Tiranos
Stalin
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O ex-seminarista
"Quando Lady Astor, unindo a franqueza dos americanos à arrogância
da aristocracia inglesa
nos confrontos com os inferiores, perguntou-lhe por quanto tempo
ainda continuaria a assassinar,
Stalin permaneceu imperturbável. 'Até quando for necessário',
respondeu."
ADAM B. ULAM
Do seminário a Lenin O encontro com Lenin, que decidiria seu destino, aconteceu na Finlândia, em dezembro de 1905. Mal havia estourado a primeira revolução russa do século, a "prova geral" do Outubro Vermelho de doze anos depois, quando os bolcheviques se encontraram em Tammerfors, em uma conferência semiclandestina da qual Stalin participaria como delegado do partido georgiano. A primeira impressão foi de desilusão: "Eu esperava", diria ele posteriormente, "ver a águia do nosso partido, o grande homem, grande não só politicamente, mas, por assim dizer, também fisicamente, porque Lenin se apresentava à minha imaginação como um gigante de bela figura, com um ar imponente. Qual não foi, porém, a minha desilusão quando vi um homem dos mais comuns, de estatura inferior à média, que não se distinguia em nada, em absolutamente nada, dos simples mortais."
Naturalmente, Lenin também deve ter então considerado aquele jovem caucasiano como um militante qualquer, sem suspeitar, nem ao menos de longe, de que ele seria o seu futuro sucessor, o discípulo que iria ultrapassar o mestre e, em muitos sentidos, embalsamá-lo. Naquela época Iosif Visarionovic Dzugashvili tinha ainda 26 anos e há apenas seis se dedica por completo à luta política. Segundo uma ficha de dados compilada pela polícia czarista depois de sua primeira prisão, trata-se de um tipo comum ou, melhor, atarracado, de estatura média para baixa, com cerca de um metro e sessenta e dois, barba e bigodes escuros, a fisionomia marcada pela varíola e uma particularidade singular: tem o segundo e o terceiro dedos do pé esquerdo unidos. Desde jovem tem uma lesão no braço esquerdo que lhe paralisa parcialmente os movimentos. O pai teria sido o seu causador.
Iosif nasce em Gori, uma pequena cidade a 60 quilômetros de distância de Tiflis (depois Tibilisi), capital da Geórgia, em 6 de dezembro de 1879, e passa sua infância na mísera casa dos pais, Visarion e Ekaterina, ambos pertencentes a uma família de camponeses pobres que até 1860 foram servos da gleba. As dificuldades econômicas são exacerbadas pelo temperamento colérico do pai de Soso (nome pelo qual o menino é chamado na intimidade pelos pais e amigos), que tentou em vão fazer fortuna trabalhando por conta própria como sapateiro, e que busca consolo na vodka, maltratando e espancando a mulher até se cansar e voltar para a capital, onde acabará encontrando ocasionalmente a morte em uma briga de bar.
Não se pode ter certeza de que o sapateiro de Gori fosse realmente o pai de Soso. Segundo uma lenda, talvez alimentada por aduladores, sua mãe — "uma moça de cabelos ruivos, rosto aberto, liso e tranquilizador, que enrubescia facilmente" — pode ter sido seduzida por alguns dos senhores a cujo serviço estava para ganhar a vida. São citados neste sentido dois nomes: o do célebre explorador russo Prezvalski, com quem Stalin se assemelha surpreendentemente, e também o do Conde Egnatosvili, junto a quem Ekaterina tinha servido como ama de leite para o recém-nascido que a condessa não podia amamentar. E, ao que parece, os Egnatosvili teriam cuidado carinhosamente do rapaz, a ponto de patrocinar sua admissão na escola paroquial de Gori e depois no seminário de Tiflis.
Mas Ekaterina não é apenas uma mulher atraente e corajosa, é também perspicaz o suficiente para intuir os dotes particulares do filho, com o qual terá sempre uma relação muito estreita, como demonstram duas histórias, uma relacionada com a infância de Soso e outra com a maturidade de Stalin. O pequeno Iosif assiste tremendo aos furores de ira e brutalidade com que Visarion os atormenta, e um dia em que o beberrão havia passado da conta, para defender a mãe, atira nele uma faca, fazendo com que ele ficasse tão fora de si que foi necessário manter o menino escondido dele por alguns dias em casa de uma família amiga. Muitos anos depois, em uma das raríssimas vezes em que Ekaterina, agora já idosa, foi ao Kremlin para encontrar-se com o chefe da União Soviética, teria com ele uma conversa da qual transpirou esta troca de ditos espirituosos: "Mas, afinal, que espécie de trabalho você faz?", perguntou a senhora. E Stalin buscou uma referência que a velha camponesa pudesse compreender: "Você não se lembra, mamãe, de nosso czar?"
Ekaterina assente: "Claro que sim." E o filho, um pouco para simplificar, um pouco porque era verdade: "É isso, eu sou uma espécie de czar." Se acreditava, porém, que conseguiria deixar a mãe encantada, enganava-se redondamente, porque Ekaterina encolhe os ombros e diz: "Bah! No final das contas era melhor que você tivesse virado padre."
De fato, leva à estola de pope a estrada que lhe foi aberta, talvez com a ajuda dos Egnatosvili, fazendo-o entrar primeiro para a escola paroquial de Gori e depois, com uma pequena bolsa de estudos, para o seminário de Tiflis.
Mas o menino tem um temperamento rebelde, que não coaduna com a disciplina e a sufocante atmosfera sacerdotal do internato, do qual no máximo irá assimilar as lições de suspeita e delação que o acompanharão por toda a vida, juntamente com o estilo característico e pedagógico que dará à sua monótona oratória. Quanto ao resto, o comportamento indócil e o gosto pelas leituras severamente proibidas por aqueles bons padres logo suscitam sua indignação e um rigor crescentes que acabariam por endurecer posteriormente o rapaz, acentuando sua tendência ao isolamento e à desconfiança. E, como só acontece com adolescentes introvertidos, o impiedoso realista em que Stalin irá se transformar vive aqueles anos acalentando em compensação sonhos de glória, de grandeza, de heroísmo. Entre os livros que mais o impressionam destaca-se um romance georgiano, O Parricida, no qual se fala da guerra travada séculos antes contra os invasores russos pelos montanheses do Cáucaso, liderados por um bandido justiceiro, Koba, o Indomável. Quando Soso torna-se um revolucionário e entra para a clandestinidade para escapar à polícia czarista, é exatamente Koba o nome de guerra que assume, em 1901, mantendo-o durante dez anos, até vir a escolher, como bolchevique, aquele que deveria se tornar célebre em todo o mundo.
Enquanto ainda estava no seminário, Soso começa a frequentar na cidade um círculo progressista em que se discutem as ideias novas de Marx, de Comte e de Darwin, em chocante contraste com a educação mística e retrógrada que predominava no seminário — como, aliás, em todas as escolas russas da época. Em 1896 ele funda, juntamente com outros estudantes, um círculo clandestino de jovens socialistas. Três anos depois, ao chegar ao último ano do curso, assume cada vez mais uma atitude de provocação nos confrontos com os professores, manifestando aquela rudeza e aquela insolência mesclada de desprezo que muito mais tarde lhe serão censuradas, inclusive por Lenin. Deveria fazer os exames finais para poder inscrever-se na universidade, mas, por mais que a mãe lhe peça para não fazer isto, decide irrevogavelmente abandonar o curso ou (isto não fica bem claro) fazer-se expulsar, com uma obstinação que vai se mostrar um traço fundamental de seu caráter. No momento em que deixa o internato, já perdeu completamente a fé, mas, ao mesmo tempo, talvez sem dar-se conta, já absorveu os defeitos típicos daquele ambiente, sobretudo a tendência a dissimular o próprio pensamento e a nutrir um pessimismo de fundo sobre o gênero humano, aprofundado ainda por um rancoroso complexo de inferioridade nas confrontações com os próprios companheiros quando são, por acaso, mais cultos ou brilhantes que ele ou pertencem a uma camada social privilegiada.
A partir daquela época, Soso, já com o cognome de Koba, é um revolucionário em tempo integral. Trabalha à luz do sol ou de forma clandestina, faz propaganda, organiza protestos operários nas fábricas e nas praças, até que enfrenta a primeira detenção, que o leva à prisão e depois, por três anos, ao exílio na Sibéria. Aí mostra-se duro, incansável e autoritário e adquire grande prestígio entre os companheiros, sobretudo devido à determinação com que cerra fileiras em torno das posições intransigentes da facção dirigida por Lenin e que se tornará a plataforma do futuro partido comunista bolchevique, hostil a toda e qualquer forma de gradação ou de reformismo.
Poucos meses depois do encontro com Lenin na Finlândia, Koba desposa a irmã de um companheiro de seminário, Ekaterina Seminovna Svanidze: é o segundo encontro mais importante de sua vida. Ekaterina é uma mulher "forte e bonita, com grandes olhos negros, cabelos luzidios e espessos, presos em coque", por quem Koba se apaixona em 1904 e com quem se casa dois anos depois em uma igreja de Tiflis, diante de um sacerdote amigo que conhecera também no seminário. O rude bolchevique aceita um casamento religioso por amor a Ekaterina e a sua família, e esta o recompensa com a admiração e a devoção de todas as mulheres camponesas, desejando em seu íntimo que Koba queira renunciar a sua vida aventurosa de revolucionário para dedicar-se a uma existência tranquila ao lado dela. O casamento é feliz, ainda mais quando, em setembro de 1907, a mulher dá à luz um menininho, que será batizado de Jakov. Pouco mais de um ano depois, no entanto, um ataque de tifo leva embora Ekaterina, levando Koba ao desespero. Aniquilado pela dor, confidencia a um amigo diante do caixão da esposa: "Esta criatura conseguiu enternecer meu coração de pedra. Agora que morreu, morrem também com ela os meus últimos sentimentos de amor ao próximo".
Quatro anos depois, ao ser novamente condenado à deportação para a Sibéria, aí conhece Maria Kuzakova, uma viúva com cinco filhos, em casa da qual aluga um quarto. A mulher se afeiçoa a ele, treme com a possibilidade de ele vir a fugir e, ao fugir, acabar se afogando no rio e, em 1912, lhe dá um filho, Konstantin, tão parecido com Koba que todos logo compreendem quem é o pai.
Discreto e reservado, o rapaz crescerá bem, estudará com grande proveito e terminará até sendo professor universitário. E quando, em 1947, cai em desgraça devido a uma intriga de Beria, vendo-se expulso do partido e da cátedra, salvar-se-á da Lubianka somente devido a uma anotação do pai a pedido do homem da NKVD: "Não vejo motivo algum para a prisão de Kuzakov" (seu sobrenome materno). Entre pai e filho, porém, jamais houve um diálogo cara a cara, e, logo depois, Konstantin confessará que Stalin sempre lhe pareceu "um homem muito fechado e desprovido de sentimentos humanos".
Na realidade, uma vez sepultada Ekaterina, para o georgiano passou a existir apenas a luta pelo poder absoluto no partido, que terá um primeiro salto de qualidade em 1912, um ano particularmente feliz para ele. Ao escapar pela milésima vez da Sibéria, é cooptado para a cúpula de São Petersburgo, por vontade de Lenin, que apreciara os seus relatórios sobre a conjuntura russa recebidos enquanto estava no exílio em Paris. No encontro seguinte, na Cracóvia, confia-lhe a redação de um ensaio sobre um importante problema para a Rússia, o dos limites que um movimento revolucionário pode ser obrigado a estabelecer ao princípio da autodeterminação dos povos. E é exatamente na cidade polonesa que o georgiano decide adotar seu nome de guerra definitivo, Stalin, o homem de aço, antes de partir, por sua vez, para Viena, onde encontrará Trotski e conhecerá Bukarin, estreitando momentaneamente uma forte amizade com o segundo e reforçando, ao contrário, sua irredutível antipatia por Lev Davidovic [Trotski], cuja brilhante dialética e narcisismo o exasperam. Marxismo e Questões Nacionais, o ensaio que lhe foi pedido, mostra-se de certo modo modesto sob o ponto de vista científico, mas é recebido com agrado por Lenin, que em uma carta a Máximo Gorki define o autor como "um georgiano prodigioso que honra a literatura teórica marxista". O ano seguinte já é bem menos feliz. Stalin está assistindo a uma soirée musical organizada para financiar o Pravda, o órgão oficial do partido, quando a polícia irrompe na sala. Alguém ainda tenta salvá-lo, jogando sobre ele um casaco de mulher, mas é inútil. Permanecerá no exílio, em uma localidade a apenas cem quilômetros de distância do Círculo Polar Ártico, por cerca de quatro anos, vivendo um período de miséria, de fome, de aviltamento, no qual sobreviverá exclusivamente graças à caridade dos companheiros que continuaram livres, amadurecendo na enregelante solidão da paisagem siberiana um ódio selvagem a tudo e a todos e encontrando algum conforto apenas nos pouquíssimos livros que consegue encontrar, entre os quais estaria, ao que parece, O Príncipe, de Maquiavel.
Terá de esperar iniciar-se o ano de 1917, quando estoura a revolução democrático-burguesa de fevereiro, para voltar a Petrogrado (ora São Petersburgo), onde, porém, vai entrar de imediato no grupo dirigente do movimento, embora não só Trotski, como outros companheiros de prestígio, como Zinoviev e a Kollontai, ainda o considerem "uma figura apagada", até pelo fato de nos primeiros meses ficarem a seu cargo tarefas modestas no partido e na direção do Pravda. Mas quando, em abril, Lenin chega à estação de Petrogrado — depois de ter partido de Zurique e de ter atravessado a Alemanha com o famoso trem "blindado" —, Stalin, sem hesitar, cerra fileiras com ele e com suas discutidas "teses" para a conquista violenta do poder.
Embora tendo ficado até certo ponto à margem nos "dez dias que revolucionaram o mundo", no momento decisivo da capitulação do governo Kerenski figura entre os quinze ministros, os "comissários do povo", como foram batizados pelo vodz (ou seja, o líder) e não só com a delegação por nacionalidades, como também com encargos formalmente menores, que na realidade lhe permitirão ir assumindo o controle do aparelho estatal, setor para o qual olha com clarividente interesse.
Neste momento o partido já havia mudado de nome, para Partido Comunista (b) Russo, no qual o b entre parênteses significa "bolchevique", e fora levado ao governo sobre as asas das "teses de abril" leninistas: todo o poder aos soviets (os conselhos de soldados e de operários), terra para os camponeses, paz imediata e incondicional com a Alemanha. Stalin, que em fins de agosto votara com a esmagadora maioria em favor da revolta armada, já adquirira a este tempo uma tal autoridade que pôde intervir com sucesso a favor de Zinoviev e Kamenev, ameaçados de serem expulsos do partido por terem se oposto à revolta insurrecional.
A participação na guerra civil contra os exércitos brancos na qualidade de comissário político na zona de Caricyn — a cidade que será rebatizada em sua honra durante a Segunda Guerra Mundial como Stalingrado — o consagra definitivamente aos olhos de Lenin, inclusive pela desapiedada energia com que chefia as operações. Distinguido, no inverno de 1919, com a condecoração máxima do novo regime, a Ordem da Bandeira Vermelha, volta a mobilizar-se na primavera seguinte após o ataque desfechado pelo exército polonês do Presidente Pilsudski, no decurso de uma campanha em que entra em rota de colisão com o General Tuchacevski, em um encontro que se mostrará fatal para este brilhante dirigente.
O testamento sepultado
Desfeita a ameaça polonesa, os bolcheviques se dedicam a liquidar as últimas ilhas de resistência na periferia. Stalin participa do empreendimento, primeiro no Azerbaidjão, onde exalta as conquistas do partido "compacto como o aço", e depois na sua Geórgia, onde, juntamente com seu velho amigo Grigori Ordzonikidze, "normaliza" a situação de forma tão brutal que lhe vale a reprovação até dos comunistas locais. De qualquer modo, o regime pode assim consolidar o triunfo da revolução até nas províncias mais longínquas do que seria em breve a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e seus dirigentes podem finalmente dedicar alguns fugidios parênteses a sua vida pessoal. Antes da guerra civil, Iosif tinha ficado hospedado em Petrogrado, em casa de seus velhos amigos Alliluev, cujo chefe de família, Sergei, é um velho bolchevique de fé sólida, ao passo que a filha de dezesseis anos, Nádia, chamada de Nadezda, já havia demonstrado no passado ter uma queda pelo georgiano que lhe havia salvado a vida, quando, três anos antes, havia escorregado, caindo na água, e estando prestes a afogar-se no rio. A jovem tem sido descrita como um tipo de beleza tipicamente meridional, com alguns traços ciganos devidos à avó: linhas bem desenhadas, rosto oval ligeiramente alongado, perfil de camafeu, olhos escuros tornados mais profundos pelos longos cílios postos em evidência pelos cabelos negros, pesados e lisos, recolhidos em um coque atrás da nuca. É uma mulher determinada e inteligente, uma revolucionária convicta, até por influência do ambiente familiar, embora, como todos os Alliluev, esteja ameaçada de uma latente tendência à esquizofrenia.
Svetlana, a sua segunda filha, irá compará-la a "uma pequena barca acoplada a um enorme transatlântico", que seria Stalin, mas, na realidade, de início trata-se de uma história verdadeiramente romântica: a menina se apaixona perdidamente pelo agitador quarentão e acaba por conquistá-lo, até mesmo porque durante o tempo em que Iosif viveu em casa dos seus manteve com ela e com Anna, sua irmã, serões bastante prazerosos, lendo em voz alta trechos de Tchecov e Gorki, ou versos de Puskin. A amizade com os Alliluev se sedimenta definitivamente quando Lenin, procurado pela polícia do governo provisório menchevique, se refugia também em casa dos Alliluev, para depois tornar a partir para a Finlândia, não sem antes se tornar irreconhecível, fazendo com que Stalin, barbeiro improvisado, lhe rape a barbicha e o bigode.
Ao estourar a guerra civil, o governo vermelho já mudara a capital, de Petrogrado para Moscou, onde Iosif instalara o Comissariado para a Nacionalidade, tomando, em 1918, a Nadezda como secretária. É neste momento que os dois vencem suas últimas hesitações e se juntam, sem cerimônias ou festas nupciais, instalando-se em um pequeno aposento no Kremlin. A moça acompanhara Stalin em todos os seus deslocamentos nas várias frentes de guerra contra os exércitos brancos, mas, ao retornar a Moscou, vem já nomeada secretária do governo, mergulhando com tanto zelo no trabalho dos comissários do povo que um dia confidencia a uma amiga, secretária do vodz, uma novidade incrível: como bom georgiano, Soso lhe censurara por não estar dedicando a ele bastante tempo e pretende que ela pare de trabalhar. Quando Lenin vem a saber disto, entre divertido e escandalizado, irá repreender Stalin por ser "um asiático" e o forçará a deixar Nadezda livre. O casal tem um primeiro filho em março de 1921, um garoto que terá o nome de Vasili e ao qual a mulher se dedica quase totalmente, a ponto de ser suspensa do partido e ameaçada até de licenciamento. É mais uma vez Lenin quem a salva, embora só venha a voltar ao partido três anos depois.
Neste ponto o parêntese doméstico se fecha porque a revolução bolchevique está passando por uma fase dramática e chega a ver-se arriscada à catástrofe, dadas as desastrosas consequências econômicas do chamado "comunismo de guerra". É exatamente nesta fase que Dzugasvili faz valer, primeiramente junto a Lenin e depois contra ele, as próprias qualidades de determinação, de concretude e de inoxidável capacidade de trabalho, mascaradas com a ostentada modéstia com que aceita a cinzenta rotina cotidiana, e em contraste com as ambições intelectuais e o incorrigível narcisismo de Trotski e de outros intelectuais do Politburo, bastante satisfeitos de poderem descarregar o peso das incumbências organizativas sobre um personagem que consideram "um provinciano de mentalidade medíocre".
Alarmado com as condições desesperadoras do país, na primavera de 1921 Lenin lança o temerário desafio da NEP, a Nova Política Econômica, que assinala uma guinada liberalista prevendo concessões significativas, ainda que momentâneas, tanto para os camponeses quanto para os comerciantes e as pequenas empresas. O êxito da virada é positivo. Stalin o secundara sem hesitações, afirmando com certa desenvoltura que ela estimularia a energia produtiva dos trabalhadores e marcaria um passo à frente no sentido da realização do socialismo. Apoiar assim, quase incondicionalmente, o vodz significa, obviamente, candidatar-se a ser seu herdeiro, e que isto tenha sido realmente calculado os acontecimentos irão em breve demonstrar. De fato, neste mesmo período o protagonista da Revolução de Outubro começa a apresentar um estado de progressivo desgaste físico, de nervosismo, de irritabilidade, como se estivesse descarregando de repente sobre o próprio organismo a tremenda tensão dos últimos tempos. O primeiro sintoma aparecerá em maio de 1922, um mês depois de Lenin ter apoiado com todo o peso de sua autoridade, no encerramento do XI congresso do partido, a eleição de Stalin para secretário-geral.
O cargo, em si, se reveste de um caráter puramente administrativo, mas, a partir da data de sua nomeação, a 3 de abril de 1922, o interessado tomará providências no sentido de conferir-lhe toda a importância política que não tivera no passado. No congresso, Stalin não só renuncia a falar, como se mantém ostensivamente afastado das polêmicas que, pela última vez, movimentarão um congresso bolchevique de maneira tão viva que chega a irritar Lenin, em quem um crescente cansaço em relação ao dissenso se traduz em uma frase que lhe escapa naquelas circunstâncias: "É preciso reprimir, sufocar, fuzilar." Stalin é a última pessoa no mundo que poderia chamar a atenção para o seu erro, e, de agora em diante, terá sucessivas ocasiões de demonstrar isto, visto que já havia posto os pés tanto no Politburo quanto na organização, duas poderosíssimas alavancas do partido, e pode, assim, estender gradualmente a própria influência sobre os aparelhos e as instituições da recém-nascida União Soviética, cuja Constituição seria retificada durante o II Congresso dos Sovietes, em 31 de janeiro de 1924. Mas ele teve também um embate com o próprio Lenin a propósito da autonomia da Geórgia, solicitada pelos comunistas locais e impugnada por seu antigo companheiro, que teria preferido a criação de uma única entidade com as três Repúblicas caucásicas.
No caso em questão, ele terminou cedendo, mas suas relações com o periclitante vodz não serão mais as mesmas.
Nas cartas aos amigos mais fiéis, ele descreve abertamente "o velho"
como alguém ultrapassado, que deve ser o mais breve possível aposentado. E Lenin intui isto. Nos dois anos que se seguiram, vive profundamente o seu drama: a consciência de seu crescente isolamento e a suspeita de que os companheiros queiram relegá-lo a uma função já meramente decorativa o induzem a lançar-se na peleja. Compreende que o esboço desta marginalização se deve principalmente a Stalin, cuja verdadeira natureza começa agora a conhecer, mas não tem mais forças para empunhar o timão, ainda que, nos últimos meses do ano, tente incansavelmente fazer sentir a própria presença, escrevendo artigos, emitindo diretivas, buscando, sem encontrar, um ponto de referência no Politburo. Não só Zinoviev e Kamenev, como também Bukarin já fazem causa comum com Stalin ou, melhor, cada um deles se propõe intimamente a servir-se dele em função da conquista do poder, com a ilusão de depois deixá-lo de lado; e o próprio Trotski, o brilhante líder do Exército Vermelho de outros tempos, não se sente com coragem de alinhar-se abertamente contra seu mortal inimigo, subestima-o e, com fatal hesitação, desiste de confrontar-se com ele.
Avizinha-se, no entanto, o desfecho da tragédia. Embora, entre 13 e 16 de dezembro de 1922, aniquilado pelo cansaço e pela desilusão, Lenin seja agredido por outros dois ataques apopléticos que o reduzem a uma situação difícil, os três aspirantes a ditadores decidem ser melhor deixar exatamente a Stalin o encargo de seguir de perto a sua lenta agonia, na esperança de torná-lo mais malvisto aos olhos do partido e do próprio vodz. Com um incrível esforço de vontade, Lenin consegue, mais uma vez, recuperar, ao menos em parte, suas forças e tem ainda suficiente lucidez para, nos últimos dias do ano, ditar à sua secretária aquela "Carta ao Congresso", que passará à história como seu "testamento" e no qual desabafará todo o desprezo que viera amadurecendo com relação a Stalin, juntamente com o amargo remorso de tê-lo designado para uma responsabilidade tão elevada. Nesta carta, depois de ter sugerido que fosse aumentado o número de membros do Comitê Central, incluindo quadros de origem operária, passa a tratar da questão dos contrastes na cúpula do partido. Não poupa críticas pungentes a Trotski, a Zinoviev e aos outros expoentes do bureau político, mas é a Iosif Dzugasvili que reserva o juízo mais impiedoso, ao comentar que "o companheiro Stalin, ao tornar-se secretário-geral, acumulou em suas mãos um enorme poder", acrescentando que não se pode crer que o esteja "à altura de dele fazer uso com a necessária prudência".
É uma iniciativa explosiva e ao mesmo tempo reticente, no momento em que, na prática, Lenin está renunciando a intervir publicamente para esconjurar as consequências desta insuficiente "prudência" do secretário-geral, limitando-se a mandar redigir cópias idênticas desse texto com a advertência de que se trata de um documento confidencial, a que só podem ter acesso ele próprio e, depois de sua morte, sua mulher, Nadezda Krupskaia. Stalin, como todos os demais membros do Politburo, é informado a respeito pela própria secretária de Lenin e, embora o documento só venha a ser lido no decurso do XIII Congresso do PCUS, realizado em maio de 1924, se dá conta de sua obscura ameaça. Aliás, poucas semanas antes tinha tido um duríssimo choque com a mulher de Lenin, repreendendo-a por ter deixado o doente escrever cartas e agitar-se, contrariando o parecer dos médicos, e ameaçando por isso denunciá-la ao Comitê Central. Lenin ouve o desabafo da mulher, furiosa com o ultraje, e endereça ao secretário-geral uma carta violenta, em que escreve, entre outras coisas: "Prezado companheiro Stalin, você teve a ousadia de telefonar à minha mulher a fim de ofendê-la... Não pretendo esquecer o que foi feito contra mim, porque é evidente que o que se faz contra minha mulher se faz também contra mim. Devo perguntar-lhe, portanto, se está ou não disposto a retirar as suas afirmações e a desculpar-se ou se prefere romper toda e qualquer relação comigo." O georgiano põe a carapuça e se desculpa, mas o tom com que o faz é quase insolente: "Não creio ter dito nada de brutal ou de intolerável, ou contra o senhor, porque não desejo mais que vê-lo curado...
Mas, se julga que para manter as nossas relações eu tenha de retirar o que disse, eu retiro, embora continue não entendendo onde está o problema, em que consiste a minha culpa e o que se censura em mim." Ele não sabe ainda que à "Carta do Congresso" o vodz acrescentou um comentário fatal: "Stalin é excessivamente grosseiro, e este defeito, se tolerável nas relações entre comunistas, torna-se intolerável em um homem que ocupa o cargo de secretário-geral", de modo que os companheiros devem encontrar um meio de substituí-lo por uma personagem "mais tolerante, mais leal e respeitadora, menos caprichosa".
Apesar de algumas fases de ligeira recuperação, Lenin não mais ficará curado, e a 21 de janeiro de 1924 fechará para sempre os olhos, talvez sem nem imaginar as consequências que a escolha do secretário-geral terá para o futuro do partido, da Revolução e da União Soviética. Só para começar, a partir do XII congresso, que se realizou na primavera de 1923, Dzugasvili consegue passe livre para uma medida policial sem precedentes na história do movimento operário: a autorização para mandar prender os expoentes da oposição e instalar inquéritos contra os comunistas que não denunciassem supostas atividades subversivas contra o partido. Uma praxe que, nos trinta anos que se seguiriam, tornar-se-ia o esporte preferido de Stalin. A sua posição não será substancialmente enfraquecida nem mesmo pela decisão de Krupskaia de levar ao conhecimento do Comitê Central, poucos dias antes da abertura do XIII congresso do partido, a famosa pró-memória de Lenin sobre os defeitos do georgiano e sobre a oportunidade de substituí-lo por um companheiro menos violento. Stalin se apressa a apresentar a própria demissão, com plena consciência de que a perturbação pelo desaparecimento do Pai da Revolução induzirá até mesmo Trotski a rejeitar suas acusações.
Apesar disto, é exatamente contra Lev Davidovic [Trotski] que o secretário-geral desferirá um ataque sem precedentes, listando ponto por ponto seus supostos erros e dando, mais uma vez, uma guinada memorável, porque em sua intervenção emergem pela primeira vez dois tipos de técnica inquisitorial de que a promotoria pública se servirá amplamente nos processos instalados na década de 1930: a incriminação por analogia, como a definiu um grande historiador americano, no sentido de que se acusa alguém de ter repetido aquilo que já foi dito por outro, espião ou agente do inimigo de classe, comprovando a existência de uma ligação de cumplicidade entre ambos; e a evolução de culpas pregressas, expediente que se baseia em uma hábil junção de citações e de dossier policialesco. O Congresso não hesita um minuto sequer e condena por divisionismo tanto Trotski quanto os 46 companheiros que subscreveram um vibrante protesto contra os métodos despóticos de Stalin.
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O czar vermelho
O desaparecimento de Lenin abre definitivamente ao secretário-geral a via do poder absoluto, que ele irá obter gradativamente no decurso de poucos anos, mirando, por um lado, o controle total do partido por meio da eliminação sistemática de seus prováveis ou presumíveis concorrentes e, por outro, liquidando todos os grupos sociais e étnicos, todas as manifestações de pensamento científico, da cultura e da arte que considere um obstáculo à construção da sociedade ideal, uma comunidade de chumbo, de caráter totalitário, da qual deverá germinar o novo homem soviético. Seu despotismo faz dele uma espécie de czar vermelho, seguindo o modelo dos grandes protagonistas da história nacional: Ivan, chamado O Terrível, pelo terror por ele implantado depois de ter adotado pela primeira vez, na metade do século 16, o título de czar, e Pedro, cognominado O Grande, pelo processo de modernização forçada, adotado ao voltar de uma viagem de trabalho e de estudos ao Ocidente, em 1697.
A longa marcha de Stalin no sentido do controle absoluto do regime se conclui entre 1925 e 1928: mumificado Lenin e encaminhados os concorrentes mais perigosos para a beira do precipício, organiza a trama de seu poder partindo da secretaria, que será estruturada como um partido dentro do partido e acabará se tornando um projeto exemplar, com base no qual os partidos comunistas de todo o mundo modelarão no futuro os seus aparelhos: organização, propaganda, cultura, administração e até mesmo um serviço secreto. É uma estrutura que possibilita a Dzugasvili tecer a rede em que serão "enredados" um a um todos os seus possíveis rivais, e a prescindir da esmagadora maioria de que dispõe no Politburo e no próprio Comitê Central.
Seus adversários permanecem emaranhados na rede, sobretudo porque o georgiano contrapõe à sua brilhante inteligência um tosco bom-senso camponês e um planejamento minucioso que transforma o vivíssimo partido de Lenin em um gigantesco dinossauro burocrático, que deve se assemelhar a ele e a ele obedecer. As teses em torno das quais, na época da Segunda Internacional e nos primeiros anos da Revolução, se acendiam calorosos debates vão se apagando na memória dos velhos bolcheviques, reduzidas, como o foram por Stalin, a uma mecânica repetição de slogans, martelados como artigos de fé.
À medida que tal projeto vai se realizando, o secretário-geral vai amadurecendo uma paranoica exaltação do próprio papel, que se traduz, para o partido, o povo soviético e o movimento comunista mundial em um culto a sua personalidade, no qual se vê refletida a mensagem do seminário de Tiflis.
O quanto esta imposição será partilhada pelo povo russo fica demonstrado pela comovida reação ao processo de glorificação de Lenin, empreendido logo depois de sua morte e culminando com a exposição do corpo mumificado no mausoléu da Praça Vermelha — uma ideia de sabor medieval, porém que só escandaliza a viúva de Vladimir Ilich [Lenin], ainda ligada aos princípios do materialismo científico. Jamais condicionado por semelhantes ideias, Stalin pronuncia uma autêntica homilia, exaltando "a matéria especial" de que seriam feitos os comunistas e concluindo com um juramento solene ao defunto, de cumprir "honrosamente" suas diretrizes.
Este componente místico pode, de certo modo, explicar o aspecto mais estupefaciente da história do comunismo: a disponibilidade do militante acusado pelos inquisidores stalinistas de crimes que nunca cometeu a considerar-se culpado, a aceitar a prisão ou o gulag, e até a deixar-se fuzilar entoando louvores a Stalin e ao partido. Voltaremos a este ponto. Seja como for, por mais que possa ter havido "pressões físicas", ou seja, a tortura, e ameaças à liberdade e à sobrevivência dos parentes — e tratou-se, sem dúvida alguma, de uma parte importante destes —, o fenômeno se manifestou com uma frequência impressionante. É um ímpeto de fé que resolve também problemas ideológicos fundamentais. A partir do momento em que, por exemplo, na situação mundial do início da década de 1920, Stalin se convence de que o princípio da solidariedade internacional, embora basilar na história do movimento operário, ora está totalmente subordinado às exigências de desenvolvimento e de defesa da União Soviética e do PCUS, os partidos "irmãos" (salvo raríssimas exceções) aceitam disciplinadamente as teses do socialismo em um só país — inutilmente criticadas e ironizadas por Trotski —, resignando-se a se considerarem subordinados à URSS, ao PUCS e, em última instância, ao próprio Stalin.
Sua solitária ascensão ao vértice é naturalmente agilizada pela habilidade com que superou o impasse do "testamento" de Lenin que Krupskaia, nem um pouco impressionada com a homilia fúnebre, pôs em pauta no XIII Congresso do PCUS, em maio de 1924. Além da fingida demissão do secretário-geral, truque que repetiria nos anos seguintes, foram Zinoviev e Kamenev que fecharam questão em torno dele, considerando-o irrefletidamente menos perigoso que Trotski, então com grande popularidade como símbolo da ala revolucionária do movimento. Zinoviev subiu à tribuna para explicar como, por felicidade, os temores de Lenin não estavam se verificando: já que Stalin não se mostrava na realidade violento e, ao contrário, tinha aceitado com a maior modéstia dividir com ele e com Kamenev as responsabilidades máximas do partido, ele deveria por isso permanecer em seu posto. E quanto à embaraçosa pró-memória do defunto, decidiu-se que ela não deveria ser distribuída a todos os companheiros, mas apenas aos dirigentes das delegações congressuais — premissa indispensável para que Stalin pudesse ser confirmado no cargo, de que saberia servir-se no devido momento para livrar-se, antes de tudo, de todos aqueles ingênuos que tinham tomado a sua defesa. Quando se deram conta do seu erro, os dois antigos amigos de Stalin se reaproximaram do ex-comissário da Guerra, mas Trotski não se mostrou mais hábil do que eles para pôr em dificuldades o secretário-geral que, apoiado em uma sólida maioria de centro-direita, manobrou facilmente no sentido de neutralizá-los, contestando suas contradições, as intrigas e os contrastes recíprocos do passado, sua desmedida ambição e desencadeando contra eles a sutil dialética de Bukarin e as insolências vulgares das assembleias.
No primeiro confronto mais duro é Kamenev quem inaugura o triste rito da autocrítica, que em breve viria a se tornar um dos instrumentos prediletos de domínio do secretário, segundo a tradição do grande romance russo à Ia Dostoievski ou, se preferirem, a tradição da liturgia clássica da Igreja. A admissão das próprias culpas, supostas ou reais, por parte do réu confesso consegue, ao mesmo tempo, reunir mais de um objetivo: a humilhação infamante do arrependido, a premonição de seu aniquilamento e até mesmo medidas mais drásticas julgadas oportunas, sobretudo quando servem para descarregar sobre a vítima erros e disfunções do regime que, caso contrário, poderiam ser postos na conta do próprio secretário-geral.
São as primeiras manifestações do delírio obsessivo de Iosif Visiarionovic Dzugasvili. Em 1928, para realizar a transformação da União Soviética em um colosso industrial capaz de enfrentar o desafio dos países capitalistas no brevíssimo tempo que sua impaciência lhe sugere, ele deslancha "uma guerra contra a nação", que tem como fundamento a imposição de sacrifícios humanos às castas rurais: nominalmente, apenas aos kulaki, considerados, por definição, inimigos de classe, ou mesmo a personificação do mal na sociedade socialista; mas na prática, por meio da coletivização obrigatória das terras, a todos os camponeses.
A impeli-lo nessa direção intervém também o seu mal-estar com as acusações que continuam a ser-lhe dirigidas por Trotski e pelos demais expoentes da esquerda revolucionária, segundo os quais o regime estaria representando o Termidor do Outubro Vermelho. Por isso, antes de desencadear a sua "guerra contra a nação", o secretário-geral toma providências no sentido de desembaraçar-se dos companheiros que ainda lhe fazem sombra tanto à direita como à esquerda, jogando uns contra os outros, iludindo-os, enganando-os, aterrorizando-os. Entre o final de 1928 e o início de 1929, Bukarin e Rikov, Tomski e Frumkin — um vice-ministro que ousou criticar o georgiano — são afastados de seus cargos com a acusação de divisionismo.
Quanto a Trotski, cuja linha está começando a pôr em prática, Stalin o marginaliza entre 1927 e 1929, primeiro relegando-o juntamente com seus mais fiéis colaboradores, para Alma Ata, distante localidade do Cazaquistão, nos limites com a China, e obrigando-o, depois, a abandonar a própria União Soviética para iniciar aquela vida errante e indômita que o levará, finalmente, ao México. Ali, onze anos depois, ele será massacrado a golpes de picareta por um sicário da NKVD, como o secretário-geral já decidiu desde 1939, convencido de que a eliminação "daquele despudorado charlatão menchevique" representará a derrocada de todo o movimento dos dissidentes.
Nesse período, embora empenhado na luta feroz pela conquista do poder, Iosif é ainda um homem simples, que tem uma vida privada modesta e até certo ponto prazerosa, com uma única preocupação: uma saúde precária devido aos póstumos males pulmonares e reumáticos adquiridos nos anos de clandestinidade, na prisão e nas seguidas deportações para a Sibéria, males de que cuida com frequentes estadias nas termas georgianas de Soci, no Mar Negro, ou alternando o trabalho no Kremlin com o descanso na dacha [casa de campo] que fez ser-lhe destinada em Zubdovo, nos arredores de Moscou, e onde não deixa de hospedar amigos e parentes (até mesmo sua primeira mulher e o filho Jakov, que continua muito ligado a ele), para jogar bilhar com eles, cultivar a terra e cuidar dos bosques que circundam a mansão. É este o melhor período de seu casamento com Nádia Allilueva, que em fevereiro de 1926 lhe deu também uma filha, Svetlana, embora sua mulher seja demasiado inteligente e emancipada para resignar-se facilmente à mentalidade do marido e à sua pretensão de que se dedique exclusivamente a ele e a sua família, como se usa na Geórgia.
É esta a única nuvem sobre seu casamento que aninha, porém, em seu seio uma terrível tempestade, porque Nadezda cai de vez em quando em uma crise de nervos, como aconteceu pouco antes do nascimento de Vasili, quando desapareceu por dois meses, só voltando para casa depois de repetidos pedidos de Iosif, e como aconteceu subitamente depois do nascimento de Svetlana, quando pegou as duas crianças e levou-as para seus genitores em Leningrado (a cidade ora mudou novamente de nome). Pouco depois da segunda fuga, porém, vamos encontrá-la novamente junto ao marido, que escreve, como se nada tivesse acontecido, a sua sogra, agradecendo seus presentes de velha camponesa, especialmente as marmeladas pelas quais Soso "é louco". Entre os dois existe, na realidade, uma relação bastante complicada, feita de amor e ciúme, e perturbada por um neurótico temor de se perderem que os leva a se torturarem: Stalin deve ir verificando que, no final das contas, é mais fácil conquistar um império que governar os sentimentos e os impulsos de uma mulher em cujo sangue serpenteia a febre da loucura. Pois tanto sua mãe quanto Fedor, seu irmão, sofrem, de fato, de perturbações psíquicas que no jovem vêm a acentuar-se devido a um trauma sofrido por ocasião da guerra civil.
O extermínio dos kulaki
A "guerra civil" contra os camponeses ricos, os kulaki, se enquadra no contexto do primeiro plano quinquenal, que deve ser realizado, custe o que custar, até o final de 1932. Na liturgia soviética o plano se torna um totem ao qual não só os russos como todos os comunistas do planeta devem tributar preces e sacrifícios humanos: quem opuser qualquer obstáculo à sua realização, seja apenas do modo teórico ou do ponto de vista técnico, será considerado um sabotador, um traidor, em suma, um inimigo do povo. O primeiro processo do gênero tem lugar em maio de 1928, contra um grupo de especialistas que, na bacia mineradora de Sachty, não conseguiram evitar incidentes graves apenas porque as máquinas estavam desgastadas e as peças de substituição em falta. Emerge nesta ocasião o ex-menchevique Andrei Vishinski, que viria a revelar-se o mais implacável dos acusadores públicos à disposição de Stalin para as suas diabólicas maquinações.
O ponto de chegada deveria ser o desenvolvimento de uma indústria forte, capaz de fazer frente à dos países capitalistas; mas, para chegar a este ponto, é indispensável contar com uma agricultura coletivizada: um círculo vicioso que o secretário-geral romperá brutalmente, provocando, no decurso de poucos meses, indescritíveis sofrimentos e consequências catastróficas para o mundo campesino, enquanto que a consecução dos objetivos industriais diluir-se-á no tempo. Em todos os casos, a rigidez a que tendem o plano e seu inspirador acabará comprometendo irreparavelmente, a distância, não só o futuro da economia soviética, mas o próprio destino do comunismo. E não é apenas a necessidade de prover a uma acumulação de recursos para financiar o Grande Salto Adiante da indústria que suscita uma determinação tão impiedosa contra os camponeses. Marx já havia rotulado o trabalho deles de "idiota", e Stalin está convencido, pelo menos tanto quanto ele, da superioridade política e moral das condições operárias e define, realmente, como "luta de classes no campo" o programa aprovado pelo Comitê Central, em certo dia de agosto de 1929, para realizar de maneira fulminante a coletivização de massa em algumas regiões-piloto. Os camponeses considerados ricos são obrigados a ceder ao Estado cotas elevadíssimas de grão, e, se não atingirem o teto preestabelecido no gabinete dos burocratas do partido, serão punidos, na melhor das hipóteses, com o recolhimento de sua safra, quando não até mesmo com o confisco de sua propriedade, a reclusão e a deportação. Terras e gado são expropriados em favor dos kolkhoz, isto é, de fazendas coletivas que representarão depois sedutores incentivos para os camponeses remediados e pobres a que deixem no abandono seus pequenos lotes de terra.