Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social

Apresentação

 

À flor da pele

Ando tão à flor da pele

que meu desejo se confunde com a vontade de não ser

Ando tão à flor da pele

que a minha pele tem o fogo do juízo final

um barco sem parto

sem rumo, sem porto

cavalo sem sela

um bicho solto

um cão sem dono

um menino, um bandido

Ás vezes me preservo

Noutras suicido

(Zeca Baleiro)

Este livro é uma versão modificada de minha tese de doutorado Vidas ao Léu: uma etnografia da exclusão social, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia, na área Estado e Sociedade, da Universidade de Brasília, em 16 de novembro de 1998.

A temática da pobreza está cada vez mais na ordem do dia. As mesmas agências internacionais que impuseram o ajuste das contas públicas realizado às custas dos gastos sociais declaram que a miséria atingiu proporções assustadoras e que é preciso ouvir o grito dos pobres, termos até recentemente restritos à Teologia da Libertação. Lideranças políticas conservadoras que estiveram no poder, ocupando cargos públicos nos governos militares — período em que as condições de pobreza estacionaram e até diminuíram mas as desigualdades sociais agravaram-se acentuadamente — agora ocupam as manchetes dos jornais a denunciar que a situação de miséria do povo brasileiro chegou ao limite. No Congresso Nacional foi constituída uma comissão mista para estudar propostas de combate à pobreza.

Quando fome, miséria e pobreza são temas da agenda pública e recebem atenção de vários segmentos governamentais, empresariais e partidários é preciso dar o crédito ao movimento da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, articulado pelo sociólogo Herbert de Sousa (Betinho) e pelo bispo de Duque de Caxias (RJ), D. Mauro Morelli, pela denúncia da situação dramática de miséria expressa na fome e por catalisar um sentimento de indignação e incitar a solidariedade.

Entrei para o doutorado decidida a estudar os processos de formulação e implementação da política de saúde e de reforma institucional no setor saúde ocorridos no período de transição democrática. Foi estudando a democracia e a consolidação democrática que o tema da pobreza e das desigualdades sociais posicionou-se como eixo central das minhas preocupações, no mesmo ano em que foi denunciado que a fome acometia 32 milhões de brasileiros. Na reflexão teórica sobre a exclusão social, Hannah Arendt, em Origem do Totalitarismo, orientou minhas análises. Em seu trabalho magistral, esteio de toda a sua obra que dificilmente passaria pelos crivos acadêmicos de concisão — a autora percorre os “três pilares do inferno” (anti-semitismo, imperialismo e racismo) que vieram a consolidar um regime totalitário, em um processo multifacetado que atingiu, nos campos de concentração, os limites impensáveis de “tornar permanente o processo de morrer”. A filósofa política declarava: “pensei que lidava com uma estrutura cristalizada que eu tinha que quebrar em seus elementos constituintes para poder destruí-la”.

Foi pensando na exclusão social como uma estrutura cristalizada que poderia reproduzir essa condição de “tornar permanente o processo de morrer” em regimes não totalitários que decidi estudar o fenômeno na realidade social brasileira contemporânea caracterizada pela convivência entre um regime político democrático e graus acentuados de desigualdades sociais. O objeto de estudo se insere no campo da pobreza urbana e a abordagem procurou articular os condicionantes macroestruturais que desenharam o cenário social e econômico brasileiro (especificando, sempre que possível, o Rio de Janeiro) dos anos 80 até início dos 90, com as condições concretas de existir e sobreviver nas ruas da cidade.

O estudo partiu “em busca de uma categoria”, ou seja, começando por rever os termos, noções e conceitos — particularmente marginalidade e underlass — utilizados para analisar a pobreza urbana, tanto em sua situação objetiva quanto em sua representação social, em diferentes períodos históricos e contextos sociais. O surgimento do termo e a configuração do conceito de exclusão social na literatura francesa exigiram a discussão sobre a pertinência, o valor e 3 potência analítica da categoria para analisar a pobreza urbana na sociedade brasileira contemporânea. Tendo como principais referências os trabalhos de Hannah Arendt e de Robert Castel, construiu-se uma abordagem do fenômeno da exclusão social como integrada por processos de vulnerabilidade, fragilização, precariedade e ruptura dos vínculos sociais em cinco dimensões: econômico-ocupacional, sóciofamiliar, da cidadania, das representações sociais e da vida humana (Exclusão Social: em busca de uma categoria).

A segunda parte da pesquisa objetivou conhecer os elementos que configuram a materialização de processos de exclusão social nas condições cotidianas de vida de um grupo social considerado, por si só, uma manifestação da existência de pessoa excluídas — os moradores de rua. As estratégias que utilizei para me aproximar do campo de pesquisa, definir o território, recortar o objeto, realizar a própria investigação (observações, contatos e obtenção de depoimentos) e a análise do material obtido na reconstituição do campo de estudo são apresentadas em Abordagem Metodologia.

A análise das informações obtidas foi agrupada segundo os elementos estruturantes das trajetórias anteriores de Vida dos moradores de rua e os elementos que configuram o seu cotidiano de exclusão: família, trabalha, rua e movimento.

Partindo dos motivos alegados para a moradia nas ruas — “problemas familiares” e “desemprego” — buscou—se caracterizar o significado destas expressões, assim como as condições prévias à moradia nas ruas. Nos três capítulos sobre as dimensões da exclusão social, as informações obtidas na pesquisa empírica foram “situadas” no seu significado numérico e no espaço teórico circunscrito pela análise da temática.

O objetivo não foi atingir a causa do processo, mas ir “tirando os véus” que recobrem a complexidade tanto do fenômeno da exclusão social quanto das condições de vida dos moradores de rua. Assim, cada elemento estruturante das trajetórias e das condições de vida dos moradores de rua exigiu um percurso teórico próprio, apresentado em conjunto com algumas informações disponíveis sobre população de rua em capitais brasileiras.

A diversidade de conflitos e desencontros familiares encontrados indicou situações de vulnerabilidades mais abrangentes que atingiam as famílias das classes trabalhadoras pobres abrigadas. O quadro geral de vulnerabilidades e sua incidência diferencial nos integrantes da família de acordo com os papéis na estrutura e as fases do ciclo familiar e, ainda, segundo as reações familiares e individuais às vulnerabilidades, forneceu o pano de fundo tanto do perfil da população de rua quanto dos estereótipos sociais que culpabilizam as famílias pobres pelo destino dos filhos.

A população de rua se distingue entre uma minoria de grupos familiares que está na rua e, a maioria de “homens sós” que andam em grupo, em duplas ou sozinhos, para os quais a família está “à distância” e é apenas uma referência. Contextualizei as trajetórias de desvinculação sociofamiliar na sociedade brasileira, refletindo sobre o papel que a família desempenha como estrutura de apoio material, solidariedades e referências morais. Na rua ocorrem movimentos de reconstrução de vínculos de tipo familiar por meio dos agrupamentos condicionados pelo espaço urbano que ocupam. Analisei, também, a composição e o tecido relacional interno destes grupos (Dimensão Sociofamiliar — morador de rua: um homem sem família, um homem só).

As trajetórias de desvinculação na esfera do trabalho são apresentadas levando-se em conta o panorama nacional e regional do mercado de trabalho. Os ofícios realizados antes da vida nas

Janeiro, de pessoas desvinculadas no sentido material e afetivo e marginalizados no sentido simbólico.

A história contada em alguns momentos no filme La Haine (O Ódio) — a do sujeito que cai e, para se acalmar, repete que o importante não é a queda, é & aterrissagem — expressa de modo sensível que no percurso até a morte há possibilidades de intervenção, de anteparos individuais e sociais que evitem, interrompam ou amorteçam a queda. Os moradores de rua expressam uma situação de aterrissagem, uma condensação de trajetórias (processos) de exclusão, a cristalização em uma condição (estado) extrema mais permanente. Seus depoimentos mostraram as trajetórias de desvinculação e precarização das condições de vida nas quais não encontraram suporte nem no âmbito privado nem de parte das agências públicas. Os que estavam nas ruas falavam dos pobres abrigados, de famílias de trabalhadores urbanos pobres, grupo social que pagou o preço de todos os projetos governamentais — esperando a repartição do bolo de crescimento econômico na ditadura, penalizado com a inflação galopante da Nova República, pagando o preço das políticas de ajuste e da má gestão das políticas sociais.

Não sei se acontece a todos, mas minha vida tem uma trilha sonora. Desde a adolescência, quando os LPs não vinham com o encarte contendo as letras das músicas, eu passava horas “tirando” as letras. Minhas lembranças e evocações de certos momentos, mais do que datadas, ficaram musicadas. Acho a música popular brasileira uma companheira sensível também quando penso nos problemas de nossa sociedade. Quando ouço certas músicas, sou presa de uma emoção causada tanto pela beleza da criação artística como pelo fato de ver expressas, de maneira tão plena e sintética, as minhas indignações. Não poderia ser diferente: esta tese ganhou trilha sonora.

Os trabalhos das disciplinas que antecederam o projeto de pesquisa já continham suas epígrafes, mas neste, em cada um dos itens, constava uma referência musical. Gente, de Caetano Veloso (“gente é para brilhar, não para morrer de fome”) em a epígrafe da apresentação. Chico Buarque com seu Brejo da Cruz exprimia a relevância do tema (“A novidade que tem no brejo da cruz é a criançada se alimentar de luz (…) mas há milhões desses seres que se disfarçam tão bem, que ninguém pergunta, de onde essa gente vem”). Coisa Mais Maior de Grande, também intitulada Parma, de Gonzaguinha, encabeçava o item relativo ao problema e sua abordagem — alguns pontos de partida (“Enquanto eu acreditar que a pessoa é a coisa mais maior de grande (…) Bonito é que gente é sempre assim, tão diferente de gente, assim como a voz que ecoa não é mais daquele que grita, e essa beleza na dessemelhança me aguça a cabeça, me agita”).

Na demarcação do campo, Caetano Veloso voltava com Fora da Ordem (“eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei das diversas harmonias possíveis sem juízo final. Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”). No item sobre metodologia, a epígrafe foi a frase de Hannah Arendt sobre a cristalização dos fenômenos sociais. Mas, nas estratégias de pesquisa, a MPB retornava com Comida, de Arnaldo Antunes (“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte; a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé (…) a gente não quer só comer, a gente quer comer e fazer amor”). Arnaldo Antunes ainda se fez presente, em companhia de Cazuza, na introdução da pesquisa de campo com Milagre/Misérias (“Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes; miséria é miséria em qualquer canto, a morte não causa mais espanto, o sol não causa mais espanto, miséria é miséria em qualquer canto (…) que tempo mais vagabundo esse agora que escolheram prá gente viver?”). E, na segunda página, apresentando o projeto como um todo a letra de Haiti, de Caetano Veloso, estava para lembrar que aqui “ninguém é cidadão”.

Ao longo da redação, fui incluindo outras músicas na trilha sonora: A Novidade, de Herbert Vianna, Bi Ribeiro, João Barone e Gilberto Gil (“Ó mundo tão desigual, tudo é tão desigual, de um lado este carnaval, de outro a fome total”), Volte para o seu Lar, também de Arnaldo Antunes (“aqui nesta casa ninguém quer a sua boa educação, nos dias que tem comida, comemos comida com a mão”), Noel Rosa, evocando o mendigo de antigamente em João Ninguém, Milton Nascimento e Chico Buarque em Levantados do Chão Ch a dpa M sit exMoi,MalMoi,MMM registrando o movimento pela reforma agrária, mais recentemente Gabriel Pensador e os Racionais MCS que minha filha sugeriu… Na correria para concluir a tese, somente esta apresentação e o capítulo da família (Beatles) receberam as epígrafes musicais.

A música escolhida para esta apresentação evoca o processo de elaboração da tese e a situação de vida de quem mora nas ruas da cidade. A tese foi toda realizada assim, à flor da pele. Por motivos particulares e pelo assunto escolhido, desde a defesa do projeto até o momento da perspectiva de um ponto final, fui prisioneira de uma Sensibilidade extrema, de uma angústia depressiva, de um sentimento de impotência que me paralisava e que, a cada passo, tinha de vencer, como se tentasse atravessar um oceano em ressaca que me levava, alquebrada, de volta à areia. Quis desistir, parar, abandonar a pesquisa. Isso significou um esforço intelectual mas sobretudo um imenso desgaste emocional. Manter uma postura objetiva de pesquisadora sem perder a sensibilidade foi extremamente difícil. Em um movimento pendular entre a coragem e a covardia para encarar (e analisar) atravessei três longos anos. Percorri esse trajeto à flor da pele… E a situação que analisei pode ser considerada como uma fer

Escorel, Bia Braga, Eduardo Oliveira dos Santos e Vina Dias

Januário. As minhas 61h35 Lara, Nina e Luna, pela graça da

vida. A “grande família” que me dá um lugar no mundo. Aos

meus pais, Lauro e Sarah Escorel de Moraes, referências

primeiras, primordiais e permanentes de como viver neste

mundo.