Tiranos
Pol Pot
POLPOT
Um serial killer
Preferimos matar dez amigos a deixar vivo um só inimigo.
POL POT
1975: começa a tragédia
Saloth Sar, cujo nome de guerra é Pol Pot (o Irmão Número Um), líder dos khmer vermelhos do Camboja, morre em abril de 1998, com a idade de 73 anos, sem ter nunca prestado contas à Justiça de seu país e aos tribunais internacionais pelo regime de terror por ele instaurado como líder da revolução comunista de 1975 a 1979. É uma singular mistura das mais grosseiras características de Stalin, Hitler e Mao Tsé-tung: a gestão tirânica do poder, um desprezo dos mais absolutos pela vida humana (e não só pela dos adversários ou dos dissidentes), uma híbrida junção de marxismo asiático e de nacionalismo, exaltados por um fanatismo levado ao último grau. O genocídio que traz sua assinatura, com um total de vítimas superior a um milhão e meio, pode parecer modesto em comparação com os massacres realizados pelos três grandes serial killers, mas passa a ter primazia absoluta quando se leva em conta a população total do Camboja, calculada, na época de seu advento, em 1975, em cerca de oito milhões de habitantes.
Para enquadrar, contudo, a personagem em seu ambiente e no contexto histórico em que atuou, convém darmos alguns passos atrás em relação aos anos da revolução dos khmer vermelhos. Em primeiro lugar, a origem do nome: os khmer, povo do qual descendem os cambojanos, criaram entre os séculos 9 e 14 de nossa era um Império que dominou grande parte da Península Indochinesa, espremida (como seu nome mesmo sugere) entre a Índia e a China e compreendendo a Birmânia, a Tailândia, a Malásia, o Camboja , o Laos e parte do Vietnã (Annam). Dão origem a uma civilização bastante florescente, mas são progressivamente fragmentados por lutas internas e ameaçados pelos exércitos das nações vizinhas até experimentarem um longo período de decadência que, no entanto, não os impede de manterem sua independência.
O Rei Norodom, em 1863, vê o próprio trono tão em perigo que se resigna a pedir ajuda à França, oferecendo-lhe um protetorado, que nos decênios seguintes se estenderá a toda a região.
Na realidade, quando as tropas de Napoleão III põem os pés no Camboja, o país já vive a certo tempo uma profunda crise institucional. Seus soberanos ora mantêm apenas o poder de nomear e demitir os funcionários que, uma vez instalados na cúpula do Estado, tornam-se senhores absolutos das estruturas públicas, do Exército e do trabalho dos camponeses. A Monarquia não deriva sua sacralidade de um direito divino, como na Europa, e sim de uma espécie de pacto com os súditos: sua fidelidade em troca do empenho do rei pelo bem-estar do povo; e, se este empenho não é mantido, a legitimidade da instituição fica em perigo e o povo pode ceder à solicitação de outros pretendentes que de alguma forma se mostrem assinalados por uma marca sagrada. A tentação revolucionária é, portanto, um fator genético para os cambojanos. Nos decênios que se seguem à imposição do protetorado, os franceses fazem um hábil jogo entre o monarca, os burocratas e o povo, deixando a Norodom e depois a seus sucessores um poder apenas aparente e instalando o seu "residente" no Conselho de Ministros; mas buscando ao mesmo tempo obter o apoio de outra instituição fundamental do país, os monges budistas, há séculos protegidos e favorecidos pelos soberanos, que os apresentam como símbolos do conhecimento perfeito, além de portadores da gloriosa herança dos khmer. Os ministros e os funcionários periféricos, ao contrário, veem todos os seus poderes confiscados, salvo o de manter a ordem e de recolher os impostos devidos a uma administração francesa bastante taxativa, que não tem, contudo, maiores preocupações nem com a criação de um sistema de estradas e de controle hídrico, nem com espalhar escolas, e muito menos ainda com solicitar a participação dos camponeses na vida pública. O vilarejo fica sendo, assim, o único centro comunitário, juntamente com o mosteiro budista que o representa junto ao rei, sem que com isto se opere qualquer melhoria nas condições dos camponeses, oprimidos pelos impostos, pelas obrigações sociais e pelas corveias religiosas.
Trata-se de uma condição muito difícil, porque a falta de água obriga os agricultores a cederem seus produtos a preço de fome aos mercadores chineses e a se endividarem com os atacadistas e os bancos a juros enlouquecedores: uma safra má ou uma catástrofe natural é suficiente para arruiná-los; e esta precariedade explica as frequentes revoltas e os episódios de bandidagem. Também pagam por elas os franceses, como no caso de duas alarmantes insurreições, em 1885 e em 1916, incomensuravelmente alimentadas pela imposição de taxas ilegais por parte dos funcionários cambojanos; e é destes precedentes que sairá, em seu devido tempo, o movimento dos khmer vermelhos para recrutar militantes e obter, pelo menos no início, o beneplácito das massas rurais.
O protetorado francês se prolonga até quase a véspera da Segunda Guerra Mundial, sem acontecimentos de maior relevo, a não ser a posse do décimo oitavo príncipe, Norodom Sihanouk, que o governador francês da Indochina, Almirante Decoux, em abril de 1941, instala no trono cambojano sem imaginar o papel anômalo que iria desempenhar seu jovem e esperto protegido. No decurso do segundo conflito mundial, o país é invadido, primeiro, pelos tailandeses e, depois, pelos japoneses, que em princípios de 1945, prevendo a iminente derrota, instigam Sihanouk a proclamar a independência para criar dificuldades aos países ocidentais. Imediatamente depois da rendição nipônica, as coisas caminham em sentido contrário, porque o Camboja se associa, mantendo embora certa margem de autonomia, à União da Indochina, tornada francesa; mas nove anos depois, a derrota de Dien Bien Phu obriga a potência colonial a abandonar todas as suas possessões indochinesas, para reconhecer, na Conferência de Paz em Genebra, não só o Camboja como o Vietnã e o Laos como Estados soberanos. No decorrer do longo e tumultuado conflito, que se consuma no clima de guerra fria que ora divide soviéticos e chineses dos aliados ocidentais, os revolucionários vietcongues e os próprios khmer vermelhos fizeram suas primeiras provas: uma experiência que não ficará sem sequelas.
Por ora, na cena domina ainda Sihanouk, protagonista de um jogo cada vez mais refinado e tortuoso. Um ano depois da Genebra, abdica de surpresa em favor do pai para dedicar-se a uma singular empresa política: a fundação de uma comunidade que deve lutar pelo advento de um socialismo budista que fará do budismo a religião de Estado, exaltando ao mesmo tempo o socialismo como a síntese de todas as virtudes pregadas pelo Gautama. Cinco anos depois, morto o pai, o príncipe se recusa a voltar ao trono e, permanecendo a condição do Camboja como Monarquia Constitucional, aceita assumir o cargo de chefe do Estado. Na política externa, faz profissão de neutralidade em nome da "coexistência pacífica", um slogan caro aos soviéticos, embora solicitando ajuda militar e econômica dos Estados Unidos. Mas quando, em 1965, a aventura americana do Vietnã se revela mais difícil que o previsto, não hesita em romper relações diplomáticas com Washington, aproximando-se de Moscou e de Pequim. O astutíssimo príncipe não calculara as consequências internas e externas de seus rodopios de valsista, entre os quais a potencialização das forças de esquerda e em particular dos khmer vermelhos, que começam a entrar em conflito com as forças de direita, enquanto se multiplicam as invasões de fronteiras por parte de tropas e de bandos de guerrilheiros do vizinho Vietnã. Diante da embaraçosa situação, Sihanouk faz mais uma pirueta: primeiro contata os americanos, esperando induzir pelo menos os vietcongues a voltarem atrás, para seu país, depois percebe que não é fácil livrar-se dos revolucionários comunistas e toma publicamente posição contra o governo de Hanói, apressando-se a restabelecer relações diplomáticas com os Estados Unidos — até porque o Presidente Nixon, furioso com suas tramas, ordenara pesados bombardeios sobre os territórios cambojanos de fronteira.
A verdade é que os imprevistos desdobramentos da guerra no Vietnã, que estão revolucionando consciências e equilíbrios políticos em todo o mundo, não podem evidentemente deixar de ter um impacto dramático sobre o Camboja, aguçando todas as contradições que, até 1969, ainda são mediadas pelo ex-rei: o regime vem sendo minado pela corrupção, a direita filo-americana pressiona no sentido de um decidido apoio ao governo sul-vietnamita, a extrema-esquerda intensifica as relações com Pequim e prepara na clandestinidade sua ofensiva. A partir de 1960, Saioth Sar assumira a secretaria do Partido Comunista, isto é, Pol Pot, que liquidara a facção filo-vietnamita de obediência soviética e se mostra cada vez mais influenciado pelo nacionalismo marxista dos companheiros chineses. Em 1967, ele apoiara as desordens que estouraram na província ocidental do país, mas encontrara uma duríssima reação por parte das tropas governamentais, trazendo-lhe a lição de que o movimento deve enraizar-se cada vez mais entre as massas camponesas.
A desordem sob o céu, como diria Mao, está demasiadamente difundida porque a esperteza de Sihanouk é suficiente para restabelecer o equilíbrio. O ano de 1970 mal começara e o príncipe-presidente acabara de partir para a Costa Azul, onde pensa submeter-se a um bom tratamento de emagrecimento, ignorando o que o espera na pátria, quando em Phnom Penh estoura uma confusão generalizada. São os conservadores que se movem na sombra, provavelmente de acordo com os americanos, com toda a razão enraivecidos (como escreverá mais tarde um grande jornalista italiano, Egisto Corradi) com a presença ativa de um contingente militar norte-vietnamita que, de bases cambojanas, se movimenta para atacar as tropas americanas do outro lado de fronteira, e que, para recuperar forças, se fecha nas mesmas bases, que se tornam inatacáveis santuários. Para um país que se diz neutro, não é pouco. É um triunvirato que vai preparar a reviravolta: dele fazem parte Cheng Hen, presidente da Assembleia Nacional, Lon Nol, o ex-Premier-geral, e o príncipe e vice-presidente do conselho, Sirik Matak, que parece ser o adversário mais perigoso de Sihanouk e dos khmer vermelhos. Na noite de 11 de março de 1970, enquanto na embaixada cambojana de Pequim se projeta um filme rodado pelo próprio Sihanouk sobre o complô filo-americano de um general traidor, em Phnom Penh uma multidão de fanáticos, instigados pelos do terceto conservador, ataca as legações do governo e dos guerrilheiros vietnamitas, saqueando-as.
É o sinal. Uma semana depois, a Assembleia Nacional declara deposto o príncipe-presidente e elege Cheng Hen para seu posto, designando para a presidência do conselho o General Lon Nol, que garante o apoio do Exército, enquanto o Príncipe Sirik Matak permanece na sombra. Em vão, na noite anterior, a mãe de Sihanouk, a Rainha Sisowath Kossomak, tentara in extremis salvar o filho, organizando um contragolpe e tentando mandar prender o general. A causa do omisso príncipe-presidente está comprometida também pelas penosas condições econômicas em que está metido o país devido ao pesado déficit da balança comercial, agravado por uma desastrosa safra de arroz. A notícia do golpe de Estado chega a Sihanouk enquanto está de passagem por Moscou com a mulher e o leva a seguir imediatamente para Pequim, onde chega no dia 21, com um plano e uma proclamação já prontos: o plano é de se aliar com os chineses, a proclamação é um apelo ao povo cambojano no sentido de que se rebele ao governo de Lon Nol, aceitando a ajuda "fraterna" dos 50 mil vietnamitas há muito já postados ao longo das fronteiras. O presidente deposto pode contar com a amizade de Chu En-lai e, portanto, com o apoio militar e político dos chineses, mas sabe muito bem que em seu país os problemas se complicam em virtude da secular hostilidade que separa os cambojanos dos vietnamitas, independentemente de sua respectiva coloração política ou internacional.
Obviamente, Pol Pot e seus amigos se propõem antes de tudo a liquidar o governo conservador e o fazem aplicando ao pé da letra a lição de Mao a respeito do cerco às cidades por parte do exército revolucionário. No decurso de dois anos não só os khmer vermelhos se tornam senhores de grande parte das zonas rurais, como conseguem tornar ingovernável a situação também na capital, para onde afluem às centenas de milhares os camponeses em desesperada fuga de suas regiões, inclusive devido aos pesados bombardeios da aviação americana. A pouca combatividade do Exército republicano e a corrupção que mina a burocracia de Phnom Penh aceleram a capitulação do governo conservador. A 17 de abril de 1975, cinco anos depois do golpe do Príncipe Sirik Matak, os pequenos revoltosos vestidos lugubremente de negro entram vitoriosos na capital. É o início de uma tragédia diante da qual passarão para segundo plano as próprias vicissitudes da guerra civil.
O tenebroso tirano
O restrito grupo de dirigentes que comanda a revolução dos khmer vermelhos entrega a chefia a Pol Pot e com ele dará origem, por quatro intermináveis anos, ao que será definido como a mais radical tentativa de transformação de uma sociedade em todos os tempos. Sua receita oscila entre a loucura e o infantilismo, porque ignora até mesmo aquele período de transição do capitalismo para o comunismo por meio de uma fase socialista, que está prevista nos sagrados textos marxistas; mas é o método pelo qual a receita vem a ser aplicada que supera qualquer imaginação, das mais perversas. O novo ministro do Exterior deixa entrever isto quando, assim que entra em Phnom Penh, anuncia que será realizada no Camboja uma solução "que deixará o mundo estupefato". O que é um eufemismo. Mas quem é Pol Pot e como decidiu se tornar o líder dos comunistas cambojanos? Nascido provavelmente em 1925 (ninguém sabe a data precisa), de uma família camponesa da Província de Kompong Thom, aprende a ler e a escrever em um mosteiro budista, para vir a frequentar a escola técnica na capital. Em 1948, depois de ter participado da resistência às tropas francesas de ocupação durante a Segunda Guerra Mundial, ganha uma bolsa de estudos de engenharia eletrônica em Paris, onde ficará durante três anos. Houve boatos de que uma irmã e uma prima sua eram bailarinas na corte e concubinas do rei, e que um irmão permaneceu como funcionário na administração monárquica até a queda de Phonm Penh, mas não é em uma hipotética origem burguesa que se deve buscar um possível complexo de culpa sublimado no cego ódio a qualquer aspecto da sociedade tradicional. Foi o Partido Comunista, para o qual entrou na época de sua estadia na França, que determinou sua educação política, completada com a total adesão ao marxismo-leninismo, depois de entusiasmos iniciais em relação às revoluções americana e francesa.
Ao voltar à pátria, no início da década de 1950, ensina em uma escola secundária da capital e escreve a respeito de política. Em 1960, participa da fundação do Partido Comunista cambojano, do qual, três anos depois, é eleito secretário-geral. Homem de aparelho, ambiciosíssimo, mas esquivo a contatos com as grandes massas, encontra-se perfeitamente à vontade no período clandestino em que vive predominantemente na selva, ou em refúgios secretos na cidade, para escapar à prisão por parte da polícia de Sihanouk. Descrito na juventude como "um professor sensível e tímido, apaixonado pela poesia francesa e querido por seus alunos", uma vez chegado ao poder demonstrará, pelo contrário, uma impenetrável ferocidade e um desumano desprezo a qualquer afeição, a ponto de evitar qualquer relação, inclusive com os parentes mais próximos, como seus dois irmãos e sua cunhada. Deportados sem que ele intervenha, os três infelizes nem suspeitam que Saloth Sar seja o novo primeiro-ministro e, quando por acaso o identificam a partir de uma fotografia, evitam revelar aos carcereiros quem eles são. E é uma intuição sagaz, embora no momento os três ainda não saibam que seu poderosíssimo parente mandou prender muitos de seus companheiros de luta da véspera, ignorando seus desesperados apelos e ordenando até, depois de terem sofrido cruéis torturas, que venham a ser eliminados.
Pol Pot tem duas obsessões: acredita ser um gênio e teme os complôs, mas leva estas duas manias além de todo e qualquer limite razoável. Sua desconfiança supera até a de Stalin: todas as ações políticas dos khmer vermelhos, suas relações com a população e o próprio sistema repressivo vêm dominados pela suspeita de que se estejam tramando permanentemente conspirações visando a realizar um golpe de Estado, a sabotar a produção e a guerra, a favorecer o inimigo interno ou externo. A diferença, porém, de todos os outros mais funestos ditadores do século 20, ele não sofre de exibicionismo; ao contrário, prefere ficar na sinistra sombra do poder, sem pedir estátuas, retratos oficiais ou biografias elogiosas, vetando até a divulgação de suas raríssimas fotografias. Chegou a esconder de seus súditos-escravos a própria identidade até um ano depois de ser deposto. Esta falta de vaidade demonstra, sem dúvida alguma, que este sanguinário mentiroso, mais sanguinário e mais mentiroso que todos os tiranos do século 20, tem total e delirante boa-fé nos objetivos da revolução e nos meios infames de que se serve. Total e delirante boa-fé quando afirma que a revolução dos khmer vermelhos não tem precedentes na história porque eles pretendem realizar, sob sua orientação, o que jamais foi realizado; e também quando se recusa a reconhecer a superioridade de todos os grandes revolucionários passados ou atuais, a ponto de acreditar perceber perigosos elementos de revisionismo, isto é, de traição dos princípios, até nos companheiros chineses "que nos admiram e tentam imitar-nos, mas não conseguem", porque não suprimiram o mercado e a moeda. Para ele, o ex-estudante da universidade francesa, o dia em que seus guerrilheiros entraram em Phnom Penh é o maior evento revolucionário da história, com exceção apenas da Comuna de Paris.
A presunção faz com que ele creia ser mais inteligente e perspicaz que todos os revolucionários do mundo em qualquer campo de atividade, e não só como estrategista ou economista, mas até nos setores mais frívolos, da dança à moda, da cozinha às canções e, como acrescenta maldosamente seu cunhado, sobretudo na arte de mentir. Ele mentiu, de fato, até quando se apresentou pela primeira vez como candidato às eleições de 1976, fazendo-se passar por um ex-boia-fria agrícola; assim como, ao fugir treze anos antes para a capital a fim de escapar da prisão, tinha mentido fazendo espalhar o boato de sua morte.
A experiência de partido na França e na sua pátria deixou nele a convicção de que o trabalho político é o mais elevado estágio da condição humana. "Para construir diques", mandará ele dizer a um de seus colaboradores-algozes, "não se precisa mais que de educação política." Em outra ocasião, para justificar a crueldade de uma repressão baseada no princípio de que "quando se arranca a relva é preciso arrancá-la com todas as raízes" (e por isso matar, junto com o culpado ou hipotético culpado, também a mulher e os filhos) afirmará que "um milhão de bons revolucionários é suficiente para o país que queremos construir" e fará circular este terrível slogan: "Preferimos matar dez amigos a deixar vivo um só inimigo." O trabalho político, a seu ver, dá frutos abundantes, até mesmo porque os cambojanos têm atrás de si uma história fabulosa: "Se o nosso povo foi capaz de edificar Angkor, tudo é possível." Angkor é a legendária Camboja dos khmer, o conjunto de templos da antiga tradição.
É partindo destas premissas que, em 1976, um ano depois do famoso 17 de abril, Pol Pot apresenta um plano quinquenal fundamentado em previsões totalmente desconectadas da realidade, um plano delirante que deveria garantir um sólido desenvolvimento da produção e da exportação agrícolas, para passar imediatamente depois a uma fase superior, caracterizada pela industrialização da agricultura, pela criação de uma indústria leve diversificada e de uma indústria pesada. Os camponeses pobres, como demonstraram com sua vitória de 17 de abril de 1975, se vangloriam de sua indiscutível superioridade "sobre a primeira potência imperialista" para realizar todos os objetivos: será suficiente que os inimigos da revolução, os proprietários de terras, os burocratas, os intelectuais, sejam submetidos a um regime adequado de reeducação, aprendendo a trabalhar pelo menos onze horas por dia, quando não doze, gozando de um dia de descanso a cada dez dias de trabalho e usando provavelmente aquele único dia de descanso para participar de intermináveis reuniões políticas nas quais são obrigados a dar a máxima atenção, uma contribuição crítica construtiva e fazer uma saudável autocrítica. E se os resultados são, como será o caso, infalivelmente catastróficos, até pela arrogante incompetência dos khmer vermelhos, a culpa será atribuída aos sabotadores, aos preguiçosos, aos que se fingem de doentes, em suma, aos inimigos do povo, exatamente como acontecera na Rússia de Stalin, mas com consequências até certo ponto ainda mais assustadoras.
No regime de Pol Pot, todos os defeitos e erros do comunismo são elevados à sua potência máxima. A cultura arcaica que neles se expressa é realçada pelo atraso com que os khmer vermelhos chegam para realizar seu projeto e com a frustração de, simultaneamente, estarem percebendo a evidente crise de seus dois grandes modelos, o soviético, posto dramaticamente em discussão depois da morte de Stalin, e o chinês, que exatamente naquela época registra os grandes confrontos de cúpula depois do recentíssimo desaparecimento de Mao Tsé-tung. As coisas não vão muito melhor para seus companheiros na Europa, enquanto na Ásia se afirmam o nascente capitalismo japonês e o carreirismo dos países anticomunistas, de Formosa à Coreia do Sul, de Singapura a Hong Kong. Diante deste panorama, a reação de Pol Pot e dos demais dirigentes cambojanos é condicionada por seu atraso cultural, porém, mais ainda, por um grotesco complexo de superioridade na comparação com os partidos irmãos, que não tiveram, segundo eles, a coragem de levar a intransigência a seu limite último e de lutar com impiedoso rigor contra os traidores e os dissidentes. Eles o farão, mesmo que tenham de pedir ajuda aos chineses e aos vietnamitas, e seguramente conseguirão a vitória, ainda mais por ser inapto e corrupto o regime de Lon Nol, apenas superficialmente apoiado pelos americanos, contra os quais eles se rebelaram.
A escolha maximalista, já por si mesma arriscada, acarreta consequências ainda mais graves devido à fragilidade do aparelho institucional, militar e político do país, sem esquecer que os quadros do partido são relativamente poucos e pouco preparados para as tarefas da revolução e do governo, além de estarem depois amplamente desfalcados pelas depurações que se seguem. A crueldade é diretamente proporcional à ignorância e à incompetência, porque nasce de uma sensação de insegurança e, portanto, de medo, de isolamento, que os homens de Pol Pot tentam superar com uma repressão cada vez mais dura. O líder planeja o genocídio partindo de uma espécie de fria simplificação, porque pensa, como Mao, que "é sobre a página em branco que se escreve a mais bela poesia". Não há mediações possíveis, nem compromissos, não há paciência nem piedade, é preciso forçar os cambojanos a partir de novo literalmente do zero, até mesmo com relação à própria identidade, ao próprio passado, queimando documentos, os álbuns de fotografias, as bagagens, os livros. Estes particularmente se tornam um ato de acusação, uma prova irrefutável de conivência com o inimigo, quando não até mesmo de filiação à CIA. As láureas e o diploma são escondidos porque representam uma garantida candidatura à eliminação.
O ódio à cultura só é superado, talvez, pelo ódio à cidade, especialmente à capital, Phnom Penh, que o tenebroso Pol Pot definiu uma vez como "a grande prostituta do Mekong", definição impregnada por aquele fundamentalismo moralista que está na base de todas as atrocidades dos khmer vermelhos e que sugerirá severas limitações à sexualidade e até ao casamento, a ponto de fazer cair a natalidade a níveis desoladores, em contraste com a ambição de fazer da Kampuchea democrática uma nação florescente e poderosa.
Não basta a austeridade, exige-se também a humildade, virtude que é imposta como um dever político, mas que se torna igualmente para os infelizes súditos reduzidos à escravidão um modo de evitar o pior, de não dar pretexto às perseguições, de conseguir um pouco de comida: oferecer-se para limpar os sanitários, por exemplo, é uma demonstração de adequação ideológica, trabalhar na cozinha salva da fome. O pior pecado, porém, é o individualismo; o refúgio ideal, o trabalho prático; a lei fundamental, a obediência. A nostalgia em relação às afeições familiares é banida como sintoma de uma mentalidade reacionária, porque o poderio pátrio e qualquer outro tipo de vínculo deve ser um patrimônio exclusivo do partido, o Angkar; e é também por isso que Pol Pot decide tirar os filhos de seus genitores assim que completam doze anos, ou às vezes até antes, para transformá-los em soldados, guardas, espiões dos adultos, ou até médicos, meninos-criança capacitados a dar injeções e distribuir remédios, todos, porém, educados no sentido de executar as ordens — sejam quais forem, mesmo as mais insensatas, sem discutir — de desprezar as tradições e de rir da religião.
A perspectiva que o tirano oferece a todos os seus súditos-escravos é lúgubre como o uniforme negro abotoado até o pescoço que representa o único traje por ele permitido. Em sua paranoia, para os escravos não se deve dar qualquer possibilidade de movimento, nenhum tipo de comércio livre, nenhuma forma de instrução, nenhuma assistência médica. Não existe liberdade de culto nem para os budistas, nem para os islâmicos, nem para os católicos, e vigora, além disto, a mais férrea proibição de manifestar sentimentos ou reações emotivas. Leva-se ao auge a liturgia comum a todos os regimes comunistas: na Kampuchea, a ordem é de ater-se cegamente às instruções, participar ativamente das reuniões políticas, aplaudir ou entusiasmar-se quando for mandado, exercer a crítica sem jamais ultrapassar os limites adequados e mergulhar em uma falsamente humilde e abjeta autocrítica quando a isto for solicitado. O trabalho, sempre obrigatório, muitas vezes forçado e cumprido regularmente em condições impossíveis de vida e de alimentação, não é sequer agilizado por meio de explicações ou instrumentos técnicos; quem erra, mesmo sendo portador de severos handicaps, é inexoravelmente punido. Não é, pois, de surpreender que muitos súditos-escravos, especialmente os dotados de um mínimo de personalidade e de cultura, desgastados por inúmeras privações materiais e a perda da própria identidade, procurem uma fuga no suicídio: nos primeiros tempos da revolução, houve uma verdadeira epidemia de suicídios.
Aliás, o passado é considerado objetivamente uma culpa que pode levar à prisão, à confissão e, muitas vezes, à morte, com base em uma simples denúncia. Ao súdito-escravo que ceda à monstruosa chantagem do regime não se deixa a possibilidade de respirar para que não tenha tempo para refletir, para revoltar-se, para conspirar. Pol Pot se vangloria de governar um país em que não existem prisões, mas a verdade é que a Kampuchea democrática não tem o mais elementar aparelho judiciário, e as condenações, do chicoteamento ao tiro na nuca, são dadas sem sombra de processo. Sempre com uma finalidade pedagógica, orquestram-se até execuções fingidas, destinadas a enrijecer a têmpera moral do súdito-escravo, ou seja, a aterrorizá-lo e a difundir em torno dele o terror. Em todos os casos, cada tipo de violência, até o mais sádico, vem precedido de um cerimonial muito gentil que os assassinos se empenham em observar por vontade de Pol Pot, que quer evitar a revolta da vítima e tirar partido da surpresa: não é raro que a deportação para os chamados centros de reeducação, em lugar do cárcere e do campo de concentração, venha expressa como. uma convocação para uma "sessão de estudos".
Os delitos que podem levar à prisão e à morte, segundo os critérios ditados pelo tenebroso tirano, são infinitos: vão do furto de comida à deserção, da briga às visitas clandestinas a familiares dos quais se vive afastado, do abuso de álcool ao intercâmbio sexual fora do casamento, das queixas contínuas ao protesto real e verdadeiro, da execução falha das próprias tarefas a uma manifestação de perplexidade que possa ser interpretada como derrotista. O juízo e a pena dependem exclusivamente do khmer vermelho, às vezes até do soldado-menino, e são, obviamente, de todo independentes de uma efetiva realização de qualquer delito. A Kampuchea democrática de Pol Pot é um imenso pesadelo sem ar-condicionado.
OceanofPDF.com
Um pacto de sangue
"Perdê-lo não é uma perda, conservá-lo não tem a menor utilidade."
Neste slogan, apresentado aos súditos-escravos como viático para os trabalhos forçados ou para a morte, Pol Pot sintetiza sua ideia de humanismo socialista. Quanto ao projeto, o líder não é menos sucinto: supressão de toda propriedade privada no decurso de dois anos; eliminação dos conflitos de classes por meio da eliminação física do maior número possível de expoentes das classes privilegiadas (isto é, segundo os khmer vermelhos, os proprietários, os comerciantes e também os intelectuais e os grandes burocratas); superação da contradição maoista entre campo e cidade por meio da destruição dos centros urbanos, possivelmente em uma única semana; solução ao antigo problema da distribuição desigual da riqueza com a abolição da moeda. Estabelecendo assim sua estratégia revolucionária, o ex-estudante parisiense está persuadido de ter lançado as bases para a criação de uma sociedade ideal, perfeita e perfeitamente igualitária, inscrevendo assim o próprio nome junto aos dos grandes protagonistas da Revolução Comunista mundial, do Outubro Vermelho ao Livro Vermelho.
Alguém a definiu como "uma loucura classificadora e eliminatória" e, aliás, o próprio Lenin já havia falado do extremismo como uma doença infantil do comunismo. Por exemplo, a deportação dos habitantes das cidades para as zonas rurais, muitas vezes realizadas com repetidas transferências, provoca graves problemas não só para a instalação das vítimas, mas também para a arrumação e o aprovisionamento, o que o Partido Comunista resolve subdividindo a população em duas categorias, os Velhos e os Novos. Os primeiros são também chamados de os Setenta, porque recrutados entre os cambojanos que habitavam o território controlado pelos revolucionários desde o início da guerra civil, ao passo que os Novos são denominados também Os Setenta e Cinco, ou "os 17 de abril", porque surpreendidos naquela data pelos khmer vermelhos nas zonas dominadas pelos governantes, antes da queda de Phnom Penh. Aos Velhos se concedem modestos privilégios, inicialmente até o direito de possuírem um pequeno pedaço de terra; os Novos são excluídos de qualquer concessão, por serem cidadãos de segunda categoria, a ponto de não poderem casar com mulheres da outra categoria e nem mesmo de dirigir a palavra aos Velhos; embora também entre estes se decida separar os analfabetos e os simples trabalhadores dos ex-funcionários da administração governamental e principalmente dos intelectuais, raça vil e danada. Uns e outros estão destinados, em sua maior parte, a serem demitidos, presos, torturados ou deportados e, não raro, justiçados juntamente com suas mulheres e seus filhos, quando estes não são requisitados para serem usados como instrumentos do novo regime. Para sufocar toda e qualquer tendência ao individualismo, visto como manifestação criminosa, chega-se a oferecer aos súditos-escravos a transferência "voluntária" para áreas menos inóspitas e mais próximas de suas famílias; e, naturalmente, uma vez apresentada a solicitação do infeliz, ele é punido submetendo-o a um processo de reeducação mais severo que aquele do qual, por assim dizer, já desfrutava. A orientação fortemente nacionalista e xenófoba dos khmer vermelhos demonstra igualmente uma invencível hostilidade para com os cambojanos que tenham qualquer longínquo antepassado vietnamita e apenas por isso já se arriscam a amargos castigos.
A lógica discriminatória se abate inexoravelmente sobre súditos-escravos que se dedicam a qualquer tipo de culto religioso, em público ou (se a denúncia parte de um patriota) até mesmo em âmbito privado. Calcula-se que quase 50% dos cambojanos de confissão católica tenham sido assassinados, enquanto que em todas as zonas controladas pelos khmer vermelhos as mesquitas foram regularmente destruídas e as preces coletivas rigorosamente proibidas. Um tratamento particular foi reservado aos cham — população de antiquíssimo enraizamento local, mas de religião islâmica —, que foram obrigados a mudar de nome e de "mentalidade", evidentemente depois de terem sido evacuados de seus vilarejos, considerados covis de inomináveis heresias contrarrevolucionárias. A mesma atenção é reservada aos monges budistas, que não aceitam despir a túnica laranja e renegar sua fé. Pol Pot está convencido, tal como ou ainda mais que Stalin e Mao, que nunca se desconfia suficientemente do próximo, mesmo que, ou principalmente, se este próximo milita em seu próprio partido e se arrisca, por capacidade pessoal, a ter atitudes críticas ou laços com os comunistas do Vietnã vizinho, podendo revelar-se futuramente seu perigoso rival na liderança do movimento. Aos infelizes portadores destes traços bastam três denúncias para provocar a incriminação, a que se seguem infalivelmente o encarceramento sem processo e cruéis torturas que visam a extorquir confissões verdadeiras ou falsas. O próprio Pol Pot, nos casos mais clamorosos, não se mostra infenso a participar pessoalmente dos espancamentos e suplícios.
Há um pacto de sangue entre o carnífice da Kampuchea democrática e suas vítimas. Já se comentou que o Hino Nacional começava com um verso de dar calafrios: "Sangue escarlate que inunda as cidades e os campos da pátria!"
E o líder dos khmer vermelhos observou que a essência do hino era "o sangue de todo o povo, um apelo aos que morreram nas gerações anteriores", completando provavelmente o sentido maior de seu comentário com um apelo também a todos os que ele estava fazendo "cair" entre 1975 e 1979 em nome da "vingança de classe". Houve já quem tentasse colocar os crimes da revolução de Pol Pot no contexto dos "grandes erros" do século 20, e, depois de uma argumentação pretensamente jurídica, acabou admitindo que se tratou de um genocídio de base racial, no sentido de que os khmer vermelhos consideraram determinados grupos sociais "por natureza e em sua totalidade" criminosos, e como tais os exterminaram, transmitindo inclusive a acusação de crime ao marido, à mulher e aos filhos, como se fosse um traço hereditário.
A grande matança começa na primavera de 1970, quando o Rei Sihanouk é deposto com o beneplácito da CIA, e o governo republicano, além de atacar as embaixadas de Hanói e dos vietcongues, desencadeia uma série de pogroms contra a minoria vietnamita, de quase meio milhão de indivíduos, que em sua maioria encontra refúgio em Saigon. O Vietnã comunista finge apoiar os khmer vermelhos que já passaram a opor-se a Lon Nol, mas, na realidade, aproveita a ocasião para ocupar grande parte do Camboja em nome do soberano deposto, agora refém dos chineses e da extrema-esquerda. Para enfrentar inimigos tão poderosos, Lon Nol é obrigado a recorrer à ajuda militar dos Estados Unidos, partilhando assim, aos olhos da população, da responsabilidade pelos mortíferos bombardeios aéreos dos americanos.
Duramente derrotado na ousada ofensiva de 1972, o governo republicano resiste por mais três anos nas cidades, aumentando os sofrimentos e os prejuízos das massas rurais, em meio às quais crescem, em consequência, o ódio aos estrangeiros e a solidariedade para com os bandos de guerrilheiros de cujas fileiras fazem parte muitos camponeses, enquanto Phnom Penh e as outras cidades regurgitam de fugitivos famintos e desesperados até o ingresso vitorioso na capital dos khmer vermelhos, em 17 de abril de 1975.
Mas os homens de Pol Pot não esperaram o dia da vitória para dar uma demonstração de sua barbárie: tomando como exemplo os campos de concentração situados no Vietnã do Norte para os prisioneiros e mais ainda os organizados na China pelos jovens apóstolos da Revolução Cultural, criam nos territórios tomados ao Exército governamental centros de reeducação, nos quais impera um regime de terror, baseado no princípio de que os soldados republicanos são todos uns traidores. No rol dos inimigos a serem massacrados estão incluídos também os próprios parentes e até mesmo os filhos, além de monges budistas, viajantes suspeitos e assim por diante, todos destinados a perecer de fome, de doença ou de morte violenta. Um ano antes da vitória final são organizadas as primeiras deportações em massa de populações civis, obrigando-as muitas vezes a seguirem os deslocamentos dos khmer vermelhos. Quando, no mesmo ano, Hanói decide suspender as ajudas até então fornecidas, Pol Pot começa a liquidar os companheiros que voltam do Vietnã depois de terem participado da guerra contra os franceses e os americanos e, portanto, com uma bagagem de experiência política que o tenebroso tirano considera extremamente perigosa: é o "grupo de 1951", que os khmer vermelhos querem aniquilar para que se imponham como os verdadeiros fundadores do Partido Comunista da Kampuchea democrática — que na realidade só viria a ser criado dez anos depois. O que é também um erro: a perseguição irrita Hanói, cujas tropas começam a ter os primeiros conflitos com os soldados de Pol Pot.
A evacuação de todos os habitantes da capital "libertada" pelos bandos revoltosos na primavera de 1975 provoca um número relativamente modesto de vítimas, aproximadamente um par de centenas de milhares, mas, naturalmente, deixa um traço indelével na memória dos infelizes, "levados embora por soldados inflexíveis que jamais sorriam" e obrigados a abandonar casas e haveres, muitas vezes a separar-se de entes queridos, sem saber o próprio destino e sem receber a mínima assistência durante as marchas de transferência, por vezes intermináveis. Nas encruzilhadas das estradas, patrulhas de khmer vermelhos revistam os fugitivos para identificar os funcionários e os oficiais de Lon Nol, destinados a morrer no cárcere ou a serem liquidados ali mesmo, embora tenham alguma dificuldade em sua identificação em virtude da bizarra decisão de Pol Pot, que ordenou que fossem destruídos todos os documentos. Quanto aos que são deportados ainda com vida, eles poderiam encontrar refúgio no campo, adaptando-se às muito precárias condições de vida, se o partido não tivesse inventado a subdivisão entre Velhos e Novos, em uma espécie de trágica encenação na qual os primeiros representam os patriotas revolucionários e os outros os lacaios do imperialismo ianque, uns os camponeses pobres e os outros os proprietários de terras, os comerciantes, os intelectuais, a escória da Terra — evidentemente sempre em nome da luta de classes. Como se a situação já não fosse bastante dura, os Novos que sobreviveram à primeira seleção veem-se encaminhados sucessivamente a diversos outros lugares de deportação, enquanto que os jovens recrutados para as brigadas de trabalho desaparecem durante meses inteiros. Os khmer vermelhos ficam divididos entre a ânsia de explorar o trabalho forçado para realizar as obras públicas e a reforma agrária idealizada pela megalomania de Pol Pot, a incapacidade de garantir aos deportados um mínimo de condições de sobrevivência e o sádico prazer de vê-los extinguir-se lentamente em seus extenuantes deslocamentos.
Não se deve crer, porém, que a crueldade do tenebroso tirano e de seus acólitos se exerça apenas sobre os Novos. Desde o inverno que se segue à entrada na capital, todos os diplomatas do governo monárquico são chamados de volta à pátria, e, com exceção de um par deles, torturados e justiçados. As dificuldades da guerra, a hostilidade dos vietnamitas, o visível fracasso da insensata política econômica fazem crescer na camarilha dominante a suspeita de traição e o medo do fracasso. Daí uma onda de depurações dentro do próprio Partido Comunista e principalmente entre seus quadros dirigentes, depurações levadas a cabo sem incriminações precisas, sem provas, sem processos, baseadas apenas em uma luta "feroz e impiedosa, mortal" contra o inimigo de classe que se esconde preferencialmente (exatamente como no PCUS de Stalin) nas fileiras do partido, e também no Estado-Maior do Exército khmer e, obviamente, em toda a periferia: desaparecem assim cinco dos treze chefes que haviam levado os revoltosos à conquista de Phnom Penh, quase todos os secretários regionais do PC e dois dos sete componentes da direção constituída em 1978. São todos agentes da CIA, como se depreende da confissão dos traidores (muitas vezes repetida e corrigida seis ou sete vezes), confissão esta feita debaixo de maus-tratos e torturas. Não são poupados sequer os dirigentes das cooperativas e seus associados, acusados em bloco de infames contatos com os americanos e com os vietnamitas.
É claro que é exatamente a região mais próxima do muito odiado Vietnã, a oriental, que desperta a máxima suspeita em Pol Pot e seus sicários, até mesmo porque o afastamento do centro do país possibilita aos chefes locais alguma autonomia. É o caso de um certo Sao Phim, que, no verão de 1978, fomenta até uma pequena guerra civil contra seus companheiros, é derrotado e vê-se levado ao suicídio, enquanto sua mulher e filhos são massacrados durante os funerais, e todos os dirigentes de seu grupo são capturados, salvo uns poucos sobreviventes que fogem para o Vietnã. Aí todos os fugitivos vão constituir, com o partido local, uma Frente Única de salvação nacional, que os vietnamitas usarão como cobertura política quando seu exército entrar, um ano depois, em Phnom Penh. Mas os futuros aliados de Hanói deixam atrás de si uma tragédia, pois, nos últimos meses de 1978, Pol Pot se vingara da breve revolta da Sao Phim, exterminando de 100 a 250 mil pessoas dos um milhão e 700 mil habitantes da região oriental, incluindo toda a população de alguns vilarejos, enquanto os sobreviventes são deportados "em caminhões, em trens, em barcos, para outras zonas" e obrigados a vestir o uniforme azul (diferente do uniforme negro dos khmer):, milhares deles são mortos durante o percurso e pouco a pouco todos os demais desaparecem nos locais de trabalho, desta vez sem estabelecer distinção entre Velhos e Novos, e muito menos entre homens, mulheres e crianças.
A esta altura, não há outras vias de escape a não ser a fuga para além das fronteiras ou a chegada do exército norte-vietnamita, embora as dezenas de milhares de infelizes que tentam se expatriar venham a encontrar inenarráveis angústias: o risco de serem descobertos e justiçados, a desumana fadiga de atravessar a selva a pé, a fome e a prostração física. Quanto ao avanço dos soldados de Hanói, terão ainda de esperar, mas é significativo que em muitas localidades, a partir de janeiro de 1979, eles não tenham encontrado vivalma nas prisões porque os khmer vermelhos tinham liquidado todos os detentos antes de se retirarem; e que, em outras localidades, tenham sido os camponeses cambojanos que exterminaram os khmer antes da chegada dos vietnamitas. O ódio é a marca de fábrica da Kampuchea democrática.
OceanofPDF.com
O exemplo do boi
Diferentes avaliações foram feitas em relação ao número de vítimas que o Terror Vermelho disseminou na Kampuchea democrática, até porque entre eles podem ser incluídos os cambojanos mortos por doença e de desnutrição em virtude do abandono em que foram deixados pelos khmer vermelhos, pelos bombardeios aéreos americanos e, finalmente, pelas próprias vicissitudes bélicas que reviraram o país nos anos da tragédia que explodiu depois da deposição do Príncipe Sihanouk. Segundo o protagonista do genocídio, apenas "alguns milhares" de cambojanos teriam morrido em consequência "dos erros" na aplicação de uma política que, sempre no dizer de Pol Pot, visava exclusivamente a "dar abundância" ao povo. Seus inimigos, como Lon Nol e Pen Sovan, fornecem cifras bem diferentes, que oscilam entre dois milhões e meio e três milhões de mortos, ao passo que a CIA preocupou-se apenas com o déficit demográfico em seu todo, inclusive a queda da natalidade, que decresce em cerca de quatro milhões.
Posteriormente, terminada a tragédia, os curadores do Cambodian Genocide Program, um projeto da Universidade de Yale financiado pelo Departamento de Estado, chegaram a um cálculo provavelmente mais exato: pelo menos 1.700 mil cambojanos eliminados, ou seja, cerca de 20% da população, estimada em 1975 em 7.900 mil habitantes. Em 1981, em 170 distritos do país foram localizadas cerca de 9.138 fossas comuns, contendo meio milhão de cadáveres, e em outros 89 distritos foram encontrados outros tantos. Quanto aos edifícios públicos, foram destruídos 796 hospitais, 5.857 escolas, 1.987 pagodes, 108 mesquitas e um número mais modesto, porém impreciso, de igrejas católicas. A grande massa de doentes que foram deixados à morte durante as marchas de transferência, nos centros de reeducação e nos hospitais que restaram se explica também pelo massacre dos agentes sanitários, detestados pelos khmer vermelhos, como todos os cambojanos cultos: 91% dos médicos, 83% dos farmacêuticos (!), 45% dos enfermeiros e até 32% dos obstetras. Um atroz festival da ignorância.
A pureza revolucionária implica, para Pol Pot, eliminação de qualquer traço de cultura, em imitação da revolução maoista elevada ao cubo. Segundo os princípios da Angkar, isto é, do aparelho comunista, "a liberdade é escravidão, a ignorância é força. Não se instaura uma ditadura para tutelar uma revolução, faz-se uma revolução para instaurar uma ditadura". O súdito-escravo, por isso, no ato de lavrar a terra deve seguir o exemplo do boi: "Vocês veem esse boi que está puxando o arado: ele come o que lhe dão de comer; se o deixam pastando no campo, ele o faz, se o levam para outro campo onde não há grama suficiente, pasta do mesmo modo. Não pode mexer-se, está vigiado.
E quando o mandam puxar o arado, ele puxa: não pensa nunca em sua fêmea, em seus filhotes." A idolatria de bestialidade, do analfabetismo tem um lugar de honra na ideologia de Pol Pot e de seus colaboradores. Os khmer vermelhos adquiriram a convicção de que a ideologia supera a técnica e que é preciso livrar-se dos engenheiros e dos especialistas. "Um dique construído no verão segundo esses preceitos estourou no início de dezembro de 1975", conta o engenheiro Pin Yathay, que escapou por milagre ao calvário dos trabalhos forçados: "O balanço do acidente foi dramático: uma centena entre mortos e desaparecidos, sobretudo velhos e crianças. Os feixes de palha, as cabanas, as contenções construídas às margens do rio ficaram revolvidos: os khmer vermelhos responsáveis pelas obras não tinham jamais usado as mais elementares técnicas de construção de diques. Os quadros dos revoltosos, em sua maioria analfabetos, improvisavam à medida que os problemas apareciam."
É claro que o engenheiro cambojano, que fornecerá um amplo testemunho de sua trágica experiência em um livro e em uma série de conferências pronunciadas no mundo livre, teve a prudência de não advertir os soldados de Pol Pot quanto a sua competência: limita-se a apresentar-se como "Técnico de Obras Públicas", e somente graças a esta prudente mentira escapa da morte instantânea. O único comportamento a ser adotado para sair vivo do campo é o silêncio, bancar o boi. Naturalmente, tal como no gulag soviético ou no lager nazista, também no Camboja a sociedade da pureza reabilita automaticamente o papel do ouro, a corrupção, o roubo e em geral todo tipo de tráfico escuso: "Pol Pot tinha dividido a sociedade em duas classes: de um lado, a gente da cidade, impura e feia, os escravos, os Novos; do outro, os homens puros, os Velhos, que fiscalizam os trabalhos e recebem a parte melhor dos víveres. Os khmer vermelhos nos humilhavam deliberadamente e, como é óbvio, retribuíamos seu desprezo. Graças a seu sistema repressivo, tinham conseguido abolir todo tipo de delinquência, menos o roubo." Nos centros de reeducação todos roubam: "Quando o estômago fica vazio, quando se tem fome, nenhum sentimento, nenhum impulso amoroso ou sensual pode subsistir, são impulsos que só se manifestam quando se tem a barriga cheia."
O sistema repressivo é também o fruto, bem como a causa, de uma bárbara simplificação. No campo se é condenado à morte por alguns gramas de arroz e, neste caso, com a costumeira delicadeza de maneiras, o prisioneiro é arrastado para a floresta da qual ninguém o verá mais reaparecer e onde ele é massacrado com o cabo da enxada para poupar cartuchos. Quando o cadáver já decomposto vier a ser descoberto por acaso não muito longe da estrada, nenhum dos forçados falará a respeito, ninguém ousará sepultá-lo: o medo inevitavelmente dá origem à velhacaria. Aliás, quem não é morto por um motivo qualquer morrerá de fome ou de doença, porque para os khmer de Pol Pot as perdas humanas não têm o menor valor. Eles consideram inimigos irreconciliáveis todos os que viveram na época do regime de Lon Nol e que foram evacuados das cidades exatamente para ser exterminados, segundo a lógica fria e criminosa da "purificação". Os cadáveres dos forçados mortos de fome são jogados em uma fossa comum, ao passo que os justiçados, para não dar na vista, prefere-se escondê-los na floresta.
Os poucos sobreviventes, como o engenheiro que contou sua terrível odisseia, viram morrer devido a maus-tratos ou à desnutrição pais e filhos ou assistiram à queda dos pais vencidos pelo cansaço. É preciso um físico de aço para sobreviver no campo, onde a comida é distribuída em quantidades ridículas, o arroz em uma meia latinha de leite condensado, cerca de 125 gramas de arroz, distribuídas depois de uma espera de quase quatro horas. Só quem tem ainda algum ouro, qualquer objeto de valor ou alguma peça de vestuário pode obter outros alimentos, recorrendo ao florescente mercado negro favorecido pelos próprios milicianos de Pol Pot, que conseguem alimentos deixando de registrar ou demorando a registrar o nome dos forçados mortos, de modo a poder dispor de suas rações: um par de calças vale dez latinhas de arroz, uns quarenta gramas de ouro fino, de trinta a quarenta latinhas; mas o relógio, que tem mais valor que qualquer outro objeto, rende sessenta a oitenta latinhas, com o aviso de que o negócio envolve também os chlops, isto é, os espiões, que deveriam contar aos superiores todas as possíveis falcatruas do campo, mas estão dispostos a calar em troca de uma parte da comida negociada.
As desumanas condições do campo de reeducação destroem nos deportados quaisquer sentimentos de solidariedade e de compaixão. Diz Pin Yathay: "A degradação modificou profundamente o caráter de nossa gente. No centro de reeducação não conseguimos sequer dar ouvidos aos pedidos dos mais desgraçados nem prestávamos atenção aos choros e aos lamentos. É terrível, mas é a verdade. Entre nós um gesto de piedade era até reprovado. Aconteceu até comigo. Queria dar um pouco de arroz a uma senhora idosa que tinha a seu lado uma menina e que, pelas roupas, parecia vir de um ambiente civil, mas minha mãe me advertiu: Pensa primeiro em ti mesmo', disse-me. 'Se tiveres pena dos outros, quando chegar a tua vez, verás como serão tratados, tu e tua família.' E seu conselho bastou para que eu deixasse de dar presentes: o egoísmo era uma das chaves da sobrevivência."
É como uma infecção que os torturadores transmitem às vítimas. "Os khmer vermelhos tinham perdido toda a capacidade crítica, todo o senso de medida. Haviam-nos avisado de que os Novos jamais se tornariam bons soldados revolucionários, e esta era a contradição mais clamorosa da revolução que queria esmagar-nos porque não podia dar marcha à ré, empurrada por sua própria lógica para o abismo." Após os dois primeiros anos de terror, todos os khmer vermelhos, do simples soldado ao chefe supremo, se viram presos em sua própria armadilha: não havia meio de escapar ao frenesi de homicídio e das torturas, pois desde o princípio Pol Pot havia estabelecido que "a rota da revolução não tem piedade, esmaga todos que a atravessam".
O horror não tem limites e é perpetrado de maneira tão extravagante que por vezes chega a parecer grotesco. Além dos ex-funcionários da administração governamental, por exemplo, são eliminados todos os repórteres fotográficos, ao passo que não é raro que os intelectuais, embora representem os principais inimigos do regime, possam salvar-se caso renunciem a desempenhar suas funções específicas e até se apenas tirarem os óculos e fizerem sumir seus livros, símbolos que irritam profundamente os discípulos de Pol Pot. De todas as categorias mais ou menos atormentadas pela desconfiança e o ódio dos khmer vermelhos fazem exceção apenas (e por motivos utilitários) a do pessoal ferroviário, com algumas exceções no caso dos principais chefes de estação. Minorias religiosas e étnicas são alvo da intolerância ideológica e nacionalista, com particular encarniçamento contra os monges budistas e os descendentes de chineses e vietnamitas. Mas vale a pena sublinhar uma passagem de particular sadismo nos confrontos dos cambojanos de fé muçulmana com os já citados cham, aos quais, em algumas regiões, se obriga a comer duas vezes por mês carne de porco: há quem aceite e há quem se rebele, até vomitando a comida proibida, mas é exatamente sua pouca docilidade que provoca uma matança, que chega, no total, a 50% de toda a população.
Na Kampuchea democrática o genocídio varia de intensidade segundo a época e as áreas. O terror e a fome acompanham todos os eventos, mas os massacres são mais frequentes nos primeiros meses do regime. Quando a fome devasta o campo em 1976 e sobretudo em 1977, Pol Pot desencadeia uma nova onda de depurações contra as minorias étnicas, os camponeses ricos e os professores, eliminando a população de vilarejos inteiros e ordenando a eliminação das viúvas de indivíduos justiçados até muito tempo antes. No ano seguinte, a foice da morte se abate com inaudita violência também sobre os Velhos, em geral poupados até aquele momento e de modo particular na região oriental, a mais próxima do odiado Vietnã.
De início, porém, as zonas mais populosas e a capital, Phnom Penh, foram atingidas com inaudita brutalidade: depois, ser deportado para áreas florestais ou montanhosas, ou para zonas de cultura industrial significou praticamente a condenação à morte, pela funesta combinação de dificuldades climáticas, excesso de fadiga e condições de vida insustentáveis. Execuções à parte, são a disenteria e a malária que aniquilam os exaustos deportados, sempre que não intervém a fome ou o capricho das hierarquias locais, deixando morrer milhares de desventurados muitas vezes açulados por jovens mulheres ou khmer desejosos de fazer carreira. Nos centros, no entanto, o dia está dividido em um horário inexorável: doze horas de trabalho, duas para comer, três de repouso e de reeducação, sete de sono, um caminho intermediário entre "a condição de um animal de carga e o de um escravo de guerra". Não é raro que, para satisfazerem a um chefe de aldeia em competição com outros colegas seus, os deportados sejam obrigados a acordar às quatro da manhã para trabalhar em canteiros de obras até as dez ou onze da noite.
Há campos de concentração para onde se vai "pelo crime de falar inglês". É o que conta um desgraçado cidadão de Margolin, que chegou arrastado com a corda no pescoço, mancando e oscilando, à prisão de Kach Roteh, nos arredores da Battambang, nos limites com a Tailândia. Aí é posto a ferros junto aos outros prisioneiros, com ferros que lhe cortam a pele e o torturam até desmaiar. À noite não consegue dormir, porque os guardas de vez em quando irrompem na sala, chamando pelo nome dois ou três prisioneiros e levando-os embora. Um deles está no campo porque fala inglês e é dos poucos que sobrevivem graças a sua bondade, ao contar às crianças e aos rapazes que fazem a guarda histórias de animais da tradição cambojana e fábulas de Esopo.
É o símbolo mais terrível da loucura homicida de Pol Pot difundida em todo o país e provavelmente no centro de Tuol Sleng, na capital, onde foram assassinados 16 mil inocentes, entre homens, mulheres, adolescentes, crianças e um ou outro estrangeiro, que acabarão morrendo em meio às piores sevícias. Tinha sido um liceu até o dia em que chegaram mil khmer vermelhos, cercaram-no com arame farpado e impuseram um regulamento que prevê, entre outras coisas, chicotadas com um fio elétrico em caso de violação das regras, a obrigação de não gritar quando receberem as chicotadas e de limpar o pavimento com a língua quando derramarem por acaso o conteúdo do penico. Um escritor americano que em 1991 visitou o Museu do Genocídio, situado no próprio centro de Tuol Sleng, registrou algumas de suas impressões: "Usavam veneno, fios elétricos, barras de aço, revólveres." São os instrumentos de tortura. "Em uma sala havia mais de oito mil caveiras alinhadas sobre mesas de vidro: vi uma delas com uma fissura, outra com um buraco, uma negra, uma marrom, uma cinzenta, uma amarela, e todas exalavam um odor nauseabundo." Continuando sua visita, o americano anota: "A sala seguinte estava cheia de fotografias, especialmente de mulheres com filhos, vistas de frente, os olhos esbugalhados, o olhar vazio, uma delas com uma corda no pescoço. Um rapaz olhava fixamente um ponto à sua frente, os braços apertados atrás da nuca, e às suas costas um outro prisioneiro aterrorizado era o centro de um bando de gente com os braços para cima: da boca do rapaz com o olhar perdido no vazio escorria um filete de sangue. Em uma outra fotografia, filas de caveiras estavam alinhadas em uma fossa como cocos, montanhas de caveiras, e a seguir cadáveres estendidos sobre o pavimento, cada um com seu número anotado no peito, tal como as mulheres de antes." O busto de Pol Pot, ao contrário, apresentava "um aspecto sereno, as faces lisas, o nariz e a fronte iluminados por um raio de sol, como um Buda de pedra".
Aquele Buda tinha sido o primeiro ministro da Kampuchea democrática até 1979, tendo Khieu Samphan como presidente nominal da República e do partido comunista no governo. Dois anos antes, em dezembro de 1977, os khmer vermelhos tinham rompido relações com os vietnamitas, mas na região oriental da fronteira inúmeros chefes revolucionários, sendo o primeiro de todos Hen Samrin, desertaram e, cruzando a fronteira, passaram para o lado do inimigo secular, reforçando a expedição militar de caráter antichinês que Hanói está preparando com o apoio soviético. O mundo acompanhou, entre estupefato e divertido, a luta fratricida entre os dois grandes países comunistas e seus aliados, sinal irrevogável da iminente queda do sistema. Poucos meses depois o Exército do Vietnã, juntamente com os fugitivos cambojanos, iniciou a invasão da Kampuchea, enormemente enfraquecida em virtude das deserções em massa e, sobretudo, da desgraçada política de depurações.
Sustentados pela aviação e com uma coluna de carros blindados armados, a 7 de janeiro de 1979 os soldados de Hanói, os Bo Dai, entram vitoriosos em Phom Penh, abandonada no dia anterior pelos khmer vermelhos.
Um avião chinês dá fuga tanto a Pol Pot quanto ao Príncipe Sihanouk, que voltara à capital em 1972, depois de um longo exílio em Pequim, e com o mandato do governo chinês de apoiar os revolucionários. O ex-soberano o faz durante alguns meses, aceitando o cargo meramente formal de chefe de Estado, sem opor-se frontalmente à política sanguinária de seu aliado e ficando três anos praticamente em prisão domiciliar, segregado em sua antiga mansão real, sem ser usado nem sequer como mediador na dura contenda com os vizinhos vietnamitas. Só quando estes, três anos depois, entram triunfantes na capital e Pol Pot se entrincheira novamente nas selvas com o que lhe resta de seus guerrilheiros, o talento diplomático de Sihanouk torna a brilhar na confusa situação criada com a reaproximação entre Deng Xiaoping, o reformista sucessor de Mao, e os americanos, enquanto a Rússia de Gorbachev se afasta gradativamente de seu compromisso na Indochina e com isto para de apoiar o governo de Hanói.
A esta altura estabelece-se na região um novo equilíbrio, que vê a China, os Estados Unidos e a Tailândia empenhados em buscar soluções políticas menos traumáticas que as que infelicitaram durante vinte anos aquela parte do mundo. O resultado, ao mesmo tempo cínico e paradoxal, é que acabam promovendo a formação de um governo de coalizão cambojano no qual, reconduzindo ao poder a Monarquia, estão de certo modo representados os amigos dos chineses, os khmer vermelhos. Um deles, o novo Premier Hun Sem, pode assim excluir categoricamente a hipótese de processar Pol Pot e outros criminosos seus cúmplices. Por conta própria, o líder comunista volta para a clandestinidade, recusando-se a participar das eleições de maio de 1993 e refugiando-se na selva com seus súditos mais fiéis. Em julho de 1997, Hun Sem dá um novo golpe de Estado, liquidando o filho de Sihanouk e nomeando ministro das Relações Exteriores o novo premier, mantendo para si a Presidência da República.
Agora com mais de setenta anos, Pol Pot os arrasta fatigadamente, abandonado até pelos últimos guerrilheiros que se recusam, porém, a entregá-lo às autoridades, com grande alívio para os americanos, pelos quais o velho carrasco foi usado em sua época contra os vietcongues. Atacado há muito de malária, Pol Pot é fulminado por um infarto em 18 de abril de 1998, e vai para o Inferno, depois de ter tentado minimizar, se não justificar, em uma entrevista a um jornalista ocidental, suas celeradas ações, enquanto dois de seus cúmplices, Khieu Samphan e Nuon Chea, têm a desfaçatez de declarar-se "desgostosos, muito desgostosos" com tudo que aconteceu, pedindo a seus compatriotas que esqueçam o passado para não comprometer a reconciliação nacional.
O último dos khmer vermelhos a render-se é o lugar-tenente de Pol Pot, Ta Mok, o Açougueiro, pessoalmente responsável por pelo menos 100 mil homicídios. Mas a esta altura o genocídio cambojano, graças aos bons ofícios de Pequim e de Washington, já se tornou uma velha história, ou melhor, uma fábula suja que não se pode em absoluto contar às crianças. Seus ecos, já apagados, virão à tona quando for concluído o processo "especial" votado por unanimidade em 2 de janeiro de 2001 pela Assembleia Nacional de Phnom Penh, tal como fora estabelecido em abril do ano anterior pela ONU, para julgar os responsáveis por aquela que foi considerada "a mais aterrorizante carnificina" do século 20, que custou, segundo os últimos cálculos, pelo menos 1.700 mil vítimas, em uma população de menos de 10 milhões de pessoas.
OceanofPDF.com