A Ausência
Onze
Até parecia um sonho... Sim, tudo como num sonho.
Passando através daquele emaranhado de fios de arame farpado, o jovem árabe levava a mala de viagem de Joan. Ao chegar ali ele falou em turco com o agente da estação, pronunciando as palavras com a língua engrolada e fazendo estrídulos.
E eis que agora ela via ali o carro-dormitório com aquele aspecto que lhe era tão familiar. O condutor, enfiado no seu uniforme cor de chocolate, estava debruçado sobre a janela do carro. A tabuleta colocada na parede lateral da vagão, pelo lado de fora, indicava: Alep-Estambul.
Finalmente havia chegado o trem, o único traço de união que ligava aquele ambiente de quietude em pleno deserto à civilização.
E então, como que por encanto, a vida se manifestou sob um aspecto novo naquele local: os cumprimentos em francês, cheios de cortesia, os leitos arrumados com lençóis e travesseiros de aparência mais agradável.
Finalmente, a civilização de novo...
Joan, pelo menos exteriormente, voltou a ser a viajante calma e desembaraçada de sempre. De um momento para outro ela se tornou a mesma Sra. Scudamore que havia saído de Bagdá menos de uma semana antes. Entretanto ninguém mais, a não ser a própria Joan, conhecia a surpreendente e quase assustadora mudança que se havia operado no seu íntimo.
O trem chegou no momento bem oportuno — precisamente no momento em que ela, depois de ter sofrido o impacto de uma terrível angústia ocasionada pela solidão, já havia acabado de derrubar a barreira que ela própria havia erigido em seu espírito e que a impedia de tomar consciência da realidade dos fatos que aconteciam na sua vida.
Podia-se dizer que ela teve — como aliás em todas as épocas acontece com tantas outras pessoas — uma visão! Uma visão introspectiva. Ela conseguiu observar-se a si mesma.
E muito embora a partir desse instante ela pudesse parecer uma viajante inglesa comum, preocupando-se como qualquer outra mulher até com mínimos detalhes da viagem, a verdade era que o seu coração e a sua mente divagavam num outro plano muito diferente. Persistiam nela os reflexos da humilhação pela autocensura que se vira compelida a fazer após as meditações feitas na solidão do deserto, sob a radiante luz do sol.
Ela respondia maquinalmente às perguntas do hindu.
— Por que Memsahib não volta para almoçar? Almoço está pronto. Almoço muito bom. Já são quase cinco horas. Muito tarde para almoço. A senhora quer chá?
— Sim, prefiro chá.
— Mas onde Memsahib foi? Eu olhei para fora e não vi Memsahib em lugar nenhum. Eu não sabia onde está Memsahib.
Ela explicou-lhe ter espichado a sua caminhada um pouco mais do que costumava fazer.
— Não pode ser. Não pode estar certo. Memsahib fica perdida. Não sabe caminho certo para voltar. Talvez segue caminho errado.
Ela, então, confirmou-lhe que, de fato ficara desorientada durante algum tempo mas que felizmente sempre caminhara na direção certa. Explicou-lhe que desejava apenas tomar o seu chá e descansar um pouco. Perguntou-lhe:
— A que horas o trem vai partir?
— Trem parte às oito e meia. Às vezes espera ônibus que deve chegar. Mas nenhum ônibus vem hoje. Rios estão muito cheios de água. Não formam vau. Carro se atira na água, faz: Uóóxx!
Joan, com um movimento da cabeça, concordou com o hindu.
— Memsahib parece muito cansada. Memsahib talvez tem febre.
— Não, não tenho febre alguma no momento.
— Memsahib tem aspecto diferente.
Bem — refletiu ela — Memsahib era uma mulher diferente. E, quem sabe se ela já não estaria mostrando no seu semblante a transformação que sofrera? Ela dirigiu-se apressadamente ao seu quarto e foi olhar-se naquele espelho todo salpicado de sujeira pelas moscas.
Havia alguma diferença sensível? Com segurança ela só podia afirmar que parecia mais velha. Notavam-se sulcos de rugas que vincavam seus olhos. O seu rosto estava riscado de poeira amarela e suor.
Lavou o rosto e passou um pente nos cabelos. Em seguida passou pó-de-arroz na face e batom nos lábios. Então mais uma vez foi contemplar a face no espelho.
Sim... indubitavelmente havia alguma diferença. Algo havia desaparecido do semblante que, refletindo-se no espelho, parecia fitá-la com uma expressão de profunda seriedade. Algo... Seria a sua presunção?
Que criatura horrivelmente presunçosa ela fora durante toda a vida! Agora ela só sentia, com relação à sua própria pessoa, aquele terrível asco — uma espécie de auto-aversão — que lá fora, em pleno deserto, invadira o seu espírito, tornando-a humilde.
Rodney... Rodney...
Era somente este nome que ela, em pensamento, repetia cheia de ternura... Apegou-se a esse nome como se ele fosse um símbolo motivador da resolução que tomara.
De fato ela agora estava resolvida a contar-lhe tudo o que sentira no seu íntimo sem tentar de forma alguma ser complacente consigo mesma.
Manifestaria a Rodney ter compreendido perfeitamente que se impunha, da parte dela, modificar o seu comportamento. Dali por diante, tanto quanto lhes fosse possível nessa fase do descambar da existência, juntos, eles passariam a viver uma nova vida. Confessar-lhe-ia sem rebuços: — Tenho sido sempre uma tola e minha vida foi um fracasso. Ensine-me, com base na sua sabedoria e na sua bondade, a verdadeira maneira para vivermos felizes.
Falaria assim a Rodney e suplicaria o seu perdão. E na verdade ele teria que perdoá-la por um montão de faltas.
E o que havia de mais sublime em Rodney (só agora ela se dava conta disso) era o fato de nunca a ter odiado. Não era de admirar-se, portanto, que Rodney fosse tão querido assim por todos. Os filhos o adoravam (até mesmo Averil, apesar dos desentendimentos que tivera com o pai, nunca deixou de amá-lo). Os criados faziam todo o possível para agradar a Rodney. Por toda parte ele tinha amigos. Rodney durante toda a sua vida nunca fora descortês para ninguém.
Joan suspirou. Estava muito cansada e sentia dores por todo o corpo.
Tomou o chá e depois atirou-se sobre a cama para descansar até chegar a hora do jantar e de se dirigir à estação para embarcar.
Ela já não mais sentia intranqüilidade nem medo nem a necessidade de procurar algo para distrair-se.
Já não havia mais lagartos precipitando-se para fora das suas tocas a fim de assustá-la.
Ela se encontrara consigo mesma e se reconhecera...
Agora só queria descansar, estendendo-se na cama com o espírito aliviado, mas sempre tendo na mente, como que ressaltada pelo contraste com um fundo escuro, a imagem da face amável de Rodney...
E ei-la, agora, já embarcada no trem, ouvindo do condutor loquaz o minucioso relato dos acidentes verificados na ferrovia, enquanto ela lhe exibia o seu passaporte e o seu bilhete para ser picotado.
Atendendo sua solicitação, o condutor prometeu-lhe telegrafar imediatamente a Estambul a fim de reservar-lhe passagem no Simplon Orient Express. E ela não se esqueceu de incumbir-lhe, também, de passar um telegrama a Rodney, a ser transmitido de Alep.
Viagem retardada. Tudo bem. Beijos. Joan.
Rodney receberia este telegrama antes de expirar-se o prazo previsto para o término da viagem que ela havia encetado em Bagdá.
Desse modo, tudo ficou arranjado e ela nada mais tinha com que se preocupar. Já podia relaxar-se tal qual uma criancinha que está cansada.
Mais cinco dias de paz e de sossego, enquanto o Taurus e o Orient Express avançariam em direção ao ocidente levando-a cada dia para mais perto de Rodney e do almejado perdão.
O trem chegou a Alep no dia seguinte, de manhã cedo. Joan foi a única passageira que viajou até aquela estação, pois encontravam-se interrompidas as comunicações com o Iraque. Em Alep o trem ficou transbordando de tanta gente que embarcou. Houve demora com cancelamentos de passagens e com enganos verificados no registro de leitos reservados. Surgiram muitas discussões, protestos, alegações e disputas. Ouvia-se falar ali em diversos idiomas.
Joan viajava de primeira classe e no Taurus Express os carros-dormitório de primeira classe eram do tipo antigo, com leitos duplos.
Em dado momento, a porta foi empurrada para trás e uma mulher alta, vestida de preto, entrou na cabine.
Atrás dela, o camareiro, com os braços estendidos, agarrava as valises e malas de viagem que os carregadores lhe entregavam através da janela.
O compartimento do vagão parecia estar cheio de malas — todas elas vistosas e caras, contendo coroas estampadas nos seus contornos.
A mulher alta falava em francês com o camareiro, indicando-lhe o lugar onde ele devia colocar as suas coisas.
Finalmente o camareiro retirou-se e ela, virando-se para Joan, esboçou um sorriso de pessoa dotada de longa vivência nos ambientes cosmopolitas.
— A senhora é inglesa? — perguntou ela a Joan.
Ela deixava perceber apenas um leve sotaque na pronúncia. Tinha o rosto alongado e pálido, com uma estranha expressão. Nos seus olhos notava-se uma curiosa tonalidade claro-cinzenta. Devia ter aproximadamente quarenta e cinco anos.
— Peço-lhe desculpas por esta minha intrusão a esta hora da manhã. É um horário extremamente ruim para a partida de trens e eu não pude evitar de importuná-la. Também deve-se dizer que estes, carros-dormitório são do tipo antigo. Os carros modernos dispõem de compartimentos individuais. Contudo, mesmo viajando num vagão como este, não teremos muito tempo para nos irritarmos: daqui até Estambul não levaremos mais do que dois dias e a senhora verá que eu não sou uma pessoa de difícil convivência.
Ela falou conservando nos lábios um sorriso afável e cativante, quase como um sorriso de criança.
— E se a senhora achar que eu a importuno fumando demais, pode me chamar a atenção com toda a franqueza. Agora vou deixar que a senhora durma sossegada. Irei até o carro-restaurante que está para ser engatado ao comboio (neste exato momento ela oscilou um pouco por causa do choque produzido com o engate dos carros, fato este que comprovava as suas palavras). Irei tomar o meu café. Digo-lhe mais uma vez que sinto muito por tê-la importunado a esta hora...
— Oh, não se aflija... Está tudo bem... Quem viaja deve saber que ocorrências dessa espécie são inevitáveis.
— Já percebi que a senhora é compreensiva e bondosa. Estou certa de que nos entenderemos bem.
Ela saiu e logo que a porta se fechou atrás dela, Joan começou a ouvir vozes de pessoas da amizade dela que, da plataforma da estação, a saudavam gritando: Sasha! Sasha! Sasha! Depois de ter havido uma verdadeira explosão de cumprimentos efusivos, um grupo de pessoas gárrulas começou a conversar num idioma que os ouvidos de Joan não conseguiram identificar.
Depois da entrada dessas pessoas no carro-dormitório, Joan fincou completamente desperta.
Mas ela tivera um sono repousante e sentia-se com boa disposição. Normalmente num comboio Joan conseguia dormir muito bem. Portanto, ela levantou-se e tratou de se vestir. Quando acabou de fazer a toalete, o trem já ia se aproximando de Alep. Então ela resolveu também ir até o carro-restaurante. Antes de sair para o corredor que servia de passagem no meio do vagão, deu uma rápida olhadela na etiqueta afixada na valise da sua companheira de viagem:
Princesa Hohenbach Salm.
No carro-restaurante Joan encontrou-a já fazendo a sua refeição matinal, enquanto palestrava animadamente com um francês baixote e gordo.
A princesa acenou-lhe com a mão e apontou-lhe uma cadeira ao seu lado.
— A senhora é vigorosa e desembaraçada — exclamou ela. — Eu, se dependesse de mim, estaria ainda deitada ressonando... Agora prossiga, Monsieur Baudier, com o que o senhor estava me contando. É muito interessante.
A princesa conversava em francês com Monsieur Baudier, em inglês com Joan e expressava-se fluentemente em turco quando se dirigia ao garçom. Eventualmente, falando através da passagem entre as filas de mesas, ela também se comunicava num italiano bem fluente como um oficial daquela nacionalidade, de aspecto bastante melancólico.
A essa altura, tendo terminado a sua refeição, o gorducho francês se retira, inclinando-se polidamente.
— Que extraordinária poliglota é a senhora! — exclamou Joan, dirigindo-se a ela.
Um sorriso iluminou a sua face alongada e pálida — só que desta vez foi um sorriso que parecia denotar profunda melancolia.
— Bem... E por que não devia ser assim? Sou russa, como a senhora bem pode perceber. Já estive casada com um alemão e vivi durante muitos anos na Itália. Falo oito ou nove línguas. Umas bem, outras não tão bem. A senhora não acha que é um prazer poder conversar com as outras pessoas? Todas as criaturas humanas são interessantes e a vida da gente é tão curta!... As pessoas devem sempre trocar idéias e experiências. Infelizmente só posso dizer que no mundo não existe amor. Às vezes minhas amigas dizem-me: — Sasha, há povos que a gente absolutamente não pode amar — por exemplo, turcos, armênios, levantinos. Mas eu lhes replico logo afirmando: — Não é verdade! Eu os amo! Garçon, l’addition.
Joan não compreendeu muito bem a parte final desta conversa, pois ela proferira a última frase praticamente ligada à anterior.
O garçom do restaurante veio atendê-la bem ligeiro, curvando-se para ela respeitosamente e todo cheio de mesuras. Joan logo se deu conta de que a sua companheira de viagem era uma pessoa de considerável importância.
Durante toda a manhã e parte da tarde o trem correu serpeando através de um terreno plano. Mas depois, já quase penetrando em Taurus, o comboio principiou a subir vagarosamente através de uma região um tanto escarpada.
Sasha permanecia sentada no seu cantinho lendo e fumando. Lá uma vez ou outra ela fazia certos comentários, alguns dos quais eram até bem surpreendentes. Joan sentia-se fascinada por essa estranha mulher que viera dum país diferente, cuja mentalidade e comportamento eram bem diversos dos que ela até então tivera a oportunidade de conhecer.
A conversa dessa mulher, misturando confidências de natureza íntima com assuntos impessoais, exercia em Joan um estranho fascínio.
Inesperadamente Sasha lhe pergunta:
— A senhora não lê? Noto que a senhora não faz nada com as mãos. Não faz tricô? A senhora até parece não ter os hábitos das mulheres inglesas. E no entanto nota-se à primeira vista que a senhora é mais inglesa do que... Sim, a senhora parece exatamente uma inglesa.
Joan, sorrindo, respondeu-lhe:
— De momento não tenho nada para ler. Fui forçada a ficar em Tell Abu Hamid por causa de desarranjos e estragos na ferrovia. Lá, não tendo outra coisa para entreter-me, li todos os livros que trazia comigo.
— Mas a senhora não se importou com isso? Pelo que vejo não julgou necessário adquirir alguns livros em Alep. Não... A senhora já se julga satisfeita só em ficar sentada aí no seu cantinho olhando para fora da janela a fim de contemplar as montanhas... E, contudo, tenho a impressão de que a senhora não as está observando... Parece estar contemplando algo que só a senhora vê, não é verdade? Nota-se que está vivendo momentos de grande emoção... ou que já sentiu uma forte emoção cujos reflexos ainda perduram. Teve a senhora alguma aflição? Alguma alegria bem grande?
Joan, franzindo as sobrancelhas e mostrando um certo desagrado, hesitou em responder-lhe.
Sasha quase se rebentou de tanto rir.
— Ah... mas esta sua atitude é bem inglesa. À senhora considera um despropósito e um atrevimento quando lhe faço perguntas que nós, os russos, achamos muito naturais. É bem curioso. Se eu lhe perguntasse onde a senhora esteve — em que hotéis se hospedou — quais as paisagens que viu — se tem filhos e o que fazem eles — se tem viajado muito — ou se a senhora conhece algum bom cabeleireiro em Londres, a todas estas perguntas a senhora me responderia com prazer. Mas se lhe pergunto algo que me ocorre no momento como, por exemplo — se a senhora teve alguma aflição — se o seu marido é fiel — se a senhora dorme freqüentemente com homens — qual foi a sua mais bela sensação na vida — se percebe o amor de Deus, a senhora, ofendida se retiraria imediatamente. E no entanto estas perguntas são mais interessantes do que as outras, não é verdade?
Calmamente, como que pesando as suas palavras, Joan respondeu:
— Eu acho que nós, os ingleses, somos muito reservados.
— Sim, sim. A uma inglesa casada há pouco tempo não se pode nem sequer perguntar se o bebê já está a caminho. Não se pode, por exemplo, fazer tal pergunta à mesa, na hora da refeição. Ela só pode ser feita confidencialmente ou cochichando no ouvido. Todavia, se o bebê estiver ali presente, no seu bercinho, não causa nenhum assombro perguntar: — Como está passando o bebê?
— Bem... convenhamos... trata-se de uma pergunta de natureza íntima, não é verdade?
— Não. Sinceramente não penso assim. Outro dia encontrei uma amiga, uma húngara, que fazia um bocado de anos que não via. Mitzi — perguntei —, eu sei que faz muitos anos que você está casada e nunca teve filhos. Por quê? Ela respondeu-me que não podia atinar com a causa. Disse-me que durante cinco anos ela e o marido experimentaram tudo o que foi possível para terem filhos mas nada conseguiram. E como eles se esforçaram! Então perguntou-me ela: — Que será que eu devo fazer? E como estávamos almoçando numa reunião de senhoras, cada uma delas dava a sua sugestão. Sim, e algumas dessas sugestões até que eram bem razoáveis. Quem sabe se ela não obteria bom resultado se as praticasse?
Joan, denotando no semblante uma expressão fleumática, de forma alguma considerava persuasivos os argumentos da princesa.
E, apesar disso... inopinadamente ela passou a sentir um desejo irreprimível de abrir o seu coração para essa mulher estrangeira, que lhe parecia uma criatura amável, com um comportamento todo especial.
Joan, como que dominada por uma ânsia incontida, não mais podia frear o seu desejo de comunicar a alguém as sensações vividas com as suas aventuras. Parecia-lhe que só assim poderia certificar-se da realidade dos fatos. Então começou a falar lentamente:
— É verdade... A senhora fez uma suposição acertada com relação à minha pessoa: nestes últimos dias passei por uma situação bastante aflitiva e perturbadora.
— Ah, sim?! Que é que foi? Algum homem?
— Não, não! Nada disso!
— Alegro-me em saber. As perturbações que surgem e que têm um epílogo doloroso envolvem quase sempre algum homem.
— Eu me encontrava sozinha na casa de pernoite de Tell Abu Hamid... um lugar terrível onde só se viam latas vazias amontoadas, enxames de moscas e um emaranhado de fios de arame farpado. Dentro de casa a gente sentia-se invadida pela melancolia, pois era um ambiente conservado sempre na penumbra...
— Isto é necessário, por causa do calor no verão... Mas prossiga. Compreendi perfeitamente o que a senhora quis dizer.
— Não havia pessoa alguma com a qual eu pudesse conversar.
Bem ligeiro li os poucos livros que eu havia trazido comigo. Então adquiri... adquiri uma estranha disposição de espírito...
— Sim, sim. Não há dúvida. É um caso que bem pode acontecer. E é bem interessante o que a senhora está me contando. Prossiga, por favor.
— Então comecei a descobrir coisas... a respeito de mim própria. Coisas que eu não sabia antes. Ou, melhor dizendo, que eu sabia mas que nunca desejei reconhecer como fatos verdadeiros... Sinto dificuldade em explicar-lhe de um modo mais positivo...
— Oh, não diga isso. A senhora pode explicá-las, sim. Eu as compreenderei.
O interesse manifestado por Sasha era tão espontâneo e tão despretensioso que Joan, dali por diante, passou a conversar com ela desinibidamente. Já que para Sasha era a coisa mais natural deste mundo falar sobre os sentimentos íntimos, mesmo envolvendo aspectos confidenciais, Joan pareceu ter-se deixado influenciar por tal idéia e começou a descrever abertamente os temores e apreensões que tivera bem como o pânico que finalmente a invadira.
— Poderá parecer-lhe um grande absurdo o que estou lhe contando, mas o fato é que eu me senti completamente perdida, sozinha, tendo a impressão de que Deus me havia abandonado.
— Sim. Às vezes a gente tem essa impressão. Eu mesma já a tive. Tudo em torno da gente se torna terrível e sombrio.
— Mas não era sombrio. Havia luz. Brilhava um sol ofuscante. Não havia nenhum abrigo, nenhuma cobertura, nenhuma sombra.
— Seja lá como for. Ambos queremos significar a mesma coisa. Para a senhora a luz se tornara horrível, quase insuportável, porque a senhora havia permanecido durante muito tempo num lugar de obscuridade. Mas no meu caso houve escuridão. Não pelo fato de não poder enxergar o meu caminho ou por ter ficado perdida numa noite trevosa. A sufocante angústia que às vezes invade a alma da gente faz o mesmo efeito. A angústia que a gente sente quando se torna cônscia de que não é nada neste mundo e de que está excluída do amor de Deus.
Joan prosseguiu, falando devagarinho:
— E, então, aconteceu algo de assombroso... exatamente como quando se dá um milagre: eu passei a ver tudo claramente. Vi a mim própria e tive consciência do que fui antes. As minhas estúpidas presunções e a minha falsa aparência dissiparam-se do meu espírito. Foi como... foi como se eu tivesse nascido de novo.
Joan fitou a sua interlocutora que com um meneio de cabeça, lhe confirmou estar compreendendo tudo perfeitamente.
— Então fiquei sabendo o que teria que fazer: eu deveria voltar para casa e começar tudo de novo. Teria que iniciar uma nova vida... construir tudo desde o princípio.
Houve então uma pequena pausa. Sasha, pensativa, fitava Joan. Algo indefinível na expressão do semblante da princesa intrigava Joan que, por isso, reencetou a conversa com menor entusiasmo, freando a sua emoção.
— Bem sei que este meu relato pode até parecer melodramático e muito forçado...
Sasha interrompeu-a:
— Absolutamente não! A senhora não deve subestimar a minha capacidade de compreensão. Bem sei que as emoções vividas pela senhora eram reais. Fatos idênticos aconteceram a muitas pessoas — a São Paulo e a outros santos de Deus bem como a um grande número de mortais comuns e de pecadores. Chama-se isso conversão. É o que se pode definir, também, como sendo uma visão. Visão introspectiva que faz com que a alma conheça as suas próprias amarguras. Sim, foi bem real o que a senhora sentiu... Tão real como dizer-se que a senhora há pouco esteve fazendo a sua refeição ou escovando os dentes. Contudo eu me admiro..
— Eu percebi ter sido muito cruel causando danos a uma pessoa que eu amo...
— Compreendo, compreendo. Remorsos foi o que a senhora sentiu.
— Estou num estado tal que, de tão ansiosa, nem vejo a hora de me dirigir a essa pessoa... a hora de chegar em casa, quero dizer. Há muitas, muitas coisas que eu terei que dizer-lhe.
— Dizer a quem? Ao seu marido?
— Sim. Ele sempre foi tão amável, tão paciente. Mas não foi feliz. Eu nunca lhe proporcionei felicidade.
—A senhora acha que agora está em melhores condições de fazê-lo feliz?
— Pelo menos poderemos ter um entendimento. Explicar-lhe-ei tudo. Ele então ficará sabendo quanto eu estou sentida por ter procedido assim. Poderá ajudar-me a... ajudar-me a... Como direi? (As palavras do ofício litúrgico da Santa Comunhão passaram pela sua mente como um relâmpago.)... Poderá ajudar-me a mudar de vida.
Sasha com uma voz ponderada obtemperou-lhe:
— Exatamente isso foi o que fizeram os santos de Deus.
Joan encarou-a.
— Mas eu... eu não sou uma santa.
— Eu bem sei que a senhora não é nenhuma santa. Percebi logo isso.
Sasha fez uma diminuta pausa e depois prosseguiu com uma ligeira mudança no seu tom de voz.
— Perdoe-me por lhe ter eu falado assim. Talvez nem seja verdadeira a minha suposição.
Joan fitou-a um tanto embaraçada. Sasha acendeu outro cigarro e começou a fumar enquanto olhava para fora da janela.
— Nem sei por que foi que lhe contei todas essas coisas...
— É evidente que foi porque a senhora teve necessidade de relatá-las a alguém. A senhora sente o irreprimível desejo de falar acerca desse assunto a fim de dizer tudo o que se passa no seu íntimo. A sua atitude é muito natural.
— Mas habitualmente eu sou muito reservada no falar.
Sasha encarou a sua interlocutora parecendo ter achado graça nas suas palavras e disse-lhe:
— E naturalmente a senhora se orgulha por ser assim reservada no falar como todos os ingleses. Oh, o seu povo é bem interessante. É um povo tão suscetível de envergonhar-se e de atrapalhar-se por causa das suas concepções de virtude. Um povo que está sempre pronto a admitir as suas imperfeições, até mesmo vangloriando-se delas.
— Acho que a senhora está exagerando um pouco — disse Joan, constrangida.
De repente Joan começou a sentir-se bem inglesa e muito diferente daquela exótica mulher de face pálida que estava sentada ali no lado oposto do carro. Pareceu-lhe até que um verdadeiro abismo a separava daquela mulher a quem ela, Joan, uns dois minutos antes fizera confidências acerca de fatos íntimos, de caráter estritamente pessoal.
Joan, então, perguntou-lhe num tom de voz convencional:
— A senhora pretende continuar a sua viagem pelo Simplon Orient?
— Não. Eu tenho que ficar uma noite em Estambul. Depois, então, seguirei para Viena.
Após uma diminuta pausa acrescentou despreocupadamente e com ares de indiferença:
— É bem provável que lá em Viena eu vá morrer logo... Mas também pode ser que não...
— Quer dizer então... — Joan constrangida hesitava em concluir a frase — quer dizer que a senhora teve alguma premunição?
— Oh, não! — Sasha deu uma risada. — Não se trata propriamente de uma premunição. É que lá eu terei que me submeter a uma intervenção cirúrgica. Uma operação muito séria. Não são lá muitos os casos de sucesso com operações dessa espécie. Mas em Viena há bons cirurgiões. O cirurgião que vai me operar — um judeu — é muito hábil e inteligente. Eu sempre afirmei que é uma grande estupidez pretender aniquilar os judeus na Europa. Os médicos e cirurgiões judeus são muito hábeis e talentosos. E o talento dos judeus se revela também no plano artístico.
— Oh, minha cara, sinto muito.
— A senhora sente porque eu vou morrer? Mas que importa isso? Todos têm que morrer. Cada qual tem o seu dia. Mas talvez eu não morra. Já tomei a resolução de, se não morrer, entrar para um convento que eu conheço. Trata-se do convento de uma ordem que adota regras muito severas. Lá, depois de proferido o voto perpétuo, não se pode mais falar e vive-se continuamente fazendo orações e meditando.
Joan, de forma alguma, podia conceber uma Sasha perpetuamente calada e meditativa...
— Em breve, quando rebentar a guerra, as orações se farão extremamente necessárias.
— A guerra?! — interrogou Joan surpresa.
— A guerra, sim. Já não há mais dúvida de que vamos ter guerra. No ano que vem ou, o mais tardar, dentro de dois anos.
— Sinceramente... Acho que a senhora está errada.
— Não estou errada, não. Tenho amigos que andam sempre bem informados e eles me garantiram que estamos às portas da guerra. Já está tudo preparado para começá-la.
— Mas guerra onde? Contra quem?
— Guerra em toda parte. Todas as nações ficarão envolvidas. Meus amigos acham que a Alemanha vencerá rapidamente mas eu... eu não concordo com eles. A não ser que os alemães vençam logo, com uma rapidez incrível, eles não mais terão possibilidades de vitória. Que pensa a senhora? Conheço muitos ingleses e americanos e sei perfeitamente como eles são.
— Mas certamente ninguém deseja a guerra — argumentou Joan, mostrando-se incrédula.
— Então com que outro objetivo existe o movimento da juventude hitlerista?
Joan ponderou-lhe:
— Eu também tenho amigos que estiveram na Alemanha durante um bocado de tempo e eles acham que há muitas coisas boas que podem ser alegadas a favor do movimento nazista.
— O-lá-lá! — fez Sasha. — Procure observar se eles dirão a mesma coisa depois de decorridos três anos.
Enquanto o trem diminuía gradualmente a marcha para parar, ela pendia um pouco o seu torso para a frente.
— Veja, já estamos chegando em Cilicia Gates. É um lugar lindo, a senhora não acha? Vamos descer um pouco?
Elas saíram do trem e ficaram na plataforma da estação contemplando, através da enorme brecha no desfiladeiro de uma cadeia de montanhas, a planície enevoada que ficava lá embaixo, do outro lado...
Era quase a hora do ocaso e o ar estava calmo e frio.
Joan pensou: Que lindo! Como ela gostaria se Rodney estivesse ali com ela, para admirar também aquela paisagem.