Tiranos
Pinochet
Gentil e assassino
VICE-ALMIRANTE CARVAJAL: "O adido naval me disse que o
Presidente Allende está girando um fuzil-metralhadora
que tem trinta tiros e que vai disparar o último contra a própria
cabeça."
GENERAL PINOCHET: "Isto são balelas... esse merda não dispara
contra si nem uma bala de mascar!"
Dos registros de conversas telefônicas entre os golpistas durante o
assalto ao Palácio de La Moneda.
Nas mãos dos militares
Poucos dias depois do golpe de Estado militar que em setembro de 1973 pôs fim ao regime democrático no Chile, a Internacional Socialista decidiu enviar uma delegação a Santiago para saber em que condições o golpe tinha sido realizado e como havia morrido o presidente socialista Salvador Allende.
Faziam parte dela o holandês Van der Lubbe, o francês Blanca, o austríaco Janicek e a sueca Indeinbom. Destinado a tornar-se três anos depois o secretário de seu partido, Bettino Craxi nos deixou um apaixonante testemunho desta viagem falando a seus companheiros no Teatro Novo de Milão, assim que voltou à sua pátria.
O centro mesmo da tragédia é, naturalmente, Santiago, a cidade cuja imagem permaneceu "na mente e nos olhos" do dirigente socialista como um pesadelo. "Ela está inteiramente nas mãos dos militares", diz Craxi; "eles têm todo o poder. Controlam fisicamente a capital chilena. Bloqueios nas ruas circundam e atravessam Santiago. O toque de recolher é obrigatório em todo o país. As patrulhas armadas atuam preferencialmente à noite, mas também de dia. As poblaciones, aglomerados de casas populares que falam de miséria e desespero, de ódio e terror, são patrulhadas sistematicamente pelas forças militares." Até nos bairros residenciais em que a burguesia da capital manifestou de início sua satisfação reina agora o medo. Mas o espetáculo mais dramático que se apresentou à delegação socialista vinda da Europa foi o da grande praça no fundo da qual se ergue o Palácio de Ia Moneda, a residência do Presidente da República. "Os ataques da aviação destruíram toda a parte da frente por dentro e praticamente esvaziaram as alas. As paredes estão esburacadas com os disparos e enegrecidas com a fumaça dos incêndios... Os aviadores se vangloriam de terem realizado uma operação militar de máxima precisão. "Os golpistas", diz Craxi, "estão por toda parte. O governo está formado exclusivamente de militares. Foram convocados até generais da reserva. Altos oficiais foram postos à frente dos bancos, das empresas, substituíram os reitores nas universidades, inclusive na Universidade Católica de Santiago, apesar dos protestos do cardeal. Foi declarado o estado de guerra no país. Vigoram, portanto, as leis de guerra. As cortes marciais funcionam em lugar da justiça ordinária. Foi emitido no primeiro dia o famigerado 'Ato n? 24', que praticamente dá aos militares licença de matar."
O relato do socialista milanês é o primeiro relatório político sobre as dimensões da repressão que o General Augusto Pinochet Ugarte e seus aliados desencadearam no momento em que estourou o seu pronunciamiento, organizado de modo muito mais calculado que os demais da América Latina: "Temos notícia", assinala Craxi, "de processos diante das cortes marciais; mas na realidade trata-se de verdadeiras execuções sumárias: mata-se sem processo. As fontes oficiais na maior parte dos casos falam de fuzilamentos acontecidos ou por tentativa de fuga ou por resistência às Forças Armadas. O essencial é que todas as corporações militares armadas, excitadas por uma campanha de ódio, têm o direito de atirar e de matar. É uma caçada humana a que se realiza, impiedosa e ininterrupta. Sobre os cabeças da oposição democrática que ainda não foram capturados foi colocada uma tarja, como se faz com os bandidos. Encoraja-se um clima de delações, de traições, de vinganças pessoais. Um pano de fundo turvo se agita no pesadelo da ditadura militar."
A delegação da Internacional Socialista recolhe como pode, nas dificílimas condições em que se move, as informações sobre a sangrenta onda de violência que assola o país: fornecem-nas sobretudo os enviados e os técnicos dos jornais e das emissoras de televisão europeias, os militantes democráticos chilenos ainda livres porque se refugiaram nas embaixadas estrangeiras ou entraram para a clandestinidade, ou os familiares dos companheiros deportados para a Ilha de Dawson ou para a Escola Militar de Santiago: "Constatamos que as famílias nada sabiam a respeito de seus entes queridos a partir do momento da prisão." É a atroz história dos desaparecidos, os que simplesmente somem — que terá uma segunda e ainda mais perturbadora edição três anos depois na Argentina, graças a outros generais traidores. As mulheres dos cidadãos capturados tentam em vão, depois de sua prisão, pôr-se em contato com eles, mas por resposta recebem apenas a sugestão de não continuarem circulando, de se considerarem em prisão domiciliar. Os socialistas vindos de longe não conseguem documentar o número exato de vítimas: os representantes da junta golpista garantem que os mortos não passam de 500, mas um jornalista holandês jura que foram pelo menos 3.500 e um colega seu francês conta que, quase um mês depois da rebelião dos generais, entram no obituário cerca de 30 a 50 cadáveres por dia, inclusive de mulheres. Não ficamos longe da verdade se calcularmos que, nas primeiras semanas, as vítimas tenham sido, em todo o país, entre 5 mil e 10 mil. Um jornal próximo dos golpistas ainda faz ironia a respeito dos dirigentes políticos confinados em Dawson, uma ilha distante 3.500 quilômetros da capital, no limite extremo do continente latino-americano, ou seja, no gelo da Terra do Fogo, "onde existe ar puro, que ajudará as mentes febris a se curarem". Outros ministros, subsecretários e parlamentares ficaram detidos na Escola Militar de Santiago, muitos deles, como o subsecretário do Partido Comunista, Luis Corvalán, acusados de alta traição, que se paga com a pena capital, da qual Corvalán escapará por milagre por pressão da opinião pública internacional mobilizada pelos partidos irmãos de meio mundo.
O balanço de Craxi conclui falando da depuração que, enquanto ele ali fala, está sendo levada a cabo no desventurado país do General Pinochet e que continuará ainda pelos anos vindouros: "A depuração política se torna ainda mais feroz em todos os departamentos públicos sobre os funcionários de Allende. Em um clima de arbítrio são expulsos de seu trabalho dirigentes, operários empregados, de acordo com o juízo expresso pelos homens de confiança dos militares. Entra em ação um bando com força retroativa que permite o afastamento do trabalho de todos aqueles que organizam ou organizaram greves e atividades de protesto sindical dentro das empresas públicas ou particulares.
As cores deste quadro de ditadura e de violência e o clima ideológico geral podem ser vistos nos temas de uma propaganda contínua. A rádio, as televisões, os jornais, agora inteiramente nas mãos da junta militar, desenvolvem uma campanha obsessiva e infamante em relação aos mortos, às vítimas, aos prisioneiros que não têm como se defender. É uma campanha de desmoralização pessoal, conduzida a partir de acusações de corrupção, de vícios, de abusos por eles supostamente perpetrados.
Diariamente são organizados e montados escândalos em relação aos mortos e em relação aos vivos. Domina um clima de ideologia fascista no qual os grandes termos são a pátria, a hierarquia, a disciplina, a fé, o coração; e não falta sequer o anel que as esposas devem entregar à pátria. E realmente há mulheres que oferecem seu anel nupcial à pátria para a 'reconstrução' do país."
No discurso de Craxi há um indício, formulado evidentemente com base nas primeiras e escassas notícias que a delegação da Internacional conseguiu recolher, da sorte dos prisioneiros amontoados em um navio ao largo de Valparaíso, confinados nas ilhas ou brutalmente empilhados no Estádio Nacional, onde onze anos antes se disputavam, em clima bem diverso, as finais pelo terceiro e primeiro lugares do campeonato mundial de futebol. E no Estádio Nacional, assegura Craxi a seus companheiros milaneses, houve torturas e continuam a torturar e a matar. Um relato em muitos aspectos análogo ao que faz o jornalista Ítalo Moretti, enviado especial da RAI a Santiago uma semana depois do golpe. Naturalmente a inspeção no estádio foi o primeiro serviço em que Moretti, profundo conhecedor da realidade sul-americana, pensou assim que chegou no Chile, ainda mais porque carros do Exército foram inacreditavelmente postos à sua disposição e de outros colegas seus por deliberação dos generais rebeldes, que preferiram evidentemente ostentar sua brutalidade em vez de escondê-la, não se sabe se por estúpida arrogância ou para aumentar ainda mais o clima de terror difundido com o golpe de Estado.
O jornalista italiano contou em detalhes uma experiência que coincide com o relato de Craxi, a partir de um impressionante encontro com os prisioneiros no Estádio Nacional, uma multidão de gente, pouco e malvestida, infelizes brutalmente arrancados de suas casas e famílias, sem uma palavra de explicação e, à espera dos interrogatórios, condenados a dormir ao relento, embora em Santiago o inverno austral não tenha ainda terminado e a noite, com os Andes que dominam o país, seja gélida. Os prisioneiros buscam ansiosamente aproveitar a chegada dos estrangeiros para comunicar-se com o exterior, sobretudo para dar notícia aos entes queridos de que ainda estão vivos. Os soldados da guarda, a baioneta instalada no fuzil, tentam afastar os jornalistas da rede de proteção enquanto da multidão de sequestrados se eleva um grito que Ítalo Moretti ouvirá por anos e anos, cada vez que aquela dolorosa cena lhe volta à mente, "Hay más gente adentro!" ["Há mais gente lá dentro!"] berram das arquibancadas, e as pessoas que estão dentro, trancadas nos escritórios e nos vestiários, estão sendo submetidas a interrogatórios, a torturas, à perspectiva da morte anônima de que falou Craxi. No momento da saída, Moretti se esgueira por entre os soldados da guarda no lado de fora do estádio e consegue interceptar os desesperados pedidos de centenas de chilenos, homens e mulheres de todas as idades, que pedem notícias dos familiares sequestrados do Estádio Nacional, de cujos portões não podem aproximar-se. As imagens televisivas e fotográficas daquele dia serão transmitidas no dia seguinte para todo o mundo e voltarão a ser mostradas todas as vezes que se quiser evocar a ferocidade daquela repressão.
Na cidade correm mil boatos sobre o destino dos desaparecidos. São sindicalistas, militantes da Unidad Popular, dirigentes da corrente democrático-cristã de esquerda que condenou o golpe de Estado. "A ignorância e a burrice de alguns oficiais", diz Ítalo Moretti, "conseguem tornar a própria repressão grotesca: nesta tarde, um tenente do Exército supervisiona na praça a queima de livros apanhados em um conjunto de casas populares por serem política ou ideologicamente perigosos. O ódio em relação a Fidel Castro era tal que queimavam, na maior inocência, até as páginas de um livro de arte intitulado Cubismo. No momento de voltar para casa, antes que soasse o toque de queda, uma amiga chilena bate à porta do quarto do hotel em que estava o cronista italiano: "Escondia na bola e me entregou, como que em depósito, discos de 33 rotações da Nova Canção, cuja posse, se descoberta, poderia valer-lhe um bilhete de entrada no Estádio Nacional." Na Europa, estas e outras canções populares chilenas acabaram tornando-se objeto de culto — sobretudo na interpretação dos Inti Illimani, um conjunto musical no exílio — para os democratas de meio mundo chocados com a odiosidade do regime de Pinochet, contra o qual os partidos comunistas organizariam, por sua vez, uma daquelas campanhas de propaganda em que foram imbatíveis.
Neste caso, a propaganda é, obviamente, endossada pelos fatos. Os infelizes trancados no Estádio Nacional não são os chefes do governo e dos partidos da maioria parlamentar, e sim operários e operárias capturados nas fábricas pelos soldados, mantidos com a cara no chão e as mãos atrás da nuca, insultados, surrados e finalmente transportados para o estádio transformado em campo de concentração. A caçada humana de que já falamos não tem tréguas, até mesmo porque, como revelara a delegação da Internacional socialista, uma lei de junta golpista (a chamada "lei da fuga") autoriza a tropa a atirar sobre quem tentar fugir, e nos referidos jornais do enviado da televisão italiana veem-se crônicas ridiculamente suavizadas, segundo as quais dezenas e dezenas de prisioneiros caem sob os tiros da escolta, sem salvar-se um sequer, enquanto tentam saltar dos camburões em movimento do Exército ou dos carabineros. As águas do Rio Mapocho devolvem corpos desfigurados de um enorme número de vitimas e em cada cidade os tribunais militares instalados pela Junta Pinochet distribuem condenações à morte em série, com execução imediata após a sentença. De acordo com uma informação recolhida por Moretti, um helicóptero, que a opinião pública chama de helicóptero da morte, decola a cada manhã de Santiago levando a bordo um general que obteve pessoalmente de Pinochet licença para matar: chama-se Arellano Stark e goza de um poder absoluto até sobre as hierarquias militares regionais, inclusive as de seu mesmo nível. Cada visita conclui-se regularmente com o fuzilamento não só de militantes de base dos partidos e da chamada esquerda revolucionária, como também de cidadãos comuns suspeitos de simpatias democráticas, operários e camponeses, funcionários e professores, estudantes e comerciantes. No devido tempo, as façanhas do general serão reconstruídas em detalhe com base nas listas de fuzilados, bem como em testemunhos de oficiais obrigados a obedecer às ordens de Stark.
Naquele 11 de setembro
O Chile tem uma configuração geográfica que alguém já definiu como louca e uma história muito singular. Fala-se de uma louca geográfica em duplo sentido: pela particularíssima inversão climática que comporta a presença de terras quentes, como o Deserto de Atacama, na parte setentrional, e de regiões frias, como a Terra do Fogo, no extremo sul; mas também pelo desequilíbrio entre a projeção longitudinal, que é de mais ou menos 4 mil quilômetros, e a estreiteza da faixa que corre entre os Andes e a costa do Pacífico, com no máximo 200 quilômetros. Quanto a seu desenvolvimento histórico, o Chile conquista sua independência do domínio espanhol em 1818 e, depois da vitória na guerra contra o Peru e a Bolívia, terminada em 1884, torna-se a primeira potência do Pacífico, graças também a sua vizinhança com o Estreito de Magalhães, que atrai para sua costa um afluxo maciço de navios de todos os países, sobretudo ingleses e alemães, que acabarão alimentando uma extraordinária imigração destas nacionalidades, inclusive de inúmeros comandantes e membros de tripulações quando se aposentam.
No final do século 19, e depois no século seguinte, o regime político chileno oscila entre a democracia parlamentar e o presidencialismo autoritário, com uma influência muitas vezes relevante do Exército sobre o governo e um papel econômico decisivo da exploração de notáveis recursos minerais. A alternância de conservação e inovação continua depois da metade do século 20, graças também à difusão da classe média: experiências de frente popular e de centro-esquerda precedem o governo conservador de Jorge Alessandri e o governo moderado do democrata-cristão Eduardo Frei, até que, em 1970, registra-se a vitória nas eleições presidenciais do candidato socialista Salvador Allende, com um ousado programa de reformas e uma coalizão de esquerda bastante ativa, que vão deparar com uma cerrada oposição das camadas de maiores posses. E que desembocará três anos depois no golpe de Estado militar.
Os interesses atingidos pelas drásticas reformas de Allende espelham a distribuição totalmente desigual da riqueza em um país em que, no final da década de 1960, os latifundiários controlam 50% das terras cultiváveis, embora representem apenas 1% da população, da qual cerca de 5% vive no limiar da miséria. Os recursos minerais, riqueza fundamental do Chile (cobre, molibdênio e ferro), estão em mãos do capital norte-americano, que substituiu o inglês dominante nos primeiros decênios do desenvolvimento industrial, ao passo que a burguesia chilena esqueceu as ambições e o orgulho do início do século 19, quando esteve à frente da luta pela independência da Espanha e contenta-se com seu papel parasitário. É determinada por este estado de coisas a coalizão de socialistas, comunistas, esquerda católica e radicais (um partido de inspiração socialdemocrática moderada) reunidos sob a bandeira da Unidad Popular, que, tendo em vista as eleições presidenciais de 1970, propõe — segundo uma fórmula importada de certo modo da Europa — uma aliança entre os partidos de esquerda e as camadas médias progressistas e ciosas da independência política e econômica do país. A candidatura de Allende resultou vitoriosa porque teve o apoio não só da Unidad Popular, como do grupo dirigente da democracia cristã, de quem é chefe Rodomiro Tomic: o líder socialista obtém 36% dos votos, mas com o apoio de Tomic arranca do Parlamento a ratificação da sua eleição, embora a extrema-direita tenha tentado in extremis uma provocação violenta assassinando o chefe do Estado-Maior do Exército, General Schneider, acusado de ter garantido o mais escrupuloso respeito das Forças Armadas ao veredicto das urnas.
Enquanto o grupo de Tomic controla o partido católico, Allende pode enfrentar com a atitude impetuosa e resoluta que caracteriza sua personalidade as primeiras reformas de base previstas no programa eleitoral da Unidad Popular: a total nacionalização das minas de cobre e de carvão, a dos bancos e, sobretudo, uma reforma agrária radical que transfere 35% de toda a área agrícola dos latifundiários para os camponeses. Não só as minas e os bancos, mas também a eletricidade, a telefonia, os transportes, o cimento e a siderurgia passam a fazer parte de uma área de "propriedade social", que tira todas as indústrias de base das mãos da empresa privada. Uma reorganização tão completa da economia chilena não se dá conta, evidentemente, das condições internas e internacionais a que ela estava subordinada antes do advento do novo presidente da República. As reações não se fazem esperar: entre 1970 e 1972, os créditos dos organismos internacionais e estadunidenses vão sendo gradativamente reduzidos até desaparecerem, bloqueando também as importações e, sobretudo, o setor alimentício, com presumíveis consequências sobre o custo de vida e sobre a inflação. No fortíssimo partido católico, Tomic e seus amigos de esquerda perdem rapidamente o controle da direção, que passa à ala conservadora. Uma viagem de Allende à Europa para procurar ajudas e créditos não encontra resposta nos governos ocidentais, e muito menos no soviético — pelo menos na medida esperada pelo presidente. Ao retornar à pátria, ele se vê obrigado a enfrentar uma situação ainda pior, quer devido à queda (talvez não fortuita) do preço do cobre nos mercados internacionais, quer devido a um erro histórico dos sindicatos, inclusive os católicos, que em uma conjuntura já tão desfavorável exigem um desmedido aumento de salários, agravando de maneira irreparável a inflação.
Ao falar aos socialistas de Milão, no já citado discurso no Teatro Novo, Craxi conta um episódio que demonstra quão aventuroso e irresponsável foi o comportamento desses sindicatos: Allende vai a uma fábrica têxtil em cujos depósitos há quase dois milhões e meio de metros de tecido ainda não vendidos, enquanto na cidade as mulheres ficam horas na fila para comprar alguns metros de fazenda. "Os companheiros encarregados da venda", comenta emocionadamente o presidente com a assembleia de trabalhadores da fábrica, "dizem que não podem vender porque estão de férias. Oferecemos a eles o dobro do salário a fim de conseguir que o tecido seja posto à venda: responderam-nos que não têm intenção de trabalhar nem se nós lhes pagarmos tudo isso. Se continuarmos assim, não terei alternativa a não ser renunciar à Presidência".
Para agravar as dificuldades do governo de esquerda, além dos sindicatos maximalistas aparecem também personagens como o socialista Altamirano e grupos extremistas dentro da própria Unidad Popular, lançando propostas extravagantes, como, por exemplo, a dissolução da Câmara para dar margem a uma espécie de soviet de camponeses, de operários e de estudantes. Não se trata apenas de tolice anacrônica, vinte anos depois da morte de Stalin e dezessete anos depois da denúncia de seus crimes, mas também de assim reforçarem objetivamente os protestos que surgem por parte dos meios conservadores e moderados: os comerciantes que escondem as mercadorias, alimentando o mercado negro, os médicos e outros profissionais liberais que iniciam uma greve fora de toda a tradição e, finalmente, os transportadores que os imitam com reflexos catastróficos para a economia nacional, porque paralisam literalmente o país. A extrema-direita sente que é chegada a sua hora e se organiza em um movimento de tipo nazistoide, cujo símbolo é uma fúnebre aranha negra, para desencadear uma onda de terror em grande escala, atacando trens, minando os entroncamentos ferroviários, realizando expedições punitivas e atentados mortais. O reflexo do descontentamento começa a envolver até a chamada "maioria silenciosa", os habitantes dos bairros residenciais de Santiago, as senhoras de sociedade, os velhos burocratas aposentados que chegam a vir para as ruas e, ainda mais perigosamente, as Forças Armadas. Oficiais e generais começam a dividir-se em "allendistas", ou seja, os que apoiam o governo, e que a direita rotula com o depreciativo apelido de "galinhas", e os anticomunistas ora convencidos de que têm de escolher "entre o marxismo e a farda".
Um primeiro golpe no governo da Unidad Popular é dado a 29 de junho de 1973, em seguida a uma ruidosa ofensiva de propaganda lançada pelos meios de direita por meio da imprensa aliada, da rádio privada (numerosas e muito loquazes no Chile) e das emissoras de televisão. Uma coluna de carros blindados circunda o Palácio de Ia Moneda enquanto a Rádio Agricultura transmite a notícia ao vivo, assegurando que a operação visa a provocar as mudanças "que a maior parte deste país espera". A tentativa fracassa, mas Allende evita instaurar uma censura ou um regime mais repressivo, por estar convencido de que "a ordem civil deixou de constituir uma garantia para o sistema capitalista e representa hoje um fator que colabora para a transformação pacífica da sociedade". Outra firme convicção sua, partilhada por amplos setores da Unidad Popular, é a de que no Chile, à diferença de outros países latino-americanos, os militares têm uma vocação constitucional, são leais às instituições republicanas e, em um passado não muito distante, muitas vezes fizeram causa comum com as camadas menos conservadoras da sociedade.
Para esconjurar, contudo, o perigo de um pronunciamiento, o presidente procura estabelecer uma relação mais estreita com os outros comandos, colocando, por exemplo, o chefe do Estado-Maior, General Carlos Prats, também no Ministério do Interior. E, reassegurado pelo êxito mais que positivo das eleições políticas que, em março do mesmo ano de 1973, registram um inesperado sucesso dos candidatos da Unidad Popular, que passaram de 36 a 44%, apesar da inflação, da escassez de bens de consumo e de produtos alimentícios e, mais em geral, de penosa crise da economia. A população respondeu confiantemente ao apelo que foi acompanhado de uma campanha bastante mais realista, como a do manifesto que dizia: "Este é um governo de merda, mas é o meu governo." No entanto, o vitorioso resultado assinala a condenação definitiva do regime, como demonstram não só o golpe sufocado dois meses depois, mas também a liquidação da corrente de esquerda dentro da democracia cristã.
A situação se torna cada vez mais crítica. Em junho, a DC nega no Parlamento plenos poderes a Allende; em fins de julho, depois do assassinato do ajudante de ordens do presidente por terroristas de extrema-direita, a nova direção do partido católico exige que voltem ao governo os militares afastados três semanas antes; em abril, a crise se precipita para seu dramático epílogo, embora a reivindicação da democracia cristã tenha sido satisfeita com a inclusão, no Executivo, de exatamente quatro generais. No país estouram greves de todo tipo, até o dia 22, quando a Câmara aprova a moção da DC em que se considera ilegal a coalizão da Unidad Popular e, repentinamente, convidam-se os militares a escolher entre o Parlamento e governo, como se se tratasse de duas entidades políticas inconciliáveis. Segundo afirmarão mais tarde os socialistas, foi Eduardo Frei, o ex-presidente democrata-cristão da República e chefe da ala conservadora, quem puxou os fios da conspiração e, sobretudo, quem a fez tramitar entre os generais traidores e determinados círculos dos Estados Unidos, prejudicados com as nacionalizações em série da Unidad Popular, embora o líder de esquerda Tomic afirme que, na realidade, Allende e seus colaboradores cometeram o erro histórico de recusar, por sectarismo, a oferta de um entendimento do governo com os progressistas católicos, levando a DC a voltar-se na direção da extrema-direita sob a orientação da corrente mais reacionária, de Caminho Próprio.
A 23 de julho, 24 horas depois das graves decisões do Parlamento, o General Prats se demite de ambos os cargos que lhe tinham sido confiados pelo presidente. O que havia acontecido é que, no dia 21, um grupo de cerca de trezentas mulheres, esposas de oficiais do Exército, tinham se postado diante de sua casa para entregar-lhe uma carta na qual os maridos lhe pedem que interceda junto ao governo para que deixe de confiar aos militares tarefas políticas ou de ordem pública. Foi um expediente para, de certa forma, alertar a Prats da iminência de um golpe, e este, em lugar de tentar esclarecer a obscura manobra dos subordinados, se assusta e corre em lágrimas para Allende para depor em suas mãos o dúplice mandato. O presidente vê com desdém a fraqueza do general, mas na realidade trata-se de algo bem diverso, como o demonstra o fato de que, simultaneamente ao ex-ministro do Interior, renunciam de súbito a seus cargos três generais responsáveis por setores muito delicados e que tinham fama, evidentemente desmerecida, de leais democratas.
Frente ao vazio que se abre na cúpula das Forças Armadas, Allende toma a decisão mais errada de sua vida, nomeando para o lugar de Prats o General Augusto Pinochet, de 58 anos, um militar de carreira frio e duro, nascido em Valparaíso, em 1915, de uma família de modestos funcionários do Estado e que comandara, entre outras, a guarnição de Santiago. Ele está tão distante das opiniões e paixões da Unidad Popular que, poucos dias depois de ter sido investido no cargo de confiança do presidente, no decurso de um contato mantido com outros chefes das três armas, irá convidá-los a cerrar fileiras contra a ameaça subversiva, acenando, embora ainda vagamente, com a eventualidade de uma iniciativa das Forças Armadas caso a situação se precipite. No entanto, na conversa com o chefe de Estado não lhe apresenta a menor objeção, escudado como é por uma veludosa prudência, a mesma que o levará a esperar até a penúltima hora antes de aderir à conjura dos rebeldes.
Segundo a minuciosa reconstrução de uma jornalista chilena, Patrícia Verdugo, foi somente no dia 8 de setembro, um sábado, à tarde, que o General Arellano Stark apresentou-se em casa de Pinochet a fim de informá-lo do plano, pedir seu apoio e solicitar que desse sua confirmação imediata por telefone ao colega de quem partiu a ideia do pronunciamiento, o General Gustavo Leigh. À impetuosa pressão do visitante, o comandante-em-chefe opõe uma reação que é "uma mistura de surpresa e aborrecimento", típica de um temperamento orgulhoso e arrogante como o seu, e quanto ao telefonema a ser imediatamente dado a Leigh pede tempo para pensar. Na mesma noite, o presidente encontra-se por acaso em casa de amigos comuns a Prats, já em trajes civis, e depois, intuindo de repente que algo de grave está para acontecer, manda convocar ao Palácio de Ia Moneda, para o dia seguinte, Pinochet e outro general, Orlando Urbina.
Ainda a 8 de setembro, em Valparaíso, completa-se o balanço para o complô. O Almirante José Toríbio Merino reúne os oficiais da Marinha já comprometidos com a rebelião para ouvirem o Vice-Almirante Carvajal, que se refere à situação nas demais Forças Armadas, garantindo que a Aeronáutica está pronta para o golpe ao passo que ainda restam dúvidas quanto ao empenho do Exército em sua totalidade. O melhor, portanto, é deixar a decisão para o dia seguinte, enquanto esperam que Carvajal verifique em Santiago como estão realmente as coisas. Há, porém, alguém em Valparaíso que tem pressa. É Huidobro, o comandante da infantaria da Marinha, que concebe um plano fraudulento para acelerar a revolta: pega o telefone e ordena ao chefe do Serviço Secreto, um tal de Gonzáles, que venha imediatamente à capital para uma comunicação de extrema urgência, que tem relação exatamente com o plano — uma maquinação diabólica, orquestrada para persuadir os almirantes a superar suas últimas reservas. Na reunião do dia seguinte, domingo, será preciso garantir que não só a Aeronáutica, como também o Exército, aderiram em sua totalidade à conspiração contra o governo marxista da Unidad Popular e que, além disto, já marcaram o dia e a hora do golpe de Estado: às seis da manhã da próxima terça-feira, dia 11 de setembro.
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O truque funciona
Domingo, depois da missa, os almirantes escutam a fraudulenta relação de Huidobro que, chamando Gonzáles para confirmar sua mentira, obtém plenos poderes para negociar na capital em nome de toda a Marinha de Guerra. Na mesma hora em que os dois comparsas chegam a Santiago, o presidente recebe, em seu gabinete, Pinochet e Urbina, que não lhe escondem a gravidade da situação — mesmo deixando de pô-lo a par de todas as informações de que dispõem. Confiando neles, Allende pede a Pinochet que prepare um projeto que, a seu ver, poderá mais uma vez impedir o golpe, tal como acontecera no mês de junho: a coordenação entre as Forças Armadas e os trabalhadores organizados nas fábricas. É a solução revolucionária menos aceitável pela casta de galões, mas o presidente não se dá conta disto. Se pudermos dar crédito a seus colaboradores presentes em La Moneda naquele dia, o General Pinochet ter-se-ia despedido prometendo a Allende que no dia seguinte tomaria as providências necessárias para pôr em prática o projeto, confirmando assim a confiança que ele nutre em relação à sua lealdade e à da grande maioria dos generais e almirantes, inseridos por tal, legalmente, nas estruturas institucionais da República. A serenidade do presidente é acrescida com os acordos que fez nos últimos dias com os dirigentes conservadores da democracia cristã, com quem se encontrou secretamente em casa do Cardeal Primaz Silva Henríquez, com a finalidade de tranquilizá-lo quanto à revitalização da indústria privada, demasiado pressionada, a seu ver, pelo governo em benefício do setor público.
Acreditando ter colocado as premissas de um bom acordo com políticos e militares, o presidente se permite naquela tarde de domingo uma breve sesta antes de ir ao aeroporto para receber a mulher e a filha que voltam de uma viagem à Cidade do México, em companhia do adido militar, Comandante Sánchez. De volta à cidade, na estrada, Allende confidencia ao oficial amigo que espera uma bonança na preocupante situação que se esboçou no país, graças às iniciativas tomadas em vários campos e, sobretudo, a uma ideia que lhe parece adequada para reforçar o regime: a proposta de lançar um grande plebiscito popular.
A data em que planeja fazê-lo é a mesma que os conspiradores marcaram para o início da revolta: 11 de setembro, terça-feira.
A morte de Allende
Tarde do dia 10 de setembro, segunda-feira. Assim que entra de volta em casa, Allende começa a escrever o discurso que pensa pronunciar no dia seguinte no Politécnico para lançar a proposta de plebiscito no decorrer das manifestações que os estudantes progressistas programaram para protestar "contra o fascismo e contra a guerra civil". Simultaneamente, os generais rebeldes estão definindo os últimos detalhes do golpe. São cinco horas quando alguém bate à porta da casa de Pinochet, em festa pelo aniversário de Jacqueline, a caçula do comandante-em-chefe. O General Gustavo Leigh traz o texto da proclamação assinada pela junta que acabara de ditar a um amigo jurista, e veio pôr contra a parede seu superior: ou segue com eles, ou fica definitivamente de lado. Explica que o que venceu as últimas resistências dos generais mais moderados foi o ameaçador discurso pronunciado naquela manhã, em um teatro da capital, pelo socialista revolucionário Carlos Altamirano, com base no mote: é preciso avançar sem transigir. Eles ficaram apavorados.
Diante das pressões de Leigh, Pinochet não perde a calma, mas demonstra inicialmente uma certa perplexidade, a ponto de perguntar a seu impaciente interlocutor se ele se dá conta de que estão arriscando a pele. O outro não tem nem tempo de responder, pois batem novamente à porta: são os chefes da Marinha de Guerra, portadores de uma mensagem-ultimato do Almirante Merino que os dois têm de assinar. Leigh o faz imediatamente, enquanto Pinochet expressa ainda algumas reservas e só cede quando o chefe da Aeronáutica exclama pateticamente: "Decida-se, meu general! Assine!" A esta altura ele não só está assinando a mensagem, mas endossando-a com o timbre do comando supremo que lhe fora confiado poucos dias antes pelo Presidente da República.
A partir deste momento, no entanto, a preocupação dominante de Pinochet é de tomar pulso da situação impondo sua autoridade aos demais golpistas. Foi o último a tomar a decisão, mas será o primeiro a desfrutar dela, e durante um tempo bastante longo. Para começar, recorre a uma encenação simbólica: reúne alguns dos conspiradores e deles exige fidelidade com um juramento diante da espada de Bernardo O'Higgins, o pai da pátria chileno que dá nome à Escola de Guerra, advertindo-os de que, caso ele caísse em combate ou em uma emboscada dos subversivos, o comando das Forças Armadas passaria ao General Oscar Bonilla, um dos primeiros inspiradores do complô. Depois disto ele dedica toda a segunda-feira para organizar a concentração das tropas em Santiago e, quando Leigh submete a seu exame o texto da proclamação a ser dirigida aos chilenos, exige, com sua habitual cautela, que também seja assinada pelo comandante dos carabineros, o General Mendoza, o qual, embora no sábado tenha recebido na academia da corporação o Presidente Allende, brindando à sua saúde e exaltando sua coragem "em conduzir o povo pelos caminhos de uma maior justiça social", não hesita em subscrever também o pacto golpista. São 16 horas do dia 10: o esquadrão da traição está completo. Poucas horas depois, três pessoas, entre as quais um dirigente sindical, são recebidas no gabinete presidencial de Allende, a quem encontram "tranquilo e relaxado, como se lhe tivessem tirado das costas um enorme e pesado fardo", porque está convencido de que o apelo ao plebiscito programado para o dia seguinte aliviaria a tensão política, permitindo de certo modo a todos uma reflexão mais relaxada sobre a possível via de saída. Talvez esta serenidade do líder socialista seja o aspecto mais chocante da tragédia.
A noite de segunda-feira permanece igualmente tranquila, pelo menos até a meia-noite, quando começam a chegar à casa os primeiros sinais de movimentos suspeitos de tropas na capital e na província, mas o presidente está demasiado cansado para não ir deitar-se com a esperança de enfrentar em boa forma a dura jornada que sabe que o espera no outro dia. E é exatamente nas poucas horas em que consegue repousar que se põe em movimento a máquina do golpe: o Almirante Merino transmite de seu gabinete de Valparaíso a palavra de ordem combinada "execução do Plano Cochayoyo" (nome de uma alga muito encontrada na costa chilena), enquanto em Santiago é deslanchado o Plano Silêncio, que prevê a interrupção das comunicações telefônicas e o bloqueio de transmissões das emissoras de rádio da esquerda.
O sono do presidente é interrompido depois de poucas horas por uma outra série de telefonemas, cada vez mais alarmantes, que o aconselham a vestir-se rapidamente para alcançar o Palácio de Ia Moneda, onde sua primeira preocupação será a de pôr-se em contato com Pinochet e com o Vice-Almirante Carvajal, que não são, porém, encontrados. O almirante, na verdade, chegara às primeiras luzes do amanhecer em seu gabinete da Defesa, onde convocou os chefes do complô para coordenar com eles as primeiras iniciativas do Plano Cochayoyo, depois de ter providenciado a vigilância do palácio presidencial. Quando se sabe que o carro de Allende está cruzando a entrada principal, o General Diaz Estrada deixa escapar um grito de triunfo: "Agora começa a ação!" A ação, na realidade, já tinha começado. Um grupo de blindados circundara o Palácio de Ia Moneda, fazendo crer aos homens da guarda — chamado O Grupo, dos amigos pessoais de Allende — que desejavam proteger o presidente, que, por sua vez, espera ainda poder honrar o compromisso assumido, de estar às 11 horas no Politécnico, com a ideia de lançar a proposta de um plebiscito popular.
Mas a atmosfera que encontra às sete e meia em seu gabinete o desaconselha a mover-se, ainda mais porque em Santiago não há mais nem sinal do comandante-em-chefe das Forças Armadas. Pinochet está chegando, a toda velocidade, ao quartel-general estabelecido em Penaldén, depois de ter prudentemente posto a salvo a família, aos pés da Cordilheira, na Escola de Guerra de Los Andes, cujo comandante, o Coronel Cantuarios, conhecido por sua fidelidade à República, será encontrado no dia seguinte crivado de balas.
O cerco se aperta cada vez mais em torno do presidente, mas, quando Carlos Altamirano insiste com ele por telefone a refugiar-se em lugar mais seguro, contrapõe-lhe uma recusa clara, porque "o lugar do presidente é no Palácio de Ia Moneda". A ingênua retórica e o heroico apego ao dever fazem companhia ao velho socialista em todos os momentos da trágica terça-feira. Pouco depois das oito, falando por duas vezes ao microfone da Rádio Corporación, convida os trabalhadores à escuta a irem para seus locais de trabalho e manterem a calma, garantindo que a situação na capital está sob controle; e quando Sánchez, seu adido militar, lhe comunica que a Aeronáutica tem à sua disposição e de sua família um DC6 no Aeroporto de Los Cerillos, retruca friamente que o presidente do Chile "não sai fugido" de avião. A um amigo embaixador na Argentina que o chama emocionado de Buenos Aires para perguntar-lhe que fundamentos têm os boatos de um golpe, confirma melancolicamente, advertindo-o, porém, de que está decidido a lutar "até a morte".
É exatamente o que acontecerá ao final de um dia infernal. Às 8h30min, falando dos microfones de uma rede de emissoras de direita, o Coronel Guilard lê a primeira proclamação dos golpistas, explicando que sua ação está sendo determinada pela gravíssima crise social e moral que estaria pondo o país em perigo e intimando o Presidente da República a passar imediatamente seu alto mandato para o comando das Forças Armadas e dos carabineros. A proclamação, assinada pelos chefes do complô (dois dos quais se arrogaram o direito de agir em nome da Marinha e dos próprios carabineros), ameaça os mass media de esquerda de uma punição "aérea e terrestre" se não suspenderem toda e qualquer atividade e aconselha a população civil a não sair de casa. Por uma rádio aliada, Allende replica imediatamente que não obedecerá, denunciando ao país "a inacreditável atitude de soldados que não honram a própria palavra".
Na realidade, não há mais saída. Quando um grupo dos GAP tenta entrar no palácio, é capturado: são dez homens e o filho de uma colaboradora do presidente, que a partir deste momento desaparecem. Dentro do Palácio de Ia Moneda, o velho socialista se prepara para a resistência final e tenta de todos os modos afastar policiais, colaboradores e as duas filhas, Isabel e Beatrix, esta grávida de seis meses, que vieram lhe fazer companhia assim que souberam das notícias. A Rádio Magallanes transmite a proclamação do sindicato, que exorta os trabalhadores a ocuparem as fábricas e os campos, um convite desta vez sem sentido, enquanto sobre o palácio presidencial passam como ameaçadores relâmpagos os aviões dos rebeldes. Estes fazem mais uma tentativa, com um telefonema de Carvajal, no sentido de induzir Allende a render-se, garantindo-lhe um avião para que vá para o diabo, mas recebem de volta uma avalanche de insultos: "Mas o que é que vocês pensam, seus traidores de merda? Enfiem no eu o seu avião!"
Os médicos presentes temem que possa se repetir o ataque cardíaco de que o presidente já tinha sido vítima três vezes em passado recente, mas Allende se refaz prontamente e vai passar em revista as pouquíssimas tropas de defesa, trazendo ao ombro um fuzil em cuja ponta brilha a tarjeta do doador: "Para Salvador, de seu companheiro de armas, Fidel Castro." Depois de contar os poucos homens, volta para o gabinete, para escutar os três adidos militares que lhe fazem ver a crescente gravidade da situação, sem contudo afastá-lo um milímetro sequer de sua decisão: "Não me arrancarão fora daqui nem se bombardearem o La Moneda." Os três, heroicamente, fazem-se acompanhar até à antessala, depois somem de lá, enquanto o presidente se comunica com a última rádio de esquerda ainda livre e dirige aos longínquos ouvintes o último discurso em que acusa "o capital estrangeiro e o imperialismo, em união com a reação, de terem criado um clima propício à rebelião das Forças Armadas". É uma espécie de testamento espiritual, endereçado aos trabalhadores: "Vão adiante, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, reabrir-se-ão as grandes estradas pelas quais passará o homem livre para construir uma sociedade melhor."
Os chefes do golpe não se comovem com tão pouco. Instalados cada um em três pontos diferentes, com outras tantas estações de rádio à disposição, dirigem as operações em Santiago, manifestando em falas cruzadas — cuja gravação cairá posteriormente em mãos de Patrícia Verdugo — um ódio fanático para com Allende e uma vulgaridade sem comparação. Tanto Carvajal quanto Pinochet, ao serem informados da intenção do presidente de resistir até a morte, a definem grosseiramente como empulhação. "Acho que isto de suicídio é uma fraude", diz ao microfone o vice-almirante, ao que Pinochet responde ironicamente: "Às 11 horas, quando chegarem os primeiros aviões, você verá o que vai acontecer... Uma vez bombardeado o La Moneda, vamos tomá-lo de assalto com o Regimento Buin e os alunos da infantaria."
Logo a seguir insinua: "Tenho a impressão de que Sua Excelência já fugiu só com os blindados", e, ao ser desmentido pelo outro, rebate: "Então temos de impedir sua saída; e se sair temos de fazê-lo prisioneiro... A esta altura é bom matar a cadela e acabar também com os filhotes." Ao ver aparecer o General Leigh, ordena que seja emitida uma proclamação para esclarecer ao povo que as Forças Armadas lutam "contra a fome que o governo marxista estava semeando, contra a pobreza, contra o sectarismo a que nos estava levando o Senhor Allende, enquanto ele passava muito bem entre festas e orgias". O tom peremptório do comandante das Forças Armadas irrita os demais generais, que o induzem a deixar que a proclamação seja também assinada pelos comandantes das três armas e da dos carabineros, embora a luta pelo poder entre eles esteja destinada a prolongar-se por quase cinco anos, ao fim dos quais, em 1978, virá ser vencida pelo pior de todos, Pinochet.
O ultimato dos rebeldes exige a rendição incondicional do palácio presidencial, ameaçando com represálias cruéis de bombardeio aéreo. Entre os policiais e os milicianos da guarda pessoal de Allende deve ter ficado ainda algum espião, porque os golpistas são informados minuto a minuto do que faz o presidente; mas é o adido naval que acaba saindo do La Moneda para telefonar a Carvajal, dizendo que o chefe do Estado anda pelo palácio armado de metralhadora e decidido a resistir até o último tiro antes de suicidar-se. "São balelas...", ruge o comandante-em-chefe; "esse merda não dispara contra si mesmo nem com uma bala de mascar!" A esta altura, no entanto, passam à fase de execução, até porque se estão espalhando boatos os mais discordantes, como o de que o presidente estaria para ordenar o ataque ao Ministério da Defesa com não bem identificadas "brigadas socialistas" ou então que o General Prats estaria marchando do Norte do país para vir em socorro dos assediados.
Na realidade, o que acontece dentro do palácio presidencial é que Allende está tentando convencer a maior parte dos amigos que ficaram a seu lado, e sobretudo a suas duas flhas, a voltarem para a cidade antes que seja demasiado tarde. Do lado de fora, de fato, o último assalto por terra já começou: as tropas rebeldes abrem fogo até com os tanques, causando enormes rombos nas paredes do La Moneda e obrigando os defensores e o próprio Allende a buscarem abrigo debaixo das mesas ou em locais mais no interior. Por meio do telefone proliferam as intimações à rendição incondicional juntamente com a garantia de que o presidente e todos os seus familiares e colaboradores poderão fugir em um avião que os levará para o exterior. É uma promessa mentirosa, como demonstra inequivocamente a gravação de uma troca de piadas entre o Vice-Almirante Carvajal, que acena à expatriação com o famoso DC6 de Los Cerrillos, e Pinochet, que rosna, à sua maneira habitual: "Sim, sim, mantenha até a oferta de expatriação, meu velho, só que durante o voo o avião vai cair." Uma perspectiva que diverte imensamente o bom almirante.
A pressão militar se intensifica. O assalto por terra ao La Moneda é reforçado com a intervenção da artilharia e dos lança-foguetes, o bombardeio sofre um pequeno atraso, para grande irritação do comandante supremo, porque os aparelhos que vêm da base de Concepción tiveram problemas de abastecimento de gasolina. A primeira bomba vinda do céu, todavia, cai às 11h52min em ponto, logo seguida de uma chuva de explosões que fazem tremer as paredes dos porões em que Allende e seus últimos amigos buscaram provisoriamente abrigo. No palácio é o fim do mundo.
Um incêndio explode exatamente nos gabinetes da Presidência, alastrando-se rapidamente a todo o lado setentrional e, quando o esqueleto do velho edifício é derrubado, os gritos dos assediados se misturam ao pó e à fumaça que invadem todos os aposentos, porque do exterior começam a chover bombas de gás lacrimogêneo. No caos total alguém avisa que a aviação dos rebeldes está bombardeando também a área em que fica a habitação privada do presidente. Então este decide pedir ao Ministro Flores, a seu secretário e a uma terceira personagem que parlamentem com a Defesa, munindo-os de uma carta. Os generais golpistas, que evidentemente são logo avisados da novidade, começam a discutir animadamente se é ou não oportuno aceitar a rendição de Allende e de seus companheiros, se convém embarcá-los de imediato no aparelho que já está na pista em Los Cerrillos ou se não seria preferível prendê-los, permitindo que apenas o presidente e seus familiares deixem o país de avião, com o risco, porém, de que passem pelos países que se mostrem dispostos a hospedá-los para jogar lama nos conspiradores. Seja como for, não se aceitam condições para a rendição do velho socialista: "Nada de condições!", berra Pinochet. "Mas o que é que esse filho-da-puta está pensando?"
Neste ínterim, o fílho da puta e seus últimos amigos não encontram um só ângulo no La Moneda em que seja possível respirar e, enquanto dão voltas pelo palácio em desesperada busca de um alívio para o ardor dos olhos e dos pulmões, alguém descobre, na Sala Augusto Olivares, um diretor da televisão estatal, íntimo de Allende, agonizando em sua poltrona, com uma metralhadora entre as mãos: dera um tiro no peito. O presidente pede um minuto de silêncio em homenagem ao amigo, depois decide que não é mais o momento de fazer crescer o número de vítimas e que chegou para todos o momento de se renderem. A alguém que lhe pergunta se ele fará o mesmo, responde vagamente que não se trata mais de preocupar-se com isto e que de qualquer forma ele será o último a sair. Tem em mãos um velho pergaminho, a Declaração de Independência, o ato solene que traz como primeira assinatura a de O'Higgins, e que foi salvo milagrosamente do incêndio do salão em que estava guardado: ao dirigir-se com os outros para a saída principal do palácio, entrega à fidelíssima Miria Contreras tanto o pergaminho quanto o paletó de Olivares para que o entregue à viúva. Chega ao comando supremo dos rebeldes a notícia da rendição total dos assediados, e o primeiro tema que surge na discussão entre Pinochet e seus cúmplices é, naturalmente, seu destino, concluindo, por fim, quanto a reservar o famoso DC 6 exclusivamente para Allende e seus familiares, mas não antes de o chefe de Estado ter assinado sua renúncia. Enquanto isto dão-se ordens de difundir por todo o país a grande notícia da capitulação, do triunfo do golpe.
São exatamente 14h15min do dia 11 de setembro de 1973, quando o drama chega ao fim, mas de maneira bem diversa da imaginada por Pinochet.
Salvador Allende se suicida em meio a um cenário trágico. Como contaria o Doutor Jirón, um dos médicos que dele cuidava e que ficou até o último momento com ele, juntamente com outro médico, o Doutor Guijón, o intendente do palácio, Enrique Huerta e um funcionário da Polícia Civil, David Garrido, "ninguém", disse Jirón em um depoimento dado a Patrícia Verdugo, "viu quando ele se sentou na poltrona de veludo vermelho do chamado Salão Independência. O Doutor Guijón diz que conseguiu ver como o corpo se sacudiu em um verdadeiro espasmo, levantou-se e caiu". Jirón conta que não ouviu o tiro. Confundiu-se com os disparos que aumentavam na rua. O Detetive Garrido diz que ouviu quando ele gritou "Allende não se rende!". Todos concordam que a seguir Enrique Huerta gritou: "O presidente está morto!"
Eram duas e um quarto da tarde. "Entrei e o vi", continua Jirón. "Uma metralhadora entre as pernas, a cabeça estourada. Morto. Vi Enrique Huerta pegar a metralhadora e dizer alguma coisa, muito alterado, alguma coisa como que ele sairia do La Moneda armado e disparando. Alguém o segurou e lhe pediu calma. Foram instantes de confusão. Sei apenas que vi o Doutor Patrício Guijón, de cabeça baixa, sentar-se em uma poltrona ao lado do presidente. Eu estava arrasado."
Poucos minutos depois, os soldados irrompem no palácio, reúnem todos os sobreviventes e os empurram aos trancos e barrancos para a rua, onde os obrigam a estender-se por terra, com as mãos na nuca e as pernas abertas, sob a mira de uma metralhadora. Quando chega o comandante do regimento, General Palácios, quatro de seus homens o acompanham sem dizer uma palavra até a sala onde ainda está Allende tombado sobre a poltrona vermelha, a cabeça estourada, fragmentos do cérebro salpicados sobre as paredes.
Palácios reconhece o relógio de marca no pulso do presidente, e do Doutor Guijón, que ficara na sala paralisado de horror, recebe a confirmação do suicídio. Sai da sala e, depois de ordenar a liberação de todos os médicos sanitaristas a serviço da Presidência, comunica sucintamente via rádio ao comando da guarnição: "Missão cumprida. La Moneda tomada. Presidente morto." Muitos anos depois, ele iria acrescentar: "Allende cumpriu com seu dever, isto ninguém pode discutir. E seu ato foi um ato de homem, o ato de um homem de valor."
Já o comentário de Pinochet, assim que soube da notícia, foi diferente: "Que o metam em um caixão e o embarquem em um avião juntamente com sua família. E que o sepultem em algum outro lugar, em Cuba, por exemplo!
Mesmo morrendo este intrigante ainda nos traz problemas."
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O torturador
O avião que transporta o cadáver do presidente, e no qual viajam a viúva, Hortênsia, a irmã, Laurita e os sobrinhos Grove, decola de Los Cerillos em direção à base aérea de Quintero, pouco distante de Viria dei Mar, uma localidade balneária em cujo cemitério Allende é sepultado no túmulo de família dos sobrinhos, em meio a um silêncio total, rompido apenas por Hortênsia, que, ao jogar sobre o cadáver um punhado de flores colhidas de uma planta vizinha, diz serenamente: "Que todos saibam que aqui jaz o presidente constitucional do Chile." Quando, poucos dias depois, a delegação da Internacional socialista chega ao cemitério tentando aproximar-se do túmulo, uma patrulha de carabineros para diante dos estrangeiros e, de metralhadora em punho, intima a que voltem atrás. A um deles, que faz menção de continuar, como contará mais tarde Bettino Craxi, um dos guardas lança uma seca advertência: "Um passo mais e eu atiro!"
Os generais golpistas já tinham proclamado o estado de sítio, marcando para o dia 18 o início do toque de recolher e estabelecendo que, para cada componente das Forças Armadas que viesse a ser atingido pelos "terroristas", seriam fuzilados cinco "marxistas". Todos os redatores de jornais, das rádios e das televisões de esquerda são presos, toda e qualquer comunicação proibida.
Os sobreviventes do La Moneda, com exceção dos policiais civis, são transferidos primeiro para um quartel, depois para uma guarnição militar na periferia, onde serão fuzilados. Termina também tragicamente a manifestação antifascista dos estudantes da qual o presidente teria participado: soldados e policiais circundam a universidade intimando a liberação do local e, como os estudantes se recusam, abrem fogo, com metralhadoras e canhões de 105
milímetros, contra rapazes dos quais apenas um está armado com um revólver.
No dia seguinte, de manhã, precedido pelo fogo dos morteiros, o ataque final põe fim à resistência dos estudantes, que são capturados, cobertos de insultos e de tabefes e depois transportados para dentro de um dos estádios da cidade, o Chile, que juntamente com o Estádio Nacional verão chegarem de hora em hora centenas e centenas de outros jovens, na maior parte operários, camponeses e militantes de esquerda, aí concentrados como em uma estação de trânsito para a tortura, o fuzilamento e o desaparecimento.
Com os estudantes são também aprisionados dois cantores muito populares entre os jovens, Victor Jara e Violeta Parra, que viriam a desaparecer depois de atrozes torturas: a Victor, particularmente, que tocava na guitarra as tradicionais melodias chilenas, os algozes decepam as mãos. A respeito do tratamento que os militares sob o comando do Coronel Jorge Espinosa deram aos infelizes que estavam presos (sem processo) no Estádio Nacional restam testemunhos de dar calafrios: "Todas as noites", conta, por exemplo, o jornalista venezuelano Pablo Antillano, "escutávamos os gritos dos trabalhadores que estavam sendo fuzilados na tribuna oriental do Estádio Nacional de Santiago. No dia seguinte, as poças de sangue eram apagadas com baldes de água."
Ainda a respeito do Estádio Nacional, o exilado chileno Viente Vergara Taquias, em uma denúncia apresentada em sua época na procuradoria de Milão e prontamente arquivada, escreve, entre outras coisas: "Éramos levados para o velódromo, na parte de trás do estádio, e nos torturavam. Às vezes durava dez minutos, às vezes horas. Alguns até saíam cuspindo sangue, outros com os ossos quebrados. Vi cadáveres serem carregados para caminhões. A mim, me torturaram durante quinze dias, sistematicamente.
Batiam com os canos dos fuzis, com cassetetes, com descargas elétricas sobre todo o corpo. Queimaram-me a língua." As violências perpetradas pelos golpistas a partir do fatal 11 de setembro de 1973 são indescritíveis. Uma moça chilena de origem italiana, estudante na universidade de Bolonha, Maria Paz Venturelli, deu seu depoimento a respeito da sorte que coube a seu pai, o Professor Venturelli Leonelli: "Em 11 de setembro de 1973 meu pai estava na lista dos procurados. Era professor de pedagogia na universidade e militava no grupo de socialistas cristãos. Apresentou-se voluntariamente no quartel no dia 14 para saber de que era acusado. A 4 de outubro, foi transferido para a prisão de Temuco. Ninguém tinha conseguido falar com ele. Depois desapareceu por completo. Tinha 31 anos, e eu, 32. E este pesadelo dos familiares dos desaparecidos: tiram-nos a pessoa querida, não se sabe que fim lhe dão, não há uma tumba sobre a qual chorarmos. É uma forma de repressão que dura a vida inteira."
Há quem afirme, como o coronel reformado Olagir Benavente, prefeito de Tolca nos anos da ditadura, que muitos dos desaparecidos chilenos foram jogados de aviões, no mar ou sobre os rochedos dos Andes (o que acontecerá também anos depois na Argentina), mas faltam dados seguros quanto a seu número, nem fica claro se as vítimas foram mortas antes de serem atiradas dos aparelhos ou se viveram até o terror de se verem atiradas assim no abismo.
No primeiro dia do golpe de Estado, focos de resistência espocaram aqui e ali, mas foram reprimidos pela infantaria, pelos carabineros e pelos tanques. Jovens oficiais fiéis a Allende foram amontoados nos quartos da Academia da Aeronáutica, de olhos vendados, algemados e depois torturados.
Os maiores expoentes do governo legítimo, dos partidos da maioria e dos sindicatos viram-se aprisionados na Escola Militar de Infantaria para serem deportados para a longínqua Ilha de Dawson, no gélido Sul da região austral.
Do dia do golpe até o final de 1973 caem apenas quinze militares da parte dos rebeldes, enquanto que do outro lado os mortos civis são 1.823, muitos dos quais em idade inferior aos trinta e até aos vinte anos. Entre 1973 e 1990, o número total de cidadãos chilenos ou de estrangeiros suspeitos de simpatias marxistas, mortos ou desaparecidos, oscila entre quatro e cinco mil, mas os prisioneiros são em muito maior número, talvez 300 mil, e pelo menos 100 mil chilenos são também obrigados a ir para o exílio na Europa ou são expulsos manu militari. Não há delito algum perpetrado depois do golpe contra os direitos civis dos chilenos — sua vida, sua liberdade, sua segurança, os próprios bens patrimoniais — que não tenha sido desejado, ou expressamente autorizado, por Augusto Pinochet Ugarte, inclusive a tortura. O que fica comprovado por uma fria página da instância acusatória apresentada contra o general pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, que conseguirá dos ingleses a prisão de Pinochet em Londres, a 16 de outubro de 1998, O ato de acusação parte do encontro em que, um ano depois da dramática data de 11 de setembro de 1973, os dois presidentes da Comissão pela Paz, o bispo católico Aritzía e o luterano Walter Frenz, pediram a Pinochet para entregar-lhe um amplo dossiê sobre casos de tortura praticados sistematicamente até sobre sacerdotes ligados ao movimento dos cristãos pelo socialismo, pelos agentes da DINA, a organização secreta dos serviços de segurança criada no mesmo ano de 1974 pelos golpistas. E, para manifesta perplexidade dos dois religiosos (e Garzón aqui usa evidentemente um eufemismo), Pinochet lhes pergunta se quando falam dos "maus-tratos físicos" (termos efetivamente usados por eles) estão se referindo à "tortura". Os bispos respondem que sim. Então Pinochet, depois de folhear atentamente a documentação que lhe é apresentada, lhes diz: "Vocês são sacerdotes e podem dar-se ao luxo de serem misericordiosos.
Eu sou um soldado e presidente de toda a nação chilena. O povo foi infectado pelo vírus do comunismo. Os marxistas e comunistas devem ser aniquilados, e é preciso torturá-los; do contrário, não falam."
A documentação recolhida pelo magistrado espanhol sobre o capítulo da tortura é particularmente detalhada e eloquente. O recurso a este tipo de violência é generalizado, ou seja, prescinde da idade, da condição e do sexo das vítimas, e é desencadeado no momento mesmo da prisão. São usadas as técnicas mais diversas: "golpes violentos e contínuos até produzir fraturas ou aspersão de sangue; obrigação de ficar horas com a cara para o chão ou em pé, nus, sob refletores potentes, ou encapuzados, com as mãos e os pés amarrados, ou trancados nos nichos, cubículos baixos e estreitos nos quais é impossível mover-se; recusa a dar-lhes comida, água e roupas para se cobrirem; ficar suspenso pelos braços; asfixia parcial mergulhando a cabeça na água, em substâncias líquidas malcheirosas e excrementos; aplicação de choques elétricos nos testículos, na língua e na vagina; estupros sistemáticos; fuzilamentos fingidos e outros refinados métodos de tortura, como o chamado 'pau de arara', suspensão do corpo do preso durante horas de cabeça para baixo."
As torturas são controladas e orientadas por médicos encapuzados, cuja tarefa fundamental é evitar que as vítimas morram, como é perfeitamente possível nos casos de tratamento particularmente feroz, quando se aplica, por exemplo, Ia parrilla [o churrasco], termo que normalmente indica a carne assada sobre as brasas e que, na interpretação da DINA, consiste em obrigar a vítima a deitar-se, nua e amarrada pelas extremidades, sobre uma superfície metálica, enquanto lhe são aplicadas descargas elétricas nos lábios, nos genitais, nas feridas ou em eventuais próteses metálicas. Fala-se em cerca de meio milhão de chilenos submetidos nos dezessete anos da ditadura de Pinochet, às mais variadas torturas, com especial encarniçamento contra dois ou três grupos odiados pelos generais golpistas: os índios mapuche, uma população de paupérrimos camponeses aborígines que conseguiram alguma melhoria graças à reforma agrária de Allende e lhe são por isso devotados; os judeus, por óbvios arroubos nacionalistas; e os já citados cristãos pelo socialismo, sobretudo se sacerdotes. Mas o episódio mais terrível, entre os listados no libelo de acusação do Juiz Garzón, diz respeito a um jovem socialista, Pedro Hugo Arellano Carvajal, apanhado com o pai, em 1973, depois do bombardeio ao edifício em que estava a sede da emissora de rádio do partido de Allende e de Altamirano.
Desde o momento da prisão, o jovem Pedro é submetido a sevícias e maus-tratos desumanos e, uma vez içado para o helicóptero para ser trazido para o centro de detenção, vem amarrado com cordas e pendurado, primeiro no vazio, depois sobre uma escarpa coberta de plantas espinhentas, até ser atirado, no momento da aterrissagem, sobre a pista, onde fica com o rosto para cima e as mãos e os pés amarrados. Mas no centro de detenção algo ainda pior o espera. Vale a pena citar mais uma vez a instância acusatória do magistrado madrilenho: "Amarram-no a uma corda e o mergulham em um poço com água, deixando-o até quase afogar-se. Puxam-no para cima, fazem-lhe outras perguntas, e quando ele responde negativamente mergulham-no de novo. Praticam com ele a roleta-russa, que consiste em vedar-lhe os olhos e obrigá-lo a ficar imóvel, em pé, enquanto os militares fingem disparar em sua cabeça com uma metralhadora e um revólver e por vezes disparam realmente bem ao lado de sua cabeça para que sinta o zunir das balas. No Centro de Detenção de Belloto, põem-lhe uma maçã na cabeça e fazem tiro ao alvo. No sanatório naval de Olmué, dirigido por Pedro Arancibia, obrigam-no a despir-se diante da família Rodriguez (pai e dois filhos), que também tinha sido obrigada a despir-se. Os rapazes são obrigados a deitar-se no chão, um por cima do outro. Ao pai obrigam a que se ponha sobre o filho maior e o penetre, enquanto o rapaz tem de penetrar o irmão menor. Depois obrigam Pedro Arellano a pôr-se sobre um dos rapazes e a penetrá-lo, e o mesmo obrigam o Senhor Rodriguez a fazer com o outro filho. Em seguida, os fuzileiros navais forçam todos a caminharem nus em um corredor, golpeando-os seguidamente com cassetetes. Abrem o ânus de um dos rapazes com uma baioneta, fazendo-lhe um corte."
A implacável repressão de todo e qualquer resíduo do passado marxista ou de qualquer manifestação possível de dissenso é essencial para o projeto do General Pinochet de realizar a contrarrevolução tradicionalista e, ao mesmo tempo, de garantir seu controle total. As etapas por que passa a realização deste projeto, desenvolvido com fria tenacidade, são assinaladas pelas limitações impostas à junta militar (junta governamental dos comandantes-em-chefe das Forças Armadas e da polícia). Criada no próprio dia 13 de setembro de 1973, conferindo poderes colegiados, mesmo que, desde o início, Pinochet já seja o presidente. Treze meses mais tarde, ele se faz nomear também Presidente da República, prenunciando um longo período de dez anos de poder absoluto exercido muito além de qualquer limite legal e de qualquer controle. Quando sindicatos e partidos, no início da década de 1980, começam lentamente a recobrar fôlego graças à piora das condições econômicas internas e à redução simultânea do apoio ao regime por parte da Igreja Católica e dos Estados Unidos, o ditador não hesita em recorrer mais uma vez ao estado de sítio, desencadeando uma nova onda de repressão.
O libelo acusatório do Juiz Garzón demonstra irrefutavelmente a pesadíssima responsabilidade pessoal e política de Augusto Pinochet Ugarte em cada ato e cada momento da repressão levada a cabo a partir do outono de 1973. Nenhum dos principais colaboradores, a começar pelo Coronel Manuel Contreras, tomou jamais qualquer iniciativa sem uma ordem expressa sua, seja no caso dos crimes cometidos dentro do país, primeiro pela DINA, depois pela CNI, seja no caso de delitos cometidos por agentes dos serviços secretos chilenos ou a eles coligados em localidades estrangeiras nas Américas Central e do Sul e na Europa. A DINA, ou seja, a Direção Nacional de Serviços de Segurança, substituiu em 4 de junho de 1974 a comissão homônima composta sete meses antes e que foi dissolvida em agosto de 1977 para dar lugar à CNI, isto é, a Central Nacional de Informações, com tarefas análogas, mesmo que de forma mais seletiva. Outros esquadrões da morte, como o Comando dos Vingadores dos Partidos e a Direção de Comunicações dos carabineros, se encarregam, sempre a partir de determinações precisas do Presidente da República, do trabalho sujo no início do década de 1980, quando movimentos clandestinos de esquerda e o próprio Partido Comunista começam com dificuldades a reorganizar-se.
Nos primeiros anos, são o Coronel Contreras e o General Sérgio Arellano Stark os principais executores das obras de justiçamento desejadas por Pinochet. O General Arellano atua inicialmente na região setentrional do país, estendendo para lá a prática de fuzilamentos em massa já realizados em Santiago, dominando as eventuais resistências dos comandantes locais graças à delegação dada pelo próprio Pinochet. O Coronel Manuel Contreras é o organizador, dentro da DINA (da qual é o diretor executivo), do chamado Plano Condor, um projeto elaborado pessoalmente por Pinochet para livrar-se de maneira ilegal de personalidades hostis ao regime. O plano prevê acordos com a extrema-direita sul-americana, com os fascistas italianos da Vanguardia Nacionale e os franceses da Fratellanza da Córsega. O objetivo é a liquidação física dos adversários políticos: o General Carlos Prats, que fora o predecessor de Pinochet à frente das Forças Armadas e colaborador de Allende no governo, é feito em pedaços com sua mulher em uma estrada de Buenos Aires, pela explosão de uma bomba teleguiada colocada sob o Fiat dos dois velhos cônjuges; o ex-Vice-Presidente da República e fundador da democracia cristã chilena, Bernardo Leighton, é deixado quase agonizante também com a mulher em um atentado organizado em Roma por fascistas como o famigerado Stefano Delle Chiaie e pela DINA; o ex-Ministro da Defesa Orlando Letelier dei Solar, refugiado em Washington depois de meses de confinamento e torturas na Ilha de Dawson, tem a mesma sorte do General Prats, com a explosão de uma bomba colocada sob o assento de seu carro por anticastristas cubanos a serviço da DINA. Outros democratas desaparecem em ações combinadas entre agentes chilenos e sul-americanos, enquanto Carlos Altamirano escapa de uma emboscada armada na Espanha, exclusivamente graças às extraordinárias medidas de segurança que adotara para proteger-se.
Em 1986, porém, a situação interna do Chile está de tal forma mudada que quem escapa por milagre de um atentado é o próprio Pinochet. A pressão internacional, à qual ora se associa também a administração Reagan, já havia obrigado o general a realizar contatos com os democratas mais moderados e a lançar, em 1980, uma nova Constituição, que previa, entre outras coisas, a possibilidade de realizar-se um referendo popular para consolidar os favores de que goza o governo junto à opinião pública. A 16 de outubro de 1988, dois anos depois do fracassado atentado contra o presidente, os resultados da consulta por referendo anulam a esperança de Pinochet de manter o poder por mais nove anos: 56% dos eleitores votam contra, obrigando-o a rever seus planos. Assim, no ano seguinte, resigna-se a entregar o cargo de presidente ao democrata-cristão Patrício Aylwin, mas planeja para continuar na chefia das Forças Armadas até 1998, e, com base em uma norma providencial por ele mesmo inserida na Carta Constitucional, torna-se senador vitalício para garantir sua impunidade no caso, que sente cada vez mais provável e ameaçante, de uma volta do país à democracia.
Protegido não só pelo conclave, mas também pela solidariedade de casta das cúpulas militares, resigna-se a secundar uma política de reconciliação nacional, imposta, aliás, pelas condições internas e internacionais e que, contudo, não lhe há de valer muito dez anos depois, quando se vir sob a acusação do Juiz Garzón, com uma série esmagadora de provas. O magistrado espanhol pede a prisão e a extradição do velho ditador, que se encontra em Londres para tratar-se em uma clínica de luxo, mas o juiz, e principalmente o governo inglês, creem não poder aceitar a requisição de Garzón, sobretudo devido às pressões do governo chileno, que teme desordens entre os militares e os que apoiam o general. Acaba-se permitindo que ele retorne a sua terra sob a mentirosa máscara de grande inválido, acolhido triunfalmente pelos aposentados e pelas senhoras da alta burguesia: uma encenação que seria escandalosa se não se tratasse já apenas de um fóssil arqueológico. O que tanto é verdade que, a 26 de janeiro de 2000, 26 anos depois do trágico fim de Salvador Allende, o povo chileno elege para a Presidência da República um socialista, Ricardo Lagos. As pulsões revolucionárias dos Altamirano já fazem também parte do passado: Lagos venceu a prova realizando uma campanha prudente e responsável, que lhe valeu inclusive o voto de grande parte das camadas moderadas.
O novo clima político permite que seja relançada a ação judicial iniciada pelo juiz chileno Juan Guzmán contra Pinochet, que ora tem 85 anos, está mal de saúde e pode ainda gozar do apoio de uma parte da casta militar e de algumas senhoras da alta sociedade.
Em março de 2001, depois de muitas prorrogações e mil maquinações por parte da defesa, a Corte de Apelação chega a uma decisão: a de derrogar as acusações ao impiedoso ditador, que será julgado não mais como o mandante, mas apenas como o protetor (nós diríamos: cúmplice) de Stark e dos outros militares que em 1973 se mancharam com crimes horrendos, entre eles o de organizadores da chamada "caravana da morte". Nos dias que se seguiram ao golpe, pelo menos 151 das muitas centenas de desaparecidos foram levadas a um voo sobre o oceano aberto, a uma centena de quilômetros de Santiago, e despejados no mar como sacos de lixo.
Pagando uma caução de sete milhões de liras, o velho golpista espera, em sua mansão de Los Boldos, a decisão final do tribunal, embora o novo Código chileno e sua avançada idade lhe garantam que, seja ela qual for, ele não encerrará na prisão sua pouco recomendável existência.
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