Tipos de Mentes: Rumo a uma Compreensão da Consciência

Uma das práticas mais simples favorecedoras da…

Uma das práticas mais simples favorecedoras da vida encontrada em muitas espécies é a fototaxia - a capacidade de distinguir a luz da escuridão e de encaminhar-se na direção desta. A luz é facilmente transduzida, e, dada a maneira pela qual a luz emana de uma fonte, sua intensidade diminuindo gradualmente à medida que você se distancia dela, uma conexão bastante simples entre transdutores e efetuadores pode produzir uma fototaxia confiável. No pequeno e excelente livro Vehicles, do neurocientista Valentino Braitenberg, temos o modelo mais simples - o veículo 2b na figura 4.5. Ele possui dois transdutores de luz e seus sinais de saída variáveis são alimentados, cruzados, até dois efetuadores (pense nos efetuadores como motores de popa). Quanto maior a quantidade de luz transduzida, mais rápido funciona o motor. O transdutor mais próximo da fonte de luz acionará seu motor um pouco mais rápido do que o transdutor mais afastado, e isto fará com que o veículo gire sempre na direção da luz, até que finalmente colida com a própria fonte de luz ou descreva uma órbita muito fechada em torno dela.

O mundo de um ser simples deste tipo classifica-se em iluminado, passando pelo não tão iluminado, até o escuro, varrendo o gradiente de iluminação. Ele não sabe, e não precisa saber, nada mais. O reconhecimento da luz é quase grátis - o que quer que acione o transdutor é luz, e o sistema não se importa se é a própria luz que voltou ou uma luz nova. Em um mundo com duas luas, poderia fazer diferença, ecologicamente, a lua que você estivesse acompanhando; o reconhecimento ou identificação lunar poderia ser um problema adicional necessitando de uma solução. A simples fototaxia não seria suficiente em tal mundo. No nosso mundo, uma lua não é o tipo de objeto que tipicamente precisa ser reidentificado por uma criatura; as mães, ao contrário, muitas vezes precisam ser reidentificadas.

A mamataxia - a procura da mãe - é um talento consideravelmente mais sofisticado. Se a mãe emite um sinal brilhante de luz, a fototaxia pode realizar a tarefa, mas não se houvesse outras mães na vizinhança, todas usando o mesmo sistema. Se a mãe então emitisse uma luz azul particular diferente da luz emitida por todas as outras mães, então colocar um filtro particular que impede a passagem de outras cores, com exceção do azul, em cada um de seus fototransdutores faria com que estes executassem a tarefa bastante bem. A natureza muitas vezes se apoia em um princípio similar, mas utiliza um meio energeticamente mais eficiente. A mãe emite um odor característico, discernível de todos os outros odores (na vizinhança imediata). A mamataxia (reidentificação e busca da mãe) é então realizada pela transdução de odores, ou olfato. A intensidade dos odores é uma função da concentração das chaves moleculares à medida que se difundem através do meio circundante - ar ou água. Um transdutor pode portanto ser uma fechadura apropriadamente moldada e pode seguir o gradiente de concentração utilizando um arranjo exatamente igual ao do veículo 2b de Braitenberg. Essas características olfativas são antigas e poderosas. Elas foram recobertas, em nossa espécie, por milhares de outros mecanismos, mas suas localizações na base são ainda discerníveis. A despeito de toda a nossa sofisticação, os odores nos comovem sem que saibamos por que ou de que maneira, como Marcel Proust admiravelmente observou (os odores não são somente utilizados como sinais de identificação. Eles muitas vezes desempenham papéis importantes na atração de um parceiro para o acasalamento ou mesmo na supressão ou amadurecimento de um rival. Os sinais provenientes do bulbo olfativo se desviam do tálamo no caminho para o resto do cérebro, portanto, em contraste com os sinais produzidos pela visão, audição e mesmo tato, os comandos olfativos vão diretamente para centros de controle muito antigos, eliminando os intermediários. É provável que esta rota mais direta ajude a explicar o poder peremptório, quase hipnótico que alguns odores têm sobre nós).

A tecnologia segue o mesmo princípio de projeto em um outro meio: o EPIRB (Emergency Position Indicating Radio Beacon), um radiotransmissor autossuficiente, alimentado por uma bateria, que repete intermitentemente um sinal particular em uma freqüência particular. Você pode comprar um em uma loja de artigos marítimos e levá-lo com você em seu barco a vela. Então, se ficar em perigo, você pode ligá-lo. Imediatamente um sistema de rastreamento mundial capta o sinal do seu EPIRB e indica a posição dele com um blip em um mapa eletrônico. Ele também examina a identificação em sua tabela gigante de identificações e com isto reconhece o seu barco. A identificação simplifica enormemente a busca e salvamento, já que ela adiciona redundância: o feixe pode ser localizado cegamente por radiorreceptores (transdutores), mas à medida que os salvadores chegam perto, será útil se eles souberem se estão examinando (com seus olhos) uma traineira de pesca pouco iluminada, um pequeno barco verde-escuro ou um bote de borracha laranja brilhante. Outros sistemas sensores podem ser trazidos para tomar a abordagem final mais rápida e menos vulnerável à interrupção (por exemplo, a bateria do EPIRB pode esgotar-se). Nos animais, o rastreamento do cheiro não é o único meio de mamataxia. Sinais particulares visuais e auditivos são também utilizados, como o etologista Konrad Lorenz notavelmente demonstrou em seus estudos pioneiros da "impressão" nos gansos e patos jovens. As galinhas que não são gravadas logo após o nascimento com a característica própria da mãe se fixarão na primeira coisa grande em movimento que veem e a tratarão daí por diante como mãe.

Os feixes direcionais (e seus complementos de sensores de feixes) são boa solução de projeto no caso em que um agente necessite rastrear (reconhecer, reidentificar) uma entidade particular - tipicamente um outro agente, como, por exemplo, a mãe durante um longo período. Você apenas instala o feixe direcional no alvo de antemão, e então o deixa solto. (Os feixes de rádio direcionais contra roubo de carro que você esconde em seu carro e depois aciona remotamente se seu carro for roubado são uma manifestação recente do que estou falando.) Mas há custos, como sempre. Um dos mais óbvios é que amigos e inimigos podem utilizar da mesma forma a maquinaria de rastreamento para alcançar o alvo. Por exemplo, os predadores estão tipicamente sintonizados nos mesmos canais olfativos e auditivos que a prole utiliza tentando manter contato com a mãe.

Os cheiros e os sons são irradiados com um raio de alcance que não está facilmente no controle do emissor. Uma maneira de baixa energia de obter um feixe direcional mais seletivo seria colocar uma mancha azul particular (um pigmento de um tipo ou de outro) na mãe, e deixar que a luz refletida do Sol criasse um feixe direcional visível apenas em setores particulares do meio ambiente e que se extinguem prontamente pelo simples movimento da mãe em direção às sombras. A prole pode então seguir a mancha azul sempre que esta estiver visível. Mas este arranjo exige um investimento em uma maquinaria fotossensível mais sofisticada: um olho simples, por exemplo -não apenas um par de fotocélulas.

A habilidade de permanecer em contato próximo confiável com uma determinada coisa ecologicamente muito importante (como, por exemplo, a mãe) não exige a habilidade de conceber esta coisa como uma entidade particular duradoura, que aparece quando necessário. Como acabamos de ver, a mamataxia confiável pode ser obtida com uma mancheia de truques simples. Este talento é normalmente resistente em ambientes simples, mas a criatura armada com tal sistema simples é facilmente "enganada'', e quando é enganada, ela marcha para a ruína sem quaisquer considerações sobre sua tolice. Não é preciso que o sistema tenha capacidade de monitorar o seu próprio sucesso ou refletir sobre as condições nas quais ele é bem-sucedido ou falho; este é um acréscimo posterior (e caro).

O rastreamento cooperativo - no qual o alvo fornece um feixe direcional prático e assim simplifica a tarefa do rastreador - é um passo na direção do rastreamento competitivo, em que o alvo não apenas não fornece qualquer identificação única do feixe direcional mas também tenta ativamente esconder-se, tornar-se irrastreável. Este movimento da presa é contra-atacado pelo desenvolvimento nos predadores de sistemas de utilidade geral, rastreadores de qualquer coisa, projetados para transformar quaisquer aspectos, que uma coisa digna de ser rastreada revele, em uma espécie de feixe direcional privado e temporário - uma "imagem de busca", criada para o momento por uma porção de detectores de características no predador e utilizados para correlacionar, momento a momento, a assinatura do alvo, revisando e atualizando a imagem de busca à medida que o alvo muda, sempre com o objetivo de manter o objeto escolhido na alça de mira.

É importante reconhecer que esta variedade de rastreamento não requer categorização do alvo. Pense em um olho primitivo, consistindo em um arranjo de poucas centenas de fotocélulas, transduzindo um padrão mutável de pixéis (pontos de concentração de cor), que são ligados por qualquer tipo de luz refletida neles. Este tipo de sistema poderia prontamente entregar uma mensagem do seguinte tipo: "X, o responsável pelo acúmulo de pixéis atualmente sob investigação, acaba de desviar para a direita." (Ele não teria de entregar esta mensagem com tantas palavras - não há necessidade de palavras, ou símbolos no sistema.) Portanto, a única identificação a que tal sistema se dedica é uma reidentificação degenerada ou do tipo mínimo de instante a instante do que está sendo rastreado. Mesmo aqui, há tolerância em relação à mudança e à substituição. Uma mudança gradual no acúmulo de pixéis movendo-se contra um pano de fundo mais ou menos estático pode mudar sua forma e característica interna radicalmente e ainda assim ser rastreável, desde que não mude muito rápido. (O fenômeno <p, no qual sequencias de cintilações luminosas são involuntariamente interpretadas pelo sistema visual como sendo a trajetória de um objeto em movimento, é uma manifestação vívida desde circuito embutido em nossos próprios sistemas visuais).

O que acontece quando x temporariamente se esconde atrás de uma árvore? A solução simplória é manter a versão mais recente da imagem de busca intacta e então varrer os arredores com os olhos ao acaso, esperando prendê-lo no feixe direcional temporário mais uma vez quando ele emergir, se o alvo chegar a fazer isto. Você pode aumentar as chances apontando sua imagem de busca para o ponto mais provável de reaparecimento do feixe temporário. E você pode obter uma ideia melhor, não tão aleatória, do ponto mais provável simplesmente fazendo a amostragem da trajetória antiga do feixe direcional e projetando sua continuação futura com uma linha reta. Isto gera exemplos de produção de futuro em uma das suas formas mais simples e mais ubíquas e também nos fornece um caso claro da seta da intencionalidade apontada para um alvo não existente mas razoavelmente aguardado.

Esta habilidade de "manter contato com" um outro objeto (literalmente tocando-o e manipulando-o, se possível) é o pré-requisito da percepção de alta qualidade. O reconhecimento visual de uma pessoa ou objeto particular, por exemplo, é quase impossível se a imagem do objeto não for mantida centralizada na fóvea de alta resolução do olho durante um intervalo de tempo apreciável. Leva tempo até que todos os microagentes epistemicamente famintos se alimentem e se organizem. Portanto, a capacidade de manter tal foco de informação sobre uma coisa particular (seja o que for que eu esteja visualmente rastreando agora) é uma precondição para o desenvolvimento de uma descrição identificadora da coisa (este ponto sobre a primazia do rastreamento sobre a descrição é, penso eu, o brilho de verdade na por outro lado esquecida doutrina filosófica de que há duas formas de crença - crença de re, a qual de algum modo diz respeito diretamente ao objeto, e a crença de dieta, que diz respeito ao objeto apenas por meio da mediação de um dietum, uma descrição definida - em língua natural ou uma "língua do pensamento". O contraste é – supostamente -ilustrado pela diferença entre acreditar que Tom - aquele sujeito bem ali -seja um homem, e acreditar que quem me enviou esta carta anônima é um homem. A intencionalidade no primeiro caso é considerada de certa forma mais direta, fazendo parte do seu objeto de um modo mais primitivo. Mas, como vimos, podemos refazer mesmo os casos mais diretos e primitivos de restreamento perceptivo no modo de dieta - o tal x que é x, seja qual for, é responsável pelo acúmulo de pixéis atualmente sob investigação e pulou para a direita - para trazer à baila uma característica do mecanismo que medeia este tipo mais imediato de referência. A diferença entre de re e de dieta é uma diferença na perspectiva e ênfase de quem fala, não do fenômeno. Mais sobre isto em "Beyond Belief "- Dennett, 1982)

A maneira de maximizar a probabilidade de manter ou restaurar o contato com uma entidade que está sendo rastreada é confiar em sistemas múltiplos independentes, todos falíveis, mas com domínios de competência que se sobrepõem. Onde um sistema deixa de ser eficiente, os outros assumem, e o resultado tende a ser um rastreamento suave e contínuo composto por elementos que funcionam intermitentemente.

Como esses sistemas múltiplos estão ligados entre si? Há muitas possibilidades. Se você tiver dois sistemas sensores, pode ligá-los por meio de uma "conexão E", que significa: um "E" outro devem ser ligados pelos seus sinais de entrada para que o agente responda positivamente. (Uma conexão-E pode ser implementada em qualquer meio; ela não é uma coisa, mas sim um princípio de organização. As duas chaves que devem ser giradas para abrir um cofre de segurança, ou disparar um míssil nuclear, estão ligadas por uma conexão-E. Quando você fixa uma mangueira de jardim a uma torneira e coloca um bocal controlável na outra extremidade, essas duas válvulas liga-desliga estão conectadas por uma conexão-E, pois ambas devem ser abertas para que a água esguiche.) Por outro lado, podem-se ligar dois sistemas sensores por uma "conexão- OU", que significa: um deles, A "OU" B ("OU" ambos), provocará uma resposta positiva do agente. As conexões-OU são utilizadas para incluir subsistemas de apoio ou de reserva em sistemas maiores: se uma unidade falhar, a atividade da unidade extra é suficiente para manter o sistema funcionando. Os aviões bimotores conectam seus motores por meio de uma conexão-OU: é melhor que os dois motores funcionem bem, mas, em caso de apuros, um é suficiente.

À medida que se adicionam mais sistemas, surge a possibilidade de conectá-los de maneiras intermediárias. Por exemplo, você pode ligá-los de modo tal que: se o sistema A estiver ligado, então o sistema responde positivamente se um ou outro entre B e C também estiver ligado; caso contrário, é necessário que ambos, B e C, estejam ligados para que se produza uma resposta positiva. (Isto é equivalente a uma regra de maioria ligando os três sistemas; se a maioria -qualquer maioria -estiver no estado ligado, o sistema responderá positivamente.) Todas as maneiras possíveis de ligar sistemas com conexões-E e conexões-OU (e conexões-NÃO, que simplesmente revertem ou invertem a saída de um sistema, transformando ligado em desligado e vice-versa) são chamadas funções booleanas desses sistemas, já que podem ser precisamente descritas em termos dos operadores lógicos "E", "OU" e "NÃO", que o matemático inglês do século XIX George Boole formalizou pela primeira vez. Mas há também maneiras não-booleanas pelas quais os sistemas podem misturar seus efeitos. No lugar de trazer todos os contribuintes para um local central de votação, dando a cada um deles um único voto (SIM ou NÃO, LIGA ou DESLIGA), e portanto canalizar suas contribuições para o comportamento em um único ponto de decisão vulnerável (o efeito somado de todas as conexões booleanas), poderíamos deixar que mantivessem seus próprios elos de ligação, independentes e continuamente vulneráveis, com o comportamento e deixar o meio extrair um comportamento resultante como resultado dessa atividade toda. O veículo simples de Valentino Braitenberg, com seus dois fototransdutores interligados, é um exemplo absolutamente simples do caso em questão. A "decisão" de virar para a esquerda ou para a direita surge da intensidade relativa das contribuições dos dois sistemas transdutor-motor, mas o efeito não é eficiente ou proveitosamente representado como uma função booleana dos respectivos "argumentos" dos transdutores. (Em princípio, o comportamento entrada-saída de um sistema deste tipo pode ser aproximado por uma função booleana de seus componentes, convenientemente analisada, mas um feito analítico deste tipo pode não conseguir revelar o que é importante sobre as relações. Considerar o tempo meteorológico como um sistema booleano é em princípio possível, por exemplo, mas inútil e não informativo).

Instalando dúzias ou centenas, ou ainda milhares, de tais circuitos em um único organismo, atividades elaboradas preservadoras da vida podem ser controladas com confiança, tudo isto sem que qualquer coisa que aconteça no interior do organismo dê a impressão de pensar pensamentos específicos. Há muitas tomadas de decisão do tipo como se, tais como reconhecimento como se, esconder e procurar como se. Existem também muitas maneiras pelas quais um organismo assim equipado pode "cometer erros", mas seus erros nunca são equivalentes a formular uma representação de alguma proposição falsa e então considerá-la verdadeira.

Quão versátil pode ser uma arquitetura deste tipo? É difícil dizer. Pesquisadores recentemente projetaram e testaram sistemas artificiais de controle que produzem muitos dos padrões comportamentais marcantes que observamos em formas de vida relativamente simples, como insetos e outros invertebrados; portanto, é tentador acreditar que todas as rotinas surpreendentemente complexas dessas criaturas podem ser orquestradas por uma arquitetura como esta, mesmo que não saibamos ainda projetar um sistema com a complexidade exigida. Afinal de contas, o cérebro de um inseto pode possuir apenas umas poucas centenas de neurônios e pensar sobre os elaborados engajamentos com o mundo que tal arranjo pode supervisionar. O biólogo evolutivo Robert Trivers, por exemplo, observa:

As formigas que cultivam fungos se dedicam à agricultura. As

operárias cortam as folhas, carregam-nas para o ninho, preparam-nas como um meio para cultivar os fungos, plantam os fungos nelas, fertilizam os fungos com seus próprios excrementos, afastam as espécies competitivas, e, finalmente, colhem uma parte especial do fungo com que se alimentam. (1985, pág. 172)

Depois há os rituais prolongados e intrincadamente articulados do acasalamento e criação da prole dos peixes e pássaros. Cada etapa tem exigências sensoriais que devem ser satisfeitas antes de ser empreendida, e que depois é conduzida adaptativamente através de um campo minado de obstáculos. Como essas manobras intrincadas são controladas? Os biólogos determinaram muitas das condições no meio ambiente que são utilizadas como indícios, variando laboriosamente as fontes disponíveis de informação nas experiências, mas não é suficiente saber que informação um organismo pode coletar. A difícil tarefa que vem a seguir é perceber como seus cérebros diminutos podem ser planejados para tirar um bom proveito de toda esta sensitividade útil à informação.

Se você é um peixe ou um caranguejo ou algo parecido, e um de seus projetos é, digamos, construir um ninho com seixos no fundo do oceano, precisará de um dispositivo capaz de localizar seixos e de uma maneira de encontrar o caminho de volta até o seu ninho para depositar o seixo encontrado em um lugar apropriado, antes de sair e procurar novamente por outros. Entretanto, este sistema não precisa ser à prova de enganos. Como ninhos feitos com seixos impostores dificilmente são erigidos sub-repticiamente no lugar dos próprios durante a sua incursão (até que experimentadores humanos espertos adquiram um interesse em você), você pode manter seus padrões de reidentificação bem inferiores e baratos. Se um erro de "identificação" ocorrer, você provavelmente continuará com a construção, e não ficará surpreendido pela artimanha, mas sim completamente incapaz de reconhecer ou considerar o erro, sem o menor sinal de preocupação. Por outro lado, se estiver equipado com um sistema de apoio para a identificação do ninho e o ninho impostor não passa pelo teste do sistema de apoio, você ficará perturbado, puxado para uma direção por um sistema e para outra pelo outro sistema. Estes conflitos acontecem, mas não faz sentido perguntar-se, à medida que o organismo corre para lá e para cá confusamente: "O que exatamente ele está pensando agora? Qual o conteúdo proposicional do seu estado confuso?"

Em organismos como o nosso - equipados com muitas camadas de sistemas de auto monitoração, que podem verificar e tentar mediar tais conflitos quando eles surgem -, algumas vezes pode ficar bem claro qual o tipo exato de erro cometido. Um exemplo perturbador é o delírio de Capgras, uma aflição bizarra que ocasionalmente ataca os seres humanos que sofreram um dano cerebral. Uma marca definidora do delírio de Capgras é a convicção da pessoa atingida por esta doença de que um conhecido próximo (em geral uma pessoa amada) foi substituída por um impostor que se parece (fala e age) com o companheiro genuíno, que misteriosamente desapareceu! Este fenômeno fantástico deveria produzir ondas de choque por toda a filosofia. Os filósofos imaginaram muitos casos de identidade trocada para ilustrar suas várias teorias filosóficas, e a literatura de filosofia está repleta de fantásticas experiências imaginárias a respeito de espiões e assassinos viajando incógnitos, de melhores amigos vestidos com fantasias de gorilas e de gêmeos idênticos que há muito tempo se perderam, mas os casos reais do delírio de Capgras até agora fugiram das atenções dos filósofos. O que é particularmente surpreendente a respeito desses casos é que não dependem de disfarces sutis e entrevisões fugidias. Ao contrário, o delírio persiste mesmo quando o alvo individual é minuciosamente investigado pelo agente e está mesmo pedindo por reconhecimento. Sabe-se que pessoas atingidas pelo delírio de Capgras assassinaram seus cônjuges, tão certas estavam de que esses impostores estavam tentando calçar os sapatos - e vidas inteiras - que não eram por direito dele! Não pode haver qualquer dúvida de que, em um caso tão triste como este, o agente em questão considerou verdadeiras algumas proposições muito específicas sobre a não-identidade: este homem não é meu marido; este homem é tão qualitativamente similar ao meu marido quanto possível, e ainda assim ele não é meu marido. De particular interesse para nós é o fato de que as pessoas que sofrem deste delírio podem ser bastante incapazes de dizer por que estão tão seguras.

O neuropsicólogo Andrew Young (1994) apresenta uma hipótese engenhosa e plausível para explicar o que saiu errado. Young contrasta o delírio de Capgras com uma outra aflição curiosa provocada por dano cerebral: a prosopagnosia. As pessoas com prosopagnosia não podem reconhecer rostos humanos familiares. Sua visão pode estar ótima, mas elas não podem identificar mesmo seus amigos mais íntimos até que os tenham ouvido falar. Em uma experiência típica, a essas pessoas são mostradas coleções de fotografias: algumas fotos são de indivíduos anônimos e outras, de membros da família e celebridades - Hitler, Marilyn Monroe, John F. Kennedy. Quando lhes é pedido que escolham os rostos familiares, seus desempenhos não são melhores do que ao acaso. Mas por mais de uma década os pesquisadores suspeitaram que, a despeito deste desempenho chocantemente insuficiente, algo em algumas das pessoas atacadas pela prosopagnosia estava corretamente identificando os membros da família e as pessoas famosas, já que seus corpos reagiam de modo diferente aos rostos familiares. Se, enquanto examinavam uma foto de um rosto familiar, lhes eram ditos vários nomes candidatos da pessoa mostrada, elas mostravam uma resposta epidérmica galvânica mais intensa quando ouviam o nome correto. (A resposta epidérmica galvânica é a medida da condutância elétrica da pele e é o teste primário no qual se baseiam os polígrafos ou "detectores de mentiras".) A conclusão a que Young e outros pesquisadores chegaram a partir desses resultados é que deve haver (dois ou mais) sistemas que podem identificar um rosto e um desses sistemas não é atacado nas pessoas que sofrem de prosopagnosia e apresentam esta resposta. Este sistema continua a realizar bem o seu trabalho, encoberto e em grande parte despercebido. Agora suponha, afirma Young, que as pessoas afligidas pelo delírio de Capgras tenham exatamente a incapacidade oposta: o sistema aberto, de reconhecimento consciente do rosto (ou sistemas) trabalha bem - razão por que as pessoas atingidas pelo delírio de Capgras concordam que os "impostores" na realidade parecem exatamente com seus entes queridos -mas o sistema (ou sistemas) encoberto, que normalmente dá um voto apaziguador de concordância em tais ocasiões, se encontra fora de serviço e silencioso. A ausência desta contribuição sutil à identificação é tão perturbadora ("algo está faltando!") que equivale a um veto ao voto positivo do sistema sobrevivente: o resultado emergente é a convicção da pessoa afligida de que ele ou ela está olhando para um impostor. No lugar de atribuir a culpa a uma falha do sistema de percepção em pane, o agente põe a culpa no mundo, de uma maneira tão metafisicamente extravagante, tão improvável, que há poucas dúvidas quanto ao poder (de fato, poder político) que o sistema em pane normalmente tem sobre nós todos. Quando fome epistêmica particular do sistema não é satisfeita, ele é acometido por um acesso tal que joga para fora de alcance as contribuições de outros sistemas.

Entre o caranguejo esquecido e os sofredores bizarramente iludidos do delírio do Capgras há casos intermediários. Será que um cachorro não poderia reconhecer, ou deixar de reconhecer, seu dono? De acordo com Homero, quando Ulisses retorna a Ítaca após sua odisseia de vinte anos, disfarçado em trapos como um mendigo, seu velho cão, Argos, o reconhece, abana o rabo, deixa cair suas orelhas e então morre. (E Ulisses, devemos lembrar, secretamente enxuga uma lágrima de seu olho.) Assim como há razões para um caranguejo (tentar) manter o rastro da identidade de seu próprio ninho, há razões para um cachorro (tentar) manter o rastro de seu dono, entre muitas outras coisas importantes em seu mundo. Quanto mais urgentes as razões para reidentificar coisas, mais vale a pena não cometer erros, e portanto mais os investimentos na maquinaria perceptiva e cognitiva serão recompensadores. Tipos avançados de aprendizado, dependem, de fato, das capacidades anteriores de (re-) identificação. Considerando um caso simples, suponha um cão que veja Ulisses sóbrio na segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira, mas bêbado no sábado. Há várias conclusões logicamente disponíveis a partir deste conjunto de experiências: que há homens sóbrios e homens bêbados, que um homem pode estar bêbado em um dia e sóbrio em um outro, que Ulisses é um homem deste tipo. O cão não poderia -logicamente, não poderia - aprender o segundo ou terceiro fato desta sequência de experiências separadas a menos que tivesse alguma maneira (falível, mas em que confia) de reidentificar o homem como o mesmo homem de uma experiência para outra. (Podemos ver o mesmo princípio em uma aplicação mais dramática, devida a Millikan, no curioso fato de que você não pode - como questão de lógica -saber qual a sua aparência em um espelho a menos que tenha algum a outra maneira de identificar o rosto que vê como seu. Sem esta identificação independente, você poderia descobrir sua aparência tanto olhando em um espelho como pelo exame de uma fotografia sua).

Os cães vivem em um mundo comportamental muito mais rico e complexo do que o do caranguejo, com mais oportunidades de subterfúgios, blefes e disfarces, e portanto com mais benefícios a serem obtidos pela rejeição de indícios enganosos. Mas, novamente, os sistemas de um cachorro não precisam ser à prova de tolices. Se o cão comete um erro de identificação (de qualquer tipo), podemos caracterizá-lo como um caso de identidade trocada sem ainda ter que concluir que o cachorro é capaz de pensar a proposição de que o objeto se comporta como deveria. O comportamento de Argos na Odisseia é tocante, mas não devemos deixar o sentimentalismo obscurecer nossas teorias. Argos pode também gostar dos cheiros do outono e responder com alegria a cada ano quando o primeiro aroma de fruta madura alcançar seu focinho, mas isto não mostraria que ele possui algum modo de distinguir entre tipos de temporadas recorrentes, como o outono, e indivíduos que retomam, como Ulisses. Será Ulisses, para Argos, apenas uma coleção organizada de cheiros agradáveis e sons, visões e impressões - um tipo de temporada recorrente de modo irregular (não temos uma há vinte anos!), durante a qual comportamentos particulares são favorecidos? É uma temporada usualmente sóbria, mas alguns exemplos dela são sabidamente bêbados. Da nossa perspectiva humana peculiar, nós podemos ver que o sucesso de Argos neste mundo muitas vezes dependerá de quão intimamente seu comportamento se assemelha ao de um agente que, como nós seres humano s adultos, claramente distingue indivíduos. Portanto descobrimos que, quando interpretamos o seu comportamento a partir da postura intencional, fazemos bem em atribuir a Argos crenças que distinguem Ulisses de outras pessoas, cães rivais fortes dos cães rivais fracos, carneiros dos outros animais, Ítaca de outros lugares e assim por diante. Mas devemos estar preparados para descobrir que esta compreensão aparente dele tem lacunas chocantes - lacunas inconcebíveis em um ser humano com o nosso esquema conceitual e portanto absolutamente inexprimíveis em termos de uma linguagem humana.

Relatos sobre a inteligência em animais de estimação são lugar-comum há milênios. O filósofo estóico antigo Crísipo nos deu um relato sobre um cão que podia realizar o seguinte feito de raciocínio: chegando a um ponto na estrada em que havia três caminhos, ele cheirava os caminhos A e B e, sem cheirar C, escolhia C, tendo raciocinado que, se não havia odores ao longo de A e B, a caça deveria ter ido por C. As pessoas não gostam de dar relatos sobre a incrível estupidez de seus animais de estimação e muitas vezes resistem às implicações das lacunas que descobrem nas competências que eles possuem. É um cachorrinho tão esperto, mas ele pode perceber como desenrolar-se da coleira quando corre em tomo de uma árvore ou poste? Este não é, assim parece, um teste de inteligência injusto para o cão - comparado, digamos, com um teste de sensibilidade à ironia na poesia, ou uma consideração da transitividade de mais quente do que (por exemplo, A é mais quente do que B e B é mais quente do que C, então A é [mais quente do quê? mais frio do quê?] C). Mas poucos cães podem passar nele, se é que algum pode. E os golfinhos, apesar de toda a sua inteligência, são estranhamente incapazes de perceber que poderiam saltar facilmente sobre a rede de pesca para a segurança. Saltar para fora da água não é propriamente um ato não natural para eles, o que toma suas obtusidades muito mais intrigantes. Como os pesquisadores regularmente descobrem, quanto mais engenhosamente se investigar a competência de animais não-humanos, maior é a probabilidade de se descobrir lacunas abruptas na competência. A capacidade dos animais de generalizar a partir de suas explorações particulares na sabedoria é severamente limitada. (Para um relato revelador deste padrão na investigação das mentes dos macacos vervet, veja Cheney e Seyfarth, How Monkeys See the World, 1990.)

Nós, seres humanos, graças à perspectiva que obtemos da nossa capacidade de refletir da nossa maneira especial, podemos distinguir falhas de rastreamento que estariam muito além do alcance de outros seres. Suponha que Tom venha carregando uma moeda da sorte durante anos. Tom não tem um nome para sua moeda, mas nós a chamaremos Amy. Tom levou Amy para a Espanha com ele, mantém Amy na sua mesinha-de-cabeceira quando dorme e assim por diante. Então um dia, em uma viagem para Nova York, Tom impulsivamente joga Amy no chafariz, onde ela se mistura com uma multidão de outras moedas, completamente indistinguíveis por Tom e por nós de todas as outras - pelo menos, todas as outras que têm a mesma data de emissão de Amy. Ainda assim, Tom pode refletir sobre este desenvolvimento. Ele pode reconhecer a verdade da proposição de que uma, e apenas uma, daquelas moedas é a moeda da sorte que sempre carregou consigo. Ele pode estar aborrecido (ou apenas divertido) pelo fato de que perdeu irremediavelmente o rastro de algo que vinha rastreando, por um método ou outro, durante anos. Suponha que ele escolha uma candidata a Amy do chafariz. Ele pode considerar o fato de que uma, e exatamente uma, das duas proposições seguintes é verdadeira:

1. A moeda que agora está em minha mão é a moeda que eu trouxe

comigo até Nova York.

2. A moeda que agora está em minha mão não é a moeda que eu

trouxe comigo até Nova York.

Não é necessário um cientista espacial para considerar que uma ou outra dessas proposições deve ser verdadeira, mesmo se nem ele nem ninguém mais na história do mundo, passada e futura, possa determinar qual. Esta capacidade que nós temos de estruturar, e mesmo na maioria das circunstâncias testar, hipóteses sobre identidade é bastante estranha a outras criaturas. As práticas e os projetos de muitas criaturas exigem que elas rastreiem e reidentifiquem indivíduos -suas mães, seus companheiros, suas presas, seus superiores e subordinados em seus bandos -mas nenhuma evidência sugere que eles devam avaliar que isto é o que estão fazendo quando o fazem. Sua intencionalidade nunca sobe até o nível de particularidade metafísica que nossa intencionalidade pode atingir.

De que maneira o fazemos? Não é necessário ser um cientista espacial para pensar tais pensamentos, mas é necessário uma criatura gregoriana que tenha a linguagem entre suas ferramentas mentais. Mas, para usar a linguagem, temos de estar especificamente equipados com os talentos que nos permitem extrair essas ferramentas mentais do meio ambiente (social) em que residem.

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