Tiranos
Mussolini
Um caso diferente
O fascismo não é um mal imprevisto e passageiro,
e sim a autobiografia da própria Nação.
PIERO GOBETTI
Por mais pecados que tenha cometido contra a liberdade, por mais funestos que tenham sido seus erros políticos e militares, por mais trágica a responsabilidade que ele compartilha (e não só objetivamente) com Hitler em virtude de sua malfadada aliança, Benito Mussolini não foi certamente um monstro. Faltaram-lhe as características de que Stalin e Hitler, além de muitos de seus epígonos menores da esquerda e da direita, foram tão bem-dotados: a crueldade abstrata e sistemática, um prazer sádico em fazer o mal, a fantasia paranoica ao inventar práticas das mais cruéis. Com um pouco de maldade poderíamos ainda acrescentar que não foi um monstro até porque lhe faltaram seriedade e coerência para sê-lo realmente.
Mas, provavelmente, a verdade última ultrapassa a questão individual: o Duce não foi um monstro porque, na época e nas circunstâncias então existentes, representou, talvez de modo exacerbado, as poucas virtudes e os muitos defeitos dos italianos, dos quais estão em geral excluídos a ferocidade e o sadismo. Foram necessários os cinquenta anos que se seguiram ao fuzilamento dele e de sua amante para entender como eram semelhantes o tirano e seu povo, embora, a rigor, uma tese deste tipo possa ser igualmente sustentada no caso de Stalin e de Hitler, já que os ditadores, como dizia Antonio Labriola, referindo-se a suas ideias, não caem do céu, mas brotam da terra que os gerou, degenerando.
No caso do Duce e do fascismo é até fácil fazer esse jogo. Para começar, o instinto do teatro, tão enraizado nele, especialmente com o avançar dos anos, é notoriamente uma inclinação nacional, assim como faz também parte do mais característico patrimônio genético italiano o contraste entre os objetivos e sua realização, entre o dizer e o fazer: o gosto mussoliniano pelas cerimônias, pela colocação de pedras fundamentais e pelos desfiles — a que raramente se seguia uma realização igualmente cuidada — encontrou no meio século posterior uma perfeita correspondência com o que, em jargão modernista, seria definido como "efeito-propaganda", herança dos homens políticos tanto na Primeira como na Segunda República.
Em um plano ainda mais significativo, o Duce e seus sucessores democratas, como, aliás, seus predecessores liberais, tiveram a mesma atitude diante da mediação política. Entre os predecessores liberais, no caso do Conde de Cavour ficou famoso o conluio com a oposição; no de Agostino Depretris, o transformismo; no de Giovanni Giolitti, o audacioso cruzamento de reformas com capatazes bem distribuídos. Quanto a seus sucessores democratas, o acordo histórico de Aldo Moro com os comunistas e o permanente conchavo entre partidos de governo e oposição, sindicatos e patrões constituem duas autênticas joias de gênio italiano, saídas, contudo, do mesmo tesouro no qual se inspiraria o ferozmente anticlerical Mussolini para assinar a Concordata com o Vaticano e o Duce republicano para firmar com a Monarquia uma sólida aliança, que só o mentiroso rei trairia em Villa Savoia, no dia seguinte ao 25 de julho de 1943.* Sem falar, obviamente, na respeitosa atenção que durante o Vintênio [o período fascista] o ex-socialista radical nascido em Predappio dedicou às fortunas das grandes empresas dos Agnelli, Pirelli, Donegani, Volpi di Misurata, e sem falar no entusiasmo com que o ex-sabotador da guerra da Líbia entrou, um quarto de século depois, na inglória conquista da Etiópia.
*25 de julho de 1943 — Data em que o Grande Conselho do
Fascismo, que substituía o Parlamento italiano, vota uma moção de desconfiança contra Mussolini, que ao ir entregar seu mandato de
primeiro-ministro ao Rei Vittorio Emmanuele III é preso pelos carabineiros. (N. T.)
Em suma, ninguém estava tão convencido como Benito Mussolini, mesmo já superados os arroubos juvenis, de que a política é a arte do possível.
Porém não estava menos convencido disto aquele Togliatti que voltou da União Soviética com um compromisso selado com Stalin e livros de Gramsci na mala de aliar-se em um primeiro momento com o Marechal Badoglio, já chefe do Estado-Maior do Duce, e de em seguida assinar, como ministro da Justiça, a anistia aos fascistas e, finalmente, de propor, com o artigo 7º, a inserção da Concordata Mussoliniana na Carta Constitucional da República nascida da resistência. Foi, aliás, o mesmo Togliatti que, quando ainda jovem revolucionário, ao chegar a Moscou no final da década de 1920, com a recomendação de seu partido de votar em Bukarin contra Stalin, quem rapidamente compreendeu que convinha fazer justamente o contrário, e com este repentino rodopio de valsista salvou a si mesmo e a toda a direção do PCI do pelotão de execução, do qual não viriam a escapar os poloneses, iugoslavos e alemães.
Naturalmente, no caso de Benito Mussolini tal desenvoltura desperta ainda uma certa admiração, porque parece contrastar com o importante poder conseguido, do qual poderia se servir para ficar coerente com a exaltação do fascismo como mobilização permanente, levada até o heroísmo. Na realidade, ele só foi exigente com os dissidentes, os antifascistas, a quem incriminou, rotulando-os de "antinacionais" e inimigos da pátria, e a quem perseguiu durante todo o Vintênio com uma série de sofisticados instrumentos, que incluíam a demissão do emprego e a proibição de desenvolver atividades profissionais, a censura aos jornais, a implantação de um regime de polícia vigilante e sagaz, a criação do Tribunal Especial para Defesa do Estado (ou seja, do regime), as pesadas condenações ao cárcere ou ao exílio, e até a pena de morte, também decretada depois dos atentados dos primeiros anos, porém unicamente devido à tentativa de assassiná-lo. Segundo Enzo Magri, foram 32 as condenações à pena capital de fuzilamento, executadas de 1926 a 1943.
De qualquer modo, não há dúvida de que devam ser-lhe imputados sistemáticos episódios de violência cruel e generalizada, a começar pela atividade dos esquadrões organizados e atuantes entre 1919 e 1926 com a benévola neutralidade das forças de ordem e do Exército, além de uma esporádica recaída nos anos seguintes, como, por exemplo, quando foi exercida em 1929 contra a Ação Católica e em 1940 contra os leitores do Osservatore Romano, muito críticos em relação à sua decisão de entrar na guerra aos lado dos alemães. No imediato após-guerra, os membros dos esquadrões foram encarregados de raids punitivos, incêndios de bibliotecas, de domicílios dos mais conhecidos e ilustres antifascistas, generosas distribuições de cacetadas e de óleo de rícino, sem prever, ou talvez calculando deliberadamente, a eventualidade de poderem transformar-se em homicídios diretos ou indiretos, como no caso de Giacomo Matteotti, de Giovanni Amendola, de Don Minzoni e, muitos anos depois, dos irmãos Rosselli.
Também não há dúvida de que não são menos graves as responsabilidades pelas leis antissemitas de 1938, criadas unicamente para satisfazer ao aliado nazista e sem a menor justificativa, dada a total assimilação da minoria judaica desde os longínquos anos de unificação nacional: uma decisão ainda mais imperdoável que a própria subserviência com que, depois da Operação Skorzeny, o Duce aceitaria funcionar como o Quisling da República de Saio*, sem ter a menor garantia de que conseguiria contrabalançar, mesmo que minimamente, a arrogância e a brutalidade dos invasores alemães, bem como o sadismo dos colaboracionistas de camisa negra.
*Quisling, Vidkun — Político norueguês cujo nome se tornou
sinônimo de traidor. Ministro da Guerra de 1931 a 1933, fundou a União Nacional, pró-nazista. Após a invasão alemã, tornou-se chefe do governo. Foi condenado à morte e executado após a Libertação. Quanto a Salò, pequena cidade do Lago de Como, seria a sede do governo da República Social Italiana, criada por Mussolini em 1943, depois de sua prisão, a que se seguiria sua libertação pelos alemães invasores. (N.T.)
Em outras palavras, podem ser atribuídas a esta personagem muitas culpas. Porém, não a de ter ordenado massacres, nem de ter encarcerado os dissidentes em campos de concentração nem de longe semelhantes aos gulags soviéticos ou aos lager hitleristas. Com uma única exceção, que não se pode, contudo, ignorar, até mesmo por estar documentada no Diário de Gaelazzo Ciano, que, na data de 22 de fevereiro de 1939, aludindo a um relatório do General Gastone Gambara sobre o desenrolar da guerra da Espanha, escreve textualmente: "Madri se rende necessariamente dentro em breve, ou então no final de março será dado pelas cinco colunas [italianas] o golpe que marcará o fim da Espanha vermelha. Muitos italianos têm também sido presos: anarquistas e comunistas. Eu disse isto ao Duce, que me deu ordem de mandar fuzilar todos eles, acrescentando: os mortos não contam a história." As centenas de milhares de italianos mortos, feridos e deportados em suas três guerras pertencem a um capítulo completamente diferente, ao passo que, para aliviar o pesadíssimo balanço da ditadura em Suas duas encarnações, podem ser lembradas poucas atenuantes, entre as quais a relativa amenidade do regime carcerário e do exílio (embora Gramsci tenha chegado à beira da morte antes de ser autorizada sua internação em um hospital), as frequentes anistias e a ajuda dada por baixo do pano aos parentes e a algumas vítimas dos esquadrões.
Sem dúvida, nem com a mais ardente fantasia seria possível atribuir a Stalin ou a Hitler uma relação com seu próprio adversário político como a que durante decênios uniu Mussolini e Pietro Nenni, e mesmo depois da Libertação este dirigente socialista e a família do Duce. É um capítulo interessante por muitas razões, inclusive pela oportunidade de reler as reflexões de um homem inteligente e generoso como Nenni acerca de seu antigo companheiro, muito tempo depois de sua traumática separação e do longo exílio a que ele foi condenado pelo ditador.
Sua amizade remontava a 1911, quando o socialista Benito Mussolini e o republicano Pietro Nenni, ambos originários da Romagna, tinham vindo à praça em Forli com os operários vermelhos contra a expedição colonial pretendida por Giolitti à Tripolitânia. O assalto à estação em que culminaram aqueles dias de desordens e de greves levou os dois subversivos ao tribunal, onde o socialista concluiu sua autodefesa com uma citação de um filósofo grego que já espelhava sua personalidade agressiva e sarcástica: "Se me absolverem", disse o futuro Duce, "dar-me-ão um prazer; se me condenarem, honrar-me-ão." O tribunal honrou a ele e a Nenni, condenando-os respectivamente a sete e a doze meses de prisão que, em sua maior parte, passaram juntos na prisão bolonhesa de San Giovanni in Monte.
Nenni escreveria mais tarde que a prisão aproxima e fortifica a amizade.
Ele e Mussolini passavam algumas horas do dia na mesma cela, jogando cartas, lendo e fazendo projetos para o futuro. "Nosso autor preferido", registra Nenni, "era Sorel. Este escritor, por seu desprezo em relação aos acordos parlamentares e ao reformismo, nos encantava. Sua tentativa de conciliar Proudhon e Marx nos parecia abrir novos horizontes para o socialismo.
Mussolini não era um fetichista do marxismo. Socialista por instinto e por uma espécie de tradição familiar, ele era acima de tudo um rebelde. Pouco a pouco foi me confessando as recordações de sua juventude, seus sonhos, suas ambições. Era um prisioneiro exemplar, indulgente para com os hóspedes habituais da cadeia, pronto a tudo desculpar e justificar em nome da injustiça social, origem de todo crime. Nossas celas ficavam em frente ao corredor dos menores, e à noite Mussolini experimentava uma espécie de sádico prazer em fazer com que nos contassem suas histórias e suas pequenas e miseráveis vicissitudes de detentos viciados. No cárcere de San Giovanni in Monte, em Bolonha, onde ficamos algumas semanas, em um grande aposento com sete ou oito outros detentos, sua alegria assumia frequentemente formas barulhentas e quase histéricas. Ele sentia falta de espaço, do violino e da filhinha, Edda, que na época tinha pouco mais de um ano."
Depois da Libertação, eu tive ocasião de ir visitar Nenni no apartamento em que então morava, na Praça Adriana, e foi ele quem me contou que, poucas horas antes, tinha enviado alguns pêssegos à "Eddinha", que ele tinha batizado e que, como toda a família Mussolini, naqueles meses estava vivendo na miséria: uma lembrança, evidentemente, daqueles longínquos anos de juventude em que tinham passado juntos por muitas experiências. Daquele período o líder socialista oferece uma síntese magistral em um escrito de 1964, no qual é impossível perceber o mínimo toque de rancor ou de vingança retrospectiva para com Mussolini, o homem que havia se transformado no pior inimigo dos socialistas.
"Era um rapaz de inteligência precoce, de um caráter vivaz, mas brutal em sua timidez selvagem (...) Comprazia-se com longas leituras solitárias, sem, no entanto, amar os estudos. Quando sua mãe quis interná-lo em Faenza, no Instituto Salesiano, ele fugiu como um potro, abandonando seus mestres de batina. Seu pai se orgulhava legitimamente desta proeza. Apesar disto, Mussolini conseguiu terminar a escola normal e obter o diploma de professor primário em Forlimpopoli. Mas ele se sentia sufocado nas salas de aula. Tinha necessidade de espaço, de horizontes mais vastos e novos. Abandonou o colégio e as cartilhas e partiu para a Suíça, onde frequentou os cursos universitários de Vilfredo Pareto, em Lausanne, trabalhando de vez em quando como ajudante de pedreiro, como agitador político, como jornalista e até mendigando. Não respondeu à convocação para o alistamento militar e foi considerado revel. Conta-se que um dia, em Lausanne, durante uma controvérsia com um pastor protestante, ele desafiou o Todo-Poderoso Deus dos crentes a dar uma prova de Sua existência. E diante de um público desconcertado tirou do bolso o relógio: 'O senhor diz, senhor pastor, que Deus está em toda parte e tudo pode. Concedo a Ele cinco minutos para fulminar-me.J Esperou e, depois de passados os cinco minutos, exclamou: "O senhor é um impostor! Deus não existe!"
Aproximadamente trinta anos depois, este céptico assinaria com o Vaticano uma Concordata, na qual, na qualidade de primeiro-ministro italiano, concedia um status privilegiado à Santa Sé em troca de uma preciosa legitimação aos olhos de todos os católicos e moderados. Tinha se transformado em um cínico realista, a anos-luz de distância do jovem incendiário de então, para quem a luta política era como uma ginástica revolucionária: "Sua estratégia consistia na conquista das ruas. Por isso, no dia em que chegou à Itália a notícia do fuzilamento na Espanha do anarquista Francisco Ferrer, os manifestantes em Forli foram arrastados por ele até a praça principal onde uma estátua da Virgem no alto de uma coluna foi derrubada entre gritos e blasfêmias. Posteriormente, em Milão, a conquista da Galleria foi o objetivo constante das manifestações populares organizadas por ele."
O futuro ditador da Itália levava na época uma vida simples e paupérrima. Podia ser frequentemente visto vagando solitário pelos campos, e seus concidadãos o consideravam um maluco. Alguém até o tinha apelidado de "O Louco".
Sua mulher, na intimidade, também o chamava assim. Apesar de tudo, em 1922, o ex-socialista de Predappio levava ainda uma vida simples, e até mais do que pobre, e sobretudo tinha se tornado excessivamente pacato, a ponto de estar se preparando para levar ao rei savoiardo* aquela "Itália de Vittorio Veneto" da qual estava prestes a tornar-se primeiro-ministro. Alguns meses antes, no mês de janeiro, o acaso quis que os dois velhos companheiros subversivos se encontrassem, como jornalistas, em Cannes, onde o velho Aristide Briand tinha organizado uma importante conferência internacional. A conferência tinha se prolongado até altas horas da noite, mas depois do jantar os dois italianos se encontraram e começaram a caminhar juntos e a conversar ao longo da Croisette. "O destino", escreve Nenni, "nos colocava pela última vez um diante do outro em pé de igualdade. Uma velha amizade, uma origem comum, muitas batalhas travadas juntos: era este passado que nos unia. Nossos ideais, nossas paixões, nossos sentimentos atuais nos contrapunham violentamente."
*Vittorio Emanuele III di Savoia, rei da Itália. (N.T.)
Apesar de tudo continuaram discutindo até o alvorecer, hora em que a brisa que sopra do mar "leva consigo o eco das últimas palavras". E, naturalmente, são palavras polêmicas, contestações recíprocas, um documento extraordinário sobre os sentimentos e as motivações de Mussolini na véspera de seu passo decisivo. É inútil relatar todas as passagens citadas por Nenni, basta registrar as afirmações com as quais o futuro Duce justifica sua clamorosa mudança de posição política e demonstra igualmente aquela ambiguidade que o acompanhará até os últimos e trágicos dias de sua vida, quando, em abril de 1945, em Milão, mandará chamar Corrado Bonfantini, o comandante das Brigadas Matteotti, para informá-lo de que pretende render-se, sim, mas exclusivamente ao Partido Socialista. E depois nada disto acontece.
Naquela noite de janeiro de 1922, o humor, naturalmente, é outro.
Explica a Nenni, antes de tudo, por que levou o movimento fascista à guerra civil: a seu ver, é uma trágica necessidade, imposta pela carência do Estado diante da "ameaça bolchevista", que somente seu partido é capaz de evitar, a necessidade de restabelecer a autoridade e salvar a vitória "mutilada", como diz, repetindo a expressão usada por D'Annunzio. À contestação do companheiro de outros tempos na Romagna, que o acusa de ter-se tornado um instrumento das classes dominantes, para as quais é bolchevismo o simples direito dos trabalhadores de se organizarem em defesa de seus interesses e para a conquista do poder, o Duce responde que não ignora os "sentimentos e ressentimentos" daquelas classes, das quais, apesar de tudo, não se sente de modo algum um instrumento. Mas que, de qualquer modo, teve de aceitar a "guerra" com a esquerda porque, quando falou em paz, "riram na sua cara".
Seu interlocutor não usa tons agressivos. Nos bancos em que estão sentados para descansar "dir-se-ia que flutuam nas sombras, suas vozes tornam-se apagadas, quase dolorosas". E o juízo final que o futuro líder dos socialistas italianos expressa sobre Mussolini é severo, porém não hostil: "Ele sabe que, a cada dia que passa, o círculo de ódio se fecha cada vez mais. Sente um profundo desprezo por aqueles que o apoiam e sabe que é, por sua vez, desprezado. Não ignora que só é chefe se obedecer às baixas pressões de uma classe ébria de vingança que quer o extermínio dos socialistas."
Os dois velhos amigos se afastam sem dramas e sem reconciliação.
Vinte e um anos mais tarde, quando Nenni for preso na França pela Gestapo e deportado para a Alemanha, algo ou alguém intervirá para desviá-lo para a Itália. Até hoje não há qualquer documentação sobre isto, mas a lenda julga que este algo tenha sido um telefonema do Palácio Veneza para Hitler e que alguém, isto é, Mussolini, tenha pedido ao Führer para entregar-lhe um prisioneiro que lhe pertence. A verdade é que, no dia 3 de junho de 1943, depois de cinco semanas de reclusão transcorridas na prisão romana de Regina Coeli, sem um interrogatório nem qualquer contestação, Pietro Nenni desembarca da Gaeta em Ponza e é transferido para um quartel onde já estão amontoados 600 exilados, falta água e a higiene é deplorável, mas que aos deportados de Dachau e de Auschwitz pareceria o Paraíso terrestre. O personagem que o enviou para lá, tirando-o da mira da Gestapo, encontrar-se-á com ele por uma estranha brincadeira do destino somente em 28 de julho, três dias depois da histórica sessão do Grande Conselho, que encerrou o penúltimo capítulo da sua existência. E Nenni anota isto tranquilamente em seu diário: "Trinta anos atrás, estávamos no cárcere juntos, ligados por uma amizade que parecia desafiar o tempo e as tempestades da vida, por estar fundamentada no desprezo de ambos pela sociedade burguesa e pela Monarquia. Hoje estamos ambos aqui, confinados na mesma ilha: eu, por decisão dele, e ele por decisão do rei e das camarilhas da corte, militares e financistas que se serviram dele contra nós e contra o povo, e que hoje se desfazem dele com a esperança de sobreviverem à derrocada do fascismo.
Entre a detenção comum de 1911 e este fortuito exílio comum em Ponza, trinta anos, dos quais vinte foram para ele de poderio, de orgulho, de loucas ambições e de abusos sem limites do poder, e foram para nós, socialistas, anos de luta, de miséria, de dor, do cárcere ao exílio, do exílio ao cárcere, de uma derrota a outra, porém sem que a humilhação e a vergonha jamais nos tenham feito baixar a cabeça. Esta noite gostaria de retomar com Mussolini a conversa interrompida há vinte anos em Cannes, a última vez em que falei com ele..."
Na realidade, Nenni, como afirma De Felice na famosa Entrevista sobre o Fascismo, gostaria também de saber se era verdade que "em determinado momento de sua vida", ou seja, quando de sua deportação para a Alemanha, Mussolini o teria ajudado. Mas não teve nunca certeza disto.
Para quem nasceu poucos meses antes da Marcha sobre Roma*, como é o caso deste autor, e viveu, portanto, sua infância e adolescência na envolvente atmosfera do Vintênio, não foi fácil livrar-se do fascínio de Mussolini. No âmbito da classe média, somente quem tinha um parente irredutivelmente antifascista podia sentir, até a metade da década de 1930, o peso do regime, sua intolerância em relação à dissidência, o aspecto irritante e às vezes ridículo de sua retórica. Sabíamos pouco ou nada da história italiana entre o Renascimento e as guerras coloniais, pouco a respeito dos partidos democráticos, das organizações e dos intelectuais que o fascismo havia obrigado ao silêncio, ao exílio ou à cadeia. E se, naquela época, a grande maioria dos adultos mantinha seu apoio, frequentemente entusiasta, a Mussolini, para os muito jovens a opção conformista era inevitável, não só pela atração que exercia o mito do Duce, tão obsessivamente cultivado, como também, ou talvez sobretudo, pela natureza infantil do fascismo, a puerilidade de suas estruturas e de suas palavras de ordem, sua vulgaridade em termos de cultura. A fantasia das crianças, e mais ainda a dos rapazes, era cotidianamente bombardeada pelo estímulo a gestos exemplares, atos de coragem e heroísmo, aventuras, dentro de uma concepção da vida que oscilava entre a combatividade do esportista e o ímpeto do guerreiro. As coreografias do Littorio não aguentariam uma comparação com as dos nazistas, mas naqueles anos o mundo nibelúngico de Hitler era desconhecido, ou objeto de zombaria, na Itália, onde se exaltava, ao contrário, a ressurreição da romanidade — artifício totalmente retórico, mas do qual, apesar de tudo, nos sentíamos muito orgulhosos. Sem suspeitar que o Duce o devesse à imaginação de Margherita Sarfatti, sua amiga e inspiradora nos primeiros anos do Vintênio.
*A marcha dos ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial,
seguidores de Mussolini, realizada em 1922 e cujo resultado foi a tomada do poder por parte dos fascistas. (N. T.)
O diapasão do entusiasmo e do consenso popular foi alcançado provavelmente na noite de 9 de maio de 1936, quando Mussolini, do balcão do Palácio Veneza, proclamou a conquista do Império. Era o vitorioso término da conquista da Etiópia, que a opinião pública tinha saudado como a revanche da Batalha de Adua e de outros sofrimentos trazidos pelo "mal da África", não tanto por parte dos abissínios, como por parte dos pérfidos e insaciáveis ingleses e de seus cúmplices franceses, aos quais nos ligava, como disse o Duce, "uma irmandade ou um parentesco de primos bastardos". Nós, rapazes, havíamos acompanhado a gesta do General De Bono, de seu colega Graziani e, depois, do Marechal Badoglio, no mapa verde do "chifre da África", fincando dia a dia nossas bandeiras tricolores sobre o nome das localidades que, a partir da Eritreia ou da Somália, nossas tropas iam ocupando nas terras sobre as quais reinava o Negus,24 personagem respeitável que o regime nos havia ensinado a considerar uma caricatura ridícula.
Naquela noite, como poderíamos constatar alguns dias depois no Cinejornal LUCE, a Praça Veneza e toda a cidade de Roma estavam iluminadas com milhares de lâmpadas, enquanto a voz de Mussolini pronunciava pausadamente seu triunfal discurso exaltando o retorno do Império "sobre as colinas predestinadas de Roma". Minha mãe e eu, que ouvíamos o discurso pelo rádio, nos abraçamos chorando, como se fôssemos testemunhas do triunfo de Caio Júlio César sobre Vercingetórix. Nós éramos muito pobres, mas nos sentíamos orgulhosos com a conquista da Etiópia, como se o Império tivesse verdadeiramente um sentido, como se nos pertencesse e pudesse mudar o nosso destino, e o de todos os italianos. Naturalmente, naquela noite não suspeitávamos sequer que jatos de gás tinham já sido lançados contra as milícias de Negus*, nem que o Vice-Rei Graziani faria a seguir um massacre em Adis-Abeba, após o choque de um atentado por ele sofrido.
*Negus — Título dos soberanos da Etiópia, que significa "o rei dos
reis", aqui designando Hailé Selassié. (N. T.)
Poucos dias depois do discurso na Praça Veneza, Mussolini se retirara para saborear a alegria do triunfo em sua casa de campo na Romagna, a Rocca delle Caminate, em companhia da esposa, Rachele Guidi, que os bajuladores chamavam aristocraticamente Senhora Rachele e os maldizentes asseguravam que era filha da amante de Alessandra, o famoso ferreiro, e depois dono de botequim, pai de Benito. Nas memórias publicadas em 1973, na França, a viúva de Mussolini narra dois episódios que se passaram precisamente em maio de 1936 e que nos ajudam a apresentar o Duce do fascismo em sua real dimensão. Na intimidade daqueles dias de descanso desenrola-se entre marido e mulher, que acabavam de voltar de um passeio em um Alfa Romeu, um diálogo cujos termos os italianos jamais teriam imaginado naquele momento, embora seja provável que Rachele tenha acentuado ex-post o tom bonachão de seu cônjuge: "Benito", teria dito a Senhora Mussolini, "lembre-se de Napoleão, você que o admira tanto. Era poderoso, senhor de metade da Europa, imperador. Depois das vitórias buscou novas vitórias, depois das conquistas quis mais conquistas. E o que foi que conseguiu? Despencou-lhe tudo em cima. Você se lembra daquela letra da canção que cantávamos quando éramos jovens? 'Napoleão com toda a sua soberba... acabou na Ilha de Elba.' Esqueceu-se desta canção?"
Atingido pelo toque de mau agouro, o Duce teria perguntado com uma certa irritação: "O que eu deveria fazer, a seu ver? Demitir-me e ir criar galinhas na Romagna? Ah, não brinque, Rachele!"
Mas Rachele não teria se deixado intimidar e, com muito bom-senso, mas também com pouca esperança de conseguir, teria tentado persuadir o marido: "Não, não lhe peço que venha bancar o camponês. Quero só que você pare a tempo. Queria que dedicasse a si mesmo, a mim e a seus filhos dez ou quinze anos de sua vida, depois de ter dedicado trinta anos à Itália e à política!
A política é traiçoeira; hoje você vive os seus melhores aspectos, mas existem também os perigosos... Cuidado com o que pode acontecer." É inútil dizer que uma vez de volta a Roma o Fundador do Império riscou até da memória o sábio conselho de sua esposa, ainda mais porque a roda da história, como ele certamente teria dito, estava girando na direção de outro empreendimento memorável, a guerra civil da Espanha. Porém, durante aquela pausa doméstica em Rocca, tinha havido uma outra troca de ideias entre marido e mulher que vale a pena citar. Benito tinha acabado de rachar lenha no pátio da mansão para manter-se em forma quando se recorda de um episódio que o divertira muito e decide contá-lo à mulher: "Veja só, Rachele. Sabe o que o rei me propôs há dois dias? Queria nomear-me príncipe."
"Essa, não!", disse Rachele. "E você, aceitou?" "Está brincando? Já imaginou? Eu chegando em um lugar e o recepcionista anunciando: Sua Alteza, o Príncipe Mussolini!"?
"E eu teria de me tornar a Princesa Rachele Mussolini? Nossa, que absurdo!"
É uma anedota divertida, embora seja demasiado fácil assinalar que à afabilidade e à discrição que o chefe do fascismo realmente mantinha na vida privada, com um hábito exemplar de probidade pessoal, correspondia, infelizmente, a ênfase histriônica das aparições e discursos públicos, para não falar de tantas outras lacunas de um temperamento só exteriormente firme.
Seja como for, se evocamos a noite luminosa e um tanto surreal de 9 de maio de 1936, é principalmente porque nos lembra, à distância de tantos decênios, de que magia era capaz o Duce, e também porque, paradoxalmente, exatamente a partir daquele dia inebriante começa o declínio cada vez mais rápido e incessante daquele que o Papa Ratti tinha definido como o Homem da Providência Divina, até transformá-lo no político mais desprezado e odiado do país, encarnação viva de um desengano doloroso cujo preço viria a pagar de modo cruel juntamente com sua corajosa companheira, Claretta.
O ditador nunca tinha tido sucesso tão amplo e tão comovente como o da noite de 9 de maio de 1936, porque, naquele momento, a mensagem e o meio coincidiam perfeitamente, coincidiam o evento e o modo de anunciá-lo, com resultados igualmente positivos, persuasivos, brilhantes. De fato, ainda que se possa questioná-lo e criticá-lo sob muitos aspectos de sua vivência política e humana, Mussolini se coloca, porém, como um dos fenômenos de mídia mais interessantes do século 20. Não se trata apenas de sua habilidade de jornalista, de sua capacidade de formular suas próprias teses ou de articular a polêmica com uma prosa clara, sintética, frequentemente irônica e apesar disto bastante eficaz, até por vir expressa com brevidade em artigos, comentários ou discursos ricos em ditos espirituosos e em slogans, nos quais se sente o eco de uma inteligência sólida e de uma cultura vasta, mas desordenada e superficial, típica de um autodidata que se alimentou com caótica avidez primeiro das noções de classe de Marx e de outros profetas do socialismo, depois da prosa carregada de D'Annunzio e da linguagem descarnada e fulgurante do futurismo.
Porém, há algo mais. Ele intuiu desde as suas primeiras experiências como diretor do Avanti!, na década de 1910, a importância fundamental no mundo moderno do nexo entre palavras e ações, isto é, o potencial revolucionário da propaganda como instrumento de persuasão, mas também de manipulação, de pressão psicológica, de travestimento da mentira em verdade diante de uma multidão ingênua e desinformada. Até mesmo depois de ter-se afastado da disciplina marxista, conservou o hábito mental de considerar a história como história da luta de classes e olhar para o proletariado como o protagonista da mudança, embora com duas diferenças decisivas, duas colossais deformações da teoria: primeiro, liquidou a luta de classe como processo dialético nacional, pretendendo resolvê-la por mediação de um corporativismo de ambições irrealizáveis, que nunca chegou à prática (como demonstraria exaustivamente Bottai em seu diário) e transferindo-a ao plano internacional como luta entre os países ricos em colônias e recursos contra os países pobres cuja única riqueza é a mão de obra e ser carne para canhão. Em segundo lugar, atribuiu na realidade ao proletariado, suposto protagonista da história contemporânea, um papel subordinado, subjugando-o à vontade, às diretrizes, ao gênio de um ditador perpétuo, ou seja, dele mesmo.
Em suma, percebeu apenas uma dimensão da civilização de massa, a da mobilização partida do alto, da obediência partidária, de uma espécie de alienante consumismo político.
À parte este condicionamento redutor e instrumental com que viu a comunicação — algo, aliás, que não é estranho a muitos políticos até de declarada fé democrática —, Mussolini sem dúvida continua sendo um professor primário e, em certo sentido, um precursor da que muitos anos mais tarde será chamada de Teoria da Informação. É por natureza, instintivamente, um jornalista e, além disto, um criador de jornais (duas profissões paralelas que nem sempre coincidem), como teve a ocasião de demonstrar desde os anos de juventude, quando dirige primeiro A Luta de Classe, em Forli, e depois, com expressivo sucesso de difusão, o jornal socialista Avanti! É uma profissão que vive com paixão "verdadeira e profunda", como escreveu De Felice, apoiada em um estilo "inconfundível, feito de clareza, imediatez e incisiva agressividade". Esta última característica pode ser apontada como o único limite do jornalista Mussolini. Muito longe da concepção anglo-saxã a respeito do caráter exaustivo da informação, ou seja, da relação indissolúvel entre a notícia e o fato, ele é, ao contrário, o primeiro político italiano a ter plena consciência da função que pode ter a imprensa no século 20 como instrumento para orientar as massas que a Revolução Industrial libertou do silêncio da pré-história, manipulando-as conforme a ideologia, a linha política, os interesses do partido, do grupo de pressão ou do líder.
Já havia demonstrado isto com o Avanti!, quando tentara levar o Partido Socialista a posições mais radicais, e vai demonstrá-lo de forma ainda mais evidente no outono de 1914, quando funda o II Popolo d'Italia, depois de sua expulsão do partido por ter proclamado a necessidade de passar da neutralidade absoluta pregada pelos socialistas italianos a uma "neutralidade ativa e operacional", antessala da intervenção [na Primeira Guerra Mundial].
Como de costume, suas motivações ideais são ambíguas, porque ele se justifica com a exigência ideal de evitar um triunfo dos Impérios centrais, que cortariam pela raiz qualquer possibilidade revolucionária, embora não tenha vacilado em aceitar ajudas financeiras por parte de empresários italianos e, principalmente, do governo francês. Porém, à diferença de seus antigos companheiros socialistas — que por coerência ideológica foram fortemente contra a intervenção e assumiram em relação a ela uma atitude de distanciamento, expressa no lema "nem aderir, nem sabotar" —, o futuro Duce, graças a seu faro de cronista desencantado, intuiu exatamente pelo contato com a opinião pública a transformação que a guerra estava provocando na psicologia coletiva dos italianos, os elementos novos que, apesar daquela assustadora carnificina, vão se desenvolvendo no país no que diz respeito à cultura do século 19, à separação entre as camadas sociais, ao isolamento da zona campesina em geral e particularmente do Sul da Itália.
Os meses passados no front, no hospital ou na redação do Popolo d'Italia o ajudaram a entender que a trincheira ofereceu a milhares de jovens de uma classe média até então tímida e frustrada a oportunidade de viver a emocionante aventura do mando e do perigo, em contato com um mundo fechado, mas ingênuo e generoso como o do camponês, enquanto no front interno se iniciava uma marcha lenta, mas irreprimível, em direção à emancipação da mulher, inclusive com a sua participação no trabalho das fábricas ou nos serviços públicos em substituição aos homens fardados em verde-cinza. Mussolini compreendeu que o processo de modernização da sociedade exigia um preço altíssimo em sacrifícios e em sangue, criando em todas as classes uma sensação de mal-estar e a espera de uma remuneração que a velha classe dirigente não está em condições de dar, apesar da forte pressão vinda do proletariado e que se acentuará, sob o impulso das ideias comunistas no "biênio vermelho", como se na realidade estivessem a ponto de "fazer como na Rússia". Também aqui o ex-socialista, depois de alguma hesitação inicial que se percebe no programa "diciannovista"* do nascente movimento fascista, escolhe o caminho indicado por D'Annunzio, com a conquista de Fiume**, e sugerido, sobretudo, pela amargura e pelas veleidades dos que voltavam da guerra, formando a estrutura de base dos squadristi [esquadrões de ação].
*Diáannovista — Os que fizeram parte do movimento fascista
desde sua fundação, em 1919. Este primeiro programa tinha ainda marcas de ideias socialistas. (N. T.)
**Fiume — Pelo Tratado de Versalhes, esta cidade ficou com a
Iugoslávia. Para protestar contra o que D'Annunzio considerava traição à Itália por parte dos aliados, ele a ocupou com um grupo de soldados voluntários, em 7 de julho de 1919, aí ficando até 12 de novembro de 1920. (N. T.)
A violência nas ruas contra as esquerdas e os sindicatos se alterna, no ambicioso projeto de Mussolini, com uma ação política muito flexível e, sobretudo, com uma campanha de propaganda engenhosa, virulenta, persistente, que criminaliza os adversários e exalta o protesto nacionalista contra a "vitória mutilada" do Tratado de Versalhes, com um objetivo bem definido: captar as simpatias da Monarquia, das castas militares e das grandes indústrias. O "biênio vermelho" já está superado no país (até porque demonstrou que faltavam ao movimento operário um projeto e um Estado-Maior eficiente), mas a propaganda fascista continua agitando cada vez mais dramaticamente a bandeira vermelha do perigo comunista e confirmando, nos discursos e nos artigos do jornalista romagnolo, sua mortífera força de embate.
Mais tarde, ao rememorar o momento em que passara a direção do jornal a Arnaldo, seu irmão, para assumir a presidência do Conselho, ele mesmo proclamará, "sem os falsos pudores das falsas modéstias", que conseguiu imprimir ao Popolo d'Italia, "por meio de milhares de artigos, de títulos, de notas breves, de desenhos" por ele inspirados, "um caráter polêmico, agressivo, de luta contínua", habituando algumas dezenas de milhares de leitores à sua prosa "personalíssima", que jamais poderia mascarar com pseudônimos ou outros expedientes. Uma observação na qual transparece o prazer de quem sabe fazer o próprio ofício e o ama genuinamente. Por outro lado, foi realmente necessário um profissionalismo diabólico para apresentar à opinião pública como uma empreitada heroica dos camisas-negras aquela marcha sobre Roma que o quadriunvirato orientou tranquilamente pelas estradas da península enquanto o Duce viajava comodamente de Milão para a capital no vagão-leito colocado à sua disposição por Sua Excelência, o prefeito*.
*Prefeito — Interventor do governo nas províncias. (N. T.)
Mesmo depois da transferência da direção para Arnaldo ele continuará a acompanhar, a inspirar e frequentemente até a escrever editoriais e comentários para o Popolo d'Itália, não aceitando, infelizmente, satisfazer-se com este prazer, mas realizando também o seu sonho tirânico de dirigir idealmente todos os jornais italianos por meio dos expedientes mais diversos, cada um mais indecente que o outro: a censura, a desapropriação forçada no caso dos editores que não se alinhavam totalmente ao regime, a expulsão ou o exílio para redatores pouco ortodoxos, e finalmente o envio, aos cuidados do responsável pela imprensa do partido e em seguida do Ministério da Cultura Popular, de instruções cotidianas, que constituem um breviário de propaganda para todos os diretores dos jornais, uma espécie de catecismo fascista da notícia, que às vezes se transformava em recomendações ridículas, como no famosíssimo convite a "minimizar o papa". Apesar de tudo, este estrangulador de colegas compartilha de seus hábitos, debilidades e exaltações, lê diariamente todos os jornais em banca, além de inúmeras outras folhas da província, ou dos jovens do GUF (Grupo Universitário Fascista); sublinha com caneta vermelha e azul os artigos que considera bons, ou os suspeitos, descobre com prazer talentos pouco conhecidos, incluindo-os até como colaboradores do Popolo d'Italia. E continua sendo jornalista até entre o outono de 1943 e a primavera de 1945, durante os meses humilhantes em que está praticamente prisioneiro dos alemães nas margens do Lago de Garda e se sente como "morto": é quando publica em série no Corriere delia Sera, da República de Salò a História de um Ano, versão venenosa e muito manipulada do 25 de julho*, contribuindo para aumentar vertiginosamente a tiragem do jornal; ou quando, para matar o tempo na fúnebre Mansão Feltrinelli, inventa uma agência, a "Correspondência Republicana", que só ele abastece de notícias e comentários, embora saiba perfeitamente que sua prosa "personalíssima" já não surtirá o mínimo efeito sobre o desenvolvimento dos acontecimentos.
*Em revanche ao ocorrido em 25 de julho, foi aberto um processo
no qual Mussolini se empenharia pela condenação dos membros do Grande Conselho que votaram contra ele.
Obviamente a ação propagandística do chefe do governo não se limita ao férreo controle da imprensa. Há pelo menos outros três setores dos meios de comunicação que ele olha desde os primeiros anos do regime como a outros tantos canais a serem utilizados para a divulgação de sua palavra: o rádio, o esporte e o cinema, ao passo que leva mais tempo a predispor-se a experimentar a televisão, sem chegar a vir utilizá-la com maior empenho, como poderia certamente ter feito. Na verdade, os primeiros contatos do Duce com o rádio não são felizes, até porque, como todos os homens de sua geração, ele nutre ainda uma certa desconfiança para com a genial invenção de Marconi.
Quem vem a romper o gelo é Costanzo Ciano, muito sensível aos problemas da comunicação devido a suas ligações com a Marinha e grande admirador do físico de Bolonha [Marconi]. Nomeado ministro dos Correios e Telégrafos em fins de janeiro de 1924, o velho Ciano tem facilidade de convencer o Duce a autorizar a transmissão, via rádio, do discurso que deve pronunciar em 25 de março no Teatro Costanzi, de Roma. Uma pane técnica interrompe a transmissão imediatamente após o início do discurso, provocando mágoa no interessado e decepção para Ciano, mas o incidente não impede a afirmação do rádio na Itália, tanto que, em junho do mesmo ano, é criada a URI— União Radiofônica Italiana —, que em dezembro torna-se concessionária exclusiva do serviço.
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Reforma
O processo de politização, inicialmente menos rápido que o da imprensa, começará em breve a queimar etapas. Os lançamentos da agência oficial do governo, a Stefani, os artigos e os comentários do Il Popolo d'Italia, os discursos de Mussolini alimentam noticiários e transmissões em ritmo crescente. Marconi contribui para atenuar a perplexidade do ditador, quando reivindica para si "a honra de ter sido na radiotransmissão o primeiro fascista, o primeiro a reconhecer a utilidade de reunir em feixes [fascio] os raios elétricos, assim como Mussolini foi o primeiro a reconhecer a necessidade de reunir em feixes as sadias energias da nação para a maior grandeza da Itália". O paralelo é forçado e um tanto cômico, mas dada a enorme popularidade da personagem tem um incalculável valor propagandístico.
Entre os chefes fascistas, todos estão convencidos da importância do meio, sobretudo Arnaldo, o sábio irmão do Duce, e o secretário do PNF, Augusto Turati. Será este que, em novembro de 1927, levará a cabo o estudo de uma reforma que se traduz na criação de uma nova entidade, o EIAR (Entidade Italiana de Audições Radiofônicas), e na constituição de um comitê de vigilância que garanta o controle do governo sobre as transmissões. A ordem é de incrementar a difusão capilar do rádio, aumentando o número de assinantes, durante alguns anos ainda bastante reduzido, enquanto se busca acelerar a produção nacional de aparelhos cujo custo representa um sério obstáculo para a penetração capilar da mensagem Serão necessários alguns anos, contudo, para que o noticiário da rádio se torne mais informativo, articulando-se em redações mais bem organizadas e sendo assim capaz de garantir o mais amplo destaque às manifestações fascistas e aos discursos do Duce por meio de novos sistemas de amplificação que permitam "a presença de grandes multidões de ouvintes em espaços abertos". Em 1931, o caminho percorrido é já tão significativo que, segundo um estudioso da história do rádio, uma pesquisa de opinião classifica Mussolini — objeto, neste momento, de descarada adulação com a qual ele é o primeiro a comprazer-se — entre os doze melhores oradores radiofônicos do mundo, embora ele na realidade prefira que o microfone capte seu diálogo com a multidão, um ritual que lhe lembra inconscientemente os antigos comícios socialistas.
Quando o regime empreende a invasão da Etiópia, providenciar-se-á para que os discursos do chefe possam ser ouvidos por 20 milhões de italianos, concentrados pelas organizações fascistas de massa nas praças das cidades ou conectados nos vilarejos rurais por meio de alto-falantes instalados pelo partido. Um passo decisivo em direção à sociedade totalitária é dado no dia 6 de setembro de 1934, quando o Departamento de Imprensa do PNF é substituído por uma Secretaria para a Imprensa e Propaganda que mais tarde, a exemplo do modelo nazista, se transformará no Ministério da Cultura Popular (que no zombeteiro dialeto de Roma tornar-se-á o Minculpop)*. Mas a esta altura estamos já no plano inclinado que nos levará à Segunda Guerra Mundial, e diante desta perspectiva Mussolini cria em Bari uma poderosíssima transmissora para difundir a propaganda anti-inglesa para todo o Mediterrâneo e especialmente para os países árabes. Por uma diabólica brincadeira do destino são exatamente essas instalações que vão possibilitar ao setor da guerra psicológica aliada (o Psychological Warfare Branch) lançar suas transmissões contra os nazifascistas, em apoio à resistência guerrilheira, também com límpida escuta no território da República de Salò.
*Ao que parece, os romanos, sempre dessacralizadores, assim
abreviaram o dito "Mi hanno inculato il popolo"("Botaram no cu do povo"). (N. T.)
Mas o rádio serve igualmente para favorecer a instrumentalização do esporte por parte do regime, um outro recorde de mídia de Mussolini. A primeira transmissão radiofônica de uma competição atlética é feita pela EIAR em 25 de março de 1928: é uma partida internacional de futebol entre a Itália e a Hungria, tendo como comentarista um redator da Gazeta do Esporte, Giuseppe Sabelli Fioretti. Também aqui se procede gradualmente e por meio de experiências, até que, em primeiro de janeiro de 1933, entra como radiocomentarista do encontro Itália — Alemanha realizado em Bolonha um jornalista nascido na Sicília e que se mudara para Gênova, Nicolò Carosio, que, a partir daquele dia e durante cerca de meio século, dará voz à paixão popular pelo jogo, primeiro pelos microfones da rádio e depois, por poucos anos, pela televisão. Carosio tem pouca familiaridade com a técnica futebolística, mas, em compensação, fala com voz agradável e em um ritmo endiabrado, superando a competência com a fantasia e, sobretudo, interpretando com perfeição a inspiração nacionalista que o regime pretende conferir às manifestações esportivas como veículo de sua ideologia vitalista e patriótica.
O acontecimento que vai oferecer ao jovem comentarista a oportunidade de tornar-se conhecido de um público, para aquela época, vastíssimo é o campeonato mundial de futebol, realizado no verão de 1934, na Itália, por vontade de Mussolini, com a intenção de demonstrar o espírito "vibrante" e a capacidade de organização do fascismo. A demonstração é bem-sucedida porque os "azuis" conquistam a vitória e Carosio confere a seus comentários radiofônicos o suspense e a participação necessários para suscitar o entusiasmo dos ouvintes, sobretudo dos mais jovens, que têm assim um modo de apaixonar-se a seguir com a afirmação do "nome italiano no mundo" em 1936 e em 1938, no momento em que os "azuis" vencem também o torneio olímpico em Berlim e o segundo campeonato mundial em Paris. Antes de Hitler e dos próprios dirigentes dos governos comunistas do Leste, o Duce intuiu que, com o advento da cultura de massa, o esporte tornar-se-ia um formidável instrumento de propaganda política (como o será a publicidade comercial na era televisiva), devido a sua natureza competitiva, a sua popularidade e a sua fácil identificação com os sentimentos locais e chauvinistas da massa. Mas em dezembro de 1925 o chefe do jornal do partido, Lando Ferretti, é transferido para a Presidência do Comitê Olímpico, órgão de coordenação de toda a federação esportiva, com ordens precisas no sentido de fascistizar o esporte, mas, a partir de dentro, sem alterar, contudo, sua autonomia técnica e gerencial, ao contrário, defendendo-a da invasão das organizações juvenis do PNF. No ano seguinte Ferretti, que é um chefe culto e equilibrado, "depois de receber as ordens do Duce", segundo a fórmula tradicional, nomeia como presidente da Federação Italiana de Futebol o chefe dos esquadrões de Bolonha, Leandro Arpinati, um ex-anarquista, de grande honestidade pessoal, que desenvolverá um bom trabalho, até que, entrando em violento conflito com Achille Starace, será liquidado também como subsecretário do Interior e será enviado para o exílio. A partir daí os representantes do futebol italiano passam a vestir a camisa negra, a fazer a saudação romana e são vaiados no exterior pelos antifascistas exilados, como aconteceu, aliás, em todas as outras disciplinas esportivas, que viriam a ter presença discreta nos jogos olímpicos, tanto nos de Los Angeles, em 1932, como nos de Berlim, em 1936.
Tanto quanto, ou mais que o esporte, busca-se valorizar, para consolidar o consenso e a imagem do regime, o cinema, que Mussolini define até como "a arma mais forte". As etapas de uma reorganização do setor estão representadas pela transformação do Instituto Nacional "LUCE" em uma entidade do Estado, pela abertura em Veneza da Mostra do Cinema no âmbito da Bienal de Arte, e pela criação do Centro Experimental de Cinematografia, em Cinecittà. Aqui, porém, o condicionamento ideológico é mais difícil, pois o meio é infinitamente mais complexo, o ambiente indócil e extravagante, por mais que o Duce se interesse de perto — inclusive como autor, com Gioacchino Forzano ou em pessoa— por textos destinados a serem filmados, do teatral Campo di Maggio ao cinematográfico Luciano Serra pilota. Tudo que se pode fazer é criar um gênero de evasão, o dos chamados "telefones brancos"*, e exercer uma censura implacável, e às vezes ridícula, que impõe a ambientação na Hungria ou em países imaginários de roteiros cinematográficos bastante livres em matéria de costumes ou de ortodoxia política. A invasão de filmes estrangeiros, especialmente americanos, franceses e até soviéticos, é de qualquer forma incessante, apesar de todas as campanhas moralizadoras da imprensa fascista, até que, em 1938, isto é, às vésperas da conflagração mundial, o próprio Mussolini impede autoritariamente, com um decreto de autossuficiência nacional, a importação dos filmes de Hollywood — mesmo que Vittorio, seu filho, um admirador daquela produção, tenha visitado recentemente os estúdios americanos e dirija a revista Cinema, em que dá vasto espaço a jovens críticos que são tudo menos conformistas.
*Telefones brancos — Gênero de filmes italianos de 1930 a 1940
cujas temáticas excluíam os problemas políticos e sociais. O aparelho era típico objeto de luxo das ricas mansões da época. (N. T.)
Apesar de não terem faltado no cinema italiano do Vintênio bons filmes e diretores de valor, como Amleto Palermi, Alessandro Blasetti, Mario Camerini, o Luchino Visconti da primeira fase ou o Comandante Francesco De Robertis (um pioneiro do neorrealismo), a questão é que um bom cinema de propaganda é, por definição, irrealizável. De utilidade bem diversa para os fins a que se propõe Mussolini se reveste o Cinejornal LUCE, tecnicamente muito bem feito, e que é totalmente posto à disposição da propaganda do regime, exaltando não só as iniciativas políticas, sociais e bélicas do Duce, como seu mito pessoal, apresentando-o progressivamente como guerreiro sério, vigoroso desportista, incansável trilhador de trigo de peito nu, fundador de cidades, e, sobretudo, genial estadista para quem o mundo inteiro olha com estática admiração. Quando "no quadrante da história chega a hora das decisões supremas", isto é, todas as vezes que o fogoso romagnolo jogar os italianos na fornalha de uma aventura bélica, o Cinejornal LUCE colocará os seus operadores e os seus técnicos a serviço da pátria em armas, com cenas extraordinárias e ousados comentários que naturalmente se tornarão cada vez mais tediosos à medida que declina a sorte das Forças Armadas italianas.
A noite de 9 de maio de 1936 representa, como já assinalei, o ponto máximo da operação iniciada a partir de 1929 pelo regime para ampliar a área de consenso, isto é, o momento em que se encerra o período mais duro da repressão. Não é por acaso que os sete anos apoiados pela crescente satisfação de grande parte da população coincidem com a fase mais moderada da política de Mussolini — mesmo que esta observação nos sugira que na realidade estamos diante de três ou quatro encarnações muito diversas desta singular personagem, que interpretou indiferentemente, mesmo que em épocas diversas, diferentes papéis: o do militante agitado e criativo do movimento operário, o do Duce cínico e desabusado de formação de extrema-direita, o do sábio e equilibrado chefe de um governo autoritário, mas aberto ao social e, finalmente, antes da tragédia final de Salò, o de artífice de uma estratégia político-militar leviana e catastrófica. É impossível dizer, mesmo à distancia de mais de meio século, quem foi "o verdadeiro Silvestri" (para usar o título de um belíssimo conto de Mario Soldati): se o sinistro servo do capitalismo, segundo a definição clássica das esquerdas marxistas, ou a ridícula marionete apresentada em O Grande Ditador, de Chaplin. Lenin acusa os socialistas italianos de tê-lo deixado escapar; George Bernard Shaw o considera durante muito tempo uma espécie de novo Napoleão; mas Dona Rachele o descreve como um modesto e diligente funcionário do Estado, que joga bola ou tênis com os filhos, quebrando as vidraças da Mansão Torlônia, se enche de água-de-colônia depois do banho e batiza como "museu dos horrores" o Salão da Rocca, onde estão amontoados presentes "de péssimo gosto" que lhe foram enviados por devotíssimos súditos. É um homem bom, que tem apenas o pequeno vício de permitir-se de vez em quando algum pequeno adultério, como fazem todos os maridos italianos, ou é o chefe audaz e generoso de que fala Giuseppe Bottai em suas esplêndidas memórias, que seria corrompido pelo poder e pela bajulação a ponto de transformar-se em um louco tirano?
Se Benito Mussolini foi, sucessivamente, um arrivista de talento na juventude, um hábil político na maturidade, um tirano embriagado com a grandeza com o declinar dos anos, o certo é que exatamente no período central de sua turbulenta existência ofereceu uma notável demonstração não tanto do seu pensamento, jamais claro e consequente, quanto de suas capacidades táticas, muitas vezes extraordinárias. Uma vez aniquilados brutalmente partidos e sindicatos democráticos, uma vez enviados para a cadeia e para o exílio os antifascistas, uma vez também apaziguadas, em surdina, as críticas mal-humoradas dos membros mais intransigentes dos squadristi, dedica os anos entre 1929 e 1936 à consolidação de um sistema de governo que obscuramente, e talvez até inconscientemente, se propõe a transformar em regime, ou pelo menos em uma ditadura pessoal. A metamorfose mais surpreendente neste período diz respeito a ele próprio, o ex-socialista revolucionário e meio anarquista que põe no centro de sua criação política o Estado, e para nobilitá-lo chama o filósofo Giovanni Gentile, que o carrega de significados idealistas e éticos que devem ter feito sorrir internamente o aventureiro da Romagna, embora, naturalmente, o tenham lisonjeado mais que a oferta real de uma coroa de príncipe.
Quão hábil era Mussolini o demonstram, coerência e moralidade à parte, as escolhas dos colaboradores nos anos iniciais. É o prudentíssimo nacionalista Luigi Federzoni que vai cuidar, como ministro do Interior, da impiedosa normalização das estruturas estatais imediatamente depois do discurso de 3 de janeiro de 1925. É outro nacionalista, Alberto De Stefani, que vai encaminhar em sentido liberal a sistematização da política econômica e financeira que viria a ser desenvolvida pelo Conde Volpi. É também um outro nacionalista, o jurista Alfredo Rocco, que vai lançar a reforma dos códigos que, por mais repressiva e reacionária que seja, dificilmente seria mais bem articulada. Giovanni Gentile organiza a escola. A Domenico Barone, discretíssimo conselheiro de Estado, são confiadas com sucesso as complicadas e demoradas negociações com o Vaticano, que culminarão no golpe magistral da Concordata, assinada em 11 de fevereiro de 1929 pelo ex-ateu de Predappio [vilarejo natal de Mussolini] e pelo eminentíssimo Cardeal Gasparri. Chega até, paradoxalmente, a convidar um antifascista amigo e seguidor de Francesco Saverio Nitti, aquele Alberto Beneduce a cuja competência empresarial recorrerá em 1933 para criar o IRI — Instituto para a Reconstrução Industrial —, que coroa de algum modo o new deal corporativo oposto por Mussolini à gravíssima crise do sistema industrial e bancário provocada pela quebra de Wall Street. E quando é indispensável apelar a expoentes do movimento fascista (que em geral o Duce não honra com uma grande estima), mobilizam-se sagazmente as pouquíssimas personagens de certo nível cultural: por exemplo, Dino Grandi para a política exterior, Giuseppe Bottai para o projeto sobre o trabalho e as corporações, Ítalo Balbo para a criação de uma Aeronáutica que deve se tornar uma flor na lapela do regime.
Três colaboradores que futuramente se transformariam, todos eles, em inimigos do Fundador do Império.
Depois da proclamação do Império são necessários, todavia, cinco ou seis anos para dissipar um patrimônio de consenso e popularidade acumulado pelo Duce no período inicial do governo iniciado com o golpe de Estado de 3 de janeiro de 1925. O homem que havia entusiasmado os italianos na noite de 9 de maio de 1936 transformar-se-á primeiro em um estranho, depois em uma pessoa odiada pela maioria. Isto aconteceu, contudo, por uma série de razões que fazem lembrar em primeiro lugar uma outra, e ainda mais surpreendente, metamorfose do próprio Mussolini, delineada precisamente a partir do epílogo da vitoriosa Campanha da Etiópia, que ele vivenciou como uma epopeia sem pensar na modéstia intrínseca da empreitada, e convencendo-se, ao contrário, de tê-la resolvido graças a um talento militar que ninguém jamais lhe atribuiu.
Ou mais, influenciado ulteriormente pelo sucesso da intervenção na Guerra Civil Espanhola — cuja orientação estratégica foi na realidade prerrogativa quase exclusiva dos generais de Franco —, o ex-socialista se deixa possuir de uma pueril paixão pelos uniformes, que é inexplicável e até um pouco indecorosa para um homem político com seu passado e também com sua permanente sensibilidade ao social.
Em uma evocação bastante engraçada dos antecedentes familiares do Duce, Vittorio Emiliani contou que o avô de Benito, tendo servido em 1848 na Guarda Nacional, desde então vestia, sempre que possível, aquele uniforme, mesmo que só para ir jogar cartas no botequim do povoado. Sua inocente mania estava ligada a um momento revolucionário, enquanto que para seu célebre descendente, pelo menos a partir de 1936, o uniforme se transforma em um símbolo declaradamente bélico, a alegoria de um projeto totalitário que Mussolini começa a planejar vagamente, provavelmente também inspirado pelo modelo nazista.
Ao ser recebido no Palácio Veneza ao retornar da África Oriental, um de seus colaboradores mais inteligentes, Giuseppe Bottai, intui imediatamente a transformação acontecida na psicologia do Duce. O primeiro encontro, registra ele em seu diário, foi "um golpe tremendo": "Para decidir-me a enfrentar esse risco tinha havido, entre outros, um motivo ligado a minhas relações humanas com ele, uma fidelidade ao homem, a mesma de 1918. Era sob o signo desta fidelidade que pensava retomar contato com ele. Lembro-me de ter atravessado a porta com meu corpo magro tremendo e ter-me encontrado, pálido, diante daquela mesa. À minha frente não estava o homem, mas uma estátua, uma dura estátua de pedra, da qual saiu uma voz fria com incisivas palavras: 'Estou satisfeito com você como soldado e como fascista.' Um reconhecimento supérfluo para um servidor veterano, um reconhecimento que afasta e faz sentir as distâncias." É a frieza de um deus. Mussolini extraiu da conquista de um Império de opereta a convicção de estar investido de uma missão histórica muito mais solene que a que até então assumira: não se trata mais de conduzir energicamente um país normal, mas de "forjar", no sulco da empreitada realizada, um novo italiano, um guerreiro digno da tradição de Roma, um cidadão permanentemente mobilizado para o serviço de uma pátria cada vez maior e, portanto, sempre uniformizada, como o avô do ditador.
Obviamente tal projeto pressupõe duas convicções: a existência, ou a criação, de um inimigo, e o endeusamento do condottiero que conduzirá os italianos contra aquele inimigo. O Duce realiza o primeiro objetivo partindo do boicote que as democracias ocidentais fizeram contra a empreitada italiana na África Oriental. Durante meses, entre 1935 e 1936, bate seguidamente nesta tecla, alimentando com toda a habilidade propagandística de que é capaz um clima de rancor e de ódio em relação aos franceses, e principalmente aos ingleses, culpados de tentar "sufocar-nos em nosso mar" com as sanções impostas pela Sociedade das Nações em defesa do Negus. Na realidade, o alcance das medidas de embargo é tão modesto que exclui o bloqueio das importações de petróleo, que teria sido fatal para a Itália. Os governos das democracias ocidentais, sobretudo quando contavam com uma maioria conservadora, sempre tiveram para com Mussolini uma atitude conciliadora ou até de deferência: em outubro de 1943, Michel Foot, jornalista da esquerda trabalhista, teria publicado com o pseudônimo de Cassius, o justiceiro de César, um panfleto no qual finge estar movendo um processo contra o Duce, não tanto para denunciar seus delitos quanto para acusar os expoentes do stablishment inglês de terem mantido com ele relações cordiais e de se terem desmanchado em desmedidos elogios a ele. Elogios cuja lista é bem longa, indo de Sir Austen Chamberlain, ministro das Relações Exteriores entre 1924 e 1929, a Winston Churchill, que, em um discurso de 20 de janeiro de 1927, dissera entre outras coisas: "Se eu fosse italiano, estou certo de que teria ficado a seu lado de todo o meu coração, do início ao fim de sua triunfante luta contra os apetites bestiais e as paixões do leninismo."
Este motivo de simpatia por Mussolini, isto é, a hostilidade em comum ao comunismo, teria determinado também, na década de 1930 e virtualmente até à entrada italiana na guerra, a atitude indulgente dos ingleses e também dos franceses para com o ditador italiano, apesar da série de desafios lançados contra eles, da empreitada da Etiópia à intervenção na Espanha, da "conquista" da Albânia à aliança com Hitler. Isto não impediu o Duce de apresentar à opinião pública italiana as duas potências democráticas como implacáveis inimigas, a começar pela campanha conduzida com insistente violência por parte da imprensa e da rádio na época das "injustas sanções". Aquela polêmica experimentou um único momento feliz, o 18 de dezembro de 1935, dia em que se desenvolve em toda a Itália a cerimônia da oferta à pátria do ouro, da prata e dos metais ferrosos. Do rito, celebrado em Roma diante do Altar do Soldado Desconhecido, como se os gauleses ou os lansquenets* estivessem batendo às portas da Cidade Eterna, participaram também a Rainha Elena e Dona Rachele doando os seus anéis nupciais, enquanto o Duce se privava dos bustos em bronze colocados na Rocca delle Caminate e o Príncipe Humberto da condecoração da Annunziata.** Aquela iniciativa, à qual se associou até Benedetto Croce, representa talvez uma obra-prima de propaganda do grande comunicador.
*Lansquenet — Soldado mercenário germânico dos séculos 15 e
16. (N. T.)
**A mais alta condecoração da Monarquia, que dava aos por ela
distinguidos a prerrogativa de se tornarem parentes da família real. (N. T.)
Um compromisso de duração muito maior foi o que assumiu pessoalmente ou delegou aos bajuladores da imprensa e ao secretário do PNF o fiel Achille Starace: o da própria divinização, do culto a um Mussolini "que tem sempre razão", o mito do novo César que não é apenas um gênio político e um incomparável regente do Estado, mas também um invencível condottiero, exatamente como o Divino Júlio [César]. O camponês romagnolo que inventou o fascismo ensinando seus fundamentos a Adolf Hitler, na fantástica noite organizada para ele em 1937, em Berlim, concebe o plano de superar os alemães até no terreno que lhes é característico: o das artes marciais. Ao voltar para casa, lança um programa que parte da imposição do "passo romano" aos pobres soldados italianos (uma canhestra versão nacional do passo de ganso), e chega, na primavera do ano seguinte, a levar à votação no Parlamento uma lei que confere simultaneamente a ele e ao rei da Itália e imperador da Etiópia a mesma patente: a de primeiro marechal do Império.
Vittorio Emanuele recebera sem pestanejar o cancelamento do Estatuto Albertino* e a atribuição ao Grande Conselho do Fascismo da última palavra sobre a escolha do seu sucessor, mas desta vez se irrita. É Dona Rachele que conta o fato em primeira mão: "Foi um verdadeiro drama quando meu marido chegou ao Quirinal** para levar a lei, que deveria ser ratificada pelo rei.
34 Estatuto promulgado por Carlos Alberto, rei do Piemonte e da
Sardenha, em 1848. (N. T.)
35 Palácio do Quirinal — Residência de verão dos papas e,
depois, do rei (1870). (N. T.)
Encontrou-o particularmente irritado: 'Esta lei é um novo golpe mortal às minhas prerrogativas de soberano. Poderiam ter-lhe concedido qualquer outro título para dar-lhe provas de minha admiração, mas o fato de colocar-nos a uma mesma altura me põe em uma situação intolerável. Se não estivesse iminente uma crise internacional, eu teria preferido abdicar a sofrer semelhante afronta.' Meu marido não quis piorar as coisas, mas declarou a Ciano: 'Estou farto disso. Eu trabalho, e ele assina.”
E escusado dizer que não se trata apenas de suscetibilidade da parte da personagem despeitada e complexada que mais tarde Umberto Terracini definirá como "o calejado monarca": o que está realmente em jogo é o controle das Forças Armadas, que não escapará do rei nem mesmo nos dias mais humilhantes da derrota militar, tanto que lhe dá possibilidade de entregar a Badoglio o governo, assim que os conspiradores do Grande Conselho o livram do outro primeiro marechal do Império: Hitler não estava errado quando desconfiava da possibilidade de domínio conjunto do Duce e do pequeno Savoia. Mas em 1937, sem imaginar sequer a trágica conclusão que terá a sua aventura imperial, Mussolini ainda aposta resolutamente no aperfeiçoamento de uma sociedade totalitária, que deverá investir não só no controle das Forças Armadas, mas nos costumes, na ética, no pensamento de todo o povo italiano.
E para concretizá-la acredita que não necessita mais da colaboração de especialistas, como os nacionalistas dos Vintênio, de economistas a La Beneduce ou de cooperativistas convictos como Bottai e sim de bajuladores sem pudor e sem humor. Como Achille Starace.
Os italianos não se dariam conta de imediato do delírio militarista de Mussolini, cujos efeitos apocalípticos só se manifestariam alguns anos depois.
A gestão do partido e do regime de Achille Starace, contudo, golpeou-os desde o início como uma prova ostensiva e irremediável do absurdo do fascismo, de sua insuportável intrusão na esfera privada, da sua substancial vacuidade, embora cometessem durante muito tempo o erro de atribuir toda a responsabilidade ao secretário do Partido Nacional Fascista, excluindo disto o Duce, como se fosse possível a qualquer membro da hierarquia, mesmo que infinitamente mais inteligente e culto que o bersagliere de Galípoli, assumir ao longo de oito anos importantes iniciativas sem a autorização ou até sem a inspiração do chefe. Contudo, independentemente das extravagâncias cada vez mais grotescas de Starace, Mussolini já tinha feito nos primeiros anos do regime embaraçosas exibições de seu talento histriônico, deixando-se retratar por fotógrafos ou por operadores do Cinejornal LUCE tocando violino com ar inspirado, brincando com um leão, nadando majestosamente no mar de Riccione ou trilhando incansavelmente o trigo nas eiras dos paludes de Pontini, beneficiados com um abundante transplante de colonos vênetos. Pareciam inocentes caprichos de um ex-camponês vaidoso, mas representavam a prova geral de um novo tipo de ditador moderno, que se expressa principalmente por meio dos meios de comunicação de massa e cujo modelo será imitado, com variações, tanto por Stalin como por Hitler, por Perón ou por Mao Tsé-tung. É exemplar, neste sentido, a exploração em todo o decênio da propaganda da Marcha sobre Roma, comemorada em 1932 com a montagem de uma mostra sobre a revolução fascista; ou a exaltação da chamada Batalha do Trigo, desencadeada para reduzir a partida contábil de importação de grãos.
Tigellino dei Nerone, de Predappio, tal como ele ebersagliere e experiente cavaleiro, além de atleta em tempo integral, assume a secretaria do PNF em 7 de dezembro de 1931, depois de ter eliminado com intrigas, mentiras e outros golpes baixos os seus predecessores ou concorrentes. As razões da sua escolha por parte do Chefe estão todas na resposta que ele deu a Leandro Arpinati, quando o chefe bolonhês, subsecretário do Interior, perfidamente caluniado pelo dirigente de Galípoli, gritou: "Mas ele é um cretino!" Imperturbável, o Homem da Providência Divina respondeu: "Sim, mas é um cretino obediente." Exatamente por isso entrega-lhe o partido, ao qual jamais confiara um papel político, nem a realização do seu programa de alienação total do povo italiano. E para demonstrar até que ponto são conformes a sua índole ambos os objetivos que esse programa se propõe, bastaria lembrar um episódio citado por Antonio Spinosa: "Em uma manhã, Mussolini, tendo a seu lado Starace, ao olhar a praça de uma janela da Praça Veneza exclamou: 'Está vendo como os italianos caminham mal? Parecem todos mancos. Temos de ensiná-los a caminhar direito.' E piscou o olho para o outro, satisfeito, percebendo que a frase tinha um duplo sentido."
Enquanto esse Duce ortopedista leva o país a enfrentar, sem a menor preparação militar e industrial, a mais mortífera conflagração de todos os tempos, seu colaborador, no comando do partido, tenta transformá-lo em uma nação em estado de mobilização permanente. Starace é um orador zeloso e atuante, que não dá tréguas nem a si nem a seus infelizes compatriotas. Para os mais jovens inventa o Campo Dux, as competições esportivas, as aulas obrigatórias de educação física nas escolas sistematicamente privadas de ginásios desportivos, o sábado fascista dedicado às reuniões dos balilla* e aos exercícios "pré-militares" dos vanguardistas e dos jovens fascistas com velhos e aposentados fuzis "modelo 91". Pior ainda acontece com os adultos, que são obrigados a adequar-se ao "estilo fascista" em todas as fases da vida pública e privada. Atenção, porém: o intérprete é Starace, mas o autor é Mussolini. Os diktat [imposições] sobre os costumes representam o aspecto exterior, o mais frívolo, mas também o mais tangível da vivência cotidiana da ditadura; sem esquecer que o uso do PNF como organização destinada a perseguir o consenso terminará por reduzi-lo "a uma caixa vazia", um corpo inerte do qual no dia seguinte ao 25 de julho não partirá qualquer reação que não seja de resignado terror.
*Nesta organização paramilitar da criança e do jovem, a
hierarquia progredia do figlio delia lupa para o balilla, o balilla-moschettiere, o avanguardista e o giovanni fascista. (N. T.)
A cruzada antiburguesa, inspirada no Duce por um passado socialista que ele não consegue apagar, articula-se com uma série de obrigações e de proibições que acompanharão os oito anos da secretaria de Starace: a saudação romana em vez do aperto de mão; o uso de "vós" e não de "senhor", "este maldito hispanismo da terceira pessoa"; a eliminação de qualquer termo estrangeiro, mesmo de uso generalizado, e sua substituição por cômicos neologismos; a solene entrega de prêmios às famílias mais numerosas ("número é potência") e a imposição de uma taxa sobre o celibato; a gradual extensão do uniforme até mesmo aos funcionários do Estado e a maníaca preocupação em modificar até os mínimos detalhes os casacos militares para igualá-los ao modelo nazista. A ordem é mudar os italianos e torná-los obedientes soldados por meio da linguagem, da prática esportiva e da instrução paramilitar, a exemplo do Chefe cuja vigorosa energia encarna o mito de uma eterna juventude, e cujo nome, por determinação do secretário do PNF, virá escrito sempre em negrito e todo em maiúsculas para que até graficamente seja inconfundível: DUCE.
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Blefe
O "estilo fascista" envolve, naturalmente, sobretudo os chefes, inclusive os ministros, cujas carreiras Starace transforma em um perigoso "percurso de guerra", semeando-o de provas acrobáticas como as longas marchas, as corridas bersaglierescas, o salto através de um círculo de fogo ou sobre uma barreira de baionetas. Aos secretários federais prescreve um comportamento austero, que consiste em abster-se de frequentar lugares de luxo, em só usar automóvel quando não for possível servir-se da moto ou da bicicleta, mas, sobretudo, em "caminhar em direção ao povo". Vigora para todos os italianos uma espécie de receituário perpétuo prevendo a guerra que inevitavelmente virá.
O relacionamento com Starace, a cumplicidade com suas ridículas invencionices, a indulgência para com sua grosseira malandragem representam uma das tantas contradições do ditador romagnolo. Na verdade, o homem que se fez nomear com patente de nível igual à do rei e que se crê um êmulo de César é o mesmo homem que em outras circunstâncias e em outros setores do seu governo não esqueceu as suas origens. Paralelamente ao processo de imbecilização nacional perseguido antes e durante a secretaria de Starace, toma "providências" baseadas de algum modo em uma certa sensibilidade para o social: as colônias marinhas e serranas para os filhos dos trabalhadores, as viagens "populares" que permitem aos italianos saírem com poucas liras dos estreitos limites de seu vilarejo natal, a Ópera Nacional depois do trabalho destinada a preencher o tempo livre dos operários e empregados; para tutelá-los, o sindicato fascista não raro vai ver perdoado seu pecado de origem, ou seja, o vergonhoso aniquilamento de todos os outros sindicatos, entrando tenazmente em choque com a Confederação dos Industriais e contra os prefetti, que, por ordem de Roma, estão sempre dispostos a apoiá-la.
Uma organização de vanguarda, que a República democrática infelizmente deixará apodrecer no segundo após-guerra, é a dos Littoriali do esporte, da cultura e da arte, que a partir de 1937 engajam os GUF (Grupos Universitários Fascistas) por meio de competições e concursos poéticos, literários, críticos, artísticos e sobretudo políticos. De início o Duce obviamente conta selecionar a partir daí a nova classe dirigente fascista, mas a ideia é tão involuntariamente democrática que produz efeito contrário ao esperado, no sentido de que os poucos jovens universitários que se aproximam da "fé" fascista a interpretam com a intransigência e a pureza típicas de sua idade, entrando, assim, em polêmica com o "emburguesamento" dos velhos caciques, ao passo que os estudantes mais críticos e desencantados vão se afastando cada vez mais do regime até se alinharem decididamente na barricada oposta, tomando contato primeiro com os partidos clandestinos, depois passando a fazer parte dos grupos guerrilheiros e, finalmente, dando origem no imediato após-guerra à maior parte da classe dirigente democrática.
Seria, todavia, injusto e errado atribuir excessiva responsabilidade ao pobre Starace, que, entre outras coisas, nos dias da Libertação de que falei demonstrará muita coragem diante das metralhadoras dos guerrilheiros, que o mandam para o outro mundo depois de tê-lo interceptado quando corria incrivelmente vestido com um macacão de operário através de uma Milão em revolta. A verdade é que, como anota Ciano em seu diário, ele "criou uma atmosfera de perseguição e aborreceu com mil pequenas coisas de caráter pessoal" os italianos que, "embora estejam dispostos a perdoar até quem lhes fez mal, não perdoam quem lhes causou chateações". Mas, nos anos que vão de 1936 a 1939 e além, a rejeição ao regime é provocada por erros e crimes bem mais graves, que estão registrados nos livros de história: da aliança com Hitler às leis raciais, da criminosa imprevidência na preparação da guerra à precipitação com a qual é decidida a intervenção na mesma em 10 de junho de 1940, na ilusão de que a derrota francesa induziria a Grã-Bretanha a um acordo de paz.
Em alguns casos poder-se-á falar em avaliações erradas por parte do Duce ou em escolhas determinadas pela cegueira dos conservadores ocidentais, mas a cumplicidade no genocídio dos judeus, apoiada em 1938 com as leis para a chamada "defesa da raça", não é atenuada, mas, pelo contrário, é agravada pela execução falha, irregular e frequentemente piedosa daquelas leis, nas quais o Duce é o primeiro a não crer, como demonstram não só as declarações explícitas dadas a Emil Ludwig seis anos antes, mas também, ou sobretudo, documentos que se seguiram ao lançamento da vergonhosa campanha racial. Em um estudo dedicado a Mussolini por Gaspare Giudice, foi publicada uma carta do Duce dirigida nesse mesmo ano à irmã Edvige e à sobrinha Rosetta, que revela a leviandade e a inanidade moral com que ele assumiu uma decisão tão grave: "Que na Itália se pratique o racismo e o antissemitismo é algo tão pouco importante do ponto de vista político quanto isento de peso em termos de uma substância real. A pureza da raça neste povo que já sofreu tantas invasões e que absorveu tanta gente dos quatro pontos cardeais e o perigo semita em uma nação como a nossa onde até a alta finança, mesmo que esteja nas mãos dos judeus, acaba se tornando algo católico (entre parênteses: eu sei que você e outras pessoas de sua família ajudam os judeus, e isto não me incomoda, e acho que assim podem constatar a absoluta fragilidade de nossas leis raciais), são, evidentemente, mentiras que se permite que certos relatores escrevam.
Porém, se as circunstâncias me tivessem levado a um eixo Roma-Moscou em vez do eixo Roma-Berlim, eu talvez tivesse preparado para os trabalhadores italianos (...) uma mentira equivalente à da ética stakanovista e da felicidade que ela traz."
Ainda e sempre o blefe.
A intervenção na guerra é o último blefe que o velho viciado em jogos de azar tenta no terrível pôquer da história moderna sem se dar conta de que os anglo-saxões irão infalivelmente "pagar para ver", dada a força que têm em imensos recursos materiais e morais os de cá e os de além-oceano. As vítimas civis e militares, as destruições de cidades e de instalações, os incríveis sofrimentos humanos que seu blefe trará para aquela Itália que ele afirmava querer tornar grande e temida constituem, na sua vida, um capítulo ainda mais funesto que os que ficaram marcados em sua época pela violência dos esquadrões e pela instauração de um regime policial mais obtuso que impiedoso. Contudo, todos esses crimes do fascismo juntos, a mais de meio século de distância, não parecem nem de longe comparáveis às atrocidades do nazismo e do comunismo, assim como a própria figura de Mussolini não parece poder ser igualada às figuras monstruosas de Hitler e de Stalin ou de seus discípulos. Pelo contrário, continua sendo surpreendente, e sob certos aspectos inexplicável, o declínio em que entrou em determinado momento o ditador italiano, a explosão de uma senilidade precoce que nem a úlcera nervosa da qual ele sempre sofreu, nem outras patologias, excluídas pela autópsia e por outras pesquisas póstumas, podem explicar.
Está com apenas 56 anos em 1939 quando parece imprevistamente arrastado pelos acontecimentos que até a guerra da Espanha controlara com vigor e muitas vezes até com certa prudência. Um primeiro sinal de desbaratamento tinha-se manifestado no ano anterior: depois de ter secundado o jogo de Hitler no encontro de Mônaco com ingleses e franceses, apresenta-se à opinião pública como o salvador da paz mundial, mas, ao mesmo tempo, se irrita com a acolhida triunfal que os italianos, aliviados e reconhecidos, lhe tributam ao longo de todo o percurso do trem presidencial. A partir daquele momento entra em uma vertiginosa sequência de oscilações febris. No triênio seguinte à empreitada na Etiópia, desejaria ser seduzido com concessões por parte das democracias ocidentais, mas, diante de sua desdenhosa inexistência, estreita cada vez mais com o Terceiro Reich os laços que acabarão por estrangulá-lo. Na véspera do grande incêndio, generais e membros da hierarquia informam-no detalhadamente a respeito das catastróficas carências das Forças Armadas, mas ele as minimiza ou, melhor, decide consigo mesmo ignorá-las. Depois da invasão alemã na Polônia, tenta durante quase um ano resistir à tentação de entrar na guerra ao lado de Hitler, a quem inveja e odeia, mas finalmente se precipita em socorro do vencedor, cometendo o erro mais descomunal de sua vida por medo de uma vingança final do Führer — chantagem que o Generalíssimo Franco recusará com irredutível firmeza no encontro de Hendaye.
Envolvido na imensa conflagração, Mussolini terá um comportamento ainda mais hesitante, desnorteado, doloroso. Desempenhará desde o início um papel secundário, apunhalando pelas costas uma França de joelhos, mendigando a participação dos aviões italianos nos bombardeios sobre a Inglaterra, criando desastres durante uma inspeção na frente greco-albanesa, desembainhando a "espada do Islã" na fronteira com o Egito, precisamente no momento em que a ofensiva ítalo-alemã aí está encalhando sem salvação, enviando para a Rússia dois corpos expedicionários em uniformes de verão e sapatos de sola de papelão. Seis dias antes do 25 de julho, ao encontrar Hitler em Feltre para ler-lhe a relação de pedidos de armas e abastecimentos que lhe fornecera o chefe do Estado-Maior, deixará o Führer falar três horas seguidas sem ter coragem de abrir a boca.
As derrotas militares, os primeiros desembarques aliados na Sicília, a derrubada do regime em meio a intrigas e traições o levam ao desalento: não há outro termo para definir o estado de torpor em que o surpreendem a conspiração do Grande Conselho, a prisão na Mansão Savoia, a deportação para Ponza e, a seguir, a transferência para Campo Imperatore, via Ilha da Madalena, o rapto pelos alemães.
Mais tarde ele se queixará da traição da hierarquia do partido e da ingratidão de Vittorio Emanuele, mas, na realidade, no momento mesmo nada fez para reagir, porque esperava que fosse atribuído à Monarquia o enorme peso da derrota. Dois documentos bastariam para comprovar seu colapso total: a carta que escreveu depois da prisão a Badoglio, seu sucessor, em que se põe à sua disposição, e as fotos tiradas pelas tropas especiais de Otto Skorzeny, que o mostram em trajes amarrotados e com as abas do chapéu abaixadas sobre os olhos: o príncipe da juventude reduzido a um pobre velho.
Nem a presidência do governo-fantoche de Salò lhe devolverá o poder e a garra: serão dezenove meses de humilhações que ele procura justificar com a esperança de limitar as consequências da cólera de Hitler, quando na realidade não consegue sequer atingir este objetivo; e, em troca, deverá figurar também como cúmplice na impiedosa sentença de Verona e, portanto, no fuzilamento do pai de seus netos.
O parêntese jornalístico a que me referi, incluindo a publicação da História de um Ano nas colunas do Corriere delia Sera, e talvez o seu último discurso, aquele fantasioso discurso feito em Milão, no Teatro Lírico, em fins de 1944, constituíram os únicos momentos de consolo que o ditador vencido pôde dar a si mesmo antes do trágico epílogo de Giulino di Mezzegra. Contudo, mesmo quando já corre ao encontro da morte, perde-se em um labirinto de contradições: jura que defenderá com suas legiões o Vale do Pó e começa a sondar discretamente até na sede do arcebispo as possibilidades de salvação; planeja render-se, mas exige fazê-lo só aos socialistas, de quem escarnecera e a quem aniquilara vinte anos atrás; recusa-se a fugir de avião para a Espanha, onde teria um refúgio seguro, mas quando se decide a fugir vai fazê-lo travestido de soldado alemão.
Sua própria morte é um elogio zombeteiro e cruel à contradição, pois o profeta da família italiana vai ser fuzilado ao lado de sua jovem amante, Claretta [Petacci] — uma das poucas protagonistas da aventura de Salò que suscita admiração, juntamente com Edda Ciano Mussolini, que se mostrou capaz de ameaçar fisicamente Hitler no desesperado intento de salvar Galeazzo [seu marido].
A horrível encenação do Largo Loreto, já ensanguentado por um massacre de guerrilheiros, encerra um drama que não poderia ser mais italiano, mais melodramático e mais desordenado. Mas não é uma tragédia de monstros ou de titãs, é uma malsucedida e convivial encenação do tipo Carro de Téspis,39 embora as vítimas, de um lado e do outro, mereçam respeito e piedade.
*Téspis — Quem primeiro apresentou uma tragédia nas grandes
dionisíacas urbanas, a suntuosa festa em homenagem ao deus Dionísio. (N. T.)
O século XX foi um século de grandes mudanças, de conflitos, de confrontos ideológicos, de violência e barbárie: duas guerras mundiais, revoluções, golpes de Estado, assassinatos políticos. Aos olhos de hoje, no entanto, parece ter sido principalmente o século dos grandes ditadores, homens de personalidade ambígua e muitas vezes cruel, oradores brilhantes, por vezes com grande capacidade de liderança, mestres na arte da propaganda e da mentira, impiedosos em relação aos inimigos e, não raro, em relação aos próprios amigos. Porém, muitas vezes, demasiadas vezes mesmo, estes violentos tiranos gozaram da cumplicidade tácita, do apoio ou até mesmo do afeto dos povos que dominaram. Como pode isto ter acontecido? É esta a questão que Antonio Ghirelli tenta responder com este livro, relendo a história do século findo e desenhando uma inquietante galeria de retratos desses ferozes "demônios do poder" — de Mussolini a Stalin, de Hitler a Franco, de Mao a Pinochet —, autores de algumas das páginas mais negras de toda a História recente.
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