Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social

Prefácio

 

Morrer é quase nada; o horrível é não

viver

Este título eu o tornei emprestado ao clássico romance de Victor Hugo, Os Miseráveis. As palavras saíram da boca de Jean Valjean, o criminoso-herói da trama, no seu leito de morte. Na verdade, trata-se de uma frase síntese para se referir ao sofrimento dos despossuídos de uma pujante Paris do século XIX, frente à crueldade dos donos do poder e da riqueza. Continuando a saga de Victor Hugo, Sarah nos brinda com Vidas ao Léu, uma das mais bem escritas etnografias sobre o tema da exclusão social. Este termo, gerado no campo semântico referente às questões sociais, freqüenta hoje o discurso político, ético e das pessoas comuns, geralmente para qualificar situações e condições de extrema pobreza, que a consciência e a sensibilidade humana rejeitam. E também empregado como denominação substantiva dos indicadores negativos de qualidade de vida. Nós mesmos, em Perfil Nacional dos Meninos e Meninas de Rua: os limites da exclusão social (Minayo et al., 1993), utilizamos a expressão para titular uma situação limite de expropriação, que no Brasil gerou o acirramento do fenômeno que então analisamos. O número espantoso de crianças e adolescentes nas ruas das grandes metrópoles do país teve seu auge de manifestação na primeira metade dos anos 90, chegando a constituir-se até como movimento social de expressão nacional (*sic!), em uma ironia completa com os direitos de proteção familiar que esse segmento bem merece e com o reconhecimento de direitos de cidadania consagrados pela Constituição de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Embora a questão social da pobreza e da miséria se perpetue no decorrer da história social da humanidade, a noção de exclusão social é relativamente nova. Portanto, sua transformação em conceito demanda um grande investimento teórico. Vários autores, através dos tempos, tratam da realidade de privação social. Para fixar só nos dois últimos séculos, podem ser exemplificados o estudo de Marx sobre o lumpemproletariado, como resultado das leis de acumulação capitalista (Marx, 1971); a obra de Franz Fanon sobre Os Deserdados da Terra (1961) que trata dos extremamente pauperizados no processo de avanço industrial; e o romance de Victor Hugo, Os Miseráveis, por meio do qual o autor analisou e retratou a sociedade de seu tempo em todos os níveis, desde as camadas mais altas até os párias que se moviam nos esgotos de Paris. Todos esses autores são de um realismo cruel e chocante quando refletem a triste realidade que se arrasta e aprofunda como uma chaga e é cada vez mais dolorosa na sociedade em que vivemos.

A título de exemplo, cito o Relatório do Banco Mundial de 1997, em que se constata que atualmente, 25% da população do mundo — significando 1 bilhão e meio de pessoas — vive com menos de 1 dólar por dia. No Brasil, o número dos miseráveis chega a 27,2 milhões de habitantes e na América Latina e Caribe são 91 milhões, correspondendo a 22% da população. O pior é que a expectativa para o futuro é de acirramento desse problema estrutural, pois o Banco faz a projeção de que, em 2015, o planeta tenha 2 bilhões de seres humanos vivendo em tal situação. Ou seja, dados o crescimento demográfico e a condução histórica do capitalismo, uma multidão sem precedentes de seres humanos passou a não fazer parte, antecipadamente, da partilha dos bens sociais e da riqueza gerada pelo desenvolvimento econômico, tecnológico e científico. A esse fenômeno, novo na sua magnitude, se denomina exclusão facial.

Exclusão social, portanto, é um termo novo, que torna corpo e sentido, ao mesmo tempo em que a globalização, cujo significado se constrói na aceleração da internacionalização do capital; é potencializada pelos avanços tecnológicos da informação, da comunicação e da informática. Nesse processo, mudaram-se as regras do jogo dos processos produtivos e das relações de produção. Trata-se, portanto, de um tema que lida com mudanças qualitativas, em relação aos assuntos semelhantes, tratados pelos autores já citados.

O trabalho de Sarah, desta forma, se configura como o estudo mais importante que se produziu sobre a exclusão no País até o momento. Primeiro, a autora pretende e consegue tecer uma reflexão teórica crítica sobre o problema. Ao abordá-lo, complexifica a argumentação, descrevendo e distinguindo o amplo campo semântico no interior do qual o termo se inclui. Em segundo lugar, elabora uma excelente etnografia, sensível e consistente, desvendando a lógica interna dos que vivem em tal condição, fazendo com que a teoria e a prática se articulem consistentemente. É importante assinalar essa integração entre marco conceitual e trabalho de campo, pois é muito freqüente, no meio acadêmico, a dissociação entre esses dois elementos fundamentais para a construção do conhecimento. Sarah trabalha a diacronia e a sincronia do fenômeno, nos âmbitos da família, da rua e do trabalho/labor, ouvindo as histórias de vida de seus entrevistados.

Trata-se, portanto, de um produto científico bem elaborado, sério e consistente, que amplia as fronteiras do conhecimento da lógica interna de Vida e de sobrevivência de um segmento significativo da realidade nacional. São 17% da população brasileira que se encontram na condição formal de excluídos. Passamos a usufruir de um relato literário que envolve o leitor na delicadeza da linguagem e na propriedade com que cada questão é tratada. É como se Sarah rendesse um preito, uma homenagem, um reconhecimento a seus quase desconhecidos informantes, proporcionando-lhes um lugar nobre e de distinção, nas páginas do trabalho. Aí, pelo menos aí, sua palavra vale, seus sentimentos existem e sua existência faz sentido.

No livro A Miséria do Mundo, organizado por Bourdieu (1998), o autor e sua equipe também tentam colocar, com as próprias palavras dos informantes, a crueldade de sua Vida, em um mundo de contrastes entre a ostentação, a riqueza e a sobrevivência que conquistam dia por dia. A construção literária de Bourdieu, porém, conserva a clássica dicotomia que distingue o discurso do senso comum e a interpretação erudita. Sarah, ao contrário, vai tecendo, pouco a pouco, um bordado cujo fio condutor sai de sua mente, mas o desenho e as cores são dados pelos sujeitos da pesquisa. Vai mostrando como os laços habituais com a família e a sociedade Vão se rompendo paulatinamente. E como a redução do consumo, o alheamento político, o isolamento social, a redução da vida à sua dimensão do hoje, do aqui e do agora, transformam as pessoas ao seu quase estado de ‘pura humanidade’. Aí as mediações institucionais públicas e privadas são subvertidas e reconstruídas. O estudo expressa, também, a exacerbação do medo e das idéias de exclusão moral por parte dos que têm um lar e sua vida organizada convencionalmente, sentimentos que se alimentam das situações de extrema anomicidade. Desta forma, considero que os cientistas sociais que valorizamos as abordagens empíricas ganhamos um presente, uma referência que não poderá ser ignorada, ainda quando não concordarmos com as interpretações elaboradas pela autora.

Porém, Vidas ao Léu não é um elogio à estética da pobreza e da miséria. Seu desenrolar leva o leitor a se integrar na trama de uma realidade em que percebe seu destino Vinculado à humanidade dos excluídos. Portanto, a estética que a autora apresenta é a da necessidade de transformação social. É a de um movimento que se processa concomitantemente no andar de cima e no de baixo do edifício social, pois todos somos cúmplices e complementares, mesmo que antagônicos. Como este livro deverá ser lido principalmente pelos que não fazem parte do exército dos excluídos e sobretudo pelos que, de alguma forma, podem se integrar nos processos de mudanças, é a esses que dedico este prefácio. Que a contribuição de Sarah e da Editora FIOCRUZ consiga nos mobilizar contra a maldição do conformismo e da indiferença para construirmos saídas históricas de inclusão. Essa resposta militante nos levará a desmentir a profecia anunciada pelo Banco Mundial, que, em última instância, é o reconhecimento de, que cada vez mais, muitos deverão estar privados das conquis tas de bens e riquezas produzidas socialmente, para que muito poucos reafirmem a terrível lei da seleção social.

Maria Cecília de Souza Minayo

Vice-presidente de Ambiente, Informação e Comunicação da

Fundação Oswaldo Cruz Referências Bibliográficas

BOURDIEU, P. 1998. A Miséria do Mundo. Petrópolis: Editora Vozes.

FANON, F. 1961. The Wretched of the Earth. New York: Grove Press Editions.

HUGO,V. 1970. Os Miseráveis. Rio de Janeiro: Coleção Ediouro, Editora Tecnoprint.

MARX, K. 1971. O Capital Crítica da Economia Política. Livro 1º, vol. II, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.