Tiranos

Antonio Ghirelli · Capítulo 5 de 10

Páginas do PDF

Tiranos

Franco

O burocrata do garrote

 

No plano interno embalsamou a Espanha, fazendo-a perder quarenta

anos, 

convencido de que o tempo perdido estivesse sendo um tempo ganho

(...) 

Finalmente realizou a obra-prima de trazê-la de volta a uma

Monarquia constitucional 

e, como tal, democrática, cujo sucessor foi por ele próprio criado. 

Na repressão foi muito mais duro e impiedoso que o fascismo, com o

qual não aprendeu lição alguma. 

E como homem foi um dos mais inexpressivos, obtusos e lúgubres que já

conheci.

INDRO MONTANELLI 

 

Generais e caciques

 

Um repertório completo das monstruosidades que caracterizam o século 20 seria não só tedioso, como também desviante, porque o que as distingue não são as manifestações de extrema ferocidade, comuns a todas as épocas e a quase todos os povos, e sim a aprovação de que se viram cercados seus autores junto à opinião pública, graças à sedução dessa civilização midiática.

Do século 19 herdamos apenas uma star do extermínio, realizado no momento de uma guerra, aos olhos de todos, Napoleão Bonaparte, embora circundado de um culto quase religioso que se prolongou por muitas décadas depois de sua morte. O século 20, ao contrário, inebriado com a fúria das ideologias e com a difusão dos meios de comunicação de massa, presenteou-nos com uma dúzia deles e conseguiu, naturalmente, dificultar bastante a seleção.

Entre os campeões do que então se chamava de esquerda, Stalin, Mão Tsé-tung e Pol Pot são candidatos incontestáveis, graças a suas incomparáveis credenciais. Na outra vertente, a comparação com Hitler tende provavelmente a suscitar certa perplexidade quanto à complementação deste grupo, mesmo que se julgue que Benito Mussolini merece — e não só por nosso amor à pátria [italiana] — um discurso diverso. É fato inconteste que, mesmo tendo nascido em função de baluarte contra o bolchevismo, o fenômeno do fascismo (e de sua pior variante, o nacional-socialismo alemão) não atingiu, como o comunismo, uma universalidade de identificação e de proliferação. Foi, na realidade, em países de cultura antiga que as classes privilegiadas tolheram o passo aos processos de modernização e de libertação por meio de um repentino enrijecimento das estruturas institucionais já existentes, recorrendo à simplificação brutal, mas efêmera, que é a ditadura militar. Em outras regiões, no Terceiro Mundo, as coisas se passaram de maneira diferente. As esperanças de emancipação desses povos foram em grande parte frustradas em consequência de um desditoso concurso de circunstâncias: a pressão dos ex-colonizadores no sentido de transformar o domínio político-militar de uma época em uma difusa penetração econômica; as intrigas das duas potências comunistas, a URSS e a China, visando a atrair estes países para sua esfera de influência; a imaturidade, ou até mesmo a inexistência, de classes dirigentes nas ex-colônias. Estas circunstâncias muitas vezes aceleraram a afirmação de pequenos tiranos locais, que, propondo-se como mediadores num ou noutro sentido, souberam açambarcar ajudas, armas e recursos financeiros para impor um caprichoso despotismo pessoal ou uma hegemonia pelo terror à própria tribo. Os Bokassa e os Amin Dada, na África, os Sukarno e os Saddam Hussein, na Ásia, são apenas algumas das personagens que pavimentaram a estrada de seus sucessos com barbáries inauditas, terríveis limpezas étnicas ou políticas, desavergonhadas roubalheiras, quando não até de repugnantes episódios de canibalismo.

Generais e caciques, portanto. Deixando de lado a história dos caciques, visto serem terrivelmente retrógrados, vamos deter-nos em dois generais, um europeu, o outro sul-americano, que, mais que tantos outros, encarnaram no século 20 a macabra tentativa de bloquear, a qualquer preço, o processo de modernização e de libertação em seus países, com o beneplácito das classes privilegiadas e em nome da ordem e da tradição, mas sem a pretensão, como no comunismo ou no fascismo, de criar um Homem Novo, conforme a seu modelo totalizador. Um deles é Francisco Franco y Bahamonde, vencedor da guerra civil e chefe do Estado espanhol. O outro é Augusto Pinochet, destruidor da democracia chilena e ditador deste país andino durante quase vinte anos. É deles que passaremos a falar.

 

Um enorme atraso

 

"Em menos de um século depois da morte de Fernando VII, a Espanha teve 104 governos, três guerras civis, umas trinta rebeliões militares, diversas revoltas republicanas, três regimes, uma República, cinco Constituições, uma rainha destronada, um rei estrangeiro, uma meia dúzia de presidentes de Estado assassinados, inúmeros massacres, saques de conventos, assassinatos em massa de religiosos, atentados contra o rei e, por fim, a derrubada do rei e a derrocada de nossa secular Monarquia." Esta é a síntese da situação da Espanha que o General Franco traça, em um discurso realizado no Parlamento de Madri, às cortes, na primavera de 1946, com o evidente objetivo de exaltar a função "normalizadora" de sua ditadura, uma ditadura "sociológica", como a definiria Maurice Duverger, destinada a pôr em evidência o projeto franquista de "bloquear o desenvolvimento de formas político-econômicas mais modernas" por meio do "aumento de potência das estruturas tradicionais conservadoras" ou algo pior.

Na realidade, temos de voltar muito mais atrás no tempo. A crise endêmica da sociedade espanhola começa a delinear-se em época muito mais remota que a da morte de Fernando VII, e nasce de razões bem mais complexas que a instabilidade política e institucional, efeito apenas, e não causa, do enorme atraso histórico do país com relação a quase todo o resto da Europa. Por outro lado, é exatamente em defesa dos interesses favorecidos por este atraso que Franco adere ao alzamiento de 1936 contra a República democrática e constrói em seguida seu próprio regime. Não seria, contudo, arbitrário fixar o início deste processo, que foi considerado também uma "refeudalização" da sociedade espanhola, nos acontecimentos que marcaram o final do século 15: a unificação dos reinos de Castela e Aragão com o matrimônio de Fernando e Isabel, a capitulação do último bastião muçulmano (o Reino de Granada), a descoberta e a conquista da América, o início da perseguição e depois a expulsão dos mouriscos e dos judeus sob o signo da Santa Inquisição.

Os sete séculos de presença árabe e a convivência pacífica com os judeus desde os tempos da Idade Média tinham enriquecido a Espanha não só com o patrimônio cultural destas duas fortes minorias, como também com a reconhecida eficiência econômica dos mouriscos, como agricultores, e dos judeus, como comerciantes e empreendedores. Paradoxalmente, estas atividades eram deixadas quase que em regime de monopólio em suas mãos pela aristocracia de Castela e Aragão, que as considerava indignas do próprio nível, e como tais continuou a julgá-las, talvez até com maior convicção, nos dois séculos que se seguiram à descoberta do Novo Mundo, a ponto de contagiar com esta irredutível alergia os próprios grupos dirigentes dos países colonizados pelos conquistadores de além-mar e pelos exércitos de Carlos V e de Felipe II na Itália, sobretudo a meridional. Impediu-se, assim, de maneira irreparável, a formação daquela burguesia empreendedora e laboriosa que nos Países Baixos, na Inglaterra e na França iria lançar as bases da primeira Revolução Industrial e da democracia representativa.

O desprezo dos hidalgos [fidalgos] pelo trabalho no campo e o tráfego mercantil não nascia apenas de um instinto de classe, mas também da convicção da inferioridade racial das duas minorias que a exerciam e de sua desprezível condição de heréticos. No período da Santa Inquisição e da Contra-Reforma, a Igreja não fazia mais que alimentar estes arraigados preconceitos, tanto na Europa quanto no Novo Mundo: para disto arrepender-se, depois de quatro séculos, teria de vir a encontrar a coragem de um Papa Wojtyla. Prescindindo, por conseguinte, do acervo cultural daquelas orientações, as consequências da vocação parasitária da nobreza se revelaram funestas para a sorte do próprio Império Espanhol: as imensas riquezas em ouro e prata roubadas pelos conquistadores na América serviram apenas para alimentar o desenfreado luxo dessa mesma aristocracia, fomentado pela corte com o fim de desencorajar qualquer iniciativa dos referidos hidalgos, quando não de financiar uma interminável e desastrosa sequência de guerras desencadeadas visando impor à Europa uma hegemonia empastada de uma arrogante beatice — que ingleses e franceses aniquilariam nos mares e nos campos de batalha— enquanto a rigidez do sistema fiscal e a corrupção da burocracia real empobreciam até o desespero os camponeses e as plebes urbanas. A magnificência artística e literária do "Século de Ouro" não serviu, obviamente para atenuar os desequilíbrios entre as camadas sociais, e muito menos entre as regiões, cuja fragmentação orográfica e geográfica, aliás, não viria, certamente, a propiciar o processo unificador que os castellanos visavam a impor com opressivo centralismo.

É destas premissas que se extrai a instabilidade social e institucional da Espanha, capaz de reencontrar o orgulho de seu glorioso passado apenas na emergência dramática da história (como se deu no início do século 19, quando Napoleão tentou em vão transformá-la em um apêndice de seu Império familiar), mas tendendo a recair imediatamente no caos dos contrastes internos e dos sobressaltos rebeldes, quando não cercados de ameaças estrangeiras.

Do século 18 ao século 19, o rei e os seus favoritos não conseguem realizar uma única das inúmeras reformas indispensáveis, e muito menos tirar das suas costas a pesadíssima hipoteca da Igreja; e no século 19, entre a queda de Bonaparte e a longa contestação dos carlistas (seguidores antiliberais de Don Carlos, irmão de Fernando VII e pretendente ao trono), sucedem-se intricadas vicissitudes de guerras entre dinastias e de pronunciamientos,13 que só vão terminar nos primeiros anos da década de 1870, com a renúncia ao trono do pretendente carlista em favor de Alfonso XII de Bourbon, rei constitucional.

Neste ínterim, porém, perderam já as colônias americanas, e o desenvolvimento da economia nacional é de tal maneira lento que escancara as portas a uma espécie de colonização às avessas, desta vez em benefício do capital estrangeiro. O percentual de trabalhadores da indústria cai abaixo de 6%, o dos agricultores (em sua maioria míseros assalariados rurais) chega a atingir neste período 66% da mão de obra, com um nível de vida absolutamente intolerável. Não é por acaso que o governo de Sua Majestade cria, em 1844, a Guardia Civil, uma polícia encarregada de garantir a ordem e o status quo social contra as primeiras tentativas de organização sindical que surgem naqueles anos. Mas, evidentemente, é preciso algo mais para criar um clima de crescimento harmonioso: no século que, de certo modo, precede o alzamiento (levante) militar contra o governo republicano de Madri, a Espanha conheceu uma tumultuada alternância entre uma Monarquia cada vez mais conservadora, uma ditadura parafascista como a de Miguel Primo de Rivera e, finalmente, uma República contra a qual se levantam, em meados da década de 1930, os generais hostis à democracia. Neste meio tempo, também os últimos restos do império, Cuba, Porto Rico e as Filipinas, são perdidos na guerra de fins do século 19 com os americanos, em consequência de uma derrota militar que acarreta duas graves consequências: uma exacerbação das correntes nacionalistas, que em 1919 tentarão se refazer com uma expedição colonial em Marrocos, que acabaria em total fracasso, e um enrijecimento da repressão ao movimento operário, que há dez anos já se traduzira em uma trágica semana de sangue em Barcelona e no fuzilamento de um dirigente anarquista, Francisco Ferrer.

É o estado de frustração provocado por estes acontecimentos que dá margem, no outono de 1923, ao sucesso de mais um pronunciamiento (golpe), o de Miguel Primo de Rivera, um general do Exército que se inspira nos princípios corporativistas do fascismo, que acabava de mostrar-se vitorioso na Itália.

Embora conservando formalmente o estatuto monárquico, ele instaura uma ditadura pessoal com um programa preciso: a depuração do pessoal político e a colocação do movimento operário fora da lei. De início, a habilidade com que encerra o capítulo da guerra em Marrocos lhe atrai o beneplácito popular, mas, a seguir, os graves erros em matéria de política econômica e externa comprometerão sua popularidade, de tal maneira que a tardia evolução no sentido de uma organização menos autoritária por parte das instituições não é suficiente para impedir sua queda. Por sorte, ele tem o bom-senso de passar pacificamente o governo às mãos de Alfonso XIII, que, em um primeiro momento, arrisca um par de soluções aventurosas para a crise, mas depois se deixa convencer a convocar eleições administrativas, na ilusão de que os votos do campo salvarão a Monarquia. Sucede, ao contrário, que os da cidade a rejeitam clamorosamente, orientando-se todos para a opção republicana. É uma outra revolução, também ainda pacífica. A 14 de abril de 1931, um comitê reformista assume o poder em Madri e obriga o soberano a partir, dois dias depois, para o exílio na França.

A aliança com a Igreja, a alta burguesia e o Exército não foi suficiente para salvar-lhe o trono, mas a estupidez da classe dirigente, por sua vez, levara gradualmente nos primeiros trinta anos o proletariado e boa parte da camada intelectual a posições de esquerda até certo ponto extremadas, do anarco-sindicalismo ao socialismo, do comunismo ao trotskismo, em um deslocamento revolucionário e, ao mesmo tempo, caótico, que reflete de maneira ostensiva a cega intransigência dos poderes fortes e, mais ainda, a falta, no país, de uma burguesia difusa e empreendedora, aberta aos valores do laicismo e da modernidade, e por isso capaz de mediar uma solução democrática de tipo reformista, como a que tenta fazer o governo Zamora no primeiro ano da experiência republicana. O conservador católico Niceto Alcalá Zamora, que tinha sido também ministro do rei, declara-se, em 1930, disposto a governar "com os bispos", mas quando começa a fazer isto vê-se preso entre dois fogos: da esquerda, anarquistas e comunistas acentuando a tendência anticlerical, pressionam no sentido de expulsar da Espanha o primaz Segura, cardeal-arcebispo de Toledo, que é, realmente, um ferrenho opositor da reviravolta institucional ocorrida; da direita, os monarquistas, cobrando de Zamora o exílio de Alfonso XIII, além da humilhação infligida ao cardeal.

Quando, em junho de 1931, realizam-se as eleições para as cortes, socialistas e republicanos obtêm um sucesso extraordinário, garantindo para si três quintos das cadeiras, mas nem por isso conseguem controlar os movimentos de rua que surgem, tanto na cidade quanto no campo, dos gravíssimos problemas sociais que vão levar a confrontos abertos com a Guardia Civil. Paralelamente, a ruptura de relações diplomáticas com a Santa Sé acelera a crise do governo presidido por Zamora, que, em outubro, é obrigado a demitir-se, vindo a ser substituído por Manuel Azalia. Trata-se de um grande intelectual, de orientação nitidamente esquerdista, contudo nem mesmo ele está em condições de conter as turbulências de um país lacerado por profundas contradições que, naturalmente, se refletem nas oscilantes decisões do próprio executivo. Dois meses depois da saída de Zamora, é lançada, de fato, uma Constituição de caráter marcadamente laico e democrático, e que depois o mesmo Azaria renegará, pelo menos em parte, limitando seriamente as liberdades constitucionais com uma lei "em defesa da República"; Constituição, tornada, por outro lado, necessária pela crescente oposição que vem dos meios militares, clericais, nacionalistas, dos grandes proprietários de terras escaldados pela reforma agrária e, paradoxalmente, envolve até as massas camponesas, ainda profundamente ligadas à doutrinação da Igreja.

Acresce a isso uma perturbação que não é em absoluto negligenciável, que atinge o governo Azaria, vinda das oposições internas à sua maioria, que não se atém totalmente a uma linha de moderação, mas, em boa parte, alimenta no país uma série de agitações e de escaramuças nas ruas às quais as forças conservadoras respondem com a formação dos primeiros movimentos organizados, como as chamadas Juntas, de ofensiva nacional-sindicalista; e que, juntamente com a clássica parelha do trono e do altar, exaltam também "os destinos imperiais da raça" (não a ariana, tão cara a Hitler, mas simplesmente a espanhola). Às Juntas vem em seguida dar mão forte a Falange, um reagrupamento criado pelo filho de Primo de Rivera, José Antonio, que não hesita em definir-se ao mesmo tempo como fascista e nazista, mas ostenta igualmente uma clara atitude patriótica. E, como se isto não bastasse, de uma costela do movimento republicano nasce uma confederação das direitas autônomas de inspiração democrático-cristã, a CEDA, dirigida por Gil Robles. É um sinal inequívoco de uma reconquista [da direita] que, também graças às contradições internas da maioria, será confirmado pela sensacional reversão política provocada pelas eleições de novembro de 1933, cujo mecanismo majoritário assegura aos vencedores 80% das cadeiras. E os vencedores, agora, são de direita.

É dela que surgem um executivo e uma nova maioria, que realizam em breve tempo uma poderosa contrarrevolução na sociedade, começando com a restituição aos latifundiários de grande parte das terras distribuídas pelo governo anterior aos camponeses, para passar em seguida a uma forte repressão da ação sindical nas fábricas, fazendo as castas militares recuperarem também seu fôlego. É em outubro de 1934 que, em resposta a esta guinada reacionária, a esquerda desencadeia uma "greve geral revolucionária", que atinge momentos de extrema violência na Catalunha e nas Astúrias; nestas últimas proclama-se até a criação de uma comuna: e ainda uma explosão de extremismo, à qual a autoridade central rebate com igual dureza, deixando no local 24 mortos e 45 feridos. O novo presidente do conselho, Alejandro Lerroux, um ambíguo radical há muito que se desligara dos antigos amigos republicanos, desencadeia uma onda de cerca de 50 mil prisões — inclusive a totalmente injustificável prisão do Professor Azaria — e nomeia ministro da Guerra o católico Gil Robles, o homem da CEDA, cuja primeira decisão é a substituição dos funcionários republicanos de seu ministério por oficiais monárquicos: um deles é o novo chefe do Estado-Maior, o General Francisco Franco y Bahamonde. 

OceanofPDF.com

Um grande burocrata

 

Já se disse que, para compreender Franco, temos de levar em conta sua origem galega. A característica mais significativa desta região, de frente para o Atlântico, na qual se fala uma língua mais próxima do português que do castelhano, é a retranca, ou seja, a reserva com que o galego "se mantém em cima do muro ou dissimula as próprias intenções". Que o general golpista tivesse esta índole se confirma com a célebre anedota de seu encontro com Hitler em Hendaye, na fronteira franco-espanhola, em 23 de outubro de 1940.

O chefe de Estado espanhol chega ao local do encontro com uma hora de atraso, e esta descortesia irrita o Führer, que, no diálogo que se prolonga por cerca de nove horas, tenta em vão convencer seu interlocutor a entrar na guerra ao lado da Alemanha e da Itália, ou, pelo menos, a consentir na passagem da Wehrmacht pelo território espanhol para ocupar Gibraltar, ponto de apoio vital no quadro do conflito do Mediterrâneo.

Além da promessa de organizar uma expedição de 50 mil voluntários que participarão da guerra na frente russa, o ditador espanhol não concede a Hitler mais que cordiais garantias de amizade. Poucos dias depois, por ocasião de um encontro em Florença com Mussolini, ao contar-lhe a firme recusa de Franco, o Führer deixa escapar esta: "Eu preferiria que me arrancassem três ou quatro dentes a ter de vê-lo novamente!" Por sua vez, quatro anos depois, em Salò, Mussolini confidencia a um amigo alemão: "Quando Franco saiu vitorioso da guerra civil, os serviços que a Itália e a Alemanha lhe haviam prestado foram de imediato esquecidos. E embora em política não se possa nunca contar com a gratidão e com o reconhecimento, não seria demais esperar que Franco tivesse estreitado os laços com as potências do Eixo." Na verdade, tanto o Duce quanto o Führer sabiam perfeitamente disto, porque tinham sido informados a respeito por Ciano*, a quem, em 1939, Franco havia dito explicitamente que precisaria de um período de paz de, pelo menos, cinco anos, devido às enormes perdas humanas e ao assustador déficit econômico que a guerra civil lhe havia deixado sobre os ombros.

 

*Ciano, Galeazzo — Membro do Grande Conselho fascista, genro

de Mussolini, nomeado em 1936 ministro das Relações Exteriores da Itália. (N. T.)

Francisco Franco, chamado de Paquito, nasceu em 1892, o segundo de cinco filhos, em El Ferrol, na Galícia, de uma antiga família de funcionários navais, e nutre, por isso, desde menino, uma grande paixão pelo mar. No entanto, não poderá entrar para a Marinha, porque a derrota na guerra de Cuba obrigara o governo a reduzir consideravelmente as despesas e os efetivos militares; e esta desilusão será um dos motivos de suas frustrações antidemocráticas. O pai, Nicolás, é um libertino: trai a mulher sempre que pode e, quando fica viúvo, casa-se com a criada. O filho não o ama, mas a antipatia é recíproca, ainda mais porque Nicolás jamais reconhecerá a grandeza de seu pimpolho, e quando tentam explicar-lhe quem ele se tornou, exclamará zombeteiramente: "Quem, Paquito, virou um caudilho? Ah, não me façam rir!"

Em 1942, vingar-se-á pela última vez do glorioso filho, indo morrer em um bordel e obrigando o governo a transportar o cadáver para o hospital para abafar o escândalo, pretendendo que ele teria morrido na rua, de um ataque.

Não é, por certo, ao pai que Paquito deve a sua educação rígida e carola, e sim à sua mãe, Doña Pilar, senhora piedosa e caritativa, que bate no peito na igreja, e à noite dá aulas aos pobres na escola operária. Favorece a formação religiosa do rapaz a colaboração dos bons mestres do Sacro Cuore, a escola na qual o matricula com satisfação acrescida pelo fato de Paquito ser por natureza virtuoso, dominado como é por complexos devido a sua baixa estatura, sua tendência a engordar e voz estridente, um tanto feminina. Em compensação, porém, tanto no Sacro Cuore quanto na Academia de Infantaria de Toledo, onde, por falta de algo melhor, se resigna a entrar, mostra-se um aluno-modelo, zeloso e disciplinado, primeiro da classe típico, que os companheiros de turma chamarão ironicamente de "senhorita". Mas já é um militar completo, quando, em julho de 1910, sai da academia com os galões de subtenente. Dois anos depois, a pedido seu, é mandado para Marrocos, onde o Exército espanhol está tentando recuperar, pelo menos em parte, o prestígio perdido na guerra com Cuba. Aí depara-se com a tenaz e indomável guerrilha dos bandos locais, uma experiência valiosa para o jovem galego, que acumula condecorações e promoções combatendo à frente dos regulares, os aborígines recrutados (tal como os áscaros italianos) sob a bandeira da potência colonial.

O forte sentimento religioso do filho de Dona Pilar se reforça em 28 de junho de 1916, quando, indo à frente dos regulares atacar uma colina tomada pelos marroquinos, é gravemente ferido por um projétil que lhe transpassa o ventre.

Os médicos militares o dão como desenganado, a ponto de fazer virem os pais da Espanha, mas Franco é resistente: não só se salva, como protesta junto ao ministro porque querem conferir-lhe apenas uma medalha de segunda categoria, e obtém assim a de primeira e uma promoção a major.

Aos 24 anos é chamado de volta à pátria para juntar-se a um regimento sediado em Oviedo. Outro encontro fatal, porque aí conhece uma menina de quinze anos, Carmen, pela qual se apaixona imediatamente, mas que só virá a desposar quando a carreira (que para ele vem antes de tudo) o permitir. Por ora, o Major Franco alterna as tarefas administrativas da caserna, realizadas com incomum minúcia, com o estudo das grandes batalhas da guerra que se realizam na Europa e que ele descreve para os colegas em uma série de conferências. A um inegável escrúpulo profissional o galego une opiniões políticas bastante claras, a convicção de que todos os males da Espanha, da derrota na guerra de 1898 às greves sindicais, derivam da impotência do regime democrático e de obscuros recursos de imprecisas "forças maçônicas" mundiais, de que os bispos igualmente falam. Sua convicção se reforça definitivamente no verão e no outono de 1917, quando é chamado a realizar serviços de ordem pública contra a séria greve geral promovida nas Astúrias, enquanto segue, com indignação, o vitorioso progresso da revolução bolchevique na Rússia. A partir daquele momento, seu anticomunismo estará sedimentado; aliás, na repressão à greve nas Astúrias fornece-lhe um eloquente ensaio para seu temperamento, agredindo os mineradores "como se se tratasse de uma caça ao ser humano", abrindo fogo ao menor sinal de resistência e deixando atrás de si "um rastro de sangue e de violência".

Terminada a [primeira] guerra mundial, é envolvido por seu amigo e correligionário José Millán Astray no projeto de criar em Marrocos uma espécie de Legião Estrangeira espanhola, a exemplo da francesa, que é o Tercio de los Estranjeros, e a adia até o casamento com Carmen para atender ao chamado africano. Astray não é menos fanático que ele: para criar "um espírito legionário" vai se fundamentar, nada mais, nada menos, que no código dos samurais japoneses, expresso pelo macabro grito: "Viva la muerte!", que se tornará o mote dos nacionalistas inimigos da República. Todos os recrutas do Tercio são agredidos pelo ardoroso general com uma intimidação de certo mau agouro: "Sabe por que veio para cá? Você veio para morrer!" Franco põe à disposição desta gloriosa empresa fúnebre seu indiscutível talento de escrupuloso organizador, e pode-se mesmo dizer que nesta singular simbiose estaria a síntese do que viria a ser o franquismo. Muitos anos mais tarde, quando já era há muito um caudilho, confiará a um livrinho de ouro (Diário de uma Bandeira) as memórias de uma aventura na qual, aos heroicos combates, estão mesclados episódios de inacreditável pedantismo, como quando, na véspera da evacuação de um setor da frente marroquina, exige de seus oficiais o dever de manterem em dia as contas do regimento para não ofuscar a "honorabilidade" da corporação.

No outono de 1923, pouco antes de seu casamento com Carmen, Franco se regozija com o afortunado golpe de Primo de Rivera, o Ditador, que, apesar de admirar Mussolini, aplica mais brandamente a fórmula autoritária, decidindo, entre outras coisas, evacuar as províncias internas em Marrocos para concentrar no litoral as tropas ameaçadas com a sublevação de Abd el-Krim. O galego não partilha desta opinião, mas se dobra às ordens de Madri, e de tal modo contribui para a manobra que vem a merecer, no início de 1925, a promoção a coronel por mérito de guerra. Doze meses depois, com apenas 33 anos, é o mais jovem general do Exército espanhol; a seguir é chamado para dirigir a Academia Militar de Saragoza. Seu crescente prestígio não é abalado sequer pelas iniciativas subversivas de Ramón, seu irmão, um brilhante aviador de tendência republicana, que se lança de corpo e alma em uma conspiração que culmina, em dezembro de 1930, em uma ousadíssima tentativa insurrecional. A tentativa fracassa e Ramón é obrigado a fugir para a França, enquanto os dois chefes da conjuração são presos, processados e fuzilados.

É o General Berenguer, que sucederia a Primo di Rivera depois de sua demissão, quem põe em debandada os conspiradores, mas a dureza da intervenção faz ver com maus olhos a causa monárquica, exatamente na véspera das eleições administrativas de 12 de abril de 1931, que se encerram com um espetacular sucesso dos partidos democráticos e obrigam Alfonso XIII a ir para o exílio para não comprometer definitivamente a causa da dinastia. O General Franco é monarquista convicto, mas prudente: avaliando as reais relações de forças no momento, dirige a seus alunos de Saragoza uma ordem do dia na qual explica que "é preciso sacrificar toda e qualquer ideia e toda ideologia pelo bem da nação". E se torna um general da República, não porque, como insinuam alguns jornais, lhe tenha sido prometido o Alto Comissariado em Marrocos, mas simplesmente porque não considera madura a situação para expor-se em primeira pessoa.

Será este o critério que há de inspirar todas as suas atitudes até o alzamiento definitivo. Na primavera de 1931, viria a ser alvo de críticas ao explicar que jamais aceitaria um cargo que levasse a crer em uma concordância prévia sua com o novo regime, ou como "prova indireta de titubeio e reservas, mesmo que mínimas, à lealdade" que sempre teve para com a Monarquia. Ao governo Azaria, que fechara a Academia de Saragoza, não agrada esta alusão, e menos ainda o ambíguo discurso de despedida que o galego dirige a seus alunos, no qual fica subentendido um elogio à disciplina que "assume seu verdadeiro peso quando nosso sentimento íntimo se mostra contrário ao que é ordenado". Primeiro chega em suas mãos uma nota de advertência, depois a transferência para uma guarnição de província, por acaso exatamente em sua região, em La Coruña. Contudo é preciso bem mais para fazer o general perder o controle dos nervos. Disto se dá conta seu antigo superior, José Sanjurjo, que lhe propõe participar de um pronunciamiento que está sendo tramado com um grupo de companheiros de armas monarquistas e dele recebe uma recusa cortês e até o conselho de deixar isto de lado, porque a conjura pode contar apenas com a adesão de uma minoria das Forças Armadas. Os outros insistem e acabam na penitenciária, escapando ao pelotão de fuzilamento apenas por indulgência do governo de Madri, que demonstra sua gratidão a Franco nomeando-o comandante-geral das Ilhas Baleares. O general aí desembarca em março de 1933.

A moderação do Executivo não consegue, porém, conter os opositores extremistas que querem levar a Espanha a ferro e fogo, ainda mais porque a direita começa a contar, como eu disse, com formações de certo peso, como a CEDA e a Falange. Por enquanto, o galego continua a se manter na sua atitude, a ponto de recusar o convite de Gil Robles de candidatar-se nas listas eleitorais católicas, que virão a sair vitoriosas das urnas, determinando uma nítida virada à direita no governo. O novo ministro da Guerra, o liberal Diego Hidalgo, estaria destinado, sem querer, a influir no destino de Franco. Por ocasião de uma inspeção às Ilhas Baleares, de fato o conhece e aprecia sua personalidade, a ponto de dele lembrar-se quando de seu retorno à Espanha no momento em que se preparam nas Colinas de Léon as grandes manobras: Franco, agora general de divisão, é chamado para funcionar como consultor. E dá-se o caso de, uma vez concluídas as manobras, deter-se algumas semanas entre Oviedo e Madri, bem em tempo de assistir aos primeiros indícios de guerra civil.

É a tempestuosa greve geral proclamada pelos socialistas contra as tentações autoritárias de nova maioria que acende perigosos focos em Madri e Barcelona, onde, porém, as chamas se apagam mais facilmente, mas também entre os mineradores das Astúrias, que, ao contrário, enfrentam energicamente a repressão. Por uma curiosa coincidência, o apelo ao General Franco parte simultaneamente do Ministro Hidalgo e de Gil Robles, e desta vez o galego não tira o corpo fora. Instalando-se no ministério, elabora um plano que prevê o uso da Marinha e a vinda de alguns veteranos da África. Destituídos os oficiais suspeitos de simpatias democráticas, passa à ação, ordenando, em primeiro lugar, o bombardeio aéreo da cidade de Oviedo, em cujas ruas os revoltosos atacam os do governo; depois, confiando a sete colunas de homens as buscas na região, onde as paixões das facções em luta se desencadearam a ponto de se falar em 14 mil mortes entre os mineiros em revolta contra o Exército. A um jornalista que vem entrevistá-lo, Franco põe finalmente as garras de fora: "Esta", diz ele, "é uma guerra de fronteiras: as frentes são o socialismo, o comunismo e outras subversões que atacam a civilização para substituí-la pela barbárie." Nada de matizes, nada de meios-termos.

Uma declaração tão franca e o sucesso na repressão dos movimentos de revolta lhe valem a nomeação como comandante-em-chefe do exército sediado em Marrocos, um cargo que deve tê-lo enchido de satisfação, mesmo que as circunstâncias venham impedi-lo de voltar à África. Ele é chamado com urgência a Madri por Gil Robles, que substituíra Hidalgo no novo governo conservador e, ao dar-se conta do estado de desorganização em que estavam as Forças Armadas, apela para o galego para reorganizá-las e galvanizá-las, uma tarefa na qual o grande burocrata de uniforme se encontra perfeitamente à vontade. Apressa-se ele, como de costume, a fazer a depuração de todos os altos comandantes suspeitos de simpatias democráticas, chama de volta os veteranos das guerras da África, reabre ostensivamente sua antiga Academia de Saragoza — porque, no fundo, é um inveterado sentimental — e, quanto à penetração dos subversivos na caserna e nas fábricas de armas, propõe-se a criar um bom serviço de espionagem que desmascare socialistas, comunistas e anarquistas. Em suma, trata-se de um trabalho empenhado que os extremistas e os políticos impedem-no, no entanto, de levar a cabo.

Com um governo do qual desapareceram os católicos de Gil Robles, a Espanha se prepara para as eleições políticas gerais, marcadas para 16 de fevereiro de 1936. São estrondosamente ganhas pela esquerda, unida sob a bandeira da Frente Popular, trazendo às cortes cerca de 258 deputados contra os 152 da direita e os ínfimos 62 de centro, ora reduzido pelas tensões revolucionárias. O impacto do sucesso obtido pela Frente é reduzido pelo extremismo de alguns de seus componentes, que parecem fazer de tudo para assustar as camadas mais moderadas, sem se dar conta de estarem abrindo caminho a um difuso consenso em favor da ditadura. Largo Caballero, por exemplo, promete textualmente: "No dia da vingança, não deixaremos pedra sobre pedra desta Espanha que queremos ver destruída para construir a nossa." Quanto ao General Franco, mal se esboça o inesperado triunfo da Frente Popular, tenta primeiro mobilizar a Guardia Civil contra os "sediciosos", depois induzir o governo a proclamar o estado de sítio e a lei marcial. Falhando nessas iniciativas, em vez de expor-se pessoalmente, cauteloso como sempre, limita-se a retomar contato com antigos companheiros de armas; mas isto já é suficiente para alarmar Azaria, que se apressa a dispersar por várias regiões os generais suspeitos, entre os quais o galego, que vai parar nas Canárias.

Antes de partir, Franco participa, sem se mostrar abertamente, de uma reunião clandestina de oficiais das mais diversas correntes políticas, mas todos eles prontos a vir a campo para defender a Espanha "eterna" da ameaça da "horda vermelha". No exílio mantém-se permanentemente a par, pelos conspiradores, dos preparativos para o alzamiento, com o qual concordam formalmente todos os componentes da direita católica e falangista. O animador é o General Emilio Mola, embora formalmente continuem a apoiar-se no velho e respeitado Sanjurjo.

Boatos e contatos são demasiado insistentes para não suscitar o alarme do novo chefe de governo, Casares Quiroga, que abre oficialmente um inquérito, semeando o pânico entre os conjurados. Em seu nome, Franco, que não havia ainda aderido abertamente ao complô, dirige ao presidente uma carta que distila hipocrisia e desfaçatez, e na qual escreve, entre outras coisas: "Os que querem ver sinais de conspiração no patriotismo dos oficiais prestam um serviço bem indigno à Pátria." Obviamente isto é apenas um modo de ganhar tempo, porque, na realidade, no dia seguinte às eleições, tanto Gil Robles quanto o próprio Franco haviam feito pressões contra o ex-Premier Portela Valladares para que, com o apoio de todos os grupos de direita, assumisse poderes ditatoriais. A tentativa não exclui, evidentemente, como afirmou Alvarez de Vayo, que a decisão de realizar um golpe de Estado já estivesse tomada em fevereiro de 1936. De qualquer forma, a insurreição é marcada para 20 de julho, mesmo que venha a ser depois antecipada de três dias em consequência da enorme repercussão causada pelo atentado fatal a José Calvo Sotelo, um ex-ministro líder da direita conservadora nas cortes, por parte de ardorosos republicanos, visando a vingar a morte de um oficial trucidado em Madri pelos falangistas.

A esta altura, Franco se decide finalmente a participar em primeira pessoa do alzamiento, que, evidentemente, se mostra com boas possibilidades de sucesso, tanto que, antes de deixar as Canárias, lança uma mensagem pelo rádio à nação, anunciando que o exército assume o glorioso dever de salvar a Espanha da subversão e da anarquia. Depois disto vai para Marrocos em um biplano inglês financiado por industriais amigos para assumir o comando do exército insurreto. Na manhã de 18 de julho de 1936, a Rádio Ceuta transmite uma frase em código, "Sobre toda a Espanha o céu está sem nuvens", que é a senha para o alzamiento combinado com todas as guarnições: é o início da guerra civil.

 

A guerra civil

 

O andamento da guerra civil já é conhecido em suas grandes linhas.

Nas primeiras semanas, Franco divide a direção do alzamiento com seus velhos amigos Mola e Queipo de Llano, sob a paternal orientação de Sanjurjo que, no entanto, depois de alguns dias, morre em um misterioso incidente aéreo, possibilitando, assim, a progressiva ascensão do galego à cúpula do poder. Até o final de setembro ele se fará nomear, aos 43 anos, comandante de todas as Forças Armadas e chefe do Estado "enquanto durar a guerra". Seu golpe colhe de surpresa os situacionistas em diversas regiões e em algumas das mais importantes cidades do país, como Sevilha e Granada, mas em Madri e Barcelona a insurreição é esmagada pela Guardia Civil, pelos inflamados vermelhos e pelo povo em armas. Como a Marinha e a Aeronáutica se declaram em sua maioria leais ao governo republicano, Franco — bloqueado em Marrocos com o seu exército— faz rapidamente contato com Mussolini, que em um primeiro momento lhe nega sua ajuda para concedê-la depois, precipitadamente, assim que vem a saber que Hitler foi também interpelado.

Uma ponte aérea ítalo-germânica é posta à disposição do galego, permitindo-lhe transportar para a Espanha as suas tropas, que imediatamente oferecerão uma demonstração de fraternidade cristã em Badajoz, na Estremadura, onde fuzilam todos os milicianos pró-governo e seus suspeitos apoiadores, sob a acusação de resistência armada. Para matá-los era suficiente como prova o fato de terem o ombro direito da túnica luzidio [pelo porte do fuzil]: é o sinal de que atiraram contra os guerreiros nacionalistas. Calcula-se que as vítimas oscilem entre 1.200 e 1.500, mas em Granada sucede algo muito particular: em um pequeno bosque a poucos quilômetros da cidade, um esquadrão comandado por um ex-deputado católico líquida o poeta Federico Garcia Lorca, que causou "mais danos com os livros que outros com seus pequenos revólveres".

Enquanto se torna mais viva a guerra civil delineiam-se também os blocos opostos no campo internacional: Alemanha, Itália, Portugal, sem falar no Vaticano, apoiam de todas as maneiras possíveis os golpistas. A França, o México e a União Soviética, empenhados em uma linha antifascista, garantem, ao contrário, fornecimentos bélicos ao governo de Madri e consentem na convocação de voluntários, que afluem para as chamadas Brigadas Internacionais, as quais incluem muitos exilados italianos, como os irmãos Rosselli, Pietro Nenni e Randolfo Pacciardi (Togliatti jamais participará dos combates, mas coordenará, em nome do Komintern e por incumbência de Stalin, a política dos comunistas). De acordo, enfim, com o governo francês da Frente Popular presidido por Léon Blum, a Grã-Bretanha recomenda a constituição de um comitê, também internacional, que deverá garantir a não-intervenção na Espanha de todas as potências, embora isto seja, na realidade, um expediente ambíguo, que permite a todos os conservadores europeus o reconhecimento diplomático do governo rebelde sediado em Burgos e assim colocado no mesmo plano jurídico que o governo democraticamente eleito. A pretexto de voluntariado, Mussolini envia, para combater ao lado das tropas franquistas, cerca de 50 mil homens, em sua maioria retornados da empresa da Etiópia, ao passo que os aviadores alemães da chamada Legião Condor e os carros blindados do Coronel Von Thoma não passam de 10 mil unidades, embora um acordo, estabelecido sem o conhecimento dos italianos, tenha assegurado a Berlim uma côngrua contrapartida financeira e econômica.

No final do outono, Franco desencadeia uma poderosa ofensiva para tomar Madri, mas apenas consegue que o novo governo republicano de Largo Caballero transfira a capital para Valência, porque a cidade resiste heroicamente, com o grito de "no passarán!", ao mortífero ataque que e mantido pelos bombardeios e carros-tanques ítalo-germânicos. A 24 de novembro, as colunas fascistas levantam o cerco, precipitando-se a vingar em outro lugar a decepção com Madri. Os horrores da "guerra de extermínio" conduzida pelas duas partes começam a ser denunciados por grandes intelectuais, como o católico francês Georges Bernanos, que cita os massacres em Palma de Maiorca, onde os franquistas primeiro fuzilaram os "inimigos", capturados à noite, em suas casas, e em seguida passaram a esvaziar os cárceres de suspeitos vermelhos, liquidando-os e transportando seus cadáveres em caminhão para jogá-los depois nos fossos, com uma média de quinze execuções por dia. Um pesquisador inglês, Gerald Brenan, afirma que, pelo menos nos primeiros meses da guerra civil, para cada justiçado da parte dos republicanos se contavam dois ou três na parte dos rebeldes.

Em seu famoso romance, Ernest Hemingway reconstrói um episódio infame, de que foram protagonistas os republicanos: "Vi a sala cheia de homens que batiam às cegas com cassetetes (...). Gritavam e batiam, e os enfileiravam sem parar, e se ouviam homens relinchando como cavalos em um incêndio (...). E vi um pároco, com a batina erguida, subir em um banco com seus perseguidores, que o golpeavam, cortando-o com foices e facões; e de repente alguém o agarrou pela batina e eu ouvi um grito..." O autor de Por Quem os Sinos Dobram não deixa de relembrar também a atrocidade dos rebeldes: "Os meus [parentes] eram de esquerda, como inúmeros outros em Valladolid. Quando os fascistas fizeram a limpeza na cidade, fuzilaram primeiro meu pai, porque tinha votado nos socialistas. Depois fuzilaram minha mãe, porque também ela tinha votado — e era a primeira vez que votava em sua vida.

Depois disto fuzilaram o marido de uma das minhas irmãs, que estava inscrito no sindicato dos empregados dos carris, mas na realidade não se metia em política. Eu o conhecia bem e acho que não era sequer um bom companheiro.

Depois aconteceu de o marido de minha outra irmã, também empregado do carril, ter vindo comigo para os montes. Os fascistas acreditaram que minha irmã sabia onde estávamos. Não sabia, e a fuzilaram porque não queria dizer onde estava seu marido."

À ferocidade da repressão o Generalíssimo une uma diabólica capacidade de mediação entre as várias formações da frente nacionalista: os monarquistas das duas Igrejas, legalistas e carlistas, os católicos da CEDA, os falangistas e até "seus incômodos aliados", Hitler mais que Mussolini. Ajudado pelo cunhado de sua mulher, o advogado Serrano Suner, de moderada tendência fascista, o galego encontra um modo de contentar alternativamente a todos, e quando esse trabalho se torna demasiado árduo, anuncia em 19 abril de 1937 nos microfones da rádio a constituição de um partido único, para o qual devem confluir todos os outros, o Movimento, que oficialmente será batizado de Falange Espanhola Tradicionalista y de las Jons, e terá ele como único chefe, Franco, o Caudillo. Agora se assemelha, pelo menos nominalmente, ao Führer e ao Duce, e quem levanta dúvidas quanto ao mérito da iniciativa virá a se arrepender, como é o caso do dirigente carlista Fal Conde, que por falta de respeito é mandado para o exílio, e de Manuel Hedilla, o sucessor de José Antonio Primo de Rivera (fuzilado pelos republicanos), que será, por sua vez, condenado à morte por alta traição e livrar-se-á da prisão perpétua só por intercessão de amigos comuns e do cônsul do Terceiro Reich.

Por outro lado, o Generalíssimo não hesita porque — ao que diz — Deus está com ele: a primeiro de julho do mesmo ano de 1937, de fato, o primaz de Espanha, Cardeal Goma, torna pública uma Carta Coletiva dos Bispos, que define a rebelião nacionalista como "uma cruzada para a salvação da Espanha, da religião e da Igreja, perseguidas pelo anticristo vermelho". Estão de acordo com o primaz todos os católicos, salvo os bascos, que têm um débito de gratidão para com a República, generosa em relação às minorias étnicas.

Franco paga o débito com o Vaticano, ao contrário, renunciando à separação entre o Estado e a Igreja, liquidando o casamento civil e o divórcio, mantendo obrigatória a instrução religiosa e colocando sob o controle dos bispos a escola pública e o ofício de censura. Nem mesmo a Concordata de Mussolini foi tão generosa com a Santa Sé. Aos monarcas, porém, fazendo lembrar a retranca galega, o Generalíssimo concede apenas a vaga promessa de uma restauração; e quanto aos falangistas, que no futuro serão cada vez mais jogados à margem, na primavera de 1938 sairá uma carta do trabalho de cunho corporativista, ou, como dizem os espanhóis, "nacional-sindicalista" e promoverá uma espécie de culto à memória de José Antonio Primo de Rivera, instituindo uma festa nacional no dia 20 de novembro para lembrar o seu fuzilamento por parte dos republicanos. Concessões retóricas, sem o menor conteúdo substancial.

Menos maleáveis estavam sendo as relações com os aliados, sobretudo com os italianos, que visam ao sucesso de vitrine e pretendem seguir uma estratégia particular, não coordenada com a espanhola, com a miragem de entrarem primeiro em Madri. A queda de Málaga, palco de represálias cruéis por parte dos nacionalistas, induz o General Roatta a tentar — em primeiro de março — o rompimento das linhas em Guadalajara, onde, porém, encontra uma resistência insuperável nas Brigadas Internacionais, especialmente na italiana, a Garibaldi, que o obriga a recuar, deixando no terreno milhares de mortos e trezentos prisioneiros. Em Madri se divulga uma irônica canção, que diz, entre outras coisas: "Os de Mussolini foram os primeiros a entrar em Madri, mas como prisioneiros." O Duce não se diverte, Hitler faz troça, mas Franco, sublevado, pode finalmente dar curso sem entraves a seu plano de conquista das regiões setentrionais.

Outro episódio que prejudica, pelo menos no campo da propaganda, a causa do futuro Eixo acontece no dia 26 de abril, quando os bombardeios alemães da Condor arrasam a pequena cidade basca de Guernica: é o primeiro ataque terrorista aéreo da história, uma tragédia que Pablo Picasso, superintendente dos museus da República, representará em sua célebre pintura. Apesar disto, Franco não se detém por tão pouco. A morte de seu amigo e concorrente General Mola, vítima também de um suspeito incidente aéreo, deixa-o agora como árbitro único da situação e, entre junho e agosto, ele lança suas tropas para a conquista de Bilbao e Santander, bases republicanas na costa basca do Atlântico. As manobras diversionistas dos vermelhos sobre Brunete e Belchite não freiam o avanço dos franquistas, que em outubro, já senhores das Astúrias, entram em Gijón.

As repercussões destes acontecimentos militares sobre a junta governativa de Madri são catastróficas. Desde maio, anarquistas e trotskistas, esses enfants terribles da República, já haviam entrado em conflito nas ruas com os comunistas stalinistas, tinham sido vencidos e obrigados a aceitar a substituição de Largo Caballero pelo Ministro das Finanças Negrín, mais dócil às diretivas do Kremlin. Na onda deste sombrio ajuste, em princípios de 1938, os generais vermelhos tentam antecipar o temido assalto franquista à capital, desencadeando uma ofensiva sobre Teruel, mas suas esperanças naufragam depois de um mês de violentos combates. E a partir deste momento passam a existir todas as condições para que os nacionalistas possam fazer mira sobre um objetivo fundamental, estratégico e político: o isolamento da Catalunha do resto do território ainda controlado pelos republicanos. O que sucede exatamente em meados de abril, quando o exército golpista atinge as margens do Mediterrâneo.

A agonia da República é dilacerante. Na noite de 24 de julho tem-se a impressão de que o seu exército teria conseguido malograr o plano do Generalíssimo atravessando de surpresa o Ebro e pondo em fuga os veteranos africanos de Yague; mas no decurso de três meses o inimigo restabelece o equilíbrio. Negrín joga então a última cartada, que coincide com a crise de Mônaco, que está alarmando a opinião pública das grandes democracias: adianta uma proposta de paz e oferece como garantia a retirada das Brigadas Internacionais — um preço bastante alto para o antifascismo europeu. Os milicianos desfilam a 15 de novembro pelas ruas de Barcelona em uma atmosfera carregada de sombrios pressentimentos a respeito de uma já inevitável guerra mundial, embora a Pasionaria, Dolores Ibarruri, os saúde como "uma lenda, um exemplo heroico de solidariedade". De seu canto, Franco finge desmobilizar os regimentos italianos (na realidade, manda de volta para sua pátria apenas um dos quatro), mas está firmemente determinado a aproveitar até o fim a sua superioridade na guerra, que nas primeiras semanas de 1939 se concretiza com a ocupação de toda a Catalunha, de Tarragona a Barcelona, até os limites com a França.

Foram os conflitos internos dos partidos da esquerda e os excessos anticlericais, juntamente com a ambígua relutância das grandes democracias ocidentais em empenhar-se contra a ameaça de uma deriva fascista na Europa, que minaram a resistência da República.

As maiores responsabilidades se dividem entre a arrogância hegemônica dos comunistas de linha soviética e a pitoresca indisciplina das formações libertárias, enquanto que o Generalíssimo mantém a pulso uma disciplina férrea entre suas tropas e os grupos políticos que o apoiam. Polêmicas, conflitos armados, motins repetem-se entre os vermelhos até quase os últimos dias da desesperada defesa de Madri, até o dia 4 de março, em que o Coronel Sigismundo Casado se rebela contra o governo Negrín e, vencendo os comunistas, oferece a Franco a rendição; mas já inutilmente, porque o Generalíssimo, certo da vitória como está, não negocia. A triste aventura da República democrática espanhola se encerra, assim, nos últimos dias de março: no dia 28 cai Madri, e no dia 30

os "vermelhos" também arriam a bandeira em Valência. No dia primeiro de abril de 1939, a Rádio Burgos transmite o boletim da vitória, seco e rápido como o próprio vencedor galego. A síntese mais concisa da tragédia traz a assinatura de uma escritora francesa, Madeleine Chapsal, autora do comentário registrado no memorável filme de Frédéric Rossif, Morrer em Madri: "503.061 quilômetros quadrados. Foram feitos dois milhões de prisioneiros. Foram destruídas 500 mil casas, 183 cidades gravemente devastadas. Em três anos de guerra, um milhão de mortes violentas. Quinhentos mil exilados. Um exército de seiscentos mil soldados. Um partido único: a Falange. Uma religião de Estado: a religião católica. Um único chefe: o Caudillo. Os salários retornam ao nível de 1936. Os grandes proprietários tomam de volta suas terras. A Igreja recupera suas imensas propriedades."

OceanofPDF.com

A perseguição

 

A 19 de maio, assistindo a um desfile de suas tropas, o Generalíssimo exalta a vitória sobre "a tirania da plebe rude" e, no dia seguinte, na igreja madrilenha de Santa Bárbara, em que se celebra um solene Te Deum de ação de graças, em plena reminiscência feudal depõe sua espada aos pés do altar, pedindo ao Senhor Deus que lhe conceda Seu auxílio "para que possa conduzir o povo espanhol para a paz e a liberdade total". Como observa a Pasionaria, que a partir de então usará sagazmente tais palavras como um slogan do antifascismo, trata-se, na verdade, da paz das cinzas e dos cemitérios. Uma camada de medo e de silêncio se estende sobre a Espanha, "unificada, grande, livre", que se torna um imenso campo de concentração no qual nada poderá ser dito, escrito ou comentado sem o risco de alguém, no mínimo, ser preso. Os cárceres se enchem de prisioneiros, porque basta ter militado como oficial ou soldado no exército legal para ser considerado criminoso; e em cada esquina das ruas vigiam pares de "mal-encarados" com o uniforme cinzento da Guardia Civil, devidamente depurada, com um mosquete a tiracolo e o revólver nos quadris. O instrumento para infligir a pena capital é, em geral, o garrote, um utensílio constituído de uma coleira fechada com uma tarraxa que se passa através de um pau; ao apertar-se a tarraxa, a vítima morre estrangulada.

Quem está dentro teme acabar no garrote ou no paredão; quem está fora teme acabar lá dentro ou sabe-se lá onde. Nos primeiros meses, para aumentar o terror, nas grandes cidades circulam veículos alemães com a cruz gamada e, dentro, outros "mal-encarados" vestidos à paisana, mas que se sabe serem agentes da Gestapo. Um mês depois da vitória, ao receber no Vaticano um destacamento de soldados espanhóis, o Papa Pio XII pronuncia um sermão agradecendo-lhes por se terem coberto de glória sacrificando-se até o heroísmo para "defender a causa de Deus e da religião". O que é pior é que os jornais da Falange escrevem que não se deve descer a acordos com "os inimigos da verdade" porque não se transige com eles, "tem-se que destruí-los". O jornalista inglês Philips, que fora encarcerado por cinco meses depois da entrada dos golpistas em Madri, conta que, até o final de 1940, decretam-se sentenças de morte a um ritmo de mil por mês, e que, além disso, nos onze meses anteriores só na capital já tinham sido trucidados nada menos que 100 mil republicanos. Franco ordenara recuperar os documentos relativos aos processos não concluídos em 1937, que desta vez serão levados a cabo com inúmeras condenações à morte, em uma atmosfera de grande devoção religiosa, entre funções sacras e litanias do Rosário, graças à infalível intervenção de sacerdotes e freiras. A um dos muitos desgraçados que estão para ser garroteados e que soluçam e gritam que são inocentes, o bom padre responde com o sinal-da-cruz e a suave repreensão: "Se você é verdadeiramente inocente, nada tem a temer da justiça divina." A justiça humana, no entanto, não brinca. Em seu diário, na data de julho de 1939, Galeazzo Ciano registra as seguintes anotações: "As execuções são ainda numerosas: só em Madri, de 200 a 250 por dia; em Barcelona, 150; em Sevilha, que nunca chegou a cair em mãos dos vermelhos, 80." Quanto aos dirigentes da República que se deixaram capturar, o ex-Premier Largo Caballero foi deportado; o ministro do Interior, Julián Zugazagoitia, e o líder catalão, Luís Com" panys, vêm a morrer diante de um pelotão de fuzilamento.

Os governos democráticos que continuarão a ser constituídos no exílio ver-se-ão reduzidos gradativamente a uma função meramente simbólica.

As únicas estatísticas oficiais registram que dos 250.719 prisioneiros políticos encarcerados a 31 de dezembro de 1939 restaram, cinco anos depois, apenas 28.077: os demais foram todos mortos e apenas uma pequena maioria por doença. A responsabilidade desta gigantesca matança, que prosseguirá nos anos seguintes, se deve exclusivamente a Francisco Franco y Bahamonde, que, com base nos estatutos da Falange, será "o autor de uma época histórica, na qual a Espanha realiza seu destino" e, como tal, capacitado a exercer a autoridade mais absoluta — o que fará até nos confrontos com a própria Falange, despojando-a cada vez mais de toda influência política efetiva porque (à diferença do Duce e do Führer) não exige motivações ideológicas, não ama os movimentos e as comunicações de massa e, acima de tudo, não pretende dividir nada com ninguém, nem mesmo o de escolher o homem e o momento para a restauração da Monarquia. Cobrem-no de adulações, afirmando que é um chefe carismático, uma figura de estatura internacional, "como Carlos V ou Napoleão", e que nele é inata "uma visão autenticamente platônica do Estado ideal". Mas é a Junta de Defesa Nacional constituída em Burgos em julho de 1936 que decide dois meses depois, disciplinadamente, transferir todos os poderes ao ditador "platônico", que assim se torna não só o chefe do governo e do Estado, como, na prática, também o papa— visto que uma circular de 14 de dezembro de 1937 proíbe toda e qualquer interpretação da ideologia falangista, reservando-a exclusivamente a si, em uma espécie de dogma profano da própria infalibilidade.

O Estado franquista é instituído a golpes de rígidos decretos-leis. Em 1939 emite-se a lei das responsabilidades políticas, com a qual são suprimidos todos os partidos e sindicatos, exceto o falangista. Em 1940 definem-se como crime a organização e a filiação a lojas maçônicas e a células comunistas. No decorrer do ano de 1941, detalham-se as normas relativas a segurança do Estado. A hostilidade em relação à cultura vem documentada pela violência com que a repressão se abate sobre o mundo da escola: na primária, 6 mil professores fuzilados, 7 mil encarcerados, dezenas de milhares (principalmente em Barcelona) demitidos; na escola secundária, 100 trucidados, 148 obrigados a emigrar, 25 demitidos. A instrução pública é restituída, como nos tempos da Monarquia, à tutela da Igreja, que é, muito mais que a Falange e apenas menos que a polícia, o principal instrumento da ditadura de Franco, tal como o fora de Primo de Rivera e para o movimento de Gil Robles. Embora grande parte da população seja agnóstica, ou até mesmo anticlerical, tanto que circula um provérbio segundo o qual "a Espanha inteira corre atrás da Igreja: metade com uma vela, a outra metade com um porrete".

No entanto, as manifestações e as violências toleradas, quando não fomentadas, pelas autoridades e pelos partidos republicanos, sem contar uma normativa energicamente laica — da restauração do divórcio à expulsão dos jesuítas, de severas limitações impostas às companhias religiosas ao rompimento de relações com o Vaticano —, contribuíram para levar o alto clero (não os padres bascos, nem os que futuramente seriam chamados de padres-operários) para a anacrônica posição de "cruzada" destinada a suscitar os protestos e a indignação dos grandes intelectuais europeus de confissão católica, como Bernanos e Maritain. O próprio François Mauriac confessará sua angústia: "Continua existindo esta espantosa desgraça: para milhões de espanhóis, cristianismo e fascismo se confundem, e não poderão mais odiar um sem odiar também o outro."

O que não impede que, com a queda da República, como assinalamos, as hierarquias eclesiásticas se vejam amplamente ressarcidas, por meio de uma série de concessões quase inacreditáveis. Para começar, a liberdade de culto é suprimida, tornando o catolicismo a religião do Estado. Além da ab-rogação das leis sobre o casamento civil e o divórcio, recria-se o fundo para o culto, restituindo às ordens religiosas bens temporais e a gestão dos cemitérios; e, como se isto não bastasse, além da retomada do controle do ensino pela Igreja, institui-se uma censura geral eclesiástica, instala-se em Madri uma seção da Sacra Rota e tornam-se obrigatórios o estudo da religião (até nas universidades) e a participação dos estudantes nas cerimônias sacras.

Os soldados republicanos que ainda estão na prisão são submetidos a um castigo que foi imaginado pelo capelão-geral dos cárceres, o Padre Peréz de Pugar, o chamado "resgate das penas por meio do trabalho", que inclui a obrigação, até para os não-católicos, de assistir à santa missa, sem o que haverá um prolongamento da detenção aos que a isto se negarem.

Uma vez minimizada a influência da Falange, Franco se servirá do apoio da Ação Católica e, partir dos primeiros anos da década de 1950, do amparo da Opus Dei, uma "sociedade sacerdotal" que, em teoria, se propõe a difundir, especialmente entre os intelectuais, a busca da "perfeição evangélica" no mundo e que, na prática, acabará se tornando, nos decênios que se seguem, uma potência financeira de dimensões internacionais. Em 1953, coroando este intercâmbio de sentido amoroso, o Estado e a Igreja assinam um novo acordo, que é saudado com efusão pelo Primado, porque, além dos benefícios materiais, reconhece à Igreja o estatuto de "sociedade perfeita", colocando-a, assim, mais do que nunca, em plano de absoluta igualdade com o Estado, como jamais acontecera em outros lugares. Segundo Martin Bormann, Hitler já havia entrevisto, nove ou dez anos antes, esta perspectiva, acusando Franco de ter restituído ao clero espanhol todos os seus terríveis privilégios. Isto, dito por ele, é quase um elogio.

A outra pilastra da ditadura franquista é a estrutura da repressão, com suas três leis fundamentais do biênio 1939-1941. O Generalíssimo e seus conselheiros elaboram uma fórmula que é uma obra-prima de hipocrisia, porque, em seus princípios, reconhece o exercício "livre e pacífico" dos direitos individuais, políticos e sociais, enquanto que, na prática, se reserva a mais ampla margem de discricionariedade para negar aqueles direitos e desencadear sanções relacionadas com a hipotética perturbação da ordem pública, que se torna um tabu absoluto, o totem do regime. A lei não se limita a enumerar os atos capazes de pôr em crise o tabu, mas precisa que a infração pode ser representada até por atos "outros, de algum modo não-previstos" nos parágrafos precedentes e que possam alterar a ordem pública, quando não a "harmonia social". São conceitos extremamente vagos, de modo a deixar em aberto a todo e qualquer arbítrio por parte do governo, que está autorizado, pelos "poderes sociais" de que está investido, a aplicar penas nada leves, como a designação de uma residência obrigatória, ou seja, o confinamento, a deportação temporária do sujeito, a possibilidade de efetuar prisões mesmo fora das normas habituais, sem falar na faculdade de proibir toda e qualquer manifestação de opinião e de instaurar um regime de censura "ilimitada".

É óbvio que todo tipo de agitação operária ou estudantil pode entrar nessa categoria de reação, que, aliás, pode ser agravada por meio da proclamação, não importa quão excessiva ou a que pretextos, do chamado "estado de exceção". Em todos os casos, para aumentar a dose, pode-se sempre recorrer ao Código Penal, promulgado em 1944, que estabelece motivações ridículas para as mais graves incriminações, como a traição, que o regime identifica até no simples "ultraje à nação espanhola", ou ao "sentimento" de sua unidade, ou seja, a insurreição, que pode ser apenas uma greve política ou, como prevê o Código de Justiça Militar, lançado um ano depois, uma "injúria à moral das tropas". É um texto do qual o regime franquista se servirá muitas vezes, em razão de sua maior severidade ou da disponibilidade da magistratura de uniforme, superior até mesmo à da magistratura civil, que já foi, contudo, expurgada escrupulosamente de elementos democráticos.

Segundo o historiador espanhol Javier Tussel, subitamente, depois do final da guerra civil, o regime providencia o fuzilamento de 50 mil republicanos, a prisão de 250 mil suspeitos de crimes ou de cumplicidade com os vermelhos e uma impiedosa depuração entre os professores e os funcionários da administração pública. Cita-se, a propósito, como monstruosamente exemplar, o Caso Grimau. Como comissário político do exército republicano durante a guerra civil, Julián Grimau se refugiara no exílio, mas em 1961 retorna clandestinamente ao país com o encargo de organizar internamente o Partido Comunista e garantir apoio político à greve que os mineiros das Astúrias estão programando para a primavera do ano seguinte. Preso poucos meses depois, durante a preparação do processo, Grimau é torturado pela polícia política a tal ponto que os esbirros dão-no por morto e atiram-no pela janela para simular o suicídio. Porém, o dirigente comunista não está morto, sobrevive aos ferimentos e, no decorrer do processo, nega ter tentado matar-se, no que é referendado pelos pareceres dos médicos que conseguiram visitá-lo no cárcere. Em 18 de abril de 1963, o Conselho de Guerra madrilenho o julga com rito sumário no espaço de apenas quatro horas, recusando-se a ouvir testemunhos e a avaliar as provas e condenando-o à morte com base em acusações, que não se sustentam, de "rebelião militar" e, ainda por cima, sem conceder-lhe a prescrição. A condenação é executada 48 horas depois, impedindo que os defensores de Grimau apresentem a apelação, que se fundamenta em uma irrefutável e desmedida irregularidade: o Ministério Público não tem titulação jurídica para exercer aquela acusação. Mas tudo que os magistrados militares fazem é riscar do conselho o promotor e condená-lo a dezoito meses de prisão, incriminando, porém, ao mesmo tempo, por "injúria ao exército" os advogados que se permitiram pedir a revisão do processo!

O critério da discricionariedade, ou seja, do puro arbítrio, é aplicado com indecente amplitude até a lei de 1940, que além dos maçons e comunistas é estendida aos trotskistas, aos anarquistas e "simpatizantes"; e a norma sobre a ordem pública autoriza a prisão também de quem tenha tido apenas a intenção de violá-la. Até 1968, a quase trinta anos do término da guerra civil, a polícia ousará ignorar uma ordem judicial para a ordem pública, negando a liberação de dezesseis estudantes e proibindo sua comunicação com os próprios advogados. Aliás, até os magistrados administram a justiça de maneira extravagante, variando o tempo de pena para um mesmo crime ou prolongando indefinidamente o encarceramento preventivo, durante o qual, porém, o detento não tem direito à assistência legal. Um toureiro que, em um acesso de cólera depois de um incidente automobilístico, gritou: "Os espanhóis são uns cornos!" foi condenado a dez anos de reclusão com a grotesca acusação de ter feito "uma injúria à nação".

Um elemento essencial da estrutura repressiva está representado, obviamente, pela instituição da censura. O regime de início encoraja a autocensura, oferecendo aos agentes de informação a oportunidade de consultar a administração sobre o conteúdo de toda e qualquer espécie de matéria impressa; mas ameaça, ao mesmo tempo, com pesadíssimas sanções, entre as quais a suspensão do redator ou do diretor das publicações até por seis meses, o pagamento de multas bastante salgadas e a suspensão do jornal de dois a seis meses. Também sobre a circulação de publicações estrangeiras e de informações de fonte externa pesa um inexorável controle. E quando, em 1967, as cortes reformam o Código Penal para atender às requisições dos países democráticos, que Franco está cortejando, em teoria suprimem a censura preventiva, mas serão introduzidas penas bastante severas que, mesmo por infrações insignificantes, preveem até doze anos de prisão e multas milionárias equivalentes ao fechamento das publicações. A competência do mérito está reservada não aos tribunais ordinários, mas aos burocratas do Ministério da Informação, e se aplica naturalmente também aos jornalistas estrangeiros, para os quais, em casos extremos, fica prevista a expulsão.

A liquidação do sindicalismo livre e a submissão do trabalho empregatício a um sindicato único de caráter falangista são prescritas por um estatuto de 1938 e por uma lei de aplicação de 1940, que se fundamentam em uma variante espanhola do corporativismo fascista, com empregadores e prestadores de serviços organizados em uma mesma "comunidade", um quadro no qual, se estoura um litígio que o sindicato único não consegue resolver — já que a greve é tratada à maneira de um delito —, a solução do contencioso é pedida não a um tribunal de trabalho, mas ao ministério. Esta norma, já por si lesiva a todo princípio democrático, é agravada nos primeiros decênios da ditadura pelas desastrosas condições a que a guerra civil reduziu a economia, criando uma desigualdade insustentável entre a elevação do custo de vida e o rebaixamento dos níveis salariais, por ter-se perdido grande parte do gado, riqueza basilar do país, e registrado uma assustadora queda das colheitas agrícolas e de a produção industrial estar terrivelmente diminuída, sobretudo no setor têxtil e no de mineração. Vinte anos, pelo menos, deverão se passar depois da derrota da República, para que a desoladora recessão seja substituída, graças ao afluxo de capitais estrangeiros, por uma fase de estabilização e de relativa recomposição.

O Generalíssimo aproveitou a vitória militar para criar um sistema arcaico que transforma a Espanha, no que se refere aos derrotados, em um imenso campo de concentração de que já falamos, e, para o resto da população, em um melancólico convento, gerenciado em parceria com a Igreja.

Chega-se a ponto de o visitante estrangeiro, para obter um visto de entrada, ter de se munir de uma declaração de seu pároco a respeito da boa conduta religiosa mantida pelo requerente. Não se trata, porém, de um regime fascista em sentido ortodoxo, porque, à diferença de seus dois mestres, e especialmente de Mussolini, Franco gerencia o poder absoluto sem renunciar a sua retranca galega, ou seja, mantendo sua relutância em relação às manifestações espetaculosas e aos ritos simbólicos, e mais ainda seu frio realismo. O critério com que utiliza o falangismo é puramente instrumental, jamais subordinando o regime à sua ideologia, e reservando-se, desde o início, a totalidade dos poderes; igual e estritamente funcional é a atitude para com os dois homens e os dois países que, apesar de tudo, contribuíram amplamente para que se decidisse a seu favor a guerra civil.

Até o primeiro governo, constituído no término de 1939, juntamente com os sustentadores do Eixo figuram ministros notoriamente ligados a Inglaterra.

Quando Londres e Paris declaram guerra à Alemanha, Franco não hesita em proclamar "a mais completa" neutralidade, que se torna, oportunisticamente, não-beligerância depois do primeiro ano e dos devastadores avanços obtidos pela Wehrmacht em todo o Norte da Europa Ocidental. A falência do sonhado desembarque alemão na costa britânica lhe sugere, porém, recuperar aquela cínica cautela que enfurecerá Hitler no encontro de Hendaye: depois de ter-se limitado a expedir para a Rússia os voluntários da Divisão Azul e a assinar um pacto anti-Komintern, diante dos insucessos ítalo-germânicos na frente russa e no Norte da África em 1942, empreende, com a costumeira circunspeção, uma marcha de aproximação em direção às democracias ocidentais, articulando-a em uma série de etapas: a substituição, no exterior, de seu cunhado Serrano Suñer, moderado, mas ainda fascista, pelo filo-inglês General Jordana; a criação de um conselho de Estado que deveria atenuar sua ditadura e a decisão de conceder poderes, mesmo que apenas consultivos, às cortes— enquanto que os cidadãos espanhóis terão que esperar até 1966 para usufruir o sufrágio universal, formalmente jamais negado, nas eleições dos deputados para as cortes. A conflagração mundial está por encerrar-se, com o triunfo das potências antifascistas, no momento em que o galego tem a desfaçatez de romper relações diplomáticas com o agonizante Japão.

Os primeiros anos do após-guerra não se prenunciam fáceis, porque os sucessores de Roosevelt e de Churchill, o democrata Truman e o trabalhista Attlee não se mostram de maneira alguma afetuosos para com o discípulo do Führer e do Duce. É nesta condição que ele vê negada a sua entrada nas Nações Unidas, e é duramente criticado por Juan de Bourbon, que o acusa, com um manifesto público, de ter mantido congelada a Monarquia, sem se dar conta de que com este tardio ato de coragem está perdendo definitivamente o trono em favor de seu filho, Juan Carlos. Agora poderiam também retomar fôlego as oposições, se tivessem o bom-senso de renunciar, pelo menos por uma vez, aos rancores; mas na realidade o Generalíssimo é quem passa à ofensiva, promulgando uma espécie de Constituição pseudoliberal, o Fuero de los Espanoles, concedendo uma ampla anistia aos sobreviventes de seu garrote e de suas galeras, e inserindo em postos-chave do governo um expoente da Ação Católica e um representante da cada vez mais influente Opus Dei. Não consegue bloquear a moção de censura da ONU — que exclui, porém, uma intervenção direta — e se aproveita disto para denunciar o boicote internacional, na esperança de que a guerra fria lhe permita garantir para si a benevolência dos Estados Unidos, ao apresentar-se como campeão do anticomunismo e oferecer ao Pentágono a instalação de bases em território espanhol.

Em 1953, o isolamento diplomático e político pode ser considerado praticamente superado e aberta uma via para o ingresso da Espanha na CEE, primeiro, e a seguir na União Europeia. Mas, a esta altura, Francisco Franco y Bahamonde, antes de morrer (em 1975), terá realizado sua obra-prima, preparando a transição pacífica do regime totalitário a uma prudente democracia conservadora com a escolha de dois homens-chave: o jovem Juan Carlos de Bourbon (filho de Don Juan), que ele preparou pessoalmente para a sua função real, e um moderado como Adolfo Suárez, que forma um lábil movimento de centro-direita exatamente para substituir o governo franquista depois do desaparecimento do Generalíssimo.

OceanofPDF.com