A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 4 de 13

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A Ausência

Quatro

 

Joan chegou à casa de pernoite quase sufocada pelo calor.

Inconscientemente havia acelerado os passos como que procurando tomar a dianteira a esses pensamentos importunos que não queriam se despregar da sua mente.

O hindu fitou-a com certa curiosidade e perguntou-lhe:

— Memsahib caminha muito ligeiro. Por que caminha ligeiro? Tem muito tempo aqui.

— Oh, Santo Deus! — exclamou Joan. — Realmente disponho de muito tempo aqui!

O hindu, a casa de pernoite, as galinhas, as latas velhas no monturo de lixo e a cerca de arame farpado — tudo isso começava a irritá-la fortemente, deixando-a atacada dos nervos.

Dirigiu-se ao seu quarto e pegou o The Power House. Abriu o livro e começou a ler. Leu a metade do livro até a hora de ir ao refeitório.

O almoço constava de omelete com feijão cozido no forno, salmão com arroz e damascos enlatados.

Joan comeu só um pouquinho.

Voltou em seguida ao quarto e deitou-se. Era muito bom repousar um pouco depois de ter caminhado apressadamente sob o sol abrasador.

Fechou os olhos mas o sono não veio. Ela permanecia bem desperta prestando atenção em tudo.

Levantou-se, tomou três aspirinas e deitou-se de novo. Cada vez que ela fechava os olhos via o lindo dorso de Rodney que, empertigado e ágil, saía da gare da estação. Isto até já estava se tornando insuportável.

Então abriu um pouco à cortina da janela para deixar entrar um pouco de sol e começou a ler novamente The Power House. Faltando algumas páginas para terminar o livro, pegou no sono.

Então sonhou que ia participar de um torneio com Rodney. Eles tiveram muita dificuldade em encontrar as bolas. Finalmente, depois de um certo tempo, se encontravam no meio da quadra. Exatamente quando ela começava a sacar verificou que eslava jogando contra Rodney e a jovem Randolph. Dali por diante não fez outra coisa senão cometer faltas.

“Rodney vai me ajudar” — pensou ela. Mas qual nada! Quando ela procurou ver onde ele estava, já havia sumido. Todo mundo já tinha ido embora e começou a ficar escuro.

“Estou completamente só! Estou completamente só!”

Ela despertou num sobressalto.

— Estou completamente só — repetiu baixinho.

Ela não conseguiu livrar-se logo dos reflexos desse sonho. Pareceu-lhe que as palavras que acabara de pronunciar eram realmente aterradoras.

Repetiu outra vez ainda:

— Estou completamente só.

O hindu enfiou a cabeça no quarto.

— Memsahib está chamando?

— Sim. Traga-me um pouco de chá.

— Memsahib quer chá? Só às três horas.

— Eu quero o chá agora.

Ele saiu imediatamente e ela ouviu-o gritar: “Chai-chai”.

Ela levantou-se e foi postar-se diante daquele espelho todo sarapintado e poluído pelas moscas a fim de verificar se o seu aspecto era normal.

Joan começou a falar consigo mesma enquanto se contemplava no espelho: “Será que você não vai adoecer? Seu comportamento anda muito esquisito”.

Não teria sido por causa do sol?

Quando o hindu lhe trouxe o chá, ela já tinha quase voltado ao seu estado normal. Na verdade tudo o que se estava passando com ela não deixava de ser estranho e engraçado. Ora, onde é que já se viu, ela, Joan Scudamore, atacada dos nervos!! É claro que não se tratava de nervosismo. Só podia ser o efeito daquele sol abrasante... Ela não mais faria as suas caminhadas enquanto o sol não estivesse quase a ponto de sumir-se no horizonte.

Ela tomou uma xícara de chá e comeu alguns biscoitos. Depois acabou de ler The Power House. Logo que fechou o livro um incontrolável receio invadiu-lhe o espírito.

E, agora, nada mais tenho para ler — pensou ela.

E de fato nada mais tinha para ler. O bloco de cartas também já havia terminado. Nem mesmo com alguma costura ela podia entreter-se, como era de seu hábito. Outra coisa ela, agora, não podia fazer senão aguardar a chegada de um problemático trem que, talvez, só viesse alguns dias mais tarde.

Quando o hindu entrou para levar o aparelho de chá, ela perguntou-lhe:

— Que é que você está fazendo aqui?

O homem ficou surpreso com esta pergunta.

— Sou eu que atendo hóspedes passageiros, Memsahib.

— Sim, eu sei (ela procurou conter-se, controlando a sua impaciência e o seu nervosismo). Mas você gasta todo o seu tempo só atendendo as pessoas?

— Eu dou a refeição da manhã, o almoço, o chá...

— Não, não quero me referir a isso. Você não tem ajudantes?

— Jovem árabe. Muito estúpido, muito preguiçoso, muito sujo. Eu é que tenho que providenciar tudo. Não confio nele. Ele só traz água para banho e depois retira a água suja usada no banho...

— Mas vocês aqui são três: você, o cozinheiro e o rapaz árabe. Você deve ter muito tempo de sobra, não é verdade? Você sabe ler?

— Ler? Ler o quê?

— Livros.

— Eu não sei ler.

— Então que é que você faz quando não está trabalhando?

— Fico esperando até que apareça serviço.

É inútil conversar com eles — refletiu Joan. — Eles nunca compreendem o significado da conversa da gente. Esse indivíduo permanece sempre aqui, meses após meses. Lá uma vez ou outra — assim era de supor-se — ele tira umas pequenas ferias e vai à cidade para comprar alguma coisa e visitar os amigos. Afora isso, ele não arreda pé deste lugar. É bem verdade que tem a companhia do cozinheiro e do rapaz árabe...

O árabe, quando não carrega água, deita-se ao sol e fica dormindo. Assim, ele vai levando a vida mais fácil deste mundo. Joan pensou:

“Eles não me agradam nada. O único assunto sobre o qual o hindu sabe falar, em inglês, se refere a comida e bebida. Da sua boca não sai outra frase senão: ‘Tempo muito lindo!’”

O hindu se retirou. Joan, nervosa, movimentava-se no quarto de um canto ao outro.

— Sou capaz até de ficar louca. Tenho que procurar fazer algo... tenho que achar algum entretimento para passar o tempo... Seria bom até que eu me decidisse a pensar... pensar... pensar em mim própria. De forma alguma eu devo... Bem — falando com clareza — não devo permitir que o medo me domine nem devo ficar atrapalhada nesta situação. A verdade é que sempre levei uma vida atarefada, ocupando todo o meu tempo. E sempre me dediquei muito ao meu trabalho. Mas tratava-se de uma vida num meio civilizado.

Fazendo, agora, um confronto entre os dois sistemas de vida, conclui-se logo que uma pessoa operosa terá que sentir-se completamente desalentada e desajeitada ao ter que passar tanto tempo assim sem fazer absolutamente nada.

Isso não quer dizer que não haja pessoas que, mesmo estando em casa, não possam descansar, passando horas e horas sem fazer nada. Provavelmente se sentem muito felizes com a vida que levam. Até a própria Sra. Sherston, que normalmente devia trabalhar por dois, às vezes encontrava tempo suficiente para ficar sentada, sem fazer nada. Isto ela fazia principalmente quando saía para dar as suas caminhadas despendendo muita energia. Então sentava-se ela sobre um tronco de árvore ou atirava-se sobre o chão coberto de grama e ali permanecia du-rante um longo tempo contemplando como que absorta o espaço em redor.

Foi precisamente num dia em que a Sra. Sherston estava sentada dessa maneira, lançando seus olhos para longe, numa atitude de profunda meditação, que Joan teve a impressão de ter vislumbrado, numa visão fugidia, o vulto da jovem Randolph...

Ao recordar este fato, Joan ficou com as faces um tanto ruborizadas. E, na verdade, ela não podia dizer que não esteve bancando a espiã. Por isso, agora, sentiu-se envergonhada... Ela não era absolutamente desse tipo de mulher.

Mas, Santo Deus, por que terá ela que preocupar-se de novo com Myrna Randolph? Por quê? Um tipo de moça que não possui nenhum senso de moral.

Joan, então, não pôde resistir à tentação de relembrar como foi mesmo que ela se decidiu a espionar a Sra. Sherston. Tudo aconteceu num dia em que Joan estivera comprando flores da velha Sra. Garnett. Precisamente no momento em que ela saía daquela casinha de campo, ouviu a voz de Rodney que passava na estrada, no outro lado da cerca de sebe. A voz dele e uma voz feminina que lhe respondia.

Joan apressou-se em dizer adeus a Sra. Garnett e saiu caminhando em direção à estrada. Em seguida conseguiu divisar os vultos de Rodney e da jovem Randolph, quase no instante em que ambos iam atingindo a volta da estrada que conduzia a Asheldown.

Neste ponto, é bom que se frise de novo: ela não ficou muito satisfeita com o que fez nesse dia... Não era do seu hábito proceder assim. Mas o fato é que ela não pôde resistir a procurar certificar-se do que havia entre eles. Absolutamente ela não culpava Rodney. Todo mundo sabia que tipo de mulher era Myrna Randolph.

Joan tomou o caminho que subia através de Haling Wood e veio sair na estrada limpa, completamente desprovida de vegetação, que se estendia até Asheldown. Aí, então, ela pôde divisar, com os contornos mais bem definidos, os vultos de ambos — duas criaturas sentadas à beira do caminho, contemplando absortas e imóveis o panorama que se descortinava lá embaixo, naquela região Campestre profusamente iluminada por um sol radiante.

Que alívio sentiu Joan quando verificou que não era Myrna Randolph que ali estava com Rodney, mas sim a Sra. Sherston. Eles até que não estavam sentados muito perto um do outro. Havia um espaço de, pelo menos, quatro pés entre ambos. Realmente uma distância dificilmente aceitável para pessoas amigas... Mas naquela época Leslie Sherston não era ainda uma pessoa muito achegada a eles. Não se podia dizer, portanto, que entre as duas famílias houvesse uma amizade já consolidada. E além disso a Sra. Sherston certamente não podia ser tida por uma fascinante e tentadora sereia. Tal suposição seria simplesmente ridícula. Não...

Talvez ela tivesse saído para dar uma das suas costumeiras caminhadas pelo campo, tendo sido alcançada por Rodney que, então, passou a acompanhá-la por simples cortesia como era do seu hábito fazer.

Sem dúvida eles, depois de terem subido aquela estrada íngreme, caminhando sem parar até atingir a crista de Ashel down Ridge, resolveram fazer uma pequena pausa e contemplar o panorama encantador que ali se vislumbrava.

Todavia realmente espantoso era o fato de permanecerem ambos imóveis e calados. Não era uma atitude muito sociável — pensou Joan. Oh, mas certamente cada qual tinha os seus próprios pensamentos para ruminar. Talvez eles tivessem compreendido que seria melhor um não importunar o outro com conversa enquanto ambos estivessem absortos nas suas reflexões.

Foi precisamente por essa época que os Scudamores ficaram conhecendo melhor Leslie Sherston.

A descoberta dos desfalques de Sherston explodiu sobre a consternada Crayminster como uma verdadeira bomba. Sherston foi para a cadeia, a fim de cumprir sua sentença. Rodney foi o advogado que atuou em sua defesa perante o tribunal, tendo também sido o advogado de Leslie. Ele tinha muita pena da pobre mulher, desamparada, com duas crianças pequenas e sem dinheiro.

Todo mundo em Crayminster, considerando-se as circunstâncias do caso, estava propenso a ter pena da Sra. Sherston... E se aquela gente, algum tempo depois, não continuou a manifestar com a mesma intensidade a sua compaixão para com ela, isto aconteceu exclusivamente por culpa da própria Sra. Sherston. A sua expansiva alegria chocou um pouco muitas pessoas.

Joan disse a Rodney:

— Acho que ela não é lá muito sentimental...

Ele apenas respondeu-lhe, com certa aspereza, que Leslie Sherston tinha mais coragem do que qualquer outra pessoa com a qual ele tivesse tratado até então.

Joan voltou a argumentar:

— Oh, sim... coragem! Mas coragem não é tudo.

— Então coragem não é tudo? — repetiu Rodney com uma expressão esquisita no semblante e, em seguida, saiu para o seu escritório.

Coragem era uma virtude que certamente ninguém podia dizer que faltava a Leslie Sherston. De fato, ela se viu na contingência de ter que enfrentar sérios problemas, mantendo-se a si mesma e duas crianças sem que tivesse lá muito boas qualificações para a espécie de trabalho em que se envolvera.

Ela foi trabalhar numa chácara que fornecia verduras para o mercado, tendo sido obrigada a aceitar, nesse meio tempo, a ajuda de uma tia e a viver com os seus dois filhinhos num quarto. Quando Sherston saiu da cadeia, ele a encontrou trabalhando num meio muito diferente, produzindo hortaliças e legumes para vender no mercado. Ela escolhera uma localidade distante. Ele mesmo transportava os produtos para as cidades próximas e os meninos o ajudavam. Eles procuravam levar a coisa da melhor forma possível e amenizar as asperezas do trabalho. Não há dúvida de que a Sra. Sherston se esforçou como uma verdadeira heroína e sua ação teve um mérito todo especial porque foi exatamente por essa época que ela começou a sofrer da doença que, depois de muitas dores e sofrimentos, deu cabo da sua existência.

Oh, bem — pensou Joan — certamente ela amava o seu marido. Sherston era tido como um indivíduo de boa aparência que atraía as mulheres. Na prisão, seu aspecto mudara bastante. Joan, depois que ele saiu da cadeia, teve oportunidade de vê-lo só uma vez. Chegou quase a ficar chocada com a mudança que se operara na sua aparência. Ele continuava com os mesmos olhos astutos de um velhaco incorrigível mas já muito abatido. Mostrava-se um tanto rompante mas já não passava de um destroço humano. Depois que ele saiu da cadeia, sua mulher continuou a amá-lo como antes. Nunca o abandonou nem deixou de ampará-lo. Era precisamente por isso que Joan respeitava Leslie Sherston sempre reverenciando a sua memória.

Por outro lado, Joan achava que Leslie procedera de maneira absolutamente errada com relação aos seus filhinhos. Aquela mesma sua tia que lhe prestara auxílio financeiro quando Sherston foi condenado, fez-lhe uma proposta muito digna de acatamento. Isto se deu na época em que o marido estava quase para sair da cadeia.

A tia lhe propusera adotar legalmente o menor dos dois meninos e lhe declarara que havia persuadido um outro tio de Leslie a custear o colégio do seu filhinho mais velho. Os meninos poderiam passar as férias com ela e adotariam, mediante um ato legal, o sobrenome do tio.

Assegurou-lhe ainda esta sua tia que ela e o tio de Leslie assumiriam a responsabilidade de, para o futuro, garantir às duas crianças o indispensável amparo financeiro.

Leslie Sherston recusou terminantemente esta proposta. Joan achou que com tal atitude ela se mostrara muito orgulhosa. Por causa da sua obstinação os meninos perderam a oportunidade de ter uma vida muito melhor e de livrar-se da nódoa de uma ignominiosa vergonha. Por mais que ela amasse as suas crianças, Leslie deveria ter pensado, antes de mais nada, no futuro delas. Esta era a opinião de Joan com a qual Rodney também concordava.

Mas Leslie foi inflexível na sua recusa e Rodney, então, na qualidade de seu advogado lavou as mãos eximindo-se de toda e qualquer responsabilidade.

Naquela ocasião, Rodney, dando um profundo suspiro. confidenciou a Joan que se vira forçado a admitir que a Sra. Sherston indubitavelmente deveria conhecer as particularidades da sua própria vida melhor do que ele. Joan retrucou-lhe dizendo que achava Leslie uma criatura obstinada.

Movimentando-se agitada de um lado para outro na casa de pernoite, Joan não conseguia de forma alguma afugentar da sua mente a lembrança de como vira a amiga naquele dia, sentada no topo da colina em Asheldown Ridge.

Ela estava sentada com o tronco encurvado para a frente, cotovelos apoiados sobre os joelhos, segurando o queixo com as mãos. Permanecia imóvel. Contemplava, como que extasiada, toda aquela vasta região agreste, com as terras aradas, que os carvalhos e as frondosas faias da floresta de Little Havering haviam feito adquirir uma tonalidade vermelho-dourada.

Ela e Rodney sentados ali! Tão calados e em completa imobilidade. Contemplando o panorama que se descortinava na frente de ambos.

Joan até nem podia explicar a razão por que não foi falar com eles ou mesmo juntar-se a eles para fazer a sua caminhada de volta para casa. Não teria sido porque a sua consciência denotava a culpa de ter suspeitado malevolamente de Myrna Randolph?

Mas seja lá como for, ela não falou nada. Pelo contrário, ela prosseguiu sozinha o seu caminho para casa, passando através das árvores de copas frondosas a fim de ocultar-se deles.

Foi, de fato, um incidente que ela não gostava de relembrar, tanto assim que nunca o mencionou a Rodney. Ele poderia ter pensado que ela, Joan, tivesse alguma idéia estrambótica a respeito dele... A respeito dele e de Myrna Randolph, naturalmente...

Rodney, todo empertigado, caminhando com desenvoltura e a passos largos sobre a plataforma da estação Vitória!

Oh, Santo Deus, será que vai começar tudo de novo, encordoando sempre as mesmas idéias e lembranças?

Mas como foi, diabo, que esses pensamentos se introduziram no seu cérebro? Que motivos tinha ela para pensar que Rodney (que sempre lhe fora devotado) estaria agora desinibidamente gozando a vida, satisfeito com a ausência dela?

Que pensamento bobo! Como se ela simplesmente pela maneira de Rodney caminhar pudesse depreender tudo isso!

Teria que tirar da cabeça todas essas ridículas fantasias.

Não mais devia pensar em Rodney... imaginando essas coisas bobas a respeito dele. Até agora ela nunca tinha sido uma mulher propensa a imaginar coisas fantásticas.

Deve ser o efeito do sol.