Tiranos

Antonio Ghirelli · Capítulo 2 de 10

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Tiranos

Introdução

 

O grandioso processo de transformação democrática da sociedade, iniciado no Ocidente a partir de três revoluções (a inglesa, a americana e a francesa) entre os séculos 17 e 18 e complementado a seguir, na segunda metade do século 19, com a generosa mensagem do socialismo, deveria vir a concluir-se no século que terminou. O que era de esperar, entre outras coisas, dadas as admiráveis conquistas realizadas exatamente dentro de nossa era pela ciência, pela tecnologia e pelas comunicações. Um cruel paradoxo da história quis, contudo, que essas mesmas conquistas tivessem favorecido, quando não determinado, o advento, tanto na direita, quanto na esquerda, de ditaduras moderníssimas, cujo furor ideológico ensanguentou o século 20 do início ao fim e de um extremo a outro do planeta.

O crescente desenvolvimento dos m ass media permitiu, de fato, por meio de um ruidoso uso da propaganda, a mobilização das populações em nome de valores discutíveis ou falazes: a exaltação da grandeza nacional, a defesa da suposta pureza e supremacia de uma raça, uma concepção dogmática da luta de classes. O objetivo real de quem se escudava nestes valores era a implantação de um regime despótico, no qual viria a ser negado todo tipo de opinião e de associação, qualquer tipo de crítica, todo e qualquer dissenso. Sedimentou-se, assim, um Estado totalitário de inspiração variegada, porém bem articulado no uso de instrumentos análogos: uma polícia política onipotente e onipresente, tribunais subjugados ao poder e ao partido, pesadas condenações ao cárcere ou ao exílio, campos de concentração na maior parte das vezes destinados ao aniquilamento físico dos deportados ou, no melhor dos casos, à marginalização moral e material dos dissidentes como elementos criminosos, hostis à nação, à raça ariana ou ao proletariado. Não foi menos constante ou impiedosa a pressão sobre os meios de comunicação de massa, sobre a escola e a universidade, sobre as manifestações artísticas, sobre as instituições culturais e até mesmo sobre a pesquisa científica.

Deste modo, os ditadores do século 20 se transformaram gradativamente em tiranos, senhores absolutos do país, e os tiranos não raro em monstros de crueldade, de cupidez, de delirante presunção. O poder absoluto acabou coincidindo com a abjeção absoluta, realizada por meio de um permanente e deliberado rebaixamento da dignidade, da vergonha e da sacralidade do ser humano. Ao revermos semelhantes horrores torna-se chocante a popularidade, que chegou por vezes até a idolatria, com que foram aureolados os tiranos do século 20, não só por parte da massa manipulada por seus seguidores, como até mesmo entre os adversários do sistema que eles encarnavam. Já no início da Primeira Guerra Mundial, Erich Fromm havia analisado a regressão psicológica que até em países da mais antiga tradição cultural, como a Alemanha e a Itália, ou nos partidos caracterizados, pelo menos teoricamente, como de elevada inspiração humanitária, como o Partido Comunista, havia induzido dezenas de milhões de pessoas psiquicamente normais a dar um apoio determinante e livre a "uma louca aventura de degradação humana e de destruição".

Fromm a definiu como uma "fuga da liberdade": o cidadão que se sente perfeitamente à vontade em uma sociedade totalitária, o súdito que obedece sem repugnância a um tirano, o militante que oferta a seu chefe uma dedicação sem limites têm como único objetivo, segundo aquele psicanalista alemão, "desfazer-se de seu eu individual, com todas as suas deficiências, seus conflitos, riscos, dúvidas", ou, em outros termos, "livrar-se do peso da liberdade". E, quanto mais absoluto for o poder do tirano, mais opressivo o regime ou mais cruéis os sistemas de governo, maiores serão a satisfação e o prazer dessa perversão de tipo evidentemente masoquista. A condição de liberdade de que usufruímos em uma sociedade democrática pode representar, para quem a atinja ainda culturalmente despreparado ou esmagado pela própria fragilidade existencial, um peso do qual só o liberta uma obediência total que deixa campo aberto ao sadismo do tirano, até transformá-lo em um monstro. Provavelmente foi também a violência da sociedade industrial que alimentou a rendição das multidões às magnéticas sugestões de seus líderes.

É evidente que o elenco dos tiranos que ensanguentaram o século 20 com o conforto da propaganda e da tecnologia avançada não se reduz à gesta das personagens que figuram neste livro. Para enriquecê-lo não teríamos mais que a dificuldade da escolha: entre a Indonésia e os Bálcãs, o Japão do micado e a Argentina dos generais, a África do Sul dos racistas brancos e a África dos alucinados Napoleões negros. Limitamo-nos aqui aos nomes mais emblemáticos das duas ideologias contrapostas, reservando um breve capítulo a um ditador como Mussolini, a quem podem e devem ser debitadas responsabilidades bastante pesadas, mas não os crimes horrendos cometidos ou ordenados por monstros sem piedade e sem senso.

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