A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 9 de 13

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A Ausência

Nove

 

Joan saiu quase correndo a fim de apanhar sol.

Começou a caminhar ligeiro, esforçando-se para não olhar aquele monte de latas vazias nem as galinhas.

Lá fora estava melhor. A radiante luz de um sol quente parecia inebriá-la.

Ela já sentia calor. Desaparecera o frio.

E esta era a única maneira de fugir daqueles pensamentos que lhe invadiam a mente.

Mas que pretenderia ela significar com a expressão: “...fugir daqueles pensamentos que lhe invadiam a mente?”

Teve a impressão de que o fantasma do vulto da Srta. Gilbey estava caminhando ao seu lado, dizendo-lhe com um impressionante tom de voz:

— Discipline seus pensamentos, Joan. Seja mais explícita ao fazer uso das palavras. Procure inteirar o seu espírito dizendo-lhe de que é que você está fugindo.

Mas Joan, no momento, não podia fazer a mínima idéia sobre a causa dessa sua fuga. Sentia uma espécie de medo, de um pavoroso ameaço. Melhor explicando, tinha a impressão de existir algo que permanecia constantemente ali aguardando o momento oportuno para manifestar-se e, em tais circunstâncias, não lhe ocorria fazer outra coisa para evitar esse ameaço senão fugir, girando continuamente em torno da casa de pernoite.

Realmente, Joan Scudamore — disse ela falando consigo mesma — você está se comportando de um modo muito estranho...

Mas nada adiantava dizer isso. Devia haver algo de errado com ela... algum mal... Não podia dizer que se tratava de agorafobia (está certa ou não esta palavra? Ela se afligia por não ter muita certeza sobre a sua exatidão) porque desta vez o que ela sentiu foi precisamente o impulso de fugir daquelas paredes que a confinavam a fim de introduzir-se na amplidão do espaço aberto banhado pela luz do sol. Ela se sentia melhor lá fora do que dentro de casa.

Fuja! Fique apanhando sol! Fuja desses pensamentos!

Ela permanecera muito tempo dentro de casa, sentada naquele quarto que bem podia ser comparado com uma cela de prisão ou um tétrico mausoléu.

A sepultura de Leslie Sherston, Rodney... Leslie... Rodney...

Fuja! Aproveite o sol!

Está frio dentro de casa.

Está frio e você se encontra só.

Começou a caminhar com passos largos.

— Fuja desse pavoroso mausoléu, livre-se dessa casa de pernoite! Ela é medonha... Até parece uma clausura...

Na verdade, a casa de pernoite é um ambiente onde facilmente se é levado a pensar em fantasmas.

Mas que pensamentos tolos! Esta casa de pernoite é de construção recente. Não faz mais de dois anos que foi edificada... E todo mundo sabe que não existem fantasmas nas casas novas.

Se realmente existem fantasmas nessa casa de pernoite, então é porque ela, Joan Scudamore, os trouxe consigo.

E que diabo de pensamentos desagradáveis!

Começou a acelerar os passos.

Seja lá como for — raciocinou ela —, ninguém está me acompanhando agora. Estou completamente só. Por aqui nem mesmo existe uma criatura viva com a qual eu possa me encontrar.

Não parece até aquela estória de... de quem mesmo? — De Speke e Livingstone? Um encontro nas selvas da África.

Dr. Livingstone, eu suponho.

Entretanto o caso com ela, agora, não era bem assim. Havia uma única pessoa que ela poderia encontrar naquele ermo: Joan Scudamore.

Que idéia ridícula!

Encontrar Joan Scudamore! Satisfação imensa em tê-la encontrado, Sra. Scudamore!

E, pensando bem... isso não deixava de ser uma idéia até certo ponto interessante...

Encontrar-se consigo mesma...

Oh, Santo Deus, como ela estava assustada!

Ela se sentia dominada por um pavor horrível.

Passou, então, a acelerar gradativamente os passos. Não demorou muito e ela já estava, pode-se dizer, correndo. Avançava cada vez mais seguindo sempre em frente. Às vezes tropeçava um pouco. Mas a sua idéia tropeçava mais do que os seus pés...

...Estou com medo!...

...Oh, Santo Deus, como estou apavorada!

Se, pelo menos, houvesse alguma pessoa aqui. Alguém para me acompanhar...

Ela pensou logo em Blanche.

Eu quero Blanche aqui!

Sim, Blanche era exatamente a pessoa que ela desejava ter em sua companhia. Não escolheria nenhuma outra criatura... nem mesmo qualquer uma das suas amigas...

Só Blanche...

Blanche, com a sua cordial bondade. Blanche sempre amável. Ninguém jamais conseguiria pegar Blanche de surpresa para ocasionar-lhe um choque.

E, de qualquer forma, vem a propósito lembrar que Blanche declarou que ela, Joan, estava linda e que fizera progressos na vida. Blanche gostava dela.

Mas durante toda essa caminhada um pensamento não se desgrudou dela: — a convicção de que a autêntica Joan Scudamore sabia... aliás sempre soube de tudo isso...

Eis os lagartos precipitando-se para fora das suas tocas!

Sinceridade!

Diminutas porções de sinceridade que despontavam do seu espírito tal qual os lagartos despontam das suas tocas... E esses fragmentos de sinceridade pareciam adverti-la:

— Estamos aqui!... Você nos conhece... Você nos conhece muito bem!... Não tente simular que não nos conhece!

Na realidade, bem que ela percebia de que espécie eram tais pensamentos e isto tornava o caso ainda pior... Ela podia muito bem identificar cada uma dessas idéias fragmentadas que surgiam como reflexos da sua íntima convicção e que a forçavam a tornar-se autêntica... Idéias que zombavam dela, rindo com os dentes arreganhados... Pedacinhos de sinceridade que se vinham manifestando desde que ela chegara nesse lugar. E ela tinha que dar um jeito para juntar todos esses fragmentos. .. Depois de unidas todas as partes, forçosamente ela obteria a estória completa da sua vida... a verdadeira estória de Joan Scudamore.

E essa estória já estava começando a se desentocar do seu espírito e só esperava que ela se decidisse...

Nunca antes ela tivera necessidade de pensar na estória da sua própria vida... Ela tivera sempre todo o seu tempo tomado com trivialidades e coisas de pouca monta, de modo que ela nunca conseguiu dispor de um momento sequer para procurar conhecer-se a si mesma.

Que foi que Blanche lhe disse? .

“... Se você ficar dias e mais dias não fazendo outra coisa senão pensando em você mesma, talvez ficaria muito surpreendida com o que viesse a descobrir com relação à sua pessoa.”

E que resposta tola lhe dera Joan, cheia de arrogância e de presunção!

— Pode alguém descobrir, com relação à sua própria pessoa, algo de que nunca teve conhecimento antes?

Às vezes chego a pensar, mamã, que a senhora não sabe nada a respeito de ninguém.

Foi Tony quem disse isso.

E como Tony tinha razão!

De fato, de um modo positivo ela nunca chegou a saber nada com relação aos seus filhos e a Rodney. Ela sempre os amou mas nada ficou sabendo a respeito deles. Esta é que era a verdade nua e crua! Sem dúvida era do seu dever ter procurado saber tudo acerca do seu relacionamento com eles.

Quem ama as pessoas forçosamente terá que conhecê-las sob todos os aspectos.

E se ela assim não procedeu foi simplesmente porque achava mais fácil só dar crédito às palavras elogiosas que gostaria fossem verdadeiras sem se amofinar coro os conceitos que eles emitiam traduzindo o verdadeiro juízo que faziam a respeito dela.

Averil, por exemplo. Averil com o seu sofrimento. Joan sempre se esquivou de reconhecer que Averil havia sofrido.

Averil que sempre a menosprezava...

Averil que, desde tenra idade, nunca se deixou enganar pela mãe...

Averil... uma criatura que sofreu tantos desgostos a ponto de se ver quase frustrada na vida e que talvez conserve ainda no seu espírito vincos indeléveis daquelas aflições...

Mas também que criatura cheia de coragem!...

E isso era exatamente o que estava faltando a Joan. Coragem!

Mas coragem não é tudo — dissera ela certa vez ao marido que, desapontado com tal afirmativa, a interrogou: — Você acha que coragem não é tudo?

E Rodney tinha razão...

Tony, Averil, Rodney, todos eles eram seus acusadores.

E Bárbara?

Que será que se passou de anormal com Bárbara? Por que motivo o médico foi tão reticente? Que será que todos eles procuravam esconder dela?

Que teria feito a pobre menina, a mocinha indisciplinada e impulsiva que se casou logo com o primeiro homem que a convidara para sair de casa?

Sim, é verdade. Foi exatamente isso que Bárbara fez. Ela foi muito infeliz em casa. E foi muito infeliz só porque Joan nunca procurou tornar mais feliz o seu lar.

Ela não amava Bárbara nem demonstrava o mínimo resquício de compreensão para com ela. Era sempre Joan que, resoluta e orgulhosa, determinava o que seria bom para Bárbara, sem nunca auscultar os gostos e os desejos da menina.

Nunca recebia bem os amiguinhos de Bárbara. Sempre procurava, com jeito, afastá-los pouco a pouco da sua casa...

Não é de admirar-se, portanto, que Bárbara encarasse a sua ida para Bagdá como uma verdadeira libertação. E foi só por isso que ela procurou apressar q seu casamento com Bill Wray embora — conforme afirmou Rodney — não o amasse.

E que foi que aconteceu depois? Algum caso de amor clandestino? Alguma ocorrência infeliz? Provavelmente aquele tal de major Reid... Sim... isso explica o embaraço ocasionado pela menção desse nome... Ele era exatamente o tipo de homem — refletiu Joan — capaz de seduzir uma mulher jovem e bobinha que não se encontrava ainda bem amadurecida para a vida conjugal.

E, então, num paroxismo de violento desespero a que ela sempre se mostrara muito propensa desde a infância — um verdadeiro cataclismo a turbilhonar a sua alma, tolhendo-lhe o senso de proporção — ela tentou... — sim, só podia ter sido isso —, ela tentou dar cabo da sua vida. E ela ficou muito mal, num estado que inspirava sérios cuidados.

Teria Rodney sabido do fato? Nesse caso ele teria certamente procurado dissuadi-la de fazer esta viagem tão apressada a Bagdá.

É evidente que Rodney não podia ter tomado conhecimento dessa ocorrência. Se ele houvesse sabido do fato, não deixaria de contar-lhe tudo antes do seu embarque... Não... Talvez até que ele não lhe dissesse nada... Bem... mas em todo caso ele certamente teria feito o possível para impedir a sua viagem.

Entretanto, é preciso notar que ela havia tomado a resolução de ir ver a filha com firmeza, mostrando-se inabalável nesse propósito. De forma alguma ela concordaria em retardar a sua partida porque achava que devia dar a sua assistência à pobre menina dentro do mais breve tempo possível.

Sem dúvida, esta sua atitude devia ser considerada muito louvável.

Mas quem sabe se até mesmo este seu propósito não seria. só parcialmente verdadeiro?

Será que ela, Joan, não teria ficado fascinada pela idéia de empreender uma viagem a fim de conhecer novas partes do mundo? Não estaria ela se comprazendo em desempenhar simuladamente o papel de uma devotada mãe? Não teria ela, antes de partir, se imaginado como uma fascinante mulher, dotada de espírito resoluto, sendo recebida pela filha doente e pelo genro completamente aturdido com tantas preocupações em casa? Oh, foi muita bondade da sua parte — diriam eles, consoante a sua imaginação — ter vindo tão apressadamente assim!

Entretanto, falando a pura verdade, parece que eles não ficaram muito satisfeitos com a chegada dela. Pelo contrário, demonstraram um certo temor indisfarçável: E evidentemente de antemão advertiram o médico para que ele não lhe revelasse nada. Eles próprios seguraram as línguas e tomaram todas as precauções necessárias para evitar que Joan ficasse sabendo da verdade. Absolutamente não queriam que ela tomasse conhecimento do caso porque não confiavam nela. Aliás, Bárbara nunca confiou na mãe. Não contem nada para mamã.

E como eles pareceram ter sentido um verdadeiro desafogo no momento em que ela lhes anunciou que iria voltar para a Inglaterra! E como conseguiram dissimular muito bem esta sua íntima satisfação! Polidamente fingiam protestar contra a sua deliberação de regressar tão ligeira assim, sugerindo que ela devia permanecer mais um pouco com eles. Entretanto, quando ela, algum tempinho depois, comunicou-lhes a sua resolução de ficar por mais alguns dias em Bagdá, William não perdeu tempo em desencorajá-la dessa idéia.

Na realidade, o único possível benefício que ela trouxe para eles — um tipo de benefício que não deixava de ser um tanto engraçado — foi o de ter induzido Bárbara e William a, em perfeita harmonia, convergirem seus esforços no sentido de livrar-se dela e de guardar o seu segredo.

Seria até bem estranho se, afora isso, sua visita tivesse produzido algo mais de bom.

Joan se lembrava freqüentemente de que certa vez, ao inquirir o genro, Bárbara, muito fraca ainda, fitou o marido com um olhar de súplica. Então ele, respondendo, começou a falar soltando as palavras aos borbotões e esclareceu apenas alguns pontos. Desse modo ele conseguiu esquivar-se de dar uma resposta precisa a uma das perguntas formuladas pela sogra com absoluta falta de tato.

Depois Bárbara fitou-o novamente como que a expressar a sua gratidão pela maneira como ele se desempenhara.

Bárbara e William foram ao embarque de Joan. Ela notou que William segurava a mão de Bárbara que, às vezes, inclinava-se um pouco para se apoiar no marido.

— Coragem, queridinha! (era sem dúvida o que ele estava dizendo à mulher). Esta situação incômoda já terminou... Ela está indo embora...

E, depois que o trem partiu, eles naturalmente voltaram ao seu chalé no Alwyah e ficaram brincando com Mopsy, pois ambos adoravam Mopsy, aquele encantador bebê com um rosto que parecia uma engraçada reprodução da caricatura de William. Então Bárbara de certo exclamou: — Que sorte que ela foi embora e agora temos a nossa casa livre, só para nós...

Pobre William que amava Bárbara loucamente e que, embora tendo sido muito infeliz, nunca se eximiu de prodigalizar-lhe o seu carinho e a sua ternura.

— Não se aflija por causa de Bárbara — disse-lhe Blanche. — Ela vai ficar boa logo. Além disso existe o bebê...

Como era amável Blanche, procurando tranqüilizá-la! Mas a verdade era que Joan não estava absolutamente se preocupando com o caso. Ela não estava sentindo a mínima aflição por causa da filha.

Na mente de Joan, naquele instante, não pairava outra coisa senão a sua arrogante compaixão para com a pobre velha amiga.

Agradeço-vos, Senhor, por eu não ser como aquela mulher!

Sim... Joan chegou a ter a ousadia de querer rezar...

E, agora, ali naquele ermo, ela daria tudo para ter Blanche em sua companhia.

Blanche com aquela benevolência que lhe era peculiar, nunca acusando ninguém e sempre complacente para com todas as criaturas.

Naquela noite Joan, completamente encoberta por um manto de simulada superioridade, teve a coragem de rezar.

Mas qual seria o seu modo de rezar, agora, depois de ter constatado que, ao invés de um manto de falsa superioridade, ela só dispunha para cobrir-se do nauseabundo trapo das misérias humanas?

Joan inclinou-se para a frente e caiu de joelhos rezando:

... Senhor Deus, ajudai-me...

... Estou ficando louca, meu Deus...

... Não me deixeis ficar louca...

... Não permitais que eu continue tendo esses pensamentos...

Silêncio!

Silêncio e luz do sol.

E as fortes batidas do seu coração.

Deus me abandonou!

Deus não quer me ajudar...

... Eu estou só... completamente abandonada...

Que pavoroso silêncio!...Que solidão horrível!

Pequena Joan Scudamore... Pequena Joan Scudamore, tola e presunçosa.

Completamente sozinha no deserto.

Durante quarenta dias e quarenta noites...

...Não, não, ninguém poderia ficar assim... ninguém seria capaz de resistir.

O silêncio... O sol... A solidão.

O medo começou a invadi-la de novo. Era o medo causado por aquele imenso espaço vazio, onde a gente não tem outra companhia senão Deus...

Tropeçou...

Teria que voltar imediatamente à casa de pernoite... Sem demora.

O hindu... o jovem árabe... as latas vazias amontoadas...

Humanidade.

Desvairada, lançou seus olhos por todo aquele contorno: não havia nem sinal da casa de pernoite! Até a pequena estação ferroviária, que se assemelhava a um monumento funerário feito de pedras, sumira da sua vista. E aquelas montanhas que antes ela divisava lá no horizonte pareciam não existir mais.

Sem dúvida ela avançara demasiadamente nesta sua caminhada... muito mais do que das outras vezes... E ela, agora, se encontrava tão longe que já não podia mais observar qualquer ponto de referência.

Dominada por um terror que aumentava gradativamente ela já nem sequer sabia em que direção ficava a casa de pernoite...

As montanhas — aquelas montanhas tão distantes — seguramente não podiam ter desaparecido assim de um momento para o outro. Além disso, contornando o horizonte não se via outra coisa senão baixas camadas de nuvens...

Montanhas? Nuvens? Não se podia dizer com toda a certeza o que eram...

Ela estava perdida... completamente extraviada...

Não, perdida não!... Se ela seguisse em direção ao norte...

O sol!

O sol, nesse instante, se encontrava exatamente a pino. Como poderia ela saber qual era o sentido do seu deslocamento na abóbada celeste?

Ela estava extraviada! Nunca mais poderia encontrar o caminho certo para voltar...

Então, como que atacada por um súbito delírio, começou a correr...

Correu primeiro num sentido. Depois, impelida pelo pânico que a dominava, passou a correr em sentido contrário. Por fim, ela já não pôde mais se conter: desvairada, principiou a correr em todas as direções.

Ela gritava, berrava, chamava...

Socorro!

Socorro!

Ninguém poderá me ouvir — pensou ela. — Encontro-me tão longe...

O deserto abafava o seu grito, reduzindo-o a um simples balido... Exatamente como o balido de uma ovelha... O fraco balido de uma ovelha...

Ele encontrou a sua ovelha.

O Senhor é o meu pastor.

Rodney — As verdes pastagens e o vale na High Street...

Rodney! — gritou ela. — Socorro!

Mas Rodney... Ela só imaginava Rodney subindo, lépido, os degraus da plataforma da estação Vitória, todo empertigado e com a cabeça atirada para trás... Certamente antegozando as delícias de ver-se livre dela durante algumas semanas e sentindo-se por isso jovem e forte de novo...

Que adiantava gritar pedindo-lhe socorro? Ele não podia ouvi-la.

Averil! Averiiil!...Será que Averil não a ajudaria?

Eu sou a sua mãe, Averil. Sempre fiz tudo o que me foi possível procurando o seu bem...

Não... Averil (como já fizera certa vez saindo calmamente da sala onde se encontrava Joan) diria simplesmente:

— Nada há que eu possa fazer...

Tony? Será que Tony não a socorreria?

Não. Tony também não podia auxiliá-la. Ele se encontrava na África do Sul. Um longo caminho a separava dele...

Bárbara... Mas Bárbara estava muito doente... Bárbara havia ingerido alimento envenenado.

Aí, então, ela pensou em Leslie. Leslie não deixaria de ajudá-la se pudesse. Mas Leslie estava morta. Sofreu muito e depois morreu...

Ela não podia contar com auxílio de ninguém...

Joan começou a correr de novo... desvairadamente... sem rumo certo... sem saber para que lado ia... Ela só sabia que estava correndo...

O suor começou a escorrer na sua face, caindo-lhe pelo pescoço... caindo-lhe por todo o corpo.

Chegou o meu fim!

Cristo!... Cristo!

Bem que Cristo poderia aparecer-lhe ali no deserto para ampará-la. Cristo mostrar-lhe-ia o caminho para o vale coberto de verdes pastagens.

... Ele a conduziria justamente com as suas ovelhas...

... A ovelha perdida...

... A pecadora arrependida...

... Através do vale das sombras...

(Sombra, não! Somente sol.)

... Cristo iluminá-la-ia coma sua luz benigna (a luz do sol não era lá muito benigna)...

O vale coberto de verdor... O vale coberto de verdor... Ela tinha que encontrar esse vale. É o vale que se estende através da High Street, exatamente lá no coração de Crayminster.

Um vale que se estende através do deserto...

Quarenta dias e quarenta noites!

Não fazia mais de três dias que ela se encontrava no deserto... Cristo, portanto, ainda deveria estar ali...

Cristo — suplicou ela —, ajudai-me!

Cristo.

Mas que é aquilo?

Eis que lá bem longe, à sua direita, ela divisa uma pequena mancha que pareceu ter emergido do horizonte.

Era a casa de pernoite. Ela já não se encontrava mais perdida... Ela estava salva.

Salva...

Suas pernas fraquejaram e ela caiu no chão...