Tipos de Mentes: Rumo a uma Compreensão da Consciência
estar lá em uma forma capaz de…
estar lá em uma forma capaz de produzir seu efeito premonitório quando examinada no teste interno, mas este efeito pode ser obtido sem construir uma réplica do mundo. Afinal de contas, seria igualmente popperiano educar os pilotos fazendo-os ler um livro que lhes explicasse todas as contingências que poderiam encontrar quando finalmente subissem para as suas carlingas. Este pode não ser um método tão poderoso de aprendizado, mas é bem melhor do que o método de erro e tentativa no céu! O elemento comum nas criaturas popperianas é que de uma maneira ou outra (por hereditariedade ou aquisição) a informação está instalada nelas - informação precisa sobre o mundo que elas (provavelmente) encontrarão, e esta informação está sob tal forma que pode realizar os efeitos pré-seletivos que são sua razão de ser.
Uma das maneiras pelas quais as criaturas popperianas obtêm uma filtragem útil é colocando as opções comportamentais candidatas ante o tribunal corporal e explorando a sabedoria, não importa quão fora de moda ou míope, acumulada nesses tecidos. Se o corpo se rebela -por exemplo, em reações típicas como náusea, vertigem ou medo e tremores -, isto é um sinal semi confiável (melhor do que jogar uma moeda para o alto) de que o ato contemplado pode não ser uma boa ideia. Aqui vemos que no lugar de reestruturar o cérebro para eliminar essas escolhas, tornando-as estritamente impensáveis, a evolução pode simplesmente dar um jeito de responder a qualquer tipo de pensamento sobre elas com um impulso negativo tão forte que estas se tornam altamente improváveis para vencer a competição pela execução. A informação no corpo que dá fundamento à reação pode ter sido colocada ali por uma receita genética ou por uma experiência individual recente. Quando um bebê humano aprende a engatinhar, ele tem uma aversão inata a arriscar-se com uma vidraça, através da qual pode ver um "abismo visual". Mesmo que sua mãe lhe acene de alguns metros de distância, encorajando-a, a criança se afasta temerosa, a despeito de nunca ter sofrido uma queda em sua vida. A experiência de seus ancestrais está fazendo com que ela erre para o lado da segurança. Quando um rato come um novo tipo de comida e depois lhe é injetada uma droga que faz com que ele a vomite, ele subsequentemente mostrará uma forte aversão pela comida que se parece e cheira com a comida que devorou antes de vomitar. Aqui a informação que o levou a errar para o lado da segurança foi obtida a partir de sua própria experiência. Nenhum dos dois filtros é perfeito - afinal de contas, a vidraça é na verdade segura, e a nova comida do rato é na verdade atóxica - mas melhor estar seguro agora do que se lamentar depois.
Experiências inteligentes realizadas por psicólogos e etólogos sugerem outras maneiras pelas quais os animais podem testar ações "nas suas cabeças" e com isto obter um benefício popperiano. Nas décadas de 1930 e 1940, os behavioristas demonstraram para si mesmos repetidamente que seus animais experimentais eram capazes de "aprendizado latente" a respeito do mundo - aprendizado que não era especificamente recompensado por qualquer reforço detectável. (Seu exercício de autorefutação é em si mesmo um exemplo primoroso de outro tema popperiano: a ciência faz progressos apenas quando coloca hipóteses refutáveis.) Se fossem deixados para explorar um labirinto em que nenhum alimento ou outra recompensa estivesse presente, os ratos simplesmente aprenderiam a movimentar-se no curso normal das coisas; depois, se algo que valorizassem fosse introduzido no labirinto, os ratos que tivessem aprendido a movimentar-se em suas incursões anteriores seriam muito mais aptos a encontrá-lo (o que não é surpresa) do que os ratos no grupo de controle, que estariam vendo o labirinto pela primeira vez. Isto pode parecer uma descoberta pequena. Não foi sempre óbvio que os ratos eram suficientemente espertos para aprender a movimentar-se? Sim e não. Pode ter parecido óbvio, mas este é exatamente o tipo de teste - teste contra o pano de fundo da hipótese nula - que deve ser realizado se quisermos estar certos sobre quão inteligentes, quão possuidoras de mente, as várias espécies são exatamente. Como veremos, outras experiências com animais demonstram características surpreendentemente estúpidas - lacunas quase inacreditáveis no conhecimento dos animais a respeito de seus ambientes.
Os behavioristas tentaram corajosamente acomodar o aprendizado latente nos seus modelos ABC. Um dos seus tapa-buraco mais reveladores foi postular uma "compulsão pela curiosidade", que era satisfeita (ou "reduzida", como diziam) pela exploração. Havia reforço acontecendo afinal de contas naqueles ambientes não-reforçantes. Cada ambiente, é maravilhoso dizer, está cheio de estímulos de reforço simplesmente por ser um ambiente em que existe algo a ser aprendido. Como tentativa de salvar o behaviorismo ortodoxo, este movimento era manifestamente vazio, mas isto não o torna uma ideia inútil em outros contextos; ele reconhece o fato de que a curiosidade - a fome epistêmica - deve acionar qualquer sistema de aprendizado poderoso.
Nós, seres humanos, somos condicionáveis pelo treinamento ABC, portanto somos criaturas skinnerianas, mas não somos apenas criaturas skinnerianas. Também desfrutamos os benefícios de muitas estruturas geneticamente herdadas, portanto somos também criaturas darwinianas. Mas somos mais do que isto. Somos criaturas popperianas . Que outros animais são criaturas popperianas, e quais são apenas skinnerianas? Os pombos eram os animais experimentais favoritos de Skinner, e ele e seus seguidores desenvolveram a tecnologia do condicionamento operante até um nível muito sofisticado, fazendo com que os pombos exibissem comportamentos aprendidos notavelmente bizarros e sofisticados. Notoriamente, os skinnerianos nunca obtiveram sucesso em provar que os pombos não eram criaturas popperianas; e a pesquisa com uma grande variedade de outras espécies diferentes, desde polvos, peixes, até os mamíferos, é um forte indício de que, se existem criaturas puramente skinnerianas, capazes apenas de aprendizado cego por tentativa e erro, elas devem ser encontradas entre os invertebrados simples. A grande lesma marinha (ou lebre marinha) Aplysia californica substituiu mais ou menos o pombo como foco de atenção entre aqueles que estudam os mecanismos do condicionamento simples.
Nós não diferimos de todas as outras espécies por sermos criaturas popperiana. Longe disto; mamíferos, pássaros, répteis, anfíbios, peixes e mesmo muitos invertebrados exibem a capacidade de utilizar a informação geral que obtêm de seus meios ambientes para pré-selecionar suas opções comportamentais antes de as colocar em execução. Como a nova informação a respeito do ambiente externo é incorporada aos seus cérebros? Pela percepção, obviamente. O meio ambiente contém uma grande quantidade de riquezas, muito mais informação do que mesmo um anjo cognitivo poderia utilizar. Mecanismos de percepção projetados para ignorar a maior parte do fluxo de estímulos se concentram sobre a informação mais útil, mais confiável. E como a informação coletada dá um jeito de exercer seu efeito seletivo quando as opções são "consideradas", ajudando o animal a projetar interações cada vez mais eficiente com seu mundo? Sem dúvida há uma variedade de diferentes mecanismos e métodos, mas entre eles estão aqueles que utilizam o corpo como uma caixa de ressonância.
A busca da senciência: um relatório sobre os avanços
Viemos gradualmente adicionando elementos à nossa receita de produzir uma mente. Já teremos os ingredientes para produzir a senciência? Certamente o comportamento normal de muitos dos animais que estivemos descrevendo passa pelos nossos testes intuitivos de senciência com louvor. Ao observar um animalzinho doméstico ou um bebê tremer de medo na beira de um precipício aparente, ou um rato fazendo caretas para mostrar desgosto aparente pelo cheiro de uma comida supostamente tóxica, temos dificuldades de considerar a hipótese de que não estamos observando um ser senciente. Mas nós também descobrimos razões substanciais para termos cautela: vimos algumas maneiras pelas quais um comportamento surpreendentemente semelhante ao de um ser que possui mente pode ser produzido por sistemas de controle relativamente simples, mecânicos, aparentemente diferentes de algo com mente. A força de nossas respostas instintivas à velocidade pura e à vivacidade do movimento, por exemplo, deveria alertar-nos para a genuína -não apenas filosófica - possibilidade de que podemos estar enganados em atribuir mais sutileza, mais compreensão, a uma entidade do que as circunstâncias permitem. Ao reconhecer que o comportamento observável pode encantar-nos, podemos apreciar a necessidade de formular questões adicionais - a respeito do que está por trás desse comportamento.
Pense na dor. Em 1986, o governo britânico promulgou suas leis protegendo animais de laboratório nas experiências, adicionando o polvo ao círculo privilegiado de animais que não podem ser operados sem anestesia. Um polvo é um molusco, fisiologicamente mais parecido com uma ostra do que com uma truta (o que dirá com um mamífero), mas o comportamento dele e de outros cefalópodes (lula, siba) é tão notavelmente inteligente e -aparentemente - senciente que as autoridades científicas decidiram deixar a similaridade comportamental sobrepujar as diferenças internas: cefalópodes (mas nenhum outro molusco) são oficialmente considerados capazes de sentir dor - como medida preventiva. Os macacos resos, em contraste, são fisiológica e evolutivamente muito próximos de nós, portanto tendemos a supor que sejam capazes de sofrer da maneira que sofremos, mas eles exibem um comportamento espantosamente diferente quando isto acontece. O primatólogo Marc Hauser revelou-me em uma conversa que durante a temporada de acasalamento os macacos machos lutam ferozmente, e que não é incomum ver um macho imobilizar o outro no chão e então morder e arrancar um de seus testículos. O macho ferido não grita ou mostra uma expressão facial de dor mas simplesmente lambe a ferida e se afasta. Um ou dois dias mais tarde, o animal ferido pode ser observado acasalando! É difícil acreditar que este animal estivesse experimentando algo como as agonias de um ser humano afligido de maneira similar - a mente recua ao pensar nisto -a despeito do nosso parentesco biológico. Portanto, não podemos mais esperar que as evidências fisiológicas e comportamentais convirjam alegremente para nos dar respostas inequívocas, já que conhecemos casos em que estes dois tipos de evidências, embora inconclusivas, apontam para sentidos opostos. Como podemos pensar sobre esta questão?
A função chave da dor é o reforço negativo - a "punição" que diminui a probabilidade de um desempenho de repetição - e qualquer criatura skinneriana pode ser treinada por reforço negativo de um tipo ou outro. Será que todo reforço negativo é dor? Dor experimentada? Poderia haver dor não experimentada ou inconsciente? Há mecanismos simples de reforço negativo que podem fornecer o comportamento modelador ou o poder de aperfeiçoamento da dor com aparentemente nenhum efeito mental adicional, portanto seria um erro invocar a senciência sempre que encontrarmos o condicionamento skinneriano. Outra função da dor é desarranjar os padrões normais da atividade corporal que poderiam exacerbar um ferimento - a dor faz com que um animal favoreça um membro ferido até que ele fique bom, por exemplo - e isto é normalmente realizado por um derrame de produtos neuroquímicos em um ciclo autossustentável de interação com o sistema nervoso. A presença dessas substâncias garante a ocorrência da dor? Não, pois em si mesmas elas são apenas chaves flutuando ao acaso em busca de suas fechaduras; se o ciclo de interação é interrompido, não há razão para supor que a dor persiste. Serão estas substâncias particulares necessárias para a dor? Poderia haver criaturas com um sistema diferente de chaves e fechaduras? A resposta pode depender mais dos processos históricos de evolução neste planeta do que de qualquer propriedade intrínseca da substância. O exemplo do polvo mostra que deveríamos procurar ver que variações na implementação química devem ser encontradas, com que diferenças de função, mas sem esperar que estes fatos em si mesmos resolvam nossa questão sobre a senciência.
O que dizer então a respeito de outras características deste ciclo de interação? Quão rudimentar pode ser um sistema de manifestação da dor e ainda contar como senciência? O que seria pertinente e por quê? Pense, por exemplo, em uma rã com uma perna quebrada. Será este um ser senciente sofrendo dor? É um ser vivente cuja vida normal foi estragada pela danificação feita a uma de suas partes, impedindo-a de engajar-se nos comportamentos que são sua maneira de ganhar a vida. A rã, além do mais, se encontra em um estado com forte potencial de reforço negativo - ela pode ser prontamente condicionada para evitar esses estados de seu sistema nervoso. Este estado é mantido por um ciclo de interação que de alguma maneira desarranja suas disposições normais de saltar - embora em uma emergência ela salte de qualquer maneira. É tentador ver tudo isto como sendo equivalente à dor. Mas também é tentador dotar a rã com um solilóquio, no qual ela teme a perspectiva de uma emergência deste tipo, anseia por alívio, deplora sua vulnerabilidade relativa e lamenta amargamente as ações tolas que a levaram a esta crise e assim por diante, mas estes desdobramentos adicionais não são de maneira alguma permitidos por qualquer coisa que sabemos a respeito das rãs. Ao contrário, quanto mais sabemos a respeito das rãs, mais confiantes ficamos de que seus sistemas nervosos são projetados para acompanhá-las ao longo da vida sem quaisquer dessas habilidades reflexivas custosas.
E daí? O que a senciência tem a ver com esses talentos intelectuais sofisticados? Uma boa pergunta, mas isto significa que devemos tentar respondê-la e não apenas utilizá-la como uma pergunta retórica para desviar a atenção. Aqui está uma circunstância na qual a maneira pela qual formulamos as perguntas pode fazer uma grande diferença, pois é possível atrapalhar a nós mesmos e criar neste ponto um problema inexistente. Como? Perdendo o rastro de onde estamos em um processo de soma e subtração. No início estamos procurando x, o ingrediente especial que distingue a simples sensitividade da verdadeira senciência, e trabalhamos neste projeto em duas direções. Trabalhando a partir de casos simples, adicionando versões rudimentares de cada característica em separado, tendemos a não ficar impressionados: embora cada um desses poderes possa ser defendido como um componente essencial da senciência, ela certamente é mais do que isto -um simples robô poderia muito bem exibir isto sem qualquer tipo de senciência! Trabalhando na outra direção, a partir da nossa própria experiência ricamente detalhada (e ricamente considerada), podemos reconhecer que outras criaturas evidentemente deixam de apresentar algumas das características particularmente humanas da nossa experiência, portanto nós as subtraímos como não essenciais. Não queremos ser injustos com nossos primos animais. Portanto, embora reconheçamos que muito do que pensamos quando pensamos sobre o pavor da dor (e por que é importante moralmente se alguém sente dor ou não) envolve imaginar apenas estes acompanhamentos antropomórficos, generosamente decidimos que eles são apenas acompanhamentos, não "essenciais" ao fenômeno bruto da senciência (e sua instância moralmente mais significativa, a dor). O que podemos tender a desconsiderar, quando estes dois navios passam um pelo outro na calada da noite, é a possibilidade de estarmos subtraindo, em uma direção, a própria coisa que estamos buscando na outra. Se isto é o que estamos fazendo, nossa convicção de que ainda estamos por encontrar o x - o "elo perdido" da senciência - seria uma ilusão auto induzida.
Não digo que estejamos cometendo um erro deste tipo, mas apenas que poderíamos muito bem o estar cometendo. É o suficiente no momento, já que isto dispensa o ônus da prova. Aqui, então, está uma hipótese conservadora sobre o problema da senciência: não existe este fenômeno adicional. A "senciência" aparece com todos os graus imagináveis ou intensidades, desde o mais simples e mais "robótico" até o mais sofisticadamente sensível, hiper-reativo "humano". Como vimos no Capítulo 1, temos de fato de estabelecer fronteiras através deste contínuo multifacetado de casos, pois ter políticas morais assim o exige, mas a perspectiva de que descobriremos um limiar -um "andar" moralmente significativo naquilo que de outra maneira é uma rampa - não apenas é extremamente improvável, mas também moralmente não atrativa.
A este respeito, pense mais uma vez na rã. Em que lado da linha a rã cai? (Se de todo modo as rãs são um exemplo demasiadamente óbvio para você, escolha qualquer criatura que pareça viver na sua penumbra de incerteza. Escolha uma formiga ou uma água-viva, um pombo ou um rato.) Agora suponha que a "ciência confirme" que existe uma senciência genuína mínima na rã -que a "dor" da rã é real, uma dor sofrida, por exemplo. A rã agora se qualifica para o tratamento especial reservado ao senciente. Agora suponha o contrário, isto é, que a rã revele não possuir x, uma vez que tenhamos determinado o que é x. Neste caso, o status da rã cai para "simples autômato", algo que podemos desarranjar de todos os modos imagináveis sem nenhuma espécie de arrependimento moral. Dado o que já sabemos sobre rãs, parece plausível que possa haver alguma característica até aqui inimaginada cuja descoberta poderia justificar esta enorme diferença em nossa atitude? É claro, se descobríssemos que as rãs eram realmente pequenos seres humanos presos em corpos de rãs, como o príncipe no conto de fadas, imediatamente teríamos base para a mais extrema das solicitudes, pois saberíamos que, a despeito de todas as aparências comportamentais, todas as rãs seriam capazes de sofrer as torturas e ansiedades que consideramos tão importantes no nosso próprio caso. Mas já sabemos que a rã não é algo assim. A nós está sendo pedido que imaginemos que exista algum x nada parecido com um príncipe humano preso sob uma pele de rã, mas que é, não obstante, moralmente digno de atenção. Porém também já sabemos que a rã não é um simples brinquedo de corda mas, ao contrário, uma coisa viva complexa e sofisticada capaz de uma variedade espantosa de atividades auto protetoras em sua tarefa predeterminada de produzir mais gerações de rãs. Isto já não será suficiente para garantir alguma consideração especial de nossa parte? A nós está sendo pedido que imaginemos que há algum x nada parecido com esta simples estrutura de sofisticação de controle, mas que não obstante solicitaria a nossa consideração moral quando a descobríssemos. A nós está sendo pedido, suspeito eu, que nos deleitemos com algo além da fantasia. Mas continuemos nossa busca, para ver o que vem a seguir, pois ainda estamos a uma grande distância das mentes humanas.
Da fototaxia à metafísica
Uma vez que tenhamos obtido criaturas popperianas - criaturas cujos cérebros possuem potencial de ser dotados, em meios internos, de capacidades pré-seletivas -, o que acontece a seguir? Muitas coisas diferentes, sem dúvida, mas nos concentraremos em uma inovação particular cujos poderes podemos ver claramente. Entre os sucessores das criaturas meramente popperianas encontram-se aqueles cujos meios internos estão informados pelas porções do meio externo que são frutos de um projeto. Uma das visões intuitivas fundamentais de Darwin é que um projeto é muito caro mas copiar projetos é barato; isto é, produzir um projeto inteiramente novo é muito difícil, mas reprojetar velhos projetos é relativamente fácil. Poucos dentre nós poderiam reinventar a roda, mas não temos de fazer isto, já que possuímos o projeto da roda (e uma grande variedade de outros projetos) das culturas nas quais fomos criados. Podemos chamar este sub-sub-subconjunto de criaturas darwinianas de criaturas gregorianas, já que o psicólogo britânico Richard Gregory é na minha opinião o teórico proeminente do papel da informação (ou mais exatamente, o que Gregory chama Potencial de Inteligência) na criação de Movimentos Espertos (ou o que Gregory chama Inteligência Cinética). Gregory observa que um par de tesouras, como um artefato bem projetado, não é apenas um resultado da inteligência, mas um dotador de inteligência (inteligência potencial externa), em um sentido muito direto e intuitivo: quando se entrega a alguém um par de tesouras, aumenta-se o potencial deste alguém de chegar mais segura e rapidamente aos Movimentos Espertos. (1981, pág. 311 e seg.)
Os antropólogos há muito tempo reconheceram que o advento do uso de ferramentas foi acompanhado por um grande aumento na inteligência. Os chimpanzés selvagens caçam cupins enfiando rudemente uma vara preparada bem fundo nas casas subterrâneas destes e rapidamente retiram a vara cheia de cupins, os quais transferem da vara para as suas bocas. Este fato adquire um significado maior quando aprendemos que nem todos os chimpanzés dominam este truque; em algumas "culturas" de chimpanzés, os cupins são uma fonte de alimento inexplorada. Isto nos lembra que o uso de ferramentas é um sinal de mão dupla de inteligência; não apenas ele exige inteligência para reconhecer e manter uma ferramenta (o que dirá fabricar uma), mas uma ferramenta confere inteligência àqueles suficientemente afortunados de receberem uma. Quanto mais bem projetada for a ferramenta (quanto mais informação há embutida na sua fabricação), maior é o potencial de inteligência que ela confere ao seu usuário e, entre as ferramentas importantes, lembra Gregory, estão as que ele chama ferramentas mentais: palavras.
Palavras e outras ferramentas mentais conferem a uma criatura gregoriana um meio interno que lhe permite construir geradores e testadores de movimento cada vez mais sutis. As criaturas skinnerianas perguntam a si mesmas: "O que eu faço a seguir?" e não têm uma pista de como responder a esta pergunta até que tenham sofrido alguns dissabores. As criaturas popperianas dão um grande passo à frente perguntando-se: "Sobre o que eu devo pensar a seguir?" antes de perguntar-se "O que eu deveria fazer a seguir?" (Deve ser enfatizado que nem as criaturas skinnerianas nem as criaturas popperianas necessitam verdadeiramente
falar para si mesmas ou ter esses pensamentos. Elas são simplesmente projetadas para operar como se tivessem de formular essas perguntas para si mesmas. Aqui vemos tanto o poder como o risco da postura intencional: a razão pela qual as criaturas popperianas são mais espertas - digamos, mais astutas do que as criaturas skinnerianas é que elas são adaptativamente responsivas a mais e melhor informação, de uma maneira que podemos descrever de forma vívida, ainda que livremente, a partir da postura intencional, em termos desses solilóquios imaginários. Mas seria um erro imputar a essas criaturas todas as sutilezas que acompanham a habilidade de realmente formular essas perguntas e respostas com o modelo humano do auto questionamento explícito.) As criaturas gregorianas dão um grande passo em direção ao nível humano de destreza mental, beneficiando-se da experiência de outros, explorando a sabedoria corporificada nas ferramentas mentais que outros inventaram, aperfeiçoaram e transmitiram ; com isto elas aprendem como pensar melhor o que deveriam pensar a seguir -e assim por diante, criando uma torre de reflexões internas adicionais sem nenhum limite fixo ou discernível. Compreende-se melhor o modo como este passo para o nível gregoriano pôde se realizar tomando-se distância e examinando-se, uma vez mais, os talentos ancestrais a partir dos quais estes talentos mentais caracteristicamente humanos devem ser construídos.