de eugênia, esperava ver o sósia coxeando em direção à frente da propriedade. A calçada estava deserta. O portão da frente estava entreaberto.

No m om ento em que Marty correu a toda velocidade para a estradinha de carro na frente da casa, as sirenes soavam m uito m ais altos. Ele chapinhou na sarj eta com dez ou quinze centím etros de água que fluía rápido, tão fria quanto o Estige, saiu na rua, olhou para a direita e para a esquerda, m as ainda não era possível avistar nenhum carro de polícia.

O Outro não podia ser visto em parte algum a. Marty estava sozinho na rua.

No próxim o quarteirão ao sul, um carro se afastava em disparada longe dem ais para que ele pudesse reconhecer a m arca e o m odelo. Apesar de o carro estar andando depressa dem ais para as condições do tem po, ele duvidou que estivesse sendo guiado pelo sósia. Marty ainda estava sob m uita pressão para acreditar que o ferido tinha conseguido andar, m uito m enos chegar a seu carro e partir com tanta velocidade. Com certeza, iriam encontrar o filho da puta nas proxim idades, caído no m atagal, inconsciente ou m orto. O carro fez a volta na esquina rápido dem ais, o guincho fino do protesto dos pneus pôde ser ouvido acim a do plinque-ploque e do sussurro da chuva. Depois desapareceu.

Ao norte, o grito de m orte das sirenes ficou de repente m uito m ais alto, e Marty girou para ver um sedã preto e branco da polícia m anobrar na esquina com tanta velocidade quanto o outro carro tinha entrado na esquina ao sul. As luzes giratórias de em ergência verm elha e azul lançavam dardos brilhantes através da chuva cinzenta e do pavim ento. A sirene foi desligada quando o sedã parou a seis m etros de Marty, no centro da rua, com um a cham ativa encenação do dublê de m otorista que pareceu excessiva m esm o naquelas circunstâncias.

A sirene de um a radiopatrulha de reserva soou ao longe quando foram abertas as portas da frente do prim eiro preto e branco. Dois oficiais uniform izados saíram da carro, perm anecendo abaixados, protegendo-se atrás das portas e gritando:

— Deixe cair! Agora! Deixe cair agora ou m orra, seu m erda! Agora!

Marty percebeu que ainda segurava a pistola 9m m . Os tiras só, sabiam o que Paige tinha contado quando ligou para o 911, que um hom em fora alvej ado, portanto im aginaram que ele era o crim inoso. Se não fizesse exatam ente o que pediam , e rápido, atirariam nele e teriam com o se j ustificar.

Marty deixou a arm a cair de sua m ão.

Ela caiu com estrépito no pavim ento.

Os tiras ordenaram que ele chutasse a arm a para longe. Ele obedeceu.

Quando eles saíram de trás das portas um dos tiras gritou:

— No chão, rosto para baixo, m ãos nas costas!

Marty sabia m uito bem que não devia tentar fazê-los entender que ele era a vítim a e não o crim inoso. Eles queriam obediência prim eiro, explicações depois, e se suas posições estivessem invertidas, Marty esperaria o m esm o deles.

Ele deixou-se cair sobre j oelhos e m ãos, depois deitou no m eio da rua. Mesm o de cam isa, o pavim ento estava tão frio que o deixou sem respiração.

A casa de Vic e Kathy Delorio ficava bem do outro lado da rua onde ele estava deitado, e Marty esperava que Charlotte e Em ily estivessem sendo m antidas afastadas das j anelas. Não deviam ver seu pai deitado no chão sob a m ira das arm as dos policiais. Elas j á estavam assustadas. Ele se lem brou de seus olhos arregalados, quando irrom pera na cozinha com a arm a na m ão, e não queria que ficassem m ais assustadas.

O frio congelava seus ossos.

De repente, a segunda sirene soou ainda m ais alta, de um segundo a outro. Marty im aginou que a radiopatrulha houvesse virado na esquina ao sul, aproxim ando-se dessa extrem idade da quadra. O silvo penetrante era tão frio quanto um pingente de gelo furando o ouvido.

Com um lado do rosto no pavim ento, piscando para afastar a chuva dos olhos, ele observou a aproxim ação dos tiras, que continuavam com as arm as nas m ãos. Quando pisaram num a poça rasa, os borrifos pareceram gigantescos da perspectiva de Marty.

Quando o alcançaram , Marty disse:

— Está bem . Eu m oro aqui. Essa é m inha casa. — Sua fala, j á rouca, saiu ainda m ais distorcida pelos trem ores que o possuíam . Marty ficou preocupado em parecer bêbado ou dem ente. — É a m inha casa.

— Trate de ficar deitado — disse um deles em tom ríspido.— Mantenha as m ãos nas costas e fique deitado.

O outro perguntou:

— Tem algum a identidade?

Ele trem ia tanto que os dentes batiam :

— Sim , claro, na m inha carteira.

Sem correr nenhum risco, eles o algem aram antes de pescar a carteira no bolso. As algem as de aço ainda estavam quentes do aquecim ento do carro.

Marty sentia-se com o se fosse um personagem de um de seus rom ances. Decididam ente, não era um a boa sensação.

A segunda sirene m orreu. Portas de carro foram batidas. Ele ouviu a estática e as vozes sum idas dos rádios na faixa policial.

— Você tem aqui algum a identidade com foto? — perguntou o tira que tirara sua carteira.

Marty revirou o olho esquerdo, tentando ver algum a coisa do hom em acim a do nível do j oelho.

— Sim , claro, num a dessas divisões de plástico, a carteira de m otorista.

Em seus rom ances, quando personagens inocentes eram suspeitos de algum crim e que não haviam com etido, m uitas vezes ficavam preocupados e com m edo. Entretanto, Marty nunca escrevera sobre a humilhação desse tipo de experiência. Deitado no pavim ento frio, de bruços diante de oficiais da polícia, ele estava m ortificado com o nunca antes estivera, apesar de não ter feito nada errado. A própria situação — estar em posição de extrem a subm issão enquanto era visto com profunda desconfiança por figuras de autoridade — parecia disparar algum a culpa inata, um senso congênito de culpabilidade, num a m onstruosa transgressão que não podia ser identificada, sentim entos de vergonha por ser descoberto, em bora ele soubesse que não havia nada de que pudesse ser acusado.

— Quanto tem po tem essa foto em sua carteira? — perguntou o tira.

— Hum , não sei, dois, três anos.

— Não parece m uito com você.

— Você sabe com o são essas fotos — disse Marty, desanim ado por ouvir m ais súplica que raiva em sua voz.

— Deixem ele levantar, está tudo bem , é m eu m arido, é Marty Stillwater — gritou Paige, correndo da casa dos Delorio na direção deles.

Marty não podia vê-la, m as a voz dela alegrou-o, restaurando um senso de realidade naquele m om ento de pesadelo.

Ele disse para si m esm o que tudo ficaria bem . Os tiras reconheceriam seu erro, o levantariam , revistariam o m ato em volta da casa e os pátios vizinhos, encontrariam logo o sósia e teriam urna explicação para todas as esquisitices da últim a hora.

— Ele é m eu m arido — repetiu Paige, bem m ais perto agora, e Marty pôde ver os tiras olhando enquanto ela se aproxim ava.

Ele fora abençoado com um a m ulher atraente, que valia a pena ver m esm o quando ensopada de chuva e perturbada; não era apenas atraente, m as tam bém inteligente, charm osa, divertida, adorável, singular. Suas filhas eram geniais. Ele tinha um a próspera carreira com o rom ancista e gostava m uito de seu trabalho. Nada iria m udar isso. Nada.

No entanto, m esm o enquanto os tiras retiravam as algem as e o aj udavam a erguer-se, m esm o enquanto Paige o abraçava e ele a ela, com gratidão, Marty tinha a consciência aguda e desconfortável de que o crepúsculo estava dando lugar ao cair da noite. Ele olhou por sobre o om bro dela, buscando inúm eros lugares escuros da rua, perguntando-se de que ninho de escuridão viria o próxim o ataque. A chuva parecia tão fria que devia ser granizo, as luzes de em ergência feriam seus olhos, sua garganta queim ava com o se ele tivesse feito gargarej o com ácido, o corpo doía em vários lugares por causa das pancadas que havia levado, e o instinto lhe dizia que o pior ainda estava por vir.

Não.

Não, não era seu instinto falando. Era apenas sua im aginação superativa trabalhando. A m aldição da im aginação de escritor. Sem pre procurando a próxim a virada na tram a.

A vida não era com o a ficção. As histórias reais não tinham segundo e terceiro ato, estruturas esm eradas, ritm o de narrativa, desfecho em escalada. As coisas m alucas apenas aconteciam , sem a lógica da ficção, e então a vida prosseguia com o sem pre.

Todos os policiais observavam Marty abraçar Paige.

Ele pensou ter visto hostilidade em seus rostos.

Outra sirene soou ao longe.

Ele estava tão frio.