Tipos de Mentes: Rumo a uma Compreensão da Consciência
2 - Intencionalidade: A abordagem dos sistemas intencionais
Observo algo e procuro uma razão: originalmente isto significa:
procuro uma intenção nele, e acima de tudo alguém que tenha intenções: um sujeito, um agente: para cada evento, uma ação -anteriormente víamos intenções em todos os eventos, este é o nosso hábito mais antigo. Os animais também o possuem?
Friedrich Nietzsche, A vontade do poder
Simples começos: o nascimento da ação
Nenhum grão de areia possui uma mente; um grão de areia é demasiadamente simples. Mais simples ainda, nenhum átomo de carbono ou molécula de água possui uma mente. Não espero que haja desacordo sobre isto. Mas o que dizer a respeito de moléculas maiores? Um vírus é uma única e enorme molécula, uma macromolécula composta por centenas de milhares ou mesmo milhões de partes, dependendo de quão pequenas sejam as partes que contamos. Estas partes atômicas interagem, da sua maneira obviamente destituída de mente, produzindo alguns efeitos bastante surpreendentes. O mais importante dentre esses efeitos, do ponto de vista da nossa investigação, é a auto replicação. Algumas macromoléculas têm a habilidade espantosa, se deixadas flutuando em um meio apropriadamente bem suprido, de construir sem pensar e depois produzir cópias exatas - ou quase exatas - de si mesmas. O ADN e seu ancestral, o ARN, são exemplos dessas macromoléculas; elas formam a base de toda a vida neste planeta e portanto uma precondição histórica para todas as mentes - pelo menos todas as mentes deste planeta. Aproximadamente 1 bilhão de anos antes que os organismos simples unicelulares aparecessem na Terra, havia macromoléculas auto replicantes, em mutação incessante, crescendo, e mesmo reparando a si mesmas, e ficando cada vez melhores nisto - e replicando-se continuamente.
Este feito é estupendo, ainda está bem além da capacidade de qualquer robô existente. Isto significa que essas macromoléculas possuem mentes como as nossas? Certamente que não. Elas nem mesmo estão vivas - são apenas grandes cristais, do ponto de vista da química. Estas moléculas gigantes são pequenas máquinas - nanotecnologia macromolecular. Elas são, de fato, robôs naturais. A possibilidade teórica de um robô auto replicante foi matematicamente demonstrada por John von Neumann, um dos inventores do computador, cujo brilhante projeto de um auto replicante inanimado antecipou muitos dos detalhes do projeto e construção de ARN e ADN.
Através do microscópio da biologia molecular, podemos testemunhar o nascimento da ação, nas primeiras macromoléculas que têm complexidade suficiente para realizar ações, em vez de permanecer passivas sofrendo efeitos. Sua ação não é completamente desenvolvida como a nossa. Elas não sabem o que fazem. Nós, em contraste, muitas vezes sabemos perfeitamente bem o que fazemos. Para melhor - e para pior - nós, agentes humanos, podemos realizar ações intencionais, após termos deliberado conscientemente sobre as razões pró e contra. A ação macromolecular é diferente; há razões para o que as macromoléculas fazem, mas as macromoléculas não estão cientes dessas razões. Seu tipo de ação é, não obstante, o único solo possível a partir do qual as sementes do nosso tipo de ação puderam germinar.
Há algo alienígena e vagamente repelente a respeito da quase ação que descobrimos neste nível - toda aquela agitação com propósito, e ainda assim "não há ninguém em casa". As máquinas moleculares realizam seus feitos incríveis, obviamente projetados de modo requintado e obviamente sem saber o que estão fazendo. Considere este relato da atividade de um fago de ARN - um vírus replicante e descendente moderno das macromoléculas auto replicantes mais primitivas:
Antes de tudo, o vírus precisa de um material com o qual embalar e
proteger sua própria informação genética. Em segundo lugar, ele precisa de um meio de introduzir sua informação na célula hospedeira. Em terceiro lugar, ele exige um mecanismo para a replicação específica de sua informação na presença de um grande excesso de ARN da célula hospedeira. Finalmente, ele deve providenciar a proliferação de sua informação, um processo que usualmente conduz à destruição da célula hospedeira... O vírus chega mesmo a conseguir com que a célula se encarregue de sua replicação; sua única contribuição é um fator proteico, especialmente adaptado para o ARN virótico. Esta enzima não se torna ativa até que o ARN virótico apresente uma "senha". Quando ela a vê, reproduz o ARN virótico com grande eficiência, enquanto ignora os números muito
maiores de moléculas de ARN da célula hospedeira. Consequentemente a célula é logo invadida pelo ARN virótico. Isto está armazenado na capa proteica do vírus, que é também sintetizada em grandes quantidades, e finalmente a célula arrebenta e libera uma multidão de partículas viróticas descendentes. Tudo isto é u m programa executado automaticamente e é repetido com os menores detalhes. (Eigen, 1992, página 40).
O autor, o biólogo molecular Manfred Eigen, aproveitou-se de um rico vocabulário de palavras que denotam ação: para reproduzir-se, o vírus deve "providenciar" a proliferação de sua informação, e para atingir este objetivo ele cria uma enzima que "vê" sua senha e "ignora" outras moléculas. Na verdade, isto é uma licença poética; essas palavras tiveram seus significados ampliados para a ocasião. Mas que ampliação irresistível! As palavras que denotam ação chamam a atenção para as características mais marcantes dos fenômenos: essas macromoléculas são sistemáticas. Seus sistemas de controle não são apenas eficientes no que fazem; eles são apropriadamente sensíveis às variações, oportunistas, engenhosos e dissimulados. Podem ser "enganados", mas apenas por novidades não encontradas regularmente por seus ancestrais.
Essas pequenas partes impessoais, irracionais, robóticas, destituídas de mente da maquinaria molecular constituem a base fundamental de toda a ação, e portanto do significado, e portanto da consciência no mundo. É raro que um fato científico sólido e incontestável tenha fortes implicações na estruturação de todo o debate subsequente sobre algo tão controverso e misterioso como as mentes, portanto façamos uma pausa para nos lembrar destas implicações.
Não há mais qualquer dúvida séria sobre isto: somos todos descendentes diretos desses robôs auto replicantes. Somos mamíferos, e todos os mamíferos descendem de ancestrais reptilianos, cujos ancestrais eram peixes, cujos ancestrais eram criaturas marinhas muito parecidas com minhocas, que se originaram por sua vez de criaturas multicelulares mais simples há várias centenas de milhões de anos, que se originaram de criaturas unicelulares que se originaram de macromoléculas auto replicantes há aproximadamente 3 bilhões de anos. Há apenas uma árvore genealógica, na qual todas as coisas vivas que existiram neste planeta podem ser encontradas - não apenas animais, mas também plantas, algas e bactérias. Você compartilha um ancestral comum com todos os chimpanzés, todas as minhocas, cada folha de grama , cada árvore. Portanto, entre nossos progenitores estavam as macromoléculas.
Para dar uma imagem vívida, sua tatatatatatara ...avó era um robô! Não apenas você é descendente desses robôs macromoleculares como também é composto por eles: as moléculas de hemoglobina, anticorpos, neurônios, sistema reflexo vestibulocular, que fazem parte de você - em todos os níveis de análise a partir do nível molecular em diante, seu corpo (inclusive seu cérebro, é claro) é composto de máquinas que realizam cegamente uma tarefa maravilhosa, excelentemente projetada.
Paramos de tremer de medo, talvez, diante da visão científica de vírus e bactérias atarefadas e irrefletidamente executando seus projetos subversivos-pequenos autômatos horríveis realizando feitos demoníacos. Mas não devemos pensar que podemos encontrar consolo ao imaginar que eles são invasores alienígenas, completamente diferentes dos tecidos mais familiares que nos constituem. Somos feitos dos mesmos tipos de autômatos que nos invadem - nenhum halo especial de humanidade distingue nossos anticorpos dos antígenos que combatem; nossos anticorpos simplesmente pertencem ao clube que pertencemos, portanto eles lutam por nós. Os bilhões de neurônios que se reúnem para constituir nosso cérebro são células, o mesmo tipo de entidade biológica que os germes que provocam infecções, ou as células de lêvedo que se multiplicam nos tonéis quando a cerveja está fermentando ou no fermento quando o pão cresce.
Cada célula - um agente diminuto que pode realizar um número limitado de tarefas - é tão destituído de mente quanto um vírus. Pode acontecer de um número suficiente desses homunculi - homenzinhos - estúpidos serem colocados juntos e o resultado ser uma pessoa consciente, real, com uma mente genuína? De acordo com a ciência moderna, não há outra maneira de se fabricar uma pessoa real. Então, certamente, a partir do fato de que somos descendentes de robôs, não se conclui que nós mesmos sejamos robôs. Afinal de contas, somos também descendentes diretos de peixes e não somos peixes; somos descendentes diretos de bactérias e não somos bactérias. Mas, a menos que haja algum ingrediente secreto adicional em nós (que é o que os dualistas e vitalistas costumavam pensar), somos constituídos por robôs -ou, o que significa a mesma coisa, somos cada um de nós uma coleção de trilhões de máquinas macromoleculares. E todas essas são em última análise descendentes das macromoléculas auto replicantes originais. Portanto, algo constituído por robôs pode exibir consciência genuína, porque você é certamente um exemplo disso.
Para algumas pessoas, tudo isto parece chocante e improvável, percebo, mas suspeito que elas não tenham observado como são insensatas as alternativas. O dualismo (o ponto de vista de que as mentes são compostas de uma matéria não física e absolutamente misteriosa) e o vitalismo (o ponto de vista de que as coisas vivas contêm algum tipo de substância física mas igualmente misteriosa - o elã vital) foram relegados ao monte de lixo da história, junto com a alquimia e a astrologia. A menos que você esteja também preparado para afirmar que a Terra é chata e o Sol é uma carruagem de fogo puxada por cavalos alados -a menos que, em outras palavras, seu desafio à ciência moderna seja bastante abrangente -, você não encontrará lugar algum onde estabelecer sua posição e lutar por essas ideias obsoletas. Portanto, vejamos que relato pode ser dado com os recursos conservadores da ciência. Talvez a ideia de que nossas mentes evoluíram a partir de mentes mais simples não seja afinal de contas tão má.
Nossas macromoléculas ancestrais (e isto é exatamente e sem metáforas o que elas eram: nossas ancestrais) são sob certos aspectos como agentes, como a citação de Eigen deixa claro, e ainda assim sob outros aspectos elas são inegavelmente passivas, flutuando aleatoriamente, empurradas para lá e para cá - esperando por ações com suas armas engatilhadas, você poderia dizer, mas não aguardando esperançosamente, resolutamente ou com intenção. Suas mandíbulas podem estar abertas, mas são tão destituídas de mentes como uma armadilha de aço.
O que mudou? Nada foi repentino. Antes que nossos ancestrais tivessem mentes, eles tiveram corpos. Primeiro, eles se tornaram células simples, ou procariontes, e finalmente as procariontes admitiram alguns invasores, ou pensionistas, e com isto se tomaram células complexas - os eucariontes. Por esta época, aproximadamente 1 bilhão de anos após a aparição da célula simples, nossos ancestrais já eram máquinas extraordinariamente complexas (constituídos por máquinas constituídas por máquinas), mas ainda não possuíam mentes. Eles eram tão passivos e não direcionados em suas trajetórias como antes, mas agora eram equipados com muitos subsistemas especializados, para extrair energia e matéria do meio ambiente e proteger e reparar a si mesmos quando necessário.
A organização elaborada de todas essas partes coordenadas não se parece muito com uma mente. Aristóteles tinha um nome para isto - ou para seus descendentes: ele a chamava uma alma nutritiva. Uma alma nutritiva não é uma coisa; ela não é, por exemplo, um dos subsistemas microscópicos que flutuam ao acaso no citoplasma de uma célula. Ela é um princípio de organização; é forma, não substância, como disse Aristóteles. Todas as coisas vivas - não apenas plantas e animais mas também organismos unicelulares - possuem corpos que exigem uma organização autorreguladora e auto protetora que pode ser ativada diferencialmente por condições diferentes. Essas organizações são brilhantemente projetadas, pela seleção natural, e são compostas no fundo por grandes quantidades de diminutos comutadores passivos que podem ser LIGADOS ou DESLIGADOS por condições igualmente passivas que os organismos encontram em suas andanças.
Você mesmo, como todos os animais, tem uma alma nutritiva - uma organização autorreguladora e fotoprotetora - bem diferente do seu sistema nervoso, e mais antiga: ela consiste em seu sistema metabólico, seu sistema imunológico e outros sistemas surpreendentemente complexos de auto reparo e manutenção da saúde de seu corpo. As linhas de comunicação utilizadas por estes sistemas primitivos não eram os nervos mas sim os vasos sanguíneos Muito tempo antes de haver os telefones e os rádios, existia o serviço de correios, confiável embora um pouco moroso, que transportava pacotes físicos de informação valiosa por todo o mundo. E, muito tempo antes que houvesse sistemas nervosos nos organismos, os corpos dependiam desta espécie de sistema postal de baixa tecnologia -a circulação de fluidos no interior do corpo, confiável, embora transportasse lentamente embrulhos valiosos de informação para onde fossem necessários para controle e auto manutenção. Vemos os descendentes deste sistema postal primitivo em animais e vegetais. Nos animais, a corrente sanguínea transporta materiais e detritos, mas também tem sido, desde épocas primordiais, uma autoestrada para a informação. O movimento de fluidos no interior dos vegetais também provê um meio relativamente rudimentar para fazer com que os sinais sejam transmitidos de um vegetal para o outro. Mas, nos animais, podemos ver uma inovação de projeto importante: a evolução de sistemas nervosos simples - ancestrais do sistema nervoso autônomo - capazes de uma transmissão mais rápida e eficiente de informação, mas ainda dedicados, essencialmente, aos assuntos internos. Um sistema nervoso autônomo não é em absoluto uma mente mas sim um sistema de controle, mais ao longo das linhas da alma nutritiva de um vegetal, que preserva a integridade básica do sistema vivo.
Fazemos com rapidez a distinção entre esses sistemas antigos e as nossas mentes, e ainda assim, curiosamente, quanto mais de perto examinamos os detalhes do seu funcionamento, mais semelhantes às mentes achamos que eles são! Os pequenos comutadores são como órgãos sensoriais primitivos, e os efeitos produzidos quando esses comutadores são ligados e desligados são como ações intencionais. Como assim? São efeitos produzidos por sistemas que modulam informação e buscam objetivos. É como se essas células e conjuntos de células fossem agentes diminutos dotados de uma mente simples, serviçais especializados racionalmente procurando atingir seus objetivos obsessivos particulares ao agir de maneiras ditadas por sua percepção das circunstâncias. O mundo fervilha com tais entidades que vão do tamanho molecular até o continental e incluem não apenas objetos "naturais", como vegetais, animais e suas partes (e as partes de suas partes), mas também muitos artefatos humanos. Os termostatos, por exemplo, são um exemplo familiar desses pseudo agentes simples.
Chamo a todas essas entidades, da mais simples à mais complexa, sistemas intencionais, e chamo a perspectiva a partir da qual suas ações (pseudo ou genuínas) se tornam visíveis de postura intencional.
Adotando a postura intencional
A postura intencional é a estratégia de interpretar o comportamento de u ma entidade (pessoa, animal, artefato, qualquer coisa) tratando-a como se fosse um agente racional que governa suas "escolhas" de "ação" por uma "consideração" de suas "crenças" e "desejos". Esses termos entre aspas tiveram o seu significado ampliado para além de seu uso doméstico no que é muitas vezes chamado "psicologia popular", o discurso psicológico cotidiano que utilizamos para discutir as vidas mentais de nossos irmãos seres humanos. A postura intencional é a atitude ou perspectiva que rotineiramente adotamos em relação uns aos outros, portanto adotar a postura intencional em relação a alguma outra coisa parece ser a antropomorfização desta outra coisa. Como isto poderia ser de alguma forma uma boa ideia?
Tentarei mostrar que, se adotada com cuidado, a postura intencional não apenas é uma boa ideia mas também é a chave para desvelar os mistérios da mente -de todos os tipos de mentes. É um método que explora as similaridades para descobrir diferenças - o grande conjunto de diferenças que se acumularam entre as mentes de nossos ancestrais e as nossas, e também entre as nossas mentes e aquelas de nossos companheiros habitantes do planeta. Ela deve ser usada com cautela; devemos andar em uma corda bamba entre a metáfora vazia de um lado e a falsidade literal no outro. O uso impróprio da postura intencional pode confundir seriamente o pesquisador desprevenido, mas, entendida de modo apropriado, ela pode fornecer uma perspectiva sólida e frutífera em várias áreas diferentes, mostrando a unidade subjacente dos fenômenos e dirigindo nossa atenção para as experiências cruciais que precisam ser feitas.
A estratégia básica da postura intencional é tratar a entidade em questão como um agente, para predizer - e com isto e em certo sentido explicar -suas ações ou movimentos. As características emblemáticas da postura intencional podem ser mais bem-vistas em contraste com duas posturas ou estratégias mais básicas de predição: a postura física e a postura de planejamento. A postura física é simplesmente o método laborioso padrão das ciências físicas, em que utilizamos tudo o que sabemos a respeito das leis da física e da constituição física da coisa em questão para construir nossa predição. Quando predigo que uma pedra solta da minha mão cairá no solo, estou empregando a postura física. Não atribuo crenças e desejos à pedra; atribuo-lhe massa, ou peso, e me apoio na lei da gravidade para gerar minha predição. Para coisas que não são vivas e nem são artefatos, a postura física é a única estratégia disponível, embora possa ser empregada com vários níveis de detalhes, do subatômico ao astronômico. Explicações de por que a água forma bolhas quando ferve, como surgem as cadeias de montanhas e onde a energia do Sol se origina são explicações a partir da postura física. Toda coisa física, seja ela fruto de um projeto, seja ela viva ou não, está sujeita às leis da física e portanto se comporta de maneiras que podem ser explicadas e preditas a partir da postura física. Se a coisa que eu solto de minha mão é um despertador ou um peixinho dourado, faço a mesma predição, com base nas mesmas suposições, a respeito de sua trajetória para baixo. E mesmo um aeromodelo, ou um pássaro, que pode muito bem seguir uma trajetória diferente quando solto, se comporta de maneiras que obedecem às leis da física em qualquer escala e em qualquer instante.
Como frutos de um projeto, os despertadores (ao contrário da pedra) são também passíveis de um estilo mais sofisticado de predição - a predição a partir da postura de planejamento. A postura de planejamento é um atalho maravilhoso que todos nós utilizamos o tempo todo. Suponha que alguém me dê um despertador digital novo. O feitio e o modelo são bastante novos para mim, mas um breve exame de seus botões e mostradores exteriores me convence de que, se eu apertar alguns botões de certa maneira, então algumas horas mais tarde o despertador fará um grande ruído. Não sei que tipo de ruído será, mas será suficiente para me acordar. Não preciso desenvolver as leis físicas específicas para explicar esta regularidade maravilhosa; não preciso desmontar a coisa, pesar suas partes e medir as voltagens. Simplesmente suponho que ele tenha um projeto particular - o projeto que chamamos de um despertador - e que ele funcionará apropriadamente, como projetado. Estou preparado para arriscar muito nesta predição - talvez não minha vida, mas acordar em tempo para ministrar a minha palestra programada ou pegar um trem. Predições que dependem da postura de planejamento são mais arriscadas do que as que dependem da postura física, em razão das hipóteses adicionais que tenho de admitir: que uma entidade seja projetada como eu suponho que ela tenha sido, e que ela operará de acordo com aquele projeto -isto é, que ela não sofrerá pane. Coisas projetadas são ocasionalmente mal projetadas, e algumas vezes quebram. Mas este preço moderado de risco que pago é mais do que compensado pela tremenda facilidade de predição. As predições do tipo postura de planejamento, quando aplicáveis, são de baixo custo, atalhos de baixo risco, permitindo que eu refine a aplicação tediosa do meu conhecimento limitado de física. De fato, todos nós rotineiramente arriscamos nossas vidas com base em predições de postura de planejamento: sem hesitações ligamos e desligamos utensílios elétricos que poderiam nos matar se defeituosos; voluntariamente embarcamos em ônibus que sabemos que logo nos acelerarão até velocidades letais; com calma apertamos botões em elevadores que nunca vimos antes.
A predição de postura de planejamento funciona maravilhosamente em artefatos bem planejados, mas também funciona maravilhosamente nos artefatos da Mãe Natureza - coisas vivas e seus componentes. Muito tempo antes que a física e a química do crescimento e reprodução vegetal fossem entendidas, nossos ancestrais literalmente apostavam suas vidas na confiabilidade de seus conhecimentos baseados na postura de planejamento sobre o que se supunha que as sementes deveriam fazer quando plantadas. Se eu enterrar umas poucas sementes no solo de determinada maneira, então em poucos meses, com um pouco mais de cuidado da minha parte, haverá alimentos aqui para comer.
Acabamos de ver que as predições com base na postura de planejamento são arriscadas em comparação às que têm base na postura física (seguras mas de elaboração tediosa); uma postura ainda mais arriscada e mais rápida é a intencional. Ela pode ser visualizada, se você assim o desejar, como uma subespécie da postura de planejamento, na qual a coisa planejada é uma espécie de agente. Suponha que a apliquemos ao despertador. Este despertador é meu criado; se eu lhe dou a ordem para me acordar, fazendo com que compreenda um instante particular para despertar, posso depender de sua habilidade interna para perceber quando a hora chegou e diligentemente executar a ação que me prometeu. Tão logo acredite que a hora de fazer barulho é AGORA, ele será "motivado", graças às minhas instruções anteriores, a agir de acordo. Sem dúvida o despertador é tão simples que este antropomorfismo fantasioso é, estritamente falando, desnecessário para o nosso entendimento da razão por que faz o que deve fazer - mas observe que esta é a maneira pela qual podemos explicar a uma criança como usar um despertador: "Você diz a ele quando quer ser acordado, e ele se lembra de fazê-lo, fazendo um ruído alto".
A adoção da postura intencional é mais útil - de fato, bem próximo do obrigatório - quando o artefato em questão é muito mais complicado do que um despertador. Meu exemplo favorito é um computador capaz de jogar xadrez. Há centenas de diferentes programas de computador que podem transformar um computador, seja ele portátil ou um supercomputador, em um jogador de xadrez. Apesar de todas as suas diferenças no nível físico e no nível de projeto, todos esses computadores sucumbem graciosamente à mesma estratégia simples de interpretação: simplesmente pense neles como agentes racionais que querem vencer e que sabem as regras e os princípios do xadrez e das posições das peças sobre o tabuleiro. De imediato seu problema de predizer e interpretar o seu comportamento se toma tremendamente mais fácil do que seria se você tivesse tentado utilizar a postura física ou de planejamento. Em qualquer instante do jogo de xadrez, simplesmente observe o tabuleiro e escreva uma lista de todos os movimentos permitidos disponíveis para o computador quando chegar a sua vez de jogar (usualmente haverá várias dúzias de candidatos). Por que se restringir aos movimentos permitidos? Porque, você raciocina, ele quer ganhar o jogo e sabe que deve fazer apenas movimentos permitidos para vencer, portanto, sendo racional, ele se restringe a estes movimentos. Agora classifique os movimentos permitidos, dos melhores (mais sábios, mais racionais) aos piores (os mais estúpidos, os que mais rapidamente levam à auto derrota) e faça sua predição: o computador fará o melhor movimento. Você pode muito bem não estar seguro sobre qual é a melhor jogada (o computador poderá "apreciar" a situação melhor do que você!), mas pode quase sempre eliminar todas com exceção de quatro ou cinco candidatas a jogadas, o que ainda lhe dá uma tremenda vantagem de predição.
Algumas vezes, quando o computador se encontra em uma situação delicada, com apenas um único movimento não suicida para realizar (uma jogada "forçada"), você pode predizer sua jogada com suprema confiança. Nada a respeito das leis da física força este movimento, e nada a respeito do projeto específico do computador também força este movimento. Esta jogada é forçada por razões sobejamente boas para executá-la em vez de uma outra jogada qualquer. Qualquer jogador de xadrez, construído por qualquer tipo de material físico, a executaria. Mesmo um fantasma ou um anjo a executaria! Você se apresenta com sua predição de postura intencional com base na sua hipótese audaciosa de que não importa como o programa do computador foi planejado, ele foi planejado suficientemente bem para ser sensibilizado por tal motivação razoável. Você prediz seu comportamento como se ele fosse um agente racional.
A postura intencional é inegavelmente um atalho curto neste caso, mas com que seriedade deveríamos considerá-la? O que interessa ao computador, realmente, se ele perde ou ganha? Por que dizer que o despertador deseja obedecer ao seu mestre? Podemos utilizar este contraste entre objetivos naturais e artificiais para realçar nossa apreciação do fato de que todos os objetivos reais em última análise se originam da necessidade de uma coisa viva, auto protetora. Mas nós também devemos reconhecer que a postura intencional funciona (quando o faz) sejam ou não os objetivos atribuídos genuínos ou naturais, ou ainda "realmente apreciados" pelo assim chamado agente, e esta tolerância é crucial para entender como em primeiro lugar uma busca genuína de objetivos poderia ser estabelecida. Será que a macromolécula realmente quer replicar-se? A postura intencional explica o que está acontecendo, independente da maneira pela qual respondemos a esta pergunta. Considere um organismo simples - digamos, uma planária ou uma ameba -se movendo de modo não aleatório sobre o fundo de um recipiente de laboratório, sempre se dirigindo para a extremidade rica em nutrientes do recipiente, ou sempre se afastando da extremidade tóxica. Este organismo está buscando o bem, ou evitando o mal - buscando seu próprio bem e evitando o seu próprio mal, e não os de algum usuário humano de artefatos. Buscar o próprio bem é uma característica fundamental de qualquer agente racional. Mas será que esses organismos simples estão buscando ou apenas "buscando"? Não precisamos responder a esta questão. Em qualquer caso, o organismo é um sistema intencional predizível.
Esta é outra maneira de insistir no argumento de Sócrates em Meno, quando ele pergunta se alguém propositadamente deseja o mal. Nós, sistemas intencionais, realmente algumas vezes desejamos o mal, por meio da falta de entendimento, desinformação ou pura loucura, mas é parte essencial da racionalidade desejar o que é considerado bom. É esta relação constitutiva entre o bem e a busca do bem que é endossada - ou mais bem aplicada - pela seleção natural de nossos ancestrais: aqueles com a infelicidade de serem geneticamente planejados para buscar o que é ruim para eles não deixam descendentes a longo prazo. Não é acidental que os produtos da seleção natural busquem (ou "busquem") o que considerem (ou "considerem") bom.
Mesmo os organismos mais simples, se devem favorecer o que é bom para eles, necessitam de alguns órgãos sensoriais ou poderes discriminatórios - alguns comutadores simples que ligam na presença do bem e desligam na sua ausência - e estes comutadores, ou transdutores, devem estar unidos para dar as respostas corporais corretas. Esta exigência é o nascimento da função. Uma rocha não pode apresentar uma disfunção, pois não foi bem ou mal equipada para atingir qualquer tipo de bem.
Quando decidimos interpretar uma entidade a partir da postura intencional, é como se nos colocássemos no papel de seu guardião, perguntando-nos, de fato: "O que eu faria se estivesse na posição deste organismo?" E aqui nós expomos o antropomorfismo subjacente da postura intencional: tratamos todos os sistemas intencionais como se fossem exatamente como nós - o que, é claro, não são.
Será esta então uma aplicação errônea da nossa própria perspectiva, a perspectiva que nós, os que possuímos mentes, compartilhamos? Não necessariamente. Do ponto de observação privilegiado da história evolutiva, isto é o que aconteceu: durante bilhões de anos, os organismos evoluíram gradualmente, acumulando cada vez mais uma maquinaria versátil projetada para promover-lhes bens cada vez mais complexos e articulados. Finalmente, com a evolução da linguagem em nossa espécie e as variedades de reflexividade que a linguagem permite (um tópico para capítulos posteriores), desenvolvemos a capacidade de encantarmo-nos com as maravilhas com as quais começamos este livro - meditações sobre as mentes de outras entidades. Essas meditações, ingenuamente conduzidas por nossos ancestrais, levaram ao animismo, a ideia de que cada coisa que se move possui uma mente ou alma (anima, em latim). Começamos a nos perguntar não apenas se o tigre desejava nos devorar - o que ele provavelmente queria fazer - mas também por que os rios queriam atingir os oceanos, e o que as nuvens queriam de nós em troca da chuva que pedíamos a elas. À medida que nos tornamos mais sofisticados - e isto é um desenvolvimento histórico bastante recente, não algo a ser discernido nas grandes imensidões do tempo evolutivo -, gradualmente retiramos a postura intencional do que agora chamamos natureza inanimada, reservando-a para coisas mais parecidas conosco: os animais, principalmente, mas também vegetais sob muitas condições. Nós ainda "enganamos" as flores fazendo com que floresçam prematuramente ao "ludibriá-las" com a luz e o calor da primavera artificial, e "encorajamos" os vegetais a que prolonguem suas raízes retirando-lhes a água de que necessitam tão desesperadamente. (Um lenhador profissional uma vez me explicou como ele sabia que não encontraríamos pinheiros brancos entre as árvores de um solo elevado da floresta em minha propriedade: "Os pinheiros gostam de manter os pés molhados".) Esta maneira de pensar sobre os vegetais não apenas é natural e inofensiva mas é positivamente um auxílio à compreensão e um importante auxiliar na descoberta. Quando os biólogos descobrem que uma planta tem algum órgão rudimentar discriminatório, eles imediatamente se perguntam para que serve este órgão - que desígnio maléfico terá uma planta que exige que ela obtenha informação do seu meio ambiente sobre um certo tópico? Muitas vezes a resposta é uma descoberta científica importante.
Os sistemas intencionais são, por definição, todas e apenas aquelas entidades cujo comportamento é predizível/explicável a partir da postura intencional. Macromoléculas auto replicantes, termostatos, amebas, plantas, ratos, morcegos, pessoas e computadores que jogam xadrez são todos sistemas intencionais - alguns muito mais interessantes do que outros. Como o objetivo da postura intencional é tratar uma entidade como um agente para predizer suas ações, temos de supor que a entidade seja um agente inteligente, já que um agente estúpido pode fazer qualquer tipo de coisa estúpida. Este salto audacioso de supor que o agente fará apenas os movimentos inteligentes (dada a sua perspectiva limitada) é o que nos dá a vantagem de fazer predições. Descrevemos essa perspectiva limitada atribuindo crenças e desejos particulares ao agente com base na sua percepção da situação e em seus objetivos ou necessidades. Como nossa vantagem preditiva neste exercício é criticamente dependente desta particularidade - já que ela é sensível ao modo particular pelo qual as crenças e desejos são expressos por nós, os teóricos, ou representados pelo sistema intencional em questão, chamo esses sistemas de intencionais. Eles exibem o que os filósofos chamam intencionalidade.
"Intencionalidade", neste sentido filosófico especial, é um conceito tão controvertido e é tão rotineiramente mal-entendido e mal utilizado pelos não-filósofos que devo fazer uma pausa para elaborar sua definição. Infelizmente para a comunicação interdisciplinar, o termo filosófico "intencionalidade" tem dois falsos cognatos - palavras perfeitamente boas que são prontamente confundidas com este termo, e que de fato lhe estão intimamente relacionadas. Uma é um termo de sentido ordinário, a outra é de sentido técnico (e eu adiarei a sua introdução um pouco). No discurso comum, muitas vezes discutimos se a ação de alguém foi intencional ou não. Quando o motorista colidiu com a viga de sustentação da ponte, estaria ele intencionalmente cometendo suicídio ou teria adormecido ao volante? Quando você chamou o policial de "pai", terá sido isto intencional, ou um ato falho? Aqui estamos perguntando (não estamos?), sobre a intencionalidade dos dois atos? Sim, no sentido comum; não, no sentido filosófico.
A intencionalidade no sentido filosófico é apenas relacionalidade. Alguma coisa exibe intencionalidade se sua competência é de algum modo sobre alguma outra coisa. Uma alternativa seria dizer que algo que exiba intencionalidade contém uma representação de alguma outra coisa -mas considero isto menos revelador e mais problemático. Uma fechadura contém a representação da chave que a abre? Uma fechadura e a chave exibem a forma mais rudimentar de intencionalidade; da mesma forma os receptores opiáceos nas células cerebrais - receptores projetados para aceitar as moléculas de endorfina que a natureza vem fornecendo aos cérebros há milhões de anos. Ambos podem ser enganados -isto é, abertos por um impostor. As moléculas de morfina são chaves recentemente modeladas para abrir as portas do receptor opiáceo. (de fato foi a descoberta desses receptores altamente específicos que inspirou a pesquisa que levou à descoberta das endorfinas, os analgésicos do cérebro. Deve haver algo já presente no cérebro, raciocinaram os pesquisadores, para que estes receptores especializados estejam presentes). Esta variedade de chave e fechadura de relacionalidade rudimentar é o elemento de planejamento básico a partir do qual a natureza modelou os tipos mais sofisticados de subsistemas que podem ser mais merecidamente chamados sistemas de representação, portanto, de qualquer modo, teremos de analisar a relacionalidade dessas representações em termos da relacionalidade das chaves e fechaduras. Podemos ir um pouco além e dizer que a forma instantânea da mola bimetálica em um termostato é uma representação da temperatura atual da sala, e que a posição da alavanca ajustável do termostato é uma representação da temperatura desejada para a sala, mas podemos igualmente negar que essas sejam, para ser exato, representações. Elas, entretanto, realmente corporificam informação sobre a temperatura do meio ambiente, e é em virtude desta corporificação que contribuem para a competência de um sistema intencional simples.
Por que os filósofos chamam relacionalidade de "intencionalidade"? Isto tudo remonta aos filósofos medievais que cunharam o termo, ao notar a similaridade entre tais fenômenos e o ato de apontar uma flecha para algo (intendere arcum in). Os fenômenos intencionais são dotados de flechas metafóricas, poder-se-ia dizer, apontadas para uma ou outra coisa - para qualquer coisa sobre a qual os fenômenos digam respeito, se refiram ou aludam. Mas, é claro, muitos fenômenos que exibem este tipo de intencionalidade mínima não fazem nada intencionalmente, no sentido cotidiano do termo. Estados de percepção, estados emocionais e estados da memória, por exemplo, exibem todos relacionalidade sem necessariamente serem intencionais no sentido comum; eles podem ser respostas inteiramente involuntárias ou automáticas para uma coisa ou outra. Nada há de intencional no fato de reconhecer um cavalo quando ele surge no nosso campo de visão, mas seu estado de reconhecimento exibe uma relacionalidade muito particular: você o reconhece como um cavalo. Se você o tivesse confundido com um alce ou um homem montado numa motocicleta, seu estado de percepção teria tido uma relacionalidade diferente. Ele teria apontado a sua flecha de modo bastante diferente -para algo que não existe, de fato, mas que é, contudo, bastante definido: ou o alce ou o motociclista ilusório. Há uma grande diferença psicológica entre pensar erroneamente que você está na presença de um alce e pensar erroneamente que você está na presença de um homem montado numa motocicleta, uma diferença com consequências predizíveis. Os teóricos medievais observaram que a flecha da intencionalidade poderia portanto ser apontada para nada, estando, não obstante, sendo apontada de um modo bastante particular. Eles chamaram o objeto do seu pensamento, real ou não, de objeto intencional.
Para pensar sobre alguma coisa, deve-se ter uma maneira - uma dentre as muitas possíveis - de pensar sobre esta coisa. Qualquer sistema intencional é dependente das suas maneiras particulares de pensar sobre -perceber, buscar, identificar, temer, relembrar - o que quer que seja objeto de seus "pensamentos". É esta dependência que cria todas as oportunidades de confusão, práticas e teóricas. Do ponto de vista prático, a melhor maneira de confundir um sistema intencional particular é explorar uma falha em suas maneiras de perceber ou pensar sobre o que quer que seja que ele precise pensar a respeito. A natureza explorou incontáveis variações deste tema, já que confundir outros sistemas intencionais é um dos principais objetivos na vida da maioria dos sistemas intencionais. Portanto a camuflagem, a imitação, a furtividade e um grande variedade de outros estratagemas testaram os chaveiros da natureza, provocando a evolução de maneiras cada vez mais eficientes de distinguir uma coisa da outra e de acompanhá-las. Mas nenhuma maneira é sempre infalível. Não há acerto sem possibilidade de erro. Esta é a razão por que é tão importante para nós teóricos sermos capazes de identificar e distinguir as diferentes variedades de acertos (e erros) que podem ocorrer nos sistemas intencionais. Para dar sentido a um "acerto" real de um sistema a respeito das suas circunstâncias, devemos ter uma imagem precisa de sua confiança nas suas capacidades particulares de distinguir coisas - suas maneiras de "pensar sobre" coisas.
Infelizmente, porém, nós teóricos temos tendência a nos exceder, tratando nossa própria capacidade quase ilimitada de distinguir uma coisa da outra em nossos pensamentos (graças à nossa habilidade de utilizar a língua) como se fosse a marca de toda intencionalidade genuína, de toda relacionalidade merecedora deste nome. Por exemplo, quando a língua de uma rã dardeja e captura o que quer que esteja voando por perto, a rã pode cometer um erro -ela pode ingerir um rolimã atirado por uma criança travessa ou a isca de um pescador pendurada em uma linha, ou alguma outra anomalia não comestível. A rã cometeu um erro, mas exatamente que tipo de erro ela cometeu? O que a rã "pensou" que estivesse capturando? Uma mosca? Algo comestível suspenso no ar? Uma convexidade escura em movimento? Nós que utilizamos uma linguagem podemos fazer distinções de conteúdo indefinidamente precisas para o candidato ao pensamento da rã e há uma hipótese não analisada de que, antes que possamos atribuir qualquer intencionalidade real à rã, temos de estreitar o conteúdo dos estados da rã e agir com a mesma precisão que podemos utilizar (em princípio) quando consideramos os pensamentos humanos e seus conteúdos proposicionais.
Isto tem sido uma fonte de grande confusão teórica, e, para tornar as coisas piores, há um termo técnico prático originário da lógica que se refere exatamente a esta capacidade da linguagem de fazer discriminações de granulação fina de modo indefinido: intensionalidade (em vez deste termo, a lógica clássica usa compreensão). Com s. Intensionalidade com s é uma característica das linguagens; ela não tem qualquer aplicação direta a qualquer outro tipo de sistema de representação (quadros, mapas, gráficos, "imagens de busca", ... mentes). De acordo com o emprego padrão entre os lógicos, as palavras ou símbolos de uma língua podem ser divididas em palavras lógicas, ou funcionais ("se", "e", "ou", "não", "toda", "alguma"...) e os termos ou predicados, que podem ser tão variados quanto o tópico de discussão ("vermelho", "alto", "avô", "oxigênio", compositor de sonetos de segunda categoria" ...). Cada termo ou predicado significativo de uma língua possui uma extensão - a coisa ou conjunto de coisas a que se refere o termo – é uma intensão - a maneira particular pela qual esta coisa ou conjunto de coisas é selecionada ou determinada. "O pai de Chelsea Clinton" e "presidente dos Estados Unidos em 1995" se referem à mesma coisa - Bill Clinton - e portanto possuem a mesma extensão, mas focalizam esta entidade comum de maneiras diferentes, e portanto possuem intensões de diferença. O termo "triângulo equilátero" determina exatamente o mesmo conjunto de coisas que o termo "triângulo equiangular", e portanto estes dois termos possuem a mesma extensão, mas obviamente não querem dizer a mesma coisa: um termo diz respeito ao fato de os lados do triângulo serem iguais e o outro diz respeito aos ângulos do triângulo serem iguais. Portanto, intensão (com s) é contrastada com a extensão, e significa, bem, significado. Mas não é isto o que intencionalidade com c também significa?
Para muitas finalidades, observam os lógicos, podemos ignorar diferenças nas intensões dos termos e apenas manter o controle das extensões. Afinal de contas, uma rosa com qualquer outro nome teria o mesmo perfume. Portanto, se as rosas são o tema, as indefinidamente muitas maneiras diferentes de trazer a classe das rosas para a discussão devem ser equivalentes, a partir de um ponto de vista lógico. Como a água é H20, qualquer coisa verdadeira dita sobre a água, que utilize o termo "água", permanecerá verdadeira se o substituirmos pelo termo "H20" -mesmo que estes dois termos sejam sutilmente diferentes em significado, ou intensão. Esta liberdade é particularmente óbvia e útil em áreas como a matemática, onde sempre se pode utilizar a prática de "substituir iguais por
iguais", trocando "42" por "16" ou vice-versa, já que estes dois termos diferentes se referem a um único número. Tal liberdade de substituição em contextos linguísticos é apropriadamente chamada transparência referencial: podem-se ver através dos termos, de fato, as coisas a que os termos se referem. Mas, quando o tópico não são rosas mas pensar sobre rosas, ou falar sobre (pensar sobre) rosas, as diferenças na intensão podem ser importantes. Portanto, sempre que o tópico é sistemas intencionais, suas crenças e desejos, a linguagem utilizada pelo teórico é sensível à intensão. Um lógico diria que tal discurso exibe opacidade referencial; ele não é transparente; os próprios termos atravessam-se no caminho e interferem de maneiras sutis e confusas no tópico.
Para ver como a opacidade referencial realmente é importante quando adotamos a postura intencional, consideremos um caso de postura intencional em ação, aplicada a um ser humano. Fazemos isto sem esforço algum todos os dias, e raramente explicitamos o que está envolvido, mas aqui está um exemplo, extraído de um artigo filosófico recente -um exemplo que entra de modo bastante estranho mas útil em mais detalhes do que é usual:
Brutus queria matar César. Ele acreditava que César era um mortal
comum, e que, levando isto em conta, apunhalá-lo (e com isto queremos dizer enfiar uma faca no seu coração) era uma maneira de matá-lo. Ele achou que poderia apunhalar César, pois lembrou que tinha uma faca e viu que César estava parado próximo a ele, à sua esquerda, no Fórum. Portanto, Brutus foi motivado a apunhalar o homem à sua esquerda. Ele assim o fez, com isto matando César (Israel, Perry e Tutya, 1993, página 515).
Observe que o termo "César" desempenha sub-repticiamente um papel duplo e crucial nesta explanação - não apenas na maneira normal e transparente de escolher um homem, César, o sujeito de toga parado no Fórum, mas escolhendo o homem da maneira como o próprio Brutus escolhe. Não é suficiente para Brutus ver César parado próximo a ele; ele, Brutus, deve se certificar de que é César, o homem que quer matar. Se Brutus confundisse César, o homem à sua esquerda, com Cássio, então não tentaria matá-lo: ele não estaria motivado, como dizem os autores, a apunhalar o homem à sua esquerda, já que não teria estabelecido, na sua mente, a conexão crucial - o elo que identifica o homem à sua esquerda com o seu objetivo.
O objetivo mal dirigido da precisão proposicional
Sempre que um agente age, ele o faz com base em uma compreensão particular - ou má compreensão - das circunstâncias, e explicações intencionais e predições dependem da apreensão dessa compreensão. Para predizer a ação de um sistema intencional, você deve saber que coisas as crenças e os desejos do agente são, e deve saber, pelo menos aproximadamente, como essas crenças e desejos se relacionam com essas coisas, assim você pode dizer se as conexões cruciais foram, ou serão, percebidas.
Mas observe que eu disse que quando adotamos a postura intencional temos de saber, pelo menos aproximadamente, como o agente escolhe os objetos de interesse. Deixar de notar isto é uma grande fonte de confusão. Caracteristicamente, não precisamos saber exatamente de que maneira o agente concebe sua tarefa. A postura intencional pode usualmente tolerar uma grande dose de desleixo, e isto é uma bênção, já que a tarefa de expressar com exatidão como o agente compreende sua tarefa é mal concebida e um exercício tão inútil como ler poemas em um livro por meio de um microscópio. Se o agente sob escrutínio não concebe suas circunstâncias com a ajuda de uma língua capaz de fazer certas distinções, o poder de resolução soberbo da nossa língua não pode ser utilizado diretamente para a tarefa de expressar os pensamentos particulares, ou modo de pensar, ou variedades de sensibilidade, daquele agente. (Indiretamente, porém, a língua pode ser utilizada para descrever aquelas particularidades com quaisquer detalhes que o contexto teórico exigir.)
Este ponto muitas vezes se perde nas brumas de um argumento espuriamente persuasivo neste sentido. Os cães (por exemplo) pensam? Se o fazem, então, é claro, devem pensar pensamentos particulares. Um pensamento não poderia existir sem ser algum pensamento particular ou outro, poderia? Mas um pensamento particular deve ser composto de conceitos particulares. Você não pode pensar o pensamento
meu prato está cheio de carne
a menos que possua os conceitos de prato e carne , e para ter estes conceitos você deve ter uma grande quantidade de outros conceitos ( balde, prato, vaca, carne...), já que este pensamento particular é prontamente distinguível (por nós) do pensamento
o balde está cheio de carne
assim como do pensamento
meu prato está cheio de fígado de vitela
para não dizer nada do pensamento
aquela coisa vermelha, gostosa, na coisa em que eu usualmente
como, não é aquela coisa seca usual com que eles me alimentam
e assim por diante, indefinidamente. Exatamente qual o pensamento ou quais os pensamentos que o cão está pensando? Como podemos expressar -digamos, em nosso idioma -exatamente o pensamento que o cão está pensando? Se não puder ser feito (e não pode), então os cães não podem pensar em absoluto pensamentos, ou os pensamentos dos cães devem ser sistematicamente inexprimíveis - e portanto além do nosso alcance.
Nenhuma alternativa se segue. A ideia de que um "pensamento" de um cão pode ser inexprimível (em linguagem humana) pela simples razão de que a expressão em uma língua humana com exatidão é muitas vezes ignorada, junto com seu corolário: a ideia de que podemos não obstante descrever exaustivamente o que não podemos expressar, não deixando qualquer resíduo de mistério. O cão deve ter suas maneiras particulares de discriminar coisas, e essas maneiras são compostas por "conceitos" bastante particulares e idiossincráticos. Se pudermos perceber como essas maneiras funcionam, e descrever como funcionam juntas, então saberemos tanto sobre o conteúdo dos pensamentos do cão quanto sobre o conteúdo dos pensamentos de outro ser humano por meio da conversação, mesmo se não pudermos encontrar u ma frase (em nosso idioma ou em qualquer outra língua humana) que expresse esse conteúdo.
Quando nós humanos, que possuímos mentes, a partir da nossa perspectiva notavelmente superior, usamos nosso truque especial de aplicar a postura intencional a outras entidades, estamos impondo sobre elas nossas maneiras e arriscamos atribuir muita clareza, muita distinção e articulação de conteúdo, e portanto muita organização, aos sistemas que estamos tentando entender. Também arriscamos importar muito do tipo particular de organização de nossas próprias mentes para nosso modelo desses sistemas mais simples. Nem todas as nossas necessidades, e portanto desejos, e portanto práticas mentais, e portanto recursos mentais, são compartilhados por esses candidatos mais simples a detentores de mentes.
Muitos organismos "experimentam" o Sol, e mesmo orientam suas vidas pela sua passagem. Um girassol pode acompanhar o Sol de uma maneira mínima, voltando suas flores para ele à medida que este corta o céu, maximizando sua exposição diária à luz solar, mas não pode lidar com um guarda-chuva que intervenha. Ele não pode antecipar o ressurgimento do Sol em um tempo posterior calculável e ajustar seu "comportamento" lento e simples de acordo com isto. Um animal pode muito bem ser capaz de tal sofisticação, modulando sua locomoção para manter-se escondido da sua presa nas sombras, ou mesmo prever onde irá se esticar ao Sol para uma longa soneca, considerando (débil e irrefletidamente) que a sombra da árvore em breve aumentará. Os animais acompanham e reidentificam outras coisas (companheiros, presas, prole, lugares favoritos para alimentação), e podem similarmente acompanhar o Sol. Mas nós seres humanos não apenas acompanhamos o Sol, fazemos uma descoberta ontológica a respeito do Sol: é o Sol! O mesmo Sol a cada dia.
O lógico alemão Gottlob Frege introduziu um exemplo sobre o qual os lógicos e filósofos vêm escrevendo há mais de um século: a Estrela Matutina, conhecida pelos antigos como Fósforo, e a Estrela Vespertina, conhecida pelos antigos como Héspero, são um único e mesmo corpo celestial: Vênus. Hoje isto é um fato familiar, mas a descoberta desta identidade foi um avanço inicial substancial em astronomia. Qual de nós hoje em dia poderia formular o argumento e reunir evidências cruciais sem procurar a ajuda de um livro? Mesmo quando éramos crianças pequenas, porém, imediatamente compreendemos (e aceitamos docilmente) a hipótese. É difícil imaginar que quaisquer outras criaturas pudessem jamais ter formulado, muito menos confirmado, a hipótese de que esses pequenos pontos brilhantes são um único e mesmo corpo celeste.
Não poderiam esses grandes discos quentes que executam uma passagem diária através dos céus serem novos a cada dia? Somos a única espécie que pode mesmo chegar a formular a questão. Comparo o Sol e a Lua com as estações. A primavera retorna a cada ano, mas nós não perguntamos (não mais) se é a mesma primavera, que retomou. Talvez a primavera, personificada como uma deusa antigamente, fosse vista pelos nossos ancestrais como um particular que retorna, não um universal recorrente. Mas para outras espécies isto não é nem mesmo uma questão. Algumas espécies possuem uma sensibilidade sofisticada às variações; elas podem discriminar muito mais detalhes, em alguns domínios, do que nós podemos com nossos sentidos desarmados (embora, tanto quanto saibamos, possamos, com a ajuda de nossas extensões protéticas -microscópios, espectroscópios, cromatógrafos de gás, e assim por diante -, fazer discriminações mais detalhadas em todas as modalidades do que qualquer outra criatura no planeta). Mas essas outras espécies possuem uma capacidade muito limitada de refletir, e suas sensibilidades são canalizadas para conjuntos bastante estreitos de possibilidades, como veremos.
Nós, em contraste, somos crédulos. Não existe limite, aparentemente, para o que podemos acreditar e para o que podemos distinguir na crença. Podemos distinguir entre acreditar
que o Sol é e sempre foi a mesma estrela, diariamente,
e acreditar
que o Sol foi sempre a mesma estrela, diariamente, desde I° de
janeiro de 1900, quando o último Sol herdou seu papel de seu predecessor.
Acho que ninguém acredita na última afirmação, mas é suficientemente fácil ver que crença é esta, e distingui-la da crença padrão e da seguinte crença igualmente insensata mas diferente de
que a mais recente troca de sóis aconteceu em 12 de junho de
1986.
A forma fundamental de todas essas atribuições de estados mentais aos sistemas intencionais são frases que expressam o que são chamadas atitudes proposicionais.
x acredita que p.
y deseja que q.
z quer saber se r.
Essas frases consistem em três partes: um termo que se refere ao sistema intencional em questão (x, y, z), um termo para a atitude atribuída a ele (crença, desejo, ponderação ...) e um termo para o particular conteúdo ou significado daquela atitude - a proposição denotada em cada um destes exemplos genéricos pelas letras p, q ou r. Em frases de atribuição real, é claro, essas proposições são expressas como frases (em qualquer língua que o locutor empregue), e essas frases contêm termos que podem não ser substituídos ad lib por termos coextensivos -esta é a característica da opacidade referencial.
Proposições, portanto, são entidades teóricas com as quais identificamos, ou avaliamos, crenças. Para dois crentes, compartilhar a crença é, por definição, acreditar em uma mesma proposição. O que são então proposições? Elas são, por convenção filosófica mutuamente acordada, os significados abstratos compartilhados por todas as frases que... significam a mesma coisa. Um círculo nefasto emerge da fumaça da batalha. Presumivelmente, uma única e mesma proposição é expressa por
1. (1) A neve é branca .
2. (2) La neige est blanche.
3. (3) Der Schnee ist weiss.
Afinal de contas, quando eu atribuo a Tom a crença de que a neve é branca, queremos que Pierre e Wilhelm sejam capazes de atribuir a mesma crença a Tom em suas próprias línguas. O fato de que Tom não precisa entender as atribuições deles não está em consideração . A propósito, Tom não precisa entender minha atribuição, é claro, já que talvez Tom seja um gato ou um turco que fale apenas sua própria língua.
Mas será uma única e mesma proposição também compartilhada pelo que se segue?
1. (4) Bill atacou Sam.
2. (5) Sam foi atacado por Bill.
3. (6) Bill foi o agente do ato de atacar do qual Sam foi a vítima.
Elas todas "dizem a mesma coisa", e ainda assim todas dizem "isto" de modos diferentes. Será que as proposições deveriam alinhar-se com maneiras de dizer ou com coisas ditas? Uma maneira simples, teoricamente atraente de resolver a questão, seria questionar se um crente pode acreditar em uma dessas proposições sem acreditar em outra. Se assim for, então elas são proposições diferentes. Afinal de contas, se as proposições devem ser as entidades teóricas que avaliam a crença, não gostaríamos que este teste falhasse. Mas como podemos testar isto se Tom não fala inglês, ou não fala qualquer outra língua humana? Nós, atribuidores - pelo menos quando expressamos nossas atribuições por meio da língua -, devemos estar limitados por um sistema de expressão, uma língua, e línguas diferem em suas estruturas assim como em seus termos Ao sermos forçados a utilizar uma estrutura de língua ou outra, aceitamos a contragosto mais distinções do que as circunstâncias podem garantir. Este é o motivo da advertência que fiz anteriormente a respeito da atribuição aproximada de conteúdo que é suficiente para o sucesso da postura intencional.
O filósofo Paul Churchland (1979) comparou proposições com números- objetos igualmente abstratos utilizados para medir muitas propriedades físicas.
x tem um peso em gramas de 144.
y tem uma velocidade em metros por segundo de 12.
Obviamente, os números desempenham comportadamente este papel. Podemos "substituir iguais por iguais"; não há qualquer dificuldade em concordar que x tem um peso em gramas de 2 x 72 ou que y tem uma velocidade em metros por segundo de 9 + 3. Há uma dificuldade, como acabamos de ver, quando tentamos aplicar as mesmas regras de transformação e equivalência a expressões diferentes do que são supostamente a mesma proposição. Proposições, ai de mim! Não são entidades teóricas tão bem-comportadas como os números. As proposições são mais parecidas com dólares do que com números!
Este bode vale $50.
E quanto ele vale em dracmas gregas ou rublos russos (e em que dia da semana!) -e será que ele hoje em dia vale mais ou menos do que valia na antiga Atenas ou como parte dos suprimentos expedicionários de Marco Polo? Não há dúvida de que o bode possui sempre um valor para seu dono, e não há dúvida de que podemos fixar uma medida aproximada operacional de seu valor executando -ou imaginando que executamos -uma troca por dinheiro, ouro em pó, pão ou qualquer outra coisa. Mas não há qualquer sistema fixo, neutro, eterno de medir o valor econômico e da mesma forma não há um sistema fixo, neutro, eterno de medir o significado das proposições. E daí? Seria ótimo, suponho, se houvesse esses sistemas; fariam com que o mundo fosse melhor e poderiam tornar a tarefa do teórico mais simples. Mas esse sistema universal, de padrão único de medida, é desnecessário para a teoria da economia e dos sistemas intencionais. A teoria econômica sólida não é ameaçada por imprecisões que não podem ser eliminadas em suas medições dos valores econômicos generalizados para todas as circunstâncias e todas as épocas. A teoria dos sistemas intencionais sólida não é ameaçada pelas imprecisões que não podem ser eliminadas em suas avaliações de significado através do mesmo espectro universal. Enquanto estivermos alertas para esta dificuldade, podemos lidar com todos os problemas locais de modo bastante satisfatório, utilizando qualquer sistema prático que escolhermos.
Nos capítulos subsequentes, descobriremos que quando assumimos nossa capacidade de "crentes" e a aplicamos às criaturas "inferiores",
Ela nos dirá onde olhar a seguir, estabelecerá condições de fronteira e realçará padrões de similaridades e diferenças. Mas, se não formos cuidadosos, como já vimos, ela poderá também distorcer lastimavelmente nossa visão. Uma coisa é tratar um organismo, ou qualquer um de seus muitos subsistemas, como um sistema intencional rudimentar que aproximada e irrefletidamente busca de forma inegável seus objetivos sofisticados, e outra muito diferente é imputar-lhe uma consideração reflexiva sobre o que está fazendo. Nosso tipo de pensamento reflexivo é uma inovação evolutiva muito recente.
As macromoléculas originais auto replicantes tinham razões para fazer o que fizeram, mas nenhuma ideia vaga sobre isto. Nós, em contraste, não apenas sabemos -ou pensamos que sabemos - nossas razões; nós as articulamos, as discutimos, as criticamos e as compartilhamos. Elas não são apenas as razões pelas quais agimos; são as razões para nós. Entre nós e as macromoléculas há uma grande história a ser contada. Considere, por exemplo, o jovem cuco chocado em um ninho alheio por pais adotivos involuntários. Sua primeira ação quando emerge do ovo é fazer rolar para fora os outros ovos do ninho. Esta não é uma tarefa fácil, e é bastante espantoso observar a determinação feroz e plena de recursos com a qual o passarinho sobrepuja quaisquer obstáculos com os quais depare em sua tarefa de jogar fora os outros ovos. Por que faz isto? Porque esses ovos contêm rivais nas atenções de seus provedores substitutos. Ao descartar esses rivais, ele maximiza o alimento e o cuidado protetor que receberá. O cuco recém-nascido não tem, é claro, consciência disso; ele não tem qualquer ideia da motivação para seu ato impiedoso, mas a motivação está ali e indubitavelmente modelou este comportamento inato ao longo das eras. Nós podemos vê-lo, mesmo que o cuco não possa. Chamo esta motivação de "flutuação livre'', pois ela não está em lugar algum representada no jovem cuco, ou em qualquer outra parte, embora seja operacional - ao longo do tempo evolutivo -para dar forma e refinar o comportamento em questão (fornecendo suas necessidades informativas, por exemplo). Os princípios estratégicos envolvidos não estão explicitamente codificados mas apenas implícitos na organização maior das características planejadas. Como essas razões foram apreendidas e articuladas em algumas das mentes que evoluíram? Esta é uma boa pergunta. Ela ocupará a nossa atenção durante vários capítulos, mas, antes de considerá-la, devo me voltar para uma desconfiança remanescente que alguns filósofos ventilaram, a saber: que eu estou caminhando para trás, pois me proponho a explicar a intencionalidade real em termos da pseudo-intencionalidade! Além do mais, assim parece, estou deixando de reconhecer a importante distinção entre, intencionalidade original ou intrínseca e intencionalidade derivada. Qual é a diferença?
Intencionalidade original e derivada
De acordo com alguns filósofos, na trilha de John Searle (1980), a intencionalidade se apresenta sob duas formas: intrínseca (ou original) e derivada. A intencionalidade intrínseca é a relacionalidade de nossos pensamentos, crenças, desejos e intenções (intenções no sentido comum da palavra). Ela é a fonte óbvia do tipo distintamente limitado e derivado de relacionalidade exibida por alguns de nossos artefatos: nossas palavras, frases, livros, mapas, imagens e programas de computador. Estes têm intencionalidade apenas por cortesia de uma espécie de empréstimo generoso de nossas mentes. A intencionalidade derivada de nossas representações por meio de artefatos é parasitária da intencionalidade genuína, original, intrínseca que está por trás de sua criação.
Há muito a ser dito sobre esta afirmação. Se você fechar os olhos e pensar sobre Paris, ou sobre sua mãe, este pensamento seu é sobre o objeto de sua atenção da maneira mais primária e direta do que qualquer coisa poderia ser sobre qualquer coisa. Se você então escrever uma descrição de Paris, ou fizer um esboço de sua mãe, a representação no papel será sobre Paris, ou sua mãe, apenas porque esta é a sua intenção como autor (no sentido comum da palavra). Você tem o controle de suas representações, e pode declarar ou decidir sobre o que estas representações dizem respeito. Estas são as convenções de linguagem nas quais você se apoia para ajudá-lo na injeção de significado nas marcas brutas sobre o papel. A menos que tenha previamente declarado que daqui por diante deseja se referir a Boston sempre que falar ou escrever a palavra "Paris", ou que escolheu chamar Michelle Pfeiffer de "mãe", as referências padrão acordadas por sua comunidade linguística são consideradas em vigor. Assim, as representações externas assumem seus significados - suas intensões e extensões - a partir do significado interno, estados mentais e atos das pessoas que as construíram e as utilizam. Esses estados mentais e atos possuem intencionalidade original.
O argumento sobre o status dependente das representações por meio de artefatos é inegável. Manifestamente, as marcas de lápis em si mesmas não significam nada. Isto é particularmente claro no caso de frases ambíguas. O filósofo W. V. O. Quine nos dá um belo exemplo:
Nossas mães nos aborrecem.
O que quer dizer isto? Será uma queixa atual sobre o aborrecimento ou um truísmo que se refere ao passado sobre nossas origens? Você deve perguntar à pessoa que criou a frase. Nada a respeito das próprias marcas poderia possivelmente determinar a resposta. Certamente elas não possuem intencionalidade intrínseca, qualquer que esta possa ser. Se significam alguma coisa, será em razão do papel que desempenham em um sistema de representação ancorado nas mentes dos que fazem a representação.
Mas o que dizer dos estados e dos atos dessas mentes? O que as dota com sua intencionalidade? Uma resposta popular é dizer que esses estados mentais e atos possuem significado porque eles mesmos, maravilhosamente, são compostos em um tipo de língua -a língua do pensamento. Mentalês. Esta é uma resposta inútil. É inútil não porque não seja possível existir qualquer sistema deste tipo a ser encontrado no funcionamento interno dos cérebros das pessoas. De fato, poderia haver -embora qualquer sistema deste tipo não pudesse ser apenas como uma língua natural comum, como o inglês ou o francês. É inútil como uma resposta à pergunta que fizemos, pois ela simplesmente a adia. Que seja uma língua do pensamento. Agora, de onde vem o significado de seus termos? Como sabemos o que as frases na sua língua de pensamento significam? Este problema se torna mais claro se contrastarmos a hipótese da língua de pensamento com sua ancestral e rival principal, a teoria de imagens para as ideias. Nossos pensamentos são como imagens, afirma este ponto de vista; eles dizem respeito ao que dizem respeito porque, como imagens, eles lembram seus objetos. Como eu diferencio a minha ideia de um pato da minha ideia de uma vaca? Observando que minha ideia de um pato se parece com um pato, enquanto minha ideia de uma vaca não! Isto, também, é inútil, pois imediatamente levanta a questão: e como sabemos com que se parece um pato? Novamente, não é inútil porque não poderia existir um sistema de imaginação em seu cérebro que explorasse semelhanças pictóricas entre as imagens internas do cérebro e as coisas que elas representam; de fato, poderia existir. Na verdade, existe, e estamos começando a entender como este sistema funciona. Este ponto de vista é inútil como resposta à nossa pergunta fundamental, porém, porque depende do próprio entendimento do que se supõe que ele deva explicar, e portanto entra em um círculo vicioso.
A solução para o problema da nossa intencionalidade é direta. Nós simplesmente concordamos que os artefatos representacionais (como descrições escritas e esboços) possuem intencionalidade derivada, pela virtude do papel que desempenham nas atividades de seus criadores. Uma lista de compras escrita em um pedaço de papel possui apenas a intencionalidade derivada que obtém das intenções do agente que a escreveu. Bem, da mesma forma a lista de compras mantida pelo mesmo agente na memória! Sua intencionalidade é tão exatamente derivada quanto a lista externa, e pelas mesmas razões. Da mesma forma, uma imagem simplesmente mental de sua mãe - ou Michelle Pfeiffer - é com relação ao seu objeto tão derivada quanto o esboço que você desenhou. Ele é interno, não externo, mas ainda é um artefato criado pelo seu cérebro e significa o que significa em razão da posição particular que ocupa na economia em funcionamento das atividades internas de seu cérebro e do papel que exerce no controle das atividades complexas do seu corpo no mundo real que cerca você.
E como o seu cérebro chegou a atingir uma organização de tais estados espantosos com esses poderes também espantosos? Use o mesmo método: o cérebro é um artefato e obtém sua intencionalidade, seja qual for a intencionalidade que suas partes possuam, a partir do papel que desempenha na economia em funcionamento do sistema maior de que faz parte - ou, em outras palavras, das intenções de seu criador, a Mãe Natureza (também conhecida por processo de evolução por seleção natural).
Esta ideia de que a intencionalidade dos estados cerebrais é derivada da intencionalidade do sistema ou processo que os projetou é admitidamente estranha e perturbadora em princípio. Podemos ver o que ela acarreta considerando um contexto no qual ela está certamente correta: quando meditamos sobre a intencionalidade (derivada) dos estados "cerebrais" de algum robô manufaturado. Suponha que nos encontremos com um robô empurrando um carrinho de compras em um supermercado e que consulta periodicamente um pedaço de papel com símbolos escritos sobre ele. Uma linha é:
MILK@.5XGAL if P<2XQT\P else 2XMILK@QT
O que, se é que significa algo, significa esta bobagem? Perguntamos ao robô. Ele responde: "Isto é apenas para que me lembre de comprar meio galão de leite, mas apenas se o preço de meio galão for menor do que duas vezes o preço de um quarto de galão. Para mim, os quartos de galão são mais fáceis de carregar." Este artefato audível emitido pelo robô é principalmente apenas uma tradução para o inglês do que está escrito, mas, para o nosso benefício, ele tem seu significado derivado à disposição do público. E onde esses artefatos obtiveram suas intencionalidades derivadas? Do trabalho inteligente de engenharia dos projetistas do robô, sem dúvida, mas talvez muito indiretamente. Talvez esses engenheiros ti vessem formulado e instalado diretamente o princípio custo-consciência que originou este lembrete particular - uma possibilidade bastante tediosa, mas em que a intencionalidade derivada desses estados definitivamente nos levaria à própria intencionalidade dos projetistas humanos como criadores desses estados. Seria muito mais interessante se os projetistas tivessem feito algo mais profundo. É possível - exatamente na fronteira da capacidade tecnológica de hoje - que eles tenham projetado o robô para ser sensível de muitos modos ao custo e para "decidir", a partir de sua própria "experiência", que deve adotar algum princípio deste tipo. Neste caso, o princípio não seria rígido mas sim flexível, e no futuro próximo o robô poderia decidir a partir da sua "experiência" adicional que esta aplicação afinal de contas não era eficiente do ponto de vista do custo e ele compraria leite em quartos de galão convenientes não importa a que custo. Quanto de trabalho de projeto os projetistas do robô realizaram, e quanto delegaram ao próprio robô? Quanto mais elaborado o sistema de controles, com seus subsistemas de coleta de informação e de avaliação da informação acompanhantes, maior a contribuição do próprio robô, e portanto maior a sua reivindicação de "autoria" de seus próprios significados -significados que podem, com o decorrer do tempo, se tornar bastante inescrutáveis para os projetistas do robô.
O robô imaginado não existe ainda, mas algum dia poderá existir. Eu o apresento para mostrar que no interior de seu mundo de intencionalidade simplesmente derivada podemos chegar à própria distinção que inspirou primeiramente o contraste entre intencionalidade original e derivada. (Ti vemos de "consultar o autor" para descobrir o significado do artefato.) Isto é instrutivo, pois mostra que a intencionalidade derivada pode ser derivada da intencionalidade derivada. Também mostra como uma ilusão de intencionalidade intrínseca (intencionalidade metafisicamente original) poderia surgir. Pode parecer que o autor de uma artefato intrigante deva possuir intencionalidade intrínseca para ser a fonte da intencionalidade derivada do artefato, mas isto não é assim. Podemos ver que neste caso, pelo menos, não há trabalho deixado para a intencionalidade intrínseca fazer. O robô imaginado seria tão capaz quanto nós de delegar intencionalidade derivada a outros artefatos. Isto circula ao redor do mundo, fazendo avançar seus projetos e evitando danos, tendo como base a força de sua intencionalidade "simplesmente derivada", a intencionalidade projetada dentro dele - primeiro por seus projetistas e depois, à medida que ele adquire mais informação a respeito do mundo, por seus próprios processos de auto-reprojeto. Talvez estejamos na mesma categoria, vivendo nossas vidas pelas luzes da nossa intencionalidade "simplesmente" derivada. Que benefício (qualquer que seja) a intencionalidade intrínseca poderia nos ter fornecido que não pudesse também ter sido legado a nós como artefatos projetados pela evolução? Talvez estejamos em busca de uma quimera.
A abertura desta perspectiva para nós é uma coisa boa, pois a intencionalidade que nos permite falar e escrever e nos maravilhar com todas as maneiras de maravilhar-se é inegavelmente um produto complexo e tardio de um processo evolutivo que possui os tipos mais grosseiros de intencionalidade - menosprezados por Searle e outros como "simples intencionalidade do tipo como se" - como ancestrais e componentes contemporâneos. Somos descendentes de robôs, e compostos por robôs, e toda a intencionalidade que desfrutamos é derivada da intencionalidade mais fundamental desses bilhões de sistemas intencionais grosseiros. Eu não estou caminhando para trás; estou indo para a frente. Esta é a única direção promissora para viajar. E a jornada está situada à nossa frente.
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