Tipos de Mentes: Rumo a uma Compreensão da Consciência

inovação da generalização explícita entre em cena,…

inovação da generalização explícita entre em cena, permitindo que as listas sejam desfeitas e reconstruídas atendendo a pedidos a partir de primeiros princípios, à medida que surgem novos casos. Considere o diagrama de Whiten da complexidade que se organizaria em torno de uma representação interna realizada por um animal do desejo específico de outro animal. Como antes, podemos ver as motivações por trás de tal consolidação, mas estas motivações não necessitam ser apreciadas de maneira alguma pelas mentes dos consolidadores. Se eles tiverem sorte suficiente para alcançar este aperfeiçoamento de projeto, poderão ser simplesmente os seus beneficiários, sem considerar por que ou como ele funciona. Mas será este projeto realmente o aperfeiçoamento que parece ser? Quais os seus custos e benefícios? E, deixando seu valor de lado, como ele poderia ter passado a existir? Teria surgido simplesmente um dia, em uma reação aleatória e desesperada ao problema crescente de "exceder a capacidade" - regras condicionais em demasia para que pudessem ser mantidas operando simultaneamente? Talvez, mas ninguém ainda conhece qualquer limite superior plausível para o número de estruturas de controle concorrentes e semi-independentes que podem coexistir em um sistema nervoso. (Em um agente real com um sistema nervoso real, pode não haver qualquer limite. Talvez umas poucas centenas de milhares desses circuitos perceptivos e comportamentais de controle possam se misturar eficientemente no cérebro - quantos podem ser exigidos?)

Não poderia haver algum outro tipo de pressão seletiva capaz de ter levado à reorganização de estruturas de controle, gerando uma capacidade de generalização como bônus? O etólogo David MacFarland (1989) argumentou que a oportunidade de comunicação fornece exatamente tal pressão de planejamento, e, além disso, a sugestão cética de Talleyrand na abertura deste capítulo está próxima de uma importante verdade. Quando a comunicação surge em uma espécie, afirma ele, a honestidade pura obviamente não é a melhor política, já que seria demasiadamente explorável pelos competidores (Dawkins e Krebs, 1978). O contexto competitivo é claro em todos os casos de comunicação entre predador e presa, como as práticas mínimas de comunicação exibidas pela gazela e pela lebre em stotting ao encarar a raposa; e aqui é óbvio como surge a oportunidade de blefar. Na corrida armamentista de produzir o futuro, você possui uma tremenda vantagem se puder produzir mais e melhores previsões sobre o outro do que este pode produzir a seu respeito, portanto é sempre melhor para um agente manter seu próprio sistema de controle inescrutável. A imprevisibilidade é em geral uma excelente característica de proteção, que nunca deveria ser desperdiçada mas sempre empregada com sabedoria. Há muito a ser ganho com a comunicação se esta for empregada com habilidade - suficientemente verdadeira para manter a nossa credibilidade alta mas suficientemente falsa para manter as nossas opções abertas. (Este é o primeiro truque no jogo de pôquer: aquele que nunca blefa jamais ganha; aquele que sempre blefa sempre perde.) É necessário um pouco de esforço de imaginação para ver a lebre e a raposa cooperando em seus problemas comuns de administração de recursos, mas de fato tanto uma como a outra se beneficiam de suas tréguas ocasionais.

As perspectivas de expandir a cooperação e portanto multiplicar seus benefícios são muito mais claramente visíveis no contexto da comunicação com membros da nossa própria espécie. Aqui o compartilhamento do alimento e a divisão dos custos e riscos dos cuidados com a prole e a defesa do grupo, e assim por diante, fornecem muitas oportunidades de cooperação, mas apenas se as condições bastante estritas de exploração dessas oportunidades puderem ser satisfeitas A cooperação entre pais, ou entre pais e prole, não pode ser considerada como um dado na natureza; a possibilidade onipresente de competição ainda está por trás de quaisquer convenções mutuamente úteis que possam emergir, e este contexto de competição deve ser levado em conta.

De acordo com MacFarland, a necessidade de uma representação explícita, manipulável, de nosso comportamento surge apenas quando a opção de comunicação potencialmente cooperativa mas ainda assim auto protetora emerge, pois então uma nova forma de comportamento deve ficar sob o controle do agente: o comportamento de comunicar explicitamente algo sobre nossos comportamentos mútuos. ("Estou tentando pescar um peixe", ou "estou procurando minha mãe", ou "estou apenas descansando".) Confrontado com a tarefa de moldar e executar esse ato comunicativo, o problema do agente é uma versão do próprio problema com que defrontamos como observadores teóricos: como deveria o emaranhado de circuitos de controle comportamentais intermesclados, aglutinantes, reforçantes e competidores ser transformado em "alternativas" competidoras? A comunicação favorece respostas claras. Como diz o ditado: "Você vai pescar ou cortar a isca?" Assim, ao forçar um agente a declarar uma categoria, as exigências de comunicação podem muitas vezes criar uma distorção - bastante parecida com a que você reconhece quando lhe é exigido que marque apenas uma resposta em um teste de múltipla escolha mal planejado: se "nenhuma das respostas acima" não for uma opção disponível, você é forçado a escolher o que quer que considere a resposta menos objetável mais próxima. MacFarland sugere que esta tarefa de talhar pontos de apoio onde a natureza não ofereceu indícios claros é um problema que o agente resolve pelo que poderíamos chamar confabulação de aproximação. O agente passa a rotular suas tendências como se elas fossem governadas por objetivos explicitamente representados - guias para as ações -no lugar de tendências de ação que emergem da interação dos vários candidatos. Uma vez que essas representações de intenções (no sentido cotidiano da palavra intenção) passam a existir desta maneira arrevesada, elas podem ter êxito em convencer o próprio agente de que ele tem essas intenções prévias claras governando suas ações. Para resolver seu problema de comunicação, o agente construiu uma interface de usuário especial para si mesmo, um menu de opções explícitas a partir do qual escolher, e então passou em um certo sentido a ser controlado por sua própria criação.

Entretanto, oportunidades de bom uso dessas comunicações são estritamente limitadas. Muitos meios ambientes são inóspitos para a manutenção de segredos, independente de quaisquer tendências ou talentos dos agentes que habitam este meio; e, se não se pode manter um segredo, resta um papel pequeno a ser desempenhado pela comunicação. De acordo com a antiga sabedoria folclórica, as pessoas que vivem em casas de telhado de vidro não deveriam jogar pedras, mas os animais que vivem no equivalente natural das casas de telhado de vidro não têm pedras para jogar. Animais que vivem muito perto uns dos outros em grupos e em território aberto raramente, se é que isto acontece, estão fora do alcance da visão e da audição (e do olfato e do tato) de seus companheiros por muito tempo, e assim não têm oportunidades de satisfazer as condições sob as quais os segredos podem florescer. Suponha que p seja um fato ecologicamente valioso, e suponha que você, e ninguém mais, conheça esse p - ainda. Se você e outros agentes potencialmente competitivos nas vizinhanças possuem todos a mesma informação sobre o meio ambiente, então é quase impossível que surjam circunstâncias nas quais você possa utilizar esse gradiente de informação temporário em seu benefício. Você pode ser o primeiro gnu a ver ou farejar o leão pelo vento noroeste, mas não pode na verdade acumular (ou vender) esta informação, pois aqueles que estão lado a lado com você em breve obterão a informação por si mesmos. Já que existem possibilidades escassas de que tal vantagem informativa temporária possa ser controlada, um gnu trapaceiro (por exemplo) teria poucas oportunidades preciosas de beneficiar-se do seu talento. O que ele poderia fazer para ganhar uma pequena vantagem sobre os outros?

A postura intencional nos mostra sem demora que o aparentemente simples comportamento de manter um segredo - um comportamento nulo, visto a partir da maioria das posições vantajosas - é de fato um comportamento cujo sucesso depende da satisfação de um conjunto bastante exigente de condições. Suponha que Bill esteja mantendo algum segredo, p, escondido de fim. As seguintes condições devem ser satisfeitas:

1. Bill conhece (acredita em) esse p.

2. Bill acredita que Jirn não acredita nesse p.

3. Bill quer que Jim não chegue a acreditar nesse p. 4. Bill acredita que Bill pode fazer com que Jim não chegue a

acreditar nesse p.

É esta última condição que restringe a manutenção avançada de segredos (por exemplo, sobre características do meio ambiente externo) para ambientes comportamentais bastante específicos. Isto foi claramente demonstrado por experiências na década de 1970 pelo primatólogo Emil Menzel (1971, 1974), nas quais foi apresentada a chimpanzés isolados a localização de alimentos escondidos, e com isso lhes foi dada a oportunidade de enganar os outros chimpanzés a respeito da sua localização. Eles muitas vezes abraçaram a oportunidade, com resultados fascinantes, mas este comportamento dependia sempre do fato de os experimentadores produzirem um estado de coisas no laboratório (neste caso, uma gaiola adjacente a uma cobertura maior cercada) que apenas raramente ocorreria na vida selvagem: o chimpanzé que vê o alimento escondido deve estar em uma posição de saber que os outros chimpanzés não o observarão vendo o alimento. Isto foi obtido mantendo todos os outros chimpanzés presos em uma gaiola comum enquanto o chimpanzé escolhido era levado sozinho para a cobertura maior e lhe era mostrado o alimento escondido. O chimpanzé escolhido podia chegar a entender que apenas ele estava aprendendo que p -que suas aventuras informativas na cobertura não eram visíveis aos outros na gaiola. E, é claro, haveria algo que o chimpanzé com o segredo poderia fazer para protegê-lo -pelo menos durante algum tempo -quando os outros fossem liberados.

Os chimpanzés na selva frequentemente vagueiam bastante afastados de seus grupos por tempo suficientemente longo para adquirir segredos sob seu controle, portanto eles são uma boa espécie para ser examinada com tais testes. Nos animais cuja história evolutiva não transcorreu em ambientes em que essas oportunidades surgem de modo natural e frequente, há pouca probabilidade de que a capacidade de explorar tais oportunidades tenha evoluído. Descobrir (no laboratório) um talento até o presente não utilizado não é impossível, é claro, já que o talento não utilizado deve aparecer, raramente, no mundo real, sempre que ocorrerem inovações. Tal talento será caracteristicamente um subproduto de outros talentos desenvolvidos sob outras pressões seletivas. Em geral, porém, já que esperamos que a complexidade cognitiva coevolua com a complexidade ambiental, deveríamos procurar a complexidade cognitiva primeiro naquelas espécies que possuem uma longa história de lidar com o tipo pertinente de complexidade ambiental.

Considerados em conjunto, esses pontos sugerem que o pensamento -nosso tipo de pensamento - teve de esperar pela emergência da fala, a qual por sua vez teve de esperar pelo surgimento da manutenção de segredos, a qual por sua vez teve de esperar pela complexificação correta do meio ambiente comportamental. Deveríamos ficar surpresos de encontrar o pensamento em quaisquer espécies que não foram até o fim dessa cascata de peneiras. Enquanto as opções comportamentais forem relativamente simples- considere a situação da batuíra -, nenhuma representação central sofisticada precisa existir, e portanto com toda a probabilidade não existirá. O tipo de sensitividade de ordem superior exigida para satisfazer as necessidades de uma batuíra piadora, lebre ou gazela pode provavelmente ser fornecido por redes projetadas quase inteiramente por mecanismos darwinianos, complementados aqui e ali por mecanismos skinnerianos. O aprendizado ABC, então, provavelmente poderia ser suficiente para produzir tal sensitividade - embora isto seja uma questão empírica que está longe de ser esclarecida. Será interessante descobrir se existem casos em que temos evidências claras de tratamento diferencial de indivíduos específicos (uma batuíra piadora que não gasta sua astúcia com um cão particular re-identificado, digamos, ou uma lebre que, depois de uma situação de perigo particular, aumenta drasticamente sua distância ao encarar uma raposa específica). Mesmo nesses casos, podemos ser capazes de explicar o aprendizado por meio de modelos relativamente simples: esses animais são criaturas popperianas - criaturas que podem ser orientadas por experiências passadas para rejeitar candidatas tentadoras mas não testadas de ações - mas ainda não pensadores explícitos.

Enquanto os psicólogos naturais não tiverem uma oportunidade ou uma obrigação de se comunicar uns com os outros a respeito de suas atribuições de intencionalidade para si mesmos ou para os outros, enquanto nunca tiverem oportunidade de comparar anotações, de discutir com outros, de perguntar as razões que dão base às conclusões sobre as quais estão curiosos, parece que não há qualquer pressão seletiva sobre eles para que representem essas razões, e portanto não há qualquer pressão seletiva sobre eles para abandonar o princípio da Necessidade de Saber em favor de seu oposto familiar, o princípio da Equipe de Comandos: forneça a cada agente tanto conhecimento a respeito do projeto total quanto possível, para que a equipe tenha uma chance de se sair bem quando surgir um obstáculo não previsto. (Muitos filmes, como Os canhões de Navarone ou Os doze condenados, tomam este princípio visível pela apresentação dos feitos de tais equipes versáteis e informadas; daí a razão do nome que utilizei para isto).

As motivações de flutuação livre que explicam a intencionalidade de ordem superior rudimentar de pássaros e lebres - e mesmo chimpanzés - são levadas em conta nos projetos de seus sistemas nervosos, mas estamos buscando algo novo; estamos buscando motivações que são representadas nesses sistemas nervosos.

Embora o aprendizado ABC possa gerar habilidades notavelmente sutis e poderosamente discriminatórias, capazes de debochar dos padrões escondidos nos arranjos volumosos de dados, essas habilidades tendem a estar ancoradas nos tecidos específicos que são modificados pelo treinamento - elas são habilidades "embutidas" no sentido de que são incapazes de ser "transportadas" prontamente para ser utilizadas em outros problemas enfrentados pelo indivíduo, ou compartilhadas com outros indivíduos. O filósofo Andy Clark e a psicóloga Annette Karmiloff-Smith (1983) recentemente exploraram a transição de um cérebro que possui apenas tal conhecimento embutido para um cérebro que, como dizem eles, "enriquece a si mesmo interiormente pela re-representação do conhecimento que ele já representou". Clark e Karmiloff-Smith observam que, embora haja benefícios claros em uma política de projeto que "mescla intrincadamente os vários aspectos do nosso conhecimento a respeito de um domínio em uma única estrutura de conhecimento", há também os custos: "A mescla torna praticamente impossível operar ou explorar as várias dimensões de nosso conhecimento independentemente uma da outra." Esse conhecimento está tão opacamente escondido na rede das conexões que "ele é conhecimento no sistema, mas não é ainda conhecimento para o sistema" -como a sabedoria revelada na determinação precoce com a qual os cucos recém-chocados empurram os ovos competidores para fora do ninho. O que deveria ser acrescentado à arquitetura computacional do cuco para que ele seja capaz de apreciar, entender e explorar a sabedoria intermesclada em suas redes neurais?

Uma resposta vulgar a esta pergunta, nas suas muitas manifestações, é "símbolos!". A resposta é quase tautológica, e portanto destinada a estar correta em alguma interpretação. Como poderia não acontecer de o conhecimento implícito ou tácito tornar-se explícito ao ser expresso ou apresentado por algum meio de representação "explícita"? Os símbolos, ao contrário dos nodos das redes, são móveis; eles podem ser manipulados; podem ser compostos para formar estruturas maiores, nas quais sua contribuição ao significado do todo pode ser uma função definida e derivável da estrutura -a estrutura sintática -das partes. Há certamente algo correto a respeito disto, mas devemos proceder cautelosamente, já que muitos pioneiros colocaram essas perguntas de maneiras que se mostraram enganadoras.

Nós, seres humanos, ternos a capacidade de aprendizado rápido, com uma visão interior - aprendizado que não depende de um treinamento laborioso mas que é nosso tão logo consideremos uma representação simbólica conveniente do conhecimento. Quando os psicólogos projetam um novo arranjo experimental ou um paradigma para testar sujeitos não-humanos como ratos, gatos, macacos ou golfinhos, muitas vezes devem dedicar dúzias ou mesmo centenas de horas para treinar cada sujeito nas novas tarefas. Os sujeitos humanos, porém, podem em geral ser apenas informados do que é desejado deles. Após uma breve sessão de perguntas e respostas e uns poucos minutos de prática, nós, sujeitos humanos, regularmente seremos tão competentes no novo meio ambiente quanto qualquer outro agente. É claro, devemos entender as representações que nos são apresentadas nesses testes, e aqui a transição do aprendizado ABC para o nosso tipo de aprendizado ainda está envolta em névoas. Uma visão intuitiva que pode ajudar a esclarecê-la é uma máxima familiar da fabricação de artefatos: se você "pode fazê-lo sozinho", você o entende. Para ancorar uma motivação de flutuação livre a um agente de uma maneira forte, para que ela seja a própria razão do agente, este deve "fazer" algo. Uma representação da razão deve ser composta, planejada, editada, revisada, manipulada e endossada. Como um agente qualquer chega a ser capaz de fazer uma coisa tão maravilhosa? Será necessário que surja um novo órgão em seu cérebro? Ou ele pode obter esta competência a partir dos tipos de manipulações do mundo externo que já dominou?

Fazendo coisas sobre as quais pensar

Da mesma forma que você não pode fazer carpintaria com suas

mãos nuas, não há muita reflexão que possa fazer com seu cérebro nu.

Bo Dahlbom e Lars-Erik JanlertComputer Future (a ser publicado)

Todo agente depara com a tarefa de fazer o melhor uso do seu meio ambiente. O meio ambiente contém uma variedade de bens e toxinas, misturadas com uma horda confusa de indícios mais indiretos: prenunciadores e que distraem, obstáculos e pontos de apoio. Esses recursos muitas vezes significam um excesso de riquezas na competição pela atenção do agente a tarefa de administração (e refinamento) dos recursos do agente é, assim, uma em que o tempo é uma dimensão crucial. O tempo gasto em uma perseguição fútil a uma presa, ou preparando-se para enfrentar ameaças ilusórias, é tempo perdido, e o tempo é precioso.

Como sugerido na figura 4.4, as criaturas gregorianas extraem do meio ambiente várias entidades planejadas e as utilizam para aperfeiçoar a eficiência e a precisão dos seus processos de teste de hipóteses e tomada de decisões, mas o diagrama como está apresentado é enganador. Quanto espaço existe no cérebro para esses artefatos, e como eles se instalam? Será o cérebro de uma criatura gregoriana tão mais capaz do que os cérebros das outras criaturas? Nossos cérebros são pouco maiores do que os cérebros de nossos parentes mais próximos (embora não sejam maiores do que os cérebros de alguns golfinho s e baleias), mas isto quase certamente não é a fonte da nossa maior inteligência. A fonte primária, quero sugerir, é o nosso hábito de descarregar tanto quanto possível nossas tarefas cognitivas para o próprio meio ambiente -projetando nossas mentes (isto é, nossos projetos mentais e atividades) para o mundo que nos cerca, onde uma grande variedade de dispositivos periféricos que construímos pode armazenar, processar e re-representar nossos significados, fazer aperfeiçoamentos, reforçar e proteger os processos de transformação que são nosso pensamento. Esta prática amplamente difundida de descarregamento nos libera das limitações de nossos cérebros animais

Um agente enfrenta seu meio ambiente com seu repertório corrente de habilidades, perceptivas e comportamentais. Se o meio ambiente é muito complicado para ser enfrentado com essas habilidades, o agente terá problemas a menos que possa desenvolver novas habilidades, ou simplificar seu meio ambiente. Ou ambos. A maioria das espécies depende de marcos naturais para orientar-se e algumas desenvolveram o truque de adicionar marcos ao mundo para utilização subsequentes As formigas, por exemplo, deixam trilhas de feromônios -trilhas odoríferas - que levam do ninho ao alimento e do alimento ao ninho, e indivíduos em muitas espécies territoriais marcam as fronteiras de seus territórios com compostos aromáticos idiossincráticos em suas urinas. Indicar seu território desta maneira adverte os intrusos, mas também fornece um dispositivo prático que você mesmo pode utilizar. Ele livra você da necessidade de algum outro meio de lembrar a fronteira daquela parte do meio ambiente em que investiu esforços significativos de refinamento de recursos - ou mesmo de cultivo. À medida que se aproxima da fronteira, você pode cheirá-la. Você permite que o mundo externo armazene algumas informações facilmente transduzidas a respeito da localização de pontos de encontro importantes na natureza, assim pode economizar seu cérebro limitado para outras coisas. Isto é um bom conselho. Colocar marcas deliberadas no meio ambiente para utilizá-las para distinguir o que para você são seus aspectos mais importantes é uma maneira excelente de reduzir a carga cognitiva sobre sua percepção e memória. É uma variação sobre, e um reforço da, excelente tática da evolução de instalar faróis direcionais onde estes se fazem mais necessários.

Para nós, seres humanos, os benefícios de rotular coisas em nossos meios ambientes são tão óbvios que tendemos a desconsiderar a motivação da rotulação e as condições sob as quais ela funciona. Por que alguém rotula algo e o que é necessário para rotular algo? Suponha que você esteja examinando milhares de caixas de sapatos, procurando por uma chave da casa que acredita estar escondida em uma delas. A menos que você seja um idiota, ou tão frenético em sua busca que não pode fazer uma pausa para considerar a maneira mais sábia de realizar a tarefa, conceberá algum esquema prático para fazer com que o meio ambiente o auxilie em seu problema. Você quer, em especial, evitar gastar tempo examinando mais de uma vez cada caixa. Uma maneira seria movimentar as caixas uma de cada vez de uma pilha (a pilha das caixas ainda não examinadas) para outra pilha (a pilha das que foram examinadas). Outra maneira, potencialmente mais eficiente em energia, é colocar uma marca de verificação em cada caixa que você examinar e depois adotar a regra de nunca examinar uma caixa com uma marca de verificação. Uma marca de verificação torna o mundo mais simples, dando a você uma tarefa perceptiva simples no lugar de uma mais difícil -talvez impossível - de memorização e reconhecimento. Observe que, se as caixas estiverem alinhadas em fila e você não tiver de preocupar-se com reordenamentos inobservados na fila, você não precisa colocar marcas de verificação nelas; pode simplesmente trabalhar da esquerda para a direita, utilizando o diferenciador simples com que a natureza já o dotou - a diferenciação entre esquerda e direita.

Agora nos concentremos nas próprias marcas de verificação. Qualquer coisa servirá como marca de verificação? Obviamente não. "Colocarei uma marca débil em alguma parte de cada caixa que eu estiver examinando."

"Amassarei o canto de cada caixa que eu examinar." Não são escolhas boas, já que a probabilidade de que alguma outra coisa tenha já inadvertidamente colocado tal tipo de marca em uma caixa é muito grande. Você precisa de algo marcante, alguma coisa que acredite ser o resultado da sua ação de rotular e não uma marca produzida externamente. Ela também deveria ser capaz de ser lembrada, é claro, para que você não fique confuso sobre o fato de que algum rótulo saliente ou não que encontre é um rótulo que você colocou, e, se assim for, qual a política que queria seguir quando o adotou. É inútil amarrar um cordão em seu dedo como um lembrete se, quando isto mais tarde chamar sua atenção (desempenhando desse modo sua função como farol direcional auto controlado de descarregamento de informação no meio ambiente), você não pode lembrar por que o amarrou. Essas marcas deliberadas simples no mundo são os precursores mais primitivos da escrita, um passo na direção da criação no mundo externo dos dedicados sistemas periféricos de armazenamento de informação. Observe que esta inovação não depende da existência de uma linguagem sistemática em que tais rótulos são compostos. Qualquer sistema servirá, desde que possa ser lembrado ao ser utilizado.

Que espécies descobriram estas estratégias? Algumas experiências recentes nos dão um vislumbre tantalizante, mesmo que incompleto, das possibilidades. Os pássaros que escondem em muitos lugares específicos são espantosamente bem-sucedidos em recuperar seus tesouros secretos após longos períodos de tempo. Os quebra-nozes de Clark, por exemplo, foram experimentalmente estudados pelo biólogo Russell Balda e seus colegas em um arranjo laboratorial fechado -uma grande sala com um pavimento com areia ou com muitos buracos preenchidos com areia, e além do mais com vários marcos. Os pássaros podem fazer mais de uma dúzia de esconderijos de sementes fornecidas a eles, e então retornam, dias mais tarde, para recuperá-las. Eles estão notavelmente corretos ao confiar em indícios múltiplos, encontrando a maior parte dos seus tesouros escondidos mesmo quando os experimentadores movem ou removem alguns dos marcos. Mas cometem erros no laboratório, e a maioria desses parece ser de autocontrole: eles gastam tempo e energia visitando novamente lugares que já verificaram e varreram em expedições anteriores. Como esses pássaros podem fazer vários milhares de esconderijos na vida silvestre, e visitá-los durante um período de mais de seis meses, a frequência dessas revisitações desperdiçadas na vida silvestre é quase impossível de registrar, mas que a revisitação seria um hábito custoso de ser seguido é um raciocínio sólido, e outras espécies de pássaros que fazem esconderijos para as suas sementes, como os chapins norte-americanos, são conhecidos por ser capazes de evitar tais revisitações.

Na vida silvestre, os quebra-nozes de Clark são observados comendo as sementes onde as escavam, deixando para trás restos de um piquenique que lhes poderiam lembrar, em uma outra revoada, que eles já abriram aquela determinada caixa de sapatos. Balda e seus colegas projetaram experiências para testar a hipótese de que os pássaros confiavam em tais marcas para evitar revisitações. Em uma condição, os vestígios feitos nos lugares visitados pelos pássaros eram cuidadosamente apagados entre duas seções experimentais, e em uma outra os vestígios reveladores foram deixados. Neste arranjo laboratorial, porém, os pássaros não tiveram desempenhos significativamente melhores quando os vestígios eram deixados, portanto não foi demonstrado que os pássaros realmente dependiam desses indícios. De qualquer modo, talvez também não pudessem na vida silvestre, já que tais indícios são muitas vezes logo obliterados pelo tempo meteorológico, como observa Balda. Ele observa também que as experiências até o momento não são conclusivas; o custo do erro no arranjo laboratorial é baixo -uns poucos segundos desperdiçados na vida de um pássaro bem alimentado.

É também possível que o fato de se colocar os pássaros em um arranjo experimental de laboratório inadvertidamente os torne relativamente incapazes, já que seus hábitos cotidianos de distribuir a tarefa de autocontrole para o meio ambiente pode depender de indícios adicionais que estão inadvertidamente ausentes no laboratório. É comumente observado - mas não o bastante! - que pessoas idosas levadas de suas casas para retiros de idosos são colocadas em uma posição tremendamente desvantajosa, mesmo que suas necessidades corporais básicas sejam supridas de modo satisfatório. Elas muitas vezes parecem estar bastante dementes - são completamente incapazes de alimentar-se, vestir-se e lavar-se, o que dirá entregar-se a quaisquer atividades de maior interesse. Muitas vezes, porém, se reconduzidos aos seus lares, podem sair-se muito bem por si mesmos. Como eles fazem isto? Durante anos, encheram seus meios ambientes domésticos com marcos ultra familiares, gatilhos que acionam hábitos, lembretes sobre o que fazer, onde encontrar a comida, como vestir-se, onde está o telefone, e assim por diante.

Uma pessoa idosa pode ser um verdadeiro virtuose da autoajuda em um mundo tão imensamente cheio de conhecimento, a despeito da crescente resistência de seu cérebro a novos turnos de aquisição de conhecimento -da variedade ABC ou qualquer outra. Retirá-los de suas casas é literalmente separá-los de grandes partes de suas mentes - potencialmente tão devastador como sofrer uma cirurgia cerebral.

Talvez alguns pássaros, irrefletidamente, façam suas marcas de verificação como um subproduto de outras atividades suas. Nós, seres humanos, certamente dependemos de muitas marcas de verificação colocadas em nossas cercanias. Adquirimos hábitos úteis que consideramos vagamente, sem jamais parar para entender por que eles são tesouros. Imagine tentar efetuar de cabeça multiplicações com números de muitos algarismos. Quanto vale 217 vezes 436? Ninguém tentaria responder isto sem a ajuda de lápis e papel, exceto se estiver apresentando um truque. O cálculo no papel serve como mais de uma função útil; ele fornece um armazenamento confiável para os resultados intermediários, mas os símbolos individuais também servem como marcos que podem ser seguidos, lembrando a você, à medida que seus olhos e dedos atingem cada ponto, qual deveria ser o próximo passo na receita sobejamente aprendida. (Se você duvida da segunda contribuição, apenas tente efetuar a multiplicação com muitos algarismos na qual você escreve os resultados intermediários em pedaços separados de papel, colocados em um arranjo fora do padrão à sua frente, em lugar de alinhá-los do modo canônico.) Nós, criaturas gregorianas, somos os beneficiários de literalmente milhares dessas tecnologias úteis, inventadas por outros nos recessos pouco iluminados da história ou da pré-história, mas transmitidos por meio de estradas culturais, não por meio dos caminhos genéticos da herança. Aprendemos, graças a esta herança cultural, como espalhar nossas mentes no mundo, onde podemos colocar nossos talentos inatos, maravilhosamente projetados, de rastreamento e reconhecimento de padrões para uso otimizado.

Fazer uma mudança como essa no mundo não exige apenas um descarregamento da memória. Ela pode também permitir ao agente trazer à tona algum talento cognitivo que de outra maneira seria subutilizado, ao preparar materiais especiais para este talento - no pior dos casos, inadvertidamente. O cientista de robótica Philippe Gaussier (1994) recentemente forneceu uma ilustração vívida desta possibilidade, utilizando pequenos robôs que primeiro alteram seu meio ambiente e depois têm o próprio repertório comportamental alterado sucessivamente pelo novo ambiente que criaram. Esses robôs são veículos de Braitenberg reais -chamados Kheperas (a palavra italiana para escaravelho) por seu criador, o cientista de robótica Francesco Mondada. Eles são um pouco menores do que o disco que serve como bola de hóquei, e se deslocam sobre duas pequenas rodas e um apoio. Os robôs possuem sistemas visuais extremamente rudimentares - apenas duas ou três fotocélulas - conectados às suas rodas de tal maneira que os sinais provenientes delas desviam os robôs das colisões com as paredes que cercam o seu mundo constituído pelo tampo de uma mesa. Portanto, esses robôs estão inatamente equipados, poder-se-ia dizer, com um sistema visualmente dirigido para evitar colisões com as paredes. "Cavilhas" pequenas e móveis -pequenos cilindros de madeira - estão espalhadas sobre o tampo da mesa, e os sistemas visuais inatos dos robôs fazem também com que eles se desviem desses obstáculos leves, mas ganchos de arame em suas partes posteriores regularmente se engatam nas cavilhas quando os robôs se movimentam. Eles se deslocam aleatoriamente sobre a mesa, inadvertidamente coletando as cavilhas e depois as depositando sempre que se desviam bruscamente na direção de uma cavilha que foi enganchada (ver figura 5.2). Com o tempo, esses encontros redistribuem as cavilhas no meio ambiente, e, sempre que duas ou mais cavilhas são depositadas próximas umas das outras, elas formam um grupo que os robôs subsequente e erroneamente"percebem" como parte da parede - e que deve ser evitada. Em pouco tempo, e sem quaisquer instruções adicionais de um quartel-general, os robôs alinharam todas as cavilhas espalhadas em seu meio ambiente, organizando-o em uma série de paredes conectadas. Os passeios randômicos dos kheperas em um meio ambiente inicialmente aleatório primeiro reestruturam esse meio ambiente, transformando-o em um tipo de labirinto, e depois utilizam esta estrutura para moldar o seu próprio comportamento: eles se tomam seguidores de paredes.

Este é o caso mais simples de tática que podemos imaginar que inclui, no extremo sofisticado do espectro, todos os desenhos de diagramas e construção de modelos. Por que desenhamos diagramas - por exemplo, em um quadro-negro ou (antigamente) no piso da caverna com uma vareta de ponta aguçada? Fazemos isto porque, ao re-representar a informação em outro formato, nós a tornamos apresentável a uma ou outra habilidade perceptiva especializada.

 

As criaturas popperianas - e sua subvariedade, as criaturas gregorianas -vivem em um meio ambiente que pode ser aproximadamente dividido em duas partes: o meio "externo" e o meio "interno". Os cidadãos do meio "interno" são diferenciados não tanto pelo lado epidérmico em que são encontrados (como B. F. Skinner observou [1964, pág. 84), "a pele não é tão importante como fronteira") mas sim por serem fáceis de carregar, e portanto em grande parte onipresentes e portanto relativamente mais controláveis e mais bem conhecidos e portanto mais prováveis de ser planejados em benefício do agente. (Como observamos no Capítulo 2, a lista de compras em um pedaço de papel adquire o seu significado da mesma forma que uma lista de compras memorizada no cérebro.) O meio ambiente "externo" muda de mu i tas maneiras de difícil acompanhamento, e está, principalmente, geograficamente fora da criatura. (Os limites da geografia que estabelecem esta distinção em nenhum lugar são mais vividamente ilustrados do que no caso dos antígenos, invasores do mal provenientes do exterior, e dos anticorpos, leais defensores internos, que se misturam com forças amigáveis - como as bactérias em seu intestino, sem cujos esforços você morreria - e espectadores irrelevantes, nas multidões de agentes do tamanho de micróbios que povoam seu espaço corporal.) O conhecimento portátil de uma criatura popperiana a respeito do mundo deve incluir alguma quantidade de conhecimento -know-how - sobre a parte onipresente de seu mundo que é ela mesma. Ela deve saber quais membros são os·seus, é claro, e que boca deve ser alimentada, mas também deve saber como movimentar-se, até certo grau especificado, em seu próprio cérebro. E como o faz? Usando os mesmos velhos métodos: colocando marcos e etiquetas sempre que são necessários! Entre os recursos a serem administrados sob pressão temporal por um agente estão os de seu próprio sistema nervoso. Esta necessidade de autoconhecimento não precisa ser ela mesma representada explicitamente, não mais do que a sabedoria de uma criatura não pensante necessita ser representada explicitamente. Pode ser simples know-how já embutido, mas é um know-how crucial sobre como manipular esta curiosamente dócil e relativamente duradoura parte do mundo que é ela mesma.

Você quer que esses refinamentos de seus recursos internos simplifiquem a sua vida, para que possa fazer mais coisas melhor e mais rápido -o tempo é sempre precioso -com seu repertório disponível de talentos. Mais uma vez, não há utilidade em criar um símbolo interno como instrumento para ser utilizado no autocontrole se, quando ele "chama a atenção de sua imaginação", você não pode lembrar-se da razão por que o criou. A manipulabilidade de qualquer sistema de ponteiros, marcos, etiquetas, símbolos e outros lembretes depende do vigor subjacente de seus talentos inatos em rastrear e reidentificar, suprindo-o com os caminhos redundantes, multimodais, de acessibilidade às ferramentas que são suas. As técnicas de administração de recursos com as quais você nasce não fazem distinção entre coisas interiores e exteriores. Nas criaturas gregorianas, como nós, as representações de características e coisas no mundo (externo ou interno) se tornam objetos por seus próprios méritos - coisas a serem manipuladas, rastreadas, movimentadas, acumuladas, alinhadas, estudadas, viradas de cabeça para baixo e de outras formas ajustadas e exploradas.

Em seu livro “Sobre a fotografia” (1977), a crítica literária Susan Sontag chama atenção para o fato de que o advento da fotografia instantânea de alta velocidade foi um avanço tecnológico revolucionário para a ciência, pois permitiu que os seres humanos, pela primeiríssima vez, examinassem fenômenos temporais complicados, não em tempo real, mas sim em seu próprio tempo - na análise metódica, sossegada, que permite rastrear ao revés os traços que eles criaram de todos esses eventos complicados. Como observado no Capítulo 3, nossas mentes naturais são equipadas para lidar com mudanças que ocorrem apenas em ritmos particulares. Eventos que acontecem de modo mais rápido ou mais lento são simplesmente invisíveis para nós. A fotografia foi um avanço tecnológico que trouxe consigo um grande reforço de poder cognitivo, permitindo-nos re-representar os eventos de interesse que acontecem no mundo em um formato, e a uma taxa que foi feita sob medida para os nossos sentidos particulares.

Antes que houvesse câmeras e filmes de alta velocidade havia uma profusão de dispositivos observacionais e de registro que permitiam aos cientistas extrair com precisão dados do mundo para análise subsequente ao seu bel-prazer. Os diagramas e ilustrações sofisticados de vários séculos de ciência são testemunhas do poder desses métodos, mas há algo especial a respeito de uma câmera: ela é "estúpida". Para "capturar" os dados representados em seus produtos, ela não tem de entender seu tema como um artista ou ilustrador humano devem. Assim, ela repassa uma versão não editada, não contaminada, imparcial, mas ainda assim re-representada, da realidade para as faculdades que são equipadas para analisar, e em última instância entender, os fenômenos. Este mapeamento irrefletido de dados complexos em formatos mais simples, mais naturais ou mais amigáveis para o usuário é, como já vimos, uma marca da inteligência crescente.

Mas, junto com a câmera e com a enorme pilha de instantâneos fotográficos que ela descarregou, surgiu um problema de recurso: as próprias fotos necessitam ser etiquetadas. Não é de muita serventia capturar um evento de interesse em um instantâneo fotográfico se você não puder lembrar-se, entre os milhares de cópias espalhadas no escritório, daquela que representa o evento de interesse. Este "problema de estabelecer a ligação" não surge para variedades mais simples, mais diretas de rastreamento, como já vimos, mas o custo de resolvê-lo muitas vezes deve ser pago; o truque pode pagar-se a si mesmo (tempo é dinheiro) nos casos em que permite rastreamento indireto de coisas importantes que não podem ser rastreadas diretamente. Pense na prática brilhante de fincar alfinetes coloridos em um mapa para marcar a localização de cada um dos muitos eventos que estamos tentando entender. Uma epidemia pode ser diagnosticada pelo ato de ver -ver, graças à codificação em cores -que todos os casos de um tipo se alinham no mapa ao lado de uma ou outra característica inconspícua ou mesmo até aqui inédita - a rede de distribuição de água ou o sistema de esgotos, ou talvez a rota do carteiro. A base secreta de operações de um assassino serial pode ser muitas vezes localizada - uma variedade de "vilanotaxia" - pela representação gráfica do centro geográfico do conjunto de seus ataques. Os aperfeiçoamentos dramáticos em todos os nossos tipos de investigação, desde as estratégias forrageiras de nossos dias como coletores-caçadores até as investigações contemporâneas feitas pela nossa polícia, pelos críticos de poesia e pelos físicos são devidos principalmente ao crescimento explosivo de nossas tecnologias de re-representação.

Mantemos "ponteiros" e "índices" em nossos cérebros e deixamos a maior quantidade possível de dados reais que podemos no mundo externo, nas nossas cadernetas de endereços, bibliotecas, blocos de anotações, computadores - e, de fato, no nosso círculo de amigos e associados. Uma mente humana não somente não está limitada ao cérebro mas estaria severamente desabilitada se essas ferramentas externas fossem removidas -pelo menos tão desabilitada como os míopes quando seus óculos são retirados. Quanto mais dados e dispositivos você descarrega no exterior, mais dependente se torna desses periféricos; não obstante, quanto mais intimamente familiar se torna dos objetos periféricos graças à sua prática em manipulá-los, mais confiantemente pode então passar sem eles, trazendo os problemas de volta para o seu cérebro e os resolvendo em uma imaginação disciplinada por sua prática externa. (Você pode colocar em ordem alfabética as palavras desta frase de cabeça?).

Uma fonte particularmente rica de técnicas novas de re-representação é o hábito que nós - e apenas nós - desenvolvemos de deliberadamente mapear nossos novos problemas para a nossa velha maquinaria de resolver problemas. Considere, por exemplo, os muitos métodos diferentes que desenvolvemos de pensar sobre o tempo ao pensar na verdade sobre o espaço (Jaynes, 1976). Temos todos os tipos de maneiras convencionais de mapear passado, presente e futuro, antes e depois, cedo e tarde - diferenças virtualmente invisíveis em uma natureza não refinada - em esquerda e direita, superior e inferior, horário e anti-horário. A segunda-feira está à esquerda da terça-feira para a maioria de nós, enquanto (em uma convenção valiosa que está desaparecendo de nossa cultura, é triste dizer), quatro horas está abaixo das três horas no lado direito de cada dia ou noite. Nossa espacialização do tempo não para aqui. Na ciência, particularmente, ela se estende aos gráficos, os quais agora se tomaram um sistema familiar de diagramas para quase todas as pessoas cultas. (Pense sobre os lucros, ou a temperatura, ou a potência de seu estéreo, crescendo da esquerda para a direita com a passagem do tempo.) Usamos nosso senso de espaço para ver a passagem do tempo (habitualmente da esquerda para a direita, na convenção padrão, exceto nos diagramas evolutivos, nos quais eras anteriores são muitas vezes mostradas na parte inferior do diagrama e o hoje na parte superior). Como esses exemplos demonstram - a ausência de quaisquer figuras do texto neste ponto é deliberada -, nossa capacidade de imaginar esses diagramas quando verbalmente convidados a fazê-lo é, em si, uma competência gregoriana valiosa, com muitas finalidades. Nossa capacidade de imaginar esses diagramas é parasitária da nossa capacidade de desenhá-los e vê-los, descarregando-os pelo menos temporariamente no mundo externo.

Graças às nossas imaginações proteticamente reforçadas, podemos formular possibilidades metafísicas que de outro modo seriam imponderáveis e passariam despercebidas, como o caso de Amy, a moeda da sorte, discutido no final do Capítulo 4. Precisamos ser capazes de imaginar a linha da trajetória, que de outra maneira seria invisível, unindo a Amy genuína de ontem a somente uma das moedas similares da pilha -precisamos capturá-la com a nossa "imaginação". Sem tais auxílios visuais, internos ou externos, teríamos grande dificuldade em acompanhar, muito menos contribuir, para essas observações metafísicas. (Isto significa que alguém cego de nascença não poderia participar dessas discussões metafísicas? Não, não significa, porque, de uma maneira ou outra, os cegos desenvolvem seus próprios métodos de imaginar espacialmente, preocupados, exatamente como uma pessoa que vê, em manter o rastro de coisas que se movem no espaço. Mas uma questão interessante é que diferenças, se existentes, podem ser encontradas nos estilos de pensamento abstrato adotados pelos que são cegos ou surdos de nascença.) Armados com estas ferramentas mentais, tendemos a esquecer que nossas maneiras de pensar a respeito do mundo não são as únicas possíveis, e em particular não são pré-requisitos para engajar-se no mundo com êxito. Provavelmente parece óbvio, à primeira vista, que, sendo tão manifestamente inteligentes, cães, golfinhos e morcegos devem possuir conceitos mais ou menos como os nossos, mas após uma reflexão isto não deveria parecer tão óbvio assim. A maioria das perguntas que fizemos, a partir da nossa perspectiva evolutiva, a respeito da ontologia e da epistemologia de outras criaturas ainda não foram respondidas, e as respostas sem dúvida serão surpreendentes. Demos apenas o primeiro passo: examinamos algumas possibilidades investigáveis que negligenciamos anteriormente.

De todas as ferramentas mentais que adquirimos no curso do processo de abastecer nossos cérebros a partir das pilhas de estoque da cultura, nenhuma é mais importante, é claro, do que as palavras -primeiro faladas, depois escritas. As palavras nos tornam mais inteligentes ao tornar a cognição mais fácil, da mesma forma (multiplicada muitas vezes) que os faróis direcionais e os marcos tornam a navegação no mundo mais fácil para as criaturas simples. A navegação no mundo abstrato multidimensional das ideias é simplesmente impossível sem um amplo estoque de marcos móveis, memorizáveis, que possam ser compartilhados, criticados, registrados e procurados a partir de diferentes perspectivas. É importante lembrar que falar e escrever são duas inovações inteiramente distintas, separadas por muitas centenas de milhares (e talvez milhões) de anos, e que cada uma dessas inovações possui seu próprio conjunto distinto de poderes. Tendemos a colocar os dois fenômenos juntos, especialmente quando teorizamos sobre o cérebro ou a mente. A maior parte do que foi escrito a respeito das possibilidades de uma "língua de pensamento" como um meio de operações cognitivas pressupõe que estejamos pensando sobre uma linguagem escrita de pensamento - escrita "cerebral e leitura mental" como coloquei há alguns anos. Podemos obter uma perspectiva melhor sobre como o advento da língua poderia ampliar nossos poderes cognitivos se nos concentrássemos no porquê e no como uma língua falada de pensamento -um rebento de nossa língua natural, pública -poderia fazer um bom trabalho.

Falando com nós mesmos

Se a mente não adestrada de uma criança deve se transformar numa

mente inteligente, ela tem de adquirir tanto disciplina como iniciativa.

Alan Turing

Não há passo mais elator, mais explosivo, mais importante na história do planejamento da mente do que a invenção da linguagem. Quando o Homo sapiens se tomou beneficiário desta invenção, a espécie acomodou-se em uma atiradeira que a lançou muito além de todas as outras espécies terrestres no que diz respeito ao poder de pensar no futuro e refletir. O que é verdadeiro para a espécie o é também para o indivíduo. Nenhuma transição é mais astronomicamente capacitadora na vida de determinada pessoa do que "aprender" a falar. Devo colocar as palavras entre aspas, já que agora percebemos (graças ao trabalho dos linguistas e dos psicolinguísticas) que as crianças humanas são de muitas maneiras geneticamente pré-planejadas para adquirir uma língua. Como o pai da linguística moderna, Noam Chomsky, muitas vezes diz (com exagero desculpável), os pássaros não precisam aprender o funcionamento de suas penas e os bebês não precisam aprender sua língua. Grande parte do duro trabalho de projetar um usuário da língua (ou um usuário das penas) foi realizado há muitas eras e é fornecido à criança na forma de talentos e disposições inatos, prontamente adaptáveis às condições locais de vocabulário e gramática. As crianças adquirem uma língua com uma rapidez de tirar o fôlego, coletando novas palavras a uma taxa média de uma dúzia por dia, durante anos, até que se tomam adolescentes, quando a taxa cai para um quase nada. Eles dominam quase todos os pontos delicados de suas gramáticas antes de entrarem na escola. Além de todas as suas interações linguísticas com os membros das suas famílias (e animais de estimação), os bebês e as crianças que engatinham gastam muitas horas vocalizando para si mesmas, primeiro balbuciando, depois se entregando a misturas maravilhosas de palavras e sílabas que não fazem sentido, ricamente dotadas de diferentes tonalidades de voz - exortativa, tranquilizadora, explanatória, afetuosa - e finalmente evoluindo para um auto comentário elaborado.

As crianças gostam de conversar consigo mesmas. O que poderá isto estar fazendo com suas mentes? Não posso responder a esta pergunta ainda, mas tenho algumas sugestões especulativas para pesquisas adicionais. Considere o que acontece bem no início da vida linguística de qualquer criança. "Quente!'', diz a mãe. "Não toque no fogão!" Neste ponto, a criança não necessita saber o que "quente" ou "toque" ou "fogão" significam - estas palavras são primariamente apenas sons, eventos do tipo auditivo que possuem certa tonalidade agradável, certa familiaridade, certa memorabilidade ecoante para a criança. Elas acabam por conjurar uma situação-tipo - fogão-aproximação-e-evitação - que não é apenas uma situação na qual uma proibição específica é regularmente ouvida, mas também uma situação em que um ensaio auditivo de mímica é também encontrado. Grosseiramente simplificando, vamos admitir que a criança adquira o hábito de dizer a si mesma (em voz alta) "quente!", "não toque!" sem muita ideia do que estas palavras significam, vocalizando-as simplesmente como parte do exercício que acompanha a aproximação e depois o afastamento do fogão - e também como uma espécie de mantra, que pode ser proferido em qualquer outro instante de tempo. Afinal de contas, as crianças gostam do hábito de ensaiar palavras que apenas acabaram de ouvir -ensaiando-as dentro e fora do contexto e construindo elos de reconhecimento e trajetórias de associação entre as propriedades auditivas e as propriedades sensoriais concorrentes, estados internos, e assim por diante.

Este é um esboço grosseiro do tipo de processo que deve estar acontecendo. Este processo poderia ter o efeito de dar início a um hábito que poderíamos chamar auto comentário semi entendido. A criança, estimulada inicialmente por algumas associações auditivas insistentes provocadas pelas advertências de seus pais, adquire o hábito de adicionar uma trilha sonora às suas atividades -"fazendo comentários" sobre elas. As emanações vocálicas reais consistiriam desde o início em grandes quantidades de "garatujas" - um falar sem sentido composto por sons que lembram palavras -misturadas a palavras reais vocalizadas com muito mais sentimento mas pouca ou nenhuma apreciação de seus significados, e umas poucas palavras compreendidas. Haveria uma exortação fingida, uma proibição fingida, um elogio fingido, uma descrição fingida, e todas essas finalmente amadureceriam, transformando-se em exortação, proibição, elogio e descrição reais. Mas o hábito de adicionar "etiquetas" seria assim adquirido antes que as próprias etiquetas fossem entendidas, ou mesmo parcialmente entendidas.

Estou sugerindo que são essas práticas inicialmente "estúpidas" - a simples vocalização de etiquetas, em circunstâncias apropriadas e inapropriadas -que poderiam logo transformar-se no hábito de representar nossos próprios estados e atividades para nós mesmos de uma maneira nova. À medida que a criança estabelece mais associações entre os processos auditivos e articulatórios de um lado, e padrões de atividades concorrentes do outro, isto cria nodos de saliência na memória. Uma palavra pode tomar-se familiar mesmo sem ser entendida. E são essas âncoras de familiaridade que poderiam dar a uma etiqueta uma identidade independente dentro do sistema. Sem tal independência, as etiquetas são invisíveis. Para que uma palavra sirva como etiqueta útil, manipulável, no refinamento dos recursos de um cérebro, ela deve ser uma reforçadora imediata de associações que estão sendo procuradas e que em certa medida já estão estabelecidas no sistema. Além disso, as palavras podem ser arbitrárias e sua arbitrariedade é na verdade parte do que as toma distintas: há pouco risco de deixar de observar a presença da etiqueta; ela não apenas se mistura com suas vizinhanças, como uma marca no canto de uma caixa de sapatos. Ela traz em si o caráter deliberatório de sua criação.

O hábito do auto comentário semi entendido poderia, estou sugerindo, ser a origem da prática da rotulação deliberada, em palavras (ou palavras "rabiscadas", ou outros neologismos particulares), as quais por sua vez poderiam conduzir a uma prática ainda mais eficiente: deixar de lado todas ou a maioria das associações auditivas e articulatórias e apenas depender do resto das associações (e associações-possibilidades) para realizar o ancoramento. A criança, sugiro, pode abandonar vocalizações em voz alta e criar neologismos particulares, não vocalizados, como etiquetas de características de sua própria atividade.

Podemos considerar um objeto linguístico como um objeto descoberto (mesmo se de algum modo o estragamos um pouco ao criá-lo nós mesmos em lugar de ouvi-lo de algum outro) e guardá-lo para consideração posterior, off-line. Nossa habilidade de fazer isto depende da nossa habilidade de reidentificar ou reconhecer tal etiqueta em ocasiões diferentes, e isto por sua vez depende de a etiqueta possuir alguma característica ou características pelas quais se faça lembrar - algum chamativo independente de seu significado. Uma vez que tenhamos criado etiquetas e adquirido o hábito de afixá-las a circunstâncias experimentadas, criamos uma nova classe de objetos que podem eles mesmos se tornar os objetos de toda a maquinaria de reconhecimento de padrão, de construção de associações e assim por diante. Como os cientistas que se debruçam retrospectivamente em um exame sem pressa sobre as fotografias que tiraram no calor da batalha experimental, podemos refletir sobre quaisquer tipos de padrões discerníveis nas várias etiquetas que retiramos da memória.

À medida que nos aperfeiçoamos, nossas etiquetas se tornam mais refinadas, mais perspicazes, mais bem articuladas mesmo, e o ponto é finalmente atingido quando nos aproximamos da proeza quase mágica com que começamos: a simples contemplação de uma representação é suficiente para fazer lembrar todas as lições apropriadas. Tornamo-nos entendedores dos objetos que criamos. Podemos chamar esses nodos de artefatos em nossas memórias, essas pálidas sombras de palavras articuladas e ouvidas, de conceitos. Um conceito, então, é uma etiqueta interna que pode ou não incluir entre as suas muitas associações as características auditivas e articulatórias de uma palavra (pública ou privada). Mas palavras, estou sugerindo, são os protótipos ou ancestrais de conceitos. Os primeiros conceitos que podemos manipular; estou sugerindo, são conceitos "vocalizados", e apenas conceitos que podem ser manipulados podem tomar-se objetos de escrutínio para nós.

Platão, no Teeteto, compara a memória humana a uma ampla gaiola de pássaros:

SÓCRATES: Considere agora se o conhecimento é uma coisa que

você pode possuir de maneira a não o trazer consigo, como um homem que capturou alguns pássaros silvestres - pombos ou o que quer que seja - e os mantém em um aviário feito para eles em sua casa. Em certo sentido, é claro, poderíamos dizer que ele os "possui" o tempo todo enquanto os mantém presos, não poderíamos?

TEETETO: Sim.

SÓCRATES: Mas em outro sentido ele não "possui" nenhum deles,

embora possa controlá-los, agora que os tomou cativos em um cercado de sua propriedade; ele pode pegá-los e segurá-los sempre que desejar, capturando qualquer pássaro que escolher, e deixando-o partir novamente; e está aberta para ele a possibilidade de fazer isto quantas vezes quiser. (197 c-d, tradução de Comford)

O truque é: pegar o pássaro certo quando você precisar dele. Como o fazemos? Por meio da tecnologia. Nós construímos sistemas elaborados de associação mnemônica -ponteiros, etiquetas, passagens verticais, escadas, ganchos, correntes. Refinamos nossos recursos pela manipulação e ensaio incessantes, transformando nossos cérebros (e todos os equipamentos periféricos que adquirimos) em uma vasta rede estruturada de competências. Nenhuma evidência trazida à luz até agora mostra que qualquer outro animal faz qualquer coisa parecida com isto.

OceanofPDF.com

6 – Nossas mentes e outras mentes

Uma vez que uma criança tenha aprendido o significado de "por

que" e "porque", ela se torna um membro completamente adulto da raça humana.

Elaine Morgan, The Descent of the Child: Human Evolution from

a New Perspective

Nossa consciência, suas mentes

Uma mente parece ser menos miraculosa quando vemos como poderíamos tê-la montado a partir das suas partes, e como ela ainda depende dessas partes. Uma mente humana nua - sem papel e lápis, sem falar, comparar notas, fazer esboços - é antes de tudo algo que nunca vimos. Toda mente humana que você examinou -inclusive e mais especialmente a sua própria mente, que você observa "do interior" - é um produto não apenas da seleção natural mas também de um replanejamento cultural de enormes proporções. É muito fácil ver por que uma mente parece assombrosa quando não temos ideia alguma de todos os seus componentes e de como estes foram fabricados. Cada componente tem uma longa historia de planejamento, algumas vezes com bilhões de anos de duração.

Antes que qualquer criatura pudesse pensar, havia criaturas com intencionalidade grosseira, impensada - simples dispositivos de rastreamento e discriminação que não possuíam a menor ideia do que estavam fazendo ou por quê. Mas eles funcionavam bem. Esses dispositivos rastreavam coisas, respondendo confiavelmente às suas contorções e voltas, mantendo-se presos ao alvo durante a maior parte do tempo, e raramente se desgarrando por muito tempo antes de retomar às suas tarefas. Durante intervalos de tempo muito maiores, os projetos desses dispositivos poderiam também ser imaginados rastreando alguma coisa: não companheiros evasivos, ou presas, mas algo abstrato - as motivações de flutuação livre de suas próprias funções. À medida que as circunstâncias mudavam, os projetos dos dispositivos mudavam em resposta apropriada às novas condições, mantendo seus proprietários bem equipados sem afligi-los com as razões. Essas criaturas caçavam, mas não pensavam que estavam caçando, fugiam mas não pensavam que estavam fugindo. Elas possuíam o know-how de que precisavam. O know-how é um tipo de sabedoria, um tipo de informação útil, mas não é conhecimento representado.

Então algumas criaturas começaram a refinar aquela parte do meio ambiente que era a mais fácil de ser controlada, colocando marcas no interior e no exterior - descarregando problemas no mundo, e também em outras partes de seus cérebros. Elas começaram a fazer e a utilizar representações, mas não sabiam que estavam procedendo assim. Elas não precisavam saber. Deveríamos chamar este tipo de uso de representações "pensamento"? Se assim fosse, então teríamos de dizer que estas criaturas estavam pensando, mas não sabiam! O pensamento inconsciente - quem gosta de formulações "paradoxais" pode preferir esta maneira de falar, mas poderíamos dizer de modo menos errôneo que isto era comportamento inteligente mas irrefletido, porque não apenas não era reflexivo mas também porque não poderia ser algo sobre o qual refletir.

Nós, seres humanos, fazemos muitas coisas inteligentes sem pensar. Escovamos nossos dentes, amarramos os cordões dos nossos sapatos, dirigimos nossos carros e mesmo respondemos perguntas sem pensar. Mas a maioria dessas nossas atividades são diferentes, pois podemos pensar sobre elas de maneiras que outras criaturas não podem pensar a respeito de suas atividades impensadas mas inteligentes. De fato, muitas de nossas atividades impensadas, como dirigir um carro, puderam tomar-se impensadas apenas após passar por um longo período de desenvolvimento de projeto que era explicitamente autoconsciente. Como isto é realizado? Os aperfeiçoamentos que instalamos em nossos cérebros quando aprendemos nossas línguas nos permitem revisar, relembrar, ensaiar novamente, reprojetar nossas próprias atividades, transformando nossos cérebros em uma espécie de câmara de ecos, em que processos do contrário evanescentes podem ficar por perto e se tomar objetos por sua própria conta. Aqueles que persistem por mais tempo, adquirindo influência à medida que subsistem, chamamos de nossos pensamentos conscientes. Conteúdos mentais se tomam conscientes não por adentrar alguma câmara especial no cérebro, não por serem transduzidos para algum meio misterioso e privilegiado, mas por vencer as competições com outros conteúdos mentais pela dominação do controle do comportamento, e portanto por obter efeitos duradouros - ou, como erroneamente dizemos, "ficando na memória". E como somos conversadores, e como conversar com nós mesmos é uma das nossas atividades mais influentes, uma das maneiras mais eficientes de um conteúdo mental se tomar influente é ficar em posição de dirigir as partes do controle que utilizam a linguagem.

Uma reação comum a esta sugestão sobre a consciência humana é a de um grande espanto, expresso mais ou menos como se segue: "Suponha que todos esses processos competitivos estranhos estejam acontecendo em meu cérebro, e suponha que, como você diz, os processos conscientes sejam simplesmente aqueles que vencem as competições. Como isto os faz conscientes? O que acontece em seguida a eles que toma verdadeiro que eu tenho conhecimento deles? Pois, afinal de contas, é a minha consciência, como eu a conheço do ponto de vista da primeira pessoa, que necessita de explicação!" Essas questões traem uma confusão profunda, pois pressupõem que você é uma outra coisa, uma res cogitans cartesiana além de toda esta atividade cérebro-e-corpo. O que você é, porém, é apenas esta organização de toda a atividade competitiva entre um grande número de competências que seu corpo desenvolveu. Você "automaticamente" sabe como essas coisas estão acontecendo em seu corpo, pois, se não soubesse, não seria o seu corpo! (Você poderia sair com as luvas de outra pessoa pensando erroneamente que fossem as suas luvas, mas não poderia assinar um contrato com a mão de outra pessoa pensando erroneamente que fosse a sua mão, e não poderia ser tomado pela tristeza ou temor de outra pessoa, pensando erroneamente que fossem seus).

Os atos e eventos sobre os quais você pode fazer relatos para nós, e os seus motivos, são seus, pois você os criou - e porque eles fazem você. Você é aquele agente cuja vida pode relatar. Você pode relatar-nos e você pode relatar para você mesmo. O processo de auto descrição começa na infância mais tenra e inclui desde o início uma boa dose de fantasia. (Pense em Snoopy do desenho em quadrinhos Peanuts, sentando em sua casinha de cachorro e pensando: "Aqui está o ás da Primeira Guerra Mundial, voando para o combate.") Este processo continua por toda a vida. (Pense no garçom do café na discussão de Jean-Paul Sartre sobre a "má fé" em "O ser e o nada", que está todo empenhado em aprender como viver de acordo com sua auto descrição como garçom. É o que nós fazemos. É o que nós somos.

Serão outras mentes realmente tão diferentes das mentes humanas? Como uma experiência simples, gostaria que você imaginasse algo que, ouso dizer, nunca imaginou antes. Por favor, imagine, com algum detalhe, um homem em um avental de laboratório branco subindo por uma corda com as mãos enquanto mantém um balde de plástico vermelho preso entre os dentes. Uma tarefa mental fácil para você. Um chimpanzé poderia realizar a mesma tarefa mental? Duvido. Escolhi os elementos - homem, corda, subir, balde, dentes - como objetos familiares no mundo perceptivo e comportamental de um chimpanzé de laboratório. Estou certo de que este chimpanzé não apenas pode perceber essas coisas mas também vê-las como um homem, uma corda, um balde e assim por diante. Em algum sentido mínimo, então, garanto que o chimpanzé tem um conceito de homem, corda, balde (mas, presumivelmente, não tem conceitos de lagosta, de um poema humorístico, ou de um advogado). Minha pergunta é: o que um chimpanzé pode fazer com os conceitos dele? Durante a Primeira Guerra Mundial, o psicólogo alemão Wolf gang Köhler realizou algumas experiências famosas com chimpanzés para ver que tipo de problemas eles poderiam resolver pelo pensamento: poderia um chimpanzé descobrir como empilhar algumas caixas em sua gaiola para alcançar as bananas penduradas no teto e que estavam muito alto para que ele pudesse alcançá-las? Alternativamente, poderia o chimpanzé perceber como amarrar duas varetas, transformando-as em uma suficientemente comprida para alcançar o alimento? O folclore popular afirma que os chimpanzés de Köhler podiam de fato descobrir estas soluções, mas na verdade os animais eram bastante inexpressivos na ação; alguns resolveram os problemas somente após muitas, muitas tentativas, e outros nunca perceberam a solução. Estudos posteriores, inclusive alguns atuais, muito mais sutis, ainda não foram capazes de resolver essas questões aparentemente simples a respeito do que um chimpanzé pode pensar quando a ele são fornecidos todos os indícios. Mas suponhamos por um instante que as experiências de Köhler realmente tivessem respondido à questão que elas comumente possuem a reputação de ter respondido: que um chimpanzé pode verdadeiramente descobrir a solução para um problema simples deste tipo, desde que os elementos da solução sejam visíveis e ao alcance da mão -disponíveis para manipulações de erro e tentativa.

Minha pergunta é diferente: pode um chimpanzé trazer à memória os elementos de uma solução quando esses elementos não estão presentes para suprir o chimpanzé com lembretes visíveis de si mesmos? O exercício em que você está engajado foi provocado por uma sugestão verbal de minha parte. Estou certo de que você pode fazer também sugestões para si mesmo, e então considerar suas próprias sugestões, e com isso dar às imagens mentais uma novidade considerável. (Esta é uma das coisas que nós sabemos a nosso respeito - que nós todos gostamos de nos dedicar a exercícios elaborados de imaginação cuidadosamente talhados para satisfazer nossos interesses do momento) O relato que esbocei nos capítulos anteriores de como a mente não humana trabalha implica que os chimpanzés deveriam ser incapazes de tais atividades. Eles poderiam de alguma forma reunir os conceitos pertinentes (os tipos de conceitos deles) por acidente, e então ter sua atenção atraída para quaisquer resultados interessantes, mas mesmo isto, eu suspeito, está além dos limites de seus recursos de mobilidade ou manipulação.

Essas perguntas a respeito das mentes dos chimpanzés são bastante simples, mas ninguém conhece as respostas - ainda. As respostas não são impossíveis de ser obtidas, mas projetar as experiências apropriadas não é fácil. Observe que essas questões não são do tipo que podem ser examinadas olhando-se para o tamanho relativo do cérebro do animal, ou mesmo pela avaliação da sua capacidade cognitiva bruta (de memória, de proezas discriminatórias). Certamente há muita maquinaria no cérebro de um chimpanzé para armazenar toda a informação necessária como matéria-prima para tal tarefa; a questão é se a maquinaria está organizada de maneira a permitir este tipo de exploração. (Você tem um grande aviário, com muitos pássaros; será que poderia fazê-los voar em formação?) O que torna uma mente poderosa -de fato, o que torna uma mente consciente -não é do que ela é feita, ou o seu tamanho, mas sim o que ela pode fazer. Ela pode concentrar-se? Pode ser distraída? Pode lembrar-se de eventos anteriores? Pode rastrear várias coisas diferentes ao mesmo tempo? Que aspectos de suas atividades atuais ela pode observar ou monitorar?

Quando questões como essas forem respondidas, saberemos tudo o que precisamos saber a respeito dessas mentes para responder a questões moralmente importantes. Essas respostas abarcarão tudo o que queremos saber sobre o conceito de consciência, exceto uma ideia sobre, como um autor recentemente afirmou, "se as luzes mentais estariam presentes" ou não em tal criatura. Mas isto é apenas uma má ideia - a despeito de sua popularidade. Não apenas ela nunca foi definida ou mesmo esclarecida por qualquer um de seus defensores; não há trabalho que tal esclarecimento ou definição possa fazer. Pois suponha que tenhamos de fato respondido a todas as outras questões a respeito da mente de alguma criatura, e agora alguns filósofos afirmam que ainda não sabemos a resposta a esta importantíssima questão: a luz mental está presente -sim ou não? Por que qualquer uma dessas respostas seria importante? Devemos dar uma resposta a esta questão, antes que precisemos considerar a pergunta deles seriamente.

Um cão tem um conceito de gato? Sim e não. Não importa quão próximo o "conceito" de gato de um cão esteja do seu em extensão (você e o cão discriminam o mesmo conjunto de entidades como gatos e não-gatos), ele difere radicalmente de uma maneira: o cão não pode considerar seu próprio conceito. Ele não pode perguntar-se se sabe o que os gatos são; ele não pode perguntar-se se os gatos são animais ou não; ele não pode tentar distinguir a essência do gato (por seu próprio conhecimento) dos meros acidentes. Conceitos não são coisas no mundo canino da maneira como os gatos o são. Conceitos são coisas em nosso mundo porque possuímos uma linguagem. Um urso polar é competente diante da neve de muitas maneiras pelas quais um leão não é, portanto, em certo sentido, um urso polar tem um conceito que falta ao leão -o conceito de neve. Mas nenhum mamífero destituído de linguagem pode possuir o conceito de neve da maneira como nós podemos, porque um mamífero destituído de língua não possui maneiras de considerar a neve "em geral" ou "em si mesma". Isto não é pela razão trivial de que ele não tem uma palavra (da língua natural) para neve mas sim porque, sem uma língua natural, ele não possui qualquer talento para separar os conceitos de seus ninhos de conexão entrelaçados e manipulá-los. Podemos falar do conhecimento implícito e prático sobre a neve que o urso polar tem (o snow-how do urso polar), e podemos mesmo investigar, empiricamente, a extensão do conceito de neve embutido no urso polar, mas tendo em mente que para o urso polar isto não é um conceito controlável.

"Ele pode não ser capaz de falar, mas certamente pensa!" - um dos principais objetivos deste livro tem sido p de abalar a sua confiança nesta reação familiar. Talvez o maior obstáculo em nossas tentativas de esclarecer as competências mentais dos animais não-humanos seja o nosso quase irresistível hábito de imaginar que eles acompanham suas atividades inteligentes com uma torrente de consciência reflexiva algo parecida com a nossa própria consciência. Não que agora saibamos que eles não fazem isto; é que nestes dias iniciais de nossas investigações não devemos supor que eles o fazem. O pensamento filosófico e científico sobre esta questão foi fortemente influenciado pelo trabalho clássico de 1974 do filósofo Thomas Nagel "O que é ser um morcego?". O título por si mesmo nos coloca no caminho errado, convidando-nos a ignorar todas as maneiras diferentes pelas quais os morcegos (e outros animais) podem realizar seus feitos astuciosos sem que estes "sejam" qualquer coisa para eles. Criamos um mistério supostamente impenetrável para nós mesmos se admitirmos sem muito barulho que a pergunta de Nagel faz sentido e que sabemos o que estamos perguntando.

Como é para um pássaro construir um ninho? A pergunta o convida a imaginar como você construiria um ninho e então tentar imaginar os detalhes da comparação. Mas como construir ninhos não é algo que habitualmente você faça, deveria primeiro lembrar-se de como é para você fazer algo familiar. Bem, como é para você amarrar os cordões dos sapatos? Algumas vezes você presta atenção; outras vezes, isto é feito por seus dedos sem qualquer percepção, enquanto pensa em outras coisas. Assim, talvez, você poderia pensar, o pássaro está sonhando acordado ou planejando as atividades de amanhã enquanto executa seus movimentos construtivos. Talvez, mas de fato até o momento há evidência sólida de que o pássaro não está equipado para fazer algo deste tipo. De fato, o contraste que se observa entre prestar atenção e fazer a tarefa enquanto a mente está ocupada com outra coisa provavelmente não tem contrapartida no caso do pássaro. O fato de que você não poderia construir um ninho sem pensar cuidadosa e reflexivamente sobre o que está fazendo e por que não é de modo algum uma boa razão para supor que, quando o pássaro constrói o seu ninho, ele precisa pensar seus pensamentos passarinheiros sobre o que está fazendo (pelo menos ao fazer seu primeiro ninho, antes que domine a tarefa). Quanto mais aprendemos a respeito de como os cérebros podem engajar-se em processos que realizam feitos inteligentes para seus possuidores não-humanos, menos esses processos parecem com pensamentos que imaginamos estarem fazendo o trabalho. Isto não significa que nossos pensamentos não são processos que ocorrem em nossos cérebros, ou que nossos pensamentos não estão desempenhando os papéis críticos de governar nosso comportamento que normalmente supomos que estão. Presumivelmente, alguns dos processos nos nossos cérebros humanos serão finalmente discerníveis como os pensamentos que conhecemos com tanta intimidade, mas resta ver se as competências mentais de quaisquer outras espécies dependem de que tenham vidas mentais da maneira como as temos.

Dor e sofrimento: o que é importante

Há sempre uma solução bem conhecida paracada problema

humano - clara, plausível, e errada.

H. L. Mencken, Prejudices (segunda série)

Seria reconfortante se tivéssemos chegado ao fim da nossa história e pudéssemos dizer algo do tipo "e assim vemos que se deduz de nossas descobertas que insetos, peixes e répteis afinal de contas não são sencientes-são meros autômatos -mas anfíbios, pássaros e mamíferos são sencientes ou conscientes exatamente como nós! E, pode ser registrado, um feto humano se torna senciente entre 15 e 16 semanas". Tal solução plausível, clara, para alguns de nossos problemas humanos de tomada de decisões morais seria um grande alívio, mas essa história ainda não pode ser contada, e não há qualquer razão para acreditar que essa história se desdobrará assim mais tarde. E improvável que tenhamos deixado de considerar inteiramente uma característica da mentalidade que faria toda a diferença para a moralidade, e as características que examinamos parecem surgir não apenas gradualmente mas de um modo não sincronizado, incongruente e semelhante a uma colcha de retalhos, na história evolutiva e no desenvolvimento de organismos individuais. É possível, é claro, que pesquisas adicionais revelem um até aqui indetectado sistema de similaridades e diferenças que nos impressionará de modo apropriado, e seremos então capazes de ver, pela primeira vez, onde a natureza estabeleceu o limite, e por quê. Isto não é uma possibilidade confiável, porém, se não podemos mesmo imaginar o que tal descoberta poderia ser, ou por que nos impressionaria como moralmente pertinente. (Poderíamos igualmente imaginar que um belo dia as nuvens se abrirão e Deus nos dirá, diretamente, que criaturas incluir e quais excluir do círculo encantado.)

Em nosso exame de tipos de mentes (e protomentes) parece não haver qualquer limiar claro ou massa crítica -até que cheguemos ao tipo de consciência que nós, seres humanos que utilizam uma linguagem, desfrutamos. Esta variedade de mente é única, e ordens de magnitude mais poderosa do que qualquer outra variedade de mente, mas provavelmente não queremos atribuir muito peso moral a ela. Podemos muito bem pensar que a capacidade de sofrimento conta mais, nos cálculos morais, do que a capacidade de raciocínio abstruso e sofisticado sobre o futuro (e tudo o mais que existe sob o Sol). Qual é, então, a relação entre dor, sofrimento e consciência?

Embora a distinção entre dor e sofrimento seja, como a maioria das distinções cotidianas, não-científicas, de alguma forma indistinta nas fronteiras, não obstante é uma marca ou medida de importância moral valiosa e intuitivamente satisfatória. O fenômeno da dor no seio das espécies não é nem homogêneo nem simples. Podemos ver isto por nós mesmos, observando como respostas a perguntas simples não são óbvias. Serão os estímulos dos nossos receptores de dor -estímulos que nos impedem de permitir que nossos membros assumam posições estranhas, que podem danificar nossas articulações enquanto dormimos - experimentados como dor? Ou poderiam eles ser apropriadamente chamados dores inconscientes? De qualquer modo, eles possuem significado moral? Poderíamos chamar esses estados do sistema nervoso que protegem o corpo de estados "sencientes" sem que isto implique que sejam as experiências de qualquer self, qualquer ego, qualquer indivíduo. Para que tais estados tenham importância - chamemos ou não dores, estados conscientes ou experiências -, deve haver um sujeito especial para quem eles têm importância, pois são uma fonte de sofrimento.

Considere o fenômeno amplamente relatado da dissociação na presença de grande dor ou temor. Quando crianças muito novas são maltratadas, utilizam caracteristicamente um estratagema desesperado mas eficiente: elas "se desligam". De alguma forma, declaram para si mesmas que não são elas que estão sofrendo a dor. Parece haver duas principais variedades de dissociados: aqueles que simplesmente rejeitam a dor como sua e então a testemunham de longe, por assim dizer; e aqueles que se dividem pelo menos momentaneamente em algo semelhante a personalidades múltiplas ("eu" não estou sofrendo esta dor, "ela" está). Minha hipótese não inteiramente impertinente sobre isto é que essas duas variedades de crianças diferem em seu endosso tácito de uma doutrina filosófica: toda experiência deve ser a experiência de algum sujeito. As crianças que rejeitam o princípio não veem nada errado em simplesmente rejeitar a dor, deixando-a destituída de sujeito, vagando sem rumo sem machucar ninguém em particular. Aquelas que adotam o princípio devem inventar um outro para ser o sujeito -"qualquer um menos eu!"

De qualquer modo, sustentada ou não, a maioria dos psiquiatras concorda que essa interpretação do fenômeno da dissociação funciona, até certo ponto. Isto é, seja qual for o truque psicológico em que a dissociação consista, ele é genuinamente analgésico - ou, mais precisamente, diminua ou não a dor, ele definitivamente abranda o sofrimento. Assim, temos uma espécie de resultado modesto: a diferença, qualquer que seja, entre uma criança não-dissociada e uma dissociada é uma diferença que marcadamente afeta a existência ou a quantidade de sofrimento. (Apresso-me a acrescentar que nada do que disse implica que as crianças, quando se dissociam, de algum modo mitigam a atrocidade do comportamento vil de seus algozes; elas, porém, diminuem dramaticamente o horror dos próprios efeitos - embora tais crianças possam pagar um preço muito alto mais tarde em suas vidas ao lidar com as consequências de suas dissociações).

Uma criança dissociada não sofre tanto quanto uma criança não-dissociada. Mas agora o que deveríamos dizer sobre criaturas que são naturalmente dissociadas - que nunca atingem, ou mesmo tentam atingir, o tipo de organização interna complexa que é padrão em uma criança normal e que é rompida na criança dissociada? Uma conclusão convidativa seria: tal criatura é constitucionalmente incapaz de passar pelo tipo ou quantidade de sofrimento pelo qual um ser humano normal pode passar. Mas, se todas as espécies não-humanas se encontram neste estado relativamente desorganizado, temos motivos para apresentar a hipótese de que animais não-humanos podem de fato sentir dor mas não podem sofrer da maneira como podemos.

Muito conveniente! É a resposta a essa sugestão que pode ser esperada dos que amam os animais, resposta dada com indignação justificada e profunda suspeita. Como ela na verdade promete acalmar muitos dos nossos receios sobre práticas humanas comuns, absolvendo nossos caçadores, fazendeiros e experimentadores de pelo menos uma parte do sentimento de culpa que outros colocam sobre os ombros deles, deveríamos ser particularmente cautelosos e imparciais ao considerar as bases de tal hipótese. Deveríamos estar à espreita de fontes de ilusão – em ambos os lados desta questão tormentosa. A sugestão de que animais não-humanos não são suscetíveis de níveis humanos de sofrimento caracteristicamente provoca uma torrente de relatos de cortar o coração - a maioria sobre cães. Por que os cães predominam? Será que os cães são os melhores contra-exemplos porque na verdade realmente possuem uma maior capacidade de experimentar o sofrimento do que os outros mamíferos? Pode ser, e a perspectiva evolutiva que estamos acompanhando pode explicar a razão.

Os cães, e apenas os cães entre as espécies domesticadas, respondem solidamente ao enorme volume do que poderíamos chamar comportamento "humanizante" dirigido a eles por seus donos. Falamos com nossos cães, lamentamo-nos com nossos cães e em geral os tratamos o máximo que podemos como companheiros humanos - e nos deliciamos com suas respostas familiares e positivas a estas demonstrações de amizade. Podemos tentar com os gatos, mas raramente funciona. Em retrospecto, isto não é surpreendente; os cães domésticos são descendentes de mamíferos sociais, acostumados durante milhões de anos a viver em grupos cooperativos altamente interativos, enquanto os gatos domésticos se originam de linhagens não-sociais. Além do mais, os cães domésticos são de modo significativo diferentes de seus primos, os lobos, as raposas e os coiotes, em sua capacidade de resposta ao afeto humano. Não há mistério sobre o motivo por que isto seria assim. Os cães domésticos foram selecionados durante centenas de milhares de gerações exatamente por essas diferenças. Na Origem das espécies, Charles Darwin chamou a atenção para o fato de que enquanto a intervenção humana deliberada na reprodução de espécies domesticadas operou durante vários milhares de anos para gerar cavalos mais rápidos, ovelhas mais lanosas, gado mais suculento, e assim por diante, uma força mais sutil mas ainda assim poderosa tem estado em operação durante um tempo muito maior moldando nossas espécies domesticadas. Ele a chamou seleção inconsciente. Nossos ancestrais se dedicaram à criação seletiva, mas não achavam que estivessem fazendo isto. Este favoritismo inconsciente, durante eras, tomou nossos cães mais e mais parecidos conosco de maneiras que nos são atraentes. Entre outros traços que inconscientemente selecionamos, eu sugiro, está a suscetibilidade à socialização humana, que tem, sobre os cães, muitos·dos efeitos organizadores que a socialização humana também tem sobre crianças humanas. Tratando-os como humanos, nós na verdade tivemos a intenção de fazê-los mais humanos do que seriam de outro modo. Eles começaram a desenvolver as próprias características organizacionais que do contrário são privativas dos seres humanos socializados. Em suma, se a consciência humana - o tipo de consciência que é uma condição necessária do sofrimento grave - é, como sustentei, uma reestruturação radical da arquitetura virtual no cérebro humano, então deveria resultar que apenas os animais que fossem capazes de algo remotamente parecido com esta forma de consciência seriam os que poderiam também sofrer a imposição, pela cultura, desta máquina virtual. Os cães são obviamente os que estão em melhores condições de satisfazer esta condição.

E o que dizer sobre a dor? Quando eu piso no seu pé, provocando uma dor breve mas definida (e definitivamente consciente), causo pouco dano a você - em geral, absolutamente nenhum. A dor, embora intensa, é muito breve para ser importante, e eu não provoquei danos de longo prazo ao seu pé. A ideia de que você "sofre" durante um segundo ou dois é uma aplicação errônea e risível desta noção importante, e, mesmo quando admitimos que causei a você uns poucos segundos de dor, isto pode irritá-lo por alguns segundos ou mesmo mais uns minutos -em especial se você achar que eu o fiz deliberadamente. A dor em si mesma, como uma experiência breve, de sinal negativo, é de significado moral desprezível. (Se ao pisar no seu pé eu interrompi sua apresentação de uma ária, com isto arruinando a sua carreira operística, isto é outra questão.)

Muitas discussões parecem supor tacitamente (1) que o sofrimento e a dor são a mesma coisa em escalas diferentes; (2) que toda dor é "dor experimentada"; e (3) que "a quantidade de sofrimento" deve ser calculada ("em princípio") simplesmente adicionando-se todas as dores (o horror de cada uma delas sendo determinado pela intensidade medida em tempo de duração). Estas hipóteses, examinadas desapaixonadamente à luz fria da razão (um feito difícil para alguns partidários), são absurdas. Um pequeno exercício pode ajudar: suponha que, graças a algum "milagre da medicina moderna", você pudesse separar toda sua dor e sofrimento dos contextos em que elas ocorreram, adiando-as, digamos, para o final do ano, quando então poderão ser suportados em uma horrível semana de agonia intermitente, uma espécie de férias negativas, ou -se a fórmula da hipótese (3) for levada a sério -trocando a duração pela intensidade, de modo que as misérias de um ano pudessem ser acumuladas em um único intervalo de tempo que durasse, digamos, cinco minutos. Um ano inteiro sem sequer uma contrariedade ou dor de cabeça em troca de uma descida breve e completamente reversível ao inferno sem anestesia -você aceitaria esta barganha? Eu certamente sim, se achasse que ela faria sentido. (Estamos supondo, é claro, que este episódio horrível não me mataria ou me tornaria insano ao final -embora eu ficasse bastante feliz de tornar-me insano durante o desenrolar!) De fato, eu alegremente aceitaria a barganha mesmo se ela significasse "dobrar" ou "quadruplicar" a quantidade total de sofrimento, desde que tudo terminasse em cinco minutos e não deixasse debilidades duradouras. Acho que qualquer um ficaria feliz de fazer um negócio deste tipo, mas ele realmente não faz sentido. (Ele implicaria, por exemplo, que o benfeitor que fornecesse gratuitamente tal serviço para todos, ex hypothesi, dobraria ou quadruplicaria o sofrimento do mundo - e o mundo o adoraria por isto.)

O que está errado com este cenário, é claro, é que você não pode separar a dor e o sofrimento dos seus contextos da maneira imaginada acima. A antecipação e a conclusão, e o reconhecimento de todas as implicações para os nossos planos de vida e perspectivas não podem ser colocados de lado como os acompanhamentos "meramente cognitivos" do sofrimento. O que é terrível a respeito de perder seu emprego, ou sua perna, ou sua reputação, ou um ente querido não é o sofrimento que este evento provoca em você, mas o sofrimento que o evento é. Se estivermos preocupados em descobrir e amenizar exemplos não reconhecidos de sofrimento no mundo, precisamos estudar as vidas das criaturas, não os seus cérebros. O que acontece em seus cérebros é certamente de muita pertinência como fonte rica de evidências sobre o que elas estão fazendo e como o fazem, mas o que elas estão fazendo é ao fim e ao cabo tão visível -para o observador treinado -como as atividades das plantas, correntes montanhosas, ou motores de combustão interna. Se não conseguirmos descobrir o sofrimento nas vidas que podemos observar (estudando-as diligentemente, usando todos os métodos da ciência), podemos ficar seguros de que não há nenhum sofrimento invisível em algum lugar em seus cérebros. Se encontrarmos o sofrimento, nós o reconheceremos sem dificuldade. Ele é demasiadamente familiar.

Este livro começou com muitas perguntas, e -como este é um livro de um filósofo - termina não com respostas, mas, eu espero, com versões melhores das próprias perguntas. Pelo menos podemos ver alguns caminhos que podem ser seguidos, e algumas armadilhas que devem ser evitadas, na nossa exploração em curso dos diferentes tipos de mentes.

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