Tiranos
Mao Tsé-Tung
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O poeta cruel
Se vocês não se esforçarem para entrar na fila dos cortesãos,
ficarão automaticamente na dos inimigos e serão aniquilados.
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Os monstros clonados
O século 20 não teria sido o século dos tiranos, dos monstros, se Stalin e Hitler tivessem sido os únicos líderes políticos dotados de uma personalidade perversa, sem possibilidades de comparação, e, apesar disto, cercados de uma popularidade tão grande. Mas, além do caso de Francisco Franco, não foram os únicos a representar um momento extremo de cinismo e de crueldade, eles ofereceram também um modelo de comportamento a uma miríade de epígonos. Já se afirmou que, à raiz desta explosão de malvadeza, estão duas ideologias que fizeram a fortuna do georgiano e do austríaco: a luta de classes e o racismo. "Eram ideias do século 19", escreveu Gianni Moriani, "que se tornaram genocídios no século 20." Como se, entre o final do século 19 e o início do século seguinte, tivessem atingido sua plena maturação e as mais devastadoras consequências de sua aplicação prática.
Na realidade, as coisas são um pouco mais complicadas. A luta de classes, por exemplo, era certamente a chave de interpretação que Karl Marx havia sugerido para compreender a história e modificar a realidade, mas, até a revolução do Outubro Vermelho, o movimento que assumira isto não estava maculado com crime algum. A organização socialdemocrática tinha suplantado a Internacional anarquista antes mesmo do final do século 19 e se inspirava em uma visão reformadora e solidarista, embora continuasse (pelo menos em teoria) a falar em desapropriação mais ou menos gradativa dos meios de produção e das classes proprietárias. Era revolucionária nos termos, mas pouco inclinada, na prática, à violência, que, ao contrário, teve de sofrer, por decênios, por parte do Estado liberal, bastante sensível às razões da primeira fase do capitalismo o qual, por sua conta, aplicava na fábrica uma disciplina de ferro para conseguir a exploração dos prestadores de serviços, mesmo os de tenra idade. O pacifismo internacionalista do movimento socialdemocrático tinha sido duramente posto à prova em 1914, com a declaração de guerra da Áustria à Sérvia, depois do atentado de Sarajevo, e da decisão dos partidos alemães e franceses de votar no Parlamento a favor dos créditos de guerra para os respectivos exércitos terem dado um severíssimo golpe no movimento, que também por isso se deixou apanhar de surpresa pela Revolução Russa e foi subvertido na Itália e na Alemanha pela reação fascista, resistindo apenas nos países de forte tradição democrática. Mas também depois da Segunda Guerra, quando as socialdemocracias no Norte da Europa voltaram a crescer, em polêmico paralelo com conservadores e comunistas, dando vida ao Estado social, a fonte em que inspiraram, até o advento da sociedade pós-industrial, foi a luta de classes, ou seja, a convicção de que a história seja acima de tudo a história da luta entre as classes privilegiadas e os trabalhadores — uma convicção, porém, que não equivale automaticamente a uma subversão violenta e muito menos à sufocação das garantias democráticas.
Foi, contudo, o comunismo, isto é, a heresia leninista do socialismo, que levou, na teoria e na prática, a bandeira da revolução intolerante, discriminatória, cruenta, do terrorismo de partido e de regime, em nome não da luta, mas da ditadura de classe: em teoria, a ditadura do proletariado sobre a burguesia capitalista e agrária; na prática, a ditadura do partido sobre o proletariado, além da do secretário sobre o próprio partido. Esta inversão das premissas idealistas e humanitárias do socialismo democrático produziu os erros do stalinismo e sua sistemática reprodução em todos os países em que o Partido Comunista conseguiu, pela revolução, um golpe de Estado, ou a ajuda soviética para conquistar o poder. Nascido como instrumento de guerra contra a organização repressora do capitalismo na fábrica e na sociedade, o comunismo acabou perdendo a guerra, na medida em que sacrificou à sua desenfreada batalha todas as liberdades, inclusive a da necessidade, tuteladas, ao contrário, pelo welfare socialdemocrático e, paradoxalmente, pelo triunfo mundial do mercado neocapitalista.
É justo, pelo contrário, afirmar que, à base dos erros verificados no século 19 nos países governados por regimes de extrema-direita ou de natureza tribal, está o racismo, ou seja, a teoria segundo a qual seria possível estabelecer um juízo de valor entre as diferentes raças ou etnias, inclusive com base em sua confissão religiosa e, a partir deste juízo totalmente desprovido de validade científica e histórica, levar adiante um projeto de perseguição e de aniquilamento das minorias outras. O monopólio da verdade e o mito do sangue conspiraram, entre os séculos 19 e 20, para dar origem a movimentos, também de grande aceitação popular, que enraizaram as razões da própria hegemonia em impulsos imperialistas, nacionalistas, racistas e tribais, adotando os métodos mais cruéis para se imporem ao adversário relutante ou à vítima inocente.
Nos últimos decênios do século 20, acendeu-se uma viva polêmica entre os que afirmavam que o comunismo e o nazifascismo não podiam ser comparados, e os que, ao contrário, sugeriam que se repensasse esta distinção à luz de duas considerações: a primeira, de que ambas as ideologias partiam do mesmo pressuposto, isto é, da recusa e da perseguição ao diferente; a segunda, de que, com base neste pressuposto comum, tinham chegado aos mesmos resultados, à criação de uma fábrica de ódio, a um regime policialesco impiedoso e sanguinário, que culminou com a diabólica invenção do campo de concentração, nas versões paralelas do lager e do gulag. A pesquisa revisionista chegou até à teoria de que o nazifascismo teria nascido apenas como reação à Revolução de 1917 e outros episódios do tipo soviético surgidos no imediato após-guerra europeu.
Sendo, embora, evidente o nódulo de verdade contido em cada uma destas interpretações, elas, no entanto, não satisfazem plenamente, na medida em que passam por cima do aspecto mais característico do fenômeno, que é a modernidade de sua realização. A história do mundo está marcada por carnificinas, extermínios, massacres, saques, estupros coletivos, pogroms, inspirados pela avidez predatória e pelos conflitos religiosos; contam-se aos milhões, apesar do fraco crescimento demográfico do passado, as vítimas das guerras, das invasões bárbaras, da Inquisição, da conquista das duas Américas, bem como as do Terror jacobino e das expedições coloniais. Porém, a humanidade jamais havia passado por manifestações tão científicas de horror como as que se expressam logo em seguida ao imenso massacre da Primeira Guerra Mundial, nos regimes de Stalin, de Hitler e de seus imitadores.
Não foi por acaso que foi rodado no século 20 aquele filme gelidamente moderno que é Laranja Mecânica. Partindo da reeducação forçada à não-violência de uma personagem que cultiva ao mesmo tempo o estupro e Beethoven, o diretor Stanley Kubrick descreve as etapas deste processo e do seu fracasso com "cenas de uma brutalidade crua, nos limites do suportável, mas ironicamente ritmadas pela música", exatamente como a música alemã ritmava a marcha dos judeus e dos ciganos em direção às câmaras de gás. A mescla dos modelos da cultura refinada com a vulgaridade da alienação da massa, acompanhada de uma sistemática destruição da realidade ou de suas ilusórias aparências, é a transposição cinematográfica de uma alucinação que faz lembrar a do lager ou a do gulag. A ferocidade nasce, tanto em um como em outro caso, de um planejamento lúcido e tecnicamente impecável, visando basicamente o mesmo objetivo: primeiro, a sujeição do outro, depois seu aniquilamento.
É indiscutível que os conflitos étnico-raciais e a versão bolchevique da luta de classes condicionaram o desenvolvimento do século 20, a ponto de clonar, por assim dizer, dezenas de pequenos e grandes monstros na Europa e na Ásia, na América e na África, semelhantes, no todo ou em parte, aos dois grandiosos protótipos, o secretário-geral do PCUS e o Führer do Terceiro Reich. Em comum com seus mestres, eles tiveram uma visão integralista da história, além de um projeto orgânico para realizá-la, na convicção de que, para conseguir isto, era necessário eliminar, fosse por que meios fossem, mesmo os mais extremos e desumanos, todos os que fossem considerados adversários, ou não se professassem adeptos de tal projeto. Foi esta, exatamente, tanto no caso de Stalin quanto no de Hitler, e mesmo quando em formato reduzido, a racionalidade do mecanismo repressivo a serviço da alucinada abstração do planejamento que torna monstruosos até mesmo as personagens menores.
O elenco poderia ser aberto com os nomes dos generais austro-germânicos e aliados que, na guerra de 1914-18, jogaram na fornalha de infinitas batalhas pela conquista de poucas centenas de metros de terreno a milhões de soldados, condenando-os, nas pausas de uma matança inútil, "ao tormento da vida nas trincheiras". Neste caso, o elenco poderia ser complementado com os nomes dos generais e até mesmo dos pilotos que, desde as incursões nazistas sobre Guernica até os bombardeios alemães e anglo-americanos sobre populações civis na Segunda Guerra Mundial, prepararam o terreno para o lançamento das duas bombas atômicas dos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki.
Mas estas atrocidades podem ser incluídas no repertório da brutalidade bélica ordinária, embora tenham sido realizadas com um insuportável grau de ferocidade, porque não estão ligadas a personagens isolados, a monstros e muito mais a um trágico reflexo do progresso tecnológico nas artes militares, com a ultrapassagem de um limite de tal forma vertiginoso e mortífero que vem a determinar a trégua entre as superpotências que afastou, depois de Yalta, a terceira conflagração mundial.
Os discípulos de Stalin e de Hitler são, ao contrário, portadores de um valor pessoal que faz crescer a produção dos horrores do século 20: uma perfídia peculiar, o uso sistemático do terror como instrumento de governo e um refinado repertório de motivações e técnicas de extermínio. E verdade que, no caso dos líderes comunistas, as provas de crueldade se agravam pela clamorosa contradição de fatos atrozes com as promessas humanitárias de uma ideologia na qual a maior parte das vítimas acreditara de início, ou da qual continuaram devotas, como militantes do partido, até o fim.
É esta a razão pela qual Giuseppe Saragat chegou a declarar que "o comunismo é a tragédia da classe operária, o fascismo é a vergonha da burguesia". Os ditadores de extrema-direita atingiram, de fato, quase que exclusivamente, e em cada caso com particular dureza, os adversários, ao passo que os de extrema-esquerda demonstraram especial predileção em lançar-se contra os próprios militantes acusados ou contra os apenas suspeitos de dissidência.
Nos países ocupados pelos soviéticos na Europa Oriental, os responsáveis pelos partidos ou pelos governos não oferecem exemplos particularmente originais de malvadeza, porque em sua maior parte são apenas réplicas, obsequiosos destinatários das ordens que chegam do Kremlin, e que são seguidas sem grandes voos de inteligência. Os momentos dramáticos do imediato após-guerra, o golpe de Estado de 1948 na Tchecoslováquia, a repressão das revoltas operárias na Polônia ou na República Democrática Alemã, as depurações na Bulgária e na Romênia e a invasão do Exército russo e das tropas do Pacto de Varsóvia na Hungria, em 1956, e na Tchecoslováquia, em 1968, correspondem exatamente às exigências do férreo controle que o Império russo exerce sobre os países-satélites, mesmo muitos anos depois da morte de Stalin.
A liquidação dos dirigentes que caem por uma razão ou por outra em desgraça se dá exatamente à maneira dos expurgos stalinistas, ou seja, em consequência de acusações inteiramente sem fundamento, por meio de um processo despudoradamente manipulado, por meio de confissões extorquidas pelos meios mais abjetos, que incluem, obviamente, a tortura. Por exemplo, no processo contra o secretário do partido húngaro, o judeu László Raik, que será devidamente enforcado, toma-se como pretexto sua suposta conivência com o movimento sionista, enquanto que no caso de seu colega tchecoslovaco Rudolf Slánsky, que acabará, por sua vez, na forca, afirma-se que ele conspirou, juntamente com Tito, contra a União Soviética. O próprio Tito, logo depois da revolução húngara de 1956, não sente o menor escrúpulo em violar todo e qualquer dever de solidariedade e de hospitalidade, entregando ao carnífice stalinista aquele Imre Nagy, que, como primeiro-ministro, partilhou dos motivos dos revoltosos de Budapeste e depois da invasão russa pediu asilo na embaixada iugoslava.
Antes de vir a opor uma indomável resistência a Stalin, o Marechal Tito cobriu-se de glória na guerra de resistência contra 32 divisões alemãs, mas, como bom comunista, se desembaraça por sua vez, sem escrúpulos, dos companheiros contrários a sua política antissoviética, deixando-os, por sorte, com vida, e desenvolve uma impiedosa repressão, a meio caminho entre a vingança política e a limpeza étnica, contra os militares que debandaram depois do 8 de setembro e os italianos residentes, talvez desde sempre, em Trieste, na Istria e na Dalmácia, que joga, às dezenas de milhares, nas colinas, nas fossas montanhosas do Carso, para permitir que seus croatas se expandam pela costa do Adriático. Os comunistas italianos minimizam tais atrocidades para evitar um conflito com seus companheiros heróis da guerra de Libertação; contudo, em 1948 irão criticá-lo asperamente, obedecendo à liturgia imposta pelo Kominform: um capítulo pouco edificante de sua história, a que, aliás, o governo de Roma — paralisado pelo d iktat dos vencedores — não pode fazer reparos, abandonando, assim, a seu destino, 300 mil istrianos, todos eles denunciados vergonhosamente como fascistas.
O panorama nos Bálcãs não é alegre. Enquanto o comunismo búlgaro e o albanês são obrigados a registrar todos os impulsos repressivos provenientes do Kremlin e todos os golpes de cúpula provocados pela luta pelo poder em Moscou — a ponto de Tirana acabar passando para a área de influência chinesa no momento em que Mao entra em confronto com os russos —, a Romênia inaugura, por assim dizer, um regime próprio a partir de 1965. É o ano em que à frente do partido e do governo romeno se instala Nicolae Ceausescu, que de imediato imprime ao país uma guinada nitidamente nacionalista, reivindicando pouco a pouco uma autonomia cada vez mais pronunciada em relação à tutela soviética. Como Stalin já está morto e a União Soviética não está em condições de intervir em Bucareste, como o fizera em Budapeste e como fará em Praga, Ceausescu tem meios de impor um novo tipo de ditadura, uma espécie de satrapia familiar, em condomínio com Elena, sua mulher — personagem nefasta que exercerá uma influência desastrosa sobre o marido rude e semianalfabeto e exigirá ser homenageada até com louros acadêmicos por seus supostos méritos científicos. A brutal ditadura do casal afirma a própria independência em relação a Moscou, inclusive por meio de uma política de abertura (retribuída, que fique bem claro, ao som de dólares) no caso dos confrontos dos judeus que fogem dos outros países do bloco soviético, aos quais permite que atinjam a Palestina zarpando de portos e em navios romenos.
Esta ação para com os judeus é talvez a única ação meritória que Ceausescu e a mulher fizeram nos 24 anos de sua interminável tirania, mantida por um vigilante controle policialesco realizado pelos Departamentos de Segurança, até virem a cair com grande alarde diante das câmeras de televisão em fins de 1989, em sintonia com a derrocada de outros regimes da área soviética. Uma carta aberta endereçada ao povo romeno por eminentes ex-comunistas reunidos em uma Frente de Salvação Nacional precede de poucos dias a revolta popular que explode a 10 de dezembro de 1989, em Timosora, e se espalha em duas semanas por toda a Romênia até atingir a própria Bucareste. Pressionados pelas vaias, pelas ofensas, pelas ameaças de uma enorme multidão que se acotovela sob as varandas do palácio presidencial, Ceausescu e sua mulher se dão conta, demasiado tarde, do caráter hostil da manifestação. Três dias depois, o casal, surpreendido quando tenta fugir de helicóptero para o Ocidente, é executado, mas é exatamente um de seus companheiros arrependidos, Ion Iliescu, quem assume rapidamente o poder. É uma mostra da rapidez com que os dirigentes comunistas se sucederão, convertendo-se ambiguamente à democracia, e isto, bem entendido, não apenas na Romênia, mas em muitas outras regiões do socialismo real, a partir da União Soviética, e também, no Ocidente, a partir da Itália.
De caráter familiar, mas de duração bem diversa, é a ditadura de Kim II Sung na República "democrática popular" da Coreia do Norte, que se prolonga por quase cinquenta anos e passa por herança, como em uma antiga Monarquia, a seu filho Kim Jong II, sancionando o epílogo mais paradoxal para um governo de inspiração marxista. O fundador da dinastia cai de paraquedas enviado pelos soviéticos para Pyongyang assim que termina a Segunda Guerra Mundial, durante a qual comandou, nos confins da Manchúria, um grupo de membros da guerrilha de resistência aos japoneses. Os nacionalistas ainda em circulação e os comunistas que se opõem à liderança de Kim são silenciosamente liquidados, até para possibilitar a divisão das duas Coreias, decidida, no espírito de Yalta, entre russos e americanos. A do Sul continuará definitivamente na órbita americana, a do Norte, inicialmente modelada à imagem e semelhança da URSS, seguirá um caminho bem singular. Depois da guerra de 1950-53, que termina com uma pavorosa carnificina (meio milhão de mortos só entre os chineses que acorreram em ajuda dos norte-coreanos), orienta-se em direção a um total isolamento, inclusive ideológico, que virá a ser sancionado oficialmente no outono de 1970, por um congresso do chamado Partido dos Trabalhadores: é neste momento que nasce o "reino eremita" de Kim II Sung, protagonista da agressão à República do Sul e dos atrozes crimes de guerra contra milhares de prisioneiros americanos e sul-coreanos, além de brutais abusos nos confrontos com diplomatas e missionários estrangeiros. A hostilidade contra a outra Coreia permanece irredutível ao longo dos anos, como o demonstra o atentado terrorista organizado contra um avião da Korea Air Line, em novembro de 1987, que explodirá em pleno voo, com 115 pessoas a bordo, simplesmente para demonstrar a incapacidade do governo anticomunista de garantir a segurança dos Jogos Olímpicos que estão para ser realizados em Seul.
É inútil dizer que os expurgos stalinistas são perfeitamente adequados ao regime de Kim. Dos 22 membros de seu primeiro governo, dezessete foram justiçados ou depurados em um espetacular processo por suposta espionagem em favor dos Estados Unidos. Posteriormente, como agentes secretos de Washington, terminarão também no paredão o ministro do Exterior e o ex-chefe do Estado-Maior, e, depois de 1958, ainda os dirigentes ligados de certo modo aos soviéticos e aos chineses, até que, em 1967, o próprio secretário do partido, Kim Kwang Hyup, virá a ser incriminado. A fúria de Kim se abate igualmente sobre grupos de estudantes do Instituto de Línguas Estrangeiras, ou filhos de dirigentes caídos em desgraça, e periodicamente realizam-se maciças depurações contra expoentes do partido considerados reformistas e escolhidos como bodes expiatórios para justificar os insucessos no campo econômico ou internacional. Kim aprendeu bem a lição de Stalin. Fala-se de um total de cerca de 90 mil execuções, inclusive a de anônimos cidadãos acusados de sedição ou traição, ou de criminosos comuns, processados muitas vezes em julgamentos públicos, com a multidão estimulada a acompanhar depoimentos e sentenças com gritos estrídulos, invectivas ásperas e lançamento de pedras, chegando às vezes até a linchar o condenado.
Por outro lado, quem escapa da pena capital tem poucos motivos de satisfação, porque o regime das prisões e dos campos de concentração, sobretudo nas chamadas "áreas de ditadura especial", não tem nada a invejar dos lager de Hitler e dos gulags de Stalin em termos de sadismo, torturas, doenças e fome. A repressão se acentua a partir de 1980, quando se manifesta uma tímida oposição contra a instauração do chamado "comunismo dinástico dos Kim", decidida pelo mesmo e dócil congresso do partido. Segundo um cálculo documentado, em menos de meio século os Kim teriam exterminado um milhão e meio de coreanos, os quais, juntando-se aos que tombaram na guerra do início da década de 1950, e a outras vítimas, perfariam um total de três milhões, em uma população de 23 milhões. A este aspecto repressivo, que não surpreende em um país comunista, a Coreia do Norte acrescenta — como já assinalei — uma característica bastante singular: a implantação da dinastia dos Kim com uma transmissão hereditária do poder, de II Sung para o filho, Jong II.
Com os mais diversos e chamativos cognomes poéticos, o Número, o Chefe Supremo, o Grande Dirigente, pai e filho são elevados à glória celestial, tal como Numa Pompílio, com a participação em suas empresas e em seu triunfo de todos os elementos naturais: chuva, vento, neblina, nuvem, sol... Do horror ao ridículo, no caso, não há mais que um passo. As vicissitudes da satrapia familiar dos Kim representam, porém, apenas uma das consequências explosivas que se produziram na Ásia, após a Segunda Guerra Mundial, pela contaminação das antigas culturas locais e o extremo atraso socioeconômico daqueles países, por um lado, e, por outro, da doutrina marxista-leninista que se difundiu gradualmente depois do declínio do colonialismo ocidental. A herança dos domínios português, francês e inglês contribuiu bem pouco para resolver problemas de dimensões bíblicas, reduzindo-se à sobrevivência provisória de alguns portos franqueados, como os de Hong Kong, Singapura e Taiwan, abertos a todo tipo de tráfego mercantil ou financeiro, mas privados de qualquer relação real com as exigências vitais de centenas de milhões de seres humanos amontoados no interior das extensas regiões centro-meridionais do continente. No entanto, não teria maior êxito a experiência de regimes comunistas que tentaram, como a China e o Camboja, resolver as contradições impondo uma frenética aceleração do processo evolutivo no sentido de uma sociedade coletivista, que custou altíssimos preços em vidas humanas, com a negação de todos os direitos civis, além de inenarráveis privações. O caso de Mao Tsé-tung não é, certamente, o de Pol Pot, mas ambos têm em comum tanto a delirante abstração de seus planos quanto a impiedosa violência de sua realização. Sem dúvida o Grande Timoneiro, um clássico intelectual chinês, pode ser posto ao lado de Stalin pelo menos pela coerência obsessiva com que se aplicou em manter o culto da própria personalidade, enquanto que o líder dos khmer vermelhos, um matador fanático, lembra mais a Hitler, por sua vocação a um metódico genocídio e um desprezo pela vida humana que chegou a níveis de insuperável barbárie.
O corte do rabicho
Mao nasce na Província de Hunan, região central da China, em um dia de dezembro de 1893, de uma família camponesa de certas posses, pelo menos para os padrões dominantes na época, embora em sua infância e no início de sua adolescência se veja obrigado a alternar a escola com o trabalho no campo, o que o obriga o pai, homem bastante autoritário, com o qual o rapaz, revelando já sua índole rebelde, entra muitas vezes em conflito, ao passo que é muito ligado à mãe, uma camponesa analfabeta e devotíssima do budismo, religião à qual o filho permanecerá fiel até a adolescência. São, naturalmente, anos decisivos para a formação de Mao. Tal como se deu com Stalin mais ou menos na mesma idade, além de estudar na escola os clássicos da grande tradição nacional, o garoto chinês lê avidamente os romances populares, particularmente aqueles que narram as aventuras dos bandidos que lutam heroicamente contra a corrupção da corte imperial e de sua burocracia. A um certo ponto, porém, começa a apaixonar-se também pelos escritos políticos de intelectuais progressistas, que em princípios do século 20 abrem uma acirrada polêmica em favor da modernização do país, pregando a transformação do Império em uma Monarquia constitucional — primeiro sinal da revolução que vai estourar exatamente em Hunan contra a dinastia Manchu e seus mandarins.
Característica destes movimentos inovadores, que no futuro não será estranha nem mesmo ao Partido Comunista, é uma franca admiração pelas instituições e o progresso tecnológico do Ocidente, que não implica, todavia, recusa da tradição chinesa, tanto que a luta pela participação popular no poder é considerada como premissa para restituir à China sua posição milenar, de proeminência cultural no mundo e centro motor do planeta. O próprio Mao apontará esta singular ambivalência do processo de modernização, tanto na fase de sua iniciação política, que será de tipo liberal, quanto em sua passagem posterior ao campo marxista: neste sentido, feitas as devidas (e enormes) diferenças, a República Popular da China, tal como foi batizada em 1949, afirmará sua continuidade em relação à China imperial dos Han, tal como na URSS de Stalin se refez a Rússia czarista, apesar das revolucionárias mudanças nas estruturas sociais realizadas em um e outro caso. Comunismo e nacionalismo, paradoxalmente, muitas vezes formam uma só coisa.
A primeira reviravolta ocorre para Mao em torno dos dezesseis anos, quando a paixão pelos livros primeiro o induz a fugir de casa com um amigo desocupado que estuda leis, depois a inscrever-se em uma escola não muito distante do vilarejo natal de sua mãe. É o ambiente ideal para entregar-se, juntamente com os companheiros, a acaloradas discussões de política, acompanhando de perto cada mínimo episódio de turbulência social e cerrando fileiras contra as coações dos proprietários de terras e as autoridades que os apoiam. Os jovens veem com simpatia os dois grupos de inovadores, os reformadores e os mais radicais, que lutam pelo advento da República e elegem como chefe um enérgico líder, Sun Yat-sen. A revolução por ele conduzida estoura no outono de 1911, de início entre Hunan e o Cantão, para daí estender-se até Changsha. O entusiasmo de Mao é tal, que, ao ter notícia dos sucessos de Sun, juntamente com um amigo corta o rabicho do cabelo em sinal de desprezo pelos soberanos estrangeiros que o impuseram aos chineses, e faz o mesmo, à viva força, com um grupo de colegas que não tiveram coragem de fazê-lo. Estudando a história de seu país e a de outros, o jovem há muito manifesta particular entusiasmo pelas figuras dos grandes guerreiros e dos fundadores de nações. Quando a revolução chega a Changsha, cidade na qual Mao frequenta a escola secundária, sua emoção é grande.
A frente subversiva está representada neste período por alguns esquadrões do Exército imperial e das sociedades secretas, os quais não se abstêm de atentados terroristas de caráter anárquico, apoiados como estão no descontentamento dos camponeses duramente afetados pela carestia. Mao, então com dezoito anos, ingressa nas forças revolucionárias de Hunan, mas um compromisso realizado entre os dois grupos inutiliza seu impulso, levando-o a voltar aos estudos depois de apenas seis meses de serviço, já tornado, porém, consciente do peso cada vez mais decisivo que o Exército vai assumindo na política chinesa. É um período em que lhe sucede ler pela primeira vez artigos que falam de socialismo e da criação de um partido chinês desta tendência, tema que em princípio o apaixona apenas teoricamente, por estar empenhado na escolha de um caminho para o próprio futuro. Depois de muitas hesitações e de outros tantos arrependimentos, acaba renunciando a buscar trabalho e se fecha durante meses em uma biblioteca pública, devorando uma grande quantidade de livros, entre os quais traduções de autores ocidentais, de Stuart Mill a Rousseau, de Darwin a Spencer — experiências valiosas, embora o encontro decisivo para a sua formação cultural venha a ser com os professores da Escola Normal, pela qual sairá diplomado cinco anos depois, na primavera de 1918, no momento em que na Rússia acaba de estourar a revolução. Nesta época, no entanto, contam mais as experiências que vem fazendo, quer em plano formal — por exemplo, no exercício da escrita —, quer no plano político. Um professor o põe em contato com o movimento radical, cujo dirigente é um intelectual, Chen Tuhsiu, no momento empenhado na luta pela modernização da cultura chinesa em sentido democrático e científico, mas que no devido tempo virá a ser o primeiro secretário do Partido Comunista. Menos entusiasta da civilização ocidental, o docente da Escola Normal recomenda a seus alunos que não se esqueçam da tradição nacional e, ao mesmo tempo, que não se concentrem exclusivamente nos grandes temas ideais, deixando de lado a solução dos problemas concretos que afligem a sociedade.
Mao dá o maior valor a esses conselhos, mas, por conta própria, nos primeiros escritos que publica na revista radical, acrescenta uma curiosa solicitação: aconselha os leitores a retemperarem o corpo e o caráter com uma série de exercícios por ele estudados, deplorando que as condições físicas dos chineses venham piorando a cada dia e que o espírito militar não seja, em geral, levado em conta. É um traço de seu vitalismo que, de certo modo, o aproxima de Mussolini, que poderia ter subscrito esta sua afirmação: "O principal objetivo da educação física é o heroísmo militar." Os dois ditadores serão igualmente associados na iconografia cortesã como senhores dos elementos, retratados enquanto nadam majestosamente, um nas águas do Rio Amarelo, o outro, mais modestamente, nos balneários de Riccione.
Contudo, o jovem estudante de Hunan — a província cujos habitantes gozam da fama de serem particularmente fortes devido a seu hábito de alimentar-se com pimenta vermelha, tanto que, posteriormente, Mao estabelecerá uma curiosa relação entre a pimenta e a revolução — passa logo da reflexão à ação política. A ocasião lhe aparece com uma expedição militar que, na primavera de 1917, toma como alvo sua escola e que o chama exatamente para organizar a defesa, armando os colegas com bambus pontiagudos com que deveriam furar os olhos do primeiro soldado que metesse a cara por trás do muro: a hipótese não se realiza, mas o detalhe não é insignificante. No final do mesmo ano, vamos encontrar Mao entre os organizadores de uma Sociedade de Estudos para Jovens, uma associação estudantil que se qualifica entre as mais radicais, tanto que todos os seus membros entrarão para o Partido Comunista. O filho do camponês de Hunan já está em vias de tornar-se um revolucionário profissional, no contexto de uma transformação que reflete a luta política na China, determinada, evidentemente, pelos reflexos da vitoriosa Revolução de Outubro e pela difusão das primeiras publicações de caráter marxista.
Um passo decisivo é sua transferência provisória para Pequim, no verão de 1919. Uma vez obtido o diploma de professor, graças a seu velho mestre Yang Cheng-chi, que também fora transferido, mas que leciona nesta cidade, Mao encontra trabalho na biblioteca da universidade local, entrando em contato com um círculo de estudiosos marxistas. Porém, o nível de conhecimento da teoria por parte dos associados e do próprio Mao é ainda modesto, resultando em uma estranha mistura de liberalismo, reformismo democrático e socialismo mais ou menos utópico, sem excluir uns toques de anarquismo. O aprofundamento do pensamento leninista e, sobretudo, do papel que, na interpretação de Lenin, os movimentos de libertação nacional assumem em relação à revolução mundial acabará por eliminar as últimas dúvidas dos progressistas chineses, até mesmo porque coincidem com sua convicção de que a China pode se enriquecer com a contribuição das culturas estrangeiras mais avançadas, desde que não comprometa a própria identidade histórica: uma opinião de que Mao partilha plenamente e que, no futuro, estará à raiz de seu irredutível confronto com a União Soviética.
No verão, ao retornar a Hunan, funda uma outra associação estudantil e um jornal, no qual publica um artigo que desde o título (A grande união das massas populares) antecipa a vocação populista que caracterizará sua linha política, mesmo depois de tornar-se o chefe do partido e da China comunista, onde o populismo pretende implantar uma concepção peculiar do povo chinês em seu conjunto, como força histórica e, ao mesmo tempo, revolucionária—
uma heresia marxista da qual jamais abrirá mão. Em dezembro do mesmo ano de 1919, tornando-se perigosa sua posição na província, refugia-se primeiro em Pequim, depois em Xangai, e aí, para viver, aceita ser tintureiro, mas por breve tempo, pois o encontro com um antigo professor lhe dá a possibilidade de voltar para Changsha com um bom posto, a direção de uma escola secundária, graças ao qual pode, finalmente, desposar a moça que ama há tempos, a filha de seu mestre, Yang Cheng-chi.
A partir deste momento, convertido definitivamente ao marxismo, une ao trabalho escolar uma atividade, cada vez mais intensa, de sindicalista, com a intenção de entrar para o Partido Comunista, cujo primeiro congresso será realizado em 1922. As vicissitudes do movimento chinês e de suas relações com os nacionalistas e com os soviéticos são já bem conhecidas. Mao só chegará à cúpula em 1930, quando o partido já estará em grande parte esvaziado pela subordinação às diretivas de Stalin, que, a partir de 1923, impôs uma incômoda aliança com o Kuomintang, com a mesma ótica paternalista com que Lenin havia olhado o mundo colonial e com base na incipiente estratégia do "socialismo em um só país". A aliança funciona discretamente enquanto vive Sun Yat-sen, mas quando este morre, em 1925, deixando o cargo ao duro Chiang Kai-chek, a cúpula do Partido Comunista começa a dividir-se cada vez mais com relação às diretrizes que chegam de Moscou.
É nestes anos que Mao vai amadurecendo sua orientação, por meio de contínuos ajustes. A princípio, sente forte aversão em relação aos estrangeiros, que, a seu ver, humilharam os chineses, e, por conseguinte, vê-se inclinado a colaborar secretamente com o Kuomintang porque partilha de seu ardente nacionalismo. Conta-se, a este respeito, um episódio significativo, que remonta a 1924: Mao, vestido em trajes chineses já um tanto gastos, encontra-se em Xangai com um colega de escola que usa uma roupa de linha ocidental e que censura seus trajes. Diante da tola reação do outro, arrasta-o para ver o cartaz afixado na entrada de um parque municipal, no qual está a ultrajante inscrição: "Entrada proibida aos cães e aos chineses". Sente-se enfurecido, neste período, por ver seus compatriotas combaterem mais o imperialismo japonês que o britânico, e por isso, pelo menos até 1927, aceitará colaborar com o Kuomintang, ocupando inclusive cargos de certo relevo nos setores de propaganda e de organização.
O que não impede que se inscreva no Partido Comunista e, ao contrário, anos depois aí venha a fazer uma brilhante carreira, especialmente a partir da primavera de 1925, depois de seu retorno a Hunan. Uma manifestação de protesto de estudantes e operários por ocasião do assassinato de um trabalhador por parte de um capataz japonês é sangrentamente reprimida pela polícia internacional de Xangai, comandada por um oficial inglês, e três semanas depois, em Cantão, são esquadrões franceses e novamente ingleses que se lançam contra a multidão, disparando à altura dos homens. Mao vê que, ao contrário do que acontecia no passado, os camponeses de sua região descem para a praça contra os massacres e, dando-se conta de seu potencial revolucionário, decide trabalhar para o partido neste setor, embora não renunciando, por ora, à colaboração com o Kuomintang. É o que ele vai fazer, fundando um semanário político e inaugurando o Instituto de Formação do movimento camponês, um centro dedicado não só ao aperfeiçoamento da cultura política como à preparação de camponeses para a luta revolucionária.
No verão de 1926, em Cantão, recebe do partido a incumbência de responsabilizar-se exatamente pelo campo, uma vez que Chiang está marchando em direção ao Norte para confrontar-se com o poder dos generais, os "senhores da guerra", em nome da revolução nacional chinesa — um empreendimento que em seu início os soviéticos viriam a enquadrar em seus projetos de revolução mundial. Isto é música para os ouvidos de Mao, que continua servindo a dois patrões, embora esteja cada vez mais convencido de que os camponeses representam um potencial explosivo e que "em breve erguer-se-ão como um furacão, constituindo uma força tão extraordinariamente rápida e violenta que poder algum, por maior que seja, estará em condições de reprimi-la".
Porém, o entusiasmo revolucionário das massas rurais não interessa, na realidade, a Stalin, que age no sentido de conciliar seu movimento com Chiang e de aplacar as preocupações conservadoras do Kuomintang, suspeitando cada vez mais das intenções dos comunistas. São anos de conflitos, de acontecimentos, de retiradas do partido, nos quais Mao escala posições atrás de posições, mas partindo sempre de uma colocação de extrema esquerda, pois afirma a necessidade de aplicar a prisão perpétua, ou até a pena capital aos "prepotentes locais" e aos "perversos notáveis", reunidos na frente contrarrevolucionária e, para começar, instiga os camponeses pobres a não pagarem os arrendamentos. Mas também neste ponto os representantes da Internacional de Moscou aconselham prudência, além de uma análise atenta da situação local e uma propaganda que não insista demais na expropriação dos grandes latifúndios. Até mesmo porque nas fileiras do Kuomintang há inúmeros oficiais e generais interessados na manutenção do status quo. Na atitude do Komintern há não só a preocupação predominante com os interesses soviéticos, como também o preconceito marxista segundo o qual cabe ao proletariado urbano e não às camadas camponesas fazer a revolução.
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Os poucos e os muitos
Cai como um raio sobre as extenuantes disputas ideológicas entre comunistas na primavera de 1927 a iniciativa de Chiang Kai-chek, o novo chefe dos nacionalistas, que se aproveita de conflitos sindicais que estouram em Xangai para desencadear uma sangrenta repressão, primeiro nesta cidade, depois em Pequim e em Cantão. Em vão uma oposição de esquerda ainda consistente demonstra a Stalin que o episódio comprova o fracasso a que está conduzindo sua política no Extremo Oriente: o ditador, a quem não surpreende a reviravolta de Chiang, decide que não deve mudar realmente sua linha, porque continua pensando que tem de ser evitada a ruptura do PCC com o Kuomintang e, em caso extremo, que os comunistas chineses devem tentar fazer acordos com a ala esquerdista do movimento nacionalista, especialmente onde ela está no poder, como na Província de Hunan. Quanto à reforma agrária, é melhor caminhar a passo bem lento, porque "falar de reforma agrária com o Kuomintang equivale a tocar alaúde para uma vaca".
Mao compreende este discurso e, deixando para melhores tempos a agitação social entre as massas rurais, dedica-se ao alistamento dos camponeses pobres para formar um pequeno exército popular, com o qual enfrentará a persistente ofensiva de Chiang, que, com sua costumeira determinação, impõe também à esquerda do Kuomintang que não dê ouvidos às sereias comunistas. Enquanto o PCC continua a oscilar entre a obediência aos russos e a tentação de liquidar com terrorística violência os poderosos e os proprietários de terras, o futuro Napoleão chinês prepara o assalto ao poder, subindo para as colinas de sua cidade natal com o pequeno núcleo armado que formou e que vai reforçando, convocando desenvoltamente um par de autênticos bandidos, convencido de que com um bom trabalho de reeducação (seu permanente ponto de referência) poderão transformar-se em excelentes revolucionários. O plano não tem sucesso imediato, tanto que os dois bandidos são abandonados à vingança dos camponeses, mas a ideia será utilizada no futuro por Mao, quer para "reeducar" os dissidentes, quer para abrir as portas do exército popular (fora de todos os cânones marxistas) aos marginalizados da sociedade capitalista, subproletários como os vadios e os mendigos, os soldados mercenários e as prostitutas.