Tiranos

Antonio Ghirelli · Capítulo 4 de 10 · parte 1/3

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Tiranos

Hitler

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

O pintor frustrado

 

Em uma conversa com Phil queixei-me do azar de viver em um mundo

em que existia um Hitler, e ele me respondeu:

"Não sei. Pode ser que seja um privilégio ter de lutar contra o maior

filho da puta da história."

KATHERINE GRAHAM

 

O musical do horror

 

"Vocês não vieram para um sanatório, mas para um campo de concentração do qual não se sai, a não ser a caminho do forno crematório."

São estas as palavras de "boas-vindas" que o primeiro diretor do campo de concentração de Auschwitz, Carl Fritzsch, o tenente das SS, dirige, no dia 14 de junho de 1940, a um grupo de 728 deportados procedentes da prisão polonesa de Tarnow e que praticamente inauguram as novas instalações, coincidindo quase com o desfile dos regimentos da Wehrmacht em Paris, debaixo do Arco do Triunfo. No mesmo campo, antes mesmo que aí sejam alojados os judeus, acontece que um dos presos poloneses, um certo Baworowski, sai das filas e pede ao SS que vigia o grupo que o deixe ir ao banheiro. O nazista ordena-lhe que volte imediatamente para a fila. Mas depois de alguns instantes sente-se um grande fedor: o polonês não aguentara e tinha se sujado todo. Descoberto o culpado, o SS lhe ordena tirar as cuecas, enrolá-las e colocá-las entre os dentes. Não satisfeito ainda, ordena-lhe colocar-se de quatro e latir.

A brutalidade verbal e física dos "caveiras" faz parte de um protocolo cuidadosamente preestabelecido, cujo objetivo intermediário — antes do extermínio — é a privação da identidade, a liquidação do passado, a perda por parte do deportado de todo respeito por si mesmo e, portanto, de toda esperança. Uma vez esgotada a reserva de presos poloneses e de prisioneiros soviéticos, trabalhar-se-á paralelamente com os ciganos e essencialmente com os judeus. Será um crescendo de terror e de morte como nunca foi imaginado nem mesmo num daqueles filmes expressionistas da Alemanha de Weimar, que Hitler criticou como exemplo de arte degenerada. Tudo começa com o assalto que se inicia nas horas noturnas, ou ao amanhecer, em imprevisto rastreamento de um bairro da cidade, ou com a desocupação de um gueto inteiro, por obra de soldados com equipamento de guerra, com ferozes cachorros em coleiras e sem outras explicações que as roucas intimações de ordem frequentemente incompreensível. Continua com a viagem de trem, uma viagem à eternidade e com destino ao desconhecido, em vagões de mercadorias ou de gado, trancados e incrivelmente lotados com assustados bandos de famílias inteiras — jovens, anciãos, mulheres, crianças — privados de alimentos, água, serviços higiênicos, vistos por vezes com hostilidade pelos viajantes habituais à espera nas estações de tráfego ou que foram deixados apodrecendo durante noites inteiras sobre os trilhos mortos de cidades perdidas no silêncio. O choro sofrido dos menores pedindo a suas mães uma gota d'água mistura-se às rezas, aos urros, às reclamações do mísero rebanho humano que segue vigiado por poucos e escarnecedores SS, prontos a apontar a metralhadora na direção de quem procura aproximar-se das portas ou das janelinhas; e, quando finalmente chega, pesado e turvo, o sono mais penoso da vigília se enche de pesadelos e de sobressaltos.

Mas o suplício da viagem ainda é um momento de vida. A morte, ao invés, começa quando o comboio para, as portas dos vagões selados se abrem ruidosamente e os deportados, ainda sonolentos e assustados, descem para a plataforma violentamente iluminada pelos refletores, no ar cortado de ordens dadas em língua estrangeira, como "aqueles bárbaros latidos dos alemães quando dão uma ordem, que mais parecem soltar uma velha raiva secular".

Enquanto os deportados alinham as bagagens ao longo da linha, alguns do grupo das SS que assistem à cena se deslocam, destacam-se dos demais e vêm informar-se com aparente cortesia da idade e das condições de saúde de cada um dos recém-chegados. Com base nas respostas indicam duas direções diferentes: de um lado, os homens válidos; do outro, em direção ao desconhecido, velhos, mulheres e crianças (que não podem trabalhar "utilmente" para o Terceiro Reich). Enquanto isso, as mochilas e as bagagens desaparecem, recolhidas por outros deportados já enquadrados na disciplina e no uniforme "sujo e esfarrapado" do campo.

Os prisioneiros úteis à guerra, aproximadamente trinta de cada vez, são levados em caminhões que partem a toda velocidade. Junto com eles viaja uma sentinela alemã — uma em cada caminhão —, que habitualmente, e sempre com muita cortesia, recolhe o dinheiro e os relógios: os nazistas não são tão fanáticos a ponto de descuidarem das pequenas vantagens que podem tirar da situação. Uma vez chegados ao destino, os caminhões param diante de uma grande porta onde aparece um cartaz inspirado em uma espécie de humor negro: ARBEIT MACHT FREI — o trabalho torna os homens livres. Mortos de fome, de sede e de frio, os novos escravos são mantidos durante horas em um salão grande e vazio, até o momento da chegada de um SS que escolhe um intérprete entre os prisioneiros e explica os procedimentos: eles devem colocar-se em fila de cinco, a uma distância de dois metros um do outro, e a seguir despir-se completamente, separando as roupas de lã do resto, tirando os sapatos e amontoando-os num canto; mas, acrescenta ele, tendo cuidado para que não sejam roubados — uma estranha recomendação, visto que, minutos depois, entra um velho deportado e varre tudo embora. Ao ficarem assim, nus da cabeça aos pés e sob o vento gélido que entra por uma porta escancarada, os prisioneiros cobrem o ventre com os braços, procurando proteger-se, um atrás do outro, e não podem deixar de se sentir submersos em terror e, ao mesmo tempo, no ridículo.

Mal têm tempo de perguntar-se angustiadamente quando terminará tal tortura, e eis que, de repente, irrompe na sala um grupinho de internos, mais robustos que os outros, e se lança silenciosamente sobre os deportados com tesouras e navalhas, rapando a zero os cabelos e qualquer outro pelo do corpo e passando nas partes rapadas escovas banhadas em desinfetante. Assim subjugados, nus como vermes e tosados como ovelhas infectadas, os infelizes se encontram logo a seguir com os pés na água gelada, em outro cômodo, uma sala de duchas, onde faz mais frio ainda. Enquanto esperam, começam então a comentar, sussurrando, a desgraça que os atingira, quando chega mais um soldado alemão, um suboficial, que se faz traduzir pelo intérprete: "Eu disse que vocês têm de ficar em silêncio, porque aqui não é uma escola para rabinos" — outra mostra de um humor negro que escapa aos interessados, neste momento atingidos de repente por um jato de ducha, ora mais gélido que a lama em que estão imersos, ora fervendo de modo intolerável, jamais na temperatura adequada.

Uma vez desinfetado o rebanho, "a mutilação simbólica" se completa com a distribuição do vestuário habitual: o uniforme listrado azul-acinzentado, composto de calças e um camisão, tamancos de madeira no lugar dos sapatos e, em raros casos, também de meias. Com o passar do tempo, tendo já sumido de circulação chapéu e casaco, o preso percebe que não pôde sequer escolher o tamanho do uniforme e a medida dos tamancos, porque sua silhueta deve ser mesmo desfigurada, deve tornar-se parecida com a de todos os outros, a ponto de, quando no campo começarem a chegar também as mulheres em condições de trabalhar para o Reich, à primeira vista tornar-se impossível distingui-las dos homens. Aliás, é exatamente isto o que se propõe o artífice do Holocausto, o Führer: anular a identidade de todo judeu e de todo o povo circuncidado.

Completa-se a operação com a impressão do número de matrícula, marcado a fogo e acompanhado de insultos e pancadas, sobre o braço que, ao levar sua visível marca de deportado, o priva definitivamente de seu nome, ou seja, de sua história pessoal. A rudeza da acolhida, cada vez mais humilhante, o convencerá de que para ele a única relação possível para com os super-homens arianos é a submissão.

Os pensamentos que atormentam os deportados nas primeiras horas do campo se dirigem principalmente às mulheres, às crianças e aos velhos dos quais foram brutalmente separados. Marchando em direção ao barraco da humilhação, já haviam vislumbrado o campo feminino rodeado de arame farpado e têm esperança de, através das telas, poder ver as mulheres, comunicar-se com elas, talvez até encontrar a própria esposa ou a mãe. Isto não acontecerá quase nunca. O pensamento na família é dominante, angustiante, mas quem conseguiu trocar algumas palavras com os internos mais velhos recebeu notícias assustadoras: "Já estão no céu" ou "Já se transformaram em fumaça." É com esta tremenda certeza no destino que os espera que os recém-chegados, arrastando os pés no terreno lamacento, exauridos com as fadigas do dia e aterrorizados pelas perspectivas dos dias futuros, alcançam o que Primo Levi definiu como suas "tumbas", as barracas. O primeiro cumprimento dos guardiões é uma cacetada na cabeça para os mais lentos ou hesitantes; o segundo é a informação que se apressa a fornecer o kapo, geralmente um criminoso alemão, ou um deportado judeu que aceitou virar instrumento de tortura para salvar a vida. É isto que representam as primeiras horas no campo: apenas um "aperitivo" da férrea disciplina que reina naquilo que é — que eles se convençam disto de uma vez por todas — um campo de morte.

Após explicar-lhes sua condição "com uma linguagem de pedra", os guardiões designam aos recém-chegados o lugar de dormir, uma espécie de cubículo em que têm de se alojar cinco ou seis deportados, deslizando para dentro e, por vezes, encontrando-se com os outros que já chegaram. Estes já sabem o destino das mulheres, das crianças e dos velhos, assassinados imediatamente depois da separação, e oferecem um único e terrível conselho: renunciar a fazer perguntas, esquecendo tudo o que não diz respeito à sua própria sobrevivência individual, porque somente assim se pode esperar resistir de alguma forma. Depois o som de um sino adverte que lá deve reinar o silêncio: começa o descanso, e para os recém-chegados termina o primeiro dia no campo. Mas, apesar do cansaço, precisarão de horas antes de cair no sono.

Porém, pode também acontecer que, no momento em que os deportados tentam dormir, entrem de repente no alojamento os Stubendienste, guardiões que são detentos, como os outros, mas "bem musculosos" e munidos de grossos cassetetes, para cumprir uma tarefa de natureza pedagógica: enquanto batem com selvageria à direita e à esquerda, deixando as vítimas atônitas, machucadas, ou feridas mesmo, ameaçam-nas rudemente: "Lembrem-se de que devem se transformar em autômatos e mover-se segundo a nossa vontade. Nem mesmo um passo sem a nossa permissão, do contrário vocês irão se ver com a nossa terceira mão, este cacete duro e pesado, que os ajudará a dobrar-se e a rebaixar-se."

Palavras e rostos truculentos, golpes cruéis que, apesar de tudo, não abatem tanto os deportados quanto a obrigação de fazer as suas necessidades, apressada e raivosamente, ao lado dos leitos — outro pequeno passo no sentido da degradação, do desprezo de si mesmos. Os recém-chegados vão aprender imediatamente que a este mesmo fim servem também os insultos que os SS acompanham, em geral, com violências e pancadas: "Vocês não são homens, são um monte de lixo! Sendo, como são, inimigos do Reich, não temos para com vocês a menor compaixão, e é com verdadeiro prazer que os colocaremos para queimar nos fornos crematórios. Esqueçam suas mulheres, seus filhos, suas famílias: vocês aqui morrerão como cães!"

Aliás, no campo a vida corre à base de insultos, ameaças, ordens gritadas com extraordinária e injustificável violência, e quem não as compreende imediatamente é remunerado com chutes, socos e tapas do SS ou do kapo de plantão. Os doentes que não respondem imediatamente à chamada são golpeados do mesmo jeito e com a mesma volúpia, mesmo que o despertar seja às quatro da manhã e que tenham apenas 45 minutos para realizar rapidamente uma série de operações, como arrumar o estrado, lavar-se superficialmente, beber a água suja e rala apresentada como café, limpar o alojamento com os companheiros, ir ao banheiro e alcançar, ofegante, o pátio, onde é feita a chamada.

É um rito que se transforma frequentemente em um suplício, ou porque os SS erraram a conta e têm de refazê-la, ou porque durante a noite algum dos deportados morreu ou foi levado com urgência para a enfermaria, ou, enfim, porque os próprios SS chegaram atrasados. Os prisioneiros esperam em pé, cegados pelos refletores, obrigados a ficar durante horas de continência, não importa se faça frio ou calor, caia neve ou granizo; e uma vez esgotado o cansativo procedimento da chamada, são designados para as equipes de trabalho e forçados a alcançar, sempre correndo, os pontos de reunião dos quais partirão, acompanhados pelas músicas da orquestra do campo, para a destinação cotidiana. A ideia da orquestra é digna da tradição cultural alemã e, ao mesmo tempo, da peculiar psicologia nacional-socialista: assim como o trabalho forçado "torna os homens livres", as notas agudas ou românticas da orquestra, formada por outros presos "bem alimentados", sublimam o martírio dos deportados ou sua marcha para a câmara de gás, numa espécie de musical do horror.

De qualquer forma, além da obsessão do concerto, tanto a marcha de ida para o local do trabalho como a de volta são cadenciadas por uma frenética velocidade. Quem perde o ritmo ou simplesmente erra o motivo da canção com que deve acompanhar a marcha costuma ser alvejado por socos e chutes por parte dos SS, que, quando percebem que algum deportado cambaleia ou que não consegue tirar os tamancos da lama, chutam-no, deixando-o deitado no lamaçal, onde são frequentemente abandonadas dezenas de prisioneiros, aniquilados pelo cansaço e pelo frio. Mais tarde passará uma equipe especial, um Sonderkommando, para recolher os corpos e jogá-los na pilha, junto com os cadáveres do dia, embora algum deles casualmente ainda respire. Por outro lado, vê-se em apuros quem se distancia do grupo em marcha perto de uma das torres de guarda, porque pode acontecer que a sentinela grite para o preso afastar-se ou que o mate a tiros de Maschinenpistole, entre as risadas de seus companheiros — um tiro ao alvo que pode ser contado aos superiores como anulação de uma tentativa de fuga, conseguindo assim, além de um elogio solene, um bom número de dias de licença.

Os deportados habitualmente trabalham onze horas diárias, das seis da manhã às cinco da tarde, e têm pouco mais de meia hora de intervalo para as refeições, sob a vigilância dos "triângulos verdes", que são os encarregados do controle, e cuja ferocidade, como já foi dito, é dez vezes maior que a dos SS.

São criminosos comuns, de nacionalidade alemã, que o Führer mandou libertar para integrar o pessoal de Himmler, e que são assim chamados porque trazem um triângulo desta cor, costurado no paletó, ao lado do número da matrícula.

Já os presos políticos (também alemães) usam um triângulo vermelho, e os judeus são identificados pela estrela de davi amarela. Embora sejam todos Haftlinge (prisioneiros), somente os políticos ou os judeus que aceitam, de forma abjeta, colaborar com os algozes gozam dos privilégios reservados aos "verdes", em troca de suas crueldades. Naturalmente se trabalha em qualquer circunstância, chova ou faça sol, com nevoeiro ou na escuridão, que poderiam favorecer as tentativas de fuga. Trabalha-se também um domingo em cada dois, mas no domingo chamado "festivo" os presos têm por tarefa a manutenção do campo.

Não existe descanso, e a fadiga é imensa. Primo Levi conta ter sido levado com seus companheiros, da primeira vez, à beira de um canteiro onde eram descarregados tubos de ferros, e que, depois de uma pequena luta com os outros para içar com os mais leves, teve de carregar uma barra de ferro torta, que pesava aproximadamente 15 quilos. Em outra ocasião, teve de descarregar de um vagão ferroviário, em equipe, um enorme cilindro de ferro-gusa que pesava várias toneladas, e para empurrá-lo até a fábrica tiveram de abrir um corredor, puxando na lama barras de oitenta quilos cada uma: a carga, conta Levi, "me desloca o osso do ombro, e depois da primeira viagem estou surdo e quase cego pelo esforço, e faria qualquer baixaria para não carregar outra". Como a barra está empapada de neve e lama, e a cada passo bate contra a orelha de Levi, este "morde profundamente" os lábios, procurando "uma pequena dor diferente" que sirva para reunir suas últimas reservas de energia. Os kapo também sabem disto e algumas vezes batem nos deportados não por pura "bestialidade", mas para incentivá-los, acompanhando os golpes "com um encorajamento, como fazem os carroceiros com os cavalos mais teimosos". A única via de salvação momentânea consiste em pedir permissão para ir ao banheiro, onde se vai escoltado por um Scheissbegleiter, isto é, um "acompanhante de banheiro" (os burocratas alemães inventaram um nome para cada função), mas, quando se volta a trabalhar, as melhores barras já foram todas transportadas e não restam mais aquelas "com pontas agudas, pesadas de lama e de gelo", além das chapas de metal com pregos em cima para adaptar as barras aos trilhos.

O único parêntese de relativo sossego coincide, ao meio-dia, com a refeição quente: as sirenes chamam os deportados para as barracas, com as marmitas estendidas na direção do caldeirão contendo uma mistura que, apesar de tudo, ninguém quer receber primeiro, porque na superfície flutua só a lavagem — sabendo-se já que o kapo não afunda nunca a concha e guarda o melhor para si. Esvazia-se o caldeirão em torno do fogão, fuma-se um cigarro, aproveita-se aquele minuto para gozar um fugaz momento de beatitude, até que a voz do kapo intima todos a sair: "Alies heraus!" Passada a agradável sensação de calor, o estômago continua vazio, pois no campo, na melhor das hipóteses, são recebidas, no máximo, 1.300 a 1.600 calorias por dia, embora, em teoria, o regulamento preveja 1.700 a 2.150, que já mal bastariam para sobreviver a uma fadiga que parece nunca terminar.

No fim do dia de trabalho, os deportados têm a sensação de reviver às avessas o filme rodado pela manhã. Tornam a colocar-se em fila na máxima ordem, são contados e recomeça a marcha de retorno, com os companheiros mortos durante o dia jogados nas carretas ou levados às costas pelos próprios presos, os quais, embora exaustos, atormentados pela sede, com dolorosas chagas nos pés, são obrigados frequentemente a fazer isto correndo. Ao chegarem ao portão do campo, são revistados da cabeça aos pés, por temor de que nos contatos externos tenham conseguido cigarros ou dinheiro; em seguida, põem-se ao largo para serem submetidos a nova chamada, sempre acompanhada pelas notas marciais da orquestra. Frequentemente se trata de um rito macabro, porque os mortos são mantidos em pé por "mãos invisíveis", para fazer com que os SS, ignorando-os, os insiram também no cálculo das rações alimentícias a serem distribuídas no dia seguinte.

Por isso, a chamada pode prolongar-se por muitas horas ou até a manhã seguinte, quando se verificam graves infrações ou, pior, tentativas de fuga. É tudo tempo roubado do jantar e do sono: é preciso esperar em pé, no frio crescente da noite, até que os SS se espalhem pelo campo procurando os deportados desaparecidos. De qualquer modo, cada fuga é punida segundo a lógica da represália, com a condenação de dez ou mais companheiros do barraco do desaparecido a uma morte atroz, à reclusão em uma cela cavada no subterrâneo do campo, medindo um metro quadrado, onde se amontoam até quatro deportados por vez, obrigados a ficar em pé na escuridão absoluta, sem água e alimento. Outras vezes passarão somente a noite ali para que durante o dia possam trabalhar com os outros: nos casos mais graves serão deixados ali por uma ou duas semanas, até morrerem. A fantasia dos colaboradores de Hitler não tem limites na invenção de todos os tipos possíveis de castigo: o chicoteamento público, por exemplo, durante o qual o deportado tem de contar, em alemão correto, o número de chicotadas; ou o "pau" ao qual se suspende o preso, com as mãos atadas atrás dos ombros, por um período ao arbítrio do vigia; ou, ainda pior, o envio para a famigerada "companhia penal". Os prisioneiros submetidos à fustigação com chicotadas ou cacetadas, logo depois de terem recebido a pena, são recolhidos por um certo período no chamado "bloco da morte", sem assistência médica, de modo que as feridas acabam por infeccionar gravemente, levando à morte. São mais leves outros tipos de punição, como o trabalho obrigatório, apesar do mortal cansaço, durante a noite ou nos raríssimos dias de descanso; ou a proibição de escrever ou de responder a correspondência; ou de retirar os pacotes enviados pela família ou pela Cruz Vermelha; ou de falar com os deportados de outras barracas ou com as mulheres que estão além do arame farpado. Podem ser castigados por um nada: por não terem seguido com o próprio grupo para o local do trabalho, não importa por que razões; por terem se afastado do grupo ou se escondido para fugir do cansaço; por terem trocado alimentos, roupas ou dinheiro com os operários civis das fábricas em que prestam serviço ao Terceiro Reich; por terem comido ou fumado em circunstâncias proibidas. Faz parte das normas a desproporção entre a importância da infração e a do castigo.

Terminado o rito da chamada e da segunda chamada, ao final do dia voltam aos barracos para fazer fila diante do caldeirão do kapo, consumir o jantar e fazer alguma pequena tarefa pessoal antes que a sirene das 21 horas ordene o silêncio. É uma ordem que não admite exceções, e sair da barraca depois do toque da sirene, mesmo que para um rápido passeio à sombra da torre de vigilância, pode custar a vida. O pedantismo alemão não se dá ao trabalho de registrar todas as vítimas, somente algumas são relacionadas à condenação e execução, enquanto as assassinadas ocasionalmente pelos vigilantes ou pelos SS não deixam sequer sinal, ao contrário do que sucede com os deportados condenados explicitamente ao fuzilamento, como reféns de uma represália, às vezes fora do campo. Desnuda-se o indivíduo, transcreve-se seu número de matrícula, ele é colocado diante do paredão da morte e assassinado com um golpe na nuca; depois disto, arrasta-se o cadáver ensanguentado pelo campo, para assinalar sempre o valor pedagógico da execução.

Um ex-prisioneiro do campo, que sobreviveu milagrosamente a Auschwitz, deixou a descrição de uma cena que aconteceu diante dos seus olhos: "Um dia, vimos Palitzsch junto a um homem e a uma mulher que levava pela mão uma criança menor, enquanto outras duas, mais velhas, de quatro e sete anos, caminhavam ao seu lado. O grupo se dirigia para o bloco 11. Não esquecerei nunca a cena que se desenrolou diante de nossos olhos. A mulher e o homem não opuseram resistência quando Palitzsch os colocou diante do muro da morte. Tudo aconteceu no silêncio mais absoluto. O homem levava pela mão o menino, à sua esquerda, e junto com a mulher apertavam a mão de outra criança, que estava no meio deles. A mãe abraçava o menorzinho.

Primeiro Palitzsch atirou na cabeça do recém-nascido: o tiro na nuca fez explodir-lhe o crânio, provocando um enorme derramamento de sangue. O pequeno debateu-se como um peixe quando a mãe o apertou ainda mais forte.

Depois Palitzsch disparou contra a criança que estava no meio. O homem e a mulher continuaram imóveis, como estátuas de pedra. Palitzsch lutou com a criança mais velha, que não queria ser morta, jogou-a no chão e, saltando sobre suas costas, disparou em sua nuca. No final, fuzilou a mulher e o homem."

Oferecem uma contribuição essencial ao enfoque científico do Holocausto os médicos nazistas que utilizam os deportados judeus dos dois sexos para suas pesquisas e suas experiências, com particular interesse no que se refere aos tumores ou à esterilização — tema fundamental na ideologia dos camisas-marrons. Em muitos casos a febre científica acelera a morte das cobaias humanas, mas isto está dentro das normas do campo. A mesma coisa, e em uma escala ainda mais ampla, acontece com os casos de hospitalização nas enfermarias do campo, que acolhem um número sempre crescente de deportados doentes, em consequência das condições de vida e de trabalho a que estão submetidos, ou dizimados por patologias devastadoras, como a tuberculose, o tifo petequial e uma forma aguda de diarreia que obriga os doentes a defecar até cinquenta vezes ao dia. Reduzidos a esqueletos e frequentemente "confundidos com os mortos", os hospitalizados nas enfermarias jazem inertes até a morte, entre excrementos e rios de urina, em uma atmosfera irrespirável e nauseabunda.

Entre os deportados os médicos judeus representam uma das poucas categorias privilegiadas, simplesmente porque os dirigentes do campo precisam deles, assim como precisam dos kapo, dos vigilantes, dos músicos, dos alfaiates, dos sapateiros, dos cozinheiros. Diferente é o caso de algum rapaz atraente ou de alguma jovem mulher mais disponível, que pode tentar sobreviver caso se resigne a satisfazer os gostos das autoridades do campo, os chamados Prominenten, que entre os arianos incluem até os garis e os guardiões das latrinas. Proeminentes, mesmo que só temporariamente, e com a condição de aceitarem um papel abjeto, são os componentes das chamadas Sonderkommando, as equipes especializadas, judeus aos quais — como escreveu Primo Levi — se oferece de forma completamente provisória "uma boa probabilidade de sobreviver, exigindo-lhes em troca a traição da natural solidariedade a seus companheiros". São escolhidos no momento da chegada no campo, entre os deportados mais jovens e robustos. Enganados no primeiro momento quanto a seu verdadeiro destino, acabam por aceitá-lo na esperança de sobreviver — salvo uma pequena minoria que tentará a rebelião individual ou a de grupo, encontrando, naturalmente, a morte imediata. Os outros com o tempo se dão conta de ter apenas adiado o último encontro, visto que logo serão substituídos por novos "fornalheiros". Porém, graças às suas anotações e a seus testemunhos, escondidos em cantis ou em recipientes de vidro debaixo dos escombros a que foram reduzidos os crematórios pelas SS pouco antes da chegada dos soldados aliados, pôde-se reconstruir a fase final do extermínio.

À chegada dos comboios, depois da seleção feita pelos SS de serviço, os deportados mais frágeis, as mulheres, as crianças, os velhos e os adultos já extenuados pela viagem são encaminhados para a morte. Quando a sala das duchas fica longe, são utilizados os caminhões. Quando fica relativamente perto, os desgraçados devem alcançá-la a pé. Entre as mulheres grávidas, algumas em final da gestação, muitas parirão enquanto agonizam.

Frequentemente as câmaras de gás estão ocupadas, e a fila do caminhão que chega tem de esperar sua vez nas redondezas, por vezes sem imaginar sequer que "as nuvens de fumaça que cobrem o sol, as labaredas enormes atrás daquelas cortinas de fumaça, o fedor nojento que impregna a atmosfera procedem da cremação dos milhares de seres humanos" que os precederam.

Terminada a espera, os condenados da segunda leva são encaminhados para os vestiários subterrâneos, a pretexto de serem submetidos a um banho e à desinfetação. Assim que ficam nus e são molhados, têm de percorrer o último trecho do caminho: acabam na sala das duchas, enquanto atrás deles se fecha hermeticamente a porta do aposento, fora do qual ficam os SS e o médico que os acompanha. Mais um instante e através dos furos dos chuveiros começa a sair o gás venenoso, o Zyklon B, cujo efeito mortal se verifica em torno de poucos minutos — o quanto basta para que as mães, os velhos e, de modo obscuro, também as crianças percebam o que está acontecendo.

O médico das SS que acompanha a operação pelo olho mágico da porta constata a morte de todos os prisioneiros e em seguida ordena que funcione o aparelho de ventilação do local. Meia hora mais tarde, a porta da sala se abre e os componentes do Sonderkommando começam a desempenhar suas funções: arrastam para fora da sala os cadáveres dos compatriotas asfixiados pelo gás e tiram deles joias e dentes de ouro para entregá-los, juntamente com os cabelos das mulheres, às SS; em seguida transportam os pobres corpos para cremá-los nos fornos. Se o cadáver não ficar completamente incinerado, têm ordem de estilhaçá-lo com um pequeno martelo de madeira, para espalhar os restos, como se faz com todos os outros, usando-os como fertilizantes nas terras vizinhas ao campo.

Ao idealizarem este procedimento e confiarem boa parte de sua execução a seus esquadrões especiais, os nazistas conseguiram um duplo objetivo: o de dar uma solução final à questão judaica e de demonstrar, ao mesmo tempo, que "esta sub-raça, estes sub-homens se prestam a toda e qualquer humilhação, até à destruição de si mesmos". Ao liquidarem, em seu devido tempo e lugar, os "filhos de Caim" do Sonderkommando, eles pensaram ter se desvencilhado de testemunhas incômodas, sem suspeitar que eles conseguiriam, apesar de tudo, registrar a terrível memória daquilo que tinham visto, e da infâmia de que foram obrigados a se tornar cúmplices.

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A sua batalha

 

O autor do Holocausto, Adolf Hitler, nasceu a 20 de abril de 1889, em um vilarejo austríaco nos arredores de Linz, perto da fronteira com a Bavária, isto é, daquele mundo alemão que iria exercer sobre ele uma fatal atração.

Alois, o pai, é filho natural de uma camponesa seduzida por um senhor, talvez de origem judaica, que só viria a reconhecer o fruto desta relação com avançada idade. Modesto funcionário da Alfândega do Império da Áustria, Alois queria encaminhar o rapaz para a mesma carreira, mas este, sendo, ao contrário, extrovertido e visionário, julga possuir um talento artístico, de pintor ou mesmo de arquiteto (daí, muitas décadas mais tarde, sua preferência por Albert Speer). Embora sendo muito ligado à sua mãe, Adolf não aceita a orientação de Alois e, por fim, abandona a escola técnica e tenta, sem sucesso, a admissão na Academia de Belas-Artes — uma ferida que não se fechará nunca, embora, paradoxalmente, a frustração pelo fracasso se transforme em um complexo de superioridade, que o induz a rejeitar qualquer sistematização prática e a fechar-se em desdenhoso isolamento, quer por não comungar das ideias comuns a seus contemporâneos, quer por ser tímido e evitar as garotas.

Na verdade, parece ter havido uma moça, uma jovem bela e rica, por quem Adolf ter-se-ia apaixonado, sem ser correspondido, não se sabe se antes ou depois de sua mudança para Linz com sua mãe, já viúva, e com Paula, sua irmã. Seja como for, nesta cidade tem o primeiro encontro fatal da sua vida, no Teatro da Ópera, onde escuta Wagner pela primeira vez. Mas em 1908, tendo ficado órfão também da mãe, quando estava com pouco menos de vinte anos, ele se transfere para Viena. Com a moral abalada e uma notável confusão de ideias que só com o tempo se tornarão menos vagas, depois de Wagner, o jovem começa a aproximar-se de outro gênio alemão, por cujas ideias se apaixona, embora o lendo talvez superficialmente: Friedrich Nietzsche. De qualquer forma, o período que transcorre na capital o marca profundamente.

Vive este período en maudit3 vagabundeando de um dormitório a outro e ganhando o pão de cada dia de maneira improvisada: pinta cartões com vistas da cidade e os vende por poucos tostões nas ruas ou nos botequins, refúgio noturno em que conhece amigos ocasionais, tão transviados quanto ele, com quem trava ferozes discussões políticas. É nestas ocasiões que manifesta os primeiros sinais de uma singular oratória, ora fascinante, ora deprimente, caracterizada pela repetição martelante e obsessiva de uns poucos conceitos e impulsos interrompidos, gestos improvisados e repentinos de cólera que deixam os ouvintes atônitos. Mais tarde aperfeiçoará seu estilo com um cálculo mais premeditado dos efeitos; porém, já desde este período, em Viena, revela uma curiosa capacidade de hipnotizar os ouvintes com afirmações terminantes e irracionais, das quais, por outro lado, já emergem opiniões bastante reacionárias.

 

*"Como um marginal", em francês no original. (N. T.)

 

São anos nos quais toma corpo o seu antissemitismo, de que vai ter provas um judeu-húngaro, vendedor de roupas usadas, um tal de Neumann, que se hospeda com ele por um algum tempo na Casa dos Solteiros. Este lhe cede, ou lhe vende a preço de amigo, uma capa usada que mal cobre os joelhos do jovem de Linz — um gesto cortês que não impede que Adolf lhe vote uma crescente antipatia, devida exclusivamente a sua origem judaica. Nesta época ele coloca os judeus no mesmo plano dos socialdemocratas e dos padres, a quem detesta, tal como detesta os Habsburgo, considerando-os responsáveis pela estrutura multirracial do Império, que é, a seu ver, um ultraje à nação germânica. Sua "visão estável e pessoal do mundo", a que os alemães chamam de Weltanschauung, já está se delineando nas atitudes de "mentir com convicção e dissimular com candura", com a mais absoluta falta de escrúpulos, um total desprezo às massas e, sobretudo, aos dirigentes políticos e sindicais que, segundo ele, as utilizam como matéria informe a ser modelada.

A seu ver, é gente indigna de pertencer a um grande povo como o alemão, e nesta ideia da necessidade de excluir alguns grupos da comunidade nacional em consequência da ideologia ou amoralidade de que são portadores, percebe-se já um projeto de discriminação que se juntará ao antissemitismo quando o jovem austríaco vier a se convencer de que os "funestos" ensinamentos marxistas dados ao proletariado não são mais que um fruto do "caráter específico" de seus profetas judeus.

Em Hitler as ideias nascem sempre de motivações instintivas, de impulsos de seu humor ou mau humor. Em sua juventude não existiu apenas o comerciante de roupas usadas Neumann. Em Mein Kampf, o famigerado livro-manifesto que escreverá depois da Primeira Guerra Mundial, ele fala de outro encontro determinante: o do dia em que viu parar diante de si, em uma rua da velha Viena, "um indivíduo com cabelos compridos e cachos soltos sobre as têmporas, e usando um longo casacão", e entendeu imediatamente que não poderia ser "um verdadeiro alemão". Vai convencer-se definitivamente disto ao deparar com um daqueles inúmeros libelos antissemitas que naqueles anos circulam nos ambientes conservadores da capital, no qual vê confirmada a visão "de pesadelo" que dele se apossara diante daquele pobre homem de cabelos despenteados: centenas de milhares de saudáveis garotas germânicas seduzidas e estupradas por "repulsivos judeus bastardos de pernas tortas" — uma fantasia mórbida sobre cujo significado Adolf poderia ter consultado um certo Doutor Freud, que qualquer um poderia consultar em Viena naquela época.

Pode ser que a alergia à tolerância e ao cosmopolitismo característicos do Império Habsburgo tenha induzido, em 1913, o filho de Alois Hitler a emigrar para a Bavária, onde no ano seguinte é surpreendido pela deflagração da Primeira Guerra Mundial. O pintor frustrado é um bom soldado: voluntário em um regimento bavarense comporta-se corajosamente, é condecorado e por duas vezes ferido, a segunda vez, em 1918, quando fica quase cego em Ypres, na Bélgica, devido aos gases asfixiantes.

A participação na guerra foi feita com total dedicação de sua parte, reforçando sua fé na grande Alemanha. Por ocasião de uma primeira internação, em 1916, e durante a licença que se seguiu, em Mônaco, já advertira o contraste entre o sacrifício dos soldados na frente de batalha e a distanciada imoralidade dos burgueses, que enriquecem com o mercado negro ou se abandonam aos prazeres da vida civil. Mais tarde confessará que, se já estivesse no poder, teria adotado "drásticas medidas militares" para acabar com aquele desgostante espetáculo, suprimindo os partidos e fechando o Parlamento.

Durante o segundo período passado no hospital em Pasewalk, na Pomerânia, chega a ele a notícia inesperada do armistício e, ignorando que fora pedido pelo próprio comando supremo da Reichswehr, atribui a iniciativa a um suposto complô de socialdemocratas e republicanos, os "criminosos de novembro", que teriam apunhalado pelas costas os gloriosos combatentes para assumir o poder. É uma mentira "descarada e fraudulenta", mas que vai ser acreditada pela maioria dos soldados que voltavam da guerra, cuja situação é agravada pela falta de trabalho — uma das razões que induzem Hitler a dedicar-se à atividade política. Tendo voltado da Pomerânia a Mônaco, na Bavária, é testemunha dos tumultuados acontecimentos que se seguem à Revolução de 1918, intensificados, no ano seguinte, com a proclamação de uma República "soviética" que, depois de um mês, divisões do Exército e voluntários das corporações francas viriam a derrubar. Por trás do movimento dos soldados que retornam está uma direita conservadora representada em sua maior parte pela aristocracia latifundiária, pela cúpula da casta militar e pelos grandes burocratas, que temem uma eventual hegemonia da burguesia intelectual e empresarial talvez com a mesma intensidade com que temem as organizações do proletariado marxista. Esta dupla preocupação a induz a superar o desprezo elitista que, apesar de tudo, sente pela brutalidade e a vulgaridade da corja nacional-socialista.

Durante estes anos a Bavária monarquista é o epicentro da reação: Hitler nela se movimenta como um peixe na água. Entrando em contato com muitos agitadores que, em seu devido tempo, figurarão no partido e no governo nazista, torna-se respeitado pelo fanatismo de suas ideias, a ponto de lhe confiarem a tarefa de levar aos voluntários dos corpos francos a boa notícia do antissocialismo e do antissemitismo, daí vindo em seguida a ser inserido entre os dirigentes do partido "dos trabalhadores alemães" — um nome que não é escolhido por acaso, porque os nacional-socialistas olham com admiração tanto para a capacidade do centro (Zentrum) católico de conseguir adeptos entre a classe média quanto para a tendência de socialistas e comunistas à organização da classe operária. Na noite de 12 de setembro de 1919, o futuro chanceler do Terceiro Reich participa de uma reunião de companheiros em uma cervejaria na periferia de Mônaco e se dá facilmente conta de que, na prática, o movimento está partindo do zero, ou quase — uma situação ideal para uma personagem como ele, enérgico, ambicioso e ilimitadamente confiante em sua personalidade. Aceita, por isso, ser o sétimo membro do Comitê-Diretor e a partir daquela noite mergulha em uma aventura existencial que sacudirá a Europa a ferro e fogo.

Os ex-combatentes das brigadas de assalto, as SA de Ernst Rohm, estão dispostos a qualquer tipo de violência, enquanto a propaganda do partido acusa incessantemente o governo de "traidor" e de "omisso" nos comícios em que o futuro Führer faz suas primeiras provas, juntamente com seus novos amigos: Alfred Rosenberg, um refugiado báltico de origem alemã, que é considerado o teórico do racismo; Hermann Goering, já piloto da Luftwaffe e boss da direita prussiana; e Rudolf Hess, que será o braço direito de Hitler até a rocambolesca aventura na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial.

Todavia, em primeiro de novembro de 1923, a empreitada com a qual os nacional-socialistas começam, tentando tomar de assalto o governo regional da Bavária, aborta miseravelmente. Os chefes vão todos parar na cadeia, inclusive Adolf, de 34 anos, que acaba, contudo, transformando o processo em uma provocativa arenga, da qual se serve para renovar as acusações aos "traidores" de 1918 e para proclamar-se um "revolucionário contra a revolução".

Solto depois de pouco mais de um ano, leva consigo o Mein Kampf, um pesado libelo ditado a Hess, no qual descreve não só os princípios em que se inspira sua "batalha", como o projeto concreto de política interna, externa e militar que se propõe realizar. No livro, princípios e projeto são tão explícitos que, durante muito tempo, nenhum líder democrata, na Alemanha e no estrangeiro, os leva a sério, até mesmo porque parecem expressões de um pensamento extravagante e inconsistente, sintetizados em um binômio tirado da mais folclórica bagagem da cultura germânica: o sangue e a terra. O sangue significa a afirmação da pureza e da superioridade do povo alemão sobre todas as outras etnias e, portanto, o racismo; a terra alude ao espaço vital que cabe a este povo, cuja expansão deve realizar-se para o Leste. A ideia central do livro é a de que os judeus estavam organizando um complô em escala mundial, utilizando tanto os recursos financeiros do capitalismo quanto as ideias subversivas do bolchevismo para revolucionar e destruir os povos arianos.

"Prolixo e desordenado, porém demagogicamente eficaz em algumas páginas", o Mein Kampf logo se torna o evangelho do Partido Nazista, reconstituído em fevereiro de 1925 pelo chefe austríaco que, depois da lição do putsch,4 adia para tempos melhores a conquista violenta do poder, mesmo que isto o obrigue a ter de enfrentar as impaciências de seus piores opositores externos, extremistas com o Major Rohm ou os irmãos Strasser, que se mostram contrários à sua linha legalista, especialmente depois do fracasso eleitoral que se dá em 1928.

 

4 O putsch (sublevação armada) — Alusão aqui ao famoso

episódio de 8 de novembro de 1923, quando Hitler entra de assalto em uma cervejaria anunciando a queda — mentirosa — dos governos da Baviera e do Reich, propondo-se a assumir a direção política do novo governo nacional. A tentativa de golpe termina em fracasso. (N. T.)

 

Mas sua tática é a mais eficiente. Como sujeito esperto e afortunado que é, aproveita no ano seguinte a ocasião que lhe é oferecida pela Grande Depressão de 1929 e pela política de reconciliação do governo com a França, para aliar-se aos nacionalistas, recolhendo apoios e consenso em todo o país com suas investidas contra o desemprego, o egoísmo dos grandes capitalistas e do judaísmo internacional. Os grandes capitalistas não se ofendem; ao contrário, até lhe garantem apoios substanciais, que ele faz frutificar na campanha para as eleições políticas de setembro de 1930, conseguindo, apesar da situação geral de miséria e de desnorteamento, um sucesso de proporções inauditas: seis milhões e meio de votos contra os 810 mil dos anos anteriores. É nesta campanha eleitoral que começa a formar-se um mestre da propaganda e da mentira — o Doutor Joseph Goebbels, manco e pérfido como Belzebu — e a afirmar-se Heinrich Himmler como chefe das ferozes SS.

Continuar: parte 2 de 3