Terapia assistida por animais e o desenvolvimento psicomotor

Patrícia Sidorenko de Oliveira Capote · Capítulo 2 de 9

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Terapia assistida por animais e o desenvolvimento psicomotor

Apresentação II

 

Quando fui convidada pela Profa. Dra. Maria da Piedade Resende da Costa para participar do exame de qualificação e, posteriormente, da defesa da dissertação Terapia Assistida por Animais (TAA) e Deficiência Mental: análise do desenvolvimento psicomotor, me deparei com a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de um trabalho que se distingue pela sua originalidade. Em um país onde pouco se produz cientificamente sobre a TAA, o trabalho de Patrícia Sidorenko de Oliveira Capote representa um importante passo para legitimar os benefícios da interação homem-animal na área da Educação Especial.

Hoje, ao ser convidada a testemunhar a respeito dos resultados obtidos por meio da intervenção com animais (TAA), o desenvolvimento psicomotor, motivacional e emocional de crianças com DI, sinto-me agraciada.

Desde a minha mais tenra idade, Darwin causou-me impressão das mais duradouras, confirmada na idade adulta por meio da leitura de suas obras. Quem pode se manter indiferente à conexão entre o comportamento de um gatinho, de um cãozinho e de um bebê humano, demonstrada pelo autor de A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais?

Apesar das crenças que atribuíam ao homem uma pretensa superioridade em relação aos demais animais, sabemos que a aventura evolutiva humana só se tornou possível graças aos milhares de anos de interação entre o homem e as outras espécies que povoam o planeta. De uma relação inicial de utilização de animais para benefício humano, os animais – fiéis companheiros – conquistaram um espaço único entre os seres de nossa espécie. As mais antigas civilizações oferecem relatos de amor e amizade surgidos no convívio entre humanos e animais. Em uma breve retrospectiva, lembramos a contribuição: 1) do cavalo – introduzido pelos nômades da Eurásia durante a Idade do Bronze e do Ferro – para a evolução de várias sociedades humanas, utilizado como meio de transporte antes da invenção da máquina a vapor; 2) dos felinos – introduzidos provavelmente no período neolítico para controlar a população de ratos que atacava as plantações de cereais do Oriente Médio, Chipre e Antigo Egito; 3) dos cães – originalmente guardadores de rebanhos –, cuja fidelidade comoveu o homem ao ponto de proporcionar-lhe um lugar de honra entre os membros de sua própria família; em sítios arqueológicos descobertos em Israel, esqueletos de cães foram encontrados enterrados ao lado de humanos, confirmando uma história de amor e amizade que dura há 12.500 anos!

Em nossa história recente não faltam narrativas que testemunham que alguns laços de amor entre homens e animais transcendem a própria existência individual. É o caso do surpreendente relato da devoção de um cãozinho ao seu amigo, o grande músico Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Morto em condições precárias, Mozart é enterrado em uma vala comum no cemitério de Viena. Naquele dia chuvoso, frio e escuro, somente seu cãozinho acompanhou o enterro e lá permaneceu deitado sobre o túmulo de terra batida, sendo encontrado tempos depois, congelado. Hoje, esse mesmo cemitério abriga um mausoléu, dedicado a Mozart e ao seu melhor e mais fiel amigo.

No campo da TAA – embora não com essa designação – William Tuke, em 1792, foi um dos primeiros a empregar animais como coadjuvantes terapêuticos para o tratamento de transtornos mentais. Ainda nesse campo, o Brasil nos oferece um exemplo ímpar: o belíssimo e original trabalho da Dra. Nise da Silveira. Décadas antes de se pensar em reforma à assistência psiquiátrica, Nise já apostava na possibilidade de o sofrimento psíquico ser passível de expressão simbólica. Para isso, criou ateliês de pintura e modelagem, onde animais – em sua maioria gatos e cachorros – circulavam livremente entre os pacientes. A ideia de manter os animais por perto – além de uma predileção pessoal da própria Nise por felinos – parece ter se originado no dia em que, ao encontrar uma cadela abandonada no hospital, a Dra. Nise entregou-a aos cuidados de um doente, que passou a desenvolver uma atitude de cuidador em relação ao sofrido animalzinho. Essa atitude teria levado o doente a reatar os vínculos com a realidade e a experimentar uma completa remissão de seu quadro psicopatológico, a ponto de ele se tornar monitor no hospital. A Dra. Nise percebeu que os animais possuiam qualidades que os tornavam um ponto de referência estável na vida do paciente, e em seu projeto atribuiu-lhes a função de coterapeutas.

Hoje, a terapia assistida por animais (TAA) é uma prática que emprega o animal como parte integrante e principal do tratamento, objetivando promover o bem-estar e a melhora psíquica, social, cognitiva e até física de pacientes humanos. Ela parte do princípio de que o amor e a amizade entre animais e seres humanos promovem a saúde e trazem benefícios para a qualidade de vida do assistido. Desse modo, a TAA pode ser empregada em áreas relacionadas ao desenvolvimento psicomotor e sensorial, abrangendo os mais diversos campos do conhecimento, em programas destinados ao tratamento de distúrbios físicos, transtornos mentais e emocionais, direcionada a pessoas de diferentes faixas etárias. A TAA deve ser acompanhada por profissionais qualificados da área da saúde, devidamente treinados, e os animais devem ser acompanhados por médico veterinário, de modo a minimizar o potencial zoonótico e garantir o bem-estar e a qualidade de vida dos animais terapeutas.

Respeitadas essas condições, o trabalho desenvolvido por Patrícia Sidorenko de Oliveira Capote junto às crianças com necessidades especiais e realizado por dois cães de pequeno porte – "os terapeutas Luke e Fiona" – demonstrou que a TAA traz benefícios para o desenvolvimento psicomotor de pessoas com deficiência mental. E, também, que soluções criativas para questões complexas – como é o caso da inclusão social da criança com necessidades especiais – podem ser encontradas por meio de sensibilidade, empatia, acolhimento e respeito a cada um dos seres vivos que participam conosco desse "grande contexto" chamado Terra.

Profa. Dra. Georgina C. O. Faneco Maniakas

Departamento de Psicologia

Universidade Federal de São Carlos