Tiranos
Prefácio
O que levou Hitler, Stalin, Mussolini, Mao, Franco, Pol Pot e Pinochet a se tornarem figuras emblemáticas do século XX? O que podem ter em comum essas personalidades aparentemente tão díspares? O que pode haver de provocador, ou revelador, em conhecer a ascensão e queda de suas tiranias, seus métodos e formas de atuação que — para espanto de alguns, talvez — eu não hesitaria em dizer que são ainda atuais? O passado são passos de um caminho que ainda estamos trilhando, pois a derrota dessas tiranias não conduziu nem conduzirá automaticamente a novas formas de sociedade.
Estudos e trabalhos foram feitos analisando cada uma delas em separado. E, porém, surpreendente perceber que, sob princípios, ideologias ou mesmo resultados os mais diversos, ou até opostos, há entre elas denominadores comuns. E mais surpreendente ainda reconhecer, por essa visão de conjunto, que é ingênuo supor que o mito da "raça pura", a crença fanatizada na grandeza da nação, ou na "superioridade" de algum grupo, ou outros falaciosos valores invocados para tentar legitimá-las, ficaram no passado. Os princípios geradores dessas formas de atuação estão ainda aí, vivos e presentes, mesmo sob matizes diversos, mais refinados ou sofisticados: permanece a distorção do conhecimento científico em crença que se sublinha e aprofunda irracionalmente até o mito (se não mais da "raça", o do "progresso" ou da "modernidade"); permanecem as "técnicas de persuasão" que Goebbels se orgulhava de ter sabido sistematizar e manipular, distorcendo a informação em "versões" que viram do avesso a verdade dos fatos, recortando e fragmentando a realidade para interpretá-la à luz da ideologia; permanece a utilização da mídia impressa, falada e televisada, trabalhando das ideias ao "espetáculo" capaz de impressionar e mobilizar as "massas"; permanece o recurso ao irracional, captando e manipulando sentimentos, emoções, tendências latentes ou expressas em cada povo e em cada época; permanece a estigmatização ou satanização do inimigo (seja ele o "judeu", o "burguês", o "comunista" ou "subversivo", ou "terrorista"); permanece a tentativa de apresentar o próprio Poder como "o Bem" absoluto, e seu inimigo como "o Mal", que deve ser não apenas marginalizado, mas necessariamente aniquilado, sem atender a considerações já nem diríamos éticas, mas minimamente humanitárias. E estas são apenas algumas e mais evidentes formas capazes de nos levar à reflexão necessária.
Supô-las ultrapassadas é naturalizar cenas que estão diante de nossos olhos, hoje: como não considerar Guantánamo um campo de concentração se as (raras) imagens que dele temos nos mostram suas centenas de prisioneiros, sem culpa formada, com capuzes de plástico, ajoelhados ou mantidos de pé por dias ou longas horas sob o sol dos trópicos? Por que o horror e indignação que provocaram justamente as câmaras de gás não ressurgem diante das (pouco divulgadas) cenas de buldôzeres em Jenin e Nablus passando na calada da noite por cima de casas palestinas com pessoas dentro, e deixando um rastro de corpos despedaçados em meio a ruínas? Reconhecer a "tirania" sob todas as suas máscaras, reconhecer suas formas de intolerância, geradoras de uma agressão e violência que se pretende justificar com risíveis, cínicas ou revoltantes racionalizações, dá elementos para conhecer e entender as contradições do presente, deste confuso momento de transição em que muitos veem a decadência e queda de mais um império, e de um sistema que se globalizou concentrando um poderio econômico e militar inédito, e que outros tantos ainda reverenciam, deslumbrados e invejosos, com a ilusão de vir a partilhar desse poder. O estilo simples, quase jornalístico, de Ghirelli torna sua obra acessível a um público bastante amplo. Sua minuciosa pesquisa e a acumulação de dados e fatos dela resultantes vão servir à sua capacidade de dar vida a cenas as mais diversas, que podem ir da terrível e pungente visão do simples dia a dia de um campo de concentração nazista à risível cena da recepção de Hitler a Mussolini com uma teatralização que usava todos os símbolos e signos caros ao ditador italiano, ou à narração de episódios reais da ação dos jovens guardas vermelhos contra os intelectuais da "velha guarda", ou à revoltante atuação dos militares golpistas chilenos contra os aliados (ou supostos aliados) de Allende, e a outras tantas mais, que nos levam da emoção e da indignação à reflexão, cada vez mais necessária.
Necessária para vermos a que conduzem os unilateralismos de qualquer tipo — cada vez mais contraditórios em um mundo planetizado onde a convivência com a diversidade e a diferença é um aprendizado necessário.
Aprendizado que as atuais circunstâncias tornam mais do que nunca urgente e essencial.
Maria Helena Kühner
OceanofPDF.com