A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 7 de 13

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A Ausência

Sete

 

Talvez tenha sido muito natural que Joan nessa noite sonhasse com a Srta. Gilbey.

A Srta. Gilbey, com um chapéu para se proteger contra o sol, caminhando ao lado dela no deserto e dizendo-lhe num tom de voz autoritário:

— Você deve ser mais atenta com relação aos lagartos, Joan. Seus conhecimentos de história natural são muito fracos.

A esta recomendação da diretora, como era natural, ela respondeu:

— Sim, Srta. Gilbey.

E a Srta. Gilbey prosseguiu:

— E não fique aí fingindo que não compreendeu o que eu quis dizer, Joan. Você conhece perfeitamente o sentido destas minhas palavras: disciplina, minha cara menina!

Joan despertou-se e sentiu-se transportada por alguns momentos ao Colégio St. Anne daqueles tempos já passados. Afinal, este quarto da casa de pernoite não se assemelhava em certo sentido com um dormitório de colégio? A pobreza do ambiente, as camas de ferro, as paredes com uma aparência de não terem sido limpas com o devido cuidado higiênico, tudo isso só podia contribuir para que ela evocasse a época em que vivera no internato.

Que foi mesmo que a Srta. Gilbey lhe disse em sonho? — Disciplina!

Pensando bem... devia existir algo de verdadeiro nessa palavra. Não foi, de fato, uma grande loucura ter Joan entrado no dia anterior em tão esquisitas divagações acerca de nada, absolutamente nada? Inegavelmente ela teria que disciplinar os seus pensamentos, ordenar a sua mente — e perquirir, de uma vez por todas, a razão de ser dessa sua sensação de agorafobia.

Em seguida, passou a sentir-se melhor. Afinal, talvez fosse mais prudente ficar só dentro da casa de pernoite. Mas ela chegou a ficar deprimida, completamente desalentada ante a idéia de permanecer enclausurada durante todo o dia naquele recinto constantemente envolto em penumbra, sentindo o cheiro da gordura de carneiro, de querosene e de inseticida pulverizado. Ficar ali todo o dia sem ter nada para ler nem para fazer? Era horrível!

Que é que fazem os prisioneiros nas suas celas? Bem, eles certamente fazem exercícios diários ou ficam costurando sacos e maletas de viagem. Do contrário enlouqueceriam. E não há coisa mais apropriada do que uma vida solitária em reclusão para deixar doida uma pessoa. Não é brinquedo passar dia após dia, semana após semana, em reclusão...

E dizer que ela já tinha a impressão de estar naquele lugar durante semanas! E quanto tempo fazia que ela havia chegado ali? — Dois dias apenas!

Dois dias! Até parece incrível!

Bem que parecia estar acontecendo o que dissera Ornar Khayyam neste verso: “Eu próprio com os dez mil anos do meu ontem...” Foi mais ou menos isso que ele escreveu. Por que não procuraria ela lembrar-se melhor do texto exato?

Não, não! Ela absolutamente não iria começar de. novo a recitar poesias... A declamação de versos no dia anterior não deu bom resultado. A verdade é que ela verificou existir algo de muito perturbador nas poesias... algo capaz de atormentar a alma. Mas que bobagem estava ela dizendo! Ora, parece fora de dúvida que tanto melhores serão os pensamentos quanto mais eles tenderem para o plano espiritual... E ela sempre foi um tipo de pessoa de ressaltada propensão para as coisas espirituais...

Você foi sempre tão fria como um peixe.

Por que será que a voz de Blanche pareceu ter-se introduzido na sua mente logo agora? Que voz tão vulgar e intrometida! Mas Blanche é exatamente assim mesmo. Vulgar e intrometida. . . Ela não podia deixar de admitir que Blanche fosse diferente disso. Era uma criatura que se deixava reduzir a frangalhos pela sua própria volúpia. Mas absolutamente não se poderia culpá-la de ser grosseirona e sem refinamento social. Quando ela era menina, nada deixava transparecer do seu temperamento porque ainda estava sob o bafejo da ternura do seu lar. Entretanto, a rudeza de caráter já existia em estado latente no seu próprio ser.

Fria como um peixe, sim! Não é lá uma expressão muito delicada.

Seria muito de desejar que ela própria, Blanche, tivesse uma boa dose da frieza de um peixe para amenizar os ardores do seu temperamento voluptuoso.

Bem que ela demonstrava ter sempre levado uma vida deplorável.

Que mais foi que ela disse quando Joan conversou com ela? — Ah, sim, cada qual poderia, por exemplo, pensar nos seus pecados.

Pobre Blanche! Mas ela afirmou logo em seguida que Joan não seria capaz de perder muito tempo fazendo o seu exame de consciência.

Blanche passou, então, a estabelecer um paralelo entre ela própria e Joan. Ela fingiu acreditar que Joan ficaria cansada enumerando a grande quantidade de bênçãos e de benefícios recebidos da Divina Providência. (Seria até muito justo que cada qual se dispusesse freqüentemente a tecer considerações sobre as bênçãos e benefícios recebidos.)

E que foi que ela disse depois? Deve ter sido algo bastante curioso.

Ah, sim, ela declarou que gostaria de saber a que conclusão chegaria Joan se ficasse dias e mais dias não fazendo outra coisa senão meditar a respeito de si mesma...

De certo modo, esta idéia não deixa de ser interessante.

Uma idéia interessante de fato!

Todavia Blanche asseverou também que ela, por vontade própria, não tentaria fazer esta espécie de meditação a respeito da sua pessoa... Ela parecia... Bem, ela demonstrava ter medo de proceder a um exame de consciência.

Como seria maravilhoso — pensou Joan — se alguém pudesse descobrir algo relacionado com a sua vida íntima!

Na verdade ela nunca tivera o hábito de fazer reflexões a respeito de si própria...

Ela não era absolutamente o tipo de mulher, capaz de fazer uma análise introspectiva.

— Bem que eu gostaria de saber qual é o juízo que as pessoas fazem de mim — exclamou Joan. — Não me refiro ao juízo ou conceito das outras pessoas em termos gerais mas, sim, especificamente dirigidos a mim.

Então, como que maquinalmente passou a evocar alguns exemplos de frases pronunciadas em diversas ocasiões por outras pessoas.

As frases de Bárbara, sua filha, serviriam para começar.

— Oh, os seus criados, mamã, são sempre perfeitos. A senhora nunca esquece de zelar pela perfeição deles.

Esta frase constituía realmente um elogio à sua pessoa, pois demonstrava que a filha a reconhecia como boa esposa e ótima dona de casa. E não há dúvida mesmo de que Joan dirigia a sua casa muito bem e com grande eficiência.

Os criados também gostavam dela — pelo menos eles faziam tudo o que ela ordenava. Talvez não fossem muito compreensivos quando ela tinha dor de cabeça ou não se sentia bem. Entretanto, deve ser esclarecido que ela nunca os compeliu a se comportarem diferentemente em tais circunstâncias.

E que foi que lhe disse aquele excelente cozinheiro quando ela lhe comunicou ter concordado com o seu pedido de dispensa dos serviços? Parece que ele disse que não poderia continuar eternamente trabalhando sem que houvesse o reconhecimento da sua aptidão... ou coisa parecida. Sinceramente, a atitude dele foi ridícula.

— É impossível continuar desse jeito, minha senhora, sempre recebendo advertências quando a coisa não sai bem mas nunca recebendo uma palavra de elogio ou de estímulo quando o serviço é bem feito. Dessa maneira não há quem não perca o ânimo...

Ela simplesmente retrucou-lhe com uma certa frieza:

— Mas você deve compreender, cozinheiro, que quando a patroa não fala nada é porque tudo está correndo satisfatoriamente.

— Não digo o contrário, minha senhora... mas tal atitude é pouco animadora. Afinal, eu também sou um ser humano. Por exemplo, eu tive bastante trabalho em preparar aquele prato de ragu à espanhola que a senhora me pediu... E eu não sou um tipo de cozinheiro que se preocupa muito com o preparo de iguarias inventadas na hora...

— Mas estava excelente aquele ragu.

— Creio, minha senhora. Logo vi que ele tinha ficado muito bom, pois não sobrou nada. Contudo nenhuma referência me foi feita.

Joan, impaciente, retrucou-lhe:

— Será que você não nota que está se tornando um pouco imbecil? Afinal, você foi contratado para cozinhar nesta casa com um bom ordenado.

— Oh, não se discute, minha senhora. O ordenado é bom...

— ...portanto deve-se subentender que seja um bom cozinheiro. Só quando algo não está bem é que devo dirigir-me a você.

— E é o que a senhora faz realmente, minha senhora.

— Mas você, ao que parece, julga-se ofendido com esta minha atitude, não é verdade?

— Não é bem isso, minha senhora, mas acho que é melhor não tocar mais neste assunto e eu sairei depois de completar o mês do meu serviço.

Os criados — refletiu Joan — nunca estão contentes. Andam sempre cheios de ressentimentos. Todos eles gostavam de Rodney, é bem verdade. Gostavam dele simplesmente porque ele era um homem. Nunca havia muita preocupação em fazer serviços para o patrão. E Rodney surpreendentemente revelava-se às vezes dotado de aptidão para lidar com os empregados.

Certa vez ele disse a Joan:

— Não seja muito rígida com a Edna. O jovem marido dela se meteu com outra mulher e ela anda completamente transtornada. É por isso que ela entrega duas vezes a hortaliça ao cozinheiro, deixa cair as coisas no chão e anda continuamente se esquecendo das suas obrigações.

— Como foi que você ficou sabendo disso, Rodney? — Ela me disse hoje de manhã.

— Coisa bem singular ter ela contado só a você o que se passou com ela!

— Bem, eu a interroguei para saber o que havia com ela, pois os seus olhos estavam vermelhos e demonstravam que ela havia chorado muito.

Rodney era uma criatura excepcionalmente bondosa.

Certa vez Joan lhe disse:

— Acho que você com esta sua vida de advogado já anda farto de tanto ouvir falar sobre as complicações e intrigas da humanidade.

Com um ar meditativo, ele respondeu-lhe:

— Qualquer um poderia pensar assim, evidentemente. Todavia eu acho que um advogado, exercendo as funções de solicitador regional, vê sempre melhor do que ninguém (exceto os médicos, é claro) os sulcos mais profundos das cicatrizes que afetam a sociedade. Mas esta circunstância só pode contribuir para tornar mais intenso o sentimento de compaixão para com a pobre humanidade — tão vulnerável, tão propensa ao medo, à dúvida e à cobiça mas também algumas vezes tão altruísta. tão brava. A melhor compensação do meu serviço talvez resida precisamente no fato de propiciar um sentimento de piedade mais amplo para com o gênero humano.

Tinha, ela, pode-se dizer, na ponta da língua esta pergunta: “Compensação?! Que é que significa, no caso, esta palavra?” — mas por uma razão qualquer deixou de formulá-la. Foi melhor mesmo não ter perguntado nada, refletiu Joan depois.

Entretanto, falando com sinceridade, ela às vezes ficava perturbada com as expressões de Rodney. Ele facilmente se deixava dominar pelo sentimento de compaixão.

Um exemplo frisante da sua bondade foi o caso da hipoteca contra o velho Hoddesdon.

Joan ficara sabendo de tudo não diretamente por Rodney mas sim pelo relato da esposa de um sobrinho de Hoddesdon. Nesse dia, depois de ter tomado conhecimento do fato, Joan chegou em casa deveras perturbada.

— Foi verdade, então, que você adiantou ao velho o dinheiro, retirando-o da sua própria reserva particular na firma?

Ante tal pergunta Rodney ficou irritado. Com a face enrubescida interrogou logo:

— Quem foi que lhe disse isso?

Ela explicou-lhe pormenorizadamente a conversa que tivera com a sobrinha do velho Hoddesdon.

— Será que ele não poderia ter conseguido o dinheiro mediante um empréstimo, como se procede normalmente, Rodney?

— Uma hipoteca, considerada do ponto de vista estritamente comercial, não é um bom negócio. É sempre difícil levantá-la, especialmente para um agricultor na época atual...

— Então por que você lhe emprestou o dinheiro?

— Oh, eu me sairei bem, não há dúvida. Hoddesdon é realmente um bom fazendeiro. No momento faltam-lhe recursos financeiros e os prejuízos nas últimas safras quase que o prostraram.

— Ora, mas se é assim, a conclusão não pode ser outra senão a de que ele se encontra em situação precária, tanto assim que se viu na contingência de arranjar dinheiro para levantar uma hipoteca. Sinceramente não vejo como este empréstimo possa ser um bom negócio, Rodney.

Bruscamente e de maneira inesperada, Rodney perdeu a calma.

Teria ela compreendido de fato o sentido das palavras iniciais que ele, retrucando-lhe, pronunciou com o fim de salientar a situação de apertura em que se encontravam os agricultores de toda aquela região? Teria ela podido ter uma noção exata das dificuldades, dos obstáculos e da incúria governamental? Ele permanecia de pé, na frente dela, soltando aos borbotões, uma misturada de termos complicados para explicar as condições da política agrária da Inglaterra predominantes no momento. Depois de ter abordado o assunto no seu aspecto geral, passou a se referir às dificuldades financeiras de Hoddesdon, expressando-se sempre com ardor e entusiasmo.

— Uma situação dessas poderia acontecer a qualquer um. Pouco importa que o indivíduo seja trabalhador e inteligente. Poderia ter acontecido a mim próprio se eu estivesse no lugar dele. Tudo foi ocasionado pela deficiência de recursos financeiros, situação esta agravada pelos insucessos verificados em duas safras consecutivas. E, de qualquer maneira, se você não compreende o que estou falando, não tem importância alguma, Joan. Este assunto não tem nada a ver com você. Eu absolutamente não interfiro no seu serviço de orientação da casa e dos filhos. É o seu setor de atividade. Mas este aqui é o meu.

Com tais palavras ela sentiu-se magoada. Muito magoada mesmo. Não era do hábito de Rodney expressar-se de maneira tão áspera assim. Pouco faltou para que eles tivessem uma rixa.

E tudo por causa desse maçante velho Hoddesdon. Rodney andava como que estonteado por causa do estúpido velho.

E no domingo seguinte ele foi passar a tarde lá no sítio de Hoddesdon. Chegou em casa trazendo uma porção de informes relacionados com as plantações e com as doenças que atacam o gado. Não parava de falar e abordava também outros assuntos de nenhum interesse. Chegava até a importunar as visitas falando ininterruptamente sobre este mesmo assunto.

Nessa altura, Joan se lembrou de ter observado (certa vez em que todos estavam reunidos no jardim) Rodney e a Sra. Sherston sentados num banco isolado a conversar animadamente. Rodney era quem mais falava. Ele não parava de conversar nem para tomar fôlego. Vendo isso, ela ficou curiosa por saber qual era o assunto da conversa deles. Levantou-se do seu lugar e dirigiu-se para perto deles. Rodney parecia estar agitado.

Leslie Sherston escutava-o atentamente, dando a impressão de estar sob uma espécie de tensão nervosa.

E — pelo menos foi esta a impressão de Joan — a conversa dele referia-se principalmente à criação de gado leiteiro. Ele salientava a necessidade de manter sempre bons plantéis de raças finas nos rebanhos do país.

Era um assunto que dificilmente poderia interessar à Sra. Sherston a qual não tinha conhecimento algum sobre raças de gado. Mesmo assim ela parecia escutá-lo com profunda atenção, conservando o olhar fixo sobre a face animada de Rodney.

Joan falou com uma voz suave:

— Sinceramente, Rodney, acho que você não deve ficar aí importunando a pobre Sra. Sherston com esse assunto bobo (isto aconteceu numa época em que eles não conheciam bem os Sherston, chegados pouco antes a Crayminster).

Aquela expressão de vivacidade apagou-se do semblante de Rodney, que se dirigiu a Leslie procurando desculpar-se:

— Sinto muito.

Mas Leslie Sherston, falando com desembaraço como era do seu hábito, exclamou:

— A senhora não tem razão, Sra. Scudamore. Achei muito interessante a explanação feita pelo Sr. Scudamore.

Então surgiu nos olhos dela um brilho tal que fez Joan pensar que ela tivesse ficado zangada com a sua intromissão na conversa.

Em seguida aconteceu outro fato: Myrna Randolph apareceu ali quase sem fôlego, exclamando:

— Rodney, queridinho, você tem que ir comigo para jogar na nossa equipe. Estamos esperando por você.

E, com maneiras arrogantes como só uma moça de aparência sedutora pode ter, estirou ambas as mãos e puxou Rodney pelos pés, sem parar de sorrir debochadamente na cara dele. Foi assim que ela o arrastou para a quadra de tênis.

Ela caminhava ao lado dele com o rosto virado para melhor poder fitá-lo.

Joan, muito agastada, pensou lá com os seus botões: “Os homens não gostam de moças que se atiram assim tão facilmente para o lado deles...”

Mas será mesmo que os homens não gostam de moças oferecidas assim como Myrna Randolph? Era exatamente isso que ela repentinamente teve ânsia de saber... Afinal...

Joan ergueu os olhos e viu Leslie Sherston que a estava observando.

Leslie já não mais parecia estar zangada. Pelo contrário, ela fitava Joan como se estivesse sentindo pena dela. Joan até que achou a atitude compassiva da amiga muito pouco social e descabida, para não dizer doutra maneira.

Joan remexia-se irrequieta naquela cama estreita. Mas por que, diabo, lhe deu na cabeça de lembrar-se novamente de Myrna Randolph? Oh, sem dúvida foi por causa da sua incontida ânsia de verificar que espécie de reação seria capaz de provocar no seu íntimo a evocação de uma criatura assim. Myrna lhe havia causado muitos desgostos. Bem... é preciso considerar que Myrna era desse feitio. Ela era o tipo de moça que se comprazeria em destruir a vida conjugal em qualquer lar, se lhe fosse dada a oportunidade.

Bem... bem... mas agora não é o momento para aborrecer-se com tais lembranças...

Já estava na hora de levantar-se e tomar a refeição. Talvez fosse bom que ela mandasse preparar ovos quentes para variar um pouco. Ela já andava enjoada daquela omelete dura, quase ressequida.

Entretanto o hindu parecia não conseguir compreender bem a significação de ovo quente.

— Cozinhar ovo na água? Memsahib quer dizer ferver água para cozinhar ovos?

— Não. Não quero dizer que os ovos devam ficar endurecidos na água fervente.

Ela bem sabia por experiência própria que ovos quentes fervidos na água significavam, na casa de pernoite, ovos completamente endurecidos. Ela tentou, então, explicar ao homem a maneira de preparar ovos quentes.

O hindu sacudiu a cabeça.

— Botar ovo na água, ovo desmancha... Vou trazer para Memsahib lindos ovos fritos.

Assim, ela teve que se contentar com dois lindos ovos fritos, que vieram com as gemas endurecidas e descoradas. Pensando bem, teria sido mais acertado pedir omelete mesmo.

Esta refeição matinal foi feita rapidamente. Em seguida indagou se havia alguma notícia a respeito do trem. Não havia nada. Isto deixou-a muito aborrecida. Mais um dia que ela teria que passar ali.

Mas hoje, de qualquer maneira, iria estabelecer planos inteligentes para ocupar o tempo. O diabo era que ela não vinha fazendo outra coisa senão tentar passar o tempo.

Também deve-se levar em conta que ela era uma pessoa que estava aguardando ansiosamente a chegada de um trem e isto basta para deixar qualquer pessoa nervosa.

Forçosamente teria que considerar todo esse tempo como um período de repouso — Sim, de repouso! Disciplina, portanto! Ela devia portar-se como se estivesse num retiro. É assim que dizem os que professam a religião católica romana. Eles freqüentemente vão para o retiro e depois voltam espiritual-mente revigorados.

Portanto não há razão para que eu também não me revigore espiritualmente — pensou Joan.

O fantasma da Srta. Gilbey parecia estar de pé ao seu lado, recomendando-lhe numa voz com timbre de contrabaixo: Disciplina!

Mas isto foi o que ela recomendara a Blanche Haggard. A Joan ela fizera (aliás de maneira não muito delicada) a seguinte advertência:

E nunca se julgue muito satisfeita consigo mesma, Joan!

Ela foi indelicada, pois Joan nunca se julgara satisfeita consigo mesma nem um pouquinho — pelo menos de maneira tola ou sem motivação.

Pense também nos outros e não somente em você, minha cara menina.

Ora isto foi o que ela sempre fez: só pensar nos outros. Até que ela nunca dava prioridade à sua pessoa nos seus cuidados e preocupações. Ela sempre foi uma abnegada — naturalmente para os filhos e para... Rodney.

Averil!

Por que teria ela de repente começado a pensar em Averil?

Por que imaginar logo agora estar contemplando o semblante da sua filha mais velha — com aquele seu sorriso um tanto escarninho, embora sem deixar de revelar-se educada e cortês?

Averil — não há dúvida — nunca soube reconhecer devidamente o valor da sua mãe.

As palavras que ela às vezes dizia — quase sempre num tom sarcástico — realmente chegavam a irritar Joan. Não eram palavras que se pudessem chamar de rudes mas...

Sim, mas o quê?

Aquela sua aparência de uma criatura tranqüila e contente com a vida... mas sempre com as sobrancelhas erguidas... Joan não podia deixar de lembrar-se da maneira como Averil delicadamente saía da sala quando ela entrava.

Naturalmente, não podia dizer que Averil não lhe fosse devotada. Aliás todos os seus filhos lhe eram devotados.

Mas seriam eles de fato devotados a ela?

Poderia ela realmente considerar-se o alvo dos cuidados e desvelos dos filhos?

Joan, como que num sobressalto, ergueu-se um pouco da cadeira e depois sentou-se de novo.

De onde lhe vinham, agora, tais idéias? Que é que a compelia a pensar assim?

E logo numa situação dessas surgirem idéias tão desagradáveis que quase chegavam a assustá-la! Ela teria que fazer todo o esforço possível para arrancá-las da sua cabeça... Não pensar mais nessas bobagens.

Mas eis que surge a voz da Srta. Gilbey — agora em pizicato:

— Não seja indolente nem vagarosa para pensar, Joan. Nunca aceite as coisas pelas suas aparentes conveniências do momento — só porque desse modo é mais fácil e você fica livre de incômodos.

Não seria por isso que ela agora estava tentando repelir esses pensamentos? Para ficar livre de incômodos?

Não havia dúvida de que eram pensamentos realmente incomodativos...

Averil...

Teria sido Averil realmente devotada a ela? Será que Averil gostava dela de fato?

Coragem, Joan. Enfrenta este pensamento! É o que tu deves fazer!

Bem... A verdade é que Averil sempre foi um tipo todo especial de moça — fria, fleumática...

Não, talvez ela não fosse tão fleumática assim. Averil foi a única entre os seus filhos que realmente lhe deu trabalho.

Averil, a menina fria, bem comportada, tranqüila...

Mas que abalo Joan sofreu certa vez por causa de Averil!

Joan recebera uma carta. Sem nada suspeitar do conteúdo da missiva, abriu o envelope. Surgiram diante dos seus olhos umas garatujas que só poderiam ter sido escritas por uma pessoa quase analfabeta. Logo no início ela julgou tratar-se de carta de um desses pedintes de auxílio que se valem da caridade pública.

Joan começou a ler aqueles rabiscos cujo sentido ela quase não podia compreender:

— “Esta tem a finalidade de fazer com que a senhora

saiba que sua filha mais velha anda de namoro com o Doutor, md, lá no sanatório. Eles vão para o mato e ficam se beijando. É uma pouca-vergonha e isso deve parar”.

Joan lançou os olhos sobre aquele pedaço de papel sujo, sentindo náuseas.

Que coisa abominável! Que coisa desagradável!

Ela já tinha ouvido falar de cartas anônimas mas até então nunca havia recebido nenhuma. Na verdade, uma carta dessas é capaz de deixar qualquer pessoa com mal-estar.

A sua filha mais velha — Averil? Será que neste mundo só existiria Averil para praticar um ato dessa natureza?

Anda de namoro (Que palavras desagradáveis!) com o doutor, lá no sanatório — Dr. Cargill? O eminente e distinto especialista que fez um estrondoso sucesso com a aplicação do seu método para a cura da tuberculose? Será que anda metido numa confusão com Averil esse homem que, no mínimo, é vinte anos mais velho do que ela e que tem uma encantadora esposa que anda enferma, praticamente inválida?

Que porcaria! Que detestável porcaria!

Por coincidência, nesse momento mesmo Averil entrou na sala e perguntou-lhe, talvez com um pouco de curiosidade, embora habitualmente ela nunca fosse curiosa:

— Algo de importante nessa carta, mamã?

Joan, abaixando a mão que segurava o papel, a caro custo conseguiu responder-lhe.

— Não acho que eu faria bem em mostrar esta carta a você, Averil... É tão chocante, tão desagradável!...

Joan falou-lhe com a voz trêmula. Averil, com o seu olhar frio e erguendo as sobrancelhas numa atitude que expressava surpresa, interrogou simplesmente:

— Existe algo de ruim nessa carta?

— Sim, existe.

— É a meu respeito?

— Até acho melhor que você não a leia, queridinha!

Entretanto, Averil avançou pelo meio da sala e calmamente retirou a carta da mão de Joan. Permaneceu ali, de pé, lendo aquelas garatujas durante cerca de um minuto. Depois disse à mãe, como que demonstrando pouco interesse no assunto:

— É verdade. Não é lá muito boa esta carta.

— Boa?! É horrível! Extremamente desagradável! Terá que ser punida pela lei a pessoa que inventou uma calúnia desse calibre!

Averil retrucou-lhe calmamente:

— A carta contém uma estupidez mas não uma calúnia.

Joan pareceu sentir, nesse instante, a sala rodar. Com a voz entrecortada e arquejando, interrogou a filha:

— Que foi que você disse? Que foi que você quis insinuar?

— Não é preciso exagerar tanto fazendo espalhafato, mamã. Sinto muito por ter chegado isso ao seu conhecimento dessa maneira mas eu acho que mais cedo ou mais tarde a senhora teria que saber...

— Então você quer dizer que é verdade? Você e... e o Dr. Cargill...

— Sim, é verdade — respondeu ela dando ênfase à sua afirmação com meneios da cabeça.

— Mas é um ato pecaminoso, imoral! É uma desgraça! Um homem com aquela idade... E além do mais um homem casado... E você uma moça tão jovem...

Averil, já denotando uma certa impaciência que não parecia condizer com o seu habitual comportamento fleumático, retrucou-lhe:

— A senhora não precisa fazer essa espécie de melodrama de vila, mamã. Até que o caso não é bem assim. Tudo foi acontecendo aos poucos, gradativamente. Todo mundo sabe que a esposa de Rupert é inválida. Já faz anos que ela anda doente. Então nós... Bem, nós simplesmente nos comprometemos a cuidar um do outro. Foi só isso o que aconteceu.

— Ah! Só isso?! E você ainda acha pouco, minha filha?

Joan tinha uma porção de coisas para dizer à filha e disse-lhe sem rebuços. Averil simplesmente encolheu os ombros e permaneceu quieta como quem fica esperando que um borrascoso temporal se amaine.

Finalmente, depois que Joan ficou cansada de tanto falar, ela obtemperou:

— Bem que eu compreendo a sua maneira de encarar um fato dessa natureza, mamã. Ouso até afirmar que eu faria a mesma coisa se estivesse no seu lugar — muito embora, talvez, eu não soltasse algumas dessas frases que a senhora soltou agora. Mas a senhora não pode modificar os acontecimentos: eu e Rupert tomamos a decisão de nos auxiliarmos mutuamente, um cuidando do outro. Sinto muito pelo que aconteceu mas acho que a senhora nada pode fazer nesse caso.

— Nada posso fazer? Vou contar tudo direitinho ao seu pai.

— Pobre papai! Será que a senhora terá coragem de causar-lhe este tormento?

— Estou certa de que ele saberá como agir.

— Falando a pura verdade, acho que ele também nada poderá fazer. Ele apenas sofrerá muito.

Foi assim que começou para a família uma fase de desagradáveis estardalhaços.

Averil enfrentou esta violenta tempestade conservando a sua frieza habitual e permanecendo aparentemente imperturbável. Contudo, nem mesmo por um momento, deixou de mostrar-se inflexível e obstinada.

Joan dizia a Rodney a cada instante:

— Não posso deixar de imaginar que tudo isto não passa de uma atitude previamente estudada por Averil. Ela não se comporta como se realmente estivesse dominada por um forte sentimento de qualquer espécie.

Rodney, sacudindo a cabeça, sempre respondia:

— Você não compreende Averil. Em Averil o coração prevalece sobre a razão. Quando ela se dispõe a amar, ama tão profundamente que eu duvido ser ela capaz de esquecer o seu amor.

— Oh, Rodney... Sinceramente, acho que você está dizendo absurdos. Afinal eu conheço Averil melhor do que você... Sou a mãe dela.

— Isto não significa que você possa conhecer coisa alguma a respeito dela. Averil sempre teve o hábito de atenuar os fatos, nunca dizendo a verdade sobre as suas preferências — ou melhor, sobre as suas necessidades. É precisamente quando ela se sente dominada por um sentimento profundo que ela, propositadamente, tenta demonstrar que está ligando pouca importância ao fato.

— Mas a atitude dela me parece muito forçada... como se tivesse sido previamente estudada...

— Bem, se você pensa assim, fique sabendo agora pelas minhas palavras que a atitude dela é sincera e verdadeira.

— Não posso, de forma alguma, deixar de ver em suas palavras um certo exagero. O que houve com ela foi um simples flerte de menina de colégio. Ela sentiu-se lisonjeada e, portanto, tudo que ela faz agora é para dar vazão ao seu prazer de fantasiar...

Rodney interrompeu-a:

— Joan, minha cara, não procure tranqüilizar-se dizendo coisas nas quais nem mesmo você acredita. É preciso que nos convençamos de que Averil está seriamente apaixonada por Cargill.

— Mas... esta é uma atitude ignominiosa e indigna da parte dele! É um ato vergonhoso que ele está praticando!

— Sim. É isso mesmo que todo mundo dirá e com razão! Mas coloque-se você mesma no lugar daquele pobre diabo. Um infeliz, casado com uma mulher inválida, que, de um momento para o outro, se vê alvo da paixão ardente de uma linda jovem como Averil a qual lhe oferece, pode-se dizer de bandeja, todo o seu amor ardente.

— E pensar que ele é vinte anos mais velho do que ela!

— Eu sei, eu sei... Se ele tivesse dez anos menos, sua tentação não teria sido tão impulsiva assim...

— Ele deve ser um sujeito horrível...

Rodney deu um profundo suspiro.

— Não. Ele não é um sujeito horrível. É um tipo dotado de refinamento social e de sentimento humano. É um homem que sempre teve entusiasmo pela sua profissão, tanto assim que realizou trabalhos notáveis no campo da sua especialização. E vem a propósito lembrar que ele sempre cercou de gentilezas e de carinho sua esposa, que é doente desde longo tempo.

— Até parece que você agora está tentando converter esse homem numa espécie de santo.

— Longe de mim tal idéia! E deve-se dizer, Joan, que grande número de santos tiveram também suas paixões. Raramente os santos ou santas foram criaturas insensíveis. Eles tinham bastante de humano como Cargill. Foi como humanos que eles amaram e sofreram. E sem dúvida eram também tão humanos que poderiam ter-se perdido inutilizando todo o esforço das suas vidas. Agora tudo depende...

— Depende do quê?

— Depende da nossa filha. Depende da sua força e da clareza da sua visão para decidir-se a entrar no bom caminho.

Joan retrucou-lhe com veemência:

— Temos que mandá-la embora deste lugar. Que você acha se ela fizesse um cruzeiro? Uma viagem marítima às principais cidades do Norte? Ou então à Grécia? Enfim, qualquer viagem serviria.

Rodney sorriu.

— Você já se esqueceu do que houve com Blanche Haggard, sua colega dos tempos de colégio? Parece-me que esta medida não surtiu muito bom efeito no caso daquela mulher, lembra-se?

— Você acha que Averil poderá fugir nalgum porto qualquer e voltar?

— Eu chego mesmo a duvidar de que ela se decida a embarcar...

— Absurdo. Nós os pais teríamos que insistir.

— Minha cara Joan, procure enfrentar a realidade com espírito de discernimento. Você não deve e não pode usar de força para subjugar uma jovem que já atingiu a idade do uso da razão. Nós não podemos encerrar Averil no seu quarto nem forçá-la a sair de Crayminster. Na realidade eu não pretendo fazer nem uma coisa nem outra. Tudo isso não passaria de simples paliativo. Averil é uma criatura que tão-somente em face de razões que ela acata como fatores ponderáveis poderá consentir em modificar os seus desígnios.

— E quais são essas razões?

— Objetividade. Sinceridade.

— Por que você não procura falar com ele... com esse tal Rupert Cargill? Você deve ameaçá-lo com um escândalo.

Mais uma vez Rodney suspirou profundamente.

— Tenho medo, Joan, tenho muito medo de precipitar o caso...

— Que é que você quer dizer com isso?

— Tenho medo de que Cargill abandone tudo nesta localidade e fuja com Averil.

— Mas isto significaria o fim da sua carreira.

— Sem dúvida. Eu não acho que sua conduta, em tal hipótese, poderia ser classificada diretamente como um ato suscetível de afetar o reconhecimento da sua aptidão profissional, mas é certo que muito contribuiria para indispor a opinião pública contra ele, especialmente levando-se em conta as circunstâncias excepcionais que envolvem o caso.

— Então certamente ele deverá...

Rodney interrompeu-a impaciente:

— No momento ele não está no seu juízo normal. Será que você ainda não aprendeu nada sobre o amor, Joan?

Que pergunta ridícula era esta! Ela respondeu-lhe com um tom de amargura na voz:

— Não, com relação a tal espécie de amor. Sou muito grata em poder afirmar...

Rodney interrompeu-a dando-lhe um beijo de surpresa e dizendo-lhe com um sorriso nos lábios:

— Minha pobre pequena Joan!

Foi uma grande amabilidade da parte dele — pensou Joan — ter percebido como ela se sentia infeliz com esse triste caso.

Sim, foi inegavelmente uma fase de ansiosa expectativa. Averil sempre calada. Não falava com ninguém. Às vezes deixava até de responder às perguntas da sua mãe.

Procurei fazer o melhor possível — pensou Joan — mas que é que se pode fazer com uma menina que nem mesmo se dispõe a ouvir as palavras da mãe?

Pálida, mas sempre com palavras delicadas, Averil lhe respondia:

— Mamã, será que temos de continuar eternamente com este assunto, batendo sempre na mesma tecla? Eu faço as minhas concessões respeitando os seus pontos de vista mas por que a senhora não quer aceitar esta verdade evidente de que não tem a mínima importância, neste caso, o que a senhora diz ou faz?

E, assim, o tempo foi passando, com a situação inalterada... até que chegou aquela tarde de setembro em que Averil, com a face mais pálida do que de costume, disse a Rodney e a Joan:

— Acho que é melhor contar-lhes o que se passa... Eu e Rupert chegamos à conclusão de que não podemos continuar por mais tempo desse jeito. Estamos resolvidos a ir embora juntos. Eu espero que sua esposa vá se divorciar dele. Todavia, se ela não aceitar o divórcio, pouco importa.

Joan já tinha começado a reagir com veemência, insurgindo-se contra esta decisão da filha, mas Rodney interrompeu-a.

— Deixe este assunto comigo, Joan, se você não se importa. Averil, tenho que falar com você. Vamos até a minha sala de trabalho!

Averil respondeu, esboçando um leve sorriso:

— O senhor procede exatamente como um diretor de colégio, não é verdade, meu pai?

Joan explodiu:

— Eu sou a mãe de Averil, portanto insisto...

— Por favor, Joan, eu preciso ter uma conversa a sós com Averil. Será que você não nos permitiria?

Ele falou com uma voz tão calma e delicada que Joan se prontificou a sair da sala imediatamente, mas antes mesmo que ela desse dois passos, a voz baixa e clara de Averil fê-la estacar:

— Não saia, mamã! Não quero que a senhora se retire. Prefiro que papai diga na sua presença tudo o que tiver para dizer-me.

— Bem, pelo menos isto demonstra — esta foi a conclusão de Joan — que ser mãe também tem alguma importância...

Averil e o pai se encararam de maneira esquisita. Tornaram-se de repente ambos circunspectos e desconfiados, revelando uma atitude pouco amistosa.

Pareciam dois adversários já prontos para se enfrentarem.

Então Rodney, com um sorriso inexpressivo nos lábios, disse:

— Já sei. Você está com medo, não é?

Averil respondeu-lhe com a sua habitual frieza:

— Não sei o que o senhor está insinuando, meu pai.

Inesperadamente Rodney começou a dizer despropósitos:

— É uma pena você não ser um rapaz, Averil! Há momentos em que você se torna tão perigosa como o seu grande tio Henry. Ele tinha uns olhos maravilhosos que lhe permitiam, de acordo com a sua conveniência, disfarçar a própria fraqueza ou fazer ressaltar a fraqueza do seu contendor. Averil retrucou prontamente e com vivacidade:

— No meu caso não existe nenhuma fraqueza.

Rodney confirmou as suas palavras dizendo:

— Vou provar-lhe que existe fraqueza em você...

Joan, interrompendo a conversa entre pai e filha, apressou-se logo a dizer:

— Naturalmente você não tem a idéia de praticar algum ato imoral e repulsivo, não é verdade, Averil? Eu e seu pai de forma alguma permitiríamos isso.

Depois de ouvir essas palavras, Averil, com um sorriso contrafeito, fitou o pai e não a mãe, como que dando a entender que a advertência de Joan fora dirigida diretamente a Rodney e não a ela.

Rodney suplicou mais uma vez:

— Por favor, Joan, deixe este assunto comigo.

Averil então advertiu:

— Eu acho que mamã também tem o direito de dizer o que ela pensa.

— Obrigada, Averil — disse Joan. — Não há dúvida de que eu também expressarei a minha opinião. Mas, minha filhinha, o que você pretende fazer está completamente fora de cogitação. Você é muito jovem e romântica. Por isso encara a vida por um falso prisma. Toda atitude que você tomar impulsivamente nesta fase da sua existência, vai lhe trazer muitos dissabores no futuro, quando talvez seja tarde demais para arrepender-se. E pense nas mágoas e aflições que você causaria a seus pais. Você não havia pensado nisso ainda? Estou certa de que você não quererá causar-nos tormentos, pois sempre temos dedicado a você nosso amor com tanta ternura.

Averil ouviu pacientemente essas palavras mas não deu nenhuma resposta. Ela não deixava de fitar a face do pai por um instante sequer.

Quando Joan terminou de falar, Averil estava encarando Rodney e conservava nos lábios um leve sorriso escarninho.

— Bem, papai — prosseguiu ela —, o senhor tem algo para acrescentar às palavras de mamã?

— Não para acrescentar mas sim para dizer-lhe com palavras e conceitos meus, dimanados do meu próprio pensamento.

Averil encarou-o com uma expressão interrogativa no olhar.

— Averil, será que você compreende mesmo o que significa um casamento?

Averil ficou com os olhos um pouco arregalados.. Depois de uma pequena pausa interrogou o pai:

— Será que o senhor pretende me explicar que o casamento é um sacramento?

— Não, não é bem isso o que eu quero dizer. Eu posso considerá-lo um sacramento ou deixar de considerá-lo como tal. Pouco importa. O que eu quero explicar-lhe é que o casamento é um contrato.

— Oh! — exclamou Averil.

Ela pareceu ter ficado um pouco (um pouquinho só) desapontada com as palavras de Rodney.

— O casamento é um contrato celebrado entre duas pessoas de sexos diferentes, ambas com a maioridade já atingida, que se encontram em plena posse de suas faculdades mentais e que têm pleno conhecimento do compromisso que vão assumir. Esse contrato, na sua essência, se caracteriza como uma sociedade onde cada um dos participantes — tanto o homem como a mulher — se obriga expressamente a honrar e acatar suas disposições, isto é, se compromete a observar fielmente a promessa de se ampararem mutuamente em toda e qualquer contingência da vida — nas fases de doença ou de saúde, nos períodos de riqueza ou de miséria, nos bons ou nos maus momentos. Não é pelo fato de serem tais palavras também proferidas por um sacerdote ao confirmar com a sua bênção a união dos nubentes que o ato em si deixa de ter o caráter de um contrato, porquanto qualquer acordo celebrado em boa fé entre duas pessoas define-se como sendo um contrato. Também não é pelo fato de não terem alguns dos compromissos plena validade perante o tribunal que eles devem ser relegados a um plano secundário pelas pessoas que livremente os assumiram. Acho que você terá que concordar comigo neste particular.

Verificou-se, então, uma pequena pausa e depois Averil começou a falar:

— Isto poderia ter sido verdadeiro noutros tempos mas atualmente a matrimônio é encarado de maneira diferente, pois um considerável número de pessoas não se casa pela igreja, e portanto não toma conhecimento de tais palavras proferidas pelo sacerdote.

— Não digo o contrário. Mas você deve considerar que dezoito anos atrás Rupert Cargill assumiu um compromisso numa igreja onde tais palavras foram empregadas. Portanto, repto você a me provar que ele, naquela época, não celebrou um acordo em boa fé e com o propósito de cumpri-lo.

Averil encolheu os ombros. Rodney prosseguiu:

— Você não admite que Rupert Cargill celebrou um contrato dessa espécie com uma mulher que é a sua esposa, muito embora algumas das obrigações por ele assumidas não sejam passíveis de plena validade em juízo? Evidentemente, naquela época ele levou em conta, também, a possibilidade de verificar-se uma situação de pobreza e de doença no futuro, declarando expressamente que tal circunstância de forma alguma afetaria o vínculo contratual.

Averil ficou bem pálida. Respondeu simplesmente:

— Não sei aonde o senhor quer chegar com toda esta conversa.

— Quero que você admita, deixando de lado todo e qualquer tipo de sentimentalismo, que o matrimônio se caracteriza como um contrato que estabelece vínculo de obrigações recíprocas.

— Eu admito.

— E Rupert Cargill está no firme propósito de, com a sua conivência, romper um contrato por ele celebrado.

— Sim.

— E terá ele a coragem de proceder desse modo sem levar em consideração os direitos e privilégios da outra parte sujeita às disposições contratuais?

— Ela vai ficar muito bem. Ela não gosta tanto assim de Rupert como vocês supõem. Só se preocupa com a sua doença e...

Rodney interrompeu-a com veemência:

— Não quero manifestações sentimentais da sua parte, Averil. Só quero que você admita o fato objetivamente como ele se apresenta na sua caracterização.

— Eu não estou sendo sentimental.

— Afirmo que você está sendo muito sentimental. Não posso absolutamente conceber que você tenha penetrado os pensamentos e os sentimentos da Sra. Cargill. É você mesma que, deixando-se levar pela sua emotividade, está forjando em seu espírito todas essas idéias para justificar sua atitude. Tudo o que eu quero de você é simplesmente que admita que ela tem razão.

Averil atirou a cabeça para trás.

— Está bem. Devo concordar com o senhor. Ela tem razão.

— Então, você está completamente cônscia do que pretende fazer?

— Você já acabou de dizer tudo o que queria, papai?

— Não. Tenho mais uma coisa para dizer-lhe. Você deve compreender que Cargill está fazendo um trabalho muito importante com a aplicação dos seus métodos para o tratamento da tuberculose. Ele já obteve sucessos tão surpreendentes que está sendo considerado um dos vultos preeminentes da classe médica. Mas infelizmente um caso de natureza estritamente privada poderá vir a afetar a sua carreira. E isto significa que o trabalho de Cargill em benefício da humanidade vai ficar seriamente comprometido, senão totalmente destruído. E tudo isso poderá acontecer só por causa do que vocês estão tentando fazer...

Averil retrucou:

— Então o senhor está tentando persuadir-me de que é meu dever abandonar Rupert só para que ele possa continuar a fazer benefícios para a humanidade?

Notava-se um leve acento de escárnio na sua voz.

— Não — respondeu Rodney prontamente. — Estou pensando nele mesmo. No próprio Dr. Cargill, aquele pobre diabo...

Havia na voz de Rodney um inconfundível tom de veemência.

— Se você ainda não sabe, Averil, digo-lhe agora, com base na minha própria experiência, que todo homem que não consegue dedicar-se aos trabalhos que deseja fazer — aos trabalhos para os quais ele nasceu com pendores especiais — nunca será um homem completo. Será sempre um homem pela metade. Garanto-lhe com tanta certeza como estou certo de estar, neste momento, aqui na sua presença que, se você impedir Rupert Cargill de prosseguir no seu trabalho, chegará um dia em que você verá o homem amado por você completamente infeliz, irrealizado, envelhecido antes do tempo, aborrecido e desalentado, vivendo apenas a metade da sua vida. E se você pensa que o seu amor ou o amor de qualquer outra mulher pode compensar as frustrações que ele teria em tal hipótese, então permita que eu lhe diga com toda a sinceridade: você não passa de uma jovem tola, extremamente sentimental.

Ele fez uma pausa, encostou-se na cadeira e começou a alisar os cabelos.

Averil respondeu:

— O senhor me diz tudo isso. Mas como podia eu saber...

Ela interrompeu a frase e depois tentou repeti-la:

— Mas como podia eu saber...

— Então não é a pura verdade o que acabei de lhe explanar? Eu quis apenas dizer-lhe que eu penso assim e falei a você baseando os meus argumentos na minha própria experiência pessoal. Estou conversando com você, Averil, não só como um homem mas também como seu pai.

— Sim ... Eu sei...

Rodney, agora, passou a falar com uma voz quase sumida que parecia abafada:

— Cabe a você, Averil, meditar sobre o que lhe falei, a fim de verificar se deve aceitar ou rejeitar os meus conselhos. Acho que você tem coragem e discernimento suficientes para isso.

Averil dirigiu-se devagarinho em direção à porta. Já estando com a mão no trinco, ela olhou para trás. Num tom de voz que exprimia profunda amargura e traduzia um tão forte desejo de vindita a ponto de deixar Joan assustada, disse ao pai:

— Não pense que eu serei grata ao senhor, papai. Eu acho... Eu acho que odeio o senhor.

Então ela saiu rapidamente e fechou a porta. Joan fez menção de correr atrás dela mas Rodney interrompeu-a com um gesto.

— Deixe-a ficar só — disse ele. — Deixe-a só. Será que você não percebeu? Vencemos a parada!