Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social

Sarah Escorel · Capítulo 5 de 9 · parte 1/3

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Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social

3. A dimensão sociofamiliar: um homem sem família, um homem só

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

3 – A dimensão sociofamiliar:

um homem sem família, um

homem só

All the lanely people, where da they all come from?

All the lonely people, where do they all belong?

(Eleanor Rigby, Lennon & McCartney)

Quem são os que moram nas ruas da cidade? Levantamentos institucionais, pesquisas, notícias de jornais e a simples observação cotidiana permitem evidenciar que a população de rua está constituída, em sua maioria, por homens sós. A Vida solitária nas ruas indica a existência de algum distanciamento, ou até um rompimento com o grupo familiar. O afastamento da família, elemento fundamental de apoio material, de solidariedades e de referência no cotidiano, permite uma primeira e basilar configuração da população de rua: é um grupo social que apresenta vulnerabilidades nos vínculos familiares e comunitários (eixo sociofamiliar).

Em Porto Alegre, 30% da população de rua atribuíram sua situação aos problemas de relacionamento familiar. Nessa pesquisa os conflitos foram mencionados nas relações com praticamente todos os integrantes da família: pais, irmãos, padrasto, madrasta, companheiro(a). O segundo motivo mais alegado, pela mesma população, foi o alcoolismo ou o vício em drogas com 22,5% de referências. Quando perguntados sobre o motivo que os levou a beber, 25,2% indicaram “problemas com a família” e 7,5% por “influência da própria família”, ou seja, pai e/ou mãe alcoólatras (PUC/RS, 1995).

Os depoimentos nem sempre são claros em relação à(s) cama(s) dos antagonismos familiares, mas quando a família é enunciada como motivo para ter passado a residir nas ruas, em geral, encontram-se associados o alcoolismo e o consumo de drogas, a violência doméstica, conflitos de valores entre pais e filhos ou entre irmãos, e incapacidades físicas mas, sobretudo, doenças mentais.

O alcoolismo e o vício em drogas interferem na unidade familiar tanto pelos conflitos que provocam, sejam estes violentos ou não, quanto pelo desequilíbrio do orçamento doméstico que o consumo compulsivo tende a produzir. A desagregação (ou não) daí oriunda depende dos limites de tolerância afetiva e de vulnerabilidade econômica que a unidade familiar pode suportar. No caso de famílias situadas no limiar entre a pobreza e a miséria, o vício do provedor principal pode significar a desintegração da estrutura familiar. O depoimento de Raimundo, 26 anos, vigia de obra, sintetiza: “Nem farra, nem forró. O pai de família, ele num pode no final de semana se divertir com mulher, porque se ele for se divertir ele tem que largar a família dele, o dinheiro num sobra pra se divertir” (Sousa, 1994).

O pai de Luiz Augusto morreu atropelado quando ele tinha nove anos, ao atravessar embriagado a Via Dutra na frente do Ponto 13. O médico dissera que se ele não estivesse alcoolizado teria sobrevivido. Luiz Augusto também bebe e este é o motivo que o levou a sair da casa da irmã mais velha, sua maior referência afetiva. A primeira vez que saiu e ficou um ano sem aparecer, foi depois de uma bebedeira. Ela “ficou naquele fala, fala” e ele se foi com a roupa do corpo. Casou com Célia e durante quase um ano moraram juntos em Jacarepaguá, mas o relacionamento acabou por causa da bebida: “ela sofria na minha mão, coitada, não merecia, era boa pessoa”. Luiz Augusto acha ruim que os familiares falem tanto e o critiquem por beber em demasia: “cada um tem seus direitos”. Além do mais, ele alega que “não perturbava, chegava, nem comia, ia dormir”. A irmã diz que vai interná-lo: “ela pensa que

desse jeito vou recuperar”. 73

Henrique é pernambucano mas tem casa em Nilópolis. Conta que

foi expulso de casa devido ao alcoolismo74. Quando pergunto a Marcelo por que passou a morar na rua ele responde que foi devido à bebida, mas que agora está parando. Diz que foram as “más companhias”, que ficou “andando com esse pessoal que bebem”. Conta que não vai mais para a casa da mãe porque já criou muita confusão, arrancou mais de três interfones, derrubou televisão e quebrou um montão de coisas; fica irritado 75. O consumo de drogas também apareceu como motivo de distanciamento da família, ainda que em freqüência menor do que a do alcoolismo, possivelmente pela faixa etária mais adulta dos entrevistados.

A violência doméstica é referida como motivo para sair de casa principalmente por crianças, adolescentes e mulheres. Rodrigo, menino de 13 anos, me disse que foi morar na rua porque a mãe e a

avó batiam muito nele 76. Outro menino, também chamado Rodrigo, contou que fugiu de casa a primeira vez porque perdeu a chave da tia e ficou com medo de apanhar77. Solange, que morava com sua ‘família extensa’ sob as marquises dos pontos de ônibus na rua Nelson Mandela, em Botafogo, apresentava sinais de queimadura pelo corpo todo e tinha a mão direita inteiramente deformada. Ela disse que foi o pai do seu filho Gilson, atualmente com vinte anos, que a queimam quando este ainda era pequeno 78. Vanda fugiu de casa porque a mãe batia muito nela. Tento saber mais, mas ela

apenas repete que apanhava e que era muito, muito mesmo. 79 Márcia, a quem encontrei junto com Vanda integrando um grupo que permanecia sob os coqueiros da praia de Copacabana, relatou-me que o pai batia muito na mãe. Perguntei se o pai bebia e ela me

disse que não, que “ele era ruim mesmo” 80.

No âmbito da violência doméstica destacam-se o abuso e a violência sexual contra as meninas. Nesse sentido registram-se,

além de pesquisas específicas sobre o assunto81, o depoimento de uma educadora que declara que a comprovação pode ser feita no Cetim, em que todas as meninas, sem exceção, saíram de casa por violência sexual (Silva & Milito, 1995).

Conflitos de valores entre pais e 61h05 emergem com a gravidez de filhas, homossexualismo dos filhos e, mesmo, antagonismos de ordem religiosa. Beatriz, que veio do Rio Grande do Sul, brigara com a mãe porque tinha ficado grávida aos 18 anos, mas o filho ficara lá, com a mãe. Aqui no Rio teve um outro filho, mas dera-o

para uma moça, em Copacabana, “de papel passado” 82. Márcia diz

que engravidou aos 13 anos e o pai a expulsou de casa83. O homossexualismo é referido como motivo de desentendimentos e diminuição de contatos familiares (Simões Jr., 1992; Silva & Milito, 1995). Cícero refutava que seu homossexualismo assumido tivesse sido o motivo que o levara a sair de casa em João Pessoa, mas relatava: “só tive problema nesse caso aí que você falou, só com uma pessoa, com meu padrasto, eu tive sérios problemas com ele,

ele achava isso aí horrível”. 84

Outras ordens de divergência envolvem conflitos de valores intergeracionais como ‘autonomia’ e ‘liberdade’. André, catador da rua Sorocaba, em Botafogo, me contou que o pai queria que ele trabalhasse gratuitamente na sua oficina. O pai dava roupa e o material para a escola, mas quando André pedia dinheiro para ir ao cinema ou para se divertir com os amigos, ele não dava. Este teria

sido o motivo que o levara a sair de casa85. Miguel, que é peruano, de Lima, conta que tem família no Brasil, em Piracicaba, interior de São Paulo. Um tio seu, peruano, casado com uma brasileira, mora lá e possui uma confecção de bolsas, mochilas e pochettes, que vende para o interior do estado. Miguel trabalhou com o rio mas não se dava bem com a tia brasileira. Segundo Miguel, a tia implicava

com ele86. Quando lhe perguntei sobre o motivo que o levara a morar na rua, ele não titubeou:

o meu caso foi minha família, porque eu nunca me entendi bem

com minha tia. Se fosse por meu tio tava numa boa até agora,

mas foi a mulher dele que começou a envenenar a cabeça dele,

aí tive que sair, ela fez um monte de fofoca, eu falei assim:

‘melhor antes que eu sair na porrada aqui, melhor agarrar,

pegar minhas coisas e sair fora’87.

Por vezes as desavenças ocorrem entre irmãos, entre aquele que contribui para os rendimentos familiares, participa na estratégia de sobrevivência familiar, e um(a) outro(a) irmão(ã) que não participa da mesma forma do circuito de trocas familiares. O conflito resulta da não aceitação da existência de uma diferença de papéis, ações, valores e personalidades entre os supostamente iguais. Renato, em Copacabana, menciona que os conflitos dele são com a irmã, que

“não gosta dele”88. O mesmo Rodrigo que fugiu de casa na primeira vez com medo de apanhar da tia conta brigas com a irmã de 16 anos porque ela queria que ele arrumasse a casa e ele não queria

por considerar que esse “é o serviço dela” 89. André, catador da rua Sorocaba, diz que não quer voltar para casa porque, além dos conflitos com o pai, se aborrece com os irmãos, que são mais novos

mas “ficam falando”90. Márcia me conta que teve dezoito irmãos (sic) mas que “deve ter morrido uns nove…”, Quando pergunto por

eles diz que um está preso e sobre este fala mais 91 No sábado seguinte, Márcia estava machucada e contou que brigara com a irmã; que a irmã dizia que iria matá-la, e quando Márcia tentou pular

o muro, este desabara por cima dela 92.

A desintegração familiar por morte é uma ‘fonte’ de população de rua desde a época medieval. As descrições e análises desse período nunca omitem a presença de órfãos e viúvas entre os pedintes isolados ou mesmo profissionalizados nos ‘pátios de milagres’ (ver Stoffels, 1977; Geremek, 1995; Castel, 1995). Quando os pais morrem, a dispersão dos irmãos pode ser uma estratégia de sobrevivência. No entanto, é importante destacar que a dispersão dos membros da família pode ser uma estratégia para enfrentar a vulnerabilidade econômica mesmo quando não há desestruturação do grupo familiar por morte ou separação. Mandar morar com parentes ou mandar viver na cidade, principalmente as meninas, que vão se empregar como domésticas, é um recurso bastante utilizado e uma ‘solução’ para as moças frente às vulnerabilidades primárias de qualquer ordem.

O pai de Rodrigo, o mesmo que fugiu de casa porque perdeu a chave da tia, morreu quando ele tinha sete anos. Ele não sabe explicar a causa, fala que “ele tomava umas cachaças mas não foi

por isso não” 93. André, catador da rua Sorocaba, em Botafogo, é o mais velho de doze irmãos, sendo que um deles morreu. Sua saída de casa foi devido a conflitos com o pai e os irmãos, mas André também menciona que na ocasião tinha acabado de morrer o avô,

que parece ter sido sua referência afetiva mais intensa94. Cícero relata que nem chegou a conhecer o pai: “isso daí é uma coisa que eu sentia muita carência, assim, paterna, tá entendendo? Quando ele morreu eu era muito novo…. eu acho que podia ter no máximo dois anos, eu não consigo nem, eu não tenho assim uma imagem

dele” 95. Márcia conta que a mãe morreu de pneumonia e o pai de derrame. Pergunto pelo pai do seu filho e ela me diz que ele também morreu baleado quando o menino tinha três meses, porque foi ‘confundido’; estava andando com determinadas pessoas e acharam que ele pertencia ao grupo. Márcia diz que sente falta da

mãe, que depois que a mãe morreu a Vida ficou muito difícil96. A mãe de Roni, o qual encontrei na praça Serzedelo Corrêa quando era companheiro de andanças de Luiz Augusto, morrera por mordida de rato e ele dizia: “rato e um bicho horrível, se não fosse

pelos ratos eu não estaria na rua” 97.

Luiz Augusto e Solange relatam histórias em que a morte dos pais não resultou em dispersão familiar. No caso de Luiz Augusto, a madrinha de seu irmão Ubirajara, moradora também de Belford Roxo, casada e sem filhos, assumiu a responsabilidade de criá-los. Atualmente, a irmã mais velha mora com o marido na casa que foi

deixada pela mãe de criação98.

A separação do cônjuge foi relatada tanto por homens quanto por mulheres como motivo para a moradia na rua. Dentre os depoimentos obtidos por Ana Lúcia Martins (1993), a história de Dona Maria, que, por ocasião de seu depoimento, era moradora de rua há doze anos, retrata esta situação de desintegração familiar e perda de moradia. O marido a expulsam de casa porque havia arrumado outra mulher. Ela apresentava marcas de queimaduras por todo o corpo, sinais da violência conjugal. Viveu como empregada doméstica até que uma nova gravidez impediu que continuasse no trabalho. Gilberto, 39 anos, natural da zona rural do Espírito Santo, considera que passou a residir na rua apenas quando se separou da mulher com quem vivia sob um viaduto em Pilares (Rangel, 1996).

Afora os filhos de tenra idade, a morte dos país pode levar à dispersão familiar de irmãos adolescentes ou adultos quando ocorre em grupos familiares com baixa margem de tolerância a ‘fluxos unilaterais de troca’ entre seus membros. Ou seja, famílias que encontram dificuldades de sustentar e acolher os membros que só estejam usufruindo, sem contribuir para o orçamento doméstico. As incapacidades e doenças físicas e, mais particularmente, as doenças mentais revelam claramente os limites de tolerância — afetiva e econômica — da família, a partir dos quais ela se esgota como recurso de apoio e solidariedade, como evidenciam as trajetórias de Hélio e Luiza (Rangel, 1996).

Mesmo sem a morte dos pais ou a dispersão familiar, a doença mental é um elemento que propicia comportamentos inusitados e, eventualmente conflitos familiares, por vezes de difícil assimilação. Ainda que pertencendo a uma família agregada e solidária, o doente mental pode querer afastar-se do seu convívio. Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS), 28% dos 3.358 moradores de rua entrevistados em outubro de 1991 tinham

“algum tipo de deficiência mental” 99, proporção bastante elevada, embora não tenham sido divulgadas as modalidades mais freqüentes de distúrbio mental nem tampouco como foi realizado o diagnóstico.

 

Vulnerabilidades familiares

Considerando que esse conjunto de situações de fragilização e ruptura dos vínculos familiares incide sobre pessoas oriundas, preponderantemente, das classes trabalhadoras pobres, a desvinculação na dimensão sociofamiliar tem uma relação estreita, ainda que não mecânica nem determinística, com as vulnerabilidades familiares de ordem econômica-ocupacional e de rendimentos. Os vínculos dos moradores de rua com o mundo do trabalho constituem o objeto de um capítulo, mas aqui objetiva-se ressaltar a fragilização dos laços familiares tendo a pobreza como pano de fundo, ou seja, destacar algumas relações entre a precariedade material, a pauperização dos núcleos familiares e a sua desintegração parcial ou completa.

A configuração da estrutura familiar do ‘trabalhador pobre’, ou seja, a distribuição de papéis que configura uma estratégia de convivência afetiva e sobrevivência econômica foi desenhada por Zaluar no modelo do chefe provedor. A pesquisa, realizada na Cidade de Deus, Rio de Janeiro, entre 1980 e 1982, revelou unidades familiares articuladas em torno da figura do ‘chefe provedor’, cuja identidade e auto-estima provêm de conseguir satisfazer as necessidades básicas de seu grupo familiar. A identidade do trabalhador pobre — identificado dessa forma porque os rendimentos não lhe possibilitam um consumo farto e variado — se constrói numa relação com a família mediada pelo trabalho, que não constitui em si o locus de identificação, mas fornece os meios através dos quais o homem pode prover sua família e assim

representar-se positivamente. (Zaluar, 1994a) 100. E, mesmo estando centrado na figura masculina, o modelo do chefe provedor envolve participações específicas da mulher e dos filhos na unidade familiar.

Porém, como observa Nair Bicalho de Sousa em sua pesquisa sobre trabalhadores da construção civil, o modelo de chefe provedor encontra enormes obstáculos para se afirmar. A família do trabalhador pobre pode atravessar a tênue fronteira entre pobreza e miséria em circunstâncias como aposentadoria, doença, desemprego ou abandono do lar pelo chefe provedor. Sustentar a família impõe ao provedor um ‘cabresto muito curto’, ou seja, exige que ele paute seu comportamento em uma vida regrada entre o trabalho e a família, de modo a não desequilibrar o orçamento doméstico com gastos supérfluos, especialmente o lazer e a bebida (Sousa, 1994).

Levar uma vida regrada é necessário, porém insuficiente, para que o chefe provedor consiga estabelecer e reter com o mundo do trabalho um vínculo caracterizado como precário, inseguro, instável, de seletividade crescente e baixos rendimentos. Esse ‘permanente curto-circuito’ produzido pelo mercado no vínculo que os trabalhadores chegam a estabelecer com o trabalho institui a insegurança como o elemento definidor de suas formas de vida (Telles, 1994b).

A estrutura familiar se apresenta assim como a grande retaguarda afetiva e material do trabalhador pobre nas suas relações com o mercado de trabalho, como o recurso fundamental para sua sobrevivência cotidiana. A família (a ‘casa’) é um âmbito, um domínio, um espaço onde ancorar-se, um lugar que pode chamar de seu, frente ao mundo do trabalho (a (rua,) que lhe oferece uma experiência de insegurança na qual a ameaça da miséria está sempre presente. A ‘experiência de liminaridade’, o fantasma da miséria a que se refere Telles — representada por ficar desempregado, passar fome ou ‘ir morar debaixo da ponte’ — está sempre presente no horizonte da maioria das famílias trabalhadoras: passar da pobreza, uma condição de Vida em que os rendimentos (e o consumo) são baixos, para a situação de miséria em que não há quase nenhum rendimento e o suprimento das necessidades básicas está parcial ou completamente inviabilizado.

A vulnerabilidade econômica da unidade familiar atinge diferenciadamente os seus componentes, segundo os papéis que desempenham na estrutura de convivência e sobrevivência. Os homens — chefes de família — que se encontram nas ruas relatam histórias de separações e morte da esposa, abandono ou expulsão do convívio familiar, nas quais estão presentes e associados a vulnerabilidade econômica e o alcoolismo.

Os chefes de família que não conseguem prover os seus dependentes experimentam um questionamento de sua autoridade familiar e legitimidade social, daí advindo uma auto-imagem negativa (Zaluar, 1994a). O dever social masculino de genitor e provedor impõe a busca da independência e autonomia em relação a sua família de origem. Em caso de fracasso, como indica Michel Agier, recebe um ‘veredicto implacável’: ele vive uma situação ‘anormal’, porque transitória, ou então é considerado ‘incapaz’. É uma produção simbólica da alteridade dos homens malsucedidos transcrevendo-os nos domínios da doença e da ‘margem’ (Agier, 1990). Para Agier o peso dessa simbologia explica, em boa parte, a instabilidade matrimonial dos homens com inserções econômicas precárias e a ‘deserção masculina’ da unidade familiar, que se revelam em comportamentos masculinos de desistência, pânico e fuga, direta ou indiretamente decorrentes de um revés social (Agier, 1990). Ao ‘desertar’ da família nuclear, pode estabelecer novos vínculos afetivos e familiares, nos quais abdica da autoridade — cuja contrapartida necessária é a de ser provedor principal ou maior submissão às vicissitudes do trabalho — desempenhando o papel de companheiro ou agregado (Neves, 1995a). A vulnerabilidade econômica pode promover também uma dispersão familiar na qual os vínculos afetivos e de referência são mantidos. Nessas trajetórias O chefe de família que está nas grandes cidades se separa da mulher e filhos, que são ‘mandados para a casa de parentes’, em cidades menores, enquanto persistir a situação de desemprego e falta de rendimentos. A mesma modalidade de vulnerabilidade pode reprimir a constituição de uma família nuclear, como declarou Luciano, operário da construção civil, a Sousa: “[muitos operários] num casa, porque têm medo, medo de num dar certo, medo da sobrevivência” (Sousa, 1994).

Os homens jovens e solteiros, antes de constituir uma família nuclear própria, experimentam maior frouxidão dos laços familiares. É um momento, que vai desde a adolescência até quando se tornam jovens adultos, em que separar-se de sua família de origem em busca de alternativas de Vida não caracteriza necessariamente um rompimento do vínculo familiar ou uma resposta a um campo afetivo conflitivo. É, antes de mais nada, uma “marca da criação de uma identidade adolescente” em que se recusam os espaços oficiais e rotinizados e se opõe aos mais velhos e ao sistema (Silva & Milito, 1995). Significa colocar em prática uma estratégia de sobrevivência própria: o ‘ir à luta’. O papel desempenhado na unidade familiar por homens jovens e solteiros, se não tem as imposições do chefe provedor, tampouco é isento de responsabilidades no circuito de trocas. Em famílias de trabalhadores pobres, é extremamente precoce o ingresso do menino na composição dos rendimentos familiares. Dessa forma, o homem jovem e solteiro pode se afastar ou ser expulso do convívio familiar por deficiências em sua participação nos rendimentos (fluxos unilaterais de trocas) assentadas em um terreno afetivo familiar conflitivo, como revela o relato de Roney (Rangel, 1996).

Se a Vida dos chefes de família se desenvolve entre a família e o trabalho, os trabalhadores solteiros, sem os compromissos domésticos, podem incorporar o lazer. Entre os trabalhadores da construção civil, os jovens operários se submetem às duras condições de trabalho, contando com a diversão certa no final da semana (Sousa, 1994). Nesse aspecto, a rotina diária de uma boa parte dos moradores de rua associa o trabalho e a diversão de maneira análoga à dos jovens trabalhadores da construção civil, embora numa temporalidade diferenciada: enquanto os operários da construção civil apresentam uma regularidade semanal, os moradores de rua obtêm rendimentos pela manhã para beber de noite com os amigos.

O perfil da população de rua é composto, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Porto Alegre, por homens em idade produtiva. É pois nas estratégias de sobrevivência, no cumprimento ou não dos papéis familiares atribuídos e nos conflitos afetivos ‘típicos’ dessa faixa etária que devem ser localizados os processos de desvinculação na dimensão sociofamiliar que propiciam o ir morar nas ruas.

No Rio de Janeiro, entre 1986 e 1991, a proporção de homens se manteve em 76% do total com preponderância da faixa etária de 26 a 40 anos (cerca de 43% no período) e concentração de 61,2%

entre 18 e 40 anos101. Entre 1986 e 1991 as pequenas alterações no perfil etário da população de rua foram no sentido de um discreto envelhecimento, com redução da participação do grupo de idade entre 18 e 20 anos e incremento das faixas acima de 40 anos (FLXIII, 1991).

Em 1991, o levantamento da SMDS do Rio de Janeiro indicou que 42,3% dos moradores de rua eram naturais do estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano, a Fundação Leão XIII divulgou que 53,1% eram fluminenses e 43,6% cariocas. Em relação ao tempo que estavam na cidade do Rio, qualquer que fosse sua naturalidade, as instituições divulgaram que 75,5% dos moradores de rua estavam aqui há mais de quatro anos (O Globo, 19/10/91) e 40,3% estavam há mais de cinco anos (FLXIII, 1991).

Os 244 moradores de rua assistidos e cadastrados pela Comunidade Evangélica de Jesus eram em sua imensa maioria (92,6%) homens, 50,4% deles entre 25 a 39 anos e 25,8% entre 40 e 60 anos. Embora os registros nas fichas misturem naturalidade e procedência, 43,9% (107 moradores) eram oriundos do próprio estado do Rio de Janeiro. Minas Gerais foi o segundo estado mais mencionado de procedência (11,5%). Em termos regionais, abaixo da região Sudeste (67,6%) estava a região Nordeste como origem de 25% dos moradores. A procedência segundo capital/interior, uma aproximação do componente urbano/rural das migrações ou deslocamentos, apontou uma predominância de origem do interior (35,2%), embora essa informação não estivesse disponível em um número grande de fichas (44,3%). Os moradores de rua naturais do estado do Rio de Janeiro provinham de maneira relativamente uniforme da capital, de outros municípios da região metropolitana ou do interior, respectivamente 17,7%, 15% e 15%. Novamente esta informação não estava disponível para mais de 50% dos moradores de rua fluminenses cadastrados na Comunidade Evangélica de Jesus.

Em São Paulo, em 1991 esses homens (65% tinham menos de 40 anos), eram brancos (50%), pardos (30%) e negros (20%) (Sebes, 1992). Em 1995, também na cidade de São Paulo, 67% eram solteiros, 89% não tinham namorada(o) e 53% tinham um ou mais filhos (Datafolha, 1995). Em Porto Alegre, 77% dos 222 moradores de rua pesquisados eram homens, 68,9% tinham entre 22 e 45 anos e 53,6% eram brancos (PUC/RS, 1995).

Pesquisa da SDSAC/DF — Secretaria de Desenvolvimento Social e Ação Comunitária do Distrito Federal — sobre a população de rua em Brasília, em junho de 1995, identificou 54,6% de homens entre 657 moradores. Na tipologia de população de rua construída pela equipe de pesquisa, os homens jovens integrariam as categorias de “mendigos ocasionais” ou a de “migrantes recentes não-fixos (periódicos)” (Sdsac/DF, 1995). Pesquisa realizada, entre maio e junho de 1996, com 150 famílias de migrantes que viviam nas ruas do Distrito Federal e que tinham chegado na cidade após janeiro de 1995 (posse do governador), traçou um perfil composto principalmente por jovens casais com filhos (dois terços dos chefes de família ou seus cônjuges têm até 35 anos de idade) e com uma maioria formada por negros e pardos (72%) (Bursztyn & Araújo, 1997).

Essas diferenças entre os perfis das populações de rua de Brasília e das demais cidades, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, são apenas algumas dentre Várias diferenças que estabelecem uma especificidade em relação à população de rua brasiliense, uma configuração própria e apropriada ao espaço urbano peculiar que e Brasília. Nas demais cidades o homem sozinho em plena idade produtiva emerge como típico do grupo social ‘moradores de rua’.

A vulnerabilidade econômica atinge de maneira diferente as mulheres em suas famílias de origem. Com papéis definidos desde a infância — substituta da mãe que trabalha e obtenção de rendimentos complementares — o dever social feminino na família nuclear está inteiramente imbricado com o interior, o lar, a manutenção da casa e da moral, ao contrário do homem, que deve sair de casa para obter rendimentos. O recurso da mulher ao amparo familiar é culturalmente legitimado, enquanto essa experiência para o homem é prova de sua ‘incapacidade’. Ou seja, com muito menos freqüência o não conseguir-sustentar-se economicamente, nem aos seus filhos, implica para a mulher uma ausência de status, em perda de lugar ou de referência familiar, assim como tampouco lhe é conferida uma destituição simbólica tão implacável como a dos homens que, fracassando na construção de uma família, são marginalizados até a exclusão. Como aponta Agier, “as críticas feitas às mulheres são de ordem moral ou doméstica e não sociais ou econômicas como aquelas endereçadas aos homens” (Agier, 1990).

Os trabalhos de Ana Maria Quiroga Fausto Neto (apud Rangel, 1996) revelam o funcionamento da rede de parentesco como amparo da mulher em situações de vulnerabilidade econômica e afetiva. Em famílias operárias de Belo Horizonte, o lado materno interfere no cotidiano da família enquanto o lado paterno intervém de maneira prioritária num único caso: o do empréstimo de dinheiro.

No caso da ‘avenida’102 São Caetano, em Salvador, a proximidade espacial e uma intervenção permanente de uma rede de parentes garante a sobrevivência cotidiana das famílias chefiadas por mulheres que “não poderiam ter existência social considerando-se apenas a renda monetária adquirida no mercado de trabalho”, revelando uma “eficácia do espaço que se reproduz de uma geração para outra” (Agier, 1990).

A chefia familiar feminina, por morte ou separação do cônjuge, é uma situação de vida de extrema vulnerabilidade econômica, pois a mulher, na maioria das vezes, não consegue obter os mesmos rendimentos auferidos pela força de trabalho masculina. As famílias matrifocais constituem proporções significativas das famílias pobres e, particularmente, das indigentes, caracterizando o que vem sendo denominado ‘feminização da pobreza’. No entanto, se o grupo familiar matrifocal terá mais necessidade econômica, terá também mais possibilidade social de recorrer legitimamente a seu próprio grupo consangüíneo (Agier, 1990). Além da proteção da rede de parentesco a mulher pode enfrentar a vulnerabilidade econômica através do emprego doméstico, que, mesmo constituindo-se uma

das ocupações mais pauperizadas 103, ainda é responsável pela absorção de uma parcela considerável da força de trabalho feminina não qualificada.

É interessante destacar o apadrinhamento (o princípio das relações múltiplas) como estratégia feminina de sobrevivência que, junto com uma certa ‘naturalização’ da pobreza, ‘familiarização’ e personalização dos espaços sociais, constituem, segundo Agier, um saber-viver feminino da pobreza. O apadrinhamento, como se verá, é uma estratégia de sobrevivência adotada também por mulheres que estão vivendo nas ruas, com suas famílias ou em grupos com

seus filhos.104

Esse saber-viver feminino da pobreza envolve conseguir adaptar o consumo familiar aos baixos rendimentos (Zaluar, 1994a) e conseguir rendimentos complementares através de doações ou estabelecimento de vínculos com entidades assistenciais (Neves, 1983, 1996). Nas famílias,

a mãe tem importância crucial no estabelecimento e reforço das

redes de relações, na transmissão de valores morais do grupo,

e, acima de tudo, no controle do orçamento doméstico, que os

possibilita afastar-se da fronteira que separa a miséria da

pobreza. (Zaluar, 1994a)

Daí a autora concluir que se há uma dissolução nas famílias da classe trabalhadora pobre, essa decorreria do fato de a mãe ter que ausentar-se para trabalhar ou não estar presente, vulnerabilidade familiar que deixa ‘vazios’ de referências sociais e morais, fragilizando os laços da sociabilidade primária.

A intervenção da rede de parentesco, a legitimidade do recurso à família de origem, o maior acesso ao emprego doméstico, as referências simbólicas de identidade ligada à casa podem ajudar a entender o porquê de as mulheres constituírem uma minoria dentre a população de rua. A ‘tendência feminina’ frente à vulnerabilidade econômica e afetiva da unidade familiar seria a de assumir as responsabilidades de chefe provedor: “nesses casos quem segura a barra é a mulher, os homens saem fora e a mulher é que fica com

as responsabilidades”105. No entanto, morar na rua, sozinha ou com os filhos, tem sido uma solução para uma parcela de mulheres que imprimem ao perfil da população de rua um traço mais recente e ainda minoritário, mas que pode estar em crescimento.

Na cidade de São Paulo, as mulheres constituem menos de 10% da população que recorre aos serviços de abrigo ou das casas de convivência, são extremamente jovens e várias delas passaram pela Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). A proporção de mulheres é maior (33%) dentre os que procuram os albergues e, nesse caso, a maioria tem mais de 40 anos, filhos e não tem para onde ir (Sebes, 1992). Em Porto Alegre, as mulheres constituíam 23% dos 222 moradores de rua, acima de 14 anos, durante o segundo semestre de 1994 (PUC/RS, 1995) e, no Rio de Janeiro, a Fundação Leão XIII encontrou uma participação constante em torno de 24% de mulheres nos levantamentos realizados em 1986 e 1991 (FLXIII, 1991). Em Brasília, no levantamento da Sdsac/DF, a proporção de mulheres variou entre 40 e 55% do total da população de rua, o que caracteriza outra importante diferença da capital em relação ao perfil das demais cidades (Sdsac/DF, 1995).

No caso das crianças a vulnerabilidade econômica parece promover uma circunstância ‘de risco de rua’. Esta situação envolve a saída precoce de casa para ajudar a compor a renda familiar e uma diminuição de apoio e controle parental constantes, aumentando as possibilidades que a socialização primária da criança, filha de trabalhadores pobres, seja uma socialização compartilhada entre os valores do grupo familiar (família/escola) e os valores da rua — signifiquem estes os da criminalidade organizada com os quais convive no espaço de vizinhança ou os valores da rua ‘mais distante’.

Entre os adolescentes, o risco de rua estaria associando e confundindo a “marca de criação de uma identidade adolescente”, o movimento próprio de rebeldia/auto-afirmação juvenil, com a revolta contra as condições de miséria (Silva & Milito, 1995).

Considerando a manutenção ou não de uma referência familiar, as crianças que estão em ‘situação de rua’ são diferentes das que estão na rua — aquelas se encontram ali trabalhando, ganhando dinheiro ou mesmo passeando e se divertindo, mas têm um local de moradia e mantêm seus vínculos familiares; estas são as crianças da rua — as que Vivem nas ruas com suas famílias e as que já perderam as referências familiares e não têm para onde voltar (Minayo, 1993). Crianças que participam na composição do orçamento familiar acabam por manter uma relação frágil com a escola, e os que estão nas ruas trabalhando, naturalmente, não Ereqüentam a escola. No caso de Goiânia, eram considerados ‘menores de rua’ as crianças cujos vínculos familiares estavam afetados por conflitos sérios e que viviam na rua, evadidos da escola e/ ou afastados de suas famílias, encontrando-se em situação de marginalidade diante da escola e/ou da família (Zaluar, 1994b).

É importante sublinhar que nas tipologias de crianças e adolescentes que encontram-se em situação de rua, calcadas sobre o estar na rua versus o ser da rua, é o atributo espacial que define o personagem. “A partir do espaço, um grupo social é unificado arbitrariamente pela categoria rua”. Entretanto, “ao invés de uniformizar suas condições sociais pela situação de rua devemos buscar em suas histórias motivos semelhantes para a vinda para as ruas” (Alvim, 1995). Ou, como reitera Fúlvia Rosemberg, sobreviver na rua não é um atributo da pessoa; estar na rua é resultante de necessidades — no plano econômico, cultural e psíquico — de crianças/adolescentes e famílias pobres (Rosemberg, 1995).

Hélio Silva e Cláudia Milito observam como as famílias dos meninos são pouco conhecidas e que, “de concreto, temos a imagem mental de uma família estilhaçada, no duplo sentido de desestruturada, segundo os padrões classe média, e de conhecida, via fragmentos intermitentes que surgem esporadicamente nos relatos”. Esses pesquisadores identificaram na cidade do Rio de Janeiro quatro tipos básicos de menores na rua — crianças moradoras de favelas e bairros distantes que usam a rua para auferir vantagens; famílias que Vivem nas ruas; menores que passam o dia e a maioria das noites nas ruas e menores infratores, que Vivem de roubar (Silva & Milito, 1995).

Em São Paulo, pesquisa realizada pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), em 1993, evidenciou que há um número significativamente maior de crianças/adolescentes em situação de rua durante o dia do que durante a noite e, no caso, a rua é utilizada predominantemente para gerar renda/trabalhar. As diversas regiões da cidade paulista revelaram diversidades de perfis das crianças e adolescentes segundo as atividades predominantes realizadas, condicionadas pelas possibilidades que as ruas ofereciam para a sobrevivência (Rosemberg, 1995).

As crianças e adolescentes em situação de rua, em São Paulo e no Rio de Janeiro, são predominantemente homens, negros e púberes (Zaluar, 1994b; Rosemberg, 1995, Silva & Milito, 1995). Sem dados quantitativos, a observação dos pesquisadores indica a existência de crianças que nasceram nas calçadas no Rio de Janeiro, de ‘gangues’ de garotos que cresceram nas ruas (com famílias na periferia e no interior) em Porto Alegre, e a presença de pessoas de segunda ou terceira geração na rua em ambas cidades (Magni, 1994, 1995; Silva & Milito, 1995).

Em São Paulo foi observada a presença de crianças em 97 (29,5%) dos 329 pontos de pernoite: 8 pontos eram ocupados por grupos exclusivos dessa faixa etária, em 14 pontos pernoitavam grupos de homens e crianças, e em 75 pontos os grupos eram compostos por homens e/ou mulheres e crianças. Dentre a população que procurou os serviços assistenciais a faixa etária de 0 a 19 anos correspondia a 6 e 7% do total de pessoas que recorreram aos abrigos e a menos de 2% dos que procuraram os albergues (Sebes, 1992).

Os idosos das famílias trabalhadoras apresentam uma vulnerabilidade econômica que congrega e potencializa as dificuldades para obtenção de rendimentos no mercado de trabalho com um aumento de suas exigências de cuidados de saúde e de anteparos familiares e sociais. No entanto, podem participar no circuito de trocas familiares desempenhando papéis muito importantes de assistência aos netos e de coleta no “mercado (assistencial) de redistribuição de bens”, como denomina Delma Pessanha Neves as estratégias de complementação dos recursos familiares raros e descontínuos. Essas atividades são realizadas junto às instituições de assistência por mulheres velhas ou avós que, “em muitos casos, fazem-se acompanhar de crianças e as socializam para a participação nesse mercado” (Neves, 1996).

Os levantamentos realizados pela Fundação Leão XIII no Rio de Janeiro mostraram que a população de rua apresentou um discreto envelhecimento entre 1986 e 1991, com um pequeno aumento — de 33 para 35% da participação das faixas de idade entre 40 e 50 anos e acima de 50 anos, e diminuição da proporção de pessoas entre 18 e 20 anos. Em números absolutos, os moradores de rua com 50 anos ou mais representaram 102 entre os 600 entrevistados em 1986, e 175 entre 1016 entrevistados em 1991. A Fundação Leão XIII observa, em seu documento, que ao perder a capacidade laborativa o idoso transforma-se num peso morto para a economia familiar e, em muitos casos, pelo abandono e expulsão, engrossa a população moradora de rua e dependente das instituições assistenciais (FLXIII, 1991). Em São Paulo, o grupo da população de rua acima de 50 anos, mais uma vez predominantemente masculino, representou 12% dos usuários tanto de abrigos quanto de casas de convivência, e 21,4% dos usuários dos albergues (Sebes, 1992). Em Brasília, os chefes de família ou cônjuges dos migrantes recentes pesquisados, na faixa etária entre 46 e 55 anos representaram 8% e os acima de 56 anos, 4%, ou seja proporções menores de pessoas idosas que as verificadas nas demais cidades (Bursztyn & Araújo, 1997).

Durante as visitas do trabalho de campo pude observar a presença dos idosos na rua ainda que um dos meus primeiros registros tenha sido sobre a dificuldade de precisar a idade das pessoas. Sinais de envelhecimento precoce são característicos das duras condições de vida dos trabalhadores pobres, mesmo tratando-se de pessoas com teto. As Visitas posteriores registraram que os idosos geralmente são muito magros, não têm dentes e vestem muitas roupas, umas sobre as outras, cobrindo totalmente o corpo mesmo em dias de muito calor. Nos diversos trajetos de observação, idosos foram vistos dormindo nas ruas, mendigando, trabalhando como catadores de latas e de lixo, vendendo suas coletas diárias no depósito de ferro-velho, garimpando o lixo, simplesmente andando ou sentados nos bancos das praças.

A aparência distingue o idoso aposentado, que tem legitimidade de não fazer nada porque já cumpriu o seu dever, e o idoso morador de rua, sem a legitimidade social do aposentado, que parece estar ali porque não tem para onde ir. No entanto, a idade avançada ou a depauperação física são elementos que sensibilizam e legitimam o pedido de doações pois, sendo visíveis a ‘olho nu’ os obstáculos e as dificuldades que enfrentariam para conseguir trabalho e rendimentos tendem a aumentar a eficácia do pedido com a obtenção da ajuda solicitada.

Em duas situações particulares a problemática do idoso na rua despertou a reflexão. Em Botafogo, num domingo de manhã, presenciei a atitude de um homem conversando com uma senhora idosa, sem dentes e magra, que, sentada na calçada, com algumas sacolas a sua frente, tornava café com leite num copo plástico e comia pastel de carne, possivelmente dados por alguém do botequim. O relacionamento caracterizou-se, no meu entender, por arrogância e desrespeito do homem frente à velhice pobre; uma interação em que não havia nem respeito ‘oriental’ pela experiência e sabedoria, nem compaixão humana pela Visível penúria numa

fase extremamente delicada do ciclo vital 106. Considerando a mudança demográfica com o envelhecimento da população brasileira como um todo, e o grau de pobreza absoluta, principalmente urbana, o idoso na rua é um problema sério que mereceria maior atenção e estudo. Dez dias depois, minha reflexão dirigiu-se para os dilemas e propostas da assistência social pública ao idoso na rua quando, nos limites entre Botafogo e Flamengo, na rua Senador Vergueiro, vejo um homem idoso dormindo, deitado diretamente na calçada entre dois canteiros de plantas na frente do prédio. Diante do seu desamparo me pergunto como é possível que

essa situação seja preferível à ser removido para um abrigo107.

Além da incidência variável da vulnerabilidade econômica sobre os integrantes da unidade familiar segundo os papéis que nela desempenham, as pesquisas indicam fases do ciclo familiar e estruturas familiares mais vulneráveis à pobreza. O estudo coordenado por Juarez Brandão Lopes sobre o Brasil urbano, em 1989, apresentou uma média de 33,74% de domicílios pobres no conjunto das estruturas familiares. Em famílias chefiadas por mulheres jovens (menos de 34 anos) sem cônjuge, com filhos e outros, a proporção de domicílios pobres (neles compreendidos os indigentes) passava a ser 59%; nas famílias chefiadas por mulheres de 35 a 59 anos, sem cônjuge, com filhos e outros, a incidência de pobreza em 42%. A prevalência da pobreza ou o grau de vulnerabilidade à pobreza era maior que a média nacional também

em estruturas familiares plurifamiliares 108 (40%), em casais jovens (menos de 34 anos), com filhos e outros (38%) e em homens, mulheres ou casais idosos (60 anos ou mais) sós (36%) (Lopes, 1992).

O estudo realizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a partir de dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad) de 1987, por Figueiredo, Schiray e Lustosa (1990) indicou que 40% das famílias eram pobres, envolvendo, na ocasião, 44% do total dos habitantes, índices superiores às médias nacionais de 1989. As maiores vulnerabilidades à pobreza foram encontradas em famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge, com filhos (mais de 50%); em famílias chefiadas por mulheres sem conjugue, com filhos, mas acrescido de outros membros (45%) e nos casais com filhos (43%). Neste último tipo de estrutura familiar a vulnerabilidade à pobreza diminui para 34% quando a família conta com a presença de outros integrantes. Destas observações os autores concluíram: a presença de outros familiares interfere positivamente, diminuindo a vulnerabilidade à pobreza. O principal fator de risco na insuficiência de renda que caracteriza a pobreza é a ausência de um dos cônjuges, quando há filhos, e a presença de filhos pequenos por si parece aumentar a vulnerabilidade à pobreza para os casais. Os dados sobre a Região Metropolitana do Rio de Janeiro guardam relações próximas aos encontrados para o Brasil urbano, o que evidencia, nitidamente, um aumento de vulnerabilidade à pobreza em certas estruturas familiares.

Nas histórias dos trabalhadores da Cidade de Deus, Zaluar identificou que havia quase sempre um período no ciclo de vida familiar, a fase dos filhos pequenos, que exigia um esforço maior do provedor. Nesse momento o trabalhador vivia conflitos entre o ‘vício’ da bebida e suas obrigações familiares. A saída para esse dilema variava, mas a mulher tinha nela um papel deflagrador, pressionando o homem a ‘largar o vício’ e fazendo uso de diversas estratégias — levar o marido para a igreja dos ‘crentes’, idas ao terreiro para livrá-lo da sina, promessas a Nossa Senhora Aparecida (Zaluar, 1994a). Sousa descreve três fases do ciclo familiar operário segundo sua vulnerabilidade econômica: o casal com filhos pequenos, que corresponde ao período de maior dificuldade financeira do grupo, especialmente quando não pode contar com o auxílio de parentes e Vizinhos; um segundo momento, a ‘fase áurea’ da vida familiar, quando os filhos têm idade legal de trabalho e passam a contribuir para a soma de rendimentos, e uma terceira fase, quando os filhos se casam, os cônjuges ficam sós e a renda cai abruptamente. A velhice somada à doença configura assim, junto com o desemprego, o permanente temor que assola as família operárias (Sousa, 1994).

A pobreza afeta, majoritariamente, famílias nucleares ou extensas, estruturadas a partir de laços conjugais. Entretanto, as probabilidades de indigência e pobreza são maiores em determinados arranjos familiares, dentre os quais destaca-se a família matrifocal, composta por mulher e filhos pequenos. Na favela de Vila Dalva, situada na região do Butantã, zona sudeste da cidade de São Paulo, a estrutura familiar que vem se tornando freqüente é externa, agregando mais de uma geração, e matrifocal— a mulher só com os filhos e a avó, em que a figura do homem é intermitente (Sawaia, 1990).

Para Agier esse fenômeno é uma produção sustentada em princípios que acoplam um saber-viver feminino da pobreza (adaptação do consumo e as relações múltiplas) a uma deserção masculina da unidade familiar frente à contradição entre a pobreza e o peso da simbologia masculina de provedor (Agier, 1990). Observe-se que a preponderância e o grau de vulnerabilidade da família matricentrada revela a ‘feminização’ da pobreza abrigada, enquanto a pobreza desabrigada, a população de rua, é preponderantemente masculina.

Em 1989, as duas estruturas familiares chefiadas por mulheres (idades abaixo ou acima de 35 anos, com filhos e outros) significavam cerca de 14% dos domicílios pobres e por volta de 10% do total de domicílios no Brasil. A chefia feminina era encontrada em 30% dos domicílios indigentes, 23% dos domicílios pobres e em 19% dos domicílios não-pobres brasileiros. Estes diferenciais seriam maiores, não fosse o fato de muitas mulheres chefes de família estarem em domicílios plurifamiliares (Lopes, 1992). A presença de 19% de domicílios urbanos não-pobres chefiados por mulheres sem cônjuge e com filhos aponta para um rearranjo mais geral no padrão familiar da sociedade brasileira, no qual há uma associação negativa com a vulnerabilidade econômica.

Nas duas grandes regiões109 a maioria dos domicílios urbanos pobres estava constituída por famílias de casais jovens e de meia-idade com seus filhos. As diferenças regionais foram encontradas nos arranjos alternativos à família nuclear: na Grande Região Centro-Norte predominavam os domicílios plurifamiliares e de famílias idosas em que ainda permanecem filhos adultos, enquanto entre os pobres urbanos do Sudeste e Sul, a proporção era sensível mente maior de famílias de mulheres jovens sem cônjuge e com filhos menores (Lopes, 1992).

Em 1987, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, cerca de 418.000 famílias eram chefiadas por mulheres sem cônjuge e com

filhos, correspondendo a 13,5% do total de famílias110, agrupando ao redor de 1 milhão e 200 mil pessoas (11,5% da população total) e apresentando um tamanho médio de 2,9 pessoas. A estrutura familiar, do mesmo tipo, com a presença de outros — parentes ou não — agrupava 345 mil pessoas (3,2% da população total), com um tamanho médio de 4,2 membros. Em 1987, cerca de 1,5 milhão de pessoas pertencia a uma das 500 mil famílias matrifocais e mais da metade dessas unidades (56,4%) era pobre (Figueiredo, Schiray & Lustosa, 1990).

A família matrifocal tem um espaço moralmente negativo nas tipologias de população de rua e, geralmente, nos levantamentos institucionais, não é considerada como unidade familiar. No entanto, esse grupo dos mais vulneráveis à pobreza pode se deparar com a situação de desabrigo e passar a morar nas ruas organizado da mesma forma, como família monoparental. Nos estudos sobre família e pobreza a estrutura matrifocal tem estatuto de unidade familiar, mas nos estudos sobre população de rua, os grupos de mulheres com crianças adquirem um atributo de ‘unidade de rendimento e de exploração infantil’, em que o caráter familiar é question-!r!e t! quxâi é

A família de Solange, extensa e confusa em seus parentescos, pode ser considerada como um grupo matrilinear na rua. Mas as senhoras e seus filhos da rua São João Batista, em Botafogo, e Vanda e seus três filhos, na praia de Copacabana, foram verdadeiros núcleos familiares matrifocais com os quais entrei em

contato112. As senhoras e seus filhos apareciam quase sempre numa quarta-feira, nas esquinas das ruas São João Batista e Mena Barreto, em Botafogo, onde a calçada forma uma espécie de ‘largo’ e o grupo se instalava por alguns dias. Seus dias fixos de ‘instalação’ são conhecidos nas redondezas. As mulheres ficavam debaixo das poucas árvores existentes no local e as crianças pediam dinheiro nos dois sinais. O dono da banca de jornal da esquina e sua filha contavam como elas se vestiam, e aos filhos, com roupas para ‘exercer o ofício’, e relatavam também cenas de maus tratos em crianças que não teriam atingido a ‘féria’. Eles achavam que alguns eram realmente filhos e outros não, mas o que lhes chamava a atenção era que no dia de voltar para ‘casa’ eles iam sempre arrumados e limpos.

Vanda e seus três filhos pequenos — de dois, três e cinco anos — viviam na praia de Copacabana, sob os coqueiros, num grupo de 16 a 17 pessoas que reunia, na ocasião, um outro núcleo matrifocal — de Renata e seus cinco filhos —, além de Vários homens e duas mulheres sem filhos. Vanda parecia sobreviver da mendicância e pequenas vendas de seus filhos, principalmente do mais velho. A família de Vanda chamava a atenção por um padrão estético — tendiam a ser gordos, exceto a caçula, e todos eles tinham os cabelos oxigenados. Encontrei-a na praça Serzedelo Corrêa, na distribuição de comida, e ela me pediu roupas para da e os filhos. Em outro dia encontrei-a na esquina da Avenida Atlântica com a rua Santa Clara, e Vanda me disse que lá era ‘o serviço do filho’. Vanda expressava a rivalidade entre suas crianças e as de Renata na

competição pelos sinais para mendigar 113.

O exame das relações entre vulnerabilidade econômica e estrutura familiar evidencia uma situação complexa, em que interfere um conjunto de fatos e fatores, que não se prestam & análises mecânicas produtoras de estereótipos do tipo: a pobreza provoca a dispersão, & desagregação dos membros da família, encontrando-se aí a justificativa, a causa a partir da qual decorreria uma série de comportamentos desviantes. Ao contrário, a vulnerabilidade econômica pode ser acompanhada de um fortalecimento dos laços familiares, como revela a pesquisa realizada junto a famílias operárias em Santo Amaro (SP), em 1982 e 1986, por Hirata & Humphrey (1992).

As histórias dos moradores de rua evidenciaram uma vulnerabilidade habitacional prévia à sua condição de ter as ruas por moradia, incluindo favelas, casas abandonadas (mocós), hospedarias, internatos de menores, albergues, casas de ex-patrões e alojamentos de empresas (Martins, A. L., 1993). A precariedade do acolhimento, a falta de higiene e o padrão alimentar em certos alojamentos da construção civil (Sousa, 1994) guardam semelhanças com as condições de Vida nas ruas, indicando ser estreita a fronteira que separa a vulnerabilidade habitacional do peão de obra empregado e desempregado; em termos de precariedades do abrigo o ‘cair na rua’ não é um tombo de muito alto.

Calamidades públicas freqüentes na cidade do Rio de Janeiro, as enchentes e os deslizamentos produzem desabrigados em massa, alojados precária e temporariamente pela Prefeitura. Morar na rua temporariamente como meio de obter recursos para conseguir uma moradia mais permanente é uma estratégia utilizada por famílias desabrigadas.

Analisando a moradia em favelas de São Paulo, Bader Sawaia diz que o favelado é um segmento da classe trabalhadora que tem como característica comum o fato de morar em condições subumanas, exercendo a “arte de viver como gente em condições negadoras da humanidade” (Sawaia, 1990). A precariedade das condições de vida ‘abrigada’ em invasões é retratada pela Comunidade de Vila Tieta no Jacaré, Rio de Janeiro, onde 27 famílias sobreviviam em condições desumanas, sem qualquer tipo

de urbanização, em meio a ratos e baratas114. E, no entanto, essas precárias condições de abrigo podem ser as aspirações da pobreza desabrigada.

No Rio de Janeiro, levantamento realizado em 1992 pelo Instituto de Planejamento da Prefeitura do Rio de Janeiro (Iplan-Rio) com pessoas que moravam sob viadutos revelou que 80% haviam sido expulsos das favelas nos últimos cinco anos. Os representantes municipais localizaram nos anos de 1987-88 a emergência do fenômeno da moradia na rua, conseqüente à confluência de diferentes variáveis ao longo da década de 80: o crescimento desordenado das favelas, as crises econômicas de 1983 e 1988 e a especulação imobiliária teriam expulso das favelas famílias de trabalhadores que passaram a ocupar as ruas e espaços

públicos.115

Em 1993, a crônica carência habitacional da população brasileira pobre foi levantada pela Campanha da Fraternidade da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a qual teve o título Onde morar?, objetivando divulgar a falta de dez milhões de habitações no País e um aumento anual de 500.000 famílias na população sem teto. Na ocasião, a situação de precariedade habitacional da cidade do Rio de Janeiro foi estimada pelo Iplan-Rio da seguinte forma: 10.000 pessoas morando nas ruas, 600 favelas com cerca de 1,2 milhão de pessoas, mil loteamentos irregulares e

uma média de cinco invasões por mês. 116 Em maio de 1996, o mesmo Iplan-Rio divulgou que, enquanto a população total da cidade aumentara apenas 7% entre 1980 e 1991, o número de

pessoas que viviam em favelas crescera 34% 117.

No Rio de Janeiro, a crise econômica, a especulação imobiliária e a precariedade de condições de vida nas favelas foram acrescidas, nos últimos anos, por processos de violência protagonizados por traficantes de drogas e policiais, aumentando a vulnerabilidade habitacional e criando novas vulnerabilidades à violência das famílias trabalhadoras pobres. Em agosto de 1993, o presidente da Fundação Leão XIII declarou que as pessoas estavam saindo das favelas devido aos conflitos dos traficantes entre si e com a

Continuar: parte 2 de 3