Tipos de Mentes: Rumo a uma Compreensão da Consciência

5 - A criação do pensamento

(Des) pensando os psicólogos naturais

A linguagem foi inventada para que as pessoas pudessem esconder

seus pensamentos umas das outras.

Charles-Maurice de Talleyrand

Muitos animais se escondem mas não acham que estão se escondendo. Muitos animais se reúnem em bandos mas não pensam que assim estão procedendo. Muitos animais perseguem a caça, mas não acham que a estão perseguindo. Eles são todos beneficiários de sistemas nervosos que tomam conta dos controles desses comportamentos inteligentes e apropriados sem atormentar a cabeça do hospedeiro com pensamentos, ou qualquer coisa que possa ser defendida como pensamentos - os pensamentos que nós pensadores pensamos. Capturar e comer, esconder e fugir, reunir-se em bando e espalhar-se, tudo isto parece estar nos limites da competência de mecanismos que não pensam. Mas existirão comportamentos inteligentes que devem ser acompanhados por, precedidos e controlados por, pensamentos inteligentes?

Se a estratégia de adotar postura intencional é um grande benefício, como afirmei, então um lugar óbvio para buscar uma ruptura nas mentes animais é naqueles sistemas intencionais que são eles mesmos capazes de adotar a postura intencional em relação aos outros (e em relação a si). Devemos buscar comportamentos sensíveis às diferenças nos pensamentos (hipotéticos) de outros animais. Uma velha piada sobre os behavioristas é que eles não acreditam em crenças, eles pensam que nada pode pensar e na sua opinião ninguém tem opiniões. Que animais são marcados como behavioristas, incapazes mesmo de considerar hipóteses a respeito das mentes de outros? Que animais são forçados, ou habilitados, a graduar-se para um nível mais alto? Parece haver algo paradoxal a respeito de um agente destituído de pensamentos que se preocupa com a descoberta e a manipulação dos pensamentos de outros agentes, assim talvez aqui possamos encontrar um nível de sofisticação que força o ato de pensar a evoluir.

Será que o pensamento poderia criar a si mesmo por suas próprias forças? (Se você vai pensar sobre o meu pensamento, terei de começar pensando sobre o seu pensamento para permanecer empatado -uma corrida armamentista de reflexão.) Muitos teóricos imaginaram que alguma versão desta corrida armamentista explica a evolução da inteligência superior. Em um artigo científico influente ("The Social Function of Intellect", 1976), o psicólogo Nicholas Humphrey argumentou que o desenvolvimento da autoconsciência comum foi um estratagema para desenvolver e testar hipóteses a respeito do que estava se passando nas mentes dos outros. Pode parecer que uma capacidade de tomar o nosso comportamento sensível a, e manipulador de, outro pensamento de um outro agente automaticamente traria consigo uma capacidade de tornar o nosso comportamento sensível ao nosso próprio pensamento. Isto pode acontecer pois, como sugeriu Humphrey, usamos a nossa autoconsciência como uma fonte de hipóteses sobre outras consciências, ou porque, quando adquirimos o hábito de adotar a postura intencional em relação aos outros, observamos que podemos de modo útil submeter-nos ao mesmo tratamento. Ou por alguma combinação destes motivos, o hábito de adotar a postura intencional poderia disseminar-se para abranger a auto-interpretação e a interpretação de outros.

Em um ensaio intitulado "Conditions of Personhood" (1976), argumentei que um passo importante no sentido de tornar-se uma pessoa era avançar de um sistema intencional de primeira ordem para um sistema intencional de segunda ordem. Um sistema intencional de primeira ordem tem crenças e desejos sobre muitas coisas, mas não sobre crenças e desejos. Um sistema intencional de segunda ordem tem crenças e desejos sobre crenças e desejos, suas próprias ou aquelas de outros. Um sistema intencional de terceira ordem seria capaz de feitos como querer que você acredite que ele quer algo, enquanto que um sistema intencional de quarta ordem pode acreditar que você que ria que ele acreditasse que você acreditasse em algo, e assim por diante. O grande passo, argumentei eu, era o passo da primeira para a segunda ordem; ordens mais altas eram apenas uma questão de quanto um agente pode manter em seu cérebro ao mesmo tempo, e isto varia com as circunstâncias, mesmo no interior de um único agente. Algumas vezes ordens mais altas são tão fáceis que podem ser involuntárias. Por que o sujeito no filme está tentando tão arduamente não sorrir? No contexto, é deliciosamente óbvio: seu esforço nos mostra que ele sabe que ela não percebe que ele já sabe que ela quer que ele lhe peça para dançar e ele quer manter as coisas do jeito que estão! Em outras ocasiões, interações mais simples podem nos deixar perplexos. Você tem certeza de que eu quero que você acredite que eu quero que você acredite no que estou dizendo aqui?

Mas se a intencionalidade de ordem superior é, como eu e outros argumentamos, um avanço importante nos tipos de mentes, não é igualmente claro que seja o divisor de águas que estamos buscando entre o pensamento e a inteligência destituída de pensamento. Alguns dos exemplos mais bem estudados de intencionalidade (aparente) de ordem superior entre criaturas não humanas ainda parecem pender para o lado da destreza irreflexiva. Considere a "exibição de distração", o comportamento bem conhecido de pássaros que fazem seus ninhos a pouca altura, os quais, quando um predador se aproxima do ninho, se movem sub-repticiamente afastando-se de seus ovos vulneráveis ou crias e começando da maneira mais ostentosa a simular uma asa quebrada, agitando-a, entrando em colapso e piando da maneira mais penosa possível. Isto regularmente conduz o predador para longe do ninho numa caçada maluca, na qual ele nunca captura o almoço "fácil" que lhe é oferecido. A motivação de flutuação livre deste comportamento é clara, e, seguindo a prática útil de Richard Dawkins em seu livro de 1976, O gene egoísta, podemos colocá-lo na forma de um monólogo imaginário:

Sou um pássaro que faço meus ninhos a baixa altura, cujas crias

não estão protegidas contra um predador que as descobre. Posso esperar que este predador que se aproxima logo as descubra a menos que eu o distraia; ele poderia ser distraído pelo seu desejo de me pegar e me comer, mas apenas se ele pensasse que há uma chance razoável de realmente me capturar (sem embuste); ele poderia adquirir exatamente esta crença se eu lhe fornecesse evidências de que eu não poderia voar mais; eu poderia fazer isto fingindo que tenho uma asa quebrada etc. (Extraído de Dennett, 1983.)

No caso de Brutus apunhalando César, discutido no Capítulo 2, estava dentro dos limites da plausibilidade supor que Brutus na verdade se entregou a algo parecido com o processo de monólogo esboçado para ele -embora normalmente, mesmo no auto discurso mais loquaz, muito se passaria sem ser dito. Desafia a lógica, porém, a suposição de que qualquer pássaro passa por algo parecido com o monólogo mostrado aqui. Ainda assim esse monólogo indubitavelmente expressa o motivo que modelou o comportamento, possa ou não o pássaro apreciar o motivo. Pesquisas realizadas pela etóloga Carolyn Ristau (1991) mostraram que em pelo menos uma dessas espécies - a batuíra piadora - os indivíduos governam suas exibições de distração com controles bastante sofisticados. Por exemplo, eles monitoram a direção do olhar do predador, aumentando a intensidade das suas exibições se o predador parece estar perdendo o interesse, e de outras maneiras adaptam seus comportamentos às características detectadas no predador. As batuíras piadoras também discriminam com base no tamanho e na forma de um intruso: como as vacas não são carnívoras, uma vaca não está apta a ser atraída pela perspectiva de uma refeição fácil de passarinhos, portanto algumas batuíras tratam as vacas de modo diferente, chilreando, bicando e tentando afastar a besta no lugar de atraí-la para longe.

As lebres aparentemente podem avaliar um predador que se aproxima, como, por exemplo, uma raposa, e fazer uma estimativa da sua periculosidade (Hasson, 1991, Holley, 1994). Se a lebre conclui que uma determinada raposa de alguma forma conseguiu colocar-se em uma distância de ataque, ela se encolherá e ficará imóvel - ou se encolherá e fugirá tão rápido e silenciosamente quanto possível, mergulhando por trás de qualquer tipo de cobertura disponível. Mas, se a lebre conclui que esta raposa tem poucas chances de ser bem-sucedida em sua caçada, ela faz uma coisa estranha e maravilhosa. Ela fica de pé sobre suas patas traseiras, visivelmente, e encara a raposa! Por quê? Porque está anunciando para a raposa que ela deve desistir. "Eu já vi você e não estou com medo. Não desperdice seu precioso tempo e sua energia ainda mais preciosa caçando-me. Desista!" E a raposa regularmente chega exatamente a esta conclusão, dirigindo-se para outro lugar em busca de seu jantar e deixando a lebre, a qual deste modo conservou sua própria energia para continuar dedicando-se à sua própria alimentação.

Mais uma vez, o motivo deste comportamento é quase certamente a flutuação livre. Ela provavelmente não é uma tática que a lebre tenha descoberto por si mesma, ou mesmo sido capaz de refletir sobre ela. As gazelas que estão sendo caçadas por leões ou hienas muitas vezes fazem algo parecido, chamado stotting. Elas dão saltos ridiculamente altos, que obviamente não trazem qualquer benefício à sua fuga mas são planejados para chamar a atenção dos predadores para sua velocidade superior. "Não se dê o trabalho de me caçar, cace meu primo. Sou tão rápido que posso desperdiçar tempo e energia dando estes saltos tolos e ainda assim vencer você." E aparentemente isto funciona; os predadores regularmente voltam suas atenções para outros animais.

Outras variedades de comportamento presa-predador poderiam ser citadas, todas com motivações elaboradas mas pouca ou nenhuma evidência de que os animais realmente representem essas motivações para si mesmos de alguma maneira. Se essas criaturas devem ser consideradas "psicólogos naturais" (para utilizar o termo de Humphrey), elas são aparentemente psicólogos naturais destituídos de pensamento. Essas criaturas não representam as mentes daqueles com os quais interagem - isto é, elas não precisam consultar qualquer "modelo" interno da mente de outro para antecipar o comportamento desse outro e portanto governar o seu próprio comportamento. Elas estão bem supridas com uma grande "lista" de comportamentos alternativos, relacionados em uma grande lista de indícios de percepção, e não precisam saber mais do que isto. Isto vale como leitura da mente? Serão as batuíras, ou as lebres, ou as gazelas, sistemas intencionais de ordem superior ou não? Esta pergunta começa a parecer menos importante do que a pergunta sobre como tal competência aparente de leitura mental pode estar organizada. Quando, então, surge a necessidade de ir além dessas grandes listas? O etólogo Andrew Whiten sugeriu que a necessidade surge simplesmente quando as listas ficam muito longas e incontroláveis e difíceis de ser suplementadas. Essa lista de pares equivale, em termos empregados pelos lógicos, a uma conjunção de condicionais, ou pares se-então:

[Se você observar x, (então) faça A], e [se você observar y, (então)

faça B], e [se você observar z, (então) faça C]...

Dependendo exatamente de quantos condicionais independentes existam, pode tornar-se mais econômico consolidá-los em representações mais organizadas do mundo. Talvez em algumas espécies - quais as espécies permanece uma questão aberta – a brilhante